CAPA
WILLIAM SAFIRE
O PRESIDENTE CEGO 
Uma crise como nunca houve igual na Casa Branca
Record

ABAS DO LIVRO
       Que aconteceria aos Estados Unidos se o Presidente do pas ficasse impossibilitado de exercer seus poderes? Que haveria se o 41 Presidente da Repblica, 
durante reunies realizadas na Rssia com lderes soviticos em meados da dcada de 80, ficasse cego em conseqncia de uma tentativa de assassinato? Como poderia 
ele enfrentar no apenas a crise internacional, mas tambm a presso interna para renunciar - enquanto estivesse tentando adaptar-se  sua cegueira? 
       Essas so algumas das muitas perguntas analisadas num romance poltico em que os fatos se sucedem vertiginosamente dentro de um enredo que mostra as reaes 
no comportamento de homens e mulheres importantes e envolvidos no desenrolar dos acontecimentos. O livro examina, seriamente, o tipo de crise que derrotou a Administrao 
do Presidente Woodrow Wilson, e que pode, realmente, destruir um governo futuro, se um ministrio julgar de seu dever forar o Presidente a deixar o cargo, como 
determina a ainda no utilizada 25 Emenda da Constituio Americana. 
       O PRESIDENTE CEGO , tambm, uma histria de amor de um 
frio e independente Presidente da Repblica, jovem e vivo, que se torna dependente das pessoas que o cercam de mil maneiras por ele jamais imaginadas, deixando-o 
desesperado na tentativa de se provar como lder poltico e como homem. 
       Este romance pode ser lido em muitos nveis: como uma excitante aventura poltica, rica de mincias que so do conhecimento de apenas um grupo muito pequeno 
de pessoas que transitam pelos corredores da Casa Branca; como um estudo das motivaes e maquinaes das pessoas no poder, que revela como homens bem-intencionados 
e inteligentes podem cometer terrveis enganos; como um manual de um moderno Maquiavel, e, finalmente, como uma exemplar histria de um homem que precisou perder 
a vista para ganhar viso. 

WILLIAM SAFIRE aprendeu as complexas manobras da Casa Branca como redator de discursos de uma turbulenta presidncia, e burilou seus conhecimentos do poder como 
colunista em Washington, desde 1973, do jornal Times de Nova York. 
       Seu romance reflete essa experincia interna e externa na sua compreenso dos seres humanos polticos submetidos a incrvel tenso, do modo como um excelente 
escritor emprega a arte da fico para chegar verdade subjacente. 

Foto da capa: Alex Gotfryd 

O PRESIDENTE CEGO
WILLIAM SAFIRE
Traduo de EBRIA DE CASTRO ALVES
Editora Record

Ttulo original norte-americano
FULL DISCLOSURE

Copyright 1977 by William Safire

Direitos de publicao exclusiva em lngua portuguesa no Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Av. Erasmo Braga, 255 - 8 andar - Rio de Janeiro, RJ
que se reserva a propriedade literria desta traduo. 
Impresso no Brasil

Para Helena


Pg 7
PRLOGO 
       
       Qual a extenso do termo "incapacidade" e quem deve decidir a respeito? - John Dickinson, de Delaware, em 27 de agosto de 1787, durante a Conveno Constitucional, 
proferiu a nica referncia registrada no tocante  clusula da sucesso presidencial. A pergunta de Dickinson no foi respondida. 
       A vigsima quinta Emenda  Constituio dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso em 6 de julho de 1965, e ratificada pelos necessrios trs quartos dos 
estados em 10 de fevereiro de 1967, tem a seguinte redao: 
       "1 Seo. Em caso de destituio do Presidente do cargo, ou por sua morte ou renncia, o Vice-Presidente ser o Presidente. 
       2 Seo. Quando ocorrer a vacncia do cargo de Vice-Presidente, o Presidente nomear um Vice-Presidente, que dever tomar posse aps ser confirmado pela 
maioria de votos de ambas as Casas do Congresso. 
       3 Seo. Quando o Presidente transmitir ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Cmara dos Deputados sua declarao por escrito de que se 
encontra impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, e at que ele lhes transmita uma declarao em contrrio, por escrito, tais poderes e deveres 
devero ser exercidos pelo Vire-Presidente como Presidente Interino. 
       4 Seo. Quando o Vice-Presidente e a maioria dos principais funcionrios dos departamentos executivos ou de outro rgo como o Congresso, como prev a lei, 
transmitir ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Cmara dos Deputados suas declaraes por escrito de que o Presidente est impossibilitado de exercer 
os poderes e os deveres de seu cargo, o Vice-Presidente dever assumir imediatamente os poderes e os deveres do cargo como Presidente Interino. 

Pg 8 
       Conseqentemente, quando o Presidente transmite ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Cmara dos Deputados sua declarao por escrito de 
que no existe incapacidade, ele reassumir os poderes e os deveres de seu cargo, a menos que o Vice-Presidente e a maioria dos principais funcionrios do departamento 
executivo ou de outro rgo como o Congresso, como prev a lei, comuniquem dentro de quatro dias ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Cmara dos 
Deputados suas declaraes por escrito de que o Presidente est impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo. Imediatamente o Congresso decidir 
a respeito, reunindo-se dentro de quarenta e oito horas com esta finalidade, se no estiver em sesso. 
       Se o Congresso, dentro de vinte e um dias aps ter recebido a ltima declarao por escrito, ou se o Congresso no estiver em sesso, dentro de vinte e um 
dias aps ser convocado, decidir por dois teros dos votos de ambas as Casas que o Presidente est impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, 
o Vice-Presidente continuar a exercer os mesmos direitos e deveres como Presidente Interino; em caso contrrio, o Presidente reassumir os poderes e os deveres 
de seu cargo".

Pg 9
NDICE
Prlogo
Parte I: A EMBOSCADA E SUAS CONSEQUNCIAS ... 11 
Parte II: A VIGSIMA QUINTA EMENDA ... 163 
Parte III: AO MALDITO DISCURSO ... 271 
Parte IV: AS CENTELHAS VOAM PARA O ALTO ... 387 
Parte V: O PRESIDENTE ... 479 

Pg 11 
I 
A EMBOSCA E SUAS CONSEQNCIAS 

Pg 13
       O AGENTE DO SERVIO SECRETO/1 
       
       Falsificao era o seu negcio. Trabalho meticuloso, de resultados satisfatrios. Harry Bok retirou da carteira uma nota falsa de cem dlares e analisou uma 
efgie bem impressa de Benjamin Franklin. Com a mo, amarrotou a nota: o papel no era perfeito, o peso era ligeiramente excessivo. Teve pena do impressor, que trabalhara 
to esforadamente e vira seus cuidados serem inutilizados pelo erro de seu fornecedor de papel. 
       Harry olhou para fora da janela do Air Force One e concluiu que passara demasiado tempo no setor errado do Servio Secreto. Durante todos esses anos - era 
um veterano com vinte e cinco anos no Servio, comeara aos vinte e um - ele estivera "emperrado" na rea de proteo, principalmente de presidentes. Era um guarda-costa. 
       Os contornos da pardacenta zona rural russa tornaram-se mais ntidos  medida que o avio lentamente descia rumo  casa de campo no Mar Negro. Perguntou-se 
como seria tratada a falsificao na Unio Sovitica. O homem sentado a seu lado era um guarda russo que protegia o Ministro do Exterior russo, que estava, neste 
momento, numa reunio, na cabina do Presidente, com o Presidente Ericson e o Secretrio de Estado. 
       Harry perguntou: 
       - Vocs tm muitos casos de falsificao na Rssia? - Precisou explicar o que era falsificao. O russo sacudiu negativamente a cabea: havia muita prostituio 
e brigas de bbados, alguns assaltos e crimes de rua, mas nenhuma falsificao. Harry assentiu com a cabea, e voltou a seus devaneios. O Servio Secreto dos Estados 
Unidos fora fundado devido  falsificao. Na dcada de 1860, quando todos os bancos emitiam dinheiro em espcie, um em trs dlares era falso. Isso representava 
grave problema nacional. Lincoln ordenou a criao de um grupo antifalsificao, chamado Servio Secreto, na manh do dia em que foi assassinado. Aps o assassnio 
de Lincoln, ainda no havia servio de proteo; 

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o Servio ento declarou guerra s notas falsas. Harry lembrou-se da ironia que lhe havia sido contada pelos instrutores do centro de treinamento em Beltsville, 
Maryland, h muitos anos atrs: uma quadrilha de falsificadores, na tentativa de conseguir livrar seu chefe da cadeia, elaborou um plano para roubar o cadver de 
Lincoln da sepultura em Springfield. Tencionavam troc-lo por seu companheiro vivo, mas o Servio soube de tudo e houve um tiroteio no cemitrio. Assim, o primeiro 
Presidente que o Servio Secreto protegeu foi um cadver. Aps esse episdio, em razo de ser o nico rgo federal encarregado de fazer cumprir a lei, recebeu a 
funo de proteger, e um sculo mais tarde a cauda da proteo crescera mais do que o cachorro da antifalsificao. 
       - Voc  o agente mais velho que conheo - disse o russo, e imediatamente Harry concluiu que ele falava ingls demais. 
       - S estou com vinte e seis anos, mas o caso  que bebo muito - replicou Harry. O companheiro de assento calou-se. Evidente que o russo tinha razo: a funo 
de Harry deveria ser desempenhada por homem mais moo. Aos quarenta e seis anos, Harry Bok era um anacronismo, talvez um perigo. J no tinha os reflexos de antes, 
nem estava certo de estar pronto a interpor o corpo entre o Presidente e uma bala. Por isso queria ser designado para o setor de falsificaes, onde pudesse concorrer 
com artistas, no com loucos. O som de um balo de gs estourando era o bastante para que ele sentisse como que uma garra lhe apertando o corao. No setor de proteo, 
ele precisava estar sempre pronto para agir rapidamente, mas na rea de falsificao, no precisaria ser gil como um jquei para ser um policial. 
       Harry estava pronto para enfrentar o fato de que era um agente "idoso", mas ningum mais aceitava essa constatao. Ele era o favorito dos Presidentes, sempre 
fora. Quatro Presidentes o haviam escolhido para ser o agente mais prximo deles, do lado direito, ligeiramente para trs, sempre disponvel para tratar de crianas 
ou mulheres, de amigos ou birutas. E para conversar. Harry se perguntou por que razo os Presidentes achavam que era bom conversar com ele. Talvez pela expresso 
tolerante que seu rosto assumia naturalmente, mesmo quando ele no se sentia especialmente tolerante. Suas rugas, as bochechas e os plcidos olhos castanhos davam 
a impresso de estender-se, para assegurar ao interlocutor de assuntos altamente confidenciais que Harry era um repositrio de confiana e compreenso. 
       Os Presidentes sempre o passavam a seus sucessores, a despeito das brandas objees do diretor do Servio e de sua prpria declarada 

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preferncia por trabalho policial menos atltico e mais criativo. Ele sabia por qu. Herb Abelson, o mdico do Presidente Ericson, lhe havia dito francamente, h 
apenas seis meses, quando o quadragsimo primeiro Presidente dos Estados Unidos tomou posse: "Ele tem inmeros agentes extremamente dedicados e leais, Harry, prontos 
a se atirarem  frente de uma bala para salv-lo. Sven Ericson precisa, porm, de um agente panudo e de meia-idade, atormentado por dvidas. Ele no necessita de 
um rob, e nisto no vai nenhuma crtica a seus colegas, Harry, e sim de um mensch." [nota *. Homem, em alemo. (N. do T.)] 
       O cho estava se aproximando. Harry resmungou no assento, levantou-se do lado do guarda sovitico, e se meteu no lavatrio. Pendurou o palet e abriu o pequenino 
sabonete com o emblema presidencial no envoltrio. Era uma lasca de sabonete, no era um sabonete; sabonete era o que se tinha em casa, em sua prpria saboneteira, 
sobre o qual podia reclamar de sua mulher que estava com o fundo encharcado; ela,  sua vez, se queixaria de que "voc no ficava em casa o suficiente para virar 
o sabonete regularmente". Ele borrifou-se liberalmente com loo aps a barba, um dos fringe benefits do Air Force One. Ps uma pilha no cinto, colocou o fio em 
volta do colarinho, certificando-se de que ele no se emaranhasse com o coldre passado em volta do ombro, enfiou receptor cor de carne no ouvido, vestiu o palet 
em cima de todos esses acessrios e verificou o alfinete verde e branco da lapela, que seria alterado dali a dias, em cor e formato. Olhou no espelho a imagem cheia 
de fios para obter sons e se indagou o que aconteceria se um agente do Servio Secreto tivesse dificuldade de audio. Seria ele o nico a andar por a sem um aparelho 
auditivo, a adotar atitudes estranhas, como um harpista numa orquestra s de mulheres? 
       Buffie Masterson o esperava do lado de fora do lavatrio. De cabelo acaju, sem maquilagem, com o corpo jovem e atltico enfiado numa veste verde e, como de 
hbito, insistente: 
       - Quero dar uma volta no helicptero, Harry. Voc consegue isso pra mim? 
       Ele disse automaticamente que no, sabendo que Buffie logo o apoquentaria. Ela era a fotgrafa oficial do Presidente, e a melhor de todos os fotgrafos oficiais 
nos ltimos anos - ganhadora de todos os tipos de prmios - e parte de seu talento era uma agradvel mania de insistir para obter o que queria. O advogado do Presidente, 
Hennessy, a chamava de "falsa despreocupada", e ele 

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deveria saber o que dizia, pois era um especialista em avaliar o grau de irritao das pessoas. 
       - Voc tentaria me conseguir isso, em troca de um suborno? 
       Ela exibiu um esboo do perfil de Harry contra a portinhola do avio: era a carvo, e fora feito em papel granulado de artista, que o carpinteiro da Casa 
Branca poderia emoldurar lindamente, para que Harry o pendurasse no estdio. Quando Buffie no conseguia levar a mquina para retratar uma situao, como, por exemplo, 
num tribunal ou em algumas reunies, ela levava o bloco de desenho e registrava suas impresses. Isto a tornava duplamente valiosa. 
       - Borrife fixador no desenho - disse-lhe ele. - O ltimo suborno que voc me deu ficou todo marchado. Depois que eu sair da cabina do Chefe, voc espera uns 
cinco minutos e lhe pede voc mesma.  um helicptero russo, todos os assentos j foram designados, e voc  uma mulher robusta. No sei se ele vai deixar. 
       Ela no era uma mulher robusta. Seu corpo era bem talhado para se adaptar a situaes apertadas, mas Harry no sabia se o Presidente Ericson gostaria que 
ela o acompanhasse no helicptero, ou se ela deveria ir com o pessoal da imprensa e manter os ouvidos abertos. O plano era que o Presidente, acompanhado pelo Secretrio 
de Estado e pelo Ministro de Relaes Exteriores sovitico, chegasse ao Aeroporto de Simferopol em alguns minutos, onde seria cumprimentado pelo Secretrio-Geral 
Kolkov. H quatro dias que Ericson e Kolkov se estavam reunindo em Moscou; enquanto Ericson percorria Leningrado, Kiev e Minsk, Kolkov fora para sua dacha no Mar 
Negro aguardar o Presidente americano para o ltimo fim de semana da visita. O aeroporto da Crimia distava quase duas horas de carro da dacha de Yalta. Seguindo 
sugesto sovitica, os dois lderes - acompanhados apenas por guardas e um intrprete - seriam levados de helicptero  dacha, seguidos por um outro helicptero 
de vigilncia. Os demais membros do grupo - cerca de duzentos correspondentes, uma centena de funcionrios da comitiva e alguns elementos que haviam conseguido juntar-se 
 caravana - receberiam instrues no hangar do aeroporto, e depois seriam conduzidos, de carro ao Hotel Oreanda, em Yalta. Isso proporcionaria a Ericson e Kolkov 
umas duas horas no-oficiais para ficarem juntos, sem que nenhum pool da imprensa se queixasse de no estar perto o suficiente para v-los. 
       Harry permaneceu no amplo corredor do avio, menos preocupado com a segurana do que normalmente. Na Rssia, como na China, o perigo de um manaco  solta 
era mnimo: havia policiais 

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postados de cinqenta em cinqenta metros nas rodovias, e a segurana eletrnica em redor das dachas era intensa. Ainda mais importante, no havia tradio recente 
de assassinatos nessas sociedades, como ocorria no Oriente Mdio e nos Estados Unidos. Quando os americanos, solicitaram permisso para que seu Presidente voasse 
em territrio da Unio Sovitica no Air Force One, contrariando o protocolo, no foi em nome da segurana; foi mais por relutncia em servir  propaganda sovitica, 
ao aparecer num jato supersnico russo. E tambm, acrescentou Harry para si prprio, para se manterem em contato. No estrangeiro, quando longe do Air Force One, 
a nica rea segura de comunicaes era a limusine do Presidente; e era bastante incmodo fazer reunies da comitiva no carro. 
       Harry no estava muito satisfeito com relao ao iminente passeio de helicptero, mas no por razes de segurana. Helicpteros lhe transtornavam o estmago. 
Ele preferia que todos seguissem de carro, mas o Ministro de Relaes Exteriores, Vasily Nikolayev, estava ansioso para exibir o novo equipamento sovitico, e por 
isso os funcionrio da Casa Branca, que haviam chegado antes  Rssia para verificar as condies de segurana, haviam concordado. Harry admitiu que a volta de helicptero 
duraria apenas vinte minutos, e que os barulhentos batedores de ovos ofereciam mais segurana do que um desfile de carros, Mesmo se houvesse problemas de motor, 
os helicpteros seriam capazes de aterrar com segurana. Ademais, outro helicptero os seguiria, de modo que no haveria problemas de segurana. 
       Francamente - se disse Harry - estava mais preocupado com a viagem de volta aos Estados Unidos. A primeira parada seria no Aeroporto de Lajes, nos Aores, 
que recentemente passara a fazer parte do territrio americano: o Presidente achava que devia parar l. Em seguida, continuariam viagem at a Base Andrews da Fora 
Area, em Washington. Seus humores orgnicos comearam a borbulhar, irritados com essa perspectiva, e ele os acalmou ao pensar na segurana inerente a uma ditadura, 
especialmente num pas governado to rigidamente quanto a Rssia de Kolkov. 
        idia de Kolkov, ele se lembrou de uma pergunta que queria fazer, por curiosidade, pois nada tinha a ver com suas funes. Harry sentou-se ao lado de Lucas 
Cartwright, o Chefe da Casa Civil do Presidente. Normalmente, Cartwright estaria sentado na cabina do Presidente durante a realizao de quaisquer reunies, mas 
Ericson solicitara ao Secretrio Curtice que lhe fizesse companhia e Cartwright no era do tipo que se insinuava. Harry imaginou que o Chefe 

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da Casa Civil achava que o Presidente estava elevando o moral de George Curtice, pelo fato de estar sozinho com ele e o Ministro das Relaes Exteriores sovitico. 
Curtice precisava dessa demonstrao de confiana, ao passo que o veterano Cartwright certamente a dispensava. 
       Cartwright estava lendo um romance. Ningum mais no Air Force One se poderia dar ao luxo de ser apanhado lendo um romance, pois se supunha que e o passageiro 
estava a bordo do avio mais importante do mundo, ele se deveria ocupar de forma tambm importante, e leria material vedado s pessoas em geral, ou que ningum sentisse 
vontade de ler: resumos de instrues sobre assuntos altamente confidenciais, pormenorizados itinerrios presidenciais, manuais de cdigos, minutas de ensaios sobre 
posies assumidas, artigos de alto nvel sobre poltica externa, ou o Resumo de Notcias do Presidente. Harry Bok e Lucas Cartwright eram veteranos, porm; de folga, 
Harry era perito em tirar rpidas sonecas, e o Chefe da Casa Civil costumava entreter-se com alguma imitao de E o Vento Levou. 
       - Sua viagem est sendo agradvel, Sr. Bok? - O assessor grisalho era o ltimo cavalheiro da Casa Branca. Harry e Cartwright haviam trabalhado juntos na administrao 
de Johnson, e Cartwright comeara a trabalhar na Casa Branca na poca de Truman, "quando rapaz, um rapazinho mesmo", ele postava de acrescentar. Os Presidentes gostavam 
de Cartwright, mas no da mesma forma como gostavam de Harry Bok: o fazendeiro-cavalheiro do Tennessee era o perfeito assessor presidencial, o homem probo que jamais 
precisava de superviso nem, de ser vigiado; era desprendido, seguro de si, tinha prazer em servir e no era apegado ao cargo. Cartwright era o nico homem da Casa 
Branca que idolatrava Cordell Hull. [nota*. Secretrio de Estado da Administrao F. Roosevelt, cuja integridade em reconhecida por todos. (N. da T.)] Harry o vira 
em situaes crticas, quando ele se mantivera digno de confiana e frio, normalmente at sbio; algumas vezes cometera enganos, mas nunca srios: ele era um elo 
de continuidade entre as presidncias anteriores. Sem ele, essa continuidade pertenceria apenas aos mordomos, jardineiros e guardas. O rosto de Cartwright, embora 
familiar, jamais convidara maiores intimidades. Harry gostava dele porque adicionava uma nota de zombeteira formalidade a uma administrao que tendia a ser muito 
sria e na qual os nomeados se esforavam para combinar com o estilo despreocupado e calmo de Ericson. O Presidente tambm gostava 

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de Cartwright - no de modo pessoal, pois os dois homens eram ligados apenas profissionalmente - porque achava que um Presidente quase cinqento deveria ter um 
Chefe da Casa Civil quase setento, cheio de recordaes teis, grandes ligaes em Washington, e um insignificante centro pessoal de gravidade. 
       - No  de minha conta - disse Harry - e ningum me diz nada, mas tenho a impresso de que essa conferncia de cpula  um enorme fracasso. 
       - No  bem assim - disse firmemente Cartwright, - A primeira viagem de um Presidente ao estrangeiro no  jamais um fracasso. Ou  um colossal triunfo pessoal, 
ou... se as coisas no funcionam do jeito que ele esperava... a viagem  o princpio de um valioso processo de explorao e proveitosa troca de opinies. 
       - Por que ser que foi um fiasco? - perguntou Harry. - Dizem que Ericson  muito competente em matria de relaes exteriores. Ele foi at professor de matria! 
       Cartwright dobrou cuidadosamente o canto de uma pgina e fechou o livro. 
       O comunicado - respondeu - transmitido hoje de manh pelo Secretrio de Estado ao Secretrio de Imprensa diz o seguinte: O objetivo da visita do Presidente 
Ericson foi, em primeiro lugar, travar conhecimento com o Camarada Kolkov, o que ele realizou brilhantemente. 
       - Eles fizeram um bocado de brindes - admitiu Harry. 
       - Em segundo lugar, o Presidente estava resolvido a descobrir se os boatos de uma brecha na aliana Estados Unidos-Unio Sovitica eram verdadeiros, e se 
os soviticos estavam sondando as potncias do Extremo-Oriente. Esse objetivo foi atingido. 
       - timo! - exclamou Harry. 
       - Na verdade, isso  mau - Continuou Cartwright. - Isto  confidencial, mas o pouco que o Presidente descobriu  inquietante. O Secretrio-Geral Kolkov  
uma velha raposa matreira - o Chefe da Casa Civil verificara isso pessoalmente. - Estou parecendo uma revista de atualidades. Kolkov no revela o que pensa e, ao 
que nos conste, nem Nikolayev, supostamente seu protegido, nos pode assegurar quais so as tendncias do velho. 
       - Ento a viagem foi um fracasso - resumiu Harry. 
       - O princpio de um valioso processo - concordou Cartwright. 
       - Acontece que nosso chapa Curtice  ntimo de Nikolayev. Isso podia ser til. 

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       - Harry, o primeiro negro Secretrio de Estado dos Estados Unidos no deve nunca ser chamado de "chapa". 
       - Sou polons - protestou Harry. - Tenho licena de proferir desrespeitos tnicos. 
       - Isso  uma fenda na sua armadura. - Cartwright sorriu, e depois ficou srio. 
       - Nunca sei se  boa idia, isso de fingir que se entendem, como pessoas. Na verdade, amizade no tem nada a ver com esse negcio, os interesses sempre vm 
em primeiro lugar. 
       Harry Bok, que participara de cerca de trinta conferncias de cpula - mais do que qualquer outra pessoa - concordou. De tanto escutar atrs de portas, ou 
de discutir os assuntos com o Presidente  noite, na limusine, no seu papel de ouvinte atento, sabia que os relacionamentos pessoais serviam para fazer-se cartaz 
em casa, mas raramente ajudavam nos negcios entre naes. 
       - Ericson  bom nesse tipo de coisa? - perguntou a Cartwright. 
       H cerca de um ano Harry vinha observando Ericson: seis meses de campanha, depois o intervalo, e menos de seis meses desde a cerimnia de posse - e no tinha 
tanta confiana em Ericson quanto o prprio Ericson. 
       -  cedo para dizer. Voc o conhece melhor do que eu. Voc, Dr. Abelson, Hennessy e Melinda McPhee: que  que o pessoal "de dentro" acha? - A realista excluso 
de Cartwright desse crculo no teve nenhum sinal de ressentimento. 
       - Herb Abelson nunca pe o nariz para fora de sua maleta preta; est sempre com medo de haver esquecido de trazer algum comprimido. Hennessy ficou em casa, 
aborrecido porque no foi convidado a fazer esta viagem. Melinda acha o Presidente meio presunoso - informou Harry. 
       - Melinda tem bons instintos - disse Cartwright evasivamente. - O Presidente tem sorte de ter uma secretria assim. 
       Quer dizer que Cartwright tambm achava que o Presidente estava voando alto demais! Harry deduziu que suas desconfianas deviam ser vlidas. A projeo mundial 
realmente sobe  cabea de um homem: um Presidente comea a julgar que sua prpria personalidade faz grande diferena. 
       O alarma preso a seus quadris disparou, vibraes lhe invadiram o corpo, e lhe deram vontade de urinar pelas pernas. Harry levantou-se do assento ao lado 
de Cartwright e foi ao posto de comando acima da cabina presidencial. O subchefe da segurana desdobrou 

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um mapa e detalhou as tarefas dos doze homens a bordo. Harry seria o nico agente a acompanhar O Homem no helicptero. Lembrou-se de pedir alguns comprimidos de 
Dramamine ao Dr. Abelson; seria um vexame ele vomitar no colo do Presidente. Sempre pensava nisso, mas o horrvel momento jamais chegara. Achava que, se acontecesse 
algum dia, seria a forma mais rpida de chegar  Diviso de Falsificaes. 


O LIDER SOVITICO/1 
       
       - Vamos, aperte o boto - disse sorrindo o Presidente. - No vai fazer explodir o mundo. 
       Vasily Nikolayev apertou o boto. A escrivaninha na cabina de trabalho do Air Force One baixou at se transformar numa mesa de caf. Uma unidade modular contendo 
canetas, clipes e papel de rascunho recuou sob a parte de cima e foi recoberta por um painel deslizante de frmica, enquanto outra unidade aparecia e exibia nozes 
e frutas secas. O Ministro das Relaes Exteriores sovitico se inclinou para a frente e se serviu de uma noz. Era fresca, e ele se permitiu mostrar-se impressionado. 
       - Seu avio pode ser vagaroso, mas  bem suprido - disse ele ao lder americano. Nikolayev achava-se ntimo o suficiente do Presidente Ericson para criticar-lhe 
a relativa morosidade do jato jumbo Boeing 747. Faltava ainda um ano para os Estados Unidos introduzirem seu avio supersnico, e o atual presidente resolvera no 
acompanhar os Concordes e Tupolevs de outros lderes mundiais, e utilizar-se de um jato militar. Nikolayev achou sbia a resoluo de Ericson: os americanos podiam 
dar-se ao luxo de desprezar a liderana temporria que outras naes desfrutavam na aviao comercial. Em alguns anos eles estariam muito  frente do resto do mundo. 
O enorme e pesado 747 como avio presidencial era uma expresso de confiana. Somente os Estados Unidos poderiam perguntar: "Para que a pressa?". 
       - Apreciamos sua compreenso - disse o terceiro homem na cabina, o Secretrio de Estado americano - em nos permitir utilizar este avio para viajar pela Unio 
Sovitica. 
       Nikolayev inclinou polidamente a cabea. Seu equivalente americano era formal, inexperiente e negro, e no tinha o sang froid do Presidente Ericson. No havia 
necessidade de mencionar novamente a concordncia sovitica  solicitao americana. 

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       - Deve ser agradvel estar rodeado por todas essas comodidades - respondeu Nikolayev. - Nossos avies so estritamente funcionais. 
       Diplomaticamente, ignorou a verdadeira razo pela qual os americanos se haviam mostrado ansioso para utilizar seu prprio avio nesses vos internos. Sendo 
a primeira viagem do Presidente Ericson  Unio Sovitica, ele indubitavelmente se sentiria mais seguro por poder manter contato estreito com o centro de comando 
em Washington. 
       Este era o stimo dia da visita de nove dias. Os quatro dias de negociaes em Moscou haviam sido curiosamente inconclusivos; alguns acordos de pequena expresso, 
previamente negociados, haviam sido assinados, mas o velho Kolkov fora incomumente evasivo no tocante a grande nmero de assuntos, para os americanos e para seus 
prprios companheiros. Nikolayev visualizou Kolkov nesse momento, andando para l e para c no Aeroporto de Simferopol; como sempre, chegara muito cedo e as mos 
estavam cruzadas atrs das costas; com a barriga proeminente, sua aparncia era desoladora, distante, os lbios se moviam silenciosamente, enquanto ensaiava o que 
gritaria para as cmeras de televiso, tendo a esguia figura do Presidente americano avantajando-se ao seu lado. 
       O plano inclua um aperto de mo e um rpido discurso no aeroporto, em frente aos fotgrafos. Em seguida os dois lderes, acompanhados apenas por um intrprete 
e uns dois guardas, voariam num helicptero militar sovitico at a dacha selecionada para uso do Presidente, uma grande casa de hspedes perto da dacha do Secretrio-Geral. 
O pessoal americano que se antecipara  viagem oficial para fazer as sondagens de hbito no gostara da idia do helicptero, mas a viagem do aeroporto s dachas 
levava mais de hora por carro, e teria sido considerado insulto recusar um convite no helicptero mais avanado da Unio Sovitica. 
       - Na minha opinio, as reunies de cpula foram bem at aqui - declarou o Secretrio de Estado George Curtice. Nikolayev inclinou a cabea, como se concordasse. 
Na verdade, as discusses tinham sido ms, quase desastrosas. No s para os americanos, mas tambm para a Unio Sovitica, de acordo com o ponto de vista de Nikolayev. 
Kolkov, com seus setenta e tantos anos e cada vez mais ignbil e paranico, tentara tranqilizar os americanos com promessas de maiores limitaes de armas estratgicas 
e mtuas redues de contingentes na Europa. Normalmente, isso teria agradado a Nikolayev, mas no neste caso. Vasily Nikolayev tinha certeza de que o velho Kolkov, 
vivendo seus dias de decadncia, 

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estava secreta e individualmente levando a Unio Sovitica a uma poltica desastrosa. 
       Nikolayev comeou a escolher as frutas secas: pegou um damasco, uma pra e um pssego, e desprezou as ameixas. Ao selecionar com determinao; pensou em Kolkov, 
quando este lhe fizera algumas confidncias, h apenas duas semanas: 
       - Vasily, sou forado a confiar em voc - lhe dissera o velho. - H quinze anos que os americanos exploram a dissidncia no mundo comunista. Na dcada de 
setenta, isso nos causou bastantes aborrecimentos. Desde, porm, que as potncias do Extremo-Oriente se uniram, a influncia americana naquela regio se tornou insuportvel. 
No nos podemos dar ao luxo de ter um bilho de chineses, dispondo de tecnologia japonesa, em oposio a ns. Devemos trabalhar com eles, lider-los, no lutar contra 
eles. Comecei o rapprochement. 
       Vasily Nikolayev deduziu, ento, que o velho perdera noo da realidade. Na opinio de Nikolayev, a nica maneira pela qual um equilbrio de foras poderia 
ser obtido era atravs da unio da Rssia com os Estados Unidos. Se Moscou tentasse aliar-se a Pequim e a Tquio, acabaria como a parte mais fraca num mundo comunista, 
no como o lder, mas como liderado. Nikolayev achava que derrotar o capitalismo seria timo, mas no se representasse a submisso da Me Rssia s hordas de orientais. 
       Como se estivesse lendo-lhe a mente, o Presidente americano lhe disse: 
       - Soubemos que a misso comercial sovitica em Canto est para fechar negcio para trocar computadores por petrleo. O senhor acha que seja um bom acordo? 
       Nikolayev suavemente assegurou ao Presidente que o negcio era insignificante, um nada em comparao com as oportunidades comerciais do consrcio ocidental. 
       - Diga isso aos fuzileiros [nota *. A expresso em ingls : "Tell that to the marines". Significa "No me faa de tolo". (N. da T.)] - replicou calmamente 
o Presidente Ericson. - Vocs esto tentando dar incio a um movimento l. 
       Para mudar de assunto, Nikolayev perguntou o que queria dizer a referncia a "fuzileiro" feita pelo Presidente, e aprendeu algo desnecessrio sobre gria 
americana. O Presidente Ericson, que evidentemente gostava de linguagem, recruzou as compridas pernas e principiou uma longa explicao sobre a opinio do marinheiros 

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sobre os fuzileiros simplrios que ajudavam nos navios, nos primrdios da Marinha americana. Nikolayev comeou at a se divertir com a histria. Ele gostava do Presidente 
americano, se o verbo "gostar" pudesse ser aplicado por um poltico realista em relao a um outro chefe de estado. Ericson era alto - 1,94 m - e angular, sentado 
reclinado na poltrona e falando acima dos joelhos salientes. "Lincolniano" era o termo que os admiradores usavam freqentemente para descrev-lo, e ele obviamente 
adotara a posio curvada e os maneirismos do grande homem, para sua vantagem poltica. Nikolayev achava que o rosto do Presidente era interessante e estranho, com 
os traos meio selvagens e linhas marcadas que as mulheres acham to atraentes. O russo no poderia culpar o americano por tacitamente comparar-se a Lincoln. Se 
ele, Nikolayev, se parecesse com Lnine, ostentaria um Vandyke, mas fora amaldioado com aparncia eslvica. As superfcies largas de seu rosto e a testa baixa ocultavam 
o que ele sabia ser o crebro por baixo. 
       Sob muitos aspectos, seria uma genuna tragdia que o Presidente Ericson tivesse de ser morto numa emboscada ao helicptero, dali a mais ou menos uma hora, 
O russo recruzou as pernas na espaosa cabina e pareceu interessado no que dizia o americano. Nikolayev achava ter muito em comum com o Presidente Ericson: ambos 
se estavam aproximando dos cinqenta anos, perto da plenitude da vida e do pice do poder. Partilhavam a compreenso da necessidade do poder, e ambos demonstravam 
confiana na capacidade de manej-lo. Como Ericson, Nikolayev sentia-se  vontade no centro da ao, incentivado e no intimidado pela possibilidade de um sonoro 
fracasso; ao contrrio de Ericson, Nikolayev ainda no assumira o comando, mas isso era apenas questo de horas ou dias, aps o assassinato desse dia. 
       Nikolayev sentiu que estava realmente entristecido pelas exigncias da trama assassina que concebera; no estava triste pelo velho Kolkov, que j obtivera 
muito e merecia amplamente morrer, mas por Ericson, com quem ele gostaria de haver lidado no cenrio mundial. 
       - Diga-me algo sobre Kolkov - disse o Presidente. - Voc o conhece melhor do que ningum, Vasily. Ele mudou muito nos ltimos dez anos? Endureceu? Ficou mais 
esperto? 
       Nikolayev sabia que Ericson queria saber se o Secretrio-Geral estava ficando senil. No era esse o problema de Kolkov, nem a razo pela qual ele precisava 
ser retirado do caminho. A senilidade exigiria uma sada suave, no medidas drsticas. 

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       - Mais vivo  uma boa descrio - replicou Nikolayev, sem querer mentir. - O Secretrio-Geral  hoje menos paciente do que antes. Quer rapidamente chegar 
ao mago dos assuntos. 
       A verdade completa era que o velho estava atacado de parania, e quase diariamente mudava de desconfianas e de lealdades, agarrando-se a dois postos: Secretrio-Geral 
do partido e Primeiro-Ministro do governo - de medo de um concorrente. O ltimo impulso de Kolkov - e era certamente um impulso, sem qualquer base na Realpolitik 
nem em uma percepo racional do maior perigo - tiraria a estabilidade da ordem mundial. Sacrificar a cooperao Estados Unidos-Unio Sovitica, to esforadamente 
construda nos ltimos anos, em favor de um realinhamento com as potncias orientais sobre base comunista era, na opinio de Nikolayev, to sem sentido que beirava 
a loucura. O problema era que Kolkov possua o poder e a astcia para realizar o realinhamento. Ento o velho morreria feliz, e deixaria a Nikolayev e a outros enfrentar 
o domnio de um bilho de chineses. Pois isso era seguramente o que os aguardava: sem a aliana americana, a Unio Sovitica seria o aliado mais fraco do comunismo 
oriental. 
       A nica maneira de evitar a ao secreta de Kolkov era assassin-lo hoje. Nikolayev nunca antes estivera envolvido numa conspirao de assassinato. Sua firme 
subida ao posto de Ministro das Relaes Exteriores fora sempre suavizada por Kolkov, seu protetor, que o havia resguardado das manobras mais rgidas do Kremlin. 
Nikolayev se interessava pela prpria reao  sua primeira jogada violenta pelo poder: no sentia nem euforia nem culpa, apenas nervosismo. Devia seu cargo a Kolkov, 
porm nada mais que isso; o que o mundo pensava ser afeio de um velho por seu protegido era apenas um desagrado menos intenso por ele do que pela maioria dos outros 
membros do comit diretivo. 
       Foi lamentvel a incluso do lder americano na emboscada. Lamentvel, porm necessria. Nikolayev sentiu que Ericson o olhava: eram olhos frios, inteligentes, 
de um azul nrdico, que inspiravam confiana mas no convidavam a intimidades - e desejou no se ter deixado afetar por aquilo a que a imprensa americana gostava 
de chamar "o melanclico magnetismo" de Ericson. Enquanto o russo falava sobre o carter mutvel de Kolkov, procurava reforar sua deciso de que os dois lideres 
mundiais tinham de morrer juntos. 
       O assassnio de apenas Kolkov dividiria o Politburo em campos pr e antiorientais, e Nikolayev no tinha certeza de poder control-lo. Entretanto, as mortes 
dos dois lderes juntos - cuja culpa 

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seria atribuda s potncias do Extremo-Oriente - revigoraria a aliana da Unio Sovitica com os Estados Unidos. Em Moscou a faco pr-chineses teria de se preocupar 
com a reao do povo americano  morte de seu lder em solo sovitico. A morte de Kolkov ajudaria a reparar a culpa russa. Em Washington a morte dos dois lderes 
seria um vnculo de sangue que aglutinaria, com a morte de Kolkov, uma espcie de justificativa pela morte de Ericson. A tendncia natural dos americanos de procurar 
um vilo os afastaria dos chineses e japoneses durante dcadas. 
       O plano fazia sentido para Nikolayev, um realista. A oportunidade de selar a aliana Estados Unidos-Unio Sovitica, de isolar as potncias do Extremo-Oriente 
e - mais urgentemente - de evitar que Kolkov revolucionasse a ordem mundial surgia aqui em Yalta. A oportunidade assumiria formato de uma emboscada, presumivelmente 
pelos chineses, contra ambos os lderes Sovitico e americano. O helicptero que transportava os dois homens do aeroporto  dacha de Kolkov seria derrubado a tiros 
pelo helicptero que os escoltava. 
       O russo, enquanto examinava um pssego seco, desejou que o Presidente americano pudesse saber por que nobre causa iria morrer. A reao aos assassinatos de 
Kolkov e Ericson evitaria uma mudana nas potncias mundiais que certamente teria isolado, e possivelmente at destrudo os Estados Unidos. Embora a razo fundamental 
de Nikolayev para o duplo assassinato fosse obstar a submisso da Unio Sovitica ao eixo Pequim-Tquio, o sacrifcio da vida do Presidente americano contribuiria 
diretamente para a proteo do continente americano. Ericson estava marcado para morrer em nome dos melhores interesses de seu pas, e no havia melhor forma para 
um lder perder a vida. Nikolayev reprimiu um suspiro. 
       Um homem corpulento, num terno de aparncia barata que salientava um coldre no ombro, ps a cabea na porta e perguntou: 
       - Os senhores se incomodam se lhes fizer companhia na aterragem? 
       Nikolayev sabia que esse era Harry Bok, pois havia estudado os registros e o conhecia de algumas reunies em Moscou. O cargo de agente do Servio Secreto 
exigia que ele se sentasse ao lado do Presidente nas aterragens. 
       - Voc j conhece Harry - disse Ericson, fazendo-lhe um sinal para entrar. 
       - Sabemos tudo sobre ele - disse agradavelmente Nikolayev. O relatrio sobre Bok identificava o agente no apenas como 

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guarda-costas presidencial, mas como amigo, confidente e agenciador ocasional. - O amigo da Mona Lisa acrescentou Nikolayev, para introduzir uma nota de mistrio 
zombeteiro. 
       - Vocs devem ter alguma pasta sobre mim na Praa Dzerzhinski - disse Harry Bok, afivelando o cinto de segurana com alarde, para que o Presidente o imitasse, 
o que no aconteceu. 
       - Praa Dzerzhinski - disse o Secretrio Curtice vagarosamente, e "matando" a charada. -  l que fica o quartel-general do KGB. A Priso Lubyanka.  l que 
eles guardariam uma pasta sobre um homem do Servio Secreto, especialmente algum como voc, Harry, com seu retrato perto de trs ou quatro Presidentes cerca de 
mil vezes. Mas no consigo perceber a referncia  Mona Lisa, Vasily. 
       -  o sorriso do Harry - disse o Presidente. - Alguns o julgam enigmtico, mas eu acho que ele s parece assim quando tem cimbras intestinais. 
       - Minha primeira funo no Servio Secreto - explicou o agente a Curtice - foi em 1963, quando a Mona Lisa foi enviada da Frana para ser exibida na National 
Gallery. Eu protegi o quadro durante trs meses. Aps certo tempo, aquele sorriso comeou a me dar nos nervos. Pedi ento transferncia, e me mandaram para a Casa 
Branca. Essa histria foi contada num perfil de jornal a meu respeito, e  o tipo de coisa que o servio sovitico de informaes manteria numa pasta. 
       Nikolayev sabia que Bok estava escalado para morrer na emboscada. O Secretrio Curtice viveria; ele e Nikolayev, juntamente com os nibus da imprensa e do 
pessoal da Casa Branca, fariam parte do desfile de carros at o Hotel Oreanda. Apenas Ericson, o intrprete sovitico, Kolkov, um guarda sovitico, um americano 
- Harry Bok - dois pilotos e uma comissria estariam no helicptero que voaria s dachas de Kolkov. Aps cinco minutos no ar, num local belssimo perto da margens 
do Mar Negro, ornamentado de arbustos de flores amarelas, o helicptero extra, que supostamente acompanhava o grupo do Secretrio-Geral como precauo de segurana, 
abateria a tiros a aeronave com os dois lderes a bordo. Uma s granada que explodiria a meia nau realizaria a tarefa. Viajando a mesma velocidade, com cerca de 
apenas vinte e cinco metros de intervalo entre os helicpteros, a pontaria do atirador estava assegurada. 
       Os assassinos - quatro pilotos de confiana, todos mongis, agindo sob ordens do comandante da Fora Area sovitica, 

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que era o mais ntimo aliado de Nikolayev nessa empreitada - aterrariam perto da praia e embarcariam numa pequena lancha com destino ao que eles julgavam seria um 
submarino  espera. Evidentemente, no haveria submarino; a lancha seria destruda por um avio de caa sovitico para vingar as mortes do lder sovitico martirizado 
e de seu convidado. Logo apareceriam provas de que os assassinatos foram obra dos chineses. 
       - Quem foi Dzerzhinski? - quis saber o Presidente. 
       - O primeiro chefe da polcia secreta russa - respondeu Nikolayev. - Era chamado de "Flix de Ao". Era um homem odioso, pioneiro da tortura e do assassinato. 
Na nossa histria, ele aparece quase como um animal. 
       - Mesmo assim - observou Curtice - vocs no mudaram o nome da praa. 
       - Foi um lapso. - Nikolayev no se sentia  vontade com Curtice, como se sentia com Ericson e Bok. Era lastimvel que no pudesse substituir Bok por Curtice 
no helicptero, O negro dava a impresso de estar sempre sob tenso, sempre cauteloso. Nikolayev estava acostumado a tratar com lderes africanos, com suas atitudes 
e sensibilidades, mas jamais lidara com um negro americano. Curtice no era homem de se levar por lisonjas, possivelmente nem por blefes. Nikolayev precisaria procurar 
um outro meio de derrub-lo. 
       Uma luz branca acendeu-se no telefone prximo ao Presidente, que o pegou, escutou, e disse: 
       - Claro, ela pode entrar - e desligou. Num minuto, uma linda moa apareceu  porta, com trs mquinas de fotografia a tiracolo. 
       - No se levante, Vasily - disse Ericson. - Esta  nossa Fotgrafa Oficial. - Ele pronunciou as palavras com letras maisculas. - Ela vai registrar este momento 
para a histria. 
       Nikolayev notou Ericson observar os olhos dos outros homens na cabina enquanto a fotgrafa se inclinou na ombreira da porta, numa pose toda sua, para compor 
algumas fotos. Os olhos azuis plidos de Ericson registravam divertido prazer; Nikolayev os havia visto, na semana passada, brilharem de raiva, tornarem-se atemorizantemente 
frios, dardejarem para negociadores a uma mesa e adotarem uma expresso singularmente distante, de mero espectador, como se o Presidente no fosse um participante 
das reunies. Quando o olhar de Ericson pousou em Nikolayev, 

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o russo olhou apreciativamente para a jovem, para lisonjear o gosto do Presidente. 
       Sabia-se nos crculos d servio de informaes, mas era mantido discretamente para um pequeno grupo da Casa Branca, que a fotgrafa oficial era a mais constante 
companheira de cama do Presidente Ericson. Ele tinha bvio orgulho dela, observou Nikolayev, e havia motivos de sobra para isso: mesmo com o corpo oculto num estranho 
conjunto verde de uma pea, a jovem irradiava excitao, e era difcil no lhe retribuir o sorriso. Tambm sabia tirar boas fotos. Uma razo pela qual a fofoca no' 
era muito divulgada era que seu talento como fotgrafa e artista era reconhecido, e ela atacava ferozmente como "chauvinista" a insinuao de que o emprego era seu 
por motivos outros que no suas qualificaes profissionais. O elemento mais significativo para que essa fofoca fosse abafada era o fato do Presidente ser um homem 
divorciado; seu "caso" era discreto, sem envolver adultrio, sem escndalo. 
       Depois de haver zanzado pela cabina, fotografando de ngulos diferentes, ela perguntou ao Presidente: 
       - H alguma possibilidade de eu tambm fazer o passeio de helicptero? Vai ser um grande momento histrico. 
       Os olhos de Ericson desviaram a pergunta para Nikolayev. O russo tentou pr-se no lugar do Presidente: se estivesse para morrer, gostaria que sua amante morresse 
com ele? Havia algo romntico quanto a isso - como Mayerling - de morrer juntos, negando a outros homens a mulher que era sua. Por outro lado, Ericson parecia ter 
traos de humanidade em si e Nikolayev resolver que ele provavelmente preferiria que a moa continuasse a viver aps sua prpria morte. 
       - Que diz voc, Vasily? perguntou-lhe o Presidente. - H algum assento desdobrvel no helicptero? 
       - Eu consigo ficar de ccoras e ficar bem pequenininha - acrescentou a moa, agachando-se num canto para ilustrar o significado do termo desconhecido "ccoras". 
       Nikolayev sacudiu tristemente a cabea, como se a deciso no lhe coubesse: 
       - O pessoal da segurana no gosta de mudanas de ltima hora. 
       Fingiu no ouvir a moa resmungar "Droga!", e observou-a levantar-se de um salto e sair de fininho. Mais tarde ela recordaria este instante com terror e alvio. 
Nikolayev no tinha prazer em 

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bancar Deus, e ficaria contente quando seu trgico dever terminasse. Disse a si mesmo que estava sacrificando algumas vidas para salvar milhes de outras; em certo 
sentido, era o que os franceses chamavam "triagem": num campo de batalha, alguns feridos se recuperavam sem ajuda, para outros, nenhuma ajuda adiantaria; a pessoa 
que tomava a deciso tinha de gastar seus remdios e seu tempo no terceiro grupo, o daqueles que poderiam ser salvos, O assassinato de Kolkov e Ericson, junto com 
mais ou menos uma dzia de outras mortes, era necessrio para salvar milhares, talvez milhes de pessoas, que seriam as perdas de um sbito desequilbrio e instabilidade 
no poder mundial. Ele cumprimentou triste- mente esse bom homem Ericson, e o homem de ascendncia polonesa que era seu guarda-costas. Nikolayev, porm, no sentia 
vergonha daquilo que havia comeado. 


A FOTGRAFA OFICIAL/1 
       
       - Nem voc conseguiu viajar no helicptero, Buffie? 
       A fotgrafa oficial do Presidente, que se havia entregue a dez minutos de rabugice at se sentir melhor, sorriu e sacudiu a cabea. Ela no se importava em 
fazer parte do grupo de fotgrafos por algum tempo. Como membro da equipe de sondagens que chegara havia duas semanas, Buffie havia voado e andado de carro pela 
maior parte de Yalta, desde o Aeroporto de Simferopol, onde a entrevista  imprensa estava para comear. Fotografara o caminho atravs da Reserva de Caa da Crimia, 
a qual o helicptero do Secretrio-Geral estaria provavelmente sobrevoando agora, percorrera a cadeia de montanhas no litoral at o Mar Negro, de l passara alm 
de Yalta, onde a imprensa e a comitiva estavam hospedados, e finalmente fora at os aposentos de hspede do Presidente, no Palcio Vorontsov, em Alupka. 
       - J fotografei a maior parte da rea, Charlie. - Buffie chamava todos os integrantes da equipe de imprensa de Charlie, exceto os outros fotgrafos, a quem 
tratava com mais respeito. Ela tivera alguma dificuldade para resolver como deveria chamar Sven Ericson na intimidade. Chamar um Presidente pelo primeiro nome lhe 
parecia constrangedor, e a intimidade de que desfrutavam fazia "Sr. Presidente" parecer ridculo. Ela se decidira, portanto, pelo acrnimo registrado na relao 
interna de telefones: "Pdeu", isto , Presidente dos Estados Unidos. O Presidente havia resolvido modificar o ttulo do cargo de Buffie, de "fotgrafa pessoal do 
Presidente" 

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para "fotgrafa oficial", para que se pensasse que seu relacionamento era oficial e no pessoal. Pdeu lhe havia dado todas as oportunidades nessa primeira viagem 
ao estrangeiro: ele a deixara viajar na frente com o pessoal da "sondagem" e a instrura para esquecer o oramento, fotografar o que quisesse e copiar o quanto quisesse. 
Sua primeira pilha de negativos j cruzara o Atlntico de volta e ela j podia mostrar cpias dos pontos de interesse e dos provveis cenrios aos fotgrafos. 
       James Smith, o Secretrio de Imprensa do Presidente, estava ao microfone, que testava soprando, e lhe perguntou: 
       - Como se soletra Palcio Vorontsov, Buffie? 
       - P-A-L--C-I-O - respondeu pressurosamente mas, como no provocasse riso, acrescentou a grafia da palavra russa. Outra voz indagou como era o Hotel Oreanda, 
e ela retrucou: -  um ninho de pulgas. Deve ter uns cinqenta anos, talvez mais. Dormimos quatro em cada apartamento, todo mundo fica ntimo. 
       - Quem so seus companheiros de quarto, Buffie? 
       - Trs sujeitos do Servio Secreto e eles esto apavorados, Charlie. - Ela fora designada para dividir um quarto com Marilee Pinckney, a substituta de Smitty, 
o que era uma boa oportunidade. Marilee era uma aristocrata, no s bem-educada como inteligente, uma beleza esbelta que sabia tudo sobre Buffie e o Presidente. 
As duas mulheres se admiravam e no competiam; tendo vindo de mundos diferentes, sabiam que voltariam a eles aps o trmino da existncia de oito anos de contos 
de fadas. Ao contrrio de Buffie, Marilee era uma feminista, mas devido  sua inteligncia e boa aparncia, tinha problemas em encontrar gente que discriminasse 
contra ela. Buffie a achava "legal", e apreciava a forma como Marilee arrasava quem insinuasse que a fotgrafa oficial do Presidente conseguira o cargo por outras 
razes que no o talento profissional. Isso maldosamente trazia  baila Melinda McPhee, a secretria do Presidente, que Buffie classificava como uma puta metida 
a besta, de trinta e muitos anos, porque tratava a fotgrafa do Presidente como se ela fosse uma vagabunda. Possessiva, protetora, pensava - aos olhos de Buffie 
- que sua lealdade era to feroz e sua lembrana de favores e pormenores polticos to valiosa, que se podia dar ao luxo de bancar a superme de Ericson. Buffie 
sabia que Melinda no aprovava o caso do Presidente com sua fotgrafa, e como a outra no podia ter o Presidente para si mesma, provavelmente desejaria que ele se 
ligasse a Marilee ou a algum de sua classe social. Algum de unhas envernizadas, ps sem calos e "careta". Buffie perguntou-se rapidamente 

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se Melinda McPhee dormira com Ericson h dez anos atrs, quando comearam a trabalhar juntos na universidade. Era possvel; ela era bastante atraente para uma mulher 
de sua idade; seu cabelo era negro, o busto bonito. Buffie tinha certeza de que nada havia entre eles agora. Olhou em volta,  procura da funcionria da Casa Branca 
de que ela menos gostava, e localizou Melinda apoiada na parede, de braos cruzados, tensa, esperando que Smitty comeasse a dar as instrues. Buffie fotografou-a 
com a expresso rabugenta no rosto. Mais tarde lhe presentearia a foto. Outro Charley perguntou a Buffie sobre a comida em Yalta. 
       - Tem um lugar chamado Pectopah - respondeu ela, inocentemente. - Na verdade, deve ser uma cadeia de restaurantes. Muito bom. Pea galinha. - Ela sabia que 
pectopah significava "restaurante" no alfabeto crtico, mas gostava de bancar a burra, desde que todos soubessem que estava brincando. - Sabe - acrescentou sria 
-  mais fcil trabalhar aqui do que em Moscou ou nas outras cidades. Pode-se andar por a, que ningum atrapalha. E num lugar de veraneio, os russos ficam dispostos 
a falar. So gente boa, e alguns falam ingls. No  como em Moscou. - Mais tarde ela falaria para alguns dos Charlies mais bonzinhos sobre as garotas horosho, prostitutas 
amadoras que andavam pelas ruas  cata de homens, e que provavelmente no deviam ser boas de cama, mas falavam ingls razoavelmente, e poderiam contar muito aos 
reprteres sobre o lado menos apresentvel da vida russa. Buffie silenciou porque Smitty estava comeando a dar as instrues, localizado num comprido pdio com 
duas estantes, como um cenrio de debates, junto de seu equivalente russo. 
       - Darei as instrues - disse Smitty - e aqui o meu colega, Sr. Mishnikov, me interromper se eu me desviar. 
       As pessoas que estavam no canto do hangar se acomodaram rapidamente. Reprteres e funcionrios da Casa Branca, carregados de mquina de escrever, gravadores, 
mquinas fotogrficas, chapus de pele de souvenirs e balalaicas de Kiev frgeis demais para enviar junto com a bagagem normal queriam que a sesso terminasse logo 
para participarem do desfile de carros e se dirigirem ao "ninho de pulgas". Buffie soubera que havia certo ressentimento na imprensa porque o Presidente e o Secretrio-Geral 
haviam partido sozinhos sem nenhum acompanhamento da imprensa, e portanto no poderiam ser observados na maior parte do dia. 
       - O Presidente e o Secretrio-Geral - prosseguiu Smitty - devero estar chegando a suas acomodaes daqui a pouquinho. O percurso de helicptero demora cerca 
de dezenove minutos. 

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Aterraro no gramado do Parque Alupka e o Presidente dar entrada no Palcio Vorontsov. 
       - Foi a que ficou FDF? [nota *. Franklin Delano Roosevelt. (N. da T.)] 
       Smitty olhou para o representante russo, que replicou: 
       - No, o Presidente Roosevelt ficou no Palcio Livadia, hoje um sanatrio que presta assistncia mdica gratuita aos cidados soviticos. 
       - Continuando - prosseguiu Smitty - os dois lderes no tm nada programado o resto da manh. Suponho que se reuniro para um almoo informal, para nadar 
um pouco, ou algo assim. - Smitty escutou algum sussurrar-lhe ao ouvido. Buffie sabia que o Secretrio de Imprensa no era muito organizado, e dependia muito de 
Marilee. - Estou informado de que, ao almoo, tero a companhia do Secretrio de Estado Curtice, do Ministro das Relaes Exteriores Nikolayev, e de dois intrpretes. 
       Buffie supunha que Lucas Cartwright e Melinda McPhee tambm fossem estar presentes, mas faziam parte da comitiva, por isto seus nomes no eram citados. E 
por que no a fotgrafa oficial? Se Pdeu no precisasse de fotografias, ela poderia fazer desenhos a bico de pena e a tinta. As fotos que ela tirava pertenciam ao 
pblico e eram distribudas de modo eqnime para a imprensa, mas os desenhos lhe pertenciam, e algum dia ela faria uma grande jogada e os reuniria num livro, numa 
exposio, ou algo assim. Ajudaria se Pdeu deixasse que ela participasse do almoo. Estava ficando rabugenta de novo, e resolveu parar; estava com a maior "mina" 
de seus vinte e seis anos de vida: tinha um caso com um homem fascinante, que lhe estava dando um grande empurro na carreira. 
       - Vocs j foram informados sobre as observaes quanto ao aeroporto - disse Smitty. - Quando chegarem ao hotel, haver textos disponveis. Como sempre, h 
uma sala para a imprensa. Hoje no haver declaraes. Vocs esto livres at as quatro e meia da tarde, quando haver uma "oportunidade de fotos" ou, conforme costumvamos 
dizer, uma oportunidade de caar uma fato. Os nibus sairo da frente do Hotel Oreanda s quatro horas. 
       - uma pssima hora para fotografias - gritou o fotgrafo de uma revista. Buffie levantou a vista das cpias que tinha nas 

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mos e viu que Smitty olhava em sua direo. Ele lhe perguntou se aquela hora era mesmo pssima para fotografias. 
       - Dificulta um pouco as fotos em cores, Smitty. Com o sol desaparecendo, h muitos tons de vermelho. 
       O Secretrio de Imprensa disse que lamentava, mas no iria alterar a programao preparada junto com a segurana sovitica. 
       - Essa ser uma oportunidade para fotos preto e branco. 
       - Por que no foi ningum da imprensa no helicptero, Smitty? 
       Buffie esperava, pelo bem do Presidente, que Smitty tivesse uma boa justificativa para que os lderes tivessem viajado incomunicveis. No teria sido nada 
demais levar alguns reprteres ao palcio nos helicpteros, apenas para ter uma idia da situao e fazer um relatrio conjunto. 
       - Sem nenhum representante nosso l - acrescentou irritada a voz - ficamos sem nenhum contato durante oito horas, poxa! No arrastamos nossas carcaas por 
meio mundo s para ficarmos olhando uns para as caras dos outros. 
       - No h nenhum representante da imprensa porque o Secretrio-Geral e o Presidente quiseram ficar sozinhos; esta a razo - informou Smitty. Buffie teve de 
admitir que a resposta fora sincera. - E mantendo constante contato com Harry Bok - acrescentou Smitty, dando um tapinha no rdio preso  cintura - e quando eu estou 
em contato, vocs tambm esto. Se houver alguma coisa, mando avisar no hotel, mas por enquanto, h uma folga at as quatro e meia. 
       Muitos reprteres gostaram da notcia; a "folga" significava que poderiam dar voltas em Yalta o dia todo, sem se preocupar em perder alguma sbita entrevista 
com a imprensa. 
       A ranzinzice de Buffie desapareceu quando lhe ocorreu que a folga do dia inteiro a liberava para que se pudesse esticar na praia de areias negras em frente 
ao hotel. Usaria seu "biquininho" e os "caras", provavelmente sem assunto, estampariam uma foto sua nos jornais. Isso irritaria Melinda, mas Pdeu no se importaria 
e a publicidade pessoal seria til quando seu trabalho na Casa Branca terminasse. A filosofia de Buffie era "aproveite ao mximo as oportunidades". Esperava poder 
encontrar lugar na praia para se deitar; os turistas russos estavam todos l como lemingues [nota *. Pequenos roedores das regies rticas. (N. da T] desde cedo,

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para conseguirem seus lugares, onde se sentavam o dia inteiro, extraindo todo o segundo de sol que podiam de suas frias. 
       -  mesmo necessrio que gastemos esse tempo todo em mincias domsticas? - rugiu uma voz l de trs, a alguns passos de Buffie. - Quando teremos uma sesso 
realmente substancial? 
       Quem falou foi Samuel Zophar, o colunista, um "cobro" da mdia; Smitty no poderia dar-lhe um fora atravs de um tom rspido ou de uma piada. 
       - Estou a par de sua preocupao, Sam - disse Smitty, em tom diferente. - Esperamos poder organizar uma sesso realmente informativa to logo o Presidente 
e o Secretrio-Geral tenham algo para transmitir. 
       Seria melhor que isso acontecesse logo - pensou Buffie - ou Zophar e os "grandalhes" como ele poderiam escrever artigos insinuando que os dois lderes haviam 
tido atritos. "Atritos" era uma dessas palavras que, de tanto ser usada, virava moda. Buffie gostava de no precisar usar chaves em suas fotos; at mesmo fotos 
de dois polticos apertando-se as mos podiam ser feitas de modo diferente todas as vezes. A essa idia, ela anotou no seu registro de fotos que deveria tirar um 
close-up de Ericson e Kolkov apertando-se as mos. As mos de Kolkov eram pequenas, magras, mos de gente velha; j Ericson tinha mos enormes de homem muito alto, 
e dedos fortes de um pianista ou jogador de basquete. Teve a sensao de senti-las em seus ombros; os dedos s vezes deixavam marcas, o que no a incomodava absolutamente. 
Reparou que KolkOv usava as duas mos para apertar as de Ericson, cobrindo o aperto de mos com sua outra mo, como se para ocultar a diferena de tamanho. Seria 
uma boa foto, essa da grande mo de Ericson envolvendo a do russo; se no conseguisse essa foto, poderia desenhar o gesto entre os dois. 
       Buffie suspirou alegremente. Um cameraman que estava na plataforma acima a ouviu e abaixou-se para acariciar-lhe a cabea acaju. Ela sorriu-lhe em agradecimento, 
e quando ele voltou ao que fazia, ela se levantou e cutucou-o furiosamente, depois se virou e correu para o nibus da imprensa. 
       Foi a primeira a entrar, deu um soquinho no brao do motorista, virou-lhe o chapu ao contrrio e sentou-se o mais perto possvel da porta, para que fosse 
a primeira a sair. Com as cpias de fotos nas mos, um pouco arquejante, examinou as fotos que tirara havia duas semanas, da Reserva de Caa da Crimia, a qual o 
Presidente e seu anfitrio devem ter acabado de sobrevoar. Havia rvores, folhagem, cerrada vegetao rasteira, mas nenhuma fotografia

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de animal. Buffie fora informada de que a vivia enorme quantidade de ursos, javalis, avestruzes e at lhamas, alm de coloridos pssaros, porm ela nada conseguira 
avistar do helicptero de reconhecimento. Tinha um pouco de medo de animais, e no tivera vontade de pedir ao piloto para desc-la naquela selva. As fotos das folhagens 
eram boas: havia muitas copas de rvores mas tambm infinidades de uma linda flor amarela. 


O AGENTE DO SERVIO SECRETO/2 
       
       Era impossvel conversar nesse barulhento helicptero, por isso os dois lderes simularam comunicao apontando para fora da janela para algum objeto na terra, 
assentindo gravemente com a cabea, levantando sobrancelhas para demonstrar admirao, e enunciando perguntas e respostas sem nenhuma importncia, que o intrprete 
transmitia devidamente entre eles. Ericson e Kolkov estavam de frente um para o outro, em assentos giratrios, e Harry Bok e o intrprete sovitico se encaravam 
lado a lado. Dois guardas de Kolkov estavam sentados atrs. 
       Harry determinou-se a ignorar seu estmago. Quando o helicptero levantou vo para a viagem de vinte minutos, concentrou sua lembrana na mulher e nos filhos 
em Washington. Depois visualizou Buffie de mai, deitada no trampolim da piscina atrs da Casa Branca, e comparou-lhe o corpo, ponto por ponto, com o da enfermeira 
Kellgren, a sueca alta de busto volumoso que trabalhava com o mdico do Presidente. Isso desviou-lhe parcialmente a mente das guinadas do aparelho para a frente, 
 medida que o helicptero ganhava velocidade. Ao ajeitar-se para o vo, o agente recorreu  costumeira ladainha mental sobre os Presidentes que ele havia protegido, 
e as razes que eles lhe haviam dado para no o colocar no setor de falsificaes. Pensou no seu primeiro Presidente, que teve uma reao paternal quando Harry no 
passou no teste de tiro ao alvo: "Harry, confio na sua opinio e nos seus instintos. e isso  muito mais importante do que voc ser capaz de atirar em algum depois 
que ele atirou em mim...". Ele se lembrou do seu segundo Presidente, que tinha respeito exagerado pela folha de guerra de Harry, e achava que um garoto extremamente 
dedicado e leal, que havia atravessado uma saraivada de balas de metralhadora e recebido uma medalha no incio da guerra do Vietn automaticamente poria sua vida 
 disposio do homem cuja vida ele foi encarregado de proteger. 

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        medida que passavam os anos, os Presidentes achavam outras razes para no o transferir: Bok era totalmente discreto, sabia esquiar, as primeiras-damas 
e suas filhas tinham integral confiana nele, lembrava-se de estatsticas de esportes e pormenores sobre velhos filmes. Entrementes, seu ritmo ficava mais lento, 
e ele evitava exerccios de alvos sempre que podia, e se preocupava mais com a possibilidade de se desmoralizar e ao Servio, se e quando houvesse oportunidade. 
Seu ltimo Presidente, Ericson, lhe dera este fio de esperana: "Voc  p quente. Desde que comeou a trabalhar aqui, nenhum Presidente foi assassinado. Harry, 
sinto-me mais seguro com um velho recauchutado p quente do que com um atleta p frio." 
       Olhou pela janela e viu que se estavam afastando das casas em redor do conjunto de prdios do aeroporto e dirigindo-se  floresta, um parque nacional e uma 
reserva de caa. Olhar para baixo no lhe fez bem ao estmago. Olhou para cima e para trs, para o helicptero-reboque, que levava dois agentes da segurana da Casa 
Branca a bordo, alm de tcnicos mdicos e um grupo de policiais russos. O segundo helicptero estava a cerca de trezentos metros atrs e dez metros mais alto, conforme 
registrado no piano de vo. 
       A robusta comissria russa apareceu com uma garrafa de vodca enfiada no gelo. Kolkov e Ericson retiraram um clice, brindaram-se em silncio, e os jogaram 
para trs, conforme mandava a tradio. Harry e o intrprete recusaram o drinque. Harry ia aceitar os canaps de caviar, mas pensou melhor. Observou que as compridas 
pernas do Presidente eram um problema, porque Ericson evidentemente no iria ficar de joelhos perto ria Secretrio-Geral, e o helicptero no fora construdo para 
joelhos to salientes. O Presidente girou no assento e virou as pernas para o corredor. 
       Harry respirou profundamente, localizou o saco de enjos mas no o tocou, e resolveu manter os olhos no helicptero que os seguia, que estava l fora em pleno 
ar fresco e oferecia algo em que se podia concentrar. 
       Franziu a testa. O helicptero-reboque estava a apenas algumas dezenas de metros, e talvez a uns quinze metros mais elevado, o que no estava previsto no 
plano. Se o piloto russo desconhecia o plano de vo, por que razo um dos agentes de Harry, da segurana da Casa Branca, que estava a bordo, no o informava sobre 
o plano correto? Esses caras no eram turistas nem fotgrafos amadores que precisassem de um close-up; supunha-se que estivessem voando em formao. 

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       Pior ainda, eles estavam abrindo a porta lateral em vo, o que era idiota. Harry teria de escrever um relatrio a respeito e algum agentaria as conseqncias. 
Ele entendia a vontade de se pegar ar fresco, e desejava que alguma janela de seu prprio helicptero tivesse sido deixada aberta, mas regras eram regras. Fez meno 
de tirar a caneta, mas o que viu o fez sacar a arma. 
       O corpo de um homem estava sendo empurrado para fora da porta lateral do outro helicptero. O homem no estava saltando, mas seu corpo estava sendo rolado 
para fora e impelido para baixo no ar, at que ficou fora do alcance de viso de Harry. Seguiu-se um segundo corpo. Harry fez sinal para os guardas soviticos atrs 
do helicptero para olharem pela janela traseira; eles se surpreenderam com sua pistola e sacaram tambm as suas, enquanto um olhava para fora e outro o observava, 
caso ele estivesse querendo bancar o engraadinho. 
       Um terceiro corpo, vestido de branco, rolou para fora. Harry deduziu que fosse o tcnico mdico americano, o que significava que os dois outros corpos tinham 
sido os de seus agentes. Um longo tubo de metal, que poderia ser o cano de uma arma ou uma bazuca, surgiu na porta do outro helicptero, com uns dois homens atrs 
dele. 
       Harry enfiou a arma no cinto, virou-se, agarrou o Presidente pelos ombros, e o atirou no cho. Lanou-se ento  frente do helicptero, abriu a porta do piloto, 
estendeu o brao acima do seu ombro e comprimiu a barra de controle para a frente, mergulhando a aeronave para baixo momentos antes da exploso. 
       O helicptero tremeu e inclinou-se de lado. O piloto russo, que devia ter pensado que Harry era o perigo, comeou a lutar com ele, e Harry selvagemente o 
silenciou com um golpe de pistola. Agarrou o fone de cabea quando sentiu uma rajada de vento fresco; atrs dele, o co-piloto estava pendurado para fora da aeronave 
atravs dos vidros espatifados que abrigavam a cabina do piloto. O corpo de uma comissria estava cado. 
       A barra estava solta, no havia controle. Harry sups que a granada tivesse atingido a cauda e no o meio do helicptero, como pretendido. Seu bote para mudar 
a direo do helicptero havia protelado o desastre por alguns segundos. Ele agarrou o fone de cabea do piloto e berrou: "Mayday Mayday!" [nota *. Sinal radiotelefnico 
internacional, utilizado por navios e avies com problemas. Corruptela do francs m'aider (ajude-me!). (N. da T.)] no microfone e voltou rapidamente  cabina principal, 
onde o Presidente e 

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Kolkov jaziam no cho. O motor estava morto e o helicptero estava afundando, mas no bateria como um avio - a lmina rotativa ainda girava, provavelmente caindo 
em cima das copas das rvores. 
       Um dos agentes russos disparava a pistola atravs de uma janela quebrada, enquanto o outro posicionava uma metralhadora de mo que havia sido escondida sob 
seu assento. Harry sabia que no era um grande atirador, por isso deixou que os russos devolvessem os tiros enquanto ele se agachava, colocava almofadas debaixo 
e perto da cabea do Presidente - Kolkov que se virasse - e preparava-se para um choque. O helicptero atacante subitamente assomou  janela, a menos de vinte metros 
de distncia, caindo com eles, e Harry pde ver o cano da bazuca pela porta aberta ficar novamente visvel. O guarda russo com a metralhadora de mo tambm viu, 
e trs compridos estouros enfiaram balas no atacante, depois na direo da cabina do piloto e reprimiram o fogo at que a segunda aeronave desviou o rumo para longe 
das rvores: 
       Harry escutou sons de coisa se dilacerando, a lmina se agitando e depois o desastre. 
       Harry estava consciente. Seus cotovelos amparavam os dois lados da cabea do Presidente, que sangrava - uma das almofadas se havia soltado. Sentiu cheiro 
de gs e o calor das chamas. Agarrou Ericson pelas axilas e o arrastou para fora dos destroos at as sombras da floresta, o mais longe que pde do helicptero, 
antes de desmaiar. Auscultou o peito do Presidente e sentiu-lhe as batidas do corao. Olhou em volta e viu um dos guardas russos carregando Kolkov nas costas como 
faz um bombeiro, e enxergou tambm a imagem bem-vinda do homem com a metralhadora de mo que seguia atrs. 
       O russo com a arma fez um movimento para cima, e foi ento que Harry se deu conta de que o rugido que ainda escutava no era em sua cabea, e, sim, do segundo 
helicptero, que sobrevoava e descia, provavelmente procurando uma clareira para realizar o derradeiro ataque. Harry sacudiu negativamente a cabea; j salvara a 
vida do Presidente, no queria outra briga de fogo. Eles no conseguiriam correr com os dois homens inconscientes. Lembrou-se de haver mandado pedido de auxilio 
pelo rdio. 
       O helicptero em fogo quase se desintegrou numa exploso horrenda, deveria haver agora uma espcie de clareira. Os pilotos, a comissria e o intrprete estavam 
mortos, e Harry levantou-se vacilante para seguir a direo do russo com a metralhadora porttil, que parecia estar escolhendo uma pequena ravina para 

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montar um permetro de defesa. Harry no queria mover o Presidente, cujo crnio ferido lhe fazia escorrer sangue pelo rosto e que tinha sabia-se l quantos ferimentos 
internos, mas no havia escolha. Pegou o Presidente e seguiu os outros at uma pequena cratera. 
       O outro helicptero aterrara e desligara o motor. Harry ouviu vozes de homens e rudos de galhos secos que vinham em sua direo. Calculou que seriam uns 
cinco ou seis. Harry e os dois guardas russos no fizeram nenhum som; esperavam um tiro, e Harry amaldioava os dias em que "matara" os exerccios de tiro ao alvo. 
No havia praticamente nenhum campo de fogo, o que era mau para eles. 
       Um rosto chins foi a primeira surpresa para Harry. Atirou nele e sua prxima surpresa foi ver o rosto se desintegrar. Agora, porm, a posio deles era conhecida 
e comeou a haver fogo de carabina de trs lados. O guarda russo se arriscou e ficou de joelhos sobre a beira da ravina para borrifar a rea  frente deles, mas 
foi imediatamente abatido. 
       O outro guarda russo entregou a Harry seu revlver, tirou a arma do companheiro que jazia  beira do buraco, e comeou a atirar, ao mero som de arbustos pisados. 
Os sons pararam. Logo comearam a explodir granadas de mo em volta deles, que mataram o outro guarda e castigaram as costas e os lados de Harry com estilhaos. 
Ele olhou para ver se o Presidente Ericson estava vivo, e estava, mas Kolkov fora atingido pela exploso de uma granada e estava morto ou morrendo. Harry arrastou 
o corpo de Kolkov para cima do de Ericson, fazendo um escudo para a cabea e as costas do Presidente e deixando que suas pernas ficassem de fora, e pegou a metralhadora 
de mo para esperar o ltimo ataque. 
        sua esquerda, comeou um grande barulho e sons de resfolegos muito estranhos. Harry parou de atirar. Um grito humano percorreu a floresta e trs homens 
ergueram-se, expostos, para correr da origem do barulho. Harry matou o grupo de uma s vez. O barulho e o resfolegar chegaram  sua frente e outro corpo se levantou 
para correr; antes que Harry pudesse apertar o gatilho, congelou ao ver um homem ser perfurado pelos chifres de um javali, a besta de aparncia mais feroz que Harry 
jamais vira, como um medonho porco selvagem com nsia de sangue. Ele atirou no moribundo e no animal selvagem at cessarem os gritos e a agitao. 
       Harry esperou, j agora consciente das prprias costas que sangravam e da incapacidade de mexer as pernas, sem munio e 

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sem poder lutar. Ningum mais se mexia nessa rea. Olhou para trs para o corpo de Kolkov enrolado ao do Presidente, que talvez estivesse vivo, talvez no. Que diabo 
acontecera? Por que os atacantes se haviam mostrado aterrorizados para que ele os pudesse abater to facilmente? De onde viriam animais selvagens numa maldita estao 
de veraneio como aquela? 
       A Reserva de Caa da Crimia. A percepo de que estava cercado de animais e outros perigos desconhecidos foi muito forte para Harry, e ele desmaiou em cima 
da arma, a alguns centmetros do cadver do Secretrio-Geral do partido comunista sovitico deitado em cima do que Harry esperava no fosse o cadver do seu Presidente. 


O OFTALMOLOGISTA 
       
       - Mas por que eu? 
       Em toda a sua breve carreira mdica, o Dr. Perry Lilith jamais fora tirado da cama por uma chamada de emergncia. Ele era oftalmologista, um especialista 
em doenas dos olhos, e uma das razes pelas quais escolhera esse ramo era porque no gostava do frenesi dos telefonemas noturnos que perturbavam a maioria dos mdicos. 
Evidente que todos os especialistas em olhos do Hospital Naval de Bethesda, nos arredores de Washington, D. C. davam planto noturno, mas os plantes eram sempre 
marcados com grande antecedncia e compensados por tempo de folga. 
       O comandante do hospital que o acordou por telefone empregou o posto naval de Lilith para lembrar-lhe de que no era um mdico civil, do que o oftalmologista 
se ressentiu imediatamente. 
       - Para ser franco com o senhor, Capito, os dois oftalmologistas de posto mais elevado que o seu no esto disponveis. Um est doente e o outro de frias. 
Isso quer dizer que sobrou o senhor. 
       - Mas de que se trata? No sei o que devo levar nem nada. 
       Lilith achou que o almirante fora desnecessariamente grosseiro a essa altura. 
       - Doutor, o senhor  oficial da Marinha dos Estados Unidos. Estou lhe ordenando que prepare sua maleta com tudo o que for preciso para um tratamento urgente 
de olho, e que esteja pronto para ser apanhado em frente de casa daqui a exatamente vinte minutos,

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por um veculo da Casa Branca. O carro estar a  04:00. O senhor ser transportado  Base da Fora Area de Andrews, onde se reunir a outros mdicos e receber 
mais suprimentos oftalmolgicos. Tudo entendido at aqui? 
       - Completamente, senhor - respondeu Lilith sarcasticamente. Ele s tinha mais um ano de servio militar. - O senhor permite saber para onde iremos de l, 
e quem dever substituir-me nas consultas de amanh? 
       - No devido tempo o senhor saber seu rumo replicou o almirante - e conseguirei algum para substitu-lo, possivelmente do Hospital Naval ou de outro lugar 
qualquer. No fale a ningum de sua misso, incluindo sua mulher. No d nenhum telefonema. Esta  uma operao altamente secreta e a segurana no ser quebrada 
por ningum sob meu comando. 
       - Almirante, no sou risco de segurana. 
       A frase parecera suavizar o almirante, e Lilith gostou de haver mantido o sangue-frio. 
       - Perry, solicitaram-nos que reunssemos imediatamente uma junta mdica, e o pedido incluiu um oftalmologista. O hospital e a Marinha contam com voc. 
       Ele desligou o telefone, remexeu nas roupas - estava irritado por no saber aonde ia nem o que deveria vestir - e meteu tudo o que pde imaginar na maletinha 
preta. Corria agora pelo caminho em frente de sua casa de subrbio para alcanar o Mercury preto que chegara antes da 04:00 horas ou, como ele se disse que um ser 
humano normal diria, quatro horas da manh. No assento de trs havia outro passageiro, um civil. 
       - J peguei os dois - escutou o motorista dizer a um microfone de mo ligado ao painel - e vou seguir para Andrews. 
       - O senhor  mdico? - perguntou Lilith ao homem sentado a seu lado. 
       - No, sou advogado. Persigo ambulncias, ganho muito dinheiro em processos. 
       Um engraadinho. Exatamente o tipo que Lilith queria evitar a essa hora da madrugada. O carro rodou rumo ao aeroporto em velocidade ilegal, O sujeito enfiado 
no outro canto do banco traseiro era pequeno, de aparncia belicosa e fumava sem parar. Ao acender seu isqueiro descartvel, exibiu cabelo encaracolado e uma pele 
sardenta e malhada. 
       - Gostaria que o senhor no fumasse - disse Lilith. 

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       - Estou acostumado a fumar - disse o homem - e este carro  de fumantes. O avio no tem uma seo para no-fumantes. 
       Lilith resmungou "Sei" no modo mais mordaz que pde, e abaixou a vidraa. A cento e trinta quilmetros por hora, o vento soprava fagulhas vindas da ponta 
do cigarro em todo o banco traseiro e o fumante apressadamente apagou o cigarro. Surpreendentemente, o homem estendeu a mo e disse: 
       - Sou Mark Hennessy, consultor especial do Presidente. Gosto de gente que retruca. Suponho que voc seja o melhor mdico de olho da rea de 'Washington. 
       - Obrigado - disse o espantado Lilith, sem negar nem confirmar a opinio. - Voc sabe de que trata tudo isso? 
       - No respondeu firmemente Hennessy, e Lilith percebeu que mentia. O mdico de olho teve uma idia. Inclinou-se para a frente para pedir ao motorista para 
ligar o rdio na estao de notcias que ficava funcionando a noite toda. Tinha um palpite de que essa histria devia envolver o Presidente, que estava a milhares 
de quilmetros de distncia, reunindo-se com os russos em Yalta. Se tivesse havido um acidente, seria noticiado pelo rdio. 
       No teve sorte. Quando o noticiarista falou do Presidente em seu resumo final, disse apenas que o Presidente Ericson e o Secretrio-Geral Kolkov se haviam 
cumprimentado no Aeroporto de Crimia h algumas horas, e que Ericson se havia dirigido de helicptero para um velho palcio, onde se reuniriam durante as prximas 
horas. Era hora do almoo em Yaita. O Presidente estava passando muito bem. Lilith se aborreceu. 
       - No trouxe um jogo extra de lentes de contato - queixou-se - caso seja disso que se trate. 
       Calma - disse Hennessy - desfrute da emocionante vida de Washington. Voc vai deixar essa janela aberta o caminho todo? 
       Lilith subiu a vidraa e pegou na ala de sua maleta preta. O homem a seu lado talvez tivesse brincado sobre a vida emocionante de Washington, mas isso era 
verdade, sob certo aspecto. Talvez os acontecimentos futuros tivessem influncia sobre sua carreira. 
       - Supe-se que o Presidente diria a seu consultor - implicou com o assessor da Casa Branca - se fosse algo importante. 
       A ironia atingiu Hennessy. 
       - Como voc  implicante! - Lilith enrijeceu  sutil referncia de Hennessy a efeminao, mas sorriu por haver tocado num ponto sensvel. 

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       - Tudo que sei  - fulminou Hennessy - que me mandaram enfiar a bunda num avio para Lajes, nos Aores, e certificar-me de levar um oftalmologista. Depois 
me disseram tambm para no fazer uma coisa, que no  da sua conta, e tampouco me deram uma merda de explicao qualquer. Se eu estivesse fazendo essa viagem  
Rssia, que deveria ter feito, Cartwright no teria de providenciar essa porra s pressas. 
       Nessas observaes havia uma pequena informao: Lilith pensou nos Aores. Havia lido algo a respeito de uma visita que o Presidente faria ao local ao voltar 
da Crimia, pois as ilhas haviam recentemente se tornado territrio americano. O povo de l se aborrecera com Portugal, ou coisa assim. 
       - Espero que haja um hospital e mdicos nos Aores - disse. 
       Seu companheiro saiu pela tangente. 
       - Voc no acha que ficaria mais elegante dizer-se "optalmologista" ao invs de "oftalmologista"? 
       - Suponho que sim - replicou secamente, sentindo-se irritado pelo comentrio idiota do outro. Lilith no se considerava excessivamente implicante e, sim, 
organizado. - Na maioria das vezes, digo optalmologista porque os leigos me chamam assim. Vem do grego - oph  "olho", e thalmus  "cmara", que  onde eu trabalho. 
       Como era possvel se ter metido numa explicao dessas? Hennessy queria desvi-lo de fazer mais perguntas. Lilith comeou a recordar o que lera sobre Hennessy 
em algum perfil de jornal: era um advogado divorcista de Nova York, que conhecera Ericson h cinco ou seis anos quando este era governador, e tratara do seu divrcio. 
Em seguida se tornara seu confidente e "carrasco" oficial. Estava sendo apontado como futuro chefe da Casa Civil, mas foi barrado porque fez muitos inimigos na campanha 
presidencial e tambm - Lilith o comprovava - porque era belicoso, exaltado e desorganizado, Por isso, foi nomeado consultor especial. O mdico de olhos sorriu. 
Ele teria algumas informaes "quentes" para comentar no prximo coquetel a que comparecesse, a respeito das pessoas que conheceu nessa misso. Prudentemente, comeou 
a esperar com ansiedade o que estava por vir. Gostaria de ter certeza de haver trazido o equipamento e os remdios corretos. 
       O carro da Casa Branca parou em frente  sala VIP de Andrews, L dentro, Lilith foi apresentado a mais outros seis mdicos, a um tcnico de raio X, a um anestesista 
e a vrias enfermeiras, todos impecveis e atentos, o que o fez sentir-se ligeiramente 

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impatritico por no se ter desde o incio emocionado com a oportunidade de viajar at o meio do Atlntico. L fora, um jato de tamanho mdio esquentava as turbinas, 
profusamente iluminado, o que ressaltava suas cores azul e prata, e as letras negras que diziam: "Estados Unidos da Amrica". Lilith viu Hennessy retirar um grande 
envelope do bolso de dentro do palet, olh-lo para se certificar de que o tinha, e p-lo de volta, aps dar-lhe um tapinha de segurana. Lilith estava satisfeito 
por estar em meio a to distinta companhia mdica. Os outros mdicos incluam o melhor cardiologista e o mais famoso cirurgio de crebro da rea. Ficou contente 
porque os oftalmologistas mais antigos do que ele no haviam podido vir. O grupo mdico do qual ele fazia parte estava tenso, mas no nervoso; o jovem mdico de 
olho procurou relaxar, seguindo a sugesto de Hennessy, e remar conforme a mar. Algum dia, porm, ele se desforraria do advogado do Presidente, por haver insinuado 
que era afeminado. 


A ENFERMEIRA 
       
       A enfermeira Inge Kellgren, Primeiro-Tenente da Fora Area dos Estados Unidos, ligada ao consultrio do mdico pessoal do Presidente, sabia que no devia 
dilatar o travesseiro do agente ferido, Harry Bok. Ele tinha estilhaos de granada encravados na coluna, as pernas estavam paralisadas e, apesar do sedativo, o menor 
movimento fazia com que todos os msculos no paralisados de seu corpo sofressem um espasmo. 
       No achava boa a idia de os trs visitantes virem conversar com ele naquelas condies, mas como um deles era seu chefe, o Dr. Herbert Abelson, ela no poderia 
objetar. O Dr. Abelson, amigo de longa data do Presidente, no bancava o grande mdico, como todos sabiam. Por isso, o homem mais prximo do Presidente costumava 
ser o assistente do Dr. Abelson, um mdico classificado de tcnico mdico, treinado em casos de emergncia. Infelizmente, esse assistente morrera durante a emboscada. 
       O Dr. Abelson estava acompanhado pelo Secretrio de Estado Curtice e o Chefe da Casa Civil Cartwright. Os dois homens mais graduados ficaram de lados opostos 
da cama de Harry Bok, enquanto o mdico se postou ao p da mesma. O doutor mandou-a retirar-se com um sinal da cabea e a enfermeira Kellgren dirigiu-se  outra 
extremidade da comprida enfermaria que havia sido esvaziada para formar um quarto particular para o americano. 

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O hospital no era moderno, pois se tratava de um velho palcio de tzar convertido em um sanatrio, e o salo de dezenove metros escolhido para o isolamento ficava 
sob um teto abobadado. 
       Ela se sentou na extremidade do aposento e, para sua surpresa, pde ouvir o que estava sendo sussurrado ao redor da cama do paciente. Calculou que fosse devido 
a algum truque de som causado pela abbada, e no sabia se deveria levantar-se e sair pela nica porta, que ficava perto do leito do paciente. Decidiu ficar onde 
estava. 
       - Voc vai viver, Harry - escutou o Dr. Abelson dizer com voz formal. - Est com uns pedaos de metal na espinha que tero de ser extrados, e voc ter de 
ficar imvel por umas duas semanas, mas no fim vai ficar bom. 
       Ela no conseguia ver o rosto de Harry, mas pde ouvir sua pergunta temerosa: 
       - E o Presidente? 
       - O Presidente est vivo - respondeu Lucas Cartwright. - H cerca de meia hora ele voltou a si, mais ou menos depois de duas horas da emboscada. Ele tem alguns 
problemas, mas est bem. O Secretrio-Geral morreu. 
       Harry comeou a mexer-se e seu corpo arqueou-se num aperto doloroso dos msculos doloridos. Logo que pde, perguntou: 
       - No h microfones aqui? 
       - Seus colegas pensaram nisso - respondeu Cartwright. - Eles nos afirmaram que sua cama e a rea prxima foram investigadas, e no contm nem transmissores 
nem microfones. 
       A enfermeira Kellgren perguntou-se se deveria levantar-se e dizer-lhes que a acstica dessa velha sala era estranha e que ela os podia ouvir daquela distncia, 
embora no conseguisse ouvi-los a alguns metros de distncia. Isso, porm, faria com que todos ficassem com cara de bobo, e talvez ela estivesse enganada. Continuou 
sentada e no pde evitar ouvir. 
       - Sr. Bok - disse o Secretrio de Estado, com sua voz de baixo. - so agora onze e meia da manh. O helicptero foi abatido h pouco mais de duas horas. So 
quatro e meia da manh em Washington. O senhor est orientado em termos de tempo? 
       - Estou. 
       - Ningum sabe de nada ainda - continuou o secretrio - nem o pessoal da imprensa viajando conosco, nem o povo russo. Apenas um pequeno nmero de agentes 
russos de segurana, sob o 

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comando direto do Ministro das Relaes Exteriores Nikolayev. Ele fez questo de manter sigilo absoluto sobre o caso, a pretexto de proteger o Presidente, mas na 
verdade para primeiro informar aos membros do Politburo. 
       - Ns fomos exaustivamente contrrios - disse Cartwright. 
       - Podemos, porm, empregar bem esse tempo, com o senhor - disse o secretrio. - Por isso pedimos ao Dr. Abelson que no lhe desse muitos analgsicos. Precisamos 
que nos conte exatamente o que aconteceu: o senhor  a nica testemunha. 
       Harry comeou a contar a histria da emboscada. Os trs homens se inclinaram para a frente para escut-los sussurrar, e a enfermeira Kellgren s conseguiu 
pegar alguns trechos de sua narrativa da tragdia: 
       - ... ento eu o arrastei para fora dos destroos... estabeleci um permetro... rosto chins, bem entre os olhos... sujeito com uma metralhadora manual pegou... 
as granadas me atingiram, mataram Kolkov, e arrastei o corpo dele para cima do do Presidente... um animal muito selvagem e eles foram todos alvos muito fceis... 
eu devo ter desmaiado. 
       A enfermeira Kellgren enxugou os olhos com um leno Kleenex. 
       Harry Bok era um homem bom, que costumava brincar com ela, de modo paternal, sobre seu vulto estatuesco, com o enorme busto, e que fazia questo de que fosse 
tratada com respeito pelos outros agentes. Ele a chamava de "mudinha" porque ela no falava muito, s vezes lhe fazia confidncias. Ela lhe contara sobre a ordem 
do Dr. Abelson para no lhe dar muitos calmantes para que ele pudesse ser interrogado, e ele aceitara a dor como parte de suas obrigaes de agente. Evidentemente, 
ela no contara ao paciente que escutara uma das enfermeiras russas que falavam ingls comentar que os mdicos soviticos achavam que Harry Bok jamais voltaria a 
andar. 
       - Os russos que responderam a seu sinal de socorro encontraram o Presidente com o corpo de Kolkov em cima - disse o secretrio. - Isto  importante: teria 
sido possvel que Kolkov, enquanto ainda vivo, tentasse proteger o Presidente com o prprio corpo? 
       - Acho que ele estava morto. Eu o arrastei para l. 
       - Mas no teria sido possvel que Kolkov no estivesse morto, e tentasse engatinhar at l para proteger o Presidente? 
       Lucas Cartwright interrompeu a segunda negativa de Harry Bok para dizer: 

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       - O secretrio no lhe est pedindo para ter certeza de nada, Harry. Acontece que todo mundo est terrivelmente nervoso depois do assassinato de Kolkov. Ningum 
pode afirmar quem estava por trs disso. Os russos no nos esto deixando sair daqui to rpido quanto gostaramos, e isso de no contar imediatamente  imprensa 
vai nos causar problemas. 
       - Eles vo ficar possessos - acrescentou o Dr. Abelson. 
       - Por essa razo o secretrio est procurando algo que possa melhorar a situao. Como um ato de herosmo da parte de Kolkov - explicou Cartwright. 
       - Algo de que os russos se possam orgulhar e que os americanos tenham de agradecer - disse o Secretrio Curtice. - Mas no estamos pedindo que voc no diga 
a verdade. 
       - Lucas, isso est certo? - perguntou Harry Bok. 
       Cartwright respondeu: 
       - O secretrio acha que  muito importante. Foi um momento terrvel, Harry... ningum espera que voc se lembre de tudo. Apenas esboce algumas das possibilidades. 
No precisa ser nada definido. Talvez consiga fazer com que vamos embora mais depressa. 
       - Est certo - a enfermeira Kellgren escutou Harry dizer. 
       - Talvez Kolkov tivesse engatinhado at o Presidente, eu no sei, tudo aconteceu ao mesmo tempo. 
       - Ento  possvel - perguntou Curtice - que Kolkov tenha salvado a vida do Presidente? 
       - . 
       - Uma coisa dessas certamente aplacaria a reao anti- sovitica nos Estados Unidos - disse Curtice, e a enfermeira desejou que ele deixasse Harry em paz. 
       - No posso jurar. Pode ter sido. 
       A enfermeira Kellgren levantou-se e comeou a andar pelo quarto. O Dr. Abelson a viu e disse algo aos outros no sentido de no se cansar o paciente.  metade 
do caminho, a enfermeira Ke1gren no conseguiu escutar nada do que estava sendo dito perto do leito de Harry. Quando chegou perto, Cartwright dizia: 
       - ... prioridade  fazer com que o Presidente receba todos os cuidados mdicos. Em solo americano. Herb, o Presidente est em condies de voar? 
       - Sempre  um risco... 
       - Precisamos decidir, Herb. 

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       - A ida at o aeroporto me preocupa - hesitou o mdico. - Um helicptero seria melhor que um carro, se no for abatido. Tudo vai ficar bem quando entrarmos 
no Air Force One. A questo  que precisamos de um especialista... 
       - Harry vai poder ir tambm? 
        pergunta de Cartwright, a enfermeira transmitiu um olhar alarmado ao mdico. 
       - No - respondeu o mdico, e a enfermeira Kellgren concordou com a cabea. - Harry s vai poder ser removido depois que se operar. 
       - Tenente - dirigiu-se Cartwright a ela, recordando-lhe amavelmente sua patente nas foras armadas - a senhora se ofereceria para ficar com o agente Bok e 
lev-lo de volta assim que estiver melhor? 
       - Sim senhor. 
       - Sr. Secretrio - disse Cartwright formalmente - o senhor  o americano mais graduado aqui. Parece-me que a atitude mais sensata  tirar o Presidente daqui 
antes que acontea mais alguma coisa. 
       -  essa a sua recomendao? 
       - . 
       - Eu concordo - disse o secretrio. 
       - Agora depende do senhor - disse Cartwright - fazer com que Nikolayev cancele o sigilo e com que voltemos imediatamente para casa. 
       -  mais fcil dizer do que fazer. 
       - Agora, porm, o senhor tem uma carta para jogar - lembrou-lhe Cartwright - fornecida por nosso corajoso amigo aqui. Harry - virou-se para o agente - voc 
agiu segundo a melhor tradio do Servio. Voc vai ser um heri, e seu retrato vai ser pendurado em... 
       - Quero um cirurgio americano - disse-lhe Harry. 
       - Um cirurgio est a caminho, junto com um completo grupo de mdicos, incluindo equipamento - assegurou-lhe Cartwright. - Pouco antes de lhe virmos falar, 
fizemos uma chamada, a nica comunicao que os soviticos nos permitiram. Para o Hospital de Bethesda. Marcamos um encontro com uma junta mdica nos Aores. Um 
oftalmologista e mais um ou dois mdicos vo voltar conosco para os Estados Unidos; o resto deles vir para c examinar voc. J esto a caminho. 

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       - Um oftalmologista? 
       O Dr. Abelson acrescentou: 
       - O Presidente est com um problema de viso, Harry. 
       Aps um silncio, o agente disse algo que pareceu curioso  enfermeira Kellgren: 
       - E melhor chamar Hennessy. 
       - Que coincidncia voc dizer isso! - exclamou Cartwright. 
       - O Presidente disse as mesmas palavras logo depois de recobrar a conscincia. Mark Hennessy vai estar no avio, junto com os mdicos. 
       - Se Furmark estiver vivo - acrescentou Harry - ele deve encarregar-se da segurana. 
       - Ele j o fez. A enfermeira est nos enxotando, mas quero que voc saiba que pretendo recomendar que o Servio Secreto d o nome de Harry Bok  sua linha 
de tiro ao alvo, onde voc passou tanto tempo, aproveitou to bem. 
       - Falsificaes - murmurou Harry, o que fez a enfermeira pensar que ele estava perdendo a conscincia. Em seguida, a voz lhe voltou forte: - Herb, ele precisa 
que o fotografem de vez em quando. 
       - Eu sei - disse o doutor. - Vou providenciar. 
       No vestbulo do lado de fora da enfermaria, a enfermeira Kellgren disse ao Dr. Abelson que ele no tivesse certeza de que sua conversa no fora ouvida pelos 
russos, pois a acstica do quarto era muito estranha. O mdico, perturbado e nervoso, disse que passaria a informao. 


O SECRETRIO DE ESTADO 

       - Vamos embora agora, Vasily. 
       - No imediatamente. 
       O Secretrio de Estado sentiu uma onda de fria e no disse nada at passar a sensao. Estavam no escritrio da administrao do hospital, originalmente 
uma sala de espera do andar trreo do palcio do tzar, que o Ministro das Relaes Exteriores ocupara para servir-lhe de posto de comando. L em cima, o Presidente 
dos Estados Unidos jazia vivo, consciente, mas incapaz de ver, e necessitava dos melhores cuidados mdicos do mundo. No fundo do vestbulo onde ficava o quarto do 
Presidente, o agente Bok ocupava 

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uma grande sala. No se sabia exatamente suas condies, mas era provvel que estivesse paraltico. Tinham-lhe dado sedativos, e no sentia dor, mas precisava de 
um cirurgio em quem todos pudessem confiar. No andar de cima, sendo fotografados, estavam os cadveres do Secretrio-Geral sovitico Kolkov, de seus guardas, e 
os de seus assassinos chineses. 
       George Curtice olhou novamente para o relgio: era meio-dia e meia, hora de Yalta, trs horas desde a emboscada area, e uma hora e meia desde que o Presidente 
abriu os olhos e pronunciou suas primeiras e vacilantes palavras: "Estou vivo?" Mant-lo deitado l, sendo atendido por dois mdicos Soviticos desconhecidos e por 
seu prprio incompetente mdico pessoal, era uma situao impossvel. Igualmente ruim, a mais ou menos quilmetro e meio de distncia, a imprensa mundial esperava. 
Muitos jornalistas tomavam banho de sol na praia, desconhecendo inteiramente o assassnio do lder da Unio Sovitica e as condies crticas do lder dos Estados 
Unidos. Tanto quanto sabiam, os dois lderes haviam partido para desfrutar de agradvel almoo, e s deveriam aparecer em pblico para a sesso de fotografias s 
quatro e meia. 
       - Voc no pode manter o caso em segredo por mais cinco minutos - disse Curtice, controlando a voz. - A vida do Presidente vem antes de qualquer outra considerao. 
       - Concordo inteiramente - disse Nikolayev, sentado atrs da escrivaninha, e sem fazer qualquer movimento para pegar o telefone. - H, porm, dificuldades 
logsticas. Voc mesmo disse que ele no pode ser transportado por carro pelas estradas, e que seria preciso um helicptero. 
       - Voc tem helicptero no campo de pouso, eu os vi quando chegamos - insistiu Curtice. sabendo que o russo estava "fazendo hora". -  perigoso postergarmos. 
Voc. .. e eu o responsabilizo pessoalmente por isso... est pondo em perigo a vida do Presidente. 
       Nikolayev levantou-se. 
       - No diga algo que no  verdade. J ordenei o helicptero. J mandei que o aeroporto fosse interditado e mantido sob segurana. Preciso, porm, ter certeza 
absoluta de que os homens que costumamos usar para pilotar o aparelho so leais, e no aliados dos assassinos chineses. 
       - Quanto tempo isso vai demorar? 
       - Se representa proteo  vida do seu Presidente, o tempo  bem gasto. 

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       - No aceito isso. 
       Curtice sabia exatamente o que Nikolayev estava fazendo, e talvez, no seu lugar, tivesse agido da mesma forma: manteria a situao em sigilo e proibiria a 
divulgao de qualquer noticirio, at que seus companheiros lderes do Politburo pudessem ser informados e se decidisse o curso imediato de ao. Nikolayev estava 
sob enorme presso: a mais leve omisso, uma tomada de atitude contrria quela que os homens principais julgassem que deveria ser tomada provocariam contra ele 
acusaes de transgresses num momento crucial. 
       - Seu protesto formal  notado - disse o russo. 
       - Pelo amor de Deus, Vasily - Curtice quase gritou do outro lado da escrivaninha - isto no  nenhuma formalidade - ele tateou em busca das palavras certas, 
e terminou debilmente com um clich banal -  vida ou morte. 
       Mais do que isso, a reputao de Curtice dependia de sua capacidade de fazer com que eles sassem do local rapidamente e de obter a liberao das notcias. 
Todas as providncias, todos os momentos, todos os atrasos mnimos seriam analisados por reprteres e historiadores durante anos, e estava resolvido a no permitir 
que lhe imputassem a culpa. Sentiu uma picada na conscincia ao pensar em como ele pareceria mais tarde nessa situao, e voltou a fazer presso: 
       - Quanto mais voc ficar sentado nesse barril de plvora, pior ser a exploso quando se souber no que houve. Voc no compreende que s est piorando tudo? 
       - O Secretrio-Geral est morto - disse o Ministro das Relaes Exteriores. - Que pode ser pior do que isso? 
       Curtice achou melhor no rebater a pergunta, e Nikolayev respondeu  prpria pergunta: 
       - Sei que poderia se pior se seu Presidente tivesse morrido. Acontece que ele no est moribundo. No tocante  vida dele que, como diz voc,  de importncia 
fundamental, a necessidade de medidas de segurana  maior agora do que a de mdicos especialistas. 
       - No temos certeza de estarmos em segurana aqui - pressionou Curtice, enquanto uma expresso de inutilidade surgia no rosto severo de Nikolayev. 
       - Que me diz de um ataque ao hospital? Poderia acontecer. Poderia haver gente invadindo isso aqui a qualquer momento, voc no tem nem vinte homens protegendo 
o local. 

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       Isso era intil, Curtice sabia que era simplesmente tergiversao. O russo estava trabalhando num esquema de comunicaes, depois que as primeiras linhas 
de fora estivessem montadas, a histria seria divulgada, e o Presidente teria licena de partir. Os atrasos eram "inevitveis", e quaisquer objees seriam gentilmente 
ouvidas, mas ignoradas. E Nikolayev tinha uma vantagem: o primeiro negro americano Secretrio de Estado era novo no cargo e tinha de demonstrar calma e sangue-frio, 
sem estilo bombstico, na sua primeira crise. A exploso que talvez fosse tolerada num branco seria criticada num negro. Era uma vantagem sutil, mas o Ministro das 
Relaes Exteriores sovitico estava pronto para utiliz-la. 
       - O hospital est bem protegido - disse Nikolayev. - E o aeroporto est no processo de ser protegido. 
       - Quanto tempo de atraso? 
       O russo sacudiu a cabea. 
       - No  atraso. A logstica exige pelo menos quatro horas. 
       Curtice agarrou-se a esse pormenor como a uma arma, uma base de negociao. 
       - Quatro horas! Voc percebe o que est dizendo? Isso seria depois da hora combinada para a entrevista que os dois dariam  imprensa. Voc quer mentir  imprensa? 
Voc no compreende o pessoal da imprensa americana, eles... 
       - Compreenda meu problema tambm, George. 
       Nikolayev tentou criar um vnculo pessoal entre os dois, o que Curtice achou bem-vindo, a essa altura. 
       - As pessoas precisam ser preparadas para essa informao na Unio Sovitica. Vai ser um tremendo choque. Algumas cabeas quentes querero ir contra as potncias 
orientais, sem esperar nada. O atraso, como diz voc, o tempo necessrio,  no nosso interesse mtuo. 
       - Voc est enganado, Vasily - disse Curtice. Sua meno da reao da imprensa americana, que ele evocara como um ponto de debate, estava tambm comeando 
a impression-lo cada vez mais. - Todo minuto que passa  uma mentira. Quando a histria for divulgada, eles querero saber o que aconteceu depois da emboscada, 
como complemento da notcia. Seremos acusados de encobrir o que houve, ou de fazermos parte de uma conspirao; haver todo o tipo de desconfiana. Uma nota de pnico 
emergiu da voz de Curtice, sem nenhuma inteno. 

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       - Voc talvez no se preocupe com isso aqui, mas ns nos preocupamos. E Lucas Cartwright, que  um antigo funcionrio da Casa Branca, j conhece esse tipo 
de coisa, e diz que temos de sair daqui o mais rpido possvel. E voc me fala em quatro horas! 
       - Daqui a quatro horas sero quatro e meia, quando a sesso de fotografias est marcada. Podemos anunciar tudo ento. 
       Curtice tentou o expediente de incluir outra pessoa na argumentao. 
       - Se eu disser a Cartwright que temos de ficar aqui, com o Presidente em condies crticas, durante quatro horas, ele vai dizer isso ao Presidente, e garanto 
que este vai ficar furioso com voc e comigo. Se ele sobreviver, Vasily, no se esquecer disso, e eu s vou poder dizer que Vasily Nikolayev no pde afirmar sua 
autoridade num momento crucial. 
       O russo sacudiu raivosamente a cabea e disse: 
       - Quatro horas. Se voc explicar minha situao ao Presidente, ele compreender. Ele visualizar toda a problemtica, o que evidentemente voc no visualiza. 
Nada  mais importante do que a ordem estabelecida para evitar erros crassos. 
       Curtice deu um soco na mesa, em frustrao. Foi para o lado de Nikolayev, abriu umas duas gavetas, tirou duas folhas de papel um carbono. 
       - Voc quer uma nota oficial? Pois vai t-la. 
       Enquanto o russo observava friamente, Curtice escreveu, com sua caligrafia de letras aglomeradas: "Ao Governo da Unio Sovitica. Neste momento, doze e trinta 
e cinco da manh, hora de Yalta, ou seja, mais de trs horas depois do ataque ao Secretrio Kolkov e ao Presidente Ericson, os Estados Unidos protestam contra o 
deliberado" - Curtice pensou em acrescentar "despropositado" mas no quis arriscar-se a cometer um erro de ortografia - "atraso, pelo Ministro das Relaes Exteriores 
sovitico..."
       Nikolayev segurou-lhe a mo. 
       - Rasgue isso - disse. - Trs horas. Se voc no o rasgar, quatro horas. 
       Curtice no rasgou, mas deixou a nota sem terminar. Colocada na mesa naqueles termos, no era uma nota diplomtica nem uma garatuja sem nexo: no seu entendimento, 
era uma ameaa. Sabia que Nikolayev no poderia ser mais forado a nada, mas trs horas no satisfariam Cartwright nem o Presidente, e ele se preocupava cada vez 
mais, que seria crucificado pela imprensa americana por haver ocultado a maior notcia da gerao. 

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Curtice no conseguiu pensar em outra sada. Persuadiu-se de estar agindo no interesse de obter cuidados mdicos apropriados para o Presidente, e de divulgar os 
fatos. Jogou seu trunfo. Numa voz diferente e mais tranqila, disse: 
       - Acabei de vir da cabeceira da cama do agente do Servio Secreto ferido, Harry Bok. 
       Curtice andou at a janela e recordou-se de que suas palavras estavam provavelmente sendo gravadas, por isso as escolheu com cuidado: 
       - O agente Bok no est certo do que aconteceu em terra, quando os atacantes foram em cima dele. Sua insegurana  compreensvel, pois ele sangrava devido 
aos ferimentos de granada, e tudo estava acontecendo muito depressa. 
       Curtice fez uma pausa, para que o elemento de insegurana ficasse bem aparente: 
       - Continue - disse Nikolayev, traindo um nervosismo incomum. 
       - Ele no est certo - disse lentamente Curtice - mas parece que se lembra que o Secretrio Kolkov engatinhou-se at o Presidente, que estava inconsciente 
na vala. Ele acha que se lembra do corpo do Secretrio em cima do do Presidente, servindo de escudo com seu prprio corpo. 
       - Ele se lembra disso? 
       Parecia que Nikolayev estava avaliando mentalmente as possibilidades. 
       - Sua memria est meio nebulosa, afinal de contas, o agente sente dores, e est parcialmente sob a ao de sedativos. Quando melhorar, pode ser que se lembre 
de que o Secretrio Kolkov teve uma morte herica, ao salvar a vida do Presidente Ericson. Ou - era atraente para o Ministro das Relaes Exteriores. Se Kolkov morresse 
como heri, ento Nikolayev, o sucessor escolhido de Curtice deu de ombros - se lembrar de que o Secretrio simplesmente morreu. 
       Ele deixou que o russo raciocinasse. Curtice sabia que sua oferta Kolkov, ficaria fortalecido na Unio Sovitica. O Secretrio de Estado americano no podia 
saber as maquinaes que ocorriam em Moscou naquele momento, nem o peso relativo da necessidade de se esperar, em comparao com o fato do herosmo de Kolkov. Curtice 
preocupou-se em que talvez Nikolayev quisesse desacreditar Kolkov, e que no desejaria qualquer meno a herosmo. 
       - Duas horas - disse Nikolayev. 

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       - Imediatamente - retrucou Curtice. Havia vencido. 
       - Trinta minutos. 
       - Certo. 
       Estendeu a mo; Nikolayev apertou-a e pegou o telefone. Deu algumas ordens em russo, presumivelmente a mdicos, e fez uma chamada para Moscou. 
       - Diga a seu Presidente - disse Nikolayev - que sua cama ser levada para o gramado fronteiro do palcio em exatamente meia hora. Uma ambulncia, um helicptero, 
o pegar e o levar ao Air Force One, que ser liberado para levantar vo logo que chegue o Presidente. 
       - E a imprensa? 
       Nikolayev rejeitou a idia. 
       - Fale com seu Secretrio de Imprensa, e mande-o procurar Mishnikov. Tenho melhores coisas com que me ocupar na prxima meia hora. 
       Curtice apanhou a cpia da nota que minutara, amassou-a e a ps no bolso. Andou apressado pelo vestbulo at a escada e da ao quarto do Presidente. Os vestbulos 
estavam silenciosos e seus passos ecoaram. De alguma forma - pensou ele - as multides deveriam estar se reunindo, barricadas sendo montadas, passes sendo exigidos. 
Ser que a notcia s foi realmente conhecida quando divulgada, ou na ocasio do acidente? Um guarda solitrio o deteve  porta do Presidente; num segundo, saiu 
um americano, e se identificou: 
       - Furmark, chefe interino da segurana da Casa Branca, Sr. Secretrio - disse, e esperou Curtice dizer o que queria. 
       - Posso entrar? 
       - Vou perguntar, senhor. 
       -  importante. 
       - Claro. Vou perguntar. 
       O agente entrou e fechou a porta. Curtice inspirou fundo, expirou, e refletiu que era bom haver tanta segurana em torno do Presidente, mas, pelo amor de 
Deus, ele era o Secretrio de Estado, e acabara de negociar a liberao do Presidente. 
       Lucas Cartwright saiu do quarto. 
       - O senhor conseguiu liberar-nos, Sr. Secretrio? 
       - Gostaria de contar ao Presidente, Sr. Cartwright. 
       - Ele, bem, sei que ele quer v-lo, mas me pediu que lhe viesse perguntar o que houve. 

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       Estranhou o Presidente no querer v-lo. O Secretrio de Estado interpretou essa atitude como querendo dizer que ele era um instrumento, um acessrio do poder, 
sem nenhum lugar no centro. Suas boas notcias lhe amargaram a boca. 
       - No  hora para visitas - admitiu ele. - Lucas, o truque deu certo. Nikolayev queria paralisar tudo at o final do dia, mas a possibilidade de o agente 
se lembrar de que Kolkov era um heri fez com que mudasse de deciso. Diga ao pessoal do Servio Secreto que os mdicos levaro o Presidente at o gramado fronteiro 
e o poro no helicptero s duas e trinta e cinco. 
       - timo trabalho, George - disse Cartwright com sinceridade. Curtice desejou que o entusiasmo do chefe da Casa Civil se transmitisse ao Presidente. - Voc 
pode esperar aqui um momento? 
       Curtice no tinha para onde ir. Ficou andando para l e para c enquanto o chefe da Casa Civil consultava o Presidente. Rememorou as razes pelas quais devia 
ter sido impedido de entrar no quarto. Por que era negro? No, isto seria, no mnimo, uma vantagem. Curtice fora nomeado para o cargo porque Ericson no s queria 
um negro no Gabinete, como tambm nas Relaes Exteriores, para que ele pudesse ser mais duro ao fazer exigncias s naes africanas. Por que no era ntimo h 
muito tempo de Ericson? Isso tambm no seria razo: Cartwright estava l dentro com o Presidente, e Curtice vira como Cartwright fora humilhado pelo desejo do Presidente 
pela presena de Mark Hennessy, seu advogado. Quando ficou difcil para Curtice pensar em Cartwright se interpondo entre o Secretrio de Estado e o Presidente, o 
ressentimento de Curtice se aplacou. O nico motivo que restava para sua expulso do quarto do hospital do Presidente era o desejo deste de no o ver, e Curtice 
no estava disposto a enfrentar esse fato diretamente. Achou mais provvel que Ericson estivesse deitado, perturbado e confuso pela falta de viso, e no quisesse 
nenhuma outra presena a seu redor. 
       O Secretrio de Estado parou de andar, cruzou os braos, e se apoiou na parede em frente  porta do quarto do Presidente. Ocorreu-lhe que podia ser muito 
mais til no como algum simplesmente participante da viagem de volta aos Estados Unidos, e sim aqui, na Unio Sovitica, na Casa Spaso, a embaixada americana em 
Moscou. O embaixador americano era um funcionrio do Ministrio das Relaes Exteriores que no gozava da confiana do Presidente. Seria importante ficar no pas 
durante a poca mais delicada de provao de Nikolayev: isso poderia cimentar um relacionamento

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que talvez fosse til. E - depois das primeiras informaes aos reprteres aqui, em alguns minutos - ele estaria fora do fluxo de notcias. A reao inicial da imprensa 
seria de pressa, para enviar a histria; a segunda, que ele preferiria at perder, seria de raiva contra os que esconderam o acontecido por tanto tempo. 
       Cartwright saiu do quarto: 
       - O Presidente est pessoalmente muito agradecido, Sr. Secretrio. Suas exatas palavras foram "Sabia que podamos contar com Curtice". 
       O Secretrio, embora sem querer, ficou orgulhoso dessas observaes transmitidas por um terceiro, possivelmente at inventadas por esse diplomtico assessor. 
       - A propsito - acrescentou Cartwright - no achei que fosse a ocasio de contar ao Presidente sobre Bok, inclusive as providncias tomadas por voc etc. 
Quando o Presidente estiver melhor, podemos contar-lhe tudo. 
       Curtice teria preferido receber aprovao presidencial de sua idia de encorajar as recordaes de Bok no sentido de tornar Kolkov herico, mas no podia 
realmente insistir em nenhuma deciso a ser dada por um Presidente ferido e sofrendo. Contou a Cartwright sua inteno de ficar na Rssia durante a crise ps- assassinato, 
desde que Nikolayev o quisesse l. 
       - Boa idia - disse Cartwright, que estava evidentemente tomando todas as decises. - Voc  o americano mais graduado presente. 
       Curtice gostou da idia de Cartwright dizer aquilo, o que era apenas formalmente verdadeiro. 
       - Tudo que voc resolver sobre sua permanncia ser feito. 
       - E a imprensa? 
       - Sinto-me como uma grande, pesada e escura nuvem - suspirou o grisalho Cartwright - que ainda no pde fazer chuva. Vamos usar o telefone no escritrio de 
Nikolayev. 
       - Quem est com o Presidente? 
       - Melinda. E o agente Furmark, que assumiu o lugar de Bok. 
       Desceram rapidamente as escadas e receberam permisso de um assessor do Ministro das Relaes Exteriores sovitico para usar o telefone para chamar James 
Smith, o Secretrio de Imprensa, com a recomendao de que seria concedida uma entrevista  imprensa, mas que nenhuma informao poderia ser transmitida a 

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respeito at as treze e trinta. O assessor sovitico pegou abertamente na extenso para assegurar-se de que suas instrues seriam seguidas. 
       Smitty? Escute cuidadosamente. - Cartwright foi explcito. - Convoque uma coletiva com a imprensa no hotel s treze e trinta, isto , daqui a quinze minutos. 
Lamento ter de interromper a folga, mas o pessoal vai ter de se reunir aqui, pois o assunto no pode mais ser adiado. No posso dizer-lhe do que se trata; estou 
sob restries. O Secretrio de Estado dar as informaes. No, eu no vou estar presente. A sesso de fotos? Est cancelada. Desculpe, mas voc saber na reunio. 
Olhe, Smitty, sei exatamente como se sente, mas  assim que tem de ser. Espere. 
       O chefe da Casa Civil cobriu o bocal com a mo. 
       - Ele deve dizer a Mishnikov que Nikolayev tambm comparecer? 
       Curtice lhe fez um sinal para esperar, foi  sala onde o Ministro das Relaes Exteriores falava em russo rpido num telefone antigo e interrompeu dizendo: 
       - Voc vai comigo  reunio? 
       Nikolayev continuou a falar e fez sinal com a cabea que sim. Curtice sorriu ligeiramente  vontade do russo de certificar-se de que a histria do herosmo 
de Kolkov seria divulgada, mas tranquilizou-se por no precisar agentar sozinho a saraivada de perguntas. Curtice voltou a Cartwright, que pacientemente explicava 
por que no podia revelar nada a Smitty, e assentiu com a cabea. 
       - Concluindo - disse Cartwright - o Ministro das Relaes Exteriores sovitico se juntar ao secretrio na reunio.  uma e meia em ponto. E providencie para 
que haja alguns nibus no local. Agora um cunho pessoal: espero que voc no tenha desfeito as malas. Sim. Olhe, Smitty, prepare-se para alguma coisa. Certo? Adeus. 
       Curtice voltou a Nikolayev. 
       - O Presidente me solicitou - disse a seu equivalente russo - que lhe dissesse de minha disposio de permanecer na Unio Sovitica, se isso lhe for til, 
por alguns dias. 
       - Por que ele quereria me ajudar? 
       Nikolayev no parecia evidentemente ansioso para dever um favor aos americanos. 
       - Esquea a idia, ento. 

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       -  uma boa idia do Presidente - disse o Ministro das Relaes Exteriores - mostrar que nossos dois governos esto trabalhando unidos para descobrir quem 
fez isso e por qu. Alm de ser uma demonstrao de confiana pessoal em mim. 
       Ele sufocou as ltimas palavras: 
       - Estou grato, George. Voc ir a Moscou no meu avio, depois que o Presidente sair daqui. 
       Curtice achou que ao dizer "meu avio", Nikolayev quis dizer o avio de Kolkov. O poder tinha de ser passado, e era no interesse dos Estados Unidos que passasse 
para algum conhecido pela Administrao de Ericson. Ele assentiu com a cabea e voltou a Cartwright: 
       - Vou ficar por aqui - informou ao chefe da Casa Civil. 
       - O Ministro precisa de mim aqui. 
       - O Presidente vai lhe agradecer por isso - disse o assessor. Curtice sabia que isso era verdade; Ericson no fazia muita questo de ter seu Secretrio de 
Estado por perto, mas a melhor razo era que Curtice provavelmente poderia ser mais til ao ajudar a faco pr-Nikolayev com sua presena. Com o veterano Cartwright 
e o Secretrio de Defesa Preston Reed, o Presidente disporia do necessrio assessoramento de poltica exterior em Washington; depois que o posto de assessor da segurana 
nacional fora eliminado no incio da Administrao de Ericson, grande parte da rivalidade burocrtica havia temporariamente diminudo. 
       - Voc no deve aludir a essa possibilidade na sua reunio com a imprensa - disse Cartwright - mas, se for preciso que o Presidente se afaste temporariamente 
do cargo, eu aviso logo a voc. 
       A idia de que o Presidente talvez tivesse de deixar o cargo como incapacitado j ocorrera a Curtice, mas ele a rejeitara depois que Ericson recobrou a conscincia. 
Estaria o Presidente realmente em boas condies? Ele s tinha a palavra de Cartwright em que confiar. A possibilidade de um governo nas mos do Vice-Presidente 
Arnold Nichols o aterrorizou. 
       - Deus salve o Presidente! - disse Curtice a Cartwright, com toda a sinceridade. Foi apanhar Nikolayev para depois darem a notcia da emboscada ao mundo. 


O MDICO DO PRESIDENTE/1 

       H sete horas longe de Yalta, o Air Force One comeou a descer em direo ao Campo de Lajes, nos Aores americanos. 

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O Dr. Herbert Abelson estremeceu nervosamente quando a cigarra de seu relgio de pulso disparou. Prometera a Sven Ericson que o acordaria meia hora antes da chegada, 
e s assim o Presidente tomara o analgsico de que precisava. 
       Ele calcou a cigarra com fora at que ela parou de tocar. Eles tinham dado ao mdico do Presidente um relgio todo incrementado que dizia a hora no mundo 
inteiro, brilhava, tocava cigarra, contava as batidas do corao e media a presso do sangue. Eles deram ao Presidente e sua comitiva a aterragem mais suave cio 
mundo, pois o piloto fora treinado para tocar o centro de energia de vo no concreto como se estivesse pousando num campo cheio de ovos quentes, e era melhor para 
sua "sade" que ele no cometesse o pecado de bater com fora desta vez, com a cabea de Ericson ainda em semiconcusso. E deram a homens como Abelson lceras, hemorridas 
ou um tique no olho, enfim, algum tipo de lembrete fsico de que as presses de seu cargo so excessivas para que pessoas normais possam lidar com elas sem nenhuma 
evidncia tangvel de deteriorao. Com Herb Abelson, o problema fora, hemorridas; ele mudou de posio e gemeu. 
       Ele errara ao aceitar esse cargo, pensou. Era exatamente o tipo de vida que decidira no viver, razo pela qual h alguns anos deixara de clinicar em favor 
de uma vida mais metdica de redator mdico. Nunca deveria ter deixado Ericson convenc-lo a entrar na vida poltica. O candidato dissera: 
       - Venha logo, Herb,  s durante a campanha. Voc vai presenciar de dentro o jogo do poder,  fascinante. 
       E o coordenador da campanha, aquele sacana do Leigh, lhe havia assegurado que: 
       - A nica coisa que voc vai precisar dar a ele sero aspirinas e comprimidos contra resfriado. 
       Abelson continuou a pensar: "E eu, como um idiota, entrei nessa". 
       O redator de uma vitoriosa revista mdica mensal jamais deveria ter permitido ser colocado na posio de ter de lidar com corpos humanos de carne e sangue, 
especialmente - Abelson sacudiu lentamente a cabea - olhos. Sven Ericson, seu colega de universidade, que com ele dividira um quarto, j na faculdade fora um "cara 
de pau", e usava os colegas com a maior facilidade. Ericson continuava a us-lo; ele, em troca, lhe estava prestando um desservio. Abelson se acusou de que o Presidente 
dos Estados Unidos estava com problemas porque recebera cuidados 

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mdicos inadequados. Mexeu-se novamente no assento. Tinha de manter a promessa de acordar o Presidente a tempo de ele recobrar sua atitude antes que a junta mdica 
viesse a bordo. 
       Para Abelson, a parte mais intolervel da situao era sabei que apenas ele, de todas as pessoas em redor do Presidente, estava a par do pior aspecto do problema. 
No o aspecto mdico, mas o aspecto poltico. Com Harry Bok imvel em Yalta - pobre sujeito, nunca mais andaria - s Herb Abelson carregava o peso do conhecimento 
culpado. Tinha de partilh-lo, no o toleraria sozinho. Por isso ansiava por ver Hennessy, junto dos mdicos, em Lajes. Transmitiria o segredo poltico a Hennessy 
e ento a responsabilidade j no estaria em suas mos. Depois comunicaria o segredo mdico  junta de Bethesda, para que a responsabilidade mdica pelo paciente 
ficasse onde devia. 
       O mdico dirigiu-se ao local de dormir do Presidente e o encontrou j sentado na cama. 
       - Voc est acordado - disse, e pensou que falara bobagem, mas depois achou que nem tanto, porque anunciara sua presena a um homem que no podia ver. 
       Ericson sentia dor. O cenho estava franzido, os olhos fixavam o vacuo, e os dedos tocavam ligeiramente as gases em volta da cabea para verificar se estava 
muito cheio de panos. 
       - Estou um pouco tonto e enjoado, e minha cabea di - informou. 
       O doutor observou que ele estava lcido; as queixas foram discriminadas. 
       - Voc tem sorte de estar vivo, Sven. 
       - Tem razo. Como est Harry? 
       - Vai ficar bem. 
       Abelson no achava que fosse a ocasio certa para falar da paralisia; o Presidente j tinha bastante com que se preocupar. 
       - Ns o deixamos l no hospital, com aquela grande enfermeira loura, e vamos enviar mdicos. 
       Houve silncio. 
       - Est bem, Herb, que  que voc acha? - perguntou o Presidente, O mdico passou a mo em frente aos olhos do Presidente algumas vezes. Ele no piscou. 
       - Voc est fazendo vento em frente ao meu rosto, Herb. Que  que voc acha? 

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       - Voc consegue distinguir o escuro do claro, quero dizer, a janela  sua esquerda, h muito sol, mas aqui est mais escuro. Voc consegue distinguir a diferena? 
       - No consigo ver nada - disse o Presidente - droga nenhuma. 
       - J vamos aterrar nos Aores - disse Abelson rapidamente - e o oftalmologista de Bethesda est l nos esperando. Teremos um diagnstico, e saberemos bastante 
mais do que agora. Uma concusso como essa pode levar uns dois dias, depois voc vai ficar novo em folha. 
       - Quanto tempo durou da ltima vez? 
       - Quarenta e uma horas. 
       - Dura mais da segunda vez? 
       - Por Deus, Sven, quisera saber - disse o mdico. - Como foi mantido em segredo, eu tive medo de ficar perguntando.  um campo muito especializado, um ramo 
totalmente diferente da medicina... 
       O Presidente fechou os olhos e concordou com a cabea. 
       - Esse mdico de olho que vem a bordo, pode-se confiar nele? 
       - Nunca o vi mais gordo. Foi ele que Bethesda mandou, deve ser bom. 
       - Discreto? 
       - Quem sabe? Voc quer dizer que no deseja que ele divulgue que voc no est enxergando? Suponho que possamos mant-lo calado por algum tempo, mas quando 
fazemos com que um oftalmologista voe at aqui para ver voc, poxa, isso se espalha. E eu tinha de cham-lo, porque talvez haja alguma coisa que precise ser feita. 
Ainda perco o sono quando penso na ltima vez. 
       - No  isso que quero dizer - explicou o Presidente. - Teremos de contar a verdade sobre minhas condies quando aterrarmos em Andrews. De modo natural, 
diremos que  apenas o efeito temporrio da concusso. E que em alguns dias j estarei bom. O problema no  esse. O problema  a ltima vez. 
       - Voc est me dizendo que no quer contar ao doutor sobre a ltima vez? 
       - S se for indispensvel, Herb. 
       Ele alcanou o jato de ar fresco, brincou com ele e dirigiu o ar para o rosto: 

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       - O que preciso saber de voc  o seguinte:  muito importante para a elaborao do diagnstico que ele saiba o que houve a ltima vez? 
       Abelson era o primeiro a admitir que no sabia muito sobre medicina, mas sabia o suficiente para determinar o valor da histria dc, paciente a um mdico no-familiarizado 
com o caso. 
       -  muitssimo importante que ns lhe contemos que isso j aconteceu antes, h apenas seis meses, sob circunstncias semelhantes, e que voc ficou bom em 
quarenta e uma horas. Poderia afetar o seu tratamento. De outra maneira, ele estaria caminhando s cegas... 
       Abelson comeou a dizer "se voc me perdoar a expresso", mas parou no "se". 
       - Eu perdo a expresso, Herb. Deus, como me di a perna! 
       - Vou dar-lhe um analgsico. 
       Ericson comeou a balanar a cabea, o que o fez tremer, e disse: 
       - No, agora no. No posso estar dopado quando eles falarem comigo. Que  que a imprensa sabe? 
       - No muito. Sabe que voc tem uma concusso, e um problema com os olhos. Ns deixamos tudo muito vago: pode ser um problema de acomodao da vista, ou outra 
coisa qualquer. Foi isso que Cartwright instruiu a Curtice para dizer aos jornalistas. 
       - timo. Quanto menos, melhor. 
       - Smitty disse que eles esto possessos por no terem um pool neste avio. Os avies da imprensa nos esto seguindo, e estaro aqui em mais ou menos meia 
hora, quando devemos estar prontos para partir novamente rumo a Andrews. 
       Abelson se prometeu que, aps chegar  Base Area de Andrews, iria para casa e ficaria sem fazer nada por uma semana. 
       - Mande Curtice entrar. 
       Para o mdico isso foi perturbador; o Presidente esquecera que Curtice ficara na Rssia com Nikolayev. Abelson lhe lembrou, e acrescentou  sua apreenso 
o fato de se esconder da junta mdica a experincia prvia de Ericson com a cegueira, no trem de campanha, h menos de um ano. 
       - No lhes diga uma palavra, Herb. Sei o que estou fazendo. No quero insinuaes, nada. Nunca. Vamos recapitular sobre quem mais est a par do caso. 

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       - Buffie estava no compartimento com voc. Ela sabe, e tem se portado muito bem a respeito. Voc e eu sabemos. E Harry Bok. E aquele sacana do Leigh sabia. 
S esses. 
       Depois ele mencionou os nomes das pessoas que provavelmente deveriam ter sido informadas, mas que no o haviam sido. 
       - Nada foi dito nem mesmo a um oftalmologista. Cartwright, Hennessy, Smitty, Melinda: nenhum deles sabe, eu no disse nada. 
       - Continue assim - disse o Presidente, num tom de ordem presidencial. - Vou contar a Hennessy sobre a ltima vez. Pensando bem, conte-lhe voc, Herb, quando 
Hennessy vier a bordo agora. E Herb - ele buscou atrs de si um travesseiro, e o mdico moveu-lhe a cabea para lhe dar o apoio que queria - se voc tiver perguntas 
sobre o que deve fazer, e no conseguir entrar em contato comigo por algum motivo, trabalhe com Hennessy. - O Presidente respirou fundo para combater a nusea. - 
Ele  minha pessoa de confiana total, meu honcho nesse caso, ningum mais. Onde est a moa? 
       Abelson engoliu em seco. 
       - Ela est no avio da imprensa. Acho que Buffie no contou nada sobre a ltima vez, ou teramos sabido pelo rdio. Smitty est aqui conosco, em contato com 
eles. 
       O Presidente disse: 
       - Ningum sabe que estou cego ainda. 
       Era a primeira vez em que usava a palavra - observou o mdico - mas no pareceu perturbado. 
       - A primeira oportunidade que voc tiver, Herb, diga-lhe para no contar nada sobre a ltima vez. 
       Abelson assentiu com a cabea. 
       - Voc faz isso para mim? 
       - Fao, Sven - disse o mdico em voz alta. 


O CONSELHEIRO ESPECIAL 
       
       Hennessy subiu de dois em dois os degraus da rampa  frente da junta mdica, e deu de cara com Melinda McPhee. 
       - Nunca pensei que ficaria contente de v-lo - disse ela sobriamente. 
       - E o Chefe? 
       - Ele no consegue enxergar. 

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       O peito de Hennessy se contraiu. 
       - Est cego? 
       - No consegue enxergar, s isso. 
       A voz dela, assim como seu rosto, estavam rigidamente controlados. Hennessy olhou para trs: os mdicos estavam mostrando seus passes de Bethesda, um a um, 
e Furmark cuidadosamente comparava as fotos com os rostos  sua frente.  medida que cada homem era liberado, era mandado para a parte superior do jumbo, para a 
sala de reunies, e no para a cabeceira do Presidente. Isto significava que as condies do Presidente no eram crticas. No meio do Atlntico, Hennessy e os demais 
no avio mdico haviam escutado os primeiros noticirios sobre a emboscada em Yalta, a morte herica de Kolkov, e os ferimentos de Ericson, cuja dimenso no era 
conhecida. Fora anunciado que o Air Force One estava voando de volta a Andrews, mas a breve parada nos Aores para pegar a junta mdica no fora mencionada, presumivelmente 
por razes de segurana. 
       Durante as duas horas de espera pela chegada do Presidente no Campo de Lajes nos Aores, Hennessy havia andado para l e para c na pista de macadame do aeroporto, 
com um pequeno rdio na mo, tentando deduzir o que acontecera. As frases usadas pelo Secretrio Curtice na entrevista  imprensa foram: ". . . ferimentos no crnio". 
.. ". . . laceraes". .. ". . . recobrou a conscincia. . ." ". . . possvel concusso. . ." ". . . problema com os olhos". Se o "problema" no fosse srio, no 
teria sido citado; o fato de t-lo sido provava, para Hennessy, que Curtice estava diminuindo a importncia do fato, e que era essa a razo para o oftalmologista. 
Qual a razo para se haver chamado Hennessy? O advogado raciocinou que ele era o homem que levava a Carta. Todos os Presidentes haviam escrito acordos com os Vice-Presidentes 
sobre a transferncia de poder em situaes de emergncia, a serem utilizados antes que algo to drstico quanto a Vigsima Quinta Emenda fosse mesmo examinado. 
Se queriam Hennessy, queriam-no com a Carta, para certificar-se de que ele no a entregasse prematuramente. Bateu de leve no volumoso original assinado por Ericson, 
colocado em seu bolso do palet, enquanto caminhava pela pista de macadame e olhava impertinente para o mais desolador conjunto de pedras e penedos que j vira no 
mundo, aborrecido por no haver sido logo de incio convidado para participar da viagem com o Presidente. 
       Herb Abelson, o mdico do Presidente, chegou por trs de Melinda, agarrou Hennessy pelo brao e o empurrou para as 

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escadas que levavam  sala de reunies no bojo da parte fronteira do jato. 
       - Primeiro conto o que sei aos mdicos - disse Abelson - e depois preciso v-lo a ss imediatamente. 
       - Gostaria de ver o Presidente enquanto voc est informando aos mdicos, Herb. 
        beira da histeria, Abelson quase gritou: 
       - Fique comigo! 
       Engoliu em seco, e disse: 
       - Preciso contar-lhe umas coisas antes que voc veja Sven. No sei que merda devo fazer. Voc est aqui por uma razo, e tem de ficar grudado em mim, entendeu? 
       Hennessy comeou a preocupar-se com os cuidados mdicos que Ericson tinha estado recebendo - ou no - desde a emboscada, e deixou-se guiar at o local onde 
a junta mdica estava reunida. O primeiro problema era acalmar Abelson para que ele pudesse dar informaes explcitas, e no comunicar ao mundo que o mdico do 
Presidente estava uma pilha de nervos. 
       - Melinda disse que voc tem estado sensacional, Herb - sussurrou-lhe, como se para uma testemunha. - Agora se acalme e d-lhes os fatos precisos. Depois 
disso a responsabilidade  deles. 
       - As drogas das minhas mos esto atadas - replicou o angustiado mdico. Respirou fundo, olhou em volta para os inmeros mdicos e enfermeiras apinhados na 
sala com Melinda, Smitty, Cartwright e Hennessy, e pareceu mais dono de si. 
       - A emboscada aconteceu s 9:19 da manh, hora de Yalta, e 2:19 da noite, hora de Washington, isto , h nove horas e meia atrs. 
       Todos os lpis comearam a escrever, e Hennessy observava soturnamente, enquanto cada um dos mdicos presentes comeou a tomar notas para alguma publicao 
mdica. 
       Abelson continuou: 
       - Isto  o mais prximo que posso reconstruir do que houve. No desastre o Presidente sofreu um golpe na tmpora direita, a um centmetro do couro cabeludo, 
e comeou a sangrar profusamente, devido a um ferimento de nove centmetros no crnio. Ao ser arrastado para fora do helicptero pelo agente Bok, ele recebeu pequenas 
contuses nas mos e pernas. A exploso de uma granada fez com que um pedao de estilhao se incrustasse no tornozelo de sua perna direita. 

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       O mdico exibiu vrias fotografias de um documento de uma pgina e as distribuiu. 
       - Este  um relatrio feito por mdicos soviticos. A parte escrita  mo por eles est em cima, e a traduo est datilografada embaixo, O texto descreve 
a retirada do estilhao, a sutura do ferimento no crnio e a hora em que o Presidente voltou a si, s 11:40, duas horas e vinte minutos depois do desastre. 
       - E o raio X? - perguntou um mdico, provavelmente o que, segundo deduziu Hennessy, trouxera todo o equipamento de raio X. 
       - Estou com as chapas aqui - disse Abelson, e depositou trs compridos negativos de celulide na mesa, imediatamente examinados pela maioria dos mdicos. 
       - O relatrio no menciona o principal problema que o Presidente enfrenta agora, isto , ele, bem, no consegue enxergar. Suponho que tenham omitido isso 
por razes de segurana. 
       - No aparece nenhuma penetrao do crnio nem fratura nestas chapas - disse um mdico. 
       - E a presso sangunea? - perguntou outro. Hennessy sentiu vontade de gritar-lhes que o Presidente estava em tima forma, exceto pelo fato de estar cego. 
Por que no faziam perguntas sobre isso? Eles prosseguiam, irritantemente, tomando notas sobre temperatura, presso sangnea, e at sobre um exame de urina feito 
no hospital. Abelson manteve-se firme: ele sabia as respostas. 
       Finalmente, o oftalmologista que Hennessy julgara com jeito afeminado perguntou: 
       - Ele tem alguma percepo de cor? 
       - Ele diz que no - respondeu Abelson - mas talvez no saiba o que procurar, o senhor vai ter de determinar isso. 
       - Tem problemas de audio? 
       - No. 
       - Alguma concusso anterior? - perguntou o mdico de olhos. Abelson abafou um suspiro e estudou sua pasta, para responder depois: 
       -  certo que nunca antes tivemos um Presidente cego. O senhor quer v-lo agora? 
       O homem mais graduado da junta, num uniforme de capito, disse: 
       - Preparamos uma seqncia de exames. Primeiro o crebro, depois o corao, os olhos, e em seguida os outros. No mximo 

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trs de ns estaremos junto ao Presidente de cada vez. Podemos transmitir os resultados dos exames a Bethesda, o que nos dever dar uma boa vantagem para quando 
ele chegar. 
       O grupo se levantou e seguiu Abelson pela escada em espiral at os aposentos do Presidente. Hennessy, que vinha atrs, escutou o oftalmologista dizer: 
       - Se tivssemos sabido antes, teramos trazido um neurocirurgio. 
       O advogado do Presidente comeou a dirigir-se a Cartwright, para "mandar brasa", na linguagem da Casa Branca, mas o Dr. Abelson, que voltava do quarto, agarrou-se 
novamente ao brao de Hennessy. 
       - Voc precisa saber de uma coisa - disse Abelson, com um sentido de urgncia na voz. Os dois procuraram um lugar para falar  vontade, mas seus assentos 
ficavam numa cabina com outros nervosos assessores e agentes, e alguns dos mdicos permaneceram na sala de reunies. Abelson empurrou Hennessy para a "copa" e expulsou 
a comissria. 
       - O Presidente tem um problema - comeou Abelson estranhamente, e parou. 
       - Esse negcio da cegueira - disse Hennessy. 
       - No, quer dizer, s Deus sabe que  um problema, mas existe outra coisa que no era importante antes e que torna as coisas piores. Voc se lembra do trem 
da campanha em setembro, a grande idia do sacana do Leigh para que se voltasse a fazer poltica ao velho estilo? 
       Hennessy lembrava-se bem: numa era de spots na televiso, de jatos, e de se chegar s pessoas atravs de tubos de plstico, tinha sido considerado "inteligente" 
adotar-se os meios mais tradicionais de fazer campanha poltica. O passeio de trem forneceria material novo para os spots na televiso, alm de ser um assunto sobre 
o qual o candidato falaria nas paradas do avio a jato que utilizasse para percorrer o pas. Arthur Leigh, o gerente da campanha, conhecido como "o sacana do Leigh", 
denominou o trem de "minha mudana de ritmo". Ele escolhera Ohio, um estado "quente" que dispunha de boas facilidades de comunicao, como o pano de fundo para o 
"desfile de apitos" de Ericson. A experincia fora incrivelmente cansativa para todos: quatorze horas num trem especial, sacudindo e chacoalhando num pssimo leito, 
de estrada, com a maioria da comitiva amontoada em compartimentos menores do que a cabina do avio ou o habitual quarto de hotel. Tudo isso dera nos nervos do pessoal. 
A encenao fora uma perda de 

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tempo. As equipes de televiso tinham dificuldade em enviar seus filmes de lugares como Lima, Ohio, e a imprensa escrita - estragada pela constante disponibilidade 
de meios de comunicao em toda a campanha - "meteu o malho" no trem. 
       - Voc se lembra de que cancelamos a ltima parada do trem - relembrou Abelson - e demos uma desculpa qualquer sobre laringite? 
       Hennessy relembrou aquele perodo, h menos de ano, mas numa outra vida. Aquele sacana do Leigh, que disfarava a falta de inteligncia com algo que Hennessy 
sempre considerara uma exagerada reputao de demagogo, insistira na necessidade da apelao popularesca. Ele disse que a imagem de Ericson era de algum muito sofisticado 
e indiferente: 
       - Temos um arrogante professor de economia - grunhia Leigh - um homem divorciado, um governador que assumiu de pura sorte e parece que est abusando dela, 
e um homem que espera que as pessoas compreendam palavras complicadas. Temos de tentar desfazer essa imagem, mostrar que ele no faz parte do "caf-society". 
       Quando Hennessy duvidou desse ponto de vista, pois era contra essa falsa demagogia por razes prticas de que Ericson perderia votos nas reas em que era 
mais popular, Leigh teve uma resposta algo mais sutil: 
       -  uma questo de respeito. Ele pode ser requintado, desde que no ostente sua sofisticao. Ele pode trepar com todas as donas boas que quiser, desde que 
no se vanglorie disso. Os eleitores apreciam um lder mais inteligente do que eles, de mais sorte do que eles, mais rico do que eles, e que trepe mais do que eles, 
mas querem que ele os respeite. Querem que reconhea que eles so os chefes, e reverencie suas convenes sociais. A maioria deles sabe que  uma coisa forada isso 
de ele andar num trem antiquado, a maior parte sabe que  umas das maneiras pelas quais um ricao metido a besta age para agrad-los. O fato, porm, de que ele os 
bajula  importante,  democrtico. 
       Hennessy achava que isso tudo era uma merda, e o disse; quando a campanha terminou, ele fizera questo de mostrar a Ericson que havia certos assuntos duvidosos 
no passado de Leigh que poderiam trazer embaraos  Administrao de Ericson. Ele tinha jogado Leigh para escanteio, e esperava ganhar sua posio, mas Ericson queria 
uma alma inofensiva e com percepo do Establishment de Washington, algum como Cartwright. A insinuao de Abelson provocara essa torrente de idias em Hennessy; 

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o advogado no conseguia ver a relevncia do assunto nessa ocasio, e o disse ao mdico. 
       -  um bocado relevante, conselheiro - disse o mdico. - Voc se lembra de que cancelamos a programao para os dois dias seguintes enquanto o candidato se 
recuperava de uma laringite? 
       Hennessy assentiu com a cabea, e achou que se Abelson ia comear a recapitular coisas, era melhor que ele tomasse um drinque. Comeou a vasculhar com a vista 
os pequenos compartimentos da copa do avio, e s encontrou pacotinhos de amndoas e nozes. 
       - Bem, no era laringite, nem era febre, como eu disse  imprensa, instado por Leigh. Hennessy, isto  importante. 
       - Bem, vou me conformar com uma dessas garrafinhas de amostra de bebida - disse o advogado, agora de joelhos, procurando nas gavetas de baixo. - Pelo som 
de sua voz, parece que o que voc me vai dizer vai fazer com que eu precise mesmo de um drinque. 
       Abelson se agachou ao lado dele, e lhe disse, em tom de urgncia: 
       - O que aconteceu foi que Ericson estava no beliche de cima com Buffie, a fotgrafa, dando umas trepadinhas entre as paradas do trem. Quando o maldito maquinista 
pisou com fora nos freios, Sven bateu com a cabea na extremidade do beliche. Buffie comeou a berrar e a acenar com um brao nu atravs das cortinas do beliche... 
talvez ela no tivesse conseguido sair debaixo dele, no sei... mas Harry Bok estava l no corredor, fez com que ela se calasse, tirou-a dali e me buscou. 
       - E da? 
       Hennessy no se iria irritar por causa de um comeo de caso de Ericson. 
       - O candidato ficou inconsciente mais de uma hora enquanto Leigh, Bok e eu ficamos sentados perto. Eles no me deixaram chamar um hospital. 
       - Ningum mais soube? - perguntou Hennessy, que encontrara o estoque de garrafinhas de usque. Percebeu aonde levava a histria de Abelson e lhe prestava 
total ateno, mas aparentava no estar ligando muito. 
       - Leigh insistiu em que todos mantivessem o bico fechado. No contou nem mesmo a Smitty, sob a alegao de que ele no precisaria mentir. A mim, ele permitiu 
que mentisse. Finalmente, 

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aps cheirar amnia, Ericson voltou a si, mas no conseguia enxergar. Pensamos que ele tivesse ficado cego. 
       Hennessy abriu uma garrafinha para o mdico e outra para si mesmo. Abelson no precisava de incentivo: 
       - Ns enrolamos toalhas em volta do pescoo dele e o levamos pelo brao; quando chegamos  estao do trem, o enfiamos num carro e depois numa cama em Cleveland. 
Ericson no deixou que eu consultasse nenhum mdico: disse que eu era o nico doutor em quem confiava. Afirmou que isso j lhe acontecera antes, quando era garoto, 
e ele tinha voltado a ver. Fui a uma biblioteca mdica e lj sobre concusses e seus efeitos sobre os nervos ticos. Deduzi que a nica coisa a fazer era esperar, 
isso no poderia fazer mal, quero dizer, no havia perigo em no se tratar imediatamente do problema. 
       Hennessy acabou com a garrafinha e deu outra a Abelson. 
       - Ele voltou a ver gradativamente, ou de uma vez s? 
       - No primeiro dia, ele conseguiu distinguir o claro do escuro, e no segundo, a presso saiu do nervo quando passou a inchao, e ele voltou a enxergar to 
bem quanto antes. 
       - Ento, alm da preocupao com que a histria seja divulgada - disse Hennessy suavemente - voc tem medo de que a viso dele no volte. 
       - Desta vez ele ainda no consegue distinguir o escuro do claro. E quando essas coisas acontecem mais de uma vez, no  bom. Por isso eu disse que estava 
pouco me importando com o resto e que desta vez eu lhe conseguiria um oftalmologista antes que algum me impedisse. Cartwrigh enviou uma mensagem a Bethesda sem 
discutir; ele no sabia dos antecedentes. E nem sabe ainda. O Presidente disse que voc deveria ser o nico a saber, e que voc seria sua pessoa de confiana nesse 
assunto, seu honcho. [nota *. Palavra japonesa; significa "de total confiana". (N. da T.)] 
       - Ele gosta dessa palavra. Honcho significa tambm "chefe da equipe". 
       Os apartes de Hennessy tinham a inteno de minimizar as preocupaes do mdico, mas desta vez isso no deu certo. 
       -  muito bom agir-se fria e profissionalmente, Hennessy, mas estamos numa filha da puta duma enrascada. Vamos ter de anunciar ao mundo, quando voltarmos 
a Andrews, que o Presidente est cego, e que esta  a segunda vez que isso acontece. 

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       - Temos de encarar o assunto como espectadores - disse o advogado. O mdico fechou, os olhos e balanou a cabea em frustrao. - No - continuou Hennessy 
- no h problema em revelarmos totalmente o estado atual de sade do Presidente, quando chegarmos aos Estados Unidos. Ele est de posse completa de suas faculdades, 
a no ser de uma, e voc e o especialista podero ser capazes de sugerir que a perda de viso do Presidente  apenas temporria. No baseados nos acontecimentos 
passados - acrescentou cuidadosamente - mas sim no seu conhecimento geral dos nervos ticos e de concusses. 
       - Por que no podemos contar toda a histria? Poxa, ele agora  Presidente, o povo sabe que ele gosta de mulheres, que no  casado. 
       - Acho que voc no percebeu integralmente a preocupao do Presidente, Herb - Hennessy aprendera imediatamente o verdadeiro problema, e isso o preocupava 
mais do que desejava demonstrar. - Como voc sugere, o aspecto da mulher-no-beliche  relativamente insignificante. O fato, porm, de que ele no informou a natureza 
de seu ferimento durante a campanha poderia provocar reao desfavorvel. 
       Observou Abelson meditar sobre isso. O advogado no estava dizendo ao mdico o que fazer, mas o estava conduzindo a tomar a deciso que o advogado queria 
que tomasse. 
       - Isso daria pano pra mangas - disse Herb, sem perceber a situao. - De qualquer modo, no vai acontecer mais cedo ou mais tarde? 
       - Nem cheguei a falar com o Presidente sobre isso - observou Hennessy - mas segundo o que voc me disse que ele falou, parece que est preocupado que seus 
inimigos possam utilizar o incidente da campanha no trem para tentar tir-lo do cargo. A cegueira anterior ento no tinha importncia, mas  importante agora, como 
voc disse no incio. Muito importante. No estou sugerindo o que voc deva fazer, apenas que pense a respeito. 
       Procurou outro argumento que ajudasse Herb a manter-se calado sobre o assunto: 
       - Pense na tica mdica, de contar a estranhos mais do que os pacientes gostariam que voc lhes contasse sobre confidncias feitas sob o relacionamento mdico-cliente. 
       Abelson assentiu hesitantemente. 
       - Quero que voc fique ao meu lado durante essa crise, conselheiro. Tenho a impresso de que o assunto j me est fugindo ao controle. 

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       - Ento a primeira coisa que voc de fazer  parar de tomar biritas enquanto estiver de planto. 
       Hennessy sorriu, e lhe passou mais trs garrafinhas. 
       - Na verdade, "confidncias"  uma das minhas palavras favoritas. No seja um "derrubador" de confidncias. 
       Ele apertou o ombro do mdico e seguiu pelo corredor para encontrar Cartwright. 
       Ao andar pelo corredor, olhando pelas janelas para os montes de rochas, pedras e mais pedras que compunham a ilha, Hennessy sentiu a enormidade do triplo 
problema do Presidente comear a penetrar-lhe novamente. A ameaa de um levante na Unio Sovitica, ou de vingana contra o povo que seria julgado culpado pelo assassinato, 
tinha de ocupar a mente do homem eleito para proteger a sobrevivncia da nao. Os rgos de informaes dos Estados Unidos pouco sabiam sobre a dinmica interna 
do poder no Kremlin, ou seu relacionamento com as potncias orientais. Talvez Ericson tivesse alguma idia de como lidar com Nikolayev, e havia sido uma boa idia 
fazer com que Curtice ficasse junto dele, mas quem sabia realmente a tenso que pairava no ar, ou em que ponto a tenso se poderia resolver no espasmo de uma guerra? 
E isso era apenas o comeo do problema para o Presidente, pensou Hennessy, pondo-se no lugar de Ericson. Ele estava cego - possivelmente, temporariamente, julgando 
pela experincia anterior - mas mesmo por alguns dias, precisaria tatear fsica e mentalmente, dando aparncia de incapacidade, at de paralisia, numa ocasio em 
que a situao exigia aparncia de suprema capacidade. 
       E depois a complicao: o encobrimento da cegueira anterior. Hennessy examinou o caso: na poca, no trem da campanha, teria sido vital esconder o fato de 
que o Presidente se estava divertindo com uma moa entre as paradas do trem. As palavras "paradas do trem" teriam assumido significado inteiramente novo, oferecendo 
 oposio um instrumento de ridculo num momento em que uma campanha poltica no se podia permitir isso. O advogado percebeu rapidamente que "o sacana do Leigh" 
precisara abafar o acidente, ficar quietinho uns dois dias e esperar que acontecesse o melhor. A inocente ocultao do caso era agora a suspeitosa ocultao de uma 
"cegueira anterior", que convidava  acusao de que Ericson falhara em revelar tudo sobre sua sade antes da eleio. isso no era nenhum pecadilho que pudesse 
ser usado apenas como combustvel para fofoqueiros, mas, sim, uma queixa real contra uma base falsa para assumir as rdeas do poder. 

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       Isso fez o advogado recordar Roy Bannerman, o Secretrio do Tesouro, que fora rival de Ericson na obteno do poder dentro do partido. Se Bannerman soubesse 
da cegueira anterior, talvez se inclinasse a preparar um desafio para o Presidente enquanto ainda estava cego, fazendo que ele fosse posto de lado, ao invocar os 
termos da Carta ao Vice-Presidente, ou at a Vigsima Quinta Emenda. 
       Hennessy sorriu para as rochas, da janela. Sentia-se emocionado por ser o homem necessrio para conter a situao, para que um Presidente pudesse dedicar-se 
 misso de exercitar o intelecto e o poder para manter a paz. Os riscos mais ousados. Exatamente o que ele tinha em mente ao unir-se a Ericson na sua luta pela 
Presidncia. Nos primeiros meses ele se decepcionara e aborrecera por no ter feito parte da comitiva que fora  Rssia, mas agora havia sido alegremente sugado 
por um aspirador de p. Ericson confiava nele e precisava dele e isso, que Hennessy admitia abertamente, era um man dos cus. Da mesma forma que Ericson precisava 
do poder para ser um homem por inteiro, e necessitava de uma "coisinha fofa" para controlar de vez em quando como smbolo de sua capacidade para flexionar esse poder, 
tambm Hennessy tinha necessidade de que confiassem inteiramente nele. E ele era digno dessa confiana - admitiu para si mesmo - pois no era como os Cartwrights 
da vida, leais  instituio da Casa Branca, nem como os puxa-sacos como Smitty, ansiosos para granjear uma reputao que lhes pudesse ser til quando terminasse 
o perodo na Casa Branca; nem como Melinda, que tinha algo antigo e perverso, semelhante  relao Pigmalio-Galatia, com Ericson, sem que nenhum dos dois soubesse 
quem estava amoldando quem. Hennessy estava certo de poder provar que era o apoio mais importante para Ericson: ele encarava o homem como amigo, compatriota, lder, 
partilhador do poder e, mais importante ainda, como cliente, relacionamento que ningum mais tinha com o Presidente. 
       Hennessy correu os dedos rechonchudos pelo curto cabelo ruivo e lambeu os lbios. Lucas Cartwright, o homem que trabalhava no escritrio da esquina da Ala 
Oeste, onde ficava Hennessy, e que estava agora conservando intacto o Governo dos Estados Unidos, em grande estilo - e Hennessy lhe era grato por isso - desconhecia 
a cegueira anterior de Ericson. Quando o momento da verdade - isto , da necessria falsidade - chegara, fora a Mark Hennessy, e no a Lucas Cartwright, ou ao espalhafatosamente 
eficiente Procurador-Geral, Emmett Duparquet, que Ericson recorrera. Hennessy sentia o gosto dessa oportunidade, e estava grato a Ericson e  sua mente forte, que 
lhe havia permitido fazer a escolha certa.

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Os olhos de Ericson podiam ser um problema, e um episdio de seu passado podia ser um grande problema, mas seu discernimento era bom e isso representava metade da 
batalha. Animado pela agressividade  la Truman de seu lder, e lembrando-se de que Cartwright no devia saber de sua cegueira anterior, dirigiu-se  cabina do chefe 
da Casa Civil. 


O CHEFE DA CASA CIVIL 
       
       Lucas Cartwright lera em algum lugar que seres celestiais pousados numa estrela h cerca de duzentos anos-luz, e que observavam a terra neste momento, estariam 
vendo a Revoluo Americana e suas conseqncias. Nessa situao, o que significaria "agora"? - quando acontecesse na terra, ou quando pudesse ser descortinada por 
uma mente inteligente? Cartwright costumava imaginar-se vivendo nessa poca do nunca-nunca, entre o mundo de deciso e o mundo do aviso, entre o acontecimento e 
a percepo, entre o fato acontecido e o interpretado. 
       O assunto dramtico que acontecera naquele dia fora a no- divulgao da notcia sobre a emboscada, mas o veterano chefe da Casa Civil j presenciara muitos 
outros casos menos dramticos em seus anos de servio na Casa Branca. A maioria das notcias tinha seu tempo de comando, um processo produtor de acontecimentos ainda 
mais inexorvel do que o processo de tomada de deciso. A dualidade fazia com que ele vivesse de culos bifocais, parcialmente observando os acontecimentos anunciados 
e parcial- mente os no anunciados chegarem ao conhecimento pblico. 
       - Faa a escrivaninha virar uma mesa de caf - pediu Hennessy ao chefe da Casa Civil. - Gosto de ver a brincadeira do poder. 
       - Jamais brinco com botes presidenciais - replicou Cartwright. - Isso  tentar o destino. Alm disso, voc provavelmente poria os ps na mesa de caf, como 
de hbito. Alis, o Presidente me pediu que lhe falasse severamente a respeito disso. 
       Cartwright, o Velho do quadro do pessoal da Casa Branca, sentia-se quase contemporneo de Hennessy e seus quarenta e cinco anos; mais do que, por exemplo, 
do Secretrio de Imprensa, um cinqento, que funcionava num mundo de preto e branco, capaz de carregar responsabilidade porque no sentia o peso que ela representava, 
como sentiam Cartwright e Hennessy. Cartwright estava em aparente desvantagem porque se juntara ao pessoal da Casa 

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Branca durante o interregno, enquanto a maior parte dos outros conhecera o Presidente durante a campanha ou no escritrio estadual do capitlio. Isso, na realidade, 
era uma vantagem: ele no participara de lutas pelo poder, s devia lealdade ao Presidente e - melhor que tudo - era desconhecido do "pessoal de Ericson". Era uma 
pessoa da Casa Branca, uma relquia, de certa forma, de um passado harmonioso; no era nem rival, nem amigo de ningum. O cargo de chefe da Casa Civil era, talvez, 
"o cargo mais solitrio do mundo", e Cartwright o sabia, mas tivera satisfao em assumi-lo. Sem ser "prussiano", nem mesmo um gerente muitssimo eficiente, sabia 
que se enquadrava nas necessidades de Ericson do incio de sua administrao, quando o novo Presidente necessitava de gente com experimentado discernimento, respeito 
sofisticado da imprensa, conteno. O chefe da Casa Civil no se importava absolutamente de ser chamado de "polido" pelos auxiliares em geral, e seu estilo - excessivamente 
educado, gongrico e lento - era um bom disfarce para o tempo de que precisava para refletir. 
       Cartwright sabia que Hennessy queria seu cargo, mas no se importava. Era at possvel que Hennessy o conseguisse um dia, desde que aprendesse a controlar 
o gnio; at l, ele teria de esperar. 
       Hennessy colocou a Carta na mesa. Cai1wright a pegou e leu o aviso: "Para Ser Lido Apenas pelo Vice-Presidente". Abriu-a e a leu e releu lentamente. Julgou-a 
excessivamente pormenorizada, mas no transmitiu essa opinio a Hennessy, o provvel autor. 
       - Eu no havia visto isso antes, Irmo Hennessy, embora o Presidente me tenha familiarizado com seu contedo. Logo que ele recobrou a conscincia, disse-me 
que queria voc e a Carta a seu lado, e no distante meio mundo. Supus que ele tivesse com isso querido dizer que temia que voc entrasse em pnico e entregasse 
a Carta prematuramente. 
       - Sempre sonhei em liderar um golpe de estado. 
       Antes que o gracejo fosse mal interpretado, Hennessy mudou de assunto: 
       - Por que me arrastaram para fora da cama? 
       - O Presidente no est enxergando - disse Cartwright. - A notcia ser anunciada to logo cheguemos de volta aos Estados Unidos. Quem vai anunci-la, em 
que local, e a que horas, ser objeto de discusso logo que os mdicos terminem de examin-lo. Porm, o que eu gostaria de. antecipar com voc no  a reao imediata... 
alvio porque ele no est morto, solidariedade, choque, tudo isso... mas a reao subseqente, de que a incapacidade 

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do Presidente seja to sria que ele no possa agir como Presidente. 
       Devolveu a carta a Hennessy, seu depositrio. 
       - Se os mdicos disserem que ele vai ficar bom daqui a algumas horas ou alguns dias, no haver problema. Se disserem que ele est permanentemente cego, ento 
teremos um problema para o qual nos deveremos preparar para enfrentar. Se eles disserem o que acho que vo dizer... que ainda no h como afirmar nada, que precisam 
de mais exames, de esperar para ver... estaremos naquela rea cinza da incerteza, que poderia causar enormes problemas para o pas. 
       - Um Presidente est incapacitado - disse Hennessy cuidadosamente - quando ele assim o afirma, ou quando no consegue comunicar se est incapacitado ou no. 
Se ele, porm, disser que no est incapacitado, ento ele no est, ponto final. 
       - ... a no ser que esteja louco, o que no  o caso, ou se estiver enganado quanto  sua incapacidade. 
       - Ele  o nico juiz disso - afirmou firmemente o advogado. - O povo elege um homem, e confia em que ele faa o que  certo ou, pelo menos, o que ele acha 
que  certo. Se ele est enganado ou errado, o nus da comprovao no  dele: pertence, em primeiro lugar, ao seu ministrio, e depois a dois teros do Congresso. 
       Cartwright assentiu com a cabea. Seu colega demonstrara sua familiaridade com o bvio, embora estivesse fazendo uso inadequado do "nus da comprovao", 
ao invs de dizer "remdio", talvez intencionalmente. Perguntou-se qual seria o real objetivo do Presidente ao mandar chamar Hennessy. Proteger-se contra a entrega 
prematura da Carta? Absurdo. Devido  confiana em ter por perto um colaborador de muito tempo? Isso era mais plausvel. Preparar Hennessy para assumir a posio 
de chefe da Casa Civil numa situao difcil? Isso era sempre possvel. No obstante, Cartwright sempre observara que o Presidente, nas situaes difceis, tendia 
a apertar o crculo  sua volta, no a aument-lo. O tempo diria; Ericson no era seu primeiro Presidente, e os anteriores com quem trabalhara nunca se haviam sentido 
obrigados a contar tudo a seu chefe da Casa Civil. 
       - Conselheiro, voc precisa ter disponvel uma definio legal de cegueira, uma definio mdica de cegueira, e ser capaz de citar algumas autoridades que 
demonstrem que a incapacidade de ver no afeta o discernimento. Eu no exageraria a ponto de dizer que "a cegueira faz bem" - continuou Cartwright - mas seria 

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til alguma evidncia de sua natureza no-catastrfica, pelo menos segundo a lei. 
       - Vamos usar a palavra "cego"? 
       -  uma palavra dura. 
       Quando Cartwright apertou uma campainha, Melinda McPhee apareceu. Ele pediu um dicionrio, que ela trouxe rapidamente, e lhe pediu que ficasse. Cartwright 
ps os culos, e procurou a pgina com a palavra: "Cego de ambio"; "Cego de amor", aqui est: "Cego; Sem viso". Sven Ericson est assim, sem dvida, mas tem uma 
conotao de permanncia, no tem? "Ter menos de um dcimo da viso normal no olho mais eficiente quando efeitos refratrios so totalmente corrigidos por lentes". 
       - Isso parece uma definio legal - disse Hennessy. - Melinda, pelo amor de Deus, qual  o problema? Voc no pra de morder o lbio. 
       A secretria lhe dardejou um olhar raivoso. 
       - Vocs dois a, calculando todos os ngulos, sabem o que ele est passando l dentro?  a coisa mais assustadora que pode acontecer a um ser humano. Ele 
est l deitado e apavorado. Nunca o vi apavorado antes, e isso me assusta. Eu ficaria menos assustada se vocs dois demonstrassem alguma compreenso da agonia que 
ele est sofrendo. 
       - Obrigado, Melinda - disse Cartwright -  sempre bom ser lembrado das consideraes humanas. 
       - Agora controle-se - retrucou Hennessy. - A ltima coisa de que o Chefe precisa  de auxiliares histricos numa ocasio como esta. 
       - Eu no estou histrica - disse friamente a secretria do Presidente. - Nem empedernida. 
       - Ento, de modo nem histrico nem empedernido - interveio Cartwright - faa o favor de informar ao chefe da junta mdica que o aparelho parte para Washington 
em exatamente dez minutos. Os que vo permanecer a bordo para o vo de volta permaneam; os que se ocupam da transmisso de dados de Lajes a Bethesda saiam agora, 
junto com o grupo que vai continuar at Yalta para cuidar de Harry Bok. 
       Melinda movimentou-se depressa. Cartwright a admirava, mas notou que Hennessy no se dava absolutamente com ela. Talvez houvesse entre os dois uma competio 
para ver quem era o "mais chegado" a Ericson. Quando Cartwright entrou para a Casa Branca, costumava achar que esse tipo de burla era tolo e um gasto intil 

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de tempo; agora ele o considerava normal, humano, e s vezes at til. 
       Ela voltou num momento, e informou: 
       - Os mdicos querem uma reunio com vocs e com todos ns agora mesmo. Inclusive com o Secretrio de Imprensa. E querem que o avio s parta em vinte minutos, 
para dar tempo ao operador do eletroencefalograma de terminar o trabalho. 
       - Eta palavrinha difcil! - exclamou Hennessy. - Como  que voc...? 
       - Ondas cerebrais - disse ela, sumariamente. - Lucas, que acha? 
       - Cartwright julgara que haveria a solicitao de adiamento, e sua brevidade era boa notcia. Ele ainda poderia decolar na hora em que os avies da imprensa 
estivessem chegando, e assim evitaria os pedidos renovados para que um pool da imprensa subisse a bordo. Levantou-se para ir  sala de reunies aps subir a escada, 
mas estava muito preocupado. O chefe da Casa Civil no estava to esperanoso quanto Herb Abelson sobre a viso do Presidente Ericson. 
       A sala na parte superior do jato estava cheia de mdicos que pareciam preocupados e importantes, como costumam os mdicos, como faz parte de seu modo de ser, 
alm dos auxiliares do Presidente. Cartwright notou Melinda com um caderno, Hennessy, que tentava parecer entediado, Herb Abelson fazendo tudo para no torcer as 
mos, Smitty carrancudo, e Jonathan, o jovem redator de discursos - Cartwright no conseguiu lembrar-se de seu sobrenome, e no gostava de perguntar - tenso e alerta, 
com um pequeno gravador na mo. O chefe da Casa Civil fez sinal com a cabea para o redator, de que podia gravar a reunio. Era at bom haver um registro preciso, 
que pudesse ser apresentado a um irado grupo de jornalistas. 
       O chefe da junta mdica, que usava gales de capito, comeou a reunio com a boa notcia: 
       - A vida do Presidente no corre perigo. Comecemos pelo crebro. 
       - Concusso branda - diagnosticou o especialista. - No houve penetrao do crnio. Ainda no temos o encefalograma. Fratura ligeira do canal tico. O oftalmologista 
falar sobre isso. Em termos de leigo: o crebro do Presidente no foi afetado. 
       - Corao. 
       - Perfeito - disse o cardiologista. - Normal para ele. 

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       - Internamente. 
       - Nenhum sangramento interno - repetiu o especialista. - Os mdicos russos aplicaram os primeiros socorros adequados s contuses de seus membros, e o estilhao 
da perna foi removido antissepticamente, sem complicaes. 
       - Chegamos agora  rea de problema - disse o capito. - Dr. Lilith, os olhos do paciente. 
       - Por que o senhor no nos fala das condies do Presidente em termos de leigo, Dr. Lilith? - sugeriu Abelson. 
       Cartwright assentiu com a cabea; ele tampouco queria depender da interpretao do mdico pessoal do Presidente. Lilith pigarreou, olhou nervosamente o gravador 
do redator de discursos e a secretria, que j tomava notas, e comeou: 
       - O Presidente sofreu uma concusso, que  um ferimento no crebro que resulta na perturbao da funo cerebral. - Parou um instante. - A funo do crebro 
que est perturbada, como todos sabem,  a viso. Neste momento, dez horas aps o ferimento, ele est totalmente cego. No tem percepo de luz, nem de cor, nada: 
s v preto. 
       "A causa ... a provvel causa . .. - recomeou. - Uma possvel causa  o bloqueio ao crtex das sinapses que conduzem aos nervos ticos. O ferimento provocou 
uma inchao que pode ser temporria; neste caso, ele poderia recuperar a viso de alguns dias. Existem outras possibilidades: a avaria permanente do crebro, o 
que significaria cegueira parcial ou total.  muito cedo para dizer. Os olhos em si esto timos, os globos oculares no foram afetados. A mensagem, ou fotografia, 
que o olho est enviando no consegue atravessar o crebro. 
       No  um pouco cedo, doutor - interrompeu Hennessy - para usar a palavra "cego"? Quero dizer, no seria mais exato dizer que o ferimento do Presidente lhe 
afetou temporariamente a viso? 
       - Eu poderia concordar com isso - disse cuidadosamente o Dr. Lilith - mas acontece que talvez no seja temporrio. Tentamos no ,usar a palavra "cego" nesta 
fase porque  uma palavra assustadora. Eu diria "perda de viso, talvez temporria, causada pelo inchamento da concusso". Francamente, estaria mais otimista se 
ele tivesse algum histrico sobre o assunto, e tivesse emergido de pancadas na cabea aps um breve perodo de falta de viso. 
       Os outros mdicos interrogaram mais pormenorizadamente o oftalmologista sobre a cegueira do Presidente, mas Cartwright no encontrou nada til na anlise 
tcnica. Sua tarefa agora era fazer 

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com que o Presidente chegasse a Washington, informar ao mundo que ele estava em forma, que a tomada de deciso nos Estados Unidos estava indo bem, e evitar alarma 
sobre a cegueira de Ericson. Tinha tambm de garantir ao Presidente que tudo estava sendo feito. 
       O mdico mais graduado olhou para o relgio e, de acordo com sua palavra, concluiu rapidamente a reunio com tarefas para a junta mdica: quatro deles deveriam 
continuar em seu prprio avio at Yalta, para atender Harry Bok, dois deveriam supervisionar a transmisso de dados vindos de Lajes, e os seis restantes deveriam 
voltar com o Presidente no Air Force One. 
       Parecia, porm, que a reunio no terminara. Cartwright percebeu a razo para a pausa constrangida, e chamou a fotgrafa do Presidente para registrar o momento. 
Quando Buffie comeou a tirar as fotos, os mdicos, que at ento tinham aparncia de totais profissionais, assumiram ares preocupados. Quando ela lhes agradeceu 
e disse que tinha terminado, Buffie dardejou um olhar malicioso a Cartwright e murmurou: 
       - Todos ns temos papis a desempenhar. 
       O chefe da Casa Civil concordou com a cabea. 
       - Herb - disse Cartwright para o mdico do Presidente - faa o favor de sentar-se aqui com o Dr. Lilith e o Irmo Jonathan - ele fez um sinal indicando o 
redator de discursos - para redigir a declarao mdica que o capito dever revisar. Acho que 
       o Dr. Lilith deveria ser a pessoa encarregada de l-la para a imprensa, desde que  um ferimento especializado, concorda, Capito? 
       O mdico mais graduado no pareceu gostar da sugesto, mas assentiu com a cabea. 
       - Enquanto isso, Smitty, gostaria de saber suas sugestes sobre quando e. como deveremos dar a notcia. 
       Os mdicos se separaram em subgrupos, saram, e os motores do avio comearam a rosnar. 
       - Seguimos a regra de Hagerty - disse Smitty - dizemos tudo a eles duas vezes por dia. O avio da imprensa estar em Andrews quando chegarmos l junto com 
a televiso ao vivo. O doutor l a declarao l mesmo e responde a todas as perguntas. Mais tarde, no mesmo dia, teremos outra coletiva... ao vivo, a tempo do noticirio 
da noite... diretamente do centro de imprensa do hospital. 
       - Perfeito - disse Hennessy. - Convena o pas e o mundo de que o Presidente dos Estados Unidos est to cego como um morcego, e incapaz de desempenhar o 
cargo. 

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       - Olhe aqui, Hennessy, voc no estava conosco em Yalta - explodiu Smitty. - O pessoal da imprensa est danado da vida, e com toda a razo. Os russos simplesmente 
proibiram a divulgao do atentado, e ningum soube de nada durante quase trs horas. Podemos pelo menos culpar os russos por isso. Mas a idia de no se ter um 
pool da imprensa no Air Force One na viagem de volta foi de Cartwright, e ningum pde fazer nada. No se consegue lidar adequadamente com a notcia de uma tentativa 
de assassinato. 
       Cartwright disse brandamente: 
       - Nem todas as minhas idias tm inspirao divina. 
       A idia em questo fora inspirada pelo Presidente, e o chefe da Casa Civil fora designado para levar a culpa. 
       - Na ocasio, devido  necessidade de apanharmos o pessoal mdico, pensei que talvez vissemos a precisar do espao designado para o pessoal da imprensa. 
Por isso contrariei suas veementes objees, Smitty, embora tivesse acedido  sua solicitao de ficar a bordo. 
       Cartwright no sentiu qualquer remorso por haver inventado essa histria. O prprio Presidente proibira a presena de um pool da imprensa aps recuperar a 
conscincia em Yalta. O chefe da Casa Civil aceitou a reprimenda de forma to serena, que estava certo de poder passar por um detetor de mentiras. A proteo ao 
Presidente fazia parte do seu cargo. 
       - Voc se enganou, Lucas - pressionou o Secretrio de Imprensa - e um dia vai reconhec-lo. Nunca nos perdoaro por isso: um pool de imprensa tem o direito 
de estar a bordo agora. 
       Melinda McPhee interveio: 
       - Smitty, talvez voc fizesse jus ao seu salrio se nos dissesse como vai fazer com que as manchetes anunciem "Presidente Vivo e em Recuperao" ao invs 
de "Presidente Est Cego". 
       - Eu lhe digo como tomar ditado? 
       - Pelo amor de Deus, Smitty - disse Hennessy, elevando a voz - voc  o Secretrio de Imprensa do Presidente, no o Secretrio de Imprensa da imprensa. Voc 
j foi bastante claro, j pode escrever seu maldito livro com a conscincia limpa, mas agora  melhor que o ponha de lado e faa sua tarefa. Se voc no se erguer 
contra a tendncia natural da imprensa de levar tudo para o pior lado,  possvel que o maldito mundo acabe se dissolvendo. 
       O chefe da Casa Civil interveio para reiterar o argumento de Hennessy de modo mais suave. 

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       - Existe tambm o aspecto da segurana nacional. A Unio Sovitica poderia estar num estado de revolta: o assassinato de Kolkov, a reunio do Politburo, a 
supresso de notcias de dentro e a divulgao vindo do lado de fora... Na verdade no sabemos quem ir pegar o telefone do lado de l, se resolvermos usar o telefone 
vermelho. O Secretrio Curtice acha que  de nosso interesse ajudar Nikolayev a acalmar as coisas, mas no estamos certos nem disso. Sabemos apenas que no  do 
nosso interesse nacional espalhar boatos alarmistas sobre as condies do Presidente. Pelo contrrio. Devemos afirmar ao mundo que no existe incapacidade que reduza 
nossa defesa 
       - Mas no podemos mentir - preveniu Smitty. 
       - Ningum sugeriu que se mentisse - disse Cartwright com o mximo de sinceridade que pde reunir. - O que estamos obrigados a fazer  garantir que a verdade 
aparea, sem exageros que a deturpem. Fato nmero um: o Presidente est vivo e os mdicos afirmam que fora de perigo. Nmero dois: ele est lcido e em contato com 
seus assessores, e logo emitir uma declarao pessoal sobre o ato herico do Primeiro-Ministro Kolkov, que lhe salvou a vida.  muito importante que enfatizemos 
isso, segundo o Secretrio de Estado, que ficou na Rssia e necessita de todo o apoio que puder conseguir, 
       "Nmero trs - Continuou Cartwright - e apenas nmero trs, e no nmero um: o Presidente ainda no consegue ver, mas os mdicos lhe disseram que existe boa 
probabilidade de que recupere totalmente a viso quando passar o inchao. Tudo que isso significa no momento  que o Presidente transmitir suas notcias peio rdio 
e no pela televiso. 
       Ele esperava que o Secretrio de Imprensa aceitasse aquela forma de minimizar o fato de que o lder do mundo livre estava aleijado de modo jamais experimentado 
por nenhum Presidente. 
       - Isso  razovel - disse Smitty. - Vou adotar esses argumentos para a coletiva. Mas pode estar certo de que a cegueira ser o principal tpico da reunio. 
       - Cegueira no - corrigiu Hennessy. - A incapacidade temporria de viso do Presidente. 
       - Ao invs da declarao no aeroporto e da coletiva com a imprensa - Smitty continuou - poderamos anunciar agora que a declarao ser feita hoje  noite 
no hospital. O oftalmologista poderia ler seu diagnstico e recusar-se a responder a perguntas, sob a alegao de que ainda  muito cedo para qualquer afirmao

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definitiva, e de que ele se recusa a especular; outro mdico poderia dizer que o corao do Presidente est timo ou algo assim, e eu poderia informar sobre os detalhes 
da emboscada, que ainda est na ordem do dia. Isto ser tudo para essa noite, e as perguntas sobre os olhos se acumularo para amanh de manh. 
       - Ento devemos trs outros trs especialistas para consultar - disse Melinda, cuja opinio Cartwright respeitava - e ainda ser muito cedo para se afirmar 
algo.  possvel que ele ento j esteja melhor, ou, pelo menos, que o mundo esteja menos excitado sobre o caso. 
       - Ou talvez amanh o Presidente pudesse fazer uma pequena declarao pelo rdio - ponderou Hennessy - sobre Kolkov. Isso manteria o centro da coisa no herosmo, 
e mostraria que o Chefe no est biruta. E talvez tivssemos at uma oportunidade, pois pode haver uma pequena melhora em seus olhos amanh. 
       - Voc fala como Scarlett O'Hara - disse o apaziguador Secretrio de Imprensa. - Amanh  outro dia. 
       - Eu considero a chegada do amanh - falou Cartwright - como uma vitria por si mesma. 
       Ele terminou a reunio e tomou o corredor, para apresentar-se ao Presidente. Furmark, o agente do Servio Secreto, disse que ele estava descansando, e Cartwright 
virou-se para ir embora, mas a voz do Presidente chamou: 
       -  voc, Lucas? Quero v-lo. 
       O chefe da Casa Civil sentou-se perto da cama e rapidamente resumiu os planos que estavam sendo preparados. 
       - Infelizmente - achou que devia acrescentar - o relatrio do oftalmologista  uma grande interrogao, e no podemos fazer nenhum plano baseado nele. 
       Suponha - disse Ericson - que eu estarei enxergando de novo em trs ou quatro dias. 
       Ele parecia certo de si. Cartwright admirou-se com o otimismo natural dos Presidentes. 
       - Minimize o assunto ao mximo possvel durante as prximas quarenta a quarenta e oito horas para dar uma oportunidade a Nikolayev, de modo que a faco contrria 
no Kremlin no resolva que chegou a hora de atacar a China. Voc vai ter de depender muito do Smitty; ele vai querer mostrar minhas chapas de raio X na televiso, 
e voc ter de dar a impresso de que eu logo estarei bem. Quero que voc realmente suponha isso, Lucas... estou certo de que  verdade. 

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       - Eu tambm, senhor. 
       Ele desejou ter tanta confiana nisso quanto estava certo de que o Presidente no confiava inteiramente nele. 
       - O senhor quer falar com Hennessy? Ns fizemos com que ele voasse at aqui para voltar conosco no ltimo percurso, conforme o senhor desejava. 
       - Sim, rapidamente. Estava preocupado de que ele pudesse perder o controle e entregar aquela carta a Nichols, mas acho que foi bobagem pensar assim. Lucas, 
logo que voltarmos, quero que voc comece a vigiar Bannerman. Se tivermos algum problema interno, provavelmente vir dele. 
       O Secretrio do Tesouro, poderoso adversrio da candidatura de Ericson dentro do partido, fora trazido para o Gabinete, contra o conselho de Cartwright, baseado 
na velha teoria de Lyndon Johnson de que era melhor ter um velho adversrio "dentro de casa, dando suas cagadas". 
       - Acho que o senhor est exagerando seu problema de incapacidade - afirmou o chefe da Casa Civil. - Ningum vai dizer nada exceto "Graas a Deus que ele est 
bem" durante os prximos dias, quando o senhor j dever estar em forma. Eu no insistiria no assunto, se fosse o senhor. 
       Pois sim que ele no insistiria: se estivesse no lugar de Ericson, Cartwright estaria pensando sem cessar como seria um Presidente cego, e se o interesse 
pblico exigiria renncia imediata. Esperaria, porm, que seu chefe da Casa Civil lhe dissesse para esquecer o caso por alguns dias. 
       - Voc tem razo, Lucas. E voc vai ver que estarei novo em folha, daqui a alguns dias. 


A SECRETRIA PESSOAL/1
 
       Na torre do Hospital Naval de Bethesda, perto do vestbulo do quarto de onde o Secretrio de Defesa James Forrestal saltara de uma janela, o Presidente escutava 
o noticirio da televiso. Melinda McPhee estava l para contar-lhe o que aparecia na tela, se a imagem fosse importante, o que raramente era. 
       - Da matriz do Noticirio da CBS em Washington, este  o noticirio noturno da CBS. 
       A imagem mostrou um grupo de pessoas que se movia numa redao, lidando com as mensagens de cada um. Melinda observou 

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que isso dava a impresso de falsidade. Aquelas pessoas sabiam estar sendo focalizadas e erani atores, cada qual manipulando a mensagem do outro. 
       - Cinco dias aps o Presidente dos Estados Unidos haver sobrevivido a uma emboscada em Yalta - reportou o noticiarista - a nao comea a perceber que, pela 
primeira vez na histria, est sendo conduzida por um homem cego. Para a ltima palavra sobre ao estado do Presidente Ericson, vamos ao Hospital Naval de Bethesda. 
       Apareceu a imagem de um reprter na frente do hospital. Melinda murmurou: 
       - Uso demaggico de uma cortina de fundo. - Ele poderia igualmente ter dado as notcias direto do estdio, mas a necessidade de espetculos de dar aparncia 
de realidade o colocara  frente de um prop gigantesco. Quanto mais trabalhava na Casa Branca, pensou Melinda, menos gostava dos noticirios da TV. 
       - Os mdicos do Presidente continuam a enfatizar que seu paciente est em excelente estado de sade fsica e mental - disse o reprter para a cmera -  exceo 
de uma deficincia que no melhorou em cinco longos dias: ele no consegue enxergar. 
       O reprter fingiu consultar suas anotaes para que o telespectador no percebesse que ele estava lendo de um lembrete  sua frente. 
       - A cegueira do Presidente torna-se mais ameaadora a cada dia que passa. Uma junta de preeminentes oftalmologistas reuniu-se com reprteres h alguns momentos 
atrs e o Dr. Perry Lilith deu este relatrio pessimista: 
       "Embora seja ainda muito cedo para dizer, e ainda  possvel que haja acentuada melhora, no podemos garantir que a viso do Presidente volte". 
       - Imagem de Lilith nas escadas l de baixo - informou Melinda ao Presidente, que estava sentado numa cadeira de balano, vestido de roupa esporte. 
       Voz do reprter: 
       - Isto significa que o senhor acha provvel que ele permanea totalmente cego nos prximos quatro anos? 
       Doutor: 
       - No quero especular, baseado nas informaes de que dispomos agora, quanto ao tempo ou  porcentagem da cegueira do Presidente. 
       Corte para o reprter ao vivo: 

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       - Pela primeira vez, os mdicos do Presidente deixaram de pisar em ovos para evitar a cruel palavra que tm evitado a semana inteira: cegueira.  um fato 
que o Presidente e a nao tero de enfrentar nos prximos dias. 
       De volta ao noticiarista: 
       Ouamos a reao quanto  possvel natureza permanente da incapacidade do Presidente, indo primeiro ao Presidente da Cmara dos Deputados, o Republicano Mortimer 
Frelingheusen, que julga prematuro esse tipo de especulao. 
       O Presidente da Cmara, fumando cachimbo no seu escritrio: 
       -  cedo demais para dizer algo. Deixemos que o homem se recupere para ver como enfrenta essa nova situao. A cegueira  uma coisa horrvel, mas muita gente 
cega leva uma vida til e produtiva. Devemos agradecer que o Presidente no tenha morrido. 
       Voz do noticiarista referindo-se a um filme do Secretrio do Tesouro T. Roy Bannerman ao sair do Hospital de Bethesda, aps breve encontro com o Presidente: 
       - No podemos minimizar a cegueira.  uma incapacidade que preocupa profundamente o Presidente, no s por si prprio, mas pela nao. A presidncia  um 
cargo difcil, e isso  uma desvantagem. Rezemos para que seja temporria. 
       Melinda disse entre dentes: 
       - Muito obrigado, amigo. 
       O Presidente sorriu: 
       -  o que eu esperava de Roy. Mas Frelingheusen foi bom. 
       Ela girou o boto para outro canal, e pegou uma cobertura ao vivo por satlite, do enterro de Kolkov em Moscou. 
       - ... de Estado George Curtice, representante pessoal do Presidente ao funeral e que permaneceu aqui na Unio Sovitica desde a emboscada fatal do lendrio 
ucraniano. Os observadores ocidentais aqui, ao buscar uma pista para a sucesso, notaram que as trs principais pessoas que carregam o caixo so Georgi Mendeyev, 
o idoso Presidente das Repblicas Socialistas Soviticas e um "testa de ferro", Mihail Voroshilov... l est ele, mais perto da cmera... o ardoroso e jovem terico 
do partido, um lder dos "linha dura" do Kremlin, e o Ministro das Relaes Exteriores Vasily Nikolayev, um moderado, que o ocidente conhece bem nos ltimos vinte 
anos, mas cuja base no partido comunista no  a mais forte. 
       - Engano dele - comentou Ericson com Melinda. - Isso  o que todos dizem, mas Kolkov me contou que Nikolayev tinha 

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base slida no partido, e Voroshilov  que tinha problemas. Faa uma anotao para informarmos  CIA o que Kolkov me disse no helicptero antes que fosse derrubado. 
E a ponha na minha agenda, tambm. 
       - Especula-se aqui em Moscou que o Politburo vai selecionar uma troika, talvez essas trs pessoas segurando as alas do caixo, para liderar o governo no 
perodo de transio, ou numa poca de levante. A orquestra estatal sovitica comea a tocar o hino... 
       Mais um girar para outro canal, que informava sobre o fechamento da ltima grande fbrica americana de sapatos porque a Administrao resolvera, nas severas 
palavras do comentarista, no proteger os fabricantes de sapatos da competio estrangeira, numa "deciso consciente". Melinda ouviu o Presidente murmurar: 
       - Isso era chamado de "livre comrcio" - e depois, num tom mais ditatorial: - Que se dane o resto do programa, Melinda. Leia-me o Sumrio das Notcias. 
       Melinda desligou, por controle remoto, o aparelho de TV, e logo apanhou o Sumrio de Notcias do Presidente, uma publicao datilografada de quarenta pginas, 
preparada todas as noites por uma equipe de cinco pesquisadores - "os duendes", como eram chamados, porque quem trabalhava de dia raramente os via - e que circulava 
apenas entre vinte funcionrios da Casa Branca. A operao custava cerca de cem mil dlares anuais, mas valia: o Presidente estava sempre informado no apenas do 
fluxo de notcias, mas de seu desenrolar. O objetivo do sumrio era mostrar no apenas o que estava acontecendo, mas como os acontecimentos eram encarados pela imprensa 
diria, pela televiso, e at pelas pequenas revistas de atualidades. Melinda sabia que os duendes da meia-noite do Edifcio dos Escritrios de Executivo trabalhavam 
bem porque o Presidente sempre lhes mandava bilhetes elogiosos. O valor desses bilhetes, rabiscados  mo, foi descoberto por Ericson logo aps tomar posse, ao ler 
que um bilhete pessoal que escrevera h trs anos a um colega professor fora vendido em leilo por trezentos dlares. Desde ento, ele mandara elogios escritos  
mo para quem fizesse algo fora do comum na Casa Branca. 
       - No papel da Presidncia, vale pelo menos quinhentos dlares; no que eles fossem vender, mas  bom saber - dissera encantado. -  como dar uma gorjeta de 
quinhentos dlares, sem que isso custe um centavo. 
       Para um po-duro como Sven Ericson, esse era um dos melhores proveitos colaterais da Presidncia. Melinda perguntou-se o 

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que faria ele agora para usar como "gorjetas": poderia ainda escrever, ou aprender a faz-lo? Mandaria pequenas fitas de ditafone? Talvez ela pudesse datilografar 
os bilhetes e anexar a fita da voz dele. 
       - Sumrio de Notcias do Presidente Nmero 146 - leu ela em voz alta. Observou que eram cento e quarenta e seis dias na Presidncia, mais trs anos na Manso 
do Governador de Illinois, mais quatro anos na universidade, acompanhando esse homem de emprego a emprego,  medida que ele ascendia ao pice. Ela estava agora com 
quarenta anos, e testemunhara o infeliz casamento de Ericson, seu feliz divrcio, e suas ligaes ocasionais com mulheres cujo nome ela escrevera a lpis na agenda 
presidencial, e ela mesma havia desprezado suas prprias oportunidades de um segundo casamento vitorioso. Eles dois haviam tido um momento de intimidade especial 
cerca de trs mses depois que ela comeara a trabalhar para ele, porm ela dissera que se recusava a que Melinda McPhee fosse apenas um interldio marcado a lpis 
de algum, e eles haviam concordado em que no deveriam misturar cama e escritrio. Ele havia exposto o caso com uma frase bastante deselegante, por sinal: que no 
era sensato ter a latrina junto da sala de reunies... 
       "Vou pular a parte da televiso; o senhor j est a par disso - disse ela - e ir direto para os jornais. Duas colunas no Times, uma no Post, trs no L. A. 
Times. Todas elas tratam do relatrio do hospital de ontem sobre a crescente preocupao de que o Presidente fique permanentemente incapacitado. Os mercados financeiros 
mundiais esto muito instveis devido  expectativa da incerteza sovitica e de Ericson, e do perigo de guerra. Bannerman diz que o Presidente vai fazer a coisa 
correta, seja l qual for, e aconselha calma. H histrias tambm sobre o funeral de Kolkov e especulaes sobre seu sucessor. Boa reportagem no Times sobre as atividades 
do Vice-Presidente Nichols durante a trgica semana. 
       - Nichols atarraxou o rabo numa cadeira e posou para fotografias - disse Ericson. - Foi isso o que mandei que fizesse. Quero que todos se lembrem da minha 
alternativa: Arnold Nichols  minha arma secreta. Para minha informao particular, Melinda, faa com que Cartwright verifique se Bannerman e o Vice tm estado juntos. 
       Ela escreveu a anotao  margem do Sumrio de Notcias, que mais tarde seria sua agenda de telefonemas. Ela achou que ele estava desnecessariamente preocupado 
em ser expulso do cargo. Era a insegurana da cegueira que se manifestava atravs de uma 

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forma branda de parania poltica. Se ela conhecia bem Ericson, isso deveria passar, pois ele se adaptava a tudo. A vida dele, desde que trabalhavam juntos, tinha 
sido de viver em mudanas, usando-as em seu benefcio, transformando desvantagens em vantagens e aproveitando-se das oportunidades que sempre se ofereciam a ele. 
       - Eis aqui algo de que o senhor no vai gostar - disse ela, e leu: - Uma coluna abaixo do encarte no Post, mais uma pgina inteira no corpo da revista, sobre 
a pergunta "O que significa a assinatura do Presidente agora?" Comea a histria: "Os presidentes assinam uma pilha de documentos diariamente: alguns so importantes, 
e transformam decretos em leis, outros so convencionais, e nomeiam amigos polticos para sinecuras em comisses. Os peritos da constituio perguntam se,  luz 
da cegueira do Presidente, um homem pode ser julgado responsvel legalmente por assinar algo que ele no viu e, mais especificamente, se a assinatura de um Presidente 
cego  vlida numa lei. Afinal de contas, enfatizam eles, pode estar assinando um documento que lhe tenha sido adulterado por assessores. . 
       - No havia pensado nisso - murmurou Ericson, passando uma perna sobre o brao da cadeira. - Filho da puta! Por isso Cartwright no me tem enviado o pacote 
dirio de notcias. Me- linda, d-me caneta e papel. 
       Ele as pegou,, assinou o nome trs vezes e estendeu o papel para que ela o pegasse. 
       - Parecem com minha assinatura? Esto diferentes? 
       - No esto to desleixadas como de costume - respondeu ela. - O senhor tomou cuidado ao faz-las. Quando relaxar, vai ver que o banco aceita at seus cheques. 
       Ela sabia que o problema constitucional no era esse; estaria ele conseguindo determinar o que era? 
       -  importante que a assinatura seja a mesma de antes - disse o Presidente. - Quero que voc me devolva tudo que eu assinar que parea estar errado, porque 
estou at visualizando a comparao nas revistas sensacionalistas: "O velho e o novo Ericson". Vamos agora  questo bsica da lei - ela descansou, ele estava dando 
o enfoque real - instrua Hennessy para que me faa um memo sobre isso. O Secretrio de Estado assina junto comigo outros documentos; tem sido assim h sculos. Descubra 
por que as comisses... voc sabe as nomeaes que se penduram na parede. .. tm duas assinaturas, e por que as leis tm uma s. Talvez pudesse haver um atestado 
de comprovao em todos os documentos que eu assine, dado pelo Secretrio de Estado, dizendo 

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algo como "Eu mesmo li o texto para o Presidente". Diga isso a Hennessy. Se necessrio, transformaremos Curtice em tabelio. 
       Ela ia recomear o Sumrio de Notcias, mas ele a interrompeu. 
       - Que  que eu estou fazendo no hospital? No esto fazendo nada por mim aqui. Se eles quiserem, podem montar o equipamento de exame de olhos na Casa Branca. 
Quero sair agora daqui. 
       Ele pegou o telefone. 
       - Abelson - disse, sabendo que a telefonista da Casa Branca estaria na linha na frao de segundo em que ele levasse o receptor ao ouvido. Dez segundos de 
resmungos para si mesmo e depois: 
       - Herb? Quero ir agora para casa. H alguma razo mdica que me impea? 
       Melinda acionou a "tecla morta" de seu ramal e escutou a resposta: 
       - No h nenhuma razo mdica, Sven, mas h razes de relaes pblicas. Voc queria que o povo se preocupasse por voc estar doente, lembra-se? No apenas 
com seus olhos, mas com todo o seu corpo aps a emboscada. Nos primeiros dias recebemos uma poro de perguntas sobre isso. 
       - Isso j acabou - disse o Presidente. - H algum de nosso pessoal aqui no hospital agora? 
       Smitty estava na sala de imprensa, junto com Marilee Pinckney, sua "segunda". 
       - Pegue os dois e venha com eles aqui ao meu quarto agora. 
       Ele disse a Melinda: 
       - Continue a ler. 
       - Artigo do Tribune de Chicago sobre os Olhos e os Ouvidos do Presidente: como os assessores da Casa Branca funcionam nessa emergncia. 
       Ela leu devagar, para que o Presidente desfrutasse disso: 
       - "O maneiroso Lucas Cartwright no 'usa o chicote' como era feito pelos ex-chefes da Casa Civil da Casa Branca, e diz-se no possuir a necessria 'qualidade 
de assumir' exigida pelo momento. O conselheiro especial e velho amigo de Ericson, Mark Hennessy, est agora mais perto do centro de poder para encarregar-se das 
misses difceis, o que  indicao segura da iminente queda de poder de Cartwright, mas Hennessy... explosivo, temperamental e gozador... no  homem que inspire 
confiana. No existe conselheiro de segurana nacional, j que Ericson fez com 

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que essa funo retornasse aos departamentos da Defesa e do Estado. Do quadro snior, o homem que surge como aquele a quem o Presidente mais ouve  o decidido e 
experimentado James Smith, de cinqenta anos, ex-executivo de jornal e agora Secretrio de Imprensa do Presidente. Como James Hagerty durante a doena de Dwight 
Eisenhower, o Secretrio de Imprensa no  apenas a janela pblica da Presidncia, como tambm o principal contato do Presidente com o mundo, e Smith est correspondendo 
 ocasio. Os bem-informados acham, e muitos reprteres esperam, que a influncia de Smith continue a aumentar depois que termine a emergncia no hospital. Muitos 
se recordam de que foi Smith que andou se desentendendo com Cartwright e com o Secretrio de Estado Curtice em Yalta, quando ambos queriam concordar com a no-divulgao 
de notcias propostas pelos soviticos. A insistncia de Smith em que houvesse considerao para com a imprensa levou ao fim antes do previsto a no-divulgao dos 
acontecimentos, a sua presena no Air Force One, e as suas coletivas desde aquela ocasio. A subsecretria de Smith, Marilee Pinckney, cuja beleza desmente sua seriedade 
de propsitos, tambm impressionou a difcil-de-impressionar imprensa. 
       "A maior parte do tempo do Presidente tem sido gasta com seus mdicos, Herbert Abelson e Perry Lilith... mdicos realistas... e com sua secretria de longos 
anos, a severa e protetora Melinda McPhee..."
       Melinda fez uma pausa. O Presidente no reagiu. 
       - Pule para a seo de atualidades - instruiu. - Que diz Zophar? 
       Enquanto ela virava as pginas, ele indagou: 
       - Quem escreveu aquela bosta? 
       E ela deu prontamente a resposta: 
       - Evelyn Benn. Ela  amiguinha de Marilee. No acho que Smitty tenha sido o responsvel. 
       O Presidente resmungou. 
       - Eis a coluna de Samuel Zophar. Vamos ver como os duendes a resumiram: "A preocupao com a viso do Presidente toldou um assunto de importncia muito mais 
fundamental para os lderes mundiais: a ameaadora competio entre o Terceiro e o Quarto Mundos. A sbita paralisao da aliana das superpotncias sovitica e 
americana d  outra aliana de superpotncias, China e Japo, a inesperada abertura. Eis a ordem de batalha: 

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       "O Terceiro Mundo - riqueza rabe incentivada por tecnologia israelense, fortalecida por mo-de-obra e o arsenal atmico da ndia - tem recebido a maior dose 
de apoio da aliana sovitica-americana. Ser que a situao permanecer a mesma, agora que Kolkov morreu e o futuro de Ericson  incerto? 
       "O Quarto Mundo - as naes famintas e menos desenvolvidas da frica, Amrica Latina e Sudeste da sia, combinadas com a surpreendentemente militante entente 
canadense-mexicana - tem sido apoiado pelas Naes Unidas e pelas superpotncias do Extremo-Oriente. Seu poder e influncia tm crescido e agora quase rivaliza com 
seu afluente alvo: o rico de recursos Terceiro Mundo. 
       " vantajoso para os dois grupos de superpotncias - escreve Zophar - que o Terceiro e o Quarto Mundos entrem em competio, mas  desvantajoso para todos 
se um ou outro lado 'vencer' ou entrar em guerra - ento o precrio equilbrio, to cuidadosamente mantido h quase uma dcada, seria derrubado e a ordem mundial 
se perturbaria. 
       H dez anos, era inconcebvel que rabes e israelenses viessem a trabalhar juntos. Agora eles o esto fazendo - s que bem mais. H alguns dias, era igualmente 
inconcebvel que as superpotncias ocidentais pudessem ser subitamente paralisadas e torturadas e que talvez falsas oportunidades fossem oferecidas s superpotncias 
orientais. Ser que os lderes chineses e japoneses se aproveitaro dessa oportunidade para combater o que chamam de 'perigo branco'? Ser que as superpotncias 
ocidentais se mantero unidas, ou formaro os soviticos uma frente nica de ataque aos orientais?  isso que preocupa os homens e mulheres nas chancelarias do mundo, 
numa poca de testes que poderia ser o preldio ao desastre." 
       - Sam costuma ser taciturno - observou o Presidente - mas desta vez no foi o bastante. Ele no sabe metade da histria. E eu devo passar tudo para nosso 
Vice-Presidente Regulador de Presso? Ele  exatamente do que o mundo precisa agora. 
       Abelson bateu e olhou pela porta entreaberta. Melinda fez sinal para que entrasse, e o mdico foi seguido por Smitty, Marilee, e Jonathan Trumbull, o redator 
de discursos. Por que razo os redatores de discursos eram camaradas to legais, normalmente chamados Jonathan? 
       - Ele est bem? - perguntou Jonathan a Melinda. 
       - Estou aqui - disse o Presidente. - Voc pode falar direto comigo. 

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       Melinda poderia ter dito ao redator que, nos ltimos cinco dias, a coisa que mais irritava Ericson era o fato de visitantes falarem a terceiras pessoas, como 
se ele no estivesse l. 
       - Eu estou timo, e por isso queria falar-lhes a todos. 
       Ericson disse a Melinda: 
       - Chame Cartwright pelo telefone interno, ele deve participar disto. 
       Quando o chefe da Casa Civil veio  linha, o Presidente perguntou-lhe: 
       -  o "maneiroso Lucas Cartwright" quem fala? 
       Todos haviam lido o Sumrio de Notcias; Smitty estremeceu. 
       - Quero ir para casa - afirmou Ericson. - Que  que isso envolve? 
       - Quando o senhor chegar  Casa Branca - preveniu Cartwright - comear o trabalho. O senhor precisar ter uma reunio de Gabinete: acha que est preparado 
para isso? Ter tambm de preparar um discurso  nao, ou uma conferncia com a imprensa a ser televisionada:  isso o que deseja fazer agora? 
       Melinda lamentou por Ericson. O hospital, embora no oferecesse vantagens especiais de sade, garantia proteo dos deveres normais da presidncia. Ao buscar 
a segurana do ambiente familiar, ele precisaria enfrentar as atividades normais que subitamente se mostrariam desconhecidas, sem o uso da viso. 
       - Quem  que diz isso? - desafiou o Presidente. - Eu estarei me recuperando. No marcarei nada na agenda durante uma semana. Ficarei no andar de cima, na 
cama, jamais irei  Ala Oeste. A questo de assinatura de papelada pode ser resolvida por voc, Hennessy e o Procurador-Geral. 
       - Logo comear a haver presso para que o senhor fale - disse Smitty, apoiando Cartwright. 
       - O que no poderei fazer com um termmetro na boca - disse Ericson. - Alguma outra negativa? 
       - Sr. Presidente - disse Cartwright - a nao ficar eufrica com sua volta  Casa Branca. 
       "Sujeito sensato" - pensou Melinda. No adiantara discutir com Ericson quando este estava determinado a sair do hospital. 
       - O Secretrio de Imprensa preparou um excelente memo sobre esse movimento, quando ocorrer - concluiu Cartwright. 

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       - Voc tem estado se antecipando aos acontecimentos, Smitty 
       - disse o Presidente com ar de aprovao. - Como li nos jornais que voc est dirigindo o pas, isso  um consolo. 
       - Nada tive a ver com aquela porra daquele artigo, juro - protestou Smitty. - E o tipo do cargo bumerangue, esse meu. O senhor sabe que eu no apunhalaria 
ningum assim. Li o artigo e fiquei enojado. 
       Olhou furioso para sua subsecretria, Marilee Pinckney, que baixou os olhos. Melinda no a culpava absolutamente por haver incentivado aquele artigo: ela 
estava prestigiando seu chefe, no  custa do Presidente, e seu chefe precisava desse prestgio nessa ocasio de tenso. E se Cartwright desse um fora, ou fosse 
posto de lado, e Smitty promovido, Marilee seria a escolha lgica para secretria de imprensa. E ela faria um bom trabalho no cargo: era infinitamente mais instruda 
e inteligente que Smitty, tinha mais habilidade com os reprteres, e era mais sensvel, s necessidades de pesquisas de opinio pblica do Presidente. Ela j ensinava 
certos macetes a Smitty, antes de ele dar suas coletivas. Melinda reconhecia que Marilee, alm disso, era uma dama, no uma prostituta como a fotgrafa. Melinda toleraria, 
se soubesse que o Presidente estava de caso com Marilee. Mas depois admitiu que isso era mentira. 
       - Aquela histria no Tribune foi culpa minha, Sr. Cartwright - disse Marilee. - Peo desculpas, eu confundi a reprter. 
       - No tenho a menor ideia a que histria vocs se referem - afirmou Cartwright - mas Srta. Pinckney, "sua beleza desmente sua seriedade de propsitos". 
       O Presidente Ericson atirou a cabea para trs e deu um riso breve e alto. Melinda gostou de v-lo rir assim de novo, e subitamente sentiu-se mais triste 
do que nunca. 
       - Smitty, conte-nos o que voc escreveu no memo sobre nossa sada daqui. 
       - Temos trs opes - disse o Secretrio de Imprensa - admitindo que sua sada do hospital  a principal notcia do dia. Primeira opo: fazermos um verdadeiro 
carnaval, com apertos de mo, poses com os mdicos, uma declarao do Presidente para a TV, filmagem pela televiso na Casa Branca, que mostraria o Presidente sendo 
recepcionado na porta da frente, as expresses felizes dos auxiliares, essa demagogia toda. 
       Smitty aguardou comentrios. 

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       - O problema com isso tudo - disse Melinda -  que o Presidente poderia tropear e cair. E que ele seria visto sendo amparado pela mo, ou tateando. 
       - No apenas isso - concordou o Secretrio de Imprensa. - As cmeras fariam close-ups de seus olhos ao fazer a declarao. Close-ups intensos. Isso provocaria 
a pergunta: deve o Presidente usar culos escuros? Considerando tudo, a opo "carnavalesca" no  recomendada. No outro extremo, h a terceira opo... 
       - Isso no  justo, Smitty - disse a voz de Cartwright pelo speakerphone. - No apresente as decises de modo a que a nica escolha do Presidente seja o meio 
entre os extremos. Tenho a impresso de que se fizermos muito isso, ele vai escolher uma das op6es extremas s para irritar o pessoal. 
       - Muito bem, Lucas. Sr. Presidente, h um meio menos formal de lidarmos com o assunto. Selecionaramos um pool de imprensa para reportar a sada. No haveria 
declaraes, e apenas o senhor teria de andar da entrada lateral do hospital at o carro, o que representa uns dez passos. O senhor acenaria para os fotgrafos a 
uns dez metros de distncia; no haveria tempo para close-ups nos olhos, nem necessidade de culos escuros. O carro se afastaria lentamente, e o senhor estaria acenando 
pela janela como sempre. Escusado dizer que acho que essa alternativa faz sentido. 
       - A outra opo - concluiu Smitty -  sair escondido daqui como um ladro. Simplesmente ir embora, e depois anunciar  imprensa que na hora tal, o Presidente 
teve vontade de voltar para casa, e ele pode ser entrevistado em seu endereo da Pennsylvania Avenue. 
       - Prefiro essa ltima - disse o Presidente. - No h perigo de um tropeo, no haver nenhuma fascinao mrbida com fotos dos meus olhos, e terei mais uma 
semana inteira para me habituar a lidar com o problema. Diga que como a tentativa de assassinato ocorreu h apenas alguns dias, o Servio Secreto insistiu numa retirada 
rpida e sigilosa. 
       E acrescentou: 
       - E eles concordaro com isso, se voc lhes pedir. 
       - Acho que parece que estamos com medo - opinou o chefe da Casa Civil. - Melinda, voc que  severa e protetora, que acha? 
       Raposa esperta! Ela estava pronta para discordar do Presidente, e sua opinio seria o prato do dia. Smitty a adoraria, Cartwright

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gostaria de t-la usado, e o Presidente a respeitaria por sua independncia de opinio. Ora, merda! De qualquer forma ela estava encurralada e teria de dizer o que 
achava. 
       - Sou pelo "pequeno carnaval". Pela opo do aceno, e depois ir correndo para casa. No haveria nenhuma grande recepo na Casa Branca, o Presidente iria 
direto para cima, onde ficaria alguns dias, e, pelo amor de Deus, conseguiramos as melhores pessoas do mundo para ensin-lo a enfrentar o problema. 
       O Presidente encolheu os ombros exageradamente, e resignou-se: foi daquela maneira que ele voltou  Casa Branca. 


O VICE-PRESIDENTE 
       
       Acima de tudo, ele estava resolvido a no cometer enganos. Seria um erro mostrar-se seguidor servil do Presidente. Seria um engano contrariar a linha da administrao 
num problema de substncia. Parecer desinformado s porque ele no sabia seria no apenas um engano, mas erro crasso. Demonstrar conhecimento dos assuntos financeiros 
da campanha ou de outros assuntos proibidos seria o que os jornalistas gostavam de chamar de "um fora de grandes propores". 
       Cada entrevista, cada discurso de inaugurao apresentavam novas oportunidades para o Vice-Presidente dar uma gafe, cada voto-empate no Senado era uma oportunidade 
de dar um passo em falso. Arnold Nichols admitia sua capacidade de dizer o que no devia toda vez que abria a boca. Teria cuidado e algum dia seria Presidente. Que 
outros jogassem para vencer: tudo que ele tinha a fazer era jogar para no perder. 
       Conseqentemente, o Vice-Presidente sabia que seria acusado de ser "do outro lado", um homem de um estado fronteirio. Ele estava pouco ligando. Com quase 
setenta anos, Nichols estaria velho demais para ser reeleito se o Presidente concorresse novamente, como Ericson certamente faria. Este Vice-Presidente tinha uma 
oportunidade de chegar ao topo: ficar l, firme e pronto, incorruptvel e incontestado, se o Presidente morresse. 
       Se o Presidente morresse - raciocinava Nichols, e no raciocinar nesse sentido seria tolo, para isso havia os Vice-Presidentes - seria melhor para o pas 
e para ele que acontecesse no incio do mandato. O "Presidente acidental" poderia ento estabelecer uma slida base para concorrer e servir mais um perodo por 

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direitos adquiridos, especialmente se a idade fosse considerada desvantagem. 
       A emboscada em Yalta no foi "a gota" - pensava ele, olhando pela sacada da casa que dava para a Massachusetts Avenue tomada do Chefe de Operaes Naval h 
alguns anos. Poderia ter sido "a gota", mas no tinha sido. Agora a possibilidade de sucesso aps um assassinato era remota, porque no se esperava que Ericson 
andasse mais em meio de multides. O Servio Secreto poderia ser especialmente protetor, e o Presidente no precisaria provar sua masculinidade atravs da rejeio 
dessa superproteo. Por outro lado, o Vice-Presidente precisaria estar especialmente visvel, saltitando de um aeroporto para outro no pas. Nichols estava preparado 
para isso: seria um erro no assumir esse aspecto do cargo. No obstante, ele estava certo de que o destino no o teria feito subir tanto -toa; um dia ele teria 
sucesso, [nota *. Em ingls, o verbo succeed quer dizer ter sucesso e tambm suceder a algum. Esta a inteno do autor. (N. da T.)] em ambos os sentidos. 
       A limusine de Bannerman apareceu na entrada de carros. O Vice-Presidente jamais se entusiasmara com essas reunies semanais sobre assuntos econmicos com 
o Secretrio de Tesouro porque Bannerman era um pedagogo impaciente, da mesma forma que ele era um poltico inbil. Mais importante do que as informaes transmitidas 
era a regularidade de poderem estar juntos. Mostrava que Arnold Nichols era mantido a par das informaes, no poi algum assistente de nvel mdio, mas pelo homem 
que realmente importava nos crculos financeiros mundiais. T. Roy Bannerman fora um dos trs mais importantes banqueiros de investimentos do mundo antes de ser nomeado 
para chefiar a pasta do Tesouro, e nunca permitia que seus colegas o esquecessem. Sua celebridade no era a da fama rpida devido  nomeao, mas do nome de famlia, 
que estava na subsuperfcie da ateno pblica. Proveitos adquiridos desonestamente h tanto tempo, que podiam ser usados para comprar uma respeitabilidade inatacvel. 
Era um grande homem, de grande reputao e grandes idias. Era bom para a administrao - pensava Nichols - e inteligente o bastante para demonstrar mais respeito 
pelo Vice-Presidente do que a maioria; sua aliana informal recompensaria a ambos. 
       Curiosamente, Bannerman o havia puxado de' lado aps uma reunio do comit do Gabinete sobre poltica econmica, e lhe perguntara quando poderiam falar reservadamente. 
Era curioso porque a nica conversa particular que os homens de altas posies 

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em Washington poderiam ter seria numa reunio pblica. Todas as demais reunies eram apenas isso: reunies, e eram conhecidas apenas por aqueles que realmente precisassem 
ter conhecimento delas. O Servio Secreto fazia parte do Tesouro, mas seus homens eram leais ao Presidente, fosse quem fosse. Se Bannerman desejava uma reunio sem 
que o Presidente soubesse, isso no estava no contexto. A freqncia regular dessas tediosas reunies econmicas era uma fachada conveniente para o assunto que Bannerman 
quisesse discutir. O Vice-Presidente decidira que a visita de hoje provavelmente seria a propsito da diviso de responsabilidade dos assuntos internacionais, aps 
a tentativa de emboscada. No Gabinete de Ericson, o velho sistema do Conselho de Segurana Nacional fora eliminado. O prprio Presidente dirigia as questes internacionais, 
junto com um Secretrio de Estado negro que Nichols considerava um testa-de-ferro. Todos concordavam que Bannerman orientava brilhantemente a economia internacional, 
e o Secretrio de Defesa Preston Reed estava em processo de absorver a parte secreta da CIA para a centralizao dos assuntos de segurana. Internamente, o prprio 
pas praticamente se dirigia, isto , os governadores tinham grande autonomia com seus fundos de participao de renda, e estavam empenhados em administrar as cidades 
fracas. Nas palavras que Bannerman apreciava: "A nica responsabilidade econmica nacional que temos  manter o dlar slido e o crculo de negcios harmnico". 
       Roy Bannerman no ia falar de poltica econmica hoje. Abruptamente, ele comeou: 
       - Sr. Vice-Presidente - esta saudao formal era para dar a Nichols a impresso de que a reunio seria solene - o senhor e eu temos de discutir um assunto 
que parece ningum mais est disposto a enfrentar. 
       - A doena do Presidente - sugeriu o Vice-Presidente. 
       - A cegueira do Presidente - corrigiu Bannerman. - Todos esto pisando em ovos, fingindo que se trata apenas de um ferimento que desaparecer em alguns dias, 
mas no  bem assim. E o que temos aqui e agora  uma crise nacional. 
       O Vice-Presidente emitiu sons apiqadores, mas Bannerman continuou. 
       - Sei de fonte limpa que o Presidente est cego para sempre. Voc sabe que no me precipito em concluir coisas, Arnold. Mas esse assunto  por demais importante 
para ser deixado apenas a um mortal e a um punhado de bajuladores que gostam de 

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andar por a em jaquetas de vo, com os selos presidenciais bordados no bolso. 
       - Quem  a "fonte limpa"? - perguntou Nichols, com o interesse ativado. 
       - O diretor do Hospital de Nova York - disse-lhe Bannerman. - Durante anos, fui presidente da Junta de Provedores. O homem que o hospital naval mandou para 
atender ao Presidente  funcionrio deles. E disse claramente que sem haver uma histria mdica nesse tipo de coisa, as possibilidades so de que o Presidente esteja 
cego para sempre. Essa notcia  m,  trgica. Mas a realidade  essa, e  errado de nossa parte pensar que desconhecemos nossa responsabilidade no caso. 
       O Vice-Presidente no sabia se lhe seria conveniente discutir o assunto. 
       - Sr. Secretrio, o senhor acredita - Nichols tambm podia ser formal - que seria correto eu assumir qualquer papel neste assunto? Repito, qualquer papel? 
       Bannerman teve a inteno de rejeitar essa idia: parou e pensou um instante, O Vice-Presidente estava satisfeito; Bannerman podia ser o tigre mais feroz 
na selva da economia, mas quando se tratava de mincias constitucionais, o Vice-Presidente podia dar aulas. 
       - Sei aonde quer chegar - disse mais lentamente Bannerman. - O senhor no poderia nunca ficar numa posio de lhe imputarem ansiedade de usurpar o poder. 
Mas uma discusso da incapacidade do Presidente  certa e adequada, porque o senhor tem certas responsabilidades a cumprir, isto , se julga que ele est incapacitado. 
       - Escute, Roy - disse rapidamente o Vice-Presidente. - No posso participar de nenhuma cabala.  esta a palavra que eles usam: "cabala". Se acha que o Presidente 
est definitivamente incapacitado, e no pode desempenhar seus deveres, ento cabe a voc discutir isso com ele. Ele lhe agradeceria por ser honesto com ele. Talvez 
no receba conselhos to francos de seus assessores. De qualquer forma, no conte comigo. 
       - Acho que conheo Sven Ericson - disse Bannerman. - J nos empenhamos em algumas disputas. Ele  um intelectual e um terico, querido pelo povo de Georgetow, 
[nota *. Bairro "bem" de Washington, onde se desenrolam acontecimentos sociais a que comparecem os ricos. (N. da T.)] e todos os colunistas 

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o amam, porque ele tem uma postura  Lincoln. Acontece que no  Lincoln. Ele vai se agarrar ao osso, independente do que isso possa causar  nao, porque em uma 
espcie de megalomania. 
       - Voc est sendo cruel - objetou o Vice-Presidente. 
       - Ele acha que  um idiota, Arnold - continuou Bannerman - e voc sabe disso. Ele j declarou isso inmeras vezes, desde a conveno, quando insisti em que 
formasse a "dobradinha" com ele. Ele vai utiliz-lo como uma justificativa para ficar no cargo. 
       O Vice-Presidente engoliu em seco. Bannerman estava certo, mas errado ao tentar arrast-lo para isso, e desnecessariamente grosseiro. Talvez algum dia tivesse 
de prestar depoimento numa comisso do congresso sobre isso; Nichols no gostaria de falar sobre uma discusso de incapacidade que pudesse ter tido hoje. 
       - Mas deixe de lado o aspecto pessoal - continuou Bannerman. - Pense no pas. Voc acha que nos podemos dar ao luxo de ter um Woodrow Wilson no ltimo ano 
de vida, praticamente um vegetal, e sua mulher tomando as decises por ele? Ou de um Roosevelt em Yalta, doente demais para enfrentar Stalin e muito teimoso para 
reconhec-lo? 
       O Vice-Presidente sabia que havia lgica em tudo o que Bannerman dizia, mas gostaria que ele parasse de dizer-lhe. 
       - Pelo amor de Deus! - Bannerman quase gritou. - O Presidente dos Estados Unidos no momento... e no futuro previsvel... no consegue andar direito pelo quarto! 
Deixe de sentir pena dele, sinta pena do pas: se ele no  capaz de desempenhar suas funes, algum ter de faz-lo por ele. 
       - Por favor, lembre-se de minhas palavras, Roy - disse Nichols. - As palavras so: "Diga ao Presidente, no a mim". Vou repetir, para que ns dois jamais 
as esqueamos: "Diga ao Presidente, no a mim". 
       - Sua resposta  muito adequada - admitiu Bannerman ignorando-a como o Vice-Presidente sabia que faria - mas  voc quem ter de convocar uma reunio do Gabinete 
se um Presidente cego recusar-se a renunciar. O Secretrio de Estado jamais o far: ele  "peixinho" de Ericson, e descobrir agora sua real oportunidade de agir 
como um verdadeiro Secretrio de Estado; alm disso, ele tem mais nvel do que eu. Mas voc convocar a reunio... 
       - Tenho autoridade para tal? 
       - Existe o precedente de Nixon durante a, doena de Eisenh ywer, Mande algum pesquisar a respeito. 

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       Nichols assentiu com a cabea. 
       - No confie em Curtice - preveniu Bannerman. - Ele encara o caso como a grande oportunidade do seu setor, de ser um figuro enquanto o pas manca sem um 
Presidente que possa legalmente assinar o nome. Esteja tambm de olho no Procurador-Geral: ele  totalmente homem de Ericson. 
       - No vou falar com ningum sobre nada - disse Nichols. 
       - Isso no vai virar uma acareao. Voc deve dizer ao Presidente o que acha, Roy; ele agir da melhor forma para o pas. Mas no o force muito, entende? 
Se voc falar com ele como falou comigo, isso seria, digamos, improdutivo... contraproducente. 
       - No lhe estou pedindo para dizer nem uma palavra, Arnold - disse o Secretrio do Tesouro, levantando-se para ir embora. - Quero apenas que, quando as coisas 
esquentarem, possa contar com voc como patriota. Mesmo se isso envolver algum risco. 
       - No se precipite. 
       Nichols perguntou-se como deveria expressar seu prximo argumento para que mais tarde no parecesse que ele interferira na situao: 
       - O Presidente vai enfrentar dificuldades terrveis nos prximos dias. Quero dizer que coisas simples, que ele talvez no perceba agora, lhe causaro muitos 
problemas. A primeira reao dele... e a sua e a minha... seria lutar, mas ele sabe que o pas vem em primeiro lugar. Quando ele compreender o que  ser cego, como 
isso cria obstculos ao exerccio da presidncia, ento, quem sabe? Talvez no precisemos fazer nada, a no ser aplaudir seu sacrifcio. 
       - Bom senso - disse Bannerman, e Nichols desejou no haver um tom de surpresa em seu comentrio. - No havia pensado nisso, no elemento humano. Concordo com 
isso, Esperaremos alguns dias. Mas se nada acontecer. 
       O Vice-Presidente deu de ombros, e repetiu o catecismo: 
       - Diga ao Presidente, no a mim. 


O TERAPEUTA/ 1 

       - O Presidente quer que saiba - disse-lhe o Dr. Abelson - que ele precisa de imediata ajuda operacional, no de ajuda psicolgica. 

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       - Ele precisa enfrentar as situaes do dia-a-dia - acrescentou Melinda McPhee. - Como movimentar-se, vestir-se, organizar-se. 
       O terapeuta assentiu com a cabea, e acrescentou: 
       - Compreendo. 
       Sempre verbalizava aps um sinal silencioso, caso houvesse algum cego presente. Compreendia a razo bsica de preocupao dos auxiliares do Presidente. Hennessy 
lhe dissera na vspera, ao telefone, que se estavam arriscando muito ao convocar um psiclogo para a Casa Branca: 
       - Deus sabe que este terreno aqui abunda em material para psicanalistas - dissera Hennessy. - Mas o povo americano ficaria furioso se soubesse que seus lderes 
precisavam de algum para evitar que ficassem furiosos. Assim, o senhor no pode vir nessa condio profissional. Tem de ser identificado publicamente como um homem 
cego que se ofereceu para ajudar o Presidente a se adaptar s necessidades fsicas de no poder enxergar, mesmo temporariamente, ou seja, ao ABC: andar com bengala, 
ler braille, etc. 
       - No precisam apresentar-me como "Doutor" - disse suavemente o Dr. Fowler para o mdico e a secretria do Presidente. - Meu nome  Hank, Hank Fowler, e estou 
aqui como algum que  cego h muito tempo, e pode ensinar ao Presidente alguns truques dessa condio. 
       Abelson respirou aliviado. 
       - Disseram que ele era o melhor que h - disse a Melinda. - Ele percebe rpido as coisas. 
       Esse era o erro crasso da terceira pessoa: falar em presena de um cego como se ele no estivesse presente, e Fowler perguntou-se se deveria corrigir imediatamente 
os assessores do Presidente. Decidiu esperar. Mais tarde poderia ensinar-lhes como tratar com um homem cego; agora estava mais interessado em chegar ao Homem. Todas 
essas afirmaes de no-psicologia eram necessrias no apenas para estar-se de acordo com os supostos estigmas na mente do pblico, como tambm na do paciente. 
Ele estaria apenas ensinando a andar com uma bengala. 
       - Ele tem certas vantagens - disse a voz feminina, vibrante, clida, rara numa pessoa cujo ponto forte era a eficincia - que o senhor pode aproveitar. O 
Servio Secreto est constantemente com ele, e pode desloc-lo para qualquer lugar. As telefonistas do pessoal permanente esto sempre a postos para conseguir o 
lugar ou a pessoa que ele desejar. Todo o governo est  disposio dele. 

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       - Ele usa o telefone como uma muleta - acrescentou o Dr. Abelson. - Antes, preferia reunies cara-a-cara. 
       - Ele tem uma vantagem em relao  maioria das pessoas cegas - concordou o terapeuta, e depois arriscou-se num assunto que lhe era mais til. - Como  que 
ele est reagindo? Sei que isso me faz parecer um psicanalista, e no quero que parea, mas pode ajudar saber antes que o conhea. Ele est mais irritvel agora? 
Ou estranhamente quieto? Em que ele lhes parece diferente? 
       - Ele realmente se adaptou esplendidamente - comeou a mulher, mas o homem que andava pelo quarto a interrompeu. 
       - Melinda, pelo amor de Deus, o homem  mdico. Est aqui para ajudar. Ele vai jogar o nosso jogo de fazer com que tudo parea puramente fisiolgico, mas 
temos de ser francos com ele. Ericson est diferente. 
       - Se no estivesse - disse o terapeuta - ele seria maluco. 
       - Est certo - disse a voz da mulher. - Ele est muito misterioso. Reluta em dizer o que pensa. Olhe, ele nunca foi muito aberto, mas para ns, em particular, 
ele costumava desabafar. Estamos todos juntos na Presidncia, compreende? Agora, ele no se abre com ningum. Est com medo, e no quer que ns o percebamos. 
       -  mais profundo do que isso - disse a voz do homem. Abelson mudou de posio. Fowler teria de preveni-lo sobre isso. Um cego gosta de que as pessoas fiquem 
onde esto ou, pelo menos, que falem enquanto se movem. 
       - Ele sempre foi totalmente independente, e agora est dependente. Isso o aborrece, e ele sabe que  irracional, e se zanga consigo mesmo por deixar que isso 
acontea. Ericson  uma pessoa extremamente fria, e jamais se permitiu ficar vulnervel a algum ou alguma situao. Agora, est totalmente vulnervel. Preocupa-se 
que v perder tudo. Quem sabe isso talvez lhe fosse benfico em algum aspecto, mas ele  um homem diferente num mundo diferente. 
       Melinda acrescentou, como uma segunda reflexo: 
       - Ele no quer perder seus poderes. Isso sempre lhe foi importante, agora mais do que nunca. 
       Fowler teve a impresso de que as duas pessoas com quem conversava estavam animadamente desempenhando seus prprios papis em relao a Ericson. Abelson parecia 
sentir especialmente 

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a euforia que se experimenta  beira da histeria, e havia certo prazer em verificar a fraqueza de um homem cuja invulnerabilidade anterior o irritava. A mulher parecia 
mais serena, e reagia bem ao fato de ser mais necessria, mas ele se reservava o julgamento final sobre isso. Sua observao sobre a necessidade de poder do Presidente 
o interessou. 
       - Posso tocar seu rosto? - perguntou-lhe. Estendeu o brao e tateou-lhe o rosto com as pontas dos dedos: pele suave, mas salientes, nariz aquilino, lbios 
cheios, linha do queixo acentuada. Ele agradeceu por lhe haver deixado fazer aquilo em parte por curiosidade, porm principalmente para arraigar um sentido de pasmo 
pelos poderes possivelmente sobrenaturais da pessoa cega. Uma mstica jamais magoava um psicanalista. Ele perguntou se seria possvel ver o Presidente; a mulher 
fez a chamada e obteve o sinal verde. 
       "Dr. Abelson - disse o terapeuta, levantando-se. - Deixe-me pegar-lhe o brao e vamos indo. Por favor, ande depressa, eu o acompanharei. Quando eu estiver 
com o Presidente, se o senhor puder encontrar uma forma de se desculpar e nos deixar sozinhos, eu lhe agradecerei. 
       Eles andaram depressa para fora do consultrio do mdico no subsolo da residncia central da Casa Branca, at um elevador e, depois de dez segundos, entraram 
numa sala de p direito alto, onde ecoavam as passadas. Cortesmente, Abelson descreveu a pea para Fowler: o vestbulo central, um comprido corredor ao longo da 
residncia, largo o bastante para ser decorado como uma sala. Foi conduzido  esquerda, e Abelson descreveu o Salo de Espera Oval  sua direita, depois a Sala da 
Rainha  esquerda, depois a pequena Sala de Estar Lincoin, onde Abelson o anunciou ao Presidente. Fowler estendeu a mo e disse: 
       - Herb, que tal fazer com que apertemos as mos? 
       Abelson orientou-lhe a mo at a mo estendida do Presidente. 
       - A esta altura - disse Fowler, apertando a mo grande e calorosa na sua prpria mo - algum costuma dizer que o roto est conduzindo o esfarrapado.. 
       Abelson reprimiu o riso nervosamente e guiou Fowler a uma poltrona, enquanto dizia ao Presidente: 
       - Hank  o principal perito mundial em ajudar gente que no consegue ver a logo tornar-se "funcional". Ele tem alguns macetes. Vou embora agora; pra variar, 
Furmark est do lado de fora da porta. 

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       O terapeuta esperou que o Presidente falasse primeiro. 
       - Disseram-me que o senhor tem experincia prpria do assunto - disse Ericson, e Fowler apenas concordou: 
       -  verdade. 
       A ltima coisa que as pessoas cegas gostam de escutar so os problemas de outras pessoas cegas. Os cegos h pouco tempo tampouco gostavam de conhecer gente 
nova, cujas vozes no podiam ser ligadas a rostos conhecidos. 
       - Deixe-me descrever-me, senhor - disse ele, com a voz baixa mas falando rpido. - Sou baixo, mais para gordo, rosto redondo. Tenho cinqenta e dois anos, 
sou liberal, estou ficando careca em cima, e meu bigode  negro. 
       - O senhor mesmo o apara? 
       - Fao tudo sozinho, Sr. Presidente. No porque precise, pois minha mulher poderia faz-lo para mim, mas dirijo minha vida porque isso me envaidece, e preciso 
sentir-me assim. 
       Aps o primeiro contato, o terapeuta fez com que o paciente cumprisse uma tarefa simples: 
       - Esta  a famosa Sala de Estar Lincoln? O senhor poderia descrev-la para mim? 
       - Claro. 
       Fowler imaginou que Presidentes gostassem de descrever partes da Casa Branca; isso estabelecia sua ligao com tudo que havia antes. 
       - Esta cadeira de balano onde estou pertenceu ao Presidente Buchanam. Era velho quando veio para a Casa Branca, e disse: "Todos os meus amigos esto mortos, 
e todos os meus inimigos so hoje meus amigos". Boa frase, gostaria de saber quem a escreveu para ele.  minha esquerda, e sua direita, fica uma estante, onde antigamente 
havia a vida de Lincoln, escrita por Carl Sandburg, e todas as obras de Lincoln, mas eu as pus para baixo na biblioteca oficial porque preciso do espao aqui para 
livros que estou lendo agora. 
       Fez uma pausa. 
       - Acho que podem pr o Sandburg de volta. A nica coisa que  Lincoln nesta sala agora  um busto, esculpido por Volk, na escrivaninha,  minha direita. 
       - Coloque-se no centro de um relgio - disse o terapeuta - como nesses filmes de fora area, e suponha ser meio-dia. Onde est a escrivaninha? 

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       - Nas trs horas. 
       - O telefone? 
       - H dois aqui. Um na escrivaninha, digamos nas duas horas, e o outro  minha mo direita, quase nas cinco horas. 
       - Janela? 
       - Atrs de mim. Nas seis horas. 
       - O banheiro? 
       - Nas trs horas,  apenas um vaso, sem chuveiro. Meu banheiro fica no fundo do corredor, perto do meu quarto. 
       - Pronto para a lio nmero um? Leve-me l. 
       O Presidente levantou-se muito devagar, tocou o ombro do visitante, e o conduziu para fora da Sala de Estar Lincoln. Fowler podia visualiz-lo, de brao estendido, 
tateando pelas paredes que julgava poder lembrar. O Presidente passou pelo Quarto de Dormir Lincoln, e disse ao agente que no ajudasse nem dissesse nada. Quando 
chegaram ao que Fowler julgou fosse o vestbulo central do itinerrio, o Presidente movimentou-se  frente com mais confiana, at que enfiou a mo numa parede. 
       - Isso aqui  uma parede - anunciou Ericson. -  nova, nunca antes de hoje esteve aqui. 
       - Existe uma porta  direita? 
       Fowler lembrava-se de haver entrado por uma porta, e era lgico supor que fosse uma entrada para o vestbulo central. Ericson os levou pelo vo da porta at 
o vestbulo central, na direo de onde Fowler saltara do elevador. 
       - Viramos  esquerda aqui - disse o Presidente. - Tente no derrubar nenhuma antigidade. Jackie Kennedy teve um trabalho com elas. 
       Esbarraram num sof, recuaram, e entraram no quarto do Presidente por uma porta. O Presidente foi at a cama, que lhe era familiar, e sentou-se nela. 
       - O banheiro - disse ele, com algum esforo - fica a sete passos de onde estou. Se o espaldar da cama est nas doze horas, a porta do banheiro est nas quatro 
horas. 
       Perto dele, Fowler perguntou: 
       - Sete passos seus devem corresponder a dez meus. Lembra-se da foto de Romulo seguindo MacArthur na praia? 
       - Se o senhor no est mesmo com vontade de usar a privada, sou capaz de mat-lo. 

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       - Volto logo, logo. 
       Fowler atravessou o quarto, tateou a porta, tocou rapidamente a cortina do chuveiro, a pia, o vaso, a toalha, e comeou a urinar. Depois deu a descarga, lavou 
as mos, e cantarolou o tempo todo, como se o banheiro lhe fosse familiar. Sabia que Ericson devia ter passado momentos agnicos l dentro, tateando pela toalha, 
quebrando frascos. Anotou mentalmente para dizer a Abelson que trocasse os frascos e os copos para plsticos e que instalasse uma ala no chuveiro. 
       Fowler saiu do banheiro e escutou o Presidente rir baixinho. 
       - Est achando graa de que, Presidente? 
       - Conheo essa cano que o senhor estava cantarolando. Ela  engraadssima. Voc deve ser um gozador, Fowler. 
       Isso agradou ao terapeuta; poucos de seus clientes percebiam a ironia ou apreciavam I Only Have Eyes For You [nota *. S Tenho Olhos para Voc. (N. da T.)] 
sendo cantada por um psicanalista cego. Se Ericson gostava de uma brincadeira, isso seria utilssimo. 
       - Agora deixe-me lev-lo de volta  Sala de Estar Lincoln - disse animadamente. - Agarre meu brao e vamos depressa. 
       Levou o Presidente at o vestbulo, pelo vo da porta, de volta ao lugar de onde haviam sado, tudo isso de modo confiante e fcil. 
       - Bom truque, doutor. Conte-me como  que se faz. 
       - Obviamente, pela contagem dos passos - disse-lhe Fowler. - Seis passos para fora da porta, vinte e sete pelo corredor, vo da porta, doze passos at a Sala 
Lincoln, nove atravs dela at a sala de estar. Agora vamos aprender como  que no se bate nas paredes. Existe um macete novo para isso. 
       Ele apresentou um objeto redondo e grosso numa correia de relgio e o ps com fora na mo do Presidente. 
       - Este  um relgio sonar, ainda no disponvel comercialmente, mas o senhor pode us-lo ao invs de uma bengala. J escutou a expresso "cego como um morcego?" 
Os morcegos podem ser cegos, mas no esbarram nas coisas, porque tm esse dispositivo de eco embutido.  o mesmo princpio. 
       Enquanto o Presidente delicadamente prendia o relgio no pulso, Fowler comeou o treinamento, e ps a mo perto do sonar, o que provocou leve vibrao. 

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       - Isso revela objetos  sua frente. Desempenha a funo de uma bengala comprida. 
       - Estava preocupado por ter de usar uma bengala - disse o Presidente. - Isso me faria objeto de piedade. Essa geringona eletrnica  muito melhor, Hank. 
       Fowler resolveu jogar-lhe um jato de gua fria. 
       - No  to bom quanto uma bengala, Sr. Presidente. A utilizao habilidosa de uma bengala comprida ainda  o melhor meio de locomoo de uma pessoa cega. 
O relgio sonar  apenas uma engenhoca para se usar at a pessoa no se importar mais em ser objeto de piedade. Definindo melhor: um relgio tem melhor aparncia, 
uma bengala funciona melhor. 
       - Nesta altura - observou Ericson - estou infinitamente mais interessado na aparncia. Se eu comear a tropear por a, ou a agir como algum que no pode 
ir daqui para ali sem a bengala de um cego, haver gente que me dar uma caneca de estanho e me dir para trocar de emprego. 
       O terapeuta tinha outras engenhocas eletrnicas para dar a Ericson um rpido empurro no moral. Para o outro pulso do Presidente, ele surgiu com um relgio 
que dizia a hora pelo toque. Em cinco minutos, Ericson dominou a tcnica dessa simples operao, mas isso provocou outro assunto: braille. 
       - Em menos de seis meses o senhor conseguiria aprender os rudimentos do braille - disse-lhe Fowler. O Presidente nada respondeu. - Se o senhor est balanando 
a cabea, Sr. Presidente, isto no me ajuda. 
       - Desculpe - disse apressadamente Ericson. - Esqueci. Quero dizer, no tenho seis meses para me dedicar a aprender uma nova lngua.  melhor que Melinda leia 
para mim. 
       - Vou lhe dizer o que vou fazer - disse Fowler. - Tenho aqui um gravador, do tamanho de um mao de cigarros, e um sistema simples para fazer com que seu dispositivo 
de audio se equilibre com seu dispositivo de leitura. Se o senhor l depressa, deve ler cerca de 225 palavras por minuto. Quando as pessoas falam depressa, falam 
no mximo  metade daquela velocidade. Eis o que fazemos para executivos cegos que precisam absorver informaes pelo menos to rapidamente quanto costumavam ler. 
Gravei essas minhas palavras. Vou agora reenrolar, e tocar de novo no dobro da velocidade, no to veloz ao ponto de ficar uma algaravia, mas apenas para que o senhor 
aprenda o sentido. 

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       Ele tocou a fita acelerada do ltimo minuto de suas palavras e esperou a reao. 
       - Isso  at mais bacana que a sua valise cheia de relgios de pulso, doutor. 
       Ele conseguiu ouvir o sorriso de Ericson. 
       - Hoje em dia Melinda demora bem uns quarenta minutos para me ler o Sumrio de Notcias. Ela poderia grav-lo e eu economizaria metade do tempo. 
       - Mais do que isso, o senhor poderia acelerar as partes menos interessantes ou at pul-las. 
       - Agora sim! - disse animadamente o Presidente. - Esse negcio de se movimentar, contar passos, minha aparncia, tudo isso  importante para restabelecer 
a confiana pblica. No  importante para meu desempenho no cargo: os agentes podem guiar-me por a. O problema, porm, que me vem atormentando  a capacidade de 
enfrentar o cargo. Poderei absorver todas as informaes que me chegam? Poderei organizar dados para uma deciso? Voc me est provando que h mais esperana do 
que eu imaginava. 
       Agindo mais lentamente, ao entrar em reas mais difceis de treinamento, Fowler demonstrou ao Presidente como realizar um feito que as pessoas que enxergam 
aceitam sem discutir: a elaborao de uma lista. No quadro-negro limpo em sua mente, um cego poderia escrever, e ver o que escreveu. Fowler o testou com alguns nmeros 
e smbolos, e ficou satisfeito ao comprovar que seu aluno era arguto; nem todos os executivos aprovavam nesse tipo de treinamento. 
       - Em umas duas semanas, o senhor achar que est comeando a poder enfrentar bem - disse ele - e daqui a uns dois meses, com treinamento intensivo, o senhor 
e seus assessores estaro habilitados a programar seu computador mental algo diferente, e o senhor estar realmente pronto. Suponho, Sr. Presidente, que o senhor 
foi capaz de se desempenhar de seu cargo quando podia ver...
       Aps esse gracejo, respeitoso mas no servil, o terapeuta achou que j estava na hora de fazer esta pergunta: 
       - O senhor tem algum problema ao se levantar? 
       A glida reao do Presidente ficou no ar. 
       - Como assim, Hank? 

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       - Fiquei cego aos trinta e poucos anos, como resultado de um acidente, o mesmo que lhe ocorreu, e o que me aborrecia demais era acordar de manh. Antes do 
acidente, eu acordava, abria os olhos... isto era parte do ato de despertar. Agora, no ver nada quando se acorda,  como no saber que se tinha acordado, que ainda 
se estava sonhando, ou algo assim. Depois comecei a sonhar que estava acordado quando no estava, e isso s piorou o ato de despertar. Era uma sensao meio lgubre. 
Eu comeava os dias agoniado. 
       - Isto no me acontece - disse o Presidente. - Estou sempre bem de manh. 
       "Esse vai ser um osso duro de roer", pensou Fowler. "E s se adaptar s atividades de seu novo cargo quando enfrentar a realidade de que  um homem cego." 
Essa terapia envolvia muita coisa: no apenas as suaves atividades presidenciais, mas as esperanas de vinte milhes de pessoas com defeitos fsicos na Amrica. 
Fowler teria muito cuidado com esse paciente. O Presidente podia estar eufrico agora, ao descobrir dispositivos eletrnicos e a ginstica mental, mas logo entraria 
na depresso tpica dos cegos h pouco tempo, algo de que Fowler se lembrava vivamente. 
       - Voc acha que vou conseguir, Hank? 
       - Qualquer homem que ache que pode liderar este pas - respondeu Fowler - deve ter um ego quilomtrico. Vamos comear explorando isso. Se o senhor acha que 
consegue realmente liderar a nao, provavelmente pode convencer-se de que pode govern-la com uma deficincia fsica, qual seja, uma perda de fala, de viso, ou 
de audio, ou de pernas. Acho que podemos dizer sem medo de errar que o senhor tem motivao. 
       O terapeuta indagou-se se poderia ir mais longe nessa fase inicial, e "jogou verde": 
       O Sr. Hennessy me disse para lhe dar minha opinio sobre se o senhor  capaz de desempenhar os deveres de seu cargo. Olhe: vou sair daqui, pegar um txi para 
o aeroporto, voar at minha casa em Atlanta, fazer malas para ficar aqui um ms, e voltar... tudo isso sem nenhuma ajuda de gente que enxerga. Depois vou fazer um 
trabalho de terapia ocupacional com o senhor que me vai tornar um heri junto a todos os psiclogos do pas. Isso porque sou vaidoso e duro, e muitssimo competente. 
No sei se o senhor  capaz de desempenhar os deveres de seu cargo, ou se chegar a s-lo, mas se no der certo, a culpa ser sua, no minha. 

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       O Presidente se levantou, foi at a escrivaninha, empurrou alguns papis para o lado, e sentou-se em cima. Fowler o seguiu com os ouvidos. 
       - Quero perguntar-lhe algo como a um americano, Hank, no como a um psiclogo, nem cego: Voc acha que devo fazer a tentativa? 
       Fowler sabia o que o Presidente queria ouvir, mas decidiu dar-lhe uma amostra de como era a vida para um cego: 
       - Nunca pea a um cego para no pensar como cego. 
       O mdico pessoal do Presidente fez saber de sua presena  porta da sala de estar, provavelmente convocado, julgou Fowler, por um boto perto da mo do Presidente. 
       - Interessante - disse Fowler, com voz forte - qual  o cdigo de seus botes para chamar gente? 
       - A maior parte das vezes uso o telefone - respondeu o Presidente. - Ao telefone, sou igual a todo o mundo, por isso vou continuar utilizando esse meio. O 
problema  que no posso tomar notas de uma conversa. Bem, suponho que o gravador de memria seja a soluo. Quanto aos botes, a bateria de botes  novidade para 
voc, Hank. 
       Ele se aproximou de uma engenhoca mais ou menos do tamanho de um boto de controle remoto de televiso, com seis botes: 
       - O de cima  Melinda, minha secretria; o segundo  Furmark, o agente  porta; o terceiro  aqui o Herb; o quarto  a telefonista da Casa Branca, para me 
ligar caso eu no consiga achar o telefone; o quinto  Cartwright, o chefe da Casa Civil. 
       - E o de baixo? - perguntou o terapeuta, tocando-o. 
       - Manda o mundo pelos ares - disse o Presidente. 
       Mesmo sendo piada, Fowler retirou o dedo. 
       - Na verdade, esse boto  para o homem de valise negra, caso haja necessidade de um ataque nuclear retaliatrio. D incio a um processo que tem todos os 
tipos de verificaes cruzadas e protees embutidas. 
       - Como  que o senhor pede uma xcara de caf? 
       - Atravs de duas chamadas para Melinda; ela a manda o garom. Trs toques  a dieta de soda. 
       - E dois toques para o Dr. Abelson querem dizer: "Tire esse sujeito daqui. Use uma desculpa mdica" - resumiu Fowler. 

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       - O senhor entendeu tudo - disse Abelson. - Estamos tentando organizar as coisas. Vou colocar uma pilha de livros sonoros da Biblioteca do Congresso aqui 
na mesa, junto com a mquina que os toca. Foi uma boa sugesto, Hank, o bibliotecrio de l estava esperando ser chamado. Eles tm bastante espao para livros sonoros 
resumidos. 
       - Que livros voc escolheu para mim, Hank? - perguntou o Presidente. 
       - Um deles foi o Moby Dick - disse o mdico. - Voc escreveu um trabalho sobre ele na faculdade, lembra-se? Pode-se escutar tudo de novo, literalmente, em 
seis horas. E a biografia de Lincoln escrita por Sandburg, porque  adequado a esta sala, e o livro que voc ps na cabeceira no ms passado, mas nunca leu: Raising 
Keynes, do Professor Lord. Pus tambm um outro que foi idia de Hennessy - fez um barulho na mesa - o ltimo e apelativo bestseller sobre duas lsbicas sensveis. 
Eu o escutei ontem  noite, e foi mais rpido do que se o tivesse lido. 
       - Sempre surpreende as pessoas - comentou Fowler com o Presidente - que uma pessoa cega mencione um romance atual.  boa idia querer mostrar que se est 
 frente das pessoas que enxergam. 
       - Vou adotar isso. Herb, qual a ltima notcia sobre Harry Bok? 
       - Falei com ele hoje de manh. No passa bem. Est deitado de costas, imvel, no tem nenhuma sensao nas pernas. Nosso cirurgio est l, e talvez o opere 
amanh. Ele me disse que  uma interveno delicadssima, e pode resultar em paralisia. 
       O Presidente chamou o agente  porta, comprimindo o boto, e fez um estranho pedido: 
       - Consiga-me uma nota falsa de vinte dlares e um crayon vermelho. 
       Furmark respondeu tambm estranhamente: 
       - Se uma nota falsa de dez dlares servir, senhor, eu tenho uma aqui. Muitos de ns as carregam como lembrana. 
       Ericson a apanhou, pegou uma caneta com tinta vermelha, e escreveu uma mensagem na nota: 
       - Voc consegue ler isso, Herb? 
       O doutor leu: 
       - "Ajude-me a lutar contra os falsrios, Harry! Grato, Sven Ericson".

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       O Presidente perguntou: 
       - Parece com minha caligrafia? 
       Abelson respondeu: 
       -  bastante parecida para fazer com que essa nota falsa passe a valer um bocado de dinheiro verdadeiro. Vou mand-la para ele pelo malote. 
       - Pelo menos quinhentos dlares - disse o Presidente, e acrescentou: - Providencie para que tratem bem de Harry. Curtice continua l? Mande-o visitar Harry 
antes da operao, envie j o recado. Alm disso - acrescentou, em tom diferente -  melhor que o Secretrio de Estado permanea l por algum tempo, pois ele seria 
necessrio para se convocar uma reunio do Gabinete aqui. 
       - Harry me passou a tarefa de combinar as sesses fotogrficas - acrescentou o mdico do Presidente, e Fowler achou a observao irrelevante. - Por favor 
me informe quando quiser lotos. 
       - Logo, logo - respondeu Ericson. - Quando for o caso, vou dar trs toques longos. 
       Fowler balanou a cabea, aturdido com a vaidade de um homem pblico que queria um registro fotogrfico de suas experincias mais penosas. Ele ainda no tinha 
um retrato definitivo de seu novo paciente: agora frio, depois generoso, uma hora enganador, outra hora incisivo, agora atormentado, depois confiante. De qualquer 
maneira, era uma tremenda oportunidade, que o terapeuta estava resolvido a no perder 


A FOTOGRAFIA OFICIAL/2 
       
       - Al, Pdeu! Est com saudades? 
       Normalmente, ela teria feito uma pose estonteante contra a umbreira da porta que levava do vestbulo da Ala Oeste ao Salo Oval, chacoalhando as trs cmeras 
e inclinando-se num trip, mas o Homem no podia mais apreciar isto, de modo que ela apenas chegou ali, entregue por Herb Abelson s oito da noite, marcadamente 
consciente de sua funo mais importante na Administrao Ericson. 
       - Buffie! Que  que voc est vestindo? 
       - Me apalpe para saber. 

Pg 116 
       Ela escorregou para o colo dele para que Ericson pudesse enterrar os dedos nas costas e descer at os quadris e lembrar-se, seguramente, do macaco verde 
em que ele a vira tantas vezes. Herb lhe havia dito para vestir algo de que o Presidente se lembrasse, e que no experimentasse nenhum perfume novo, nem agisse diferentemente. 
Eles estavam programando as pessoas de forma a que elas pudessem lidar com Ericson como se este fosse uma mquina sem uma pea, mas que continuasse a funcionar perfeitamente, 
na iluso de que a mquina ignorasse a falta da pea. Suas mos enormes eram as mesmas, enquanto ele a apalpava ferozmente, e depois a tirava do colo. Ela sentou-se 
no tapete com os braos cruzados nos joelhos dele, enquanto ele se sentava numa cadeira de balano em frente  lareira do Salo Oval. 
       - No me deixaram aproximar-me de voc desde a emboscada. Cartwright mandou que eu no tirasse fotos, e no havia Harry para me conseguir fazer chegar a voc. 
Voc est realmente num casulo, sabe, mais do que pensei. 
       Entretanto, ela sabia que se Ericson a tivesse querido por perto, teria encontrado um modo de faz-lo. Ele no era justo ao insistir em que ela fosse exclusiva 
e depois ao mant-la no gelo assim, mas ele havia sofrido um bocado na ltima semana. Ela sabia que deveria ter mais considerao; talvez no estivesse conseguido 
manter o membro duro, e estivesse constrangido. Ela acarinhou-lhe as pernas. Herb Abelson tinha razo: era diferente estar perto dele quando aqueles olhos no estavam 
dardejando olhares glidos em sua direo, quando estavam abertos, olhando para o vazio. 
       - Vou te dar uns culos bacanas, Pdeu - disse-lhe ela, porque no havia sentido em no diz-lo. - Quero pensar que voc continua a me olhar. 
       - Voc acha que devo usar culos escuros? 
       Ele havia obviamente pensado na pergunta. Ela no lhe tirava a razo por no querer parecer um mendigo cego: culos escuros, caneca de alumnio, cartaz pendurado 
no pescoo, um cachorro esqulido ao lado, tudo convidava  piedade. 
       - No "culos escuros" - corrigiu ela. - Talvez um desses aparelhinhos com espelhos "legais", que os motoqueiros usam. 
       - Eu ia ficar um "estouro" com um casaco de couro e culos prateados - murmurou Ericson. Ela balanou a cabea; ele no costumava se importar a mnima com 
sua imagem, a no ser que o no se importar fosse parte da imagem. Ele agora provavelmente falaria da diferena de idade entre eles. 

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       - Voc sente falta da gerao "po com cocada", Buffie? 
       - Diga-me de novo h quantos sculos voc  o Lama Superior de Shangri-l. 
       Ele sorriu sem graa. Ela esperava ter uma oportunidade de chegar-se a ele, durante a noite, para demonstrar-lhe O que sentia: 
       uma espcie de amor incondicional e meio servil, mas amor, e para tirar-lhe um pouco de fora para ela, porque estava abalada pelos acontecimentos, que poderiam 
afetar-lhe os planos de um futuro excitante. Ela esperava que ele a houvesse mandado chamar para que pudessem estar juntos de verdade, no para uma trepada "de coelho" 
no escritrio antes que ele voltasse ao trabalho ou comeasse uma daquelas interminveis discusses sem sentido com Hennessy. A cabina telefnica era divertida; 
fora ela que lhe ensinara a alegria de fazer sexo de repente no escritrio, mas a essa altura seria apenas o modo de ele se provar que ainda era o chefe, e seria 
bom se no precisasse provar isso. 
       - Que  que voc tem ouvido, Buffie? L pela sala de imprensa. 
       Era a pergunta favorita dele: "Que  que voc tem ouvido?". A mesma pergunta que fazem todos os polticos preocupados. 
       Ela fingiu estar exasperada, e ele gostou: 
       - Voc mandou Melinda me dar um recado falso! Voc mandou que a maioria dos agentes do Servio Secreto sasse da entrada Oeste do Executivo para a Ala Oeste. 
Voc fez com que seu mdico pensasse ser uma espcie de gigol; quero dizer, o pobre infeliz est muito constrangido, tudo para me ter aqui a seus ps, e agora quer 
o resultado de uma pesquisa de opinio? Qual  a sua? 
       Ela ficou contente por ver que isso o relaxou, e esfregou-lhe a perna lentamente. 
       - Na verdade - informou ela, porque ele perguntara e porque ela observara - esto todos se aprontando para uma coletiva. 
       - Sempre esto. 
       Ah, mas no dessa forma. Querem ver se voc agora  um invlido intil de quem podem ter pena. 
       Ela tocou na protuberncia entre as pernas dele e disse: 
       - Voc no mudo muito. Vou espalhar isso. 
       - Voc no disse nada sobre aquela outra vez, no , Buffie? No trem? 

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       Como se ela fosse espalhar uma coisa daquelas! Havia ocasies cm que o Homem era to inteligente, to  frente dela, que ficar perto dele era o mximo, e 
havia vezes em que ele a decepcionava ao consider-la uma boazuda imbecil que ele conservava para ser um conveniente receptculo. 
       - Nem sequer me lembro o que houve da outra vez, Pdeu - replicou. - Mas agora que voc tocou no assunto: esse  um bom sinal, no ? Isto , voc j se livrou 
disso antes, pode acontecer de novo. 
       Ele tirou-lhe o cabelo da testa, aninhou-lhe o rosto entre as mos, inclinou-se e beijou-a longa e ternamente. Depois se recostou na cadeira de balano. 
       - Da ltima vez, naquele trem de campanha, durou apenas dois dias, lembra-se? J faz cinco dias que no consigo ver, Buffie. Esperava estar bom h muito tempo. 
       - Da segunda vez - disse ela, como se tivesse algum conhecimento mdico cigano - demora mais. Talvez duas semanas. Depois voc vai enxergar novamente. Mas 
que este seja o ltimo aviso; chega de bater com a cabea, ouviu bem? 
       - O motivo pelo qual temos de nos calar sobre a ltima vez - disse ele, voltando ao assunto como se ela no compreendesse - no  porque ns dois estivssemos 
tendo relaes no trem de campanha. Na ocasio foi esse o motivo. A razo pela qual temos de nos calar agora  por que no dissemos nada na 
       ocasio. 
       - Voc no acha que deveramos ter contado tudo ao mundo naquela ocasio, no ? 
       - No, no poderamos. Na verdade, gostaria que o tivssemos feito. Nada h de errado em dar uma trepadinha entre as paradas do trem... - Ele acariciou-lhe 
o cabelo como se para mostrar que o gracejo no fora falta de respeito, e continuou: - mas estaramos afrontando as pessoas. O povo espera que um candidato  presidncia 
tenha relaes  noite, na cama, com sua mulher, numa posio decente. 
       - Mas no  isso que eles fazem - insistiu ela. - Voc no tem idia da trepao que acontece em escritrios, em salas escuras, na parte traseira de carros, 
na parte fronteira de avies. Este foi sempre seu problema - acrescentou Buffie. - Voc era to metido a besta at me conhecer!...
       Falar sobre isso teve um efeito especial sobre ele; ela o tocou novamente. 

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       - Voc est ficando tesudo, tesudo. Est na hora de subirmos, ter relaes, jantar, conversar, brincar. 
       - O problema agora - disse ele -  que o fato de no havermos contado nada torna o caso sinistro. - Pdeu no costumava ser to ansioso para transmitir um 
ponto de vista. - No  s o fato de eu no querer admitir que tinha relaes entre as paradas. Acontece que, eu enganei o povo sobre minhas condies de sade antes 
da eleio. Naquela oportunidade, foi apenas uma pequena burla sobre o sexo, mas isso agora parece ser um grande logro, sobre a viso perdida. Compreende? 
       - Compreendo - disse ela, desejando que eles pudessem sair do escritrio e ficar juntos na residncia. - Vou jantar hoje  noite, ou voc vai engrossar? 
       - No estou com fome - disse ele. Isto no era verdade, Ericson j estava esfaimado; talvez fosse a cegueira, talvez ele estivesse aprendendo a comer o que 
no podia enxergar. Talvez no quisesse mostrar a fraqueza de um homem sendo alimentado na boca. 
       - Voc pode usar os dedos - assegurou-lhe ela. - Seria como um piquenique. 
       Ela olhou-lhe as calas e percebeu que a conversa ia parar por ali. 
       - Voc  o piquenique - disse ele. - Est na hora da cabina telefnica. 
       Ela suspirou, tomou-lhe a mo, inclinou-se com fora para trs para pux-lo da cadeira, e o levou at a porta meio oculta  esquerda da porta do vestbulo 
da Ala Oeste. Na tarde do dia da posse, Pdeu lhe mostrara o pequeno quarto de um metro e noventa por dois e oitenta, junto ao Salo Oval, onde os Presidentes descansavam 
ou faziam outras coisas. Originalmente fora a cabina telefnica, quando se construiu a Ala Oeste no incio do sculo, aonde os Presidentes iam atender aos raros 
telefonemas. Pdeu dissera que quando a amante de Warren Harding revelara, nas suas memrias, haver mantido relaes com o Presidente numa cabina telefnica, todo 
mundo pensou que ela estava inventando, mas essa cabina telefnica era do tamanho exato. Mesmo para o esguio Ericson, que s vezes deitava diagonalmente na cama. 
       Ela o empurrou para trs e lhe esfregou as compridas pernas. 
       - Ento voc acha que deveramos ter dito a verdade sobre o trem, no ? - implicou, sabendo que iria continuar a discusso por muito pouco tempo. 

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       - Falando moralmente - disse ele, desabotoando a braguilha - o correto teria sido contarmos tudo. A manchete teria sido: "Ao ter relaes com a moa entre 
paradas do trem, o candidato rachou a cabea e ficou temporariamente cego". 
       - No colgio, voc ganharia medalhas por sua honestidade - disse ela, recebendo tranqilamente a ereo na mo. 
       - Teramos perdido a eleio de peito aberto, e eu no estaria com esse pequeno problema de viso hoje. 
       Ela mergulhou a cabea no colo dele, pensando em como a cabina telefnica teria sido usada antes, e por homens to estranhos. Provavelmente para relaes 
tradicionais. Perguntou-se se as moas antigamente faziam tudo como as de hoje. Ela o beijou suavemente, e se retraiu. 
       - Ei, Pdeu, acha que voc e eu somos os primeiros a fazer isso aqui? 
       - Todo mundo quer ser o primeiro - disse ele, risonho, quase perdendo a fora. - Provavelmente no somos, querida. Voc quer um primeiro lugar histrico? 
Pois bem: esta  a primeira vez em mais de dois sculos de histria americana que um Presidente cego foi chupado por sua adorvel fotgrafa oficial to perto do 
Salo Oval. Ningum vai refutar isso. 
       Ela deu de ombros e voltou  sua tarefa, entretida, mas no completamente afinal de contas, no era seu dever de patriota - pensando que um dia desses, quando 
Pdeu pudesse ver de novo e no precisasse provar que podia domin-la desta forma, ela lhe pediria para mudarem seu relacionamento para algo mais justo, do tipo dar-e-receber. 
Isso agora seria errado, pois ele se preocupava com uma srie de poderes que possua. Ela gostava de dar-lhe prazer assim, e subitamente parou e olhou para cima, 
pensando na ltima observao dele. 
       - Sabe o que estou fazendo? - perguntou ela, e respondeu orgulhosamente. - Estou entrando para a histria. 
       Ele sequer sorriu. Em certas ocasies, Pdeu perdia o senso de humor. 
       - Pdeu - perguntou ela, mais tarde. - Voc vai ficar bom? 
       - Acho que voltarei a ver, Buffie. 
       - Sei disso, quero dizer que voc... eu, no estou recebendo as vibraes certas, meu amigo. 
       - Tenho estado doente. 

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       - Voc tem sofrido o po que o diabo amassou, e quase morreu, e est preocupado em que algum como eu abra o bico, e est cego, e no pode dizer a ningum 
por que est certo de voltar a ver, eu sei disso tudo. Mas relaxe, t? Sou eu. Confie em mim. Descanse. 
       Ela precisava dizer-lhe isso. Ningum mais iria faz-lo. 
       - Voc est achando que vai perder o sentido das coisas, e isso est fazendo com que realmente o perca. Eu me amarrei em Sven Ericson, no nesse sujeito estranho. 
Volte a ser voc. 
       - Essa incapacidade eu nunca pensei que tinha. 
       Ele acariciou-lhe a cabea, ela estava sendo mandada embora. Que merda! 
       Por que temos de ficar brincando de esconder? - perguntou. - Voc  solteiro, eu tambm. Voc acha que o povo americano espera que seu Presidente viva como 
um ermito? Por que eu simplesmente no me mudo para o andar de cima? No precisamos casar-nos, nem eu preciso ser sua anfitri oficial. Podemos apenas viver juntos, 
como fazem as pessoas. 
       - Voc sabe que eu gostaria disso, mas no podemos. Precisamos ser discretos. O Presidente pode trepar quase tanto quanto todo mundo, desde que seja discreto. 
O povo me deixa fazer tudo, desde que no me gabe a respeito. 
       - Isso  ser hipcrita. 
       - Est certo, Buffie, a palavra  essa mesma: "hipcrita". Este  "o pagamento que o vcio faz  virtude". Mas existem certos padres, e o povo espera que 
o Chefe do Executivo os mantenha em pblico. Independente do que ele faa em particular. 
       - Merda! - comentou ela. 
       Sei que voc odeia ficar se escondendo e ter de chegar a mim atravs de Harry ou Herb. Mas as aparncias importam. 
       - Muito? 
       - s vezes - disse ele seriamente - as aparncias importam mais do que a realidade, porque a realidade vai e vem, mas as aparncias permanecem. Uma aparncia 
que importa  que ningum seja jamais crucificado no museu nacional chamado Casa Branca. 
       - Eu no seria a Primeira-Dama - disse ela, ignorando o que ele explicara, e alimentando a fantasia. - Eu seria a Primeira Grande Idiota. 
       Ela ps o pnis dele de volta s calas e fechou a braguilha. 

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       - Haveria posters em toda a parte. Eu mesma os fotografaria, na velocidade de 8 ps por cem, com a luz aqui mesmo da cabina. 
       Ela foi at a porta. 
       - Que bicho a mordeu? - perguntou ele. Ela no respondeu. - Buffie? - Ela no respirou, observando os olhos sem viso no rosto torturado. - Buffie, voc est 
a? 
       Ela se atirou a ele numa sbita onda de emoo que era superior  que ele lhe havia demonstrado. Ela no ficara triste quando ele a mandara embora aps alguns 
minutos porque sabia que era disso que ele precisava, e ela lhe daria. E nas condies atuais, no era fcil se conviver com ele. 


O SECRETRIO DE IMPRENSA 
       
       Quando um Presidente comea a se preparar para uma coletiva com a imprensa, o poder executivo entra em grande movimentao. Smitty deleitava-se nessas ocasies. 
O escritrio do Secretrio de Imprensa  a fonte de perguntas antecipadas, orgulhoso de sua reputao na Casa Branca, de sempre preparar perguntas muito mais impertinentes 
e exaustivas para o Presidente do que as que so realmente feitas em coletivas com a imprensa. As provveis perguntas so espalhadas pela burocracia federal e suas 
respostas so apresentadas pelos chefes de departamentos para apoiar ou resumir suas opinies, ou rapidamente passadas sem conhecimento dos chefes de departamentos 
por funcionrios astutos que desejam que uma poltica favorita seja enunciada por um confiante executivo. 
       Smitty delegou ao chefe do Sumrio de Notcias a tarefa de coletar as perguntas, de recortes de jornais e revistas, pesquisas de reprteres e da equipe de 
notcias da Voz da Amrica, junto com perguntas fornecidas pelos porta-vozes oficiais dos Departamentos do Exterior, do Tesouro, da Defesa e do Conselho de Assessores 
Econmicos. A subsecretria de Smitty, Marilee Pinckney, lhe lembrava reas inexploradas por essas fontes, e Smitty enviava notas com perguntas diversificadas, que 
deveriam ser respondidas em vinte e quatro horas. Os prazos da Casa Branca no eram jamais ignorados. Todos os departamentos sabiam que se suas respostas no fossem 
incorporadas ao "livro negro", seriam substitudas pelas respostas de outra pessoa, o que permitiria a reelaborao da poltica por omisso. 

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       Smitty gostava de "tirar a pele" do governo com perguntas ferozes porque considerava seu cargo como a conscincia da Casa Branca. Estava resolvido a que houvesse 
verdade em suas duas reunies dirias, e a reputao que construra ao longo dos anos por trabalhar na imprensa no seria aviltada, como acontecera com vrios antecessores 
seus. Ao recordar-se, Smitty teve de admitir que, como reprter, ele forara um pouco a barra, adulando excessivamente uma fonte de informaes, puxando saco de 
um chefe de redao, difamando uma autoridade que no quisera passar-lhe uma inconfidncia e roubando algumas histrias de carbonos de competidores, mas tinha granjeado 
a reputao que queria: de ser duro, correto, incorruptvel ctico. Havia caprichado em suas relaes pblicas pessoais, voz sbria inclusive, e se decepcionara 
amargamente ao ser preterido na escolha de um alto executivo. A seleo de Smitty por Ericson como seu auxiliar de imprensa na campanha presidencial veio numa hora 
perfeita para sua carreira. Aps alguma dvida quanto a se valeria a pena "atravessar a rua", ele agarrou-se  oportunidade. 
       Agora o "livro negro" era seu. O Livro de Informaes do Presidente, uma pasta de folhas soltas, ficava o tempo todo na escrivaninha do Secretrio de Imprensa, 
exceto quando era enviado ao Presidente, antes das coletivas. Sempre que vinham respostas rebuscadas dos departamentos e funcionrios da Casa Branca, Smitty voltava 
a ser editor, e devolvia a maioria delas para serem encurtadas e refeitas mais duramente pelos redatores de discursos, e ele mesmo fazia, s vezes, brilhantes leads 
ou fechos. Prefaciava todas as edies do livro negro com sua prpria estimativa d fluxo do interrogatrio, e geralmente acertava, assombrando o Presidente e seus 
colegas com sua sensibilidade incrvel sobre o que se passava na cabea de seus ex-colegas de imprensa. Para dizer a verdade, isso era fcil, com a ajuda de Marilee. 
Era o melhor emprego que jamais tivera, depois que tomara a deciso. 
       A Deciso era o dilema moral que lhe havia sido apresentado por Hennessy durante o interregno: 
       - Antes que voc aceite o cargo, Smitty, quero que me diga como lidar com a seguinte situao: digamos que o dlar tenha de ser desvalorizado. Essa deciso 
precisa ser protegida. Qualquer anuncia de que o governo est considerando a desvalorizao impulsionar um macio dumping do dlar por especuladores, e seria diretamente 
contrria ao interesse pblico. O Secretrio do Tesouro, como tem acontecido desde os tempos de Alexander Hamilton, 

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negar veementemente a desvalorizao at o minuto em que for anunciada. Digamos que voc me telefona e diga: "Hennessy, esto me perguntando se h alguma idia 
de se desvalorizar o dlar; que devo responder-lhes?" Diga-me o que voc quer que eu faa, Smitty Quer que eu diga: "  verdade, mas no lhes podemos dizer isso, 
voc tem de negar a verdade? Ou preferiria que eu lhe dissesse para ir pra puta que o pariu, que isso no  da sua conta? 
       - Jamais conscientemente direi uma mentira - afirmara Smitty. Ele estava orgulhoso dessa posio, e algum dia teria de cit-la num livro. - Por que simplesmente 
no posso responder  pergunta sobre a desvalorizao com esse comentrio: "No responderei a isso". 
       - Mas isso estaria respondendo  pergunta. Nesse caso se voc no nega, confirma, e o pblico sofreria. 
       - Ento acho, Hennessy, que voc teria o direito de me mandar pra puta que me pariu. No negarei o que sei ser verdade; e fizesse isso uma vez, arrasaria 
com minha credibilidade e no seria mais til ao Presidente. 
       - Voc est gravando isto? - perguntara Hennessy, no seu jeito de engraadinho. Smitty desejou t-lo gravado. Era uma deciso crucial para um secretrio de 
imprensa, e significava que Smitt: no teria acesso a algumas das decises-chave. s vezes ele se perguntara se teria agido errado... que ele poderia ter feito mais 
pela causa da verdade se trabalhasse do lado de dentro, mesmo que isso significasse a rara mentira oficial... mas essa deciso fora h muito tempo atrs. Era inteligente 
o bastante para saber que Hennessy. . . e o velho e maneiroso Cartwright, que provavelmente sugerira a pergunta ao advogado... desde o comeo tinha mexido seus pauzinhos 
para exclu-lo do crculo dos ntimos apesar das alegaes do Presidente de que ele ficaria no centro. Que fosse assim; era melhor do que se torturar com complexidades 
morais. Smitty detestava parecer idiota, mas s vezes era mais inteligente parecer idiota do que venal. 
       Em seu escritrio cheio de sol da Ala Oeste, bebericou o caf e leu os telegramas da manh antes da reunio das onze horas. Ele venceria a reunio da manh 
porque no estaria de costas para a parede arrasando com perguntas, e, sim, dominaria desde o incio com a declarao que faria. Puxaria o lbulo umas duas vezes 
- era um sinal para que os cinegrafistas filmassem, pois a fala seguinte seria importante - e diria: "Senhoras e senhores, tenho uma declarao a fazer. O Presidente 
decidiu no fazer um discurso 

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esta semana sobre sua sade e sobre a atual situao internacional. 
       Pausa para resmungos. 
       "Ao invs disso, daqui a dois dias, na quarta-feira, no horrio do leste de nove horas da noite, e pelo horrio do Pacfico seis da noite, duas semanas depois 
da emboscada em Yalta, o Presidente ter uma reunio coletiva com a imprensa, televisionada diretamente da Sala Leste da Casa Branca." 
       Isso mudaria o ambiente negativo de perguntas como "Quem o ajuda a vestir-se?" e "H possibilidade de que ele entre em licena?" para um nvel superior de 
perguntas tais como "Como  que ele se prepara para a reunio?" e "Quando  a volta oficial do Presidente ao trabalho?" 
       Ele ento lhes apresentaria Hank Fowler. O terapeuta cego impressionaria favoravelmente, demonstraria alguns truques como ligar nomes a vozes - ele escutara 
algumas reunies pelo alto-falante na sala do Secretrio de Imprensa - e, anunciaria um "curso de orientao" de duas semanas, no apenas para o Presidente, mas 
para seus assessores em "organizao auricular", para que fosse possvel governar o pas com os olhos fechados. Smitty anotou essa frase. Se a reao pblica  cegueira 
de Ericson pudesse mudar de um temor de terrvel incapacidade para um tipo de jogo merecedor de comentrios do tipo "Como conquistar ele esse obstculo?", as perguntas 
desagradveis sobre incapacidade e renncia seriam abafadas. 
       O artigo de Zophar que sara de manh no Post provocara vagas dvidas na mente, e Smitty leu novamente, e com seriedade, sua coluna: 
       "Uma nao agradecida pela sobrevivncia de seu Presidente de um encontro com a morte  tambm uma nao preocupada com a capacidade do Presidente de desempenhar 
os deveres terrivelmente complexos de seu cargo. 
       "Chegou a hora de perguntar: No deve o Presidente, incapacitado no momento de dirigir-se ao povo, se afastar provisoriamente, segundo as provises da Vigsima 
Quinta Emenda? 
       "No  preciso que ele renuncie.  possvel, como esperamos todos que recupere a viso, e logo esteja em condies de assumir sua conhecida e vigorosa liderana. 
Nesse nterim, porm, enquanto ele se encontra to patentemente incapacitado, e enquanto se adapta dolorosamente  escurido exigida pelo destino, no  preciso 
que o Governo dos Estados Unidos fique paralisado. Depende dele ser 

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o primeiro Presidente a se afastar temporariamente, para nomear seu companheiro de chapa na recente eleio como Presidente Interino enquanto ele se recupera ou 
se adapta, e depois - quando apenas Sven Ericson determine - reassume o cargo ao declarar-se apto a desempenhar seus deveres". 
       A coluna de Zophar prosseguia para relembrar o episdio da longa enfermidade final de Woodrow Wilson, quando o pas ficou sem lder eleito capaz de trabalhar. 
Sam Zophar gostava de exibir sua percepo da histria, pensou Smitty, ao notar como o editor do jornal captara a sugesto e estampara fotos da Sra. Wilson - que 
dirigira o pas da cabeceira do seu marido - e de Thomas Riley Marshall, o Vice-Presidente nascido em Indiana que jamais tivera a oportunidade de ascender ao cargo, 
e s era lembrado pela observao que fizera durante um spero debate no Senado: "Este pas precisa de um bom charuto de cinco centavos". 
       Marilee Pinckney estava de p em frente  escrivaninha do chefe, sem interromper-lhe as idias. Ele fez-lhe sinal para sentar-se e indagou quais as perguntas 
que ela achava seriam feitas durante a reunio preparatria da coletiva com a imprensa. 
       - Ele vai usar culos escuros? 
       - Esta  uma pergunta idiota. 
       Smitty gostava de fustigar Marilee, porque ela era rica, inteligente, bonita e to segura de si que isso jamais parecia perturb-la, e tambm porque ela estava 
muito de olho no emprego dele. 
       - Deus ajude este pas depois que voc me expulsar daqui - acrescentou Smitty. - Admito que voc conhece bem a algaravia econmica, mas este escritrio comearia 
a distribuir notas sobre a tima aparncia do Presidente, de que forma foram preparados os ovos que comeu de manh, e toda essa zorra. "Ele vai usar culos escuros"? 
Nossa! 
       - Voc est se esforando para ser um chauvinista, mas no est conseguindo - disse Marilee. - A maioria dos homens o , mas tenta no ser. Por isso  que 
todas as mulheres do setor de imprensa so suas escravas, Smitty. 
       - Foi voc que as admitiu, no eu. Pensei que se voc selecionasse no os colaboradores, teramos alguns sujeitos inteligentes por aqui, mas tudo que conseguimos 
foi a escria de Vassar e Smith. [nota *. Entidade educacional feminina dos Estados Unidos, onde estudam as moas ricas. (N. da T.)] 

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       - Com tudo isso, o setor de imprensa  invejado por toda a Casa Branca. A propsito, Buffie me disse que ele vai usar culos escuros. 
       Ela olhou para o relgio, que indicava cinco para as sete. 
       - Voc quer me perseguir em redor da mesa ou quer aprontar-se para sua reunio? 
       Smitty admitiu que gostaria de persegui-la mesmo; ela, porm, no s era de uma gerao diferente, como de classe social distinta. A nica alavanca real que 
tinha no respeito dela por ele como executivo era seu respeito por ela como mulher executiva, e no estava pretendendo jogar tudo isso fora por causa de uma "cantada" 
que seria seguramente rejeitada. Ademais, ele esperava ansioso a reunio. 
       - Alguma notcia de Harry Bok? - perguntou ele. - Seria bom, para mostrar a considerao do Presidente. 
       - O Presidente falou com ele ao telefone - informou Marilee - logo depois que Harry saiu dos efeitos posteriores  operao. Isso foi ontem  noite, O prognstico 
no  favorvel. Abelson disse que o doutor lhe informou que Harry talvez fique paraltico da cintura para baixo, mas voc ainda no deve divulgar isso: diga apenas 
que ele se est recuperando lentamente da extrao da bala na coluna, e que ainda  cedo para se ter um prognstico definitivo. 
       - Que merda! - exclamou Smitty. Ele no teria dificuldade em ocultar parte dessa histria. No estaria mentindo, apenas protegendo a privacidade de um paciente. 
Pegou o telefone e discou para Melinda McPhee no intercom para perguntar-lhe o que sabia da conversa do Presidente com Bok. Ela respondeu que no fizera a ligao 
nem a ouvira. No.s ltimos dias o prprio Ericson estava fazendo muitos telefonemas. 
       - Nenhum telegrama especial esta manh - disse Marilee, revolvendo uma pilha de notcias em papel branco da AP [nota *. Associated Press. N. da T.] e de papel 
amarelo da UP. [nota **. United Press. N. da T.] - A inflao baixou para 9%, dizemos que isso no  o ideal, mas que  um progresso. Os nmeros da balana de pagamentos 
sero anunciados hoje  tarde, e espera-se que mostrem a fora dos Estados Unidos, apesar da compras de petrleo e cereais  China. Isso vai aborrecer o pessoal 
do Quarto 

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Mundo,  bom voc tomar cuidado com o assunto e encaminhar as perguntas para a Agricultura. 
       Smitty estava desligado. 
       - Sabe aquele relgio sonar que ele usa? - perguntou a ela. - Voc gosta disso? 
       -  muito melhor do que uma longa bengala branca - replicou a moa. - Se der certo, contribuir muito para eliminar a imagem de um homem cego. Mostra que 
ele  moderno, eletrnico, capaz de enfrentar seu problema, tudo isso. 
       Que  que voc acha de um cachorro guia de cegos? 
       Marilee pareceu genuinamente chocada. 
       -  uma jogada bvia para despertar simpatia. No tem nada a ver com o Presidente Ericson. Espero que voc no esteja falando srio. 
       - Eu no o sugeri. Sei que o chefe se zangaria. Mas no sei, os Presidentes sempre tm ces, e Ericson gosta deles. Parece errado no ter nenhum. Estou pensando 
num vira-lata. 
       - Um vira-lata? 
       - O seu av, Marilee - recordou-lhe Smitty - o contrabandista de bebidas que enriqueceu, era um imigrante. Sim, minha cara, um vira-lata, sem pedigree nenhum. 
Apenas um co inteligente, treinado pelo pessoal do Seeing Eye [nota *. Organizao americana que treina ces para servirem de guias a pessoas cegas. (N. da T.)] 
para ajudar um Presidente. Num instante o co ficar famoso. 
       - Se voc est atrs da imagem da caneca de alumnio... 
       - Sei que tem seus aspectos negativos. Mas a engenhoca eletrnica tambm pode ter. 
       Ele saiu da poltrona. Ela "vazaria" para seu namorado que trabalhava numa rede de televiso que se estava pensando em dar um cachorro para andar com o Presidente, 
e isso era tudo o que Smitty queria por enquanto. 
       - Vamos, as estrelas esto brilhando. 
       As luzes de sinais na sala de reunies da imprensa estavam piscando, chamando as mariposas para a chama. 
       - Fala era um Scottish terrier purssimo - disse Marilee, caminhando pelo corredor - e os beagles de Johnson poderiam ter sido campees! Liberty, o retriever 
dourado de Ford, popularizou ao mximo sua raa neste pas por algum tempo. 

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       Ele gostava de v-la irritada. 
       - Acho que at Nixon tinha um setter irlands. Smitty, sei que voc est fazendo isso para me fazer pensar que raa  mais adequada, e se realmente um co 
 o adequado, mas realmente... 
       Ela vazaria a informao como uma idia que j tivesse sido rejeitada, sups ele. Tanto melhor. Isso faria com que todos os proprietrios de cachorros insistissem 
com suas raas. 
       -  melhor voc se certificar de que todo mundo d o melhor de si quanto ao livro negro - disse a ela, quase correndo. - Nunca foi to importante. No entendo 
como ele faz para guardar na cabea as informaes do livro, mas  melhor que ele tenha uma frmula. 
       Na reunio das 11 horas, depois que Smitty anunciou que o Presidente daria uma coletiva, a primeira pergunta foi: 
       - Ele vai usar culos escuros? 
       - Evidente - replicou Smitty; ele estava pronto para responder a isso. 
       - Haver alguma limitao de assuntos? 
       - Nenhuma. O Presidente espera que as perguntas sobre sua sade sejam feitas nos primeiros dez minutos, para que ele possa falar sobre muitos assuntos de 
poltica interna e externa. Mas se vocs no esto interessados no que vai pelo mundo, isso  com vocs. 
       - Ele tem conhecimento de que alguns membros do Gabinete andam comentando que ele vai abrir mo do cargo? 
       - Quais membros do Gabinete e que disseram? - Smitty no ia tolerar nenhum "jogador de verdes". - Vocs sabem que no reajo a nenhuma histria idiota cuja 
fonte desconhea. 
       - Ele consegue distinguir claro do escuro, ou v tudo preto? 
       - No tenho a menor idia - respondeu o secretrio. - Pergunte-lhe voc mesmo, na quarta  noite. 
       A incipiente coletiva de notcias da presidncia arrefeceu o porta-voz. Ele conseguiu esquivar-se das perguntas sem ofender, pois o alvo principal logo apareceria. 
Smitty abreviou a reunio, o que significava que as estaes de TV teriam de usar sua declarao sobre a coletiva do Presidente como o principal tpico do noticirio 
noturno. Tampouco queria ter de responder a uma pergunta que certamente seria feita, se ele continuasse por ali: 

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       - Isto quer dizer que o Presidente no esta em condies de fazer um discurso? 
       Ericson no poderia discursar porque no poderia ler um discurso. Improvisar uma palestra de meia hora ao vivo seria tenso muito grande. Ser impossvel 
gravar pequenos trechos de cada vez, pois o objetivo bsico da apario na TV seria mostrar que o Presidente era capaz de lidar com a realidade. 
       Smitty trabalhou em cima do livro negro em seu escritrio com Marilee durante umas duas horas, e depois foi at o subsolo, onde ficavam as acomodaes residenciais 
do Presidente. No levou o livro negro incompleto, pois Ericson gostava de receber o trabalho completo e Fowler, o terapeuta, estava preparando, com Melinda, um 
jeito de enfiar as perguntas e respostas na cabea do Presidente. Quando ele entrou na Sala de Estar Lincoln, o funcionrio de informaes do Departamento de Defesa 
estava saindo, o que era bom. 
       - Eu disse a eles que o senhor usaria culos escuros - informou ao Presidente. - Talvez seja melhor o senhor se ir habituando a us-los. 
       Ericson apalpou o bolso do casaco e retirou os culos. Smitty achou que Ericson parecia deprimido ou, pelo menos, no se estava esforando em parecer alegre. 
       - Vamos ter muito trabalho para escrever o lead que queremos sobre isso aqui, Smitty. 
       Esta era a Regra Nmero Um das coletivas com a imprensa: sempre estar com o lead das notcias na cabea, para no se estrepar ao lhes fornecer um lead que 
eles mesmos fizessem. O lead do entrevistado era uma boa notcia; o lead da mdia era m, arrancada do entrevistado ou o resultado de um escorrego ou de uma armadilha. 
Smitty no se deixaria absorver pela depresso do Presidente; o Homem tinha de se animar para sua entrevista. 
       - O senhor tem alguma boa notcia sobre seus olhos? Se houvesse algum jeito de se colocar a palavra "melhora" em sua resposta, isso seria timo. 
       - Eles continuam na mesma - disse Ericson gravemente. 
       O senhor s v preto? 
       - No, eu no diria isso. 
       O Presidente fez sinal para uma janela: 
       - Posso distinguir que l existe uma janela, com uma mancha de luz, e consigo distinguir vagamente quando as formas se movimentam. 

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       - Quer dizer ento que o senhor no est totalmente cego? 
       Smitty fez com que seu entusiasmo transparecesse. 
       - O oftalmologista e os advogados dizem que estou totalmente cego. O fato de ser capaz de distinguir o claro do escuro no quer dizer que no se esteja cego. 
       - Espere um pouco. O senhor sempre pde distinguir o claro do escuro, desde que acordou depois da emboscada? 
       - Claro, eu... bem, deixe-me ver. 
       Smitty esperou enquanto o Presidente pensava sobre o assunto. 
       - Na semana, passada - disse ele finalmente - tudo estava completamente preto. As cores eram realmente negras. Nos ltimos dias, houve algum progresso. Nada 
dramtico, mas devo dizer que  encorajador. Deixe-me mostrar-lhe. 
       Ele levantou-se. 
       - Leve-me daqui, depois me traga de volta, e faa com que eu me vire algumas vezes. 
       Smitty fez o que lhe pediram, e o Presidente ficou de frente para a parede, longe da janela. Ericson virou-se e apontou para a janela: 
       - A luz vem de l. 
       Eis nosso lead: "Uma melhora". O oculista sustentar essa afirmao? 
       - Claro que sim - disse firmemente Ericson - e Fowler tambm. Mais tarde vou discutir o caso com eles. 
       -  possvel que algumas perguntas sejam muito pessoais - avisou Smitty. - Como, por exemplo, como  que o senhor se barbeia... 
       - O barbeiro da Casa Branca faz minha barba da mesma forma que antes. 
       Sua tenso crescia. 
       - ... como o senhor escova os dentes... 
       - Nossa me! 
       Ericson tapou os lbios com as mos, como fazia quando ficava furioso. 
       - Essas perguntas so de sacanear! - disse finalmente o Presidente. - A ltima, ento... 
       Ele tentou refazer-se. 
       - Vai-se ao banheiro - disse, num borboto de palavras - e se derruba o copo com a escova dentro. Depois comea-se a 

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tatear... em volta do copo quebrado no cho, para pegar a escova de dentes. Depois pega-se a pasta de dentes e pergunta-se se  mesmo a pasta, ou se  o tubo do 
xampu. Depois tenta-se espremer a bosta da pasta, se for mesmo a pasta, na pequena rea que  a extremidade da escova de dentes, no se acerta e a pasta cai na pia. 
Ento repete-se tudo, espreme-se a pasta na palma da mo, e com a escova se pega a pasta. Se h alguma vez em que algum se sinta to... intil,  quando se tenta 
fazer uma porcaria duma coisinha automtica como escovar os dentes. Dou graas a Deus por Fowler, ele me ensinou a escovar os dentes. 
       Smitty no sabia o que dizer, mas lembrou-se de alguns conselhos do terapeuta, e foi duro. 
       - O senhor est me fazendo chorar, Sr. Presidente. Agora me diga: quando um reprter, que est querendo v-lo em pedaos, lhe perguntar como o senhor escova 
os dentes de manh, qual ser sua resposta? 
       Ericson respirou profundamente e respondeu docemente: 
       - No incio  surpreendentemente difcil, Sr. Smith, mas aps algum tempo pega-se o jeito e faz-se o servio melhor que antes. Viu? - E fez uma careta com 
os dentes para fora. 
       - Eles vo querer saber sobre a validade das leis assinadas pelo senhor j que no est podendo ver o que assina. 
       - Isso tambm me preocupou - disse Ericson, continuando a usar sua voz especial para coletivas com a imprensa. - Graas, porm,  esplndida colaborao dos 
poderes legislativo e judicirio do governo, acho que elaboramos um mtodo que satisfar amplamente a lei. 
       Ele voltou a usar a voz normal. 
       - Cartwright diz que est tudo pronto. Sempre que eu assinar um decreto, ser tambm assinado pelo Secretrio de Estado, pelo Presidente da Cmara, e por 
um juiz federal, junto com uma declarao jurando que estiveram presentes quando o decreto me foi lido. Vamos conseguir algum de gabarito para iniciar um processo 
judicial na primeira vez em que o fizemos, e lev-lo at o Supremo Tribunal. O Assistente do Procurador-Geral... um bom advogado mas no  poltico... diz que imediatamente 
se legislar a respeito, e que j so favas contadas. 
       Smitty observou que o Presidente j sara do seu estado emocional.
       - Devo falar com o Presidente da Cmara para consolidar o assunto - acrescentou Ericson, pegando o telefone e dizendo  telefonista da Casa Branca: 

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       "Ligue-me com o Presidente da Cmara dos Deputados, Mortimer Frelingheusen, e ponha Melinda num ramal morto. 
       Essa chamada era formal e deveria ser registrada de alguma forma. Ele disse a Smitty: 
       - Graas a Deus que existe o Mort numa hora dessas. Ele  republicano e suas teorias econmicas so antediluvianas, mas seu papel nas ltimas duas semanas 
tem sido correto, e isso  mais do que posso dizer em relao a Bannerman. 
       O telefone soou: 
       - Mort? Estou aqui com Smitty trabalhando em algumas perguntas feias que me devero ser feitas na coletiva com a imprensa quarta-feira. 
       Smitty pegou a extenso e deu a conhecer sua presena. Ericson disse: 
       - Primeiro, queria ter certeza de que voc est conosco. 
       - O senhor vai ter uma boa votao - afirmou o Presidente da Cmara. - Muita gente quer certificar-se de que o senhor est compos mentis. [nota *. Em perfeito 
gozo das faculdades mentais. (N. da T.)] 
       - Quero agradecer-lhe pelo trabalho de contra-assinar os documentos. Sei que vai ser incmodo, e levar pelo menos umas duas horas por semana, mas talvez 
voc possa delegar essa tarefa, aps certo tempo. 
       - No, terei prazer em sentar e escutar a leitura dos documentos em voz alta - observou o Presidente da Cmara em seu montono tom de voz oriundo de Nova 
Jersey. - Pode ser at que abreviemos alguns deles, o que seria vantajoso. Aproveitando nossa conversa, Sr. Presidente. 
       Eram assim que Frelingheusen conduzia a maioria de seus assuntos; Smitty sabia que ele aproveitava o "rabinho" dos telefonemas dados por outras pessoas. 
       - ... a Comisso de Relaes Internacionais e a Comisso de Defesa esto preocupadas com as violaes no acordo de controle de armas sendo feitas pelos chineses 
e japoneses. Os dois tm vendido msseis nucleares ao Zaire e  Uganda. Se os africanos os usarem contra a aliana rabe-israelense, estaremos todos com problemas. 
O Secretrio de Estado continua na Rssia e o Secretrio de Defesa nos tem evitado. Seria muito til a ns se o senhor, na coletiva com a imprensa, fizesse uma declarao 
de que a administrao ir incontinenti consultar o Congresso sobre o assunto, e no apenas o Senado. 

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       - Quero ouvir o que o Secretrio Curtice tem a dizer quando voltar de Moscou no fim da semana, Mort. 
       Ericson no queria conceder muitos poderes de fiscalizao ao Congresso. 
       - Ele me informou que parece que Nikolayev vai assumir, e o servio de informaes deles  muito superior ao nosso, quando se trata do Extremo-Oriente. Posso 
declarar na coletiva que vamos consultar, se voc fizer questo, mas no gostaria de estabelecer datas. 
       - Por que no dizer que o senhor pretende mandar seus homens aqui na prxima semana? 
       Ericson no estava em posio de resistir. 
       - Acho justa esta concesso, Mort. 
       Na verdade, no era uma grande concesso. Depois de uma calorosa despedida, o Presidente desligou. 
       - Cara duro - comentou com Smitty. - Est agindo como eu agiria. 
       - O senhor vai conseguir meter essas coisas todas na cabea em dois dias, Sr. Presidente? 
       Normalmente o livro negro continha oitenta perguntas e respostas, que levavam de um a dois minutos cada uma, e incluam informaes logsticas sobre alguns 
assuntos sobre os quais o Presidente no sabia muito, como o socorro s vtimas das enchentes do Alabama. De todas as perguntas, apenas vinte seriam feitas na coletiva 
de meia hora com a imprensa, talvez at menos, se o Presidente divagasse nas respostas, Nunca se sabia, porm, as vinte perguntas que seriam feitas, por isto o Homem 
tinha de estar preparado para todas. 
       Ericson tirou os culos escuros e os girou na mo. 
       - No se preocupe, traga-me o livro negro l pelas nove da noite. Fowler e Melinda vo grav-lo e condens-lo, e amanh estudarei tudo umas trs ou quatro 
vezes. Voc vai ver como vou absorver tudo. Depois ensaiaremos como vou andar pela Sala Leste, como fiz para o meu casamento. 
       Ocorreu ao Secretrio de Imprensa que o casamento do Presidente acabara em divrcio, mas ele disse apenas. 
       -  possvel que a imprensa o ataque bastante, Sr. Presidente. 
       - Voc acha que eles tm razo na sua m vontade, no ? E que mereo que eles sejam agressivos comigo porque no deixei que participassem dos acontecimentos 
aps a emboscada. 
       Smitty foi cauteloso. 
       - Por que o senhor diz isso, Sr. Presidente? 

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       -  fcil. Quando voc est do lado deles, voc os chama de "imprensa". Quando est do meu lado, voc os chama de "mdia". 
       -  mesmo? 
       Smitty detestava ser to transparente. Lembrava-se de que a Casa Branca, no incio da dcada de setenta, mudara a nomenclatura de "conferncia de imprensa" 
para "conferncia de notcias" para transferir a nfase ,da imprensa para as notcias que o Presidente originaria. 
       - De qualquer forma, o senhor saiu ganhando com um secretrio de imprensa e no com um secretrio de mdia. 
       - Suponho que sim - concordou o Presidente, e Smitty sabia que Ericson achava que o oposto era verdade. 


O APARELHO DE TELEVISO 
       
       Os aparelhos de televiso da sala do Secretrio de Imprensa so quatro, condensados em quatro grandes telas que ocupam quase uma parede, e transmitem simultaneamente 
o que ocorre em quatro redes de televiso. O som  controlado a distncia, de onde se senta o espectador. Durante as coletivas de imprensa, os quatro reguladores 
de som ficam em volume baixo, pois o telespectador habitual est ausente, e seu escritrio fica vazio. O Secretrio de Imprensa pode ser visto nas quatro telas quando 
os diretores escolhem ir para o equipamento de pool que fica na Sala Leste da Casa Branca. Acompanhado por sua subsecretria, o Secretrio de Imprensa fica de p 
na plataforma, de frente para os quatrocentos reprteres esprimidos em pequenas poltronas douradas,  vista para todas as tomadas de cenas, e fora de alcance para 
tomadas do pdio com o emblema presidencial. 
       - Senhoras e senhores, o Presidente dos Estados Unidos. 
       O som da voz do adido militar pde ser ouvido nos quatro alto-falantes. As quatro telas mostraram os jornalistas se levantando enquanto o Presidente caminhava 
pelo corredor do meio, em direo ao pdio. 
       Sozinho, andando rapidamente, o Presidente deu dezoito passos para a frente, parou, deu mais um passo, fez uma meia curva para a esquerda, caminhou mais cinco 
passos para o degrau que levava  plataforma, e deu uma meia curva para a direita. Ainda sozinho, dirigiu o dorso do pulso para o cho. Os quatro alto-falantes comearam 
a murmurar variaes da frase "O Presidente Ericson est usando seu relgio sonar para determinar a localizao dos degraus". 

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       Ele subiu os dois degraus, dobrou  direita, deu quatro passos  frente, estendeu a mo  direita e tocou a tribuna. Segurou a plataforma de madeira com as 
duas mos, e depois fez uma pose familiar  la Ericson, ao se apoiar na plataforma com um cotovelo, as compridas pernas cruzadas atrs, com um dedo no cho. Deu 
um grande sorriso e o pessoal da imprensa irrompeu em aplausos entusisticos. 
       - Sentem-se, por favor - disse ele, como de hbito, e tambm como de costume apontou para o correspondente snior das agncias de notcias, sentado no centro 
da primeira fila. 
       - Senhor Presidente, o senhor tem direito a uma "facilzinha". A vai: como se sente? 
       O Presidente sacudiu a cabea e respondeu: 
       - H sempre uma pergunta para a qual no se est preparado. Risos. Depois, seriamente, a imagem estampada nas quatro telas disse: 
       - Fisicamente, sinto-me bem. Os galos e os ferimentos esto praticamente curados. Emocionalmente, comeo a me adaptar ao choque... porque  um choque... de 
no poder ver. Preciso absorver informaes atravs dos ouvidos e no dos olhos, e isso demora um pouco para que a pessoa se habitue. Mas eu me arranjo. 
       "Quando voc me pergunta como me sinto, devo dizer-lhe como estou pesaroso com a tragdia de dois outros homens. Do Secretrio- Geral Kolkov, o corajoso homem 
que arrastou o corpo ferido at mim e que me salvou a vida enquanto perdia a sua. E de Harry Bok, do Servio Secreto dos Estados Unidos, que absorveu estilhaos 
que me eram dirigidos. Falei com Harry num hospital de Yalta ainda h pouco, e com o cirurgio que o operou, e as perspectivas no so boas...  possvel que as 
pernas dele fiquem paralisadas. Portanto, quando penso no Secretrio-Geral Kolkov, e em Harry Bok, no consigo ter pena de mim mesmo. 
       Os habituais pulos, acenos e gritos para despertar ateno para a pergunta seguinte no ocorreram desta vez. O pessoal da imprensa havia evidentemente resolvido 
adotar um processo mais disciplinado, e o correspondente jnior das agncias de notcias perguntou: 
       - Sr. Presidente, qual a ltima notcia sobre as condies de sua viso? 
       O homem de culos escuros no pdio virou-se ligeiramente na direo da voz e replicou: 
       -  possvel que eu tenha algumas prudentes notcias boas a esse respeito. Quando recuperei a conscincia, no conseguia ver nada: tudo era preto, com algumas 
variaes escuras. Mais ou menos a partir da ltima semana, comecei a ser capaz de distinguir a diferena 

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entre claro e escuro; por exemplo, consigo ver uma forte fonte de luzes naquela direo, onde a iluminao da televiso costuma ficar. Isto, porm, no  garantia 
de que meus olhos estejam quase bons. De qualquer modo, me d esperanas. Eu diria assim: no momento estou oficialmente cego... usemos a palavra cruel, cego... porm 
minha viso parece estar melhorando. 
       - O senhor no acha que seria no melhor interesse da segurana nacional que o senhor se afastasse temporariamente, sob as provises da Vigsima Quinta Emenda, 
at ser capaz de desempenhar integralmente seus deveres? 
       - No - respondeu o Presidente. No disse mais nada, e houve uma pausa. A cmera focalizou o rosto do Secretrio de Imprensa e de sua subsecretria, que estava 
sria. 
       - Continuando... e com todo o respeito por sua coragem, senhor... no acha que sua cegueira desafia sua capacidade de servir? 
       - No. Muita gente achava que eu no podia dar conta do recado quando eu podia ver. 
       A meia piada no obteve reao. 
       - O senhor nos pode dizer como sabe o que est assinando? 
       O Presidente estava evidentemente pronto para esta pergunta e demorou-se em pormenorizar o procedimento das duas assinaturas, elogiou o Presidente da Cmara 
Frelingheusen e disse esperar que a norma fosse logo aprovada pelo Supremo Tribunal. 
       - Senhor, julga que o Vice-Presidente daria um bom Presidente Interino? O senhor confia nele? 
       Apanhado na rede, o Presidente tirou os culos um momento; as telas mostraram instantaneamente um intenso close-up de seus olhos, que pareciam normais, e 
depois os colocou novamente. 
       - Tenho toda a confiana no Vice-Presidente. Como afirmei ao escolh-lo, se eu morresse ou ficasse incapacitado durante minha gesto, ele poderia perfeitamente 
assumir. Acontece, porm, que no morri nem estou incapacitado. 
       A cmera do pool focalizou algumas das expresses perturbadas dos reprteres. O Secretrio de Imprensa olhava para o cho. 
       - H alguns assuntos bastante importantes ocorrendo no pas e no mundo - disse o Presidente. - Se os senhores esto preparados para fazer perguntas sobre 
outros assuntos, eu as responderei agora. 
       O prximo inquiridor, um cavalheiro grisalho do Christian Science Monitor, disse, em sua voz conhecida: 
       - Ns no lhe dizemos quais deveriam ser suas respostas, Sr. Presidente, e no creio que o senhor deva dizer-nos quais deveriam ser nossas perguntas.

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Minha pergunta : qual  sua definio da frase "incapacidade de exercer os deveres de seu cargo"? Segunda pergunta:... 
       - Uma de cada vez - retrucou o Presidente. - Se voc quer uma definio legal, estou certo de que o Procurador-Geral pode repar-la. Mas da forma como o entendo, 
o Presidente  eleito pelo povo, que nele confia para decidir sobre sua capacidade ou incapacidade, e eu j resolvi isso. Prxima pergunta. 
       - Segunda pergunta - continuou a voz - o senhor j considerou seu afastamento como uma opo, ou desde o comeo eliminou essa hiptese? 
       - No  de minha filosofia ignorar enfermidades, Sr. Harley, nem buscar sua cura ao fingir que ela no existe. Pensei no afastamento como uma opo e a rejeitei, 
e isso j no me ocorre mais. Vamos olhar para a frente. 
       A cmera captou um instantneo da reao do Secretrio de Imprensa balanando a cabea. As quatro telas exibiram o sacudir de cabea de James Smith quanto 
 depreciao presidencial das perguntas do Christian Science. 
       - O senhor est preocupado que a venda de msseis nucleares pelas potncias do Extremo-Oriente s naes africanas seja uma revogao unilateral dos acordos 
de controle de armas? 
       A tela mostrou o Presidente endireitando os ombros e demonstrando alvio por ter de responder a uma pergunta sobre poltica externa. 
       - Como sabe - informou - uma das principais razes de minhas reunies com o Secretrio-Geral Kolkov era explorar nossa mtua reao ao armamento do Quarto 
Mundo pelas potncias do Extremo-Oriente. Creio termos tido uma proveitosa troca de idias sobre o assunto. O Secretrio de Estado Curtice permaneceu na Unio Sovitica 
para descobrir o que pensa a liderana atual sobre o problema. Uma guerra entre o Terceiro Mundo do Oriente Mdio e o Quarto Mundo da frica e da Amrica Latina 
poderia muito rapidamente se espalhar at as alianas das duas superpotncias. O problema fundamental da dcada de oitenta  evitar isso. 
       "O Presidente da Cmara dos Deputados, Frelingheusen, me tem solicitado enviar o Secretrio de Defesa  Cmara para testemunhar sobre as vendas de armas para... 
bem, a Nigria, e eu lhe assegurei que sua solicitao ser atendida no final da prxima semana. 
       O Presidente espichou-se para pegar um copo dgua numa mesa prxima  estante. A cmara mostrou que sua mo mexeu-se quarenta e cinco centmetros desde o 
canto da mesa de feltro verde pela beira, 

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depois trinta centmetros para o centro da mesa, at pegar confiantemente o copo. Houve um close-up do copo dgua indo at a boca do Presidente, e depois sendo devolvido 
 pequena mesa. A mo de Ericson soltou o copo e retraiu-se, mas seu relgio sonar prendeu no feltro, puxou-o, e o copo se espatifou no cho. A cmera permaneceu 
em silncio, mostrando o copo quebrado. 
       - So as pequeninas coisas que acabam com a pessoa - gracejou o presidente. - Prxima pergunta. 
       Perguntas sobre o pas dominaram os prximos dez minutos da conferncia. Ericson as respondia de forma meio insegura, mas suas respostas duravam noventa segundos 
e ele terminava todas com um fecho decorado. Aps o "Obrigado, Sr. Presidente" vindo do reprter da agncia de notcias, as telas exibiram um sbito claro, e depois 
escuro; uma lmpada antiquada se queimara em cima do Presidente, e causara uma reao nas lentes sensveis. 
       - Isso veio dali - disse o Presidente, meio fora do microfone. - Passei no teste de vocs? 
       O som colheu alguma amargura em sua voz enquanto ele tentava alcanar o degrau com o p, desceu os dois degraus da plataforma, e abriu caminho - acompanhado, 
desta vez, pelo Secretrio de Imprensa e por dois agentes do Servio Secreto - atravs da multido, at sair da Sala Leste. 
       Os sons do aparelho de quatro telas se misturaram: "Aps um bom comeo, o desempenho do Presidente nessa crucial coletiva com a imprensa decaiu muito... descontando-se 
a tenso em que ele se achava, sua disposio estava quase belicosa, diferente do homem gentil e espirituoso que conhecamos. Ele agora  um homem irascvel e algo 
amargurado, que nunca havamos visto... O erro mais bvio foi confundir o pas que recebeu os msseis nucleares da frica, certamente no a Nigria, a menos belicosa 
das naes do Quarto Mundo... embora francamente eu no possa culp-lo por mostrar-se irritado quando um fotgrafo quebrou as normas da coletiva para fotografar-lhe 
o rosto. O Presidente interpretou o gesto como uma prova ofensiva de que ele no dizia a verdade, aps haver afirmado que podia distinguir o claro do escuro, mas, 
sinceramente, no pensem que o modo pelo qual ele realmente passou na prova significa que ele ganhou um ponto. .. a verdade  que o ambiente de solidariedade logo 
se transformou em um clima de hostilidade, fosse de quem fosse a culpa. . ." 
       Uma hora mais tarde, quando uma secretria .apagou as luzes e os aparelhos de TV da sala, o murmrio cessou e as imagens se transformaram em quatro pontinhos 
brancos que logo desapareceram. 

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O CONSELHEIRO ESPECIAL/2 
       
       Hennessy irrompeu no escritrio de canto de Cartwright aps a conferncia com a imprensa da forma que ele se recordava que o Segundo-Tenente Pulver abrira 
com estardalhao a porta da cabina do comandante na ltima cena de Mister Roberts. 
       Smitty l estava, junto com Melinda e Fowler, ambos deprimidos, e o Secretrio de Imprensa dizia: 
       - Ele estragou tudo. Estava com tudo nas mos e estragou tudo. 
       Hennessy sabia que no deveria falar. Ter um acesso de raiva quando isso servia a um objetivo era uma coisa; explodir por causa de uma satisfao pessoal 
ou sem nenhuma razo, era outra. Sentou-se e escutou a "lavagem de roupa suja". 
       - Eles no fizeram nenhuma pergunta que no estivesse no livro negro insistiu Smitty. - Eu mesmo as revisei. Melinda as registrou. Fowler as condensou e enfiou 
na cabea de Ericson diversas vezes. E ele as sabia de cor: eu o escutei relembr-las hoje  tarde. Que droga deu nele? 
       Lucas Cartwright ignorou a pergunta direta e disse a Fowler: 
       - Ele certamente se movimentou dentro e fora da Sala Leste e at a plataforma, com grande autoridade, graas a voc. Isso foi notvel, Hank. 
       - Meu corao afundou quando escutei o copo quebrar replicou o terapeuta. - Eu juraria que ele estava pronto para isso. 
       - No foi culpa sua - disse o chefe da Casa Civil - nem dele. Acidentes acontecem. Para compensar, tivemos o incidente da lmpada. Nada do que pudssemos 
ter dito teria ilustrado mais dramaticamente a tese de que o Presidente pode ver uma fonte de luz. 
       - O sacana - disse o Secretrio de Imprensa, mudando de alvo - ele fez aquela lmpada explodir s para ver se o Presidente estava mentindo. Vai passar muito 
tempo para aquele fotgrafo voltar a fazer parte do pool da imprensa... 
       - Acho que a tenso foi excessiva - disse Melinda McPhee. - Sabamos que ele sempre conseguia amansar a imprensa, e por isso supusemos que o faria de novo. 
Foi um erro deixar que tentasse to depressa: ele ainda no pode estar seguro de si. 
       - No  mais do que isso, Melinda. 
       Pareceu a Hennessy que Smitty estava agindo como se fora um espectador de fora, num velrio. 
       - Aquela investida contra o sujeito do Christian Science Monitor foi muito feia mesmo, nunca vi Ericson fazer isso antes. E aquele 

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fora sobre a Nigria, aquilo no foi distrao, no, ele tinha confundido os fatos todos. Hennessy, suponho que voc ache que seu garoto de olhos azuis fez tudo 
certo hoje. 
       - Eu vi pela televiso disse Hennessy lentamente. - No estava na Sala Leste. E nunca na vida assisti a um desempenho mais nojento e desleal de um Secretrio 
de Imprensa. 
       - Escute aqui, Mark - comeou Cartwright, mas Melinda interrompeu o chefe da Casa Civil dizendo: 
       - No fale assim com ele; ele est certo. Smitty foi pior que o Presidente. 
       - Toda a vez que o Presidente errava - continuou Hennessy - a cmera focalizava voc, Smitty, e voc lhe dava o que eles queriam: balanava a cabea, olhava 
para o cho com expresso de desgosto, etc. Voc encenou um grande espetculo, meu chapa. Salvou mais uma vez sua credibilidade, e enfiou uma faca nas costas do 
Presidente. 
       - Isto  mentira. 
       - Faa com que passem o tape, para voc - disse Hennessy, conservando a voz baixa. - Vai ver como voc parecia, como a mdia o usou para enfatizar cada engano. 
No entendo por que voc no foi l e sacudiu o Presidente para fora da plataforma. 
       Smitty olhou para Cartwright em busca de socorro, mas este deixou que Hennessy prosseguisse. 
       - Galinha vai ter dentes, Smitty - continuou Hennessy. - Antes que voc aparea de novo em rede nacional na TV, para bancar o bacana e proteger o prprio 
rabo. De agora em diante, sua assistente pode ficar l; ela, pelo menos, sabe manter um rosto impassvel. Voc pode assistir  coletiva naquele espalhafatoso aparelho 
de TV da sua sala em todas as telas, e pode resmungar  vontade, para deliciar seu corao em particular. 
       Cartwright meteu-se na conversa. 
       - Vamos estudar as formas de suavizar os danos. O fora com o sujeito religioso me parece ser o primeiro tpico a ser tratado. 
       - Se voc quiser uma nova secretria de imprensa - disse Smitty contendo a raiva crescente - ela est aqui, prontinha para assumir. 
       -  bem de voc, abandonar agora o navio - disse Hennessy, mudando de direo. - Voc alguma vez pensa em outra reputao que no a sua? 
       Chega, Hennessy - interrompeu-o Melinda bruscamente. - Voc j disse o que queria, agora chega. Vamos continuar. 

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       O advogado notou que Fowler, sentado num canto, aceitava tudo isso sorrindo ligeiramente, com a bengala de lado. A cena devia parecer-lhe um programa de rdio 
dos idos de trinta. 
       - A coletiva vai ser comentada nas edies dos matutinos disse Smitty, relanceando um olhar para Hennessy - e no haver tempo para editoriais a respeito. 
Os colunistas s devero escrever sobre o assunto daqui a dois ou trs dias. Os noticirios noturnos de amanh sero o primeiro lugar para a reao principal, por 
isso temos de fazer algumas coisas sobre as quais eu possa falar na reunio de amanh com a imprensa. E precisamos tambm arranjar algumas reaes amistosas, para 
que os comentrios da TV no sejam todos sobre o tema de que o Presidente no consegue enfrentar sua cegueira. 
       - Por que o Presidente no convida o cara do Monitor para uma entrevista exclusiva no final da semana? - sugeriu Melinda. - Ele pode fazer isso logo de manh, 
e na sua reunio, Smitty, voc pode suavizar a investida do Chefe contra o fulano. Vou fazer com que o Chefe d esse telefonema. Os problemas religiosos so ruins, 
e precisam ser imediatamente justificados. 
       - O fora da Nigria - disse Cartwright - foi apenas um lapso.  claro que ele queria dizer Uganda. Quantos americanos vo Condenar um homem porque ele substitui 
Nigria por Uganda? As duas naes ficam no mesmo continente e tudo. 
       - Assuma um enfoque diferente com aquele fotgrafo que fez explodir o flash - sugeriu Hennessy. - Diga ao pessoal da imprensa que voc gostaria de uma ampliao 
da foto para a sala de imprensa, pois ela prova nosso ponto. Se houver uma foto, provaremos que estamos tranqilos com a histria toda, e se no houver, todos sabero 
que aquele porra-louca sequer tinha filme na mquina. 
       - Srta. McPhee - disse Cartwright - gostaria de pedir desculpas pela linguagem usada por alguns dos meus colegas em presena de uma dama. Eles devem estar 
sob grande tenso. 
       - Isto  uma humilhao, Lucas. No me importo absolutamente. Isso prova que eles me consideram "um deles". 
       - Eu nunca pensarei em voc como "um deles", Melinda. 
       Hennessy admirou a forma pela qual o chefe da Casa Civil estava conseguindo desanuviar o ambiente com seu exagerado charme. 
       - Smitty - continuou Cartwright - acha que seria possvel que sua subsecretria engabelasse seu inamorato, que trabalha para a televiso, para que ele solicite 
uma declarao do Presidente da Cmara amanh? 
       - Que ela engabelasse o seu o qu? 

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       - O sujeito com quem ela tem trepado - traduziu Hennessy. 
       - Aquele de quem voc tem cimes. 
       - Vou conseguir com que isso seja feito - disse o Secretrio de Imprensa. - Vai se bom obter uma firme declarao de Frelingheusen. Aquela gafe de poltica 
externa realmente preocupa; eles poderiam mesmo cair em cima do Chefe por ter errado o nome do pas. 
       - Esta  a nica administrao - anunciou Hennessy - em que um confronto de olho a olho  impossvel. 
       Essa observao arrancou um resmungo at mesmo do amvel Fowler. 
       - Voc no gosta de humor negro? - perguntou-lhe o advogado. - Voc  racista? 
       O telefone tocou, e uma luz nervosa indicou que o chamado era do Presidente. Cartwright atendeu e respondeu: 
       - As nossas reaes so as mais variadas. Smitty preferia que o senhor tivesse seguido a imorredoura lengalenga do livro negro. A referncia a Kolkov e Bok 
foi muito boa. Sobre poltica externa, Hennessy acaba de.fazer a piada de maior mau gosto que j escutei em todos os meus anos de funcionrio federal, e estou certo 
de que ele mesmo vai querer repeti-la para o senhor. 
       O chefe da Casa Civil escutou um pouco, e depois inseriu suavemente suas objees: 
       - Suas observaes ao jornalista do Monitor certamente sero o principal assunto em todas as salas de leitura da Christian Science (Cincia Crist) [nota 
*. Religio. (N. da T.)] atravs do pas, Sr. Presidente. Talvez o senhor queira fazer algo para suavizar essa reao. 
       Ele escutou e depois, satisfeito, assentiu com a cabea para Smitty: 
       - Vou dizer a Smitty que combine isso para sexta-feira, e que informe  imprensa sobre o caso amanh de manh. 
       Pausa. 
       - Acontece que a Sra. Cartwright assistiu  coletiva durante um jantar ao qual compareceram os Bannermans, e vou saber o que o secretrio disse. Foi um dia 
longo, senhor, por que no toma um copo de leite quente e vai para a cama? 
       Ele escutou os comentrios finais do Presidente, e disse apenas: 
       - Tome um copo disso, ento - e desligou. 

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       - O lder do mundo livre gostaria de v-lo em sua sala de estar antes de dormir - disse Cartwright a Hennessy, e depois virou-se para Melinda: 
       -  verdade que ele vomitou em cima da senhorita na ltima vez em que tomou um copo de leite quente? 
       O conselheiro espacial do Presidente precipitou-se pela Ala Oeste, atravessou as colunatas da residncia, cumprimentou Buffie, a fotgrafa, com a cabea, 
que passou silenciosamente por ele no vestbulo - o que o surpreendeu, visto que ela sempre o cumprimentava alegremente - e continuou at a Sala de Estar Lincoln. 
       - Voc arruinou tudo - disse Hennessy ao Presidente quando entrou na sala, esbaforido - seu sacana idiota, voc arruinou tudo. 
       - Eu sei - disse Ericson. - Deixe de me "consolar", sim? 
       - Voc os tinha comendo na sua mo quando subiu l. Tudo que precisava fazer era ser voc mesmo. Que foi que lhe deu? 
       Hennessy sabia que no teria sido chamado se o Presidente no desejasse uma avaliao franca, e at brutal. Ele era a prpria imagem da frieza, com os ps 
cruzados languidamente no escabelo  sua frente, condescendente com um pouco de autocrtica de seu alter ego. Hennessy pensava que indiferena era timo, mas Ericson 
s vezes exagerava. 
       - Voc fica a sentado - repetiu a frase - olhando pela vida atravs de uma retina descolada. 
       - Foi essa a piada que Cartwright julgou de mau gosto? No  m. De qualquer forma, no  de mau gosto. 
       - Foi muito duro com Smitty por ele ficar balanando a cabea cada vez que voc fazia uma besteira. As cmeras o pegaram fazendo isso. Talvez seja bom voc 
dizer-lhe que no tem importncia, que eu sou superprotetor. 
       - Vou fazer isso - concordou Ericson com a cabea. - Qual foi meu pior erro? 
       Era difcil comear. O Presidente j sabia todos os enganos que cometera. 
       - O pior foi que voc no se controlou. O verdadeiro Presidente Ericson jamais se irrita, jamais perde o senso de humor, nem seu estilo. Quem foi que eles 
viram, porm? Um sujeito cego que se ofende  toa, e censura asperamente. Isso foi o pior. 
       -  - disse Ericson. - Droga! 
       - Olhe, ainda no discutimos algo. 
       Hennessy estivera esperando o momento certo para desfechar uma pergunta cruel contra seu cliente. 

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       - Esquea tudo o que aconteceu antes, ou o que poderia acontecer se algum descobrir. Eis a pergunta crucial: Voc acha que est agindo certo? 
       - Agindo certo em qu? 
       - Em no renunciar, pelo amor de Deus. Voc pode dar conta do recado? 
       - Como diabos vou saber, Hennessy? Nunca fui Presidente antes. Voc tem certeza de que vai ser um grande conselheiro ntimo? 
       -  o que estou sendo agora. 
       Hennessy achou que seria melhor adoar um pouco a plula. 
       - Estou sentado numa saleta abrilhantada pelo espectro de Abraham Lincoln. Estou falando com o quadragsimo primeiro Presidente dos Estados Unidos, que deve 
ter desfrutado de uma das reaes negativas mais rpidas na histria dos Estados Unidos aps uma coletiva com a imprensa. E aventei o assunto de moralidade com M 
maisculo, e perguntei se ele, no fundo do corao, acredita ser capaz de desincumbir-se de seus deveres do cargo. Para que outra droga serve um conselheiro ntimo? 
       Ericson sorriu. 
       - Voc se encontrou com Buffie? 
       - Ela estava com uma expresso radiante: conspiratria, mulheril, satisfeita, aturdida. 
       Na verdade, ela parecia preocupada ou zangada, mas Hennessy se podia dar ao luxo de lisonjear seu cliente de longos anos. 
       - Sven, voc ainda  um bom esgrimista, mas continua a ser um estadista? 
       - Est certo - disse o Presidente, srio. - Vamos discutir os prs e os contras. Primeiro os contras. 
       - Isto quer dizer que os prs vo vencer - predisse Hennessy. 
       - Certssimo, mas pensei demoradamente no assunto. Os contras so, primeiro, que estou substancialmente menos capaz de fazer meu trabalho do que estava antes. 
Ningum, incluindo eu mesmo, sabe em que porcentagem, nem vai saber por algum tempo. 
       "Segundo, as potncias do Extremo-Oriente poderiam interpretar que minha cegueira significa que nosso governo est paralisado, incapaz de reagir rapidamente 
a uma retaliao de poder. Portanto, no interessa se sou capaz ou no de desincumbir-me de meus deveres: se os sino-japoneses acham que no posso,  to perigoso 
como se eu realmente no pudesse. Este  o maior argumento contra a minha permanncia. 

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       "Terceiro, existe o problema psicolgico do pas. O povo americano quer um lder, uma pessoa forte e confiante ao leme, algum que possam criticar e que no 
desmorone por causa disso. Um homem cego ou aleijado no pode ser isso: na era da televiso, nem mesmo FDR escaparia impune, pois seria visto e lamentado. Isso  
mau para o lder e para os liderados. 
       "Quarto... bem, esqueci o quarto - disse irritado o Presidente. 
       - Cite-me um outro ponto contrrio. 
       -  simples: voc vai passar tanto tempo aprendendo a enfrentar a cegueira, que no ter tempo para dirigir o pas. Isto significar m administrao, oportunidades 
perdidas, enganos, possvel que voc venha a ser, relativamente, um pssimo Presidente. 
       - Este  o quarto argumento negativo - concordou rapidamente Ericson - Vamos aos positivos. Primeiro, nunca  sensato tomar grandes decises apressadamente. 
Ser que serei capaz de enfrentar minha cegueira, de desincumbir-me de meus deveres? Quem sabe? Talvez eu seja. Minha coletiva  imprensa foi ruim... talvez eu me 
saia melhor da prxima vez. Daqui a um ms, veremos. Mas no podemos dizer isso, porque  uma demonstrao de fraqueza, e todos se divertiriam tentando adivinhar 
como ser a vida na futura administrao. Eu quero tomar essa deciso, no quero que a tomem por mim. 
       Ento Ericson deseja agir como se no houvesse possibilidade de seu afastamento - pensou Hennessy, desde que ele no se esteja enganando. Em Washington, as 
possibilidades assumem vida prpria, tornam-se probabilidades e depois certezas, atravs da combinao de esperana, pavor e comunicao em massa. 
       "Segundo - continuou Ericson - esse negcio de 'afastamento'  um monte de besteiras. Quando se sai, se sai: ningum poderia dirigir o pas com os homens 
de outras pessoas, sem poder planejar para o ano prximo E a idia de voltar ao poder quando a pessoa se julgar capaz s provocaria muitos danos no centro. Grandes 
discrdias, brigas do Gabinete e incerteza sobre quem estaria responsvel e por quanto tempo. Isso  perigoso, isso  que  a verdadeira paralisia. "Afastamento" 
como disse Zophar, " uma forma polida de dizer saia da para sempre". 
       "Terceiro, voc est anotando, Hennesy? Faa-o, por favor. A presidncia no  um cargo que se abandona apressadamente. Quando isso acontece, ocorre a instabilidade. 
Quando se  eleito,  para suportar todas as conseqncias, e uma vez que o povo se convena de que os Presidentes de que no gosta, ou que ache que no esteja fazendo 
um bom trabalho, devem renunciar, o perodo de quatro anos comea a desmoronar. A no ser que ele esteja absolutamente

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certo de que ficar incapacitado por muito tempo, sem poder realmente trabalhar durante longo perodo, o dever de um Presidente  permanecer no cargo. 
       "Quarto, e este  um argumento prtico: acontece que temos um Vice-Presidente que  um simptico imbecil. Ele no foi escolhido porque seria um bom Presidente, 
e sim porque seria um bom Vice-Presidente. Essa escolha no foi minha, foi do partido, especialmente de Bannerman. Funcionando com vinte por cento de minha capacidade, 
eu seria melhor Presidente do que Arnold Nichols funcionando com cem por cento da dele. 
       Hennessy concordou que isso era verdade. 
       - Quinto: h uma poro de gente portadora de defeitos fsicos neste pas que est esperando que...
       O Presidente parou quando Hennessy comeou a cantarolar Hearts and Flowers. [nota *. Cano piegas. (N. da E)] 
       - Est certo, s usarei esse argumento se for preciso. 
       "Sexto, ou quinto, ou sei l eu o nmero... e, Hennessy, no escreva isso... quero ser Presidente. Foi dificlimo chegar aonde estou. Perdi minha viso porque 
sou Presidente; o cargo me deve alguma coisa. E no vai ser to duro ser cego, se voc conseguir imagin-lo, desde que eu tenha o cargo mais importante do mundo. 
Sei que isso  egosta. 
       - No  egosta - interrompeu Hennessy -  irrelevante. O que acontece a voc no deve fazer parte de sua deciso. Que diabo  voc, um homem ou um Presidente? 
       - Quero ser Presidente. 
       - Ento pare de agir como ser humano. Voc  o Chefe de Estado; pode at enfrentar decises como quem deve morrer e quem deve viver. Voc toma suas decises 
por razes de Estado, e se isso significar a eliminao de uma cidade ou sua infelicidade pessoal pelo resto da vida,  irrelevante. 
       O Presidente ficou calado um pouco. Quando falou, pilheriou: 
       - Voc acha que FDR teve de tolerar esse tipo de besteiras de Harry Hopkins? Ou Wilson do Coronel House? 
       Hennessy entendeu a insinuao para se refrear. 
       - Ns, conselheiros ntimos - disse ele - reenchemos as funes de bobo da corte. Podemos dizer tudo, desde que o faamos sorrindo. 
       -  disso que eu preciso, de um bobo da corte sincero. Ningum por aqui tem senso de humor. Voc  um bom conselheiro ntimo,

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Hennessy, mas  um chato quando se trata de rir. Est bem, que  que voc acha? 
       Hennessy tentou ser imparcial, lembrando de sua prpria parcialidade por querer que seu amigo fosse Presidente e por querer ele mesmo permanecer no centro 
da ao. 
       - No lado negativo, voc tem razo: o aspecto mais srio  a tentao que os sino-japoneses sentiro em testar um ponto fraco. E voc omitiu que est no incio 
de sua gesto: trs anos e meio  muito tempo para brincar de cabra-cega. 
       Olhou para sua relao, perguntando-se como Ericson poderia visualiz-la. 
       - No lado favorvel, voc enfatiza excessivamente a estabilidade e o perodo de quatro anos. No acho que isso tenha tanta importncia. Lembre-se da renncia 
de Nixon: a presidncia no  to dbil assim. Isto  um ponto de venda, no de deciso. 
       - E a comparao com Nichols? Com Bannerman dando as cartas? 
       - Esse  um bom argumento para deciso, mas no para convencer. Na minha opinio, o argumento mais positivo  que no h pressa em se tomar uma deciso irrevogvel. 
Nenhum Presidente decide nada antes que isso seja imprescindvel. Como sabemos que a sugesto de "afastamento"  embromao, devemos adiar a deciso at todos os 
fatos se definirem. Quem sabe, daqui a umas duas semanas, talvez uns dois meses. 
       O Presidente se tranqilizou e resvalou na cadeira. 
       - Voc julga que essa teoria seja sensata e honesta? Detestaria apoiar um slogan como "Deixemos a poeira assentar". 
       - Voc se surpreenderia com a reao a isso - disse-lhe Hennessy, j agora o advogado substituindo o juiz. - "V com calma" tem certa atrao. O nus de arregimentar 
apoio no  seu, pelo menos ainda no. Se Bannerman tentar forar... digamos putsch, [nota *. Em ingls: push, trocadilho com putsch, que em alemo significa tentativa 
de derrubar um governo. (N. do T.)] que tem interessante conotao nazista... obrigue-o a definir totalmente sua tese, antes de comear a derrub-la. 
       - No terei mais acessos de gnio - prometeu Ericson. - Vou "passar a conversa" no reprter do Monitor de forma jamais vista por voc. Consiga-me informaes 
sobre Brigham Young. 
       - Esse foi o dos mrmons - disse Hennessy, sem saber se o Presidente brincava. - Vou conseguir-lhe informaes sobre Mary Baker Edy, a fundadora do movimento 
da Cincia Crist. 

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Diga-me, porm, uma coisa: como  que voc e Buffie conseguiram que aquele fotgrafo explodisse uma lmpada no seu rosto? 
       Alegremente, Ericson atirou um chinelo na direo de Hennessy, e o conselheiro do Presidente fingiu ter sido atingido. Aps despedir-se e ir embora, ocorreu 
a Hennessy, no vestbulo, que deveriam planejar o acompanhamento das informaes que Cartwright receberia de sua esposa sobre a reao de Bannerman. Ele girou nos 
calcanhares e voltou para encontrar o Presidente ao telefone, com aparncia triste, que dizia: 
       - Est certo de que discou o nmero certo, Herb? Onde diabos ela poderia estar? Quem a viu depois que ela saiu daqui? Hennessy disse que a encontrou no vestbulo, 
e ela parecia radiante. 
       O conselheiro virou-se silenciosamente e partiu. 


O REDATOR DE DISCURSOS/1

       A razo pela qual Buffie no pde ser encontrada  que estava passando a noite no apartamento do redator jnior de discursos do Presidente, Jonathan Trumbull. 
       Ela aparecera no apartamento dele havia umas duas horas antes e anunciara: 
       - Voc est me paquerando h meses, e chegou sua grande oportunidade. Quero passar a noite com voc. H mais algum no apartamento? 
       Aconteceu que no havia. Ele quis escrever um memorando sobre a coletiva com a imprensa, e em rpida sucesso houve um drinque, um selvagem primeiro beijo, 
um rasgar de roupas, e um ataque de prolongadas acrobacias sexuais que desde a adolescncia ele no experimentava. Depois, houve lgrimas da moa, suas revelaes, 
a atitude apaziguadora do rapaz, e agora ele estava deitado na cama, com os travesseiros empilhados de forma a que pudesse olhar pelas janelas do Columbia Plaza 
no Kennedy Center. Tentou ordenar tudo, numerando os itens como fazia Ericson. 
       Primeiro: tenho vinte e sete anos, e este  meu primeiro emprego depois que me formei. Dois: acabei de trepar com a amante do Presidente. Trs: estou a caminho 
do desastre. 
       O panorama no era agradvel. Jonathan tentou novamente. Um: sou um redator de discursos de terceira categoria, e at recentemente passava a maior parte do 
tempo escrevendo bobagens sobre superficialidades da Casa Branca. Dois: ultimamente, minha carreira tem progredido grandemente porque os outros dois homens mais 

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velhos e infinitamente mais experientes que escrevem para Ericson lhe tm fornecido coisas que julgavam que ele pudesse utilizar, enquanto eu lhe venho fornecendo 
exatamente o que sei que ele quer. Embora isto tenha feito com que o resto do grupo de pesquisa e redao me apelidasse de "Peixinho do Chefe", significa que subitamente 
me tornei o redator favorito do Presidente. Trs: o fato de que agrado ao Presidente me fornece uma viso resumida de como se faz a histria deste pas, exatamente 
como eu esperava quando Ericson se lembrou de um aluno de primeiro ano que tivera aulas de economia com ele, e que escrevera uma defesa apaixonada das teorias de 
David Ricardo, e mandou me buscar para ser membro do seu quadro de auxiliares. Quarto: o Presidente Ericson  um cara espetacular,  timo trabalhar com ele, e o 
Sr. Cartwright j insinuou que em pouco tempo posso ser promovido a assistente especial, ganhando mais e em nvel de igualdade com os demais redatores, que falam 
muito sobre integridade e status de assessores, mas que no esto dando ao Velho o que ele quer. Cinco:... 
       Ele tocou a moa adormecida, que puxou as cobertas e se afastou. Cinco: a cegueira do Presidente foi um golpe pessoal para mim, claro que no da magnitude 
que deve ter sido para ele, mas se um homem no pode ler, que lhe adianta um redator de discursos? Ser que isso significa que me limitarei a reescrever mensagens 
ao Congresso e cartas para a assinatura do Presidente, o que me manter afastado do centro do poder e tornar impossvel escrever um livro de memrias vlido e significativo 
mais tarde? No devo usar "significativo"; o Presidente odeia essa palavra, assim como "vivel", "relevante", "ambivalente" e "estilo de vida". Seis: agora essa 
moa estranha e adorvel irrompe na minha vida, que est muito ocupada no momento. No apenas em termos de garotas, porque no h outro setor da vida no qual exista 
tanta preocupao com sexo quanto a poltica, pois o poder  afrodisaco etc., mas ocupada em absorver idias e vomit-las de forma usvel, fazendo constantes anotaes 
o tempo todo, que se tornariam basicamente o recheio da histria. 
       Ele se sentia atrado por Buffie: os dois haviam sentido a tenso no escritrio do pessoal do Air Force One. No apenas por serem contemporneos, mas porque 
reconhecidamente eram os espritos liberais, que haviam lido e provado Paris, juventude, noite e a lua. A vida na Casa Branca  - ele admitiu alegremente - um romance, 
e logo se cria uma nsia de partilh-la com mais uma, duas ou trs pessoas. As pessoas mudam muito rapidamente nesse cadinho. Talvez mais tarde voltem a seus verdadeiros 
egos, ao que o cnico Sr. Hennessy chama de "vida real". Havia mesmo atrao entre eles, mas era voz comum que Buffie era a garota do Presidente, fora do alcance 
de todo o mundo, e certamente Jonathan Trumbull no iria tomar uma atitude que seria no apenas burra e desleal, mas perigosa. 

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       Aqui estava ela, com seus plos pbicos dourados, o corpo esguio e exuberante, decisivamente sensual, uma desenfreada cortes. No obstante, ao tentar desafogar-se 
ela conseguira atingi-lo. 
       - Ele mudou - dissera ela. - Ele estava mudando j antes da emboscada, mas agora a coisa est indo muito mais depressa. 
       Quando se trabalhava na Casa Branca, no era nunca necessrio dizer quem era "ele". 
       No gosto disso - lhe dissera Buffie. - No sou receptculo de esperma, nem prostituta. Nos velhos dias da campanha, dvamos umas trepadinhas rpidas, claro, 
e sempre achei que isso era uma espcie de estmulo, quando todos esperavam um discurso, ou algo, mas havia sentimento. Era divertido. Ns dois trocvamos algo. 
No precisvamos estar muito juntos, porque estvamos muito unidos quando finalmente conseguamos. Ele tinha a sua vida, eu tinha a minha, e quando estvamos juntos 
saa fogo. Havia ternura, tambm, o que  bom de vez em quando. 
       - Voc tem certeza de que me quer contar tudo isso? 
       - Est chateando voc? 
       - No, isto , isso  assunto pessoal, entre voc e ele. 
       Subitamente lhe ocorrera a imagem de Buffie na cama com o Presidente, contando-lhe sobre o redator de terceira categoria. 
       - Voc precisa ser discreta, Buffie. 
       - Devo ser mais discreta do que voc jamais saber, Irmo Jonathan. Por que Cartwright o chama de Irmo Jonathan? Ele  um "careta" simptico, no ? Vocs 
se gostam. 
       Ela estava certa. 
       - No princpio houve esse problema de lacuna entre as geraes entre Pdeu e mim, e pensei que isso encheria o saco, mas ele foi muito bacana a respeito. Disse 
que sempre teria idade bastante para ser meu pai, e eu sempre seria jovem o bastante para ser sua amante. Vocs caras que sabem usar as palavras...
       - Como  que ele est mudando? Voc disse que comeou antes da emboscada. 
       - Est ficando possessivo. Antigamente, ele no me prendia, por isso eu no trepava com mais ningum. H uns dois meses, comeou a agir como O Presidente, 
e tive a impresso de que Harry Bok me vigiava. Por isso andei trepando com alguns caras, no porque quisesse especialmente, nem fosse gente pela qual eu me sentisse 
atrada, como no seu caso. Dormi com uns dois reprteres, e ele me fez um enorme sermo. No quer que eu saia do srio. Talvez eu conte segredos de estado, ou coisa 
assim. Por outro lado, ele pode andar por a. 

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       - E ele anda? 
       - E por que no deveria? Eu no me importo, desde que no saiba com quem. Mas voc conhece aquela frase de cinema "Quero ser necessria"? Como se isso representasse 
muito para uma mulher, isso de ser necessria. Comigo no. Quero no ser necessria. 
       - Mas agora - dissera Jonathan -  claro que voc  mais necessria do que antes. E isso a aborrece. 
       - O que est me botando maluca  a sensao de culpa que estou sentindo agora. Por que ser que eu o estou magoando? Que tipo de pessoa eu estou ficando? 
       - Voc se preocupa em perder tudo? 
       Me preocupava. 
       Ela se espreguiou. Jonathan ficou excitadssimo de v-la espreguiar-se. 
       - Mas agora no, porque controlo todos eles, mas nunca vou usar isso, porm eles no sabem e assim no h muita presso. Ento, controlo a dor de dentes e 
venho a voc. 
       - Voc est com dor de dentes? 
       Isso foi modo de falar, Jonathan. Peguei isso de Hennessy. Voc  redator, devia saber essas coisas intuitivamente. 
       s vezes ela o esnobava assim. Ele lhe era superior em instruo, na percepo dos acontecimentos mundiais, e estava preparado para aceitar alguma superioridade 
dela na sua experincia de relacionamentos, mas no no seu prprio campo: fragmentos de compreenso ou emprego de palavras perfeitas ocasionalmente eram parte de 
seu mtodo para surpreend-lo. Essa moa nada tinha de boba. Jonathan adormeceu, contente porque ela no gostava de se enrodilhar junto e assim no estragaria seu 
modo de dormir todo espalhado. 
       De manh o redator jnior de discursos do Presidente foi habilmente acordado atravs de toques, e sonhadoramente chegou a um clmax que jamais esqueceria, 
ao comear o dia com uma espetacular relao, e ao encontrar uma mulher ainda mais insacivel e deliciosa  luz do dia. Ela no gostava de sexo oral, mas o surpreendeu 
ao empurr-lo para o chuveiro com ela e fazer a espuma do sabo voar. 
       O corpo de Buffie se derretia nele enquanto ele a enxugava com a toalha, e depois ela pegou a toalha - que era a nica que ele tinha, e isso era constrangedor 
- e ao invs de amarr-la na cintura, usou-a como turbante para seus cabelos molhados. No houve nenhuma vergonha no ato, pensou ele, e tambm pipocas, vergonha 
de qu? 
       - Voc est preparado para algo realmente ntimo? - perguntou ela, olhando-o no espelho do banheiro. 

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       - No h nenhum limite - replicou ele. 
       - Voc tem desodorante? 
       Pedir emprestado o desodorante de outra pessoa era, para ele, o mximo da intimidade. Abriu o armarinho de remdios e ps  disposio dela todos os objetos. 
Rapidamente e, segundo ele observou, intimamente - ela usou o desodorante dele debaixo do brao. 
       - Voc devia conhecer o Secretrio Bannerman - disse ela, cheirando o frasco da loo aps a barba, e fazendo uma careta. 
       - Voc aprenderia um bocado com ele. 
       - Economia no  meu forte - Jonathan encolheu os ombros. 
       - Certa vez discuti com o Presidente quando ele ensinava usando uma pesquisa que no tinha nada a ver, de algum economista morto. No quero forar a sorte. 
       - Eu estava pensando em outra coisa. 
       Jonathan tambm estava pensando em outra cosa, olhando no espelho para a cabea com turbante e o rosto lavado da moa. Saram do banheiro e voltaram  cama. 
Ele nunca suspeitara que poderia agir como agiu. Mais tarde, preparou o desjejum enquanto ela, sentada no cho de pernas cruzadas, com o turbante ainda na cabea, 
meditava transcendentalmente, ou sobre alguma outra coisa. Ele ficou satisfeito de ter bastante quantidade de flocos de aveia: ela era vegetariana e ele se sentia 
mal comendo bacon e ovos. 
       Falando de boca cheia, ela voltou a falar de Bannerman e ele disse: 
       - Pretendo deixar os discursos  Cmara de Comrcio para os outros redatores. E quanto s respostas do livro negro, devo isso a Marilee, inclusive os juros 
e o saldo que isso possa render. 
       Ele imediatamente percebeu que no dissera a coisa certa: o cenho dela se franziu. 
       - Nossa, voc tambm vai comear a elogiar Marilee, a Mulher Perfeita? No, eu estava pensando em que Bannerman  um homem interessante para se conhecer no 
futuro, isto , quando todos voltarmos para casa. 
       O redator de discursos teve de balanar a cabea. O futuro era aqui e agora, com quatro anos  frente, talvez oito, e essa moa falava do futuro do futuro. 
       - Quando voc apareceu aqui ontem  noite, Buffie, no pensei que fizesse planos a longo prazo. 
       Ele no gostou do olhar dela. 
       - No no sentido negativo, claro - acrescentou. Ele definiu "caprichosa" como a palavra para definir os humores dela. 

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       - Esse sujeito  podre de rico - disse ela, mastigando ruidosamente - e tencionava aplicar a grana em boas coisas. Como fundar uma revista ou comprar uma 
editora. A famlia dele  dona da maior organizao distribuidora de tapes de filmes, e isso  s uma gota no oceano do que eles possuem. 
       - Se ele  to rico, por que - Jonathan ia dizer "continua a mamar na vaca", mas instantaneamente mudou isso para - se conforma com um lugar secundrio na 
poltica? O dinheiro pode comprar felicidade, mas no compra poder. 
       Essa frase era criao sua, ele a usava sempre, mas nunca a tentara com essa moa e com utilizao to adequada. Decepcionou-se porque ela no a notou. Buffie 
parecia resolvida a enfatizar seu argumento. 
       - Pense no futuro - pressionou ela. - Seria divertido trabalharmos juntos numa revista, hem? E talvez como scios? Como a Rolling Stone ou a Voice. Olhe, 
algum dia vamos ter trinta anos. 
       - Voc, talvez - Jonathan riu. - Eu sou Peter Pan. Mas se voc diz que eu deveria conhecer Bannerman, para mim est timo. Sua mente torpe me deixa ligado. 
       Ela lavou a loua e saiu da cozinha como se jamais tivesse um pensamento "torpe". Nas mos, levava um tomate. 
       - Vamos matar trabalho hoje - disse, mordendo profundamente o tomate, e deixando que o suco e as sementes lhe escorressem pelo queixo at a sua (dele) camiseta. 
Ele percebeu que era um chamamento bastante bvio ao sexo, e sentiu-se excitar. 
       Ele telefonou para a Casa Branca e disse estar doente. A milionsima mensagem ao Congresso sobre o programa de preservao da energia podia esperar mais um 
dia. 


O SECRETRIO DO TESOURO 
       
       Ao olhar pela janela para a East Executive Avenue, T. Roy Bannerman pde ver o Secretrio de Defesa sair da Ala Leste da Casa Branca e atravessar a rua para 
o Departamento do Tesouro. L embaixo, o elevador privativo do Secretrio do Tesouro esperava; seu colega membro do Gabinete logo estaria aqui em cima. 
       As demais janelas de seu escritrio davam para o sul, em direo ao Monumento a Washington, nas longas sombras de um fim de tarde em junho. Bannerman achava 
a cidade bem planejada, se se gostava de parques, avenidas e monumentos; pelo menos, era limpa. O turbilho de Nova York no se sentia aqui, nem Washington podia 
oferecer a sociabilidade de Londres. Seu visitante, o Secretrio de 

Pg 155
Defesa Preston Reed, fora Embaixador  Corte de St. James h alguns anos, e eles se tinham conhecido em alguma das freqentes viagens de Bannerman ao Reino Unido, 
quando ele tentava escorar os mercados financeiros daquela ex-capital das finanas. Bannerman respeitava Reed: era um advogado de Wall Street, boa cabea, opinio 
independente, com influncia em grandes empresas. O Secretrio de Defesa podia abrir caminho atravs da terra de ningum situada entre o Estado e a Defesa sem fazer 
explodir as minas e acionar todos os vazamentos de informao. Ele mantinha seu pessoal rigidamente fora da economia internacional, como garantira a Bannerman que 
o faria; era digno de confiana. Podia tambm ser duro, ao requerer de Bannerman apoio oramentrio para especficos projetos de defesa, bem como canais de apoio 
poltico no Congresso que poucos dos novos homens da Administrao de Ericson sabiam existir. 
       Ele e Reed haviam conhecido os locais do poder muito antes de surgir Ericson, e neles permaneceriam quando Ericson fosse apenas uma lembrana. No governo 
ou fora dele, independente de quem controlasse o Executivo ou o Congresso, suas mos pousavam comodamente em pelo menos algumas das alavancas. Alexander Hamilton 
o primeiro de seus predecessores, cujo retrato estava pendurado na parede, teria aprovado. Bannerman era um progressista e um ativista, acostumado a ser ridicularizado 
como sendo um liberal de limusine, mas tinha a certeza de que o pas estava bem servido por uma aristocracia de responsabilidade. Havia uma classe criada para governar 
ou, se no para governar, pelo menos para, suave mas firmemente, orientar a governana. O emprego judicioso do dinheiro ajudava, mas os crticos preocupados com 
a superficialidade se enganavam: o poder de Bannerman e o remendo de Reed no vinham do dinheiro e, sim, da garantia, da vida toda, de que o dinheiro no era problema, 
e do fato de pertencerem  teia de amigos e colaboradores no mundo inteiro que carregavam o nus de fazer com que os sistemas financeiros e os governos dessem certo. 
       Um agente do Servio Secreto introduziu Reed na sala. Pequeno, esguio, grisalho, dono de si. Quando Bannerman apontou uma poltrona perto da lareira, Reed 
balanou a cabea. 
       - Roy, estive o dia inteiro encerrado em escritrios e o primeiro sopro de ar fresco que recebi foi ao atravessar a rua para c. Por que no tentamos nosso 
Bernard Baruch? [nota *. Financista e conselheiro americano de Presidentes. (N. da T.)] 
       Bannerman sorriu sua concordncia e juntos foram ao Parque Lafayette, do outro lado da rua da Casa Branca, para um local onde 

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antes j haviam conversado. Era um simples banco de parque perto da esttua de Andrew Jackson, que ostentava uma placa com os dizeres: "O Banco da Inspirao de 
Bernard M. Baruch", onde aquele idoso estadista, odiado por Harry Truman, gostava de aconselhar os membros do Gabinete de Truman aps a Segunda Grande Guerra. 
       -  um bom lugar para se especular - gracejou Bannerman, sabendo que Reed seria um dos poucos a perceber sua aluso  autodescrio de Baruch de especulador, 
antes da, h muito esquecida, Comisso Pujo. Sabia que era um bom lugar para Reed ter certeza de que no seriam ouvidos nem que sua conversa seria gravada no escritrio 
do Departamento do Tesouro, origem do Servio Secreto, e tambm para os dois se sentirem em igualdade, sem que um no estivesse visitando o outro. Bannerman julgava 
a inteligncia, o prestgio e a habilidade de Reed equivalentes aos seus prprios, mas achava que o outro lhe era inferior em poder a longo prazo, porque o nome 
de famlia era menos importante que o seu, e considerava-o superior a si em desprendimento, pois no tinha metas de poder pessoal. 
       - Quis conversar com voc - comeou o Secretrio do Tesouro - porque estou convencido de que Ericson precisa sair. 
       - Se voc est planejando derrubar o governo atravs de fora e violncia - disse secamente Reed, cruzando as pernas e olhando a ao da gua no repuxo em 
frente  Casa Branca - eu teria de reunir as foras armadas para resistir. 
       - Quero salvar este governo - disse lentamente Bannerman - por todos os meios constitucionais, de um homem cuja arrogncia e teimosia no o deixam perceber 
que est fisicamente incapaz de governar. 
       O Secretrio de Defesa pensou um pouco e disse: 
       - Roy, suponha que voc fosse Presidente, e ficasse cego. Ou tivesse um derrame que lhe prejudicasse seriamente a fala. Voc renunciaria? 
       Bannerman j se debatera com essa pergunta. 
       - Eu me afastaria sem hesitao. E voc tambm, Preston. O Presidente deve sempre colocar o pas em primeiro lugar...  uma condio de f... e se se est 
incapaz de funcionar com todas as faculdades, tem-se a obrigao moral de renunciar. Ou, pelo menos, de se afastar. 
       - Obrigaes morais - disse o Secretrio da Defesa - costumam ser citadas por gente que no dispe de argumentos legais em que se apoiar. Sua posio legal 
 fraca, Roy. 

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       Bannerman ponderou: seu colega evidentemente pesquisara a Vigsima Quinta Emenda sobre a transio do poder. Reed estava raciocinando segundo as mesmas linhas, 
e  sua prpria maneira, e poderia muito bem concluir o que Bannerman conclura. Ele iria tentar argumentar com o raciocnio de Bannerman, discordar dele, e estabelecer 
seu prprio processo de idias, mas as possibilidades eram pelo menos razoveis de que a concluso seria idntica, O enfoque seria diferente, mas a ndole dos caracteres 
era a mesma. Bannerman permitiria a Reed chegar aonde ele queria por si prprio. 
       - Segundo a Vigsima Quinta Emenda - disse Bannerman - se o Presidente est incapacitado ou no est disposto a se declarar incapacitado de desempenhar seus 
deveres, o Vice-Presidente e a maioria simples do Gabinete podem fazer essa declarao ao Congresso, e ento o Vice-Presidente se torna Presidente Interino. 
       - Chegou perto - disse Reed. - Mas a chave  a palavra "incapacidade". A emenda trata da incapacidade do Presidente agir, no de sua impossibilidade, muito 
especificamente, no da impossibilidade. Qualquer bom advogado pode estabelecer que a inteno legislativa era proteger um Presidente em coma, capturado por um inimigo, 
ou enlouquecido. No um Presidente que tenha uma deficincia fsica. Se ele tem condies de discutir a respeito... a no ser que voc ache que ele est maluco, 
o que no  fato... pode governar. 
       Bannerman concordou com o argumento legal. 
       - Mas voc tem de admitir que existe alguma rea duvidosa no caso, isto , onde o Presidente pode ou no pode estar totalmente capaz de julgar corretamente 
sua prpria capacidade. Vimos, na coletiva  imprensa, que Ericson no estava dono de si: no conseguiu nem lembrar-se direito do nome de um pas estrangeiro. O 
recurso de for-lo a sair contra sua vontade no teria sido colocado na Vigsima Quinta Emenda a no ser que se reconhecesse essa rea duvidosa, O homem doente 
no  o melhor juiz de sua prpria capacidade: o Gabinete  que . E no caso de desacordo, cabe ao Congresso decidir. 
       - Fraco - afirmou Reed. - Voc no teria meu voto no Gabinete com esse argumento. 
       - Que argumento teria seu voto? 
       O Secretrio de Defesa parou de tergiversar. 
       - No importa se Ericson  capaz ou no de desempenhar seus deveres. O mago da questo  se as potncias do Extremo-Oriente, e tambm a Unio Sovitica, 
acham que ele  capaz de desempenh-los. Se eles supuserem, embora erradamente, que este governo

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talvez no reaja imediatamente a uma ameaa nuclear, ento nossas negativas no tero nenhuma importncia. E deixaro de ser negativas.  nesta situao que nos 
encontramos neste momento. 
       - Voc acha que estamos em perigo de ataque agora mesmo? 
       Bannerman gostou do apoio, mas argumento to forte daria um cunho alarmista ao incentivo  Vigsima Quinta Emenda. Isso era estranho, Reed costumava ser um 
sujeito de cabea fria. 
       - O retrato no seu escritrio - respondeu evasivamente -  de Hamilton, isto , de documentos federalistas, de um forte governo central, de uma classe governante, 
de um sistema bancrio slido. No verdadeiro sentido, nenhuma retrica:  esta a herana de seu cargo e sua mesma. 
       Esperou um instante e prosseguiu: 
       - O retrato na minha sala no Pentgono  de Forrestal, o primeiro Secretrio de Defesa. Lei de Wall Street operaes bancrias de investimento, Ministrio 
da Guerra, guerra fria. A presso o levou  loucura, e ele saltou da torre em Bethesda. Portanto, o legado do meu cargo, sem nenhuma dramaticidade,  tentar viver 
com toda a ameaa de destruio.  meu dever exigir que o Presidente faa explodir metade do mundo se eu achar que msseis inimigos esto chegando aqui. No quero 
exagerar, Roy, mas viver com isso  algo que realmente incomoda. 
       Bannerman no disse nada. Reed jamais falara assim, e no terminara ainda. 
       - V aquele homem na esquina, perto do seu agente do Servio Secreto? 
       Reed apontou com a mo. 
       -  aquele sujeito que est com os fios ligados  Sala de Guerra. Se chegar o grande momento, eu tenho menos de dez minutos para tomar uma deciso, ir ao 
Presidente e obter a sua deciso, e ordenar a desforra. Roy, nunca fui um cara indeciso, mas o que lhe contei tem conseqncias que podem levar um homem  indeciso. 
       - A cegueira do Presidente Ericson aumentou as possibilidades de ter de tomar essa deciso. O Servio de Informaes do Departamento de Defesa fez essa estimativa: 
que neste instante as potncias do Extremo Oriente se julgam na melhor posio para atacar. A escolha do momento seria perfeita, com um homem que eles acham estar 
incapacitado de ordenar a retaliao na hora oportuna. O cego Sven Ericson  esse homem. O Vice-Presidente Nichols no  nenhum Dwight Eisenhower, mas, pelo menos, 
d aparncia de capacidade, essa mesma aparncia reduz o risco de guerra. 
       Ele se deteve. 

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       - Portanto, como Secretrio de Defesa... - instigou-o Bannerman. 
       Reed continuou relutantemente. 
       - Como Secretrio de Defesa, j instei o Presidente para que renunciasse. No apenas se afastasse, mas renunciasse. E numa iniciativa do Gabinete como a que 
suponho voc tenha em mente, eu votaria de acordo com minha convico. 
       "Agora somos dois", disse-me Bannerman. Se seu colega queria basear sua deciso em motivos to provincianos, o problema era dele. 
       - H mais uma coisa que me preocupa - acrescentou o Secretrio de Defesa, mexendo os dedos em frente ao rosto e murmurando baixinho, como se temendo que algum 
pudesse decifrar-lhe os movimentos labiais ou o som do que dizia, com uma cmera ou microfone a longa distncia: 
       - Nosso amigo Vasily Nikolayev. No  impossvel que tenha maquinado a emboscada, ele agora est no pice. Temos algumas provas de que foi coisa dele, para 
que os chineses levassem a culpa. 
       - Provas conclusivas? 
       - No, mas tero de ser mostradas ao Presidente, mesmo se forem erradas. Isso poderia rapidamente estragar nossa aliana com os soviticos: o Presidente talvez 
ficasse algo desconfiado de um lder sovitico que tentou mat-lo. Essa equao pessoal poderia, como conseqncia, prejudicar outros projetos nossos, como o programa 
conjunto de satlite. Talvez no seja verdade, mas a possibilidade introduz um elemento pessoal na nossa aliana que  enfraquecedor. Se for verdade, seria melhor 
que Ericson e Nikolayev renunciassem. 
       Olhou vivamente para seu colega. 
       - Que  que h, Roy, voc parece perturbado. 
       Bannerman, que freqentemente expressava choques retricos, sentia-se genuinamente chocado. Referncias abstratas a elementos repressivos nucleares eram uma 
coisa, mas uma sria suspeita de que o chefe de uma superpotncia era o assassino do outro era algo diferente. 
       - Isso  muito perturbador - foi tudo o que disse, e depois acrescentou: - Espero que voc verifique suas informaes ao mximo, antes de transmiti-las ao 
Presidente. Poderia ser o tipo de coisa que o faria querer perpetuar-se no cargo mais ainda. 
       - Estou esperando para ver se podemos resolv-lo com a CIA. E para discutir o caso com nosso peripattico Secretrio de Estado. 
       - Curtice volta amanh - disse Bannerman, pensando numa contagem de votos. - Voc acha que pode faz-lo ficar do nosso lado? 

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       -  improvvel - disse Reed. - Ele  homem de Ericson, no tem nenhuma base prpria, e estaria perdido numa Administrao de Nichols. Eu ainda no lhe confiaria 
a possibilidade de Nikolayev ser um assassino. O Secretrio de Estado acha que ele tem agora bases slidas junto  liderana sovitica. 
       - Ento nenhum de ns dois deve falar-lhe sobre o assunto. Bannerman conscientemente falou "ns", incluindo Reed, e enquanto analisava o resto do Gabinete, 
sugeriu: 
       - Talvez eu possa encontrar algum para conseguir, atravs de outra pessoa, pelo menos uma absteno. O prximo  Andy Frangipani, de Recursos Humanos. 
       A reforma do Gabinete, que ocorrera em administrao anterior, facilitara a obteno da maioria numa situao como esta. Os departamentos do Interior, da 
Agricultura, e parte do Departamento de Comrcio fundiram-se no Departamento de Recursos Naturais, e o HEW, [nota *. Health, Education and Welfare: Sade, Educao 
e Bem-Estar.(N. da T.)] o HUD [nota **. Housing and Urban Development: Habitao e Desenvolvimento Urbano. (N. da T)] e a maior parte dos Departamentos do Trabalho 
e do Transporte foi reunida no Departamento de Recursos Humanos, o que reduziu o Gabinete de pouco manejveis onze para manejveis seis departamentos: Estado, Defesa, 
Tesouro, Justia, Recursos Naturais e Recursos Humanos. 
       - Se h algum membro do Gabinete com interesse em votar com o Presidente,  o Carcomano - observou Reed, e Bannerman concordou. Frangipani, ex-prefeito de 
Nova York, chefiava agora o Departamento de Previdncia Geritrica, e qualquer ao que pudesse ser interpretada como aviltar os incapacitados era objeto de seu 
dio. Empregos para os deficientes fsicos era uma de suas causas favoritas; a cegueira num Presidente era, para esse grupo, um ponto positivo. Seu rival institucional 
e pessoal do Gabinete, o Secretrio de Recursos Naturais Mike Fong, provavelmente se inclinava para o outro lado, julgava Bannerman. O partido democrtico forara 
Ericson a nomear Fong, parcialmente a mando de Bannerman, da mesma forma que lhe havia sido imposta a escolha do Vice-Presidente. 
       - Vamos supor que Fong fique conosco - disse Bannerman - e que o Procurador-Geral fique com o Presidente. 
       Bannerman lembrou-se de que deveria comear a chamar o Presidente de Ericson dali para frente, e no mais de "Presidente". 
       - Estamos trs a trs - disse Reed - o que no basta. A emenda requer "o Vice-Presidente e a maioria do Gabinete". 

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Precisaramos de mais um. Suponho que voc possa convencer o Vice-Presidente. Toda esta nossa discusso seria acadmica, se ele usasse seu veto. 
       Bannerman assentiu com a cabea. 
       - Se tenho maioria, eu tenho o voto dele. Poderamos eliminar o P. G. [nota *. Procurador-Geral. (N. da T.)] sob alegao de conflito de interesse? 
       - Nem pensar. Duparquet vai querer tirar disto toda a publicidade possvel, porque sabe que a lei est do lado dele. 
       - Quer dizer que Curtice  o ponto fraco. Terei de convenc-lo. Falarei em garantir o cargo, coisas assim. 
       Reed levantou-se, respirou profundamente o ar da noite, contemplou a Casa Branca iluminada, os repuxos danando, a bandeira esvoaando no telhado, sob o p-do-sol. 
Continuidade. 
       - Curtice talvez esconda o jogo. 
       Bannerman sorriu. J podia escutar o Secretrio de Estado. 
       - Embora, pessoalmente, acredite que o Presidente possa e deva continuar no cargo, no darei o voto que negue ao Congresso o direito de trabalhar conforme 
deseja. Dou meu voto no sentido de que a questo seja levada ao Congresso. 
       Andaram pelo caminho de tijolos em direo  esquina do parque onde seus auxiliares esperavam. 
       - Aquele  Rochambeau - disse Bannerman, apontando para uma das quatro esttuas de estrangeiros que ajudaram George Washington. - Ele liderou as tropas francesas 
que ajudaram Washington, mas Lafayette  que teve todas as honras. 
       - Washington poderia ter usado um agente de informaes decente - replicou o Secretrio de Defesa. - Seu pessoal de informaes era horrvel. 
       - Tem razo, Prestou. 
       Decidiu que uma insinuao cairia bem: 
       - Tenho algum muito chegado a Ericson, e forte possibilidade de uma segunda pessoa.  importante saber o que ele pensa. Deve estar tendo ataques de depresso. 
Podemos agir segundo os humores dele. Talvez evitar um confronto e ter uma transio sensata. 
       - Isso no acontecer. Ericson  um Presidente, ele vai se agarrar ao osso como um buldogue. Mas o cara do servio de informaes que voc conseguir talvez 
possa fazer uma diferena. 

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       Bannerman concordou com a cabea. Ericson era realmente um Presidente, com toda a obstinao que a palavra implicava. Isso era uma pena: numa ocasio assim, 
um homem menos teimoso seria melhor para o pas. Bannerman ergueu a mo para acenar para Reed e informou ao motorista do Servio de Informaes postado na esquina 
que no precisaria dele  noite. Sempre que o Secretrio do Tesouro agia assim para proteger sua privacidade, Bannerman sabia que os agentes do servio logo concluram 
que ele estava farreando. O que ele nunca fazia: admirava - e amava - sua mulher de vinte e cinco anos de unio, e jamais faria nada que a magoasse, nem que o comprometesse. 
Mas as suposies maliciosas que havia na organizao lhe convinham. J dissera a Susan Bannerman que estava planejando um encontro clandestino com a namorada do 
Presidente e com o redator de discursos do Presidente aquela noite, num escuro restaurante chins em Bethesda. 
       Essa instigao de deslealdade no era o objetivo do negcio que lhe desse qualquer prazer. Ele considerava a moa uma oportunista vulgar, uma presa fcil 
para suas promessas editoriais; surpreendia-se que um homem como Ericson, que podia ter quase qualquer mulher do pas, se tivesse envolvido to profundamente com 
ela. Talvez devido  menopausa masculina, uma molstia que Bannerman evitara vitoriosamente, que poderia fazer com que uma figura poltica cuidadosa em quase todos 
os outros aspectos, desse a outros a possibilidade de desgastar sua base de poder. Ericson era forte em alguns aspectos; chegava mesmo a ser admirvel, mas era fraco 
em outros. Saber quando jogar a toalha no era, na opinio de Bannerman, uma fraqueza e, sim, uma fora. Achava que a maior lstima era que a nao tivesse de sofrer 
porque Sven Ericson no tinha essa fora. 

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II.
A VIGSIMA QUINTA EMENDA

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O CHEFE DA CASA CIVIL/2 

       Logo que Lucas Cartwright entrou no carro da Casa Branca o telefone tocou. A telefonista da Casa Branca o advertiu: 
       - Esta comunicao est precria, senhor,  o Presidente quem chama. 
       - Lucas? Voc vai bem? 
       - Esta comunicao est precria, Sr. Presidente. s sete da manh, sinto-me especialmente precrio 
       - J leu o Sumrio das Notcias? 
       - Estou comeando a ler. Pode ser o ponto negativo do meu dia. 
       - Melinda acabou de l-lo para mim. 
       A voz do Presidente estava preocupada. 
       -  mais ou menos to mau quanto pensvamos. Venha tomar o caf comigo, na sala de jantar da famlia, quando voc chegar. Veja se consegue saber as fontes 
de informao das colunas, e vamos tambm discutir o editorial do Post. Sua mulher foi uma boa reprter? 
       - Como sempre, Sr. Presidente. Eu lhe contarei tudo quando j no estivermos transmitindo para toda a Washington neste inseguro dispositivo. E para todos 
vocs que esto sintonizados conosco, esta  a sociedade de dramaturgia Escola Landon, que se despede. 
       Ia ser um dia daqueles. Trinta e seis horas aps a coletiva noturna de quarta-feira com a imprensa, irrompia a tempestade de reaes. Era sexta-feira, e suas 
manchetes negativas seriam seguidas pela curiosa calma dos fins de semana do vero, e ento na segunda-feira - quando saem as revistas de atualidades - o assunto 
seria reativado, mais uma vez com toda a corda, e seria um incentivo novo para os dirios e os noticirios pela televiso focalizarem novos ngulos, abrangendo a 
cobertura semanal da cobertura diria. O Congresso, graas a Deus, logo entraria em recesso de vero. 
       A Sra. Cartwright - ele gostava de chamar a mulher de "Sra. Cartwright" e ela gostava de cham-lo "Sr. Cartwright"; era seu pequeno cdigo de intimidade - 
lhe informara tudo que lhe haviam 

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contado sobre a reao de Bannerman  coletiva com a imprensa, aps um jantar em Georgetown. O Secretrio de Tesouro se abstivera de sacudir a cabea ou resmungar 
algo durante a provao do Presidente, e apenas dissera solenemente no fim: 
       - Temos de apoi-lo, incondicionalmente, at que ele volte a ser o que era. 
       Os homens haviam, ento, se retirado para o estdio, acompanhados por uma reprter simblica: Bannerman, Zophar, um senador da Gergia, um redator de editoriais 
de Washington, e um advogado politiqueiro. A mulher do advogado contou  Sra. Cartwright no dia seguinte tudo que fora dito "S por contar": Bannerman e outras pessoas 
no especificadas da administrao estavam profundamente preocupados com a capacidade do Presidente em enfrentar seu problema. Disse tambm que o Presidente temia 
convocar uma reunio do Gabinete. Que Ericson era prisioneiro do seu estafe, especialmente do "degolador" Hennessy. Que os membros do Gabinete esperavam que a coletiva 
com a imprensa provasse que Ericson estava capaz de desempenhar seus deveres mesmo com sua deficincia, mas que a esperana se desvanecera. 
       Cartwright mordiscou a ponta dos culos de leitura, e olhou mas no viu as folhagens McLean que levavam  Ponte Chain. Bannerman sabia como se agia em Washington; 
sabia que nada ficava muito tempo sem que seu autor fosse identificado; sabia que era certo que sua reao chegaria ao conhecimento do Presidente. Ele no se importava? 
Estava disposto a arriscar-se? Estaria blefando? O chefe da Casa Civil colocou os culos e leu alguns dos resultados do rancor do Presidente e da traio do Secretrio 
do Tesouro: 
       Sumrio de Notcias do Presidente: 
       Inclui Notcias de Sexta-Feira At Meio-Dia 

TV: Todas as trs redes comerciais comearam seus programas com notcias da coletiva, enfatizando a gafe da Nigria e o copo quebrado, sendo que a ABC e a NBC se 
concentraram no que foi dito ao reprter do Christian Science Monitor, e em seguida apresentaram as reaes de protesto de porta-vozes do Monitor. Apenas a CBC acrescentou 
um comentrio do reprter do Monitor de que tinha um encontro com o Presidente sexta-feira, na Casa Branca. A quarta rede de TV comentou desfavoravelmente as reaes 
do Secretrio de Imprensa. Os comentrios pela televiso, que at a data expressavam simpatia, tornaram- se negativos. A maioria dos democratas entrevistados para 
dar sua opinio disse que o Presidente deve considerar um afastamento temporrio. A maioria dos republicanos diz que  assunto 

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para os prprios democratas resolverem entre si (solidarizando-se com o Presidente Frelingheusen, da Cmara dos Deputados, que disse  NBC: "Quando se trata de coletivas 
com a imprensa, eu mesmo vivo dando foras. Aconteceu apenas que o Presidente no estava numa boa noite". "Sr. Presidente, o senhor acha que ele est em condies 
de desempenhar seus deveres?" "Leia sua Constituio. Se ele est em condies de dizer que  capaz, ento ele  capaz"). 
       Cartwright pulou para as colunas. 

O Grupo Altman-Peterson informa que "pessoas bem-informadas dizem que os assessores da Casa Branca esto divididos. Os 'Estou do lado de Ericson', liderados pelo 
misterioso Mark Hennessy, amigo e advogado que fez o divrcio do Presidente, incluem a influente Melinda McPhee, a secretria executiva de Ericson, e o terapeuta 
novo do Presidente, Dr. Henry Fowler. Outro grupo, que pe as necessidades da nao  frente da ambio pessoal, parece estar-se formando entre o franco Secretrio 
de Imprensa James Smitty e o mdico pessoal do Presidente, Herbert Abelson. O chefe da Casa Civil, Lucas Cartwright, ainda no indicou para que lado sua balana 
vai pender..."
       - George, pare de subir o morro - disse Lucas Cartwright em voz alta. 
       O motorista olhou rapidamente para trs: 
       - O rio no est cheio, senhor, s est com um pouco de lama por causa da chuva a noite passada. 
       - Isso  bom - disse o chefe da Casa Civil, refletindo que as colunas "por dentro" sempre continham pelo menos um ponto de verdade. A fonte? A idia de que 
Smitty fosse tudo menos leal saltava de sua expresso desolada durante a coletiva, e era equivocada; as conjeturas sobre Hennessy e McPhee correspondiam  verdade 
e eram bvias. Haviam sido deduzidas quando Hennessy fora convocado para voar no Air Force One e pela reputao de Melinda por sua dedicao pessoal. A indicao 
do mdico do Presidente, porm, no era bvia, e significava que algum de dentro estava falando. Abelson no parecia ser o ponto fraco; Cartwright perguntou-se 
como o reprter descobrira acerca das apreenses do mdico.  Atravs do prprio Abelson? Improvvel. E o tpico intermedirio sobre Cartwright era ou de um colunista 
indeciso ou de algum jogando verde para plantar a discrdia entre o Presidente e um homem em quem ele confiava. Esse "algum" poderia facilmente ser Bannerman. 

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       A coluna de Zophar era fcil de prognosticar: ele mostrara sua posio antes de todos, e, no seu estilo rebuscado, estava resolvido a fazer uma cruzada do 
resto da histria. 
       "Como conseqncia da lamentvel, imprudente e prematura coletiva  imprensa do Presidente, uma onda de intrigas bizantinas dever inundar a Casa Branca. 
O Presidente est profundamente ferido, talvez mais seriamente do que alguns de ns temamos; os jovens lees comeam a se agitar. 
       "Num momento como este, com todos os danos que a incerteza pode causar os que duvidam do Presidente devem moderar-se. Qualquer instigao no sentido de que 
ele se afaste  contraproducente, e s contribuir para fortalecer a famosa determinao de Ericson. Pelo contrrio, esta  a ocasio para uma 'pausa criativa', 
um momento de esperar um ato de genuna demonstrao de estadista do Presidente. 
       "No  fcil para um homem to dinmico, ambicioso e idealista como Sven Ericson, se afastar. Reconhecer a 'derrota', mesmo quando atravs de um ato de um 
assassino. Sua deciso  cruciante. 
       "No obstante, os Presidentes se elegem para tomar as decises dolorosas, mesmo a grande custo pessoal. Que a cacofonia dos aduladores cesse. Que o Presidente 
possa refletir sobre o assunto. Ele concluir, como qualquer patriota, que o bem-estar do pas vem antes de qualquer outra considerao." 
       Cartwright achou que o lead do editorial do Post demonstrava apoio, era menos tedioso, e mais sutilmente efetivo: 
       "... no esquecer que h menos de quatro semanas, o Presidente Ericson era um lder saudvel e exuberante, determinado a 'moldar os acontecimentos para se 
adaptarem a nossos conceitos de boa sociedade'. Ele se feriu, mas pode estar grato, assim como seus compatriotas, por no ter morrido. A questo de sua incapacidade 
- e no h como ignorar o assunto - cabe a ele resolver ou dissipar. A questo no  'Pode um cego ser Presidente?' mas, sim, 'Pode esse cego, neste momento da histria, 
ser um bom presidente, ou estaria o pas mais bem servido se ele se afastasse segundo o que prev a Vigsima Quinta Emenda?" 
       "Esta  uma poca difcil e de profunda auto-interrogao. A impossibilidade do Sr. Ericson no  a 'incapacidade' do coma, diferena com que grandemente 
se preocuparam os redatores da emenda. A deciso  do Presidente, a primeira grande - e talvez ltima - resoluo de sua presidncia. Enquanto ele reflete se deve 
pr de lado os poderes e os deveres que lhe foram confiados, seus compatriotas - que oram ardentemente por sua recuperao - atrevem-se 

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a esperar que ele colocar o bem-estar da nao antes de quaisquer conceitos de orgulho ou..." 
       Parecia que j havia certa tendncia a se insistir no assunto do afastamento. Aps as revistas de atividades da semana seguinte darem  questo o incentivo 
atrasado, os resultados das pesquisas comeariam a surgir. Muito dependia da forma em que as perguntas fossem feitas. 
       - Voc acha que o Presidente deve afastar-se at estar em melhores condies de trabalhar sem sua viso? 
       Resposta: 80% de "sim". 
       - Voc acha que a cegueira do Presidente deve for-lo a renunciar? 
       Respostas: 80% de "no". 
       Cartwright anotou: Fazer com que nossos prprios pesquisadores faam as perguntas certas. 
       Parou de ler. Como deve sentir-se um Presidente ao ler tudo isso sobre si prprio ou, no caso de Ericson, ao ter algum lendo para ele? A superfcie de Ericson 
era spera de forma civilizada, como um couro curtido; dentro, havia uma gentileza que surpreendia e encantava os homens que trabalhavam com ele; e mais abaixo ainda, 
havia no mago uma dureza esperada quando se olhava originalmente para a superfcie. Talvez dureza fosse a palavra errada, popularizada nos frios dias de Kennedy; 
talvez fosse fora. Ou obstinao. Fosse l o que estivesse no centro de Ericson, fora ou um frio vazio, o cadinho da Casa Branca o tornaria puro e perfeito antes 
do fim. Era isso o que Cartwright mais apreciava, e s vezes mais temia, sobre o fato de trabalhar l. 
       Mas a atitude da imprensa o intrigava e desgostava. Nos dias de Eisenhower, h apenas uma gerao, a imprensa se teria unido em proteo tcita  Casa Branca, 
minimizando o perigo da indeciso quando o Presidente estava incapacitado. Mais tarde - meses, anos depois - os reprteres histricos narrariam de que forma o pas 
fora governado de um hospital ou de uma sala do Gabinete. Isto j no acontecia. Expor a incapacidade ao primeiro sinal de fraqueza era o que o pessoal de notcias 
devia logo fazer. Essa pressa em apresentar a dura verdade era impatritica para gente antiquada como ele. Ele admitia que a devassa clnica fosse realista, mas 
era cruel. A crueldade - e at a selvageria - na busca de notcias era atualmente considerada aceitvel. Se lhe fosse dada a opo, Cartwright esperava ser duro 
o bastante para errar do lado da bondade. 
       O carro parou na entrada do Subsolo Oeste. Fez um sinal de cumprimento com a cabea para o guarda, subiu a estreita escada 

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que levava ao primeiro andar da Ala Oeste, o que ele considerava bom exerccio para um velho, e dirigiu-se  sua sala do canto. Precisava de alguns momentos para 
inteirar-se de seus recados telefnicos antes de tomar o desjejum com o Presidente. 
       Na ante-sala, um rapaz, Jonathan, o novo redator favorito do Presidente, o esperava. Cartwright gostaria de lembrar-se do sobrenome do jovem. Normalmente 
apreciaria conversar com ele, mas no agora. 
       - Voc no deveria trabalhar at to tarde - disse-lhe Cartwright. - V para casa e durma. 
       - Senhor, h algo de que lhe preciso falar. 
       Sujeitinho desenxabido! Cartwright detestava parecer estar com pressa, mas o Presidente o esperava, e ele podia ver inmeros recados telefnicos, dispostos 
em ordem cronolgica na sua mesa. 
       - Voc sabe que minha porta est sempre, aberta, Jonathan - disse Cartwright, fazendo uma anotao mental de dizer  sua secretria para fechar a porta quando 
ele fosse embora  noite - mas El Nmero Uno requer minha presena. Depois do almoo est bem? L pelas trs? 
       O rapaz, obviamente perturbado, murmurou que sim, e foi embora. Cartwright olhou o monte de recados, escolheu trs no painel como um experiente negociante 
de frutas, e os ps na carteira; o resto, ele pegou e largou na mesa da secretria. Quando ela chegasse s quinze para as oito, apressadamente responderia aos telefonemas. 
Diria aos que o haviam chamado e que j estivessem no escritrio, que o Sr. Cartwright gostaria de telefonar-lhes mais tarde:  noite estaria bem? Diria tambm s 
secretrias daqueles que ainda no tivessem chegado que o Sr. Cartwright respondera aos seus chamados. Esse procedimento dava a impresso de um eficiente chefe da 
Casa Civil ansioso para voltar s pessoas, e punha os auxiliares que trabalhavam no horrio normal na defensiva. 
       Desjejum com o Presidente, quando este podia ver, era um acontecimento familiar, mas hoje Cartwright no sabia como seria. Algum o iria alimentar? Ele ficaria 
tateando para pegar a comida? Seria aconselhvel algum tentar ajud-lo? Deveria ter perguntado a Hank Fowler qual o procedimento correto. De sua, sala de canto, 
Cartwright passou pelo Salo Oval com o guarda na frente, pela sala do Secretrio de Imprensa, onde as mquinas comeavam a taramelar, desceu uma rampa, passou pelo 
Jardim das Rosas e entrou no subsolo da residncia da Casa Branca, onde os retratos das Primeiras Damas estavam em exposio. Fez um sinal com a cabea para a Sra. 
Coolidge, uma beleza aquilina com uma aparncia de Scott Fitzgerald e um wolfhound branco ao lado, e depois subiu rpido a escadaria de mrmore at a Sala de Jantar 
do Estado. Cada um dos 

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guardas pelos quais passava ia alertando o prximo, que lhe fazia um sinal com a cabea gentilmente, todos parecendo surdos, com pequeninos receptores nos ouvidos. 
A Sala de Jantar da Famlia que ficava embaixo era um tero do tamanho da Sala de Jantar do Estado, o que lhe dava um sentido comparativo de intimidade, algo que 
um aposento de treze metros de comprimento raramente possua. 
       Um mordomo estava retirando o prato do Presidente quando Cartwright entrou. Melinda anunciou sua presena e sua prpria sada, carregando o Sumrio de Notcias 
condensado e gravado. Ericson empurrou a cadeira para trs e bebericou de uma grande caneca de caf. Cartwright sentou-se  mesa que havia, h um sculo, servido 
de mesa do Gabinete do Presidente Grant, e pediu seu habitual prato de flocos quentes de aveia. 
       - Ningum mais pede mingau, Lucas - disse o Presidente. - Acho que preparam uma panela diariamente s para voc. 
       - O mingau de aveia da Casa Branca tem uma consistncia agradvel, difcil de achar em outro lugar - disse Cartwright entre srio e sorridente. - Acho que 
eles pem areia em gua fria, depois fazem-na ferver. A Sra. Cartwright costuma jogar a aveia em gua fervente, o que faz com que o mingau fique encaroado. Por 
isto tomo sempre meu desjejum na Casa Branca. E porque  mais barato, tambm. 
       Ericson sorriu aquecendo as mos em volta da caneca de caf. 
       - Isso me ensina mais sobre mingau de aveia do que me interesso em saber. 
       - Que tal seu paladar pela comida, Sr. Presidente? Disseram-me que quando se perde a vista, os demais sentidos se aguam mais. 
       - Bobagem disse Ericson, cortando o ar com a mo. - Chama-se compensao, e simplesmente no acontece. Supe-se que se escute melhor, ou que isso aperfeioe 
o tato, o olfato ou o paladar. A verdade  que a pessoa se concentra mais, como quando se escuta msica; voc fecha os olhos? Eu costumava fech-los. Eliminam-se 
os motivos de distrao, por isso se parece escutar melhor. No, nada melhora quando no se pode ver, apenas usam-se mais os outros sentidos. Hank me est ensinando 
a comer, para que eu no me comporte como um porcalho nos jantares oficiais. Espere at me ver mandar voltar o vinho. Quem foi a fonte da coluna que falou sobre 
Abelson? 
       Esse homem tinha um jeito de subitamente mudar totalmente de direo e atingir o mago dos problemas. 
       - Essa parte tambm me perturbou - respondeu Cartwright. 
       - Seu mdico tem parecido meio adoentado, parece que exagera na solidariedade  sua doena, Presidente. 

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       - Herb  o nico por aqui que quer que eu renuncie - disse Ericson. - No me zango com ele por isso. Mas ele no  uma lngua de trapo, e no diria sua opinio 
l fora. Algum daqui mesmo  que andou falando demais. Quem? 
       - Eu eliminaria Melinda, que  uma ostra quando se trata da imprensa. Eu no fui. Smitty  uma possibilidade, talvez Marilee, que sabe uma poro de coisas 
atravs dele, mas ambos tm bastante cuidado ao lidar com as colunas de mexericos. 
       Cartwright examinou ento uma sutileza: 
       - To obviamente no  Hennessy, que foi cognominado de "degolador", que poderia ser Hennessy. 
       No era provvel, mas era possvel. 
       - Talvez Fowler. Ele  bastante simplrio quando se trata de responder a perguntas. Talvez uma fonte secundria pudesse "vazar': o assistente de Herb, ou 
a secretria de Melinda. Depois  a vez do pior lngua solta de todas as presidncias. 
       - O prprio - disse o Presidente. 
       - No se pode confiar no homem. Ele  um vazamento s, consciente e inconscientemente, no escritrio, ao telefone. 
       - Vou pensar nisso. Voc fique de antenas ligadas. Qualquer fofoca que souber de sua mulher; perdoe-me, Lucas, sempre esqueo o nome dela. 
       - Sra. Cartwright. 
       - Isso mesmo. 
       Ericson sorriu segurando a caneca de caf. 
       - Sabe, quando algum se casa muitas vezes,  uma boa idia cham-las assim; pode evitar momentos constrangedores. 
       O sorriso desapareceu. 
       - Que disse Bannerman? 
       Cartwright lhe Contou a fofoca toda sobre como ele fora apunhalado pelas costas no jantar. 
       - Sacana milionrio - disse Ericson, satisfeito e aliviado por constatar que suas desconfianas eram exatas. - Ele vai nos atacar. Por culpa minha, fui muito 
presunoso, no deveria ter dado aquela coletiva to depressa. Eu no estava bastante confiante, e deveria ter mandado todo mundo plantar batatas mais uma semana. 
Bem, isso j passou. 
       Cartwright ficou satisfeito: o Presidente jamais lhe fizera consideraes to francas. Ericson cuidadosamente posou a caneca de caf na mesa, levantou-se 
e ficou atrs da cadeira, enquanto os dedos corriam pela madeira. 

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       - Vamos calcular a estratgia deles, Lucas. Primeiro, mandam um cara falar a voc para apelar ao meu patriotismo. 
       - Certo. Como isso no vai funcionar, mandaro outro emissrio, possivelmente atravs de mim, pois parece haver uma idia de que eu no estou cem por cento 
com o senhor, para mostrar como o senhor no tem nenhuma possibilidade de vitria numa votao do Gabinete. 
       - Na imprensa, a presso vai aumentar para que eu me "afaste" - interveio o Presidente - e haver uma srie de artigos sobre a opo de lados. 
       - E depois? 
       Cartwright no quis tomar a deciso sobre o prximo passo. 
       - Depois ns mostramos a eles - disse o Presidente - que no estamos aceitando tudo isso passivamente, e desfechamos o contra-ataque. 
       - O senhor ser ento acusado de fazer presso - disse Cartwright, sentindo-se melhor - de abusar do poder da presidncia ao fazer promessas estpidas e horrveis 
ameaas a determinados membros do Gabinete para apoi-lo numa crise do Gabinete. 
       - Eis a manchete - concordou Ericson. - "Crise no Gabinete". Uma linha diagonal na primeira pgina das revistas de atualidades. Ento toda a ateno se concentrar 
em convocar uma reunio do Gabinete sem mim. 
       - Torna-se uma concluso antecipada que essa reunio se realizar - prosseguiu o chefe da Casa Civil. - A questo no  mais "se", e sim "quando". Haver 
um movimento no sentido de que essa seja a primeira reunio do Gabinete a ser televisionada. 
       - Talvez devamos incentivar esse movimento - disse o Presidente. - Isso vai apavorar uns sujeitos por a. 
       O jogo de guerra parou quando os dois homens pararam para meditar sobre o ponto a que a projeo dos acontecimentos os tinha levado. 
       - No gosto - disse finalmente o Presidente. - A melhor maneira de vencer essa luta  evit-la. Faamos tudo que pudermos para obstruir a reunio antes que 
ela acontea. 
       - A Casa Branca  nosso forum - disse Cartwright. - Podemos continuar a tentar reprimir as notcias. 
       - Veja se voc consegue reviver aquela histria de que estou melhor, Lucas. Insista com Smitty sobre isso, que meus olhos esto melhor, e j distinguem o 
claro do escuro. Essa notcia ficou meio apagada porque s deram nfase aos meus foras na coletiva, mas vale uma tentativa. 

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       Cartwright resolveu arriscar-se. 
       - Apenas para meus objetivos de planejamento, Sr. Presidente... e espero que o senhor no interprete de forma errada... a melhora  significativa, mesmo? 
       O "mesmo" foi bem mais oportuno do que "de verdade"... 
       - Um pouco - disse o Presidente. - No muito. No incio eu j conseguia formar imagens, mas no quis dizer. 
       Ericson inclinou-se para a frente na poltrona. 
       - Voc me perguntou isso para ver se eu confiava em voc, Lucas, e eu confio. Agora, chega de testes. Que temos hoje? 
       - A reunio de nove horas sobre segurana nacional, que hoje ser liderada pelo chefe do Estado-Maior do Exrcito, General Lawton.  um sujeito alto e magricela 
do Alabama, que adora futebol americano. s dez, o Conselho de Assessores Econmicos, com os trs membros, de carter meramente informativo, sobre as cifras da semana 
seguinte. Nenhuma deciso ser necessria. s onze e meia, ainda no Salo Oval, o reprter do Christian Science Monitor. Ele est predisposto a ser gentil. Prepare-se 
para discorrer sobre a frica. Ele j trabalhou em Acra, em Gana. 
       - Nossa! - suspirou o Presidente. - Espero que o General Lawton conhea seu assunto sobre o Quarto Mundo. Alguma informao sobre o reprter? 
       - Ele  um estudioso de pssaros. Sobre isso, o jardineiro da Casa Branca disse que dois pssaros freqentam o Jardim das Rosas: um gaio azul, que canta sem 
parar, e um cardinal que no canta Nenhum dos dois  raro, mas servem para mostrar que o senhor sempre se interessou profundamente por pssaros. 
       - Provavelmente so lindos de ver - acrescentou tranquilamente Ericson. - Nunca me interessei em olhar para eles. Quer dizer que  um gaio que faz a barulheira 
toda? Que mais? 
       - H mais quatro horas marcadas comigo e com outros assessores, relacionados para fazer a agenda parecer cheia, mas na verdade o senhor s tem algo importante 
s cinco horas.  quando o Secretrio Curtice se apresentar, de volta da Rssia. 
       - Por que to tarde? No vai dar tempo de ele aparecer no noticirio noturno da TV. 
       -  a hora em que o avio chega a Andrews, e ns vamos traz-lo de helicptero at aqui. 
       - Faa com que o avio dele chegue umas duas horas antes - instruiu o Presidente. - Ele se encontra aqui comigo, sai e diz que eu estou muito bem-informado 
sobre tudo. Eles o entrevistam na varanda s quatro horas, e as redes de TV tero um lead de poltica externa. 

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       Ele estava certo. Cartwright se enganara ao planejar a agenda do Presidente com base na agenda de outra pessoa. A hora de chegada de Curtice poderia facilmente 
ser trocada atravs de um telefonema internacional, e o Secretrio de Estado poderia apresentar-se ao Salo Oval do Presidente em hora a ser devidamente aproveitada. 
       - Dei um fora - reconheceu o chefe da Casa Civil. - Curtice estar aqui s trs e meia, e dar uma coletiva improvisada s quatro horas, na varanda. 
       Ericson mudou de assunto. 
       - Ser que Curtice vai ser o homem a ser utilizado por Bannerman para convocar a reunio do Gabinete? 
       - Acho que no - respondeu Cartwright. - Ele est incomunicvel, para comear. Cuidamos disso. E o Secretrio de Estade, deve estar do nosso lado. Ele certamente 
no tem outra base poltica, a no ser com o senhor. Bannerman lhe prometer a lua, mas Curtice conhece melhor ao senhor. 
       O Presidente perguntou: 
       - Quem mais pode convocar a reunio? 
       - Qualquer membro do Gabinete, ou o Vice-Presidente, pode convocar uma reunio do Gabinete para considerar a incapacidade do Presidente. 
       Cartwright estivera estudando a Vigsima Quinta Emenda. 
       - E todos eles esto na cidade e gozam de sade. 
       - Lamentavelmente - respondeu Cartwright. - Mas a tarefa que os espera no  fcil. Precisam da aprovao do Vice-Presidente, e da maioria dos chefes dos 
principais departamentos; isto representa seis membros do Gabinete, O que significa que os iniciadores de uma moo de incapacidade perderiam se a votao fosse 
trs a trs. Eles precisam de quatro para ganhar. 
       - Ou de trs e uma absteno. 
       Cartwright assentiu com a cabea, mas deu-se conta de que isso nada significava para Ericson, e disse: 
       -  evidente. 
       - No  to difcil assim para eles, Lucas. Essas coisas criam um mpeto. No vivo h muito tempo nesta cidade... ela  mais sua cidade do que minha... mas 
aqui a caracterstica  acompanhar a maioria no que toca a idias e movimentos. Ns mesmos j experimentamos isso, lembra-se? Primeiro foi a lua-de-mel, depois o 
ms em que todos se queixaram e depois a tenso, quando nos envolvemos de verdade com assuntos externos. A disposio e o mpeto so importantes. Podem levantar 
poeira contra ns. 

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       - O senhor talvez se engane. - No valeria a pena deprimir o Presidente. - Ningum gosta de se apressar em graves assuntos constitucionais. H algumas cabeas 
frias por a, especialmente no Congresso. 
       - No quero que o assunto v ao Congresso - disse rispidamente o Presidente. Temos de pod-lo ainda em arbusto, antes de obter um voto do Gabinete. Se falharmos, 
e houver a reunio,  a que comea a ferver, e ser nossa vez de atacar. E depois posso recomear tudo. 
       - O senhor vai precisar de um coordenador de campanha. 
       - Me adiantei a voc, Lucas. O Procurador-Geral  o nosso homem. Posso confiar nele, e ele  bom. Vou logo telefonar-lhe. 
       Por qu? O senhor s vai conseguir excit-lo, e isso vai contribuir para a febre do "vamos convocar uma reunio". Saia dessa. No suponha que isso v mais 
adiante do que o estgio de conversaes. E preciso considervel - Cartwright buscou a palavra - temeridade para reunir um grupo e investir contra a Presidncia. 
Haver acusaes de usurpao e at de traio. 
       - Quanto mais falarem nisso, melhor. 
       Ericson pareceu animar-se. 
       - Esta  a palavra, Lucas: "usurpao". No, no estou a fim de entregar este pas a gente como T. Roy Bannerman. Eis a estratgia. Vamos levar a coisa friamente. 
S entrarei em contato com o P. G. quando soubermos da iminncia de alguma trama. Pensando bem, no momento exato, mande que ele me telefone. Eu me ocuparei, ficarei 
aqui na Casa Branca, em Camp David ou outro lugar, e vamos ganhar a parada. 
       - timo, isto  timo. 
       Cartwright permitiu-se o entusiasmo. 
       - Tenho uns dois assuntinhos domsticos para tratar, O senhor gostaria de falar com o Presidente de Uganda a semana que vem? Ele gostaria de v-lo. 
       - No, por que ficar relembrando a todo mundo meu fora poltico? J basta ver o homem do Monitor. 
       - Sua fotgrafa oficial deixou um recado tarde da noite ontem: ela gostaria de fotograf-lo hoje  hora do almoo. 
       Hoje no, diga a ela. Onde est Abelson? - perguntou irritado o Presidente. 
       - Ele ontem foi, para casa resfriado - disse Cartwright. Ele mesmo diagnosticou. 
       Pareceu-lhe estranho que o Presidente notasse to depressa a ausncia de seu mdico pessoal, 

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       - Ele disse que esperava estar de volta ao batente amanh. Nesse nterim o assistente dele est aqui. 
       - Seria bom se Herb ficasse em casa e no atendesse ao telefone. Abelson est conosco, e 'confio inteiramente nele, mas ele se preocupa demais, e percebe-se. 
       - O descanso lhe far bem - disse Lucas Cartwright, e levantou-se. Viu Hank Fowler de p,  porta da grande sala de jantar. 
       - Entre, Hank, o Presidente agora fica sob sua responsabilidade. 
       Observou com admirao o terapeuta dar sete passos  frente, com a bengala a orient-lo, bater com a porta numa cadeira, aproximar-se dela e sentar-se confiantemente, 
ajeitando a mo de forma a que o mordomo nela colocasse uma xcara de caf. 
       A voz de Hank Fowler o impediu de sair. 
       - O senhor fez parte da Administrao de Eisenhower, no  verdade, Sr. Cartwright? 
       Ele assentiu que fora assistente do chefe da Casa Civil de Ike, Sherman Adams, e o terapeuta indagou: 
       - O senhor teve ocasio de presenciar alguma deficincia fsica de Eisenhower? Ele tinha problemas estomacais, e sofreu um enfarte. 
       Fowler estava comeando um papo que ambos planejaram ter na frente do Presidente, como se fosse espontneo. 
       - Vi uma vez o Presidente, no muito depois do seu derrame em 1958 - relembrou Cartwright. - Nunca disse nada a ningum sobre isso. Foi no seu quarto de hospital, 
aonde eu levara uns papis para serem assinados. Ike apontou para um termmetro na mesinha ao lado da cama e disse: "D-me isso". Eu perguntei: "O termmetro?" E 
ele disse: "A palavra  essa". O Presidente sentou-se um pouco na cama, segurando o termmetro, sem dizer nada, e depois me contou que estava tendo problemas para 
se lembrar das palavras que descreviam os objetos comuns. Eisenhower nunca foi homem de se desesperar, mas jamais esquecerei a expresso de seu rosto naquele dia 
em que ele no conseguiu encontrar a palavra, e em que ele deve ter-se perguntado se recobraria o pleno uso do crebro. Isso durou uns dez dias, e o Governador Adams 
s deixou algum entrar para v-lo quando teve certeza de que ele no iria ficar tateando em busca de palavras. Quando Ike se recuperou, nunca falamos sobre o perodo 
na Casa Branca em que ele no esteve funcionando plenamente. 
       - Nesse perodo, durante aqueles dez dias - disse Fowler, como combinado - Eisenhower deve ter sofrido um bocado. 

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       - Sua expresso era a mais lgubre que j vi num rosto de homem - admitiu Cartwright. - Foi sorte no haver acontecimentos extraordinrios do mundo naquela 
poca, que ele se tenha livrado daquela, e que nenhuma deciso tivesse de ser tomada. 
       Ele pediu licena e saiu da sala. O chefe da Casa Civil no tinha o menor constrangimento em representar para o Presidente Ericson, em lembrar-lhe que outros 
haviam enfrentado seu dilema em outras pocas. A visita ao hospital de Eisenhower era verdade. 
       O dia da Casa Branca deu muito trabalho a Cartwright. Quanto mais recados telefnicos ele respondia, mais recebia. As chamadas que tinha todo o cuidado em 
responder vinham do Congresso: o Presidente no se podia dar ao luxo de desagradar ningum l, no caso de que o instrumento jurdico nmero um (a reunio) acontecesse, 
e que o instrumento jurdico nmero dois (votao para declarar o Vice-Presidente, Presidente Interino) seguisse, o que Cartwright julgava bem poderia ocorrer. A 
essa altura, Ericson refutaria ter de passar o poder, e o Congresso seria o ltimo instrumento jurdico a ser acionado. 
       Pssegos e requeijo na mesa lhe recordaram o delicioso desjejum da manh - comer na Casa Branca era um verdadeiro prazer, sempre o fora - e ficou surpreso 
ao ver surgir, s trs horas em ponto, o jovem redator de discursos, Jonathan das Couves. Cartwright esquecera de anotar o encontro na agenda, e de dizer  secretria 
para adiar a data at a semana seguinte. Por isso, l estava o rapaz, parecendo muito desalentado para no ser atendido. 
       - O senhor  a nica pessoa aqui em quem confio, Sr. Cartwright - comeou Jonathan. O homem mais velho fez sinal com a cabea: o pessoal mais jovem tinha 
uma tendncia para confiar nele e ele neles, o que era um erro, pois o ato de se confiar em algum no dependia de idade. Ele levantou um dedo, e falou para o inter-com: 
       - No recebo nenhum chamado nos prximos dez minutos, exceto se for do Presidente. 
       Isso informou ao visitante de quanto tempo dispunha, de forma gentil. 
       - Acho que vai haver uma tentativa, senhor, de tirar o Presidente do cargo - disse o redator, engolindo em seco. - Sei que  uma coisa horrvel de dizer, 
mas  isso mesmo que eu acho. 
       Muito calmamente, como se estivesse empenhado num conselho estudantil, o chefe da Casa Civil do Presidente perguntou: 
       - Que foi que o levou a pensar assim, Jonathan? 
       - Meu relato deve levar mais de dez minutos, senhor, se eu comear do princpio. 

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       - Tenho muito tempo - disse Cartwright. O que no era verdade; nesse momento, o som do helicptero anunciava a chegada do Secretrio de Estado Curtice ao 
gramado; o Presidente queria que Cartwright participasse da reunio, mas isso teria de esperar. Ao mesmo tempo, Hennessy telefonava para tratar de algo que ele considerava 
urgente, e Smitty objetava contra a improvisada coletiva dali a meia hora, Herb Abelson no estava em casa nem no escritrio, o que poderia causar problemas. 
       -  um dia sem muito para fazer - mentiu Cartwright - s tenho uma pilha de uns malditos memorandos para ler. Conte-me o que h. 
       - Buffie, a fotgrafa que dorme com o Presidente, foi ao meu apartamento na noite da coletiva com a imprensa - disse impulsivamente o redator. A princpio 
hesitantemente, depois com vida articulao, ele rememorou sua tentao e queda em desgraa, at o ponto em que estava partilhando uma garota com o Presidente, 
com grande risco pessoal para seu futuro. 
       - Jonathan, se lhe fez bem contar isso tudo a outra pessoa - disse Cartwright - estou contente de t-lo ouvido. Isso talvez o surpreenda, mas mesmo naqueles 
anos aborrecidos e sensatos, h uma gerao, da ltima vez em que trabalhei na Casa Branca, havia um monto de pulos de cama para cama. Voc est continuando o que 
s pode ser chamado de uma grande tradio, embora ningum possa proteg-lo das conseqncias dessa ligao em especial. 
       - Eu no tomaria seu tempo apenas para lhe dizer que dormi com a namorada do Presidente, senhor. Foi sobre o que aconteceu depois disso que lhe vim falar. 
Sobre a trama para assumir o cargo, acho que se pode cham-lo assim. 
       Cartwright no se permitiu uma reao, e continuou a ouvir. 
       - Bem, o senhor entende, depois que nos conhecemos bastante bem, Buffie sugeriu que eu conhecesse o Secretrio do Tesouro, Sr. Bannerman. Eu disse que economia 
no era meu forte, e ela falou que nada tinha a ver com discursos, e que precisvamos pensar em nossas carreiras depois que deixssemos a Casa Branca, no que Bannerman 
poderia ser muito til, com revistas sobre finanas etc. Eu ento respondi que talvez, quem sabe, um dia desses eu o conheceria, e ela insistiu e perguntou: "Que 
tal hoje  noite?" Isso foi ontem  noite, e nos encontramos no restaurante North China, em Bethesda, onde se come uma comida apimentadssima, as lgrimas correm 
pelo rosto. 
       - Muito condimentada - disse Cartwright, que era mais do mingau de aveia. 
       - A essa altura, comecei a achar que talvez estivesse sendo usado. Quero dizer, quando ela apareceu l em casa, achei que 

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estava apenas querendo dormir comigo, e isso no  coisa muito estranha por aqui. Sr. Cartwright, no sei como era na poca de Eisenhower, mas creia-me, todo mundo 
est trepando com todo mundo por aqui,  incrvel como conseguimos chegar ao fim do dia. De qualquer modo, Buffie trepa mais que todos e melhor que todas que conheci, 
e eu estava totalmente perturbado, quando ela veio com a histria de que eu deveria conhecer Bannerman. Foi muito cedo, sabe? E logo naquela noite. Ele  o Secretrio 
do Tesouro, um homem ocupado. Como  que ela podia saber que ele estaria disponvel to depressa, a no ser que tivesse um encontro com ele? E a no ser que eu desde 
o incio fizesse parte desse encontro? 
       - Boa deduo - disse o homem mais velho, assentindo com a cabea. - Obviamente voc estava sendo usado, ou lhe prepararam uma armadilha. 
       - Comemos essa refeio horrvel, ns trs. Eu estava realmente fodido de cansao... desculpe-me, senhor... eu estava pregado, fsica e mentalmente, por isso 
simplesmente escutei tudo com uma expresso cheia de vida, devo ter parecido um idiota ao Secretrio Bannerman. Ele me lisonjeou a princpio e disse que ouvira falar 
do timo trabalho que eu tenho feito para o Presidente Ericson. Quis saber se eu era ntimo do Presidente. Eu ento exagerei, como sempre fao, e disse que era o 
redator favorito do Presidente. 
       - E voc  - interveio Cartwright - no que toca s, digamos, observaes sobre o Jardim das Rosas. [nota *. Significa que nos assuntos mais amenos. "Jardim 
das Rosas"  o jardim que rodeia a Casa Branca (Rose Gardens, em ingls). (N. da T.)] 
       - A frase  "fofocas do Jardim das Rosas", senhor. De qualquer maneira, o Secretrio Bannerman comeou a perguntar minha opinio quanto  cegueira do Presidente, 
e eu respondi que achava horrvel, que ele j no podia ler um discurso. Ele comeou uma lengalenga sobre os homens que apreciavam mais o Presidente se deveriam 
arregimentar em torno dele, apesar de ele mesmo. Ele queria dizer com isso que o verdadeiro teste de lealdade a Ericson era a lealdade ao pas, que vem em primeiro 
lugar, e ningum o nega. Depois, talvez meia hora mais tarde, depois que eu bebera uns drinques, ele disse que um pequeno grupo de gente leal a Ericson se estava 
reunindo para ajudar o Presidente a tomar a deciso correta quanto ao afastamento, por algum tempo, at estar em condies de dar conta do cargo. Eu perguntei: "O 
senhor quer dizer que vo roubar a presidncia dele?" Ele quase teve um troo, e Buffie me chutou debaixo da mesa. Ele respondeu que no, que a inteno era ajud-lo 
a ajudar o pas numa hora crtica, ajudar Ericson a compreender

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o seu dever, que era, evidentemente, afastar-se temporariamente. Dessa forma, ele poderia voltar mas continuou ele, se o Presidente permanecesse no poder e s fizesse 
besteiras, no seria apenas mau para o pas, como Ericson tambm acabaria caindo de quatro. Por assim dizer. 
       Por assim dizer - repetiu Cartwright. - O Secretrio Bannerman lhe pediu para fazer alguma coisa? 
       - Para manter contato com Buffie, para ficar alerta para o que talvez seja a misso mais importante de minha carreira, seja l qual seja, e para contar a 
ele qualquer fato que indicasse que o Presidente estava ficando biruta, agindo errado etc. 
       - Irmo Jonathan, voc lhe perguntou quais eram seus planos? 
       - No, achei que isso me faria parecer abelhudo. 
       Cartwright deduziu que o jovem no era to imbecil quanto parecia: era um agente duplo nato. 
       -- Ele s disse que haveria uma reunio do Gabinete para solicitar ao Presidente que se afastasse daqui a pouco tempo, talvez no incio da prxima semana. 
Disse que ele e outros membros do Gabinete estavam sendo "pressionados pelo Departamento de Recursos Naturais" para agirem depressa. 
       - Pelo Secretrio Fong? 
       - Acho que sim, no perguntei. 
       - Bom, em tudo isso, Irmo Jonathan, esteja alerta para as pessoas e as datas, mas nunca force nada. Algo mais? 
       - Continuei a beber gua e cerveja para tirar o fogo da boca, por isso tive de ficar interrompendo a toda hora para ir ao banheiro, o que fez as coisas um 
pouco desconexas. Ele me pediu segredo, e sugeriu que eu faria fama e fortuna se ficasse ao lado dos "nicos amigos verdadeiros do Presidente Ericson". Entramos 
no meu carro e eu o deixei em casa, e depois Buffie. Buffie no quis que eu entrasse, porque estava preocupada que o Servio Secreto a estivesse vigiando. Eu no 
me importei acho mesmo que no estava em condies de mais nada. Ela  mesmo sensacional. 
       - Deve ser - concordou Cartwright. Estava convencido de que o jovem  sua frente, uma combinao de redator e espio, podia ser muito valioso na campanha 
para a manuteno do Presidente. No apenas no que pudesse saber, mas no que pudesse informar ao grupo interessado em subir ao poder. Como Bannerman era burro, em 
confiar assim num estranho! Talvez, porm, o Secretrio do Tesouro achasse que todos tinham um preo, e que era improvvel que algum da Casa Branca no tivesse 
os valores costumeiros ou talvez Buffie tivesse exagerado para Bannerman sua influncia 

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sobre o rapaz. Cartwright Continuou a tratar Jonathan - tinha de descobrir seu sobrenome e lembrar-se dele - com respeito. 
       - Que  que voc acha que devemos fazer agora? 
       - Julguei que o senhor soubesse, Sr. Cartwright. Para lhe falar a verdade, estou bem perturbado. Este no  meu ramo de trabalho. 
       - Daria um bom livro mais tarde. 
       - .  possvel que o Presidente saiba que estou comendo a namorada dele? 
       - Que expresso deselegante! - brincou Cartwright. - Se voc quiser, guardarei sua identidade de informante s para mim. O Presidente no precisa ficar a 
par do interesse que voc e ele parecem repartir. 
       - S o senhor e eu, ento? timo. 
       -  uma promessa. Se tiver de revelar sua identidade, Irmo Jonathan, pedirei primeiro seu consentimento. Continue como at aqui; suas aptides para o assunto 
so boas. E deixe de se preocupar, voc est agindo certo, o que  moral. Perdoe o uso dessa palavra antiquada. 
       Conversaram um pouco sobre moralidade, sobre golpes de estado e derrubadas de poder, sobre a Constituio e a inteno dos seus redatores. Cartwright tinha 
muito tempo. Deu ao rapaz seu telefone particular no escritrio e em casa, e o levou lentamente  porta e at o elevador. Quando se fechou a porta do elevador, o 
chefe da Casa Civil dirigiu-se rapidamente ao Salo Oval, para pegar os ltimos momentos da reunio com o Secretrio de Estado. 
       Antes de entrar - o chefe da Casa Civil tinha direito de participar de todas as reunies do Presidente e, neste caso, Ericson queria que ele estivesse presente 
desde o incio - Cartwright parou para pensar o que deveria revelar do que acabara de saber. Para o Secretrio Curtice, ele apenas levantaria a possibilidade de 
que a iniciativa da reunio partisse de Fong, e a fonte de Cartwright seria protegida pela alegao de que se tratava de informao de um jornalista. Para o Presidente, 
depois que Curtice sasse, ele acrescentaria a iminncia da reunio sobre seu afastamento dali a uns trs dias. Deveria contar a Ericson a triste notcia da deslealdade 
de Buffie? Era ela, provavelmente, a fonte de informaes ao colunista sobre as apreenses de Herb Abelson. E Abelson era o contato dela com o Presidente, quando 
queria combinar encontrar-se com ele e por isso, em vista de Abelson estar doente em casa, ela recorrera a Cartwright 
       Percebeu tudo agora: por isso o Presidente lhe perguntara sobre Abelson, quando soube que Buffie queria fotograf-lo hoje. Com o mdico do Presidente ainda 
em casa, e fora da jogada, Cartwright tinha controle do acesso de Buffie ao Presidente. Provavelmente ela 

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no passaria por cima dele e iria  Melinda, que talvez a desprezasse. E no seu papel de fotgrafa oficial, Buffie teria poucas informaes valiosas para o grupo 
que queria derrubar Ericson. 
       Reunidas, essas migalhas de informaes levaram Cartwright a resolver no contar naquele dia ao Presidente sobre o papel duplo de Buffie. Algumas das informaes 
do redator de discursos poderiam ser transmitidas, sem revelar imediatamente a fonte, e isso era bom. Ele teria a oportunidade de falar sobre tudo isso com a Sra. 
Cartwright  noite, e o Presidente seria poupado, pelo menos por vinte e quatro horas, de saber que era chifrado, para usar um termo antigo.  porta, o chefe da 
Casa Civil se perguntou novamente: Haveria alguma informao que Buffie poderia ter, ou obter no dia seguinte, que seria valiosa para o grupo contra Ericson? Improvvel. 
Saberia ela algo sobre a condio dos olhos de Ericson que o chefe da Casa Civil desconhecia? Evidente que no. Cartwright entrou na reunio. 


O SECRETRIO DE ESTADO/2 

       Era essa a primeira vez em que George Curtice, Secretrio de Estado, passara um perodo substancial de tempo com o Presidente. Em outras reunies, uma terceira 
pessoa estivera presente: Cartwright, um redator ou uma secretria tomando notas, ou outro membro do Gabinete, como se Ericson precisasse de alguma outra testemunha 
de suas conversas para proteg-lo aos olhos da histria. Para conservar Curtice honesto. O Secretrio admitiu que talvez estivesse sendo supersensvel, mas certa 
hipersensibilidade era inerente nos negros que galgam posies de real poder num mundo de brancos. 
       Em seus vinte minutos juntos, Curtice sentiu uma satisfao que no admitiria para ningum, nem mesmo para seu dirio: o Presidente, que no podia ver, no 
podia sequer ser afetado subconscientemente pela cor da pele de um homem. Para ser verdadeiramente cego s cores, precisava-se ser totalmente cego. Esse pensamento 
errante foi varrido na avalancha de observaes que Curtice estava fazendo do homem que o escolhera para ser o principal agente de poltica externa da nao. 
Ericson parecia concentrar-se mais agora. No superficialmente, como se poderia esperar, mas profundamente: escutava, atento, o que Curtice tinha a dizer, e s vezes 
pedia que um ponto fosse repetido. Sua preocupao humana tampouco era superficial, como Curtice sempre desconfiara que fosse dantes. As perguntas sobre Harry Bok, 
o agente do Servio Secreto, no eram formais nem frvolas: Ericson obviamente se importava com a outra vtima sobrevivente 

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da emboscada. E - esta era a diferena, muito mais que outra coisa - Ericson no era mais to irritantemente arrogante nem indiferente. 
       Lucas Cartwright abriu a porta e olhou. Curtice fora rapidamente instrudo por Melinda McPhee e por um terapeuta cego sobre como agir com o Presidente, e 
ele seguiu as instrues. 
       - Eis Lucas - disse Curtice ao Presidente. - Faz duas longas semanas que no o vejo. 
       - Entre e sente-se - disse o Presidente, indicando o sof; ele e Curtice estavam sentados nas poltronas de abas laterais, perto da lareira do Salo Oval, 
o que significava que seriam tiradas fotos antes que eles partissem. 
       - Por favor, Lucas, no se sinta rejeitado, mas desejava ficar algum tempo a ss com o Secretrio de Estado, 
       - No me importo absolutamente - disse o chefe da Casa Civil. - Fiquei com um pouco de dor nas costas de olhar pela fechadura. 
       - George esteve me dizendo que Harry Bok est paralisado da cintura para baixo - disse tristemente o Presidente. - Est recebendo o melhor tratamento, est 
animado, mas poxa! Quero ver o que o Servio pode fazer para ele, na diviso de falsificaes. Um homem no precisa ficar andando para examinar notas falsas. 
       - Ele gostaria disso - disse Curtice, olhando para Cartwright, com quem lanara a idia do herosmo de Kolkov  cabeceira de Bok. - O pas lhe deve muito. 
       Perguntou-se se Cartwright revelava ao Presidente a ligeira alterao de nfase no tocante  emboscada: no era vital que Ericson soubesse disso, e Curtice 
no o mencionaria, se Cartwright no o fizesse. O suposto herosmo de Kolkov ajudou a difundir calma num momento assustador, apressou a partida do Presidente ferido, 
e auxiliou Vasily Nikolayev a solidificar sua posio como o sucessor lgico do Kremlin. Essa mentirinha ajudou a causa da paz e a aliana entre as superpotncias, 
e quanto menor o crculo dos que a soubessem, melhor. Bok, Cartwright e Curtice teriam um elo a uni-los a vida toda. 
       - Informe resumidamente a Lucas as conseqncias da emboscada - instruiu o Presidente. - O resumo tambm me ser til. 
       O Ericson de um ms atrs teria acrescentado a ltima frase. 
       - Vasily tem agora controle efetivo - informou o Secretrio de Estado. - Disse-me que a emboscada foi preparada pelas potncias do Extremo-Oriente, numa tentativa 
para acabar com a aliana sovitico-americana. Entrementes, eles vo incentivar o Quarto Mundo para atacar o Terceiro...

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       - Um mundo de cada vez - fez Lucas, abanando a cabea. Essa foi uma boa jogada, a de fingir-se confuso para que Curtice ralentasse a marcha e o Presidente 
pudesse absorver tudo. 
       - O Primeiro Mundo  a aliana sovitico-americana - recomeou Curtice. - A inteno era fragment-lo com o assassinato do Presidente americano na Rssia. 
Ento, o Segundo Mundo, as potncias do Extremo-Oriente, o Japo e a China, seriam a superpotncia dominante. Seria do interesse de chineses e japoneses ter o Terceiro 
Mundo, as potncias do Oriente Mdio, os rabes, os israelenses e a ndia, sob ataque do Quarto Mundo, as naes subdesenvolvidas da frica e da Amrica Latina. 
No apenas sob o ataque dos cartis econmicos quanto s matrias-primas, mas tambm sob presso militar no-nuclear. 
       - No se esquea dos bons vizinhos - disse Ericson. 
       - Dentro dessa situao estratgica mundial - explicou Curtice - temos um problema imediato em nossas fronteiras, como sabem: os habitantes de Quebec e os 
mexicanos esto alinhados contra ns, e lideram o Quarto Mundo, junto com a Nigria. Isso torna importantssima a aliana sovitico-americana, para que o mundo no 
se desintegre. 
       - Afora isso, nada de novo - disse o Presidente. 
       - O Presidente por acaso lhe mencionou alguns dos acontecimentos que tm ocorrido aqui enquanto voc estava vagabundeando por a? - perguntou Cartwright a 
Curtice. 
       - Ainda no havamos chegado a esse ponto - replicou o Secretrio de Estado. Ele achava que os assuntos mais importantes tinham de ser tratados em primeiro 
lugar: vindo do aeroporto, e dando uma olhada nos jornais, Curtice ficara apavorado com a falta de ateno para a perigosa situao internacional, e a preocupao 
da mdia com as dificuldades fsicas do Presidente. Com a sobrevivncia do mundo em jogo, a nica coisa pela qual a imprensa americana se interessava era o mau desempenho 
do Presidente numa coletiva  imprensa. Evidente que a cegueira de Ericson era um assunto altamente contristador, e uma tragdia pessoal, mas na escala das preocupaes 
humanas, era minscula, em comparao com o perigo de guerra. 
       - O Secretrio do Tesouro - disse Cartwright, ligeiramente entediado - tem tentado convencer o Vice-Presidente e alguns outros membros do Gabinete que o Presidente 
est praticamente em coma. Quer convocar uma reunio do Gabinete para declarar a incapacidade do Presidente para trabalhar, e para nomear Nichols Presidente Interino. 
Ento, quando o Presidente Ericson duvidar disso, Bannerman 

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acha que pode conseguir dois teros de ambas as casas do Congresso no sentido de que concordem que o Presidente eleito no pode continuar no cargo.  um esquema 
doido, no pode dar certo. 
       - Bannerman est falando srio? 
       Curtice fora informado a respeito enquanto estava na Rssia, e seu assistente o atualizara minuciosamente a respeito do helicptero que o trouxera  Casa 
Branca, mas o caso lhe parecia falta de assunto de jornal. Assemelhava-se mais s manobras do Kremlin do que da Casa Branca. 
       - Talvez esteja - disse Cartwright. - Bannerman tem muita ascendncia sobre o Vice-Presidente, voc sabe como  Nichols, e vai utilizar grande sutileza para 
assumir a liderana do Gabinete, O Secretrio Fong dever ser a pessoa a sondar voc, George. 
       - Mike Fong est do lado deles? - perguntou, surpreso, o Presidente. - Filho da puta! Eu o tirei da obscuridade total. 
       - Eu sou o membro de maior hierarquia do Gabinete - acentuou o Secretrio de Estado. - Na ausncia do Presidente, no me cabe Convocar as reunies do Gabinete? 
       - No neste caso - respondeu Cartwright, - Qualquer membro pode convocar reunies, se o objetivo for declarar incapacidade, e todos vocs devem comparecer. 
Bannerman e Fong provavelmente tentaro realiz-la no incio da semana que vem, para pegar a opinio pblica ainda efervescente. 
       - No pressione George sobre isso, Lucas - disse o Presidente. - Se ele acha que a poltica externa do pas estaria em melhores mos sob o Vice-Presidente 
Nichols, com um Presidente eleito impugnando a legitimidade do usurpador a cada alguns meses e os lderes estrangeiros sem saber com quem lidar... Diabos, a deciso 
cabe ao Secretrio Curtice e no quero influenci-lo. 
       - O Secretrio Bannerman vai se apoiar em voc - disse-lhe Cartwright tranqilamente. - Obviamente, o Presidente no vai. No ousaria dar-lhe minha opinio, 
a no ser que solicitado. 
       - Qual  sua opinio, Lucas? 
       Curtice admirou a tcnica de Cartwright: embora sua proximidade ao Presidente lhe desse mais poder do que qualquer membro do Gabinete, ele sempre acatava 
os membros do Gabinete, o que lhe reforava o poder. 
       - Um golpe... e  isso o que seria, independente das emendas  Constituio que forem citadas... jamais sairia vitorioso. Um golpe malogrado, que  o que 
aconteceria numa reunio do Gabinete, faria os Estados Unidos parecerem uma republiqueta de bananas aos olhos do mundo, e at talvez incitasse algum dano internacional. 

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Por essa razo, julgo que seria desastroso se houvesse essa reunio do Gabinete. 
       - Duvido muito que chegue a isso - disse Curtice, sem se comprometer antes de ser preciso, mas deixando a impresso de que era leal ao Presidente. - Devo 
agora falar aos jornalistas l fora, ou adiar a conversa com eles por um dia e fazer uma coletiva com a imprensa no Departamento? 
       - Depende inteiramente de voc - disse o Presidente. - Eles esto a, doidos para falar-lhe, e voc tem muito a dizer. Suponho que voc poderia fazer as duas 
coisas, se quisesse: rpidos comentrios agora, e uma coletiva  imprensa mais demorada amanh, no seu escritrio. 
       - Est certo - concordou Curtice. J eram duas mordidas na maa. Saiu do Salo Oval com Cartwright, que disse, a caminho do escritrio do Secretrio de Imprensa: 
       - Os comentrios que lhe fiz sobre o boato poltico, evidentemente as suspeitas de Cartwright eram bem fundamentadas; 
       - O assunto no foi sequer aventado - assegurou-lhe o Secretrio de Estado. - Minha reunio com o Presidente aconteceu antes que voc chegasse, e  sobre 
ela que falarei  imprensa. 
       Cartwright o levou a Smitty, que o encaminhou  sala de reunies com a imprensa. Um assessor do Departamento de Estado lhe entregou um bilhete antes de ele 
subir  plataforma: "O Secretrio Fong ligou para dizer que esperava que o senhor no respondesse a nenhuma pergunta sobre assuntos constitucionais internos antes 
de ele ter uma oportunidade de conversar com o senhor". Evidentemente, as suspeitas de Cartwright eram bem fundamentais; era um bom assunto a ser evitado, at que 
ele se inteirasse das coisas. Curtice lembrou-se de que esse era o pessoal de imprensa agressivo e petulante da Casa Branca, interessado em assuntos locais, e no 
o grupo mais urbano que cobria o Departamento de Estado. 
       - A ltima vez em que vi o secretrio - disse Smitty aos reprteres,  guisa de introduo - foi h trs semanas, quando ele lutava pelos direitos do pessoal 
de imprensa americana em Yalta, tentando fazer com que toda a histria fosse logo divulgada. Ele vai inform-los sobre sua reunio com o Presidente, responder a 
algumas perguntas, e estar depois disponvel para uma coletiva em grande escala s dez da manh, amanh, na sala grande do Departamento de Estado. O Secretrio 
Curtice. 
       O Secretrio de Estado subiu ao pdio, as luzes se acenderam, e as cmeras na extremidade da sala piscaram suas luzes vermelhas. George Curtice lhes deu dois 
minutos de assuntos gerais sobre sua reunio com Ericson. Ao se aproximar do fim, um questionador interrompeu-o impertinentemente: 

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       - O Presidente lhe pareceu capaz de desempenhar adequadamente seus deveres? 
       - Que pergunta estranha! Na ltima vez em que o vi, ele estava deitado de costas, em Yalta, feliz por estar vivo. Hoje ele estava de p e se movimentando, 
escutando o meu relatrio. Este  um grande progresso em pouco mais de trs semanas. 
       Do fundo da sala, algum gritou: 
       - O senhor sabe de alguma coisa sobre uma reunio de Gabinete convocada para discutir a incapacidade do Presidente? 
       - No. 
       - Sua resposta  primeira pergunta, Sr. Secretrio, foi uma cortina de fumaa - disse o primeiro questionador, - O senhor acha que ele  capaz de executar 
seus deveres ou no? 
       - O senhor no  o primeiro a ficar insatisfeito com uma resposta minha - disse Curtice suavemente - nem ser o ltimo, mas j obteve minha resposta. 
       Ele descobrira que quando eles o imprensavam a melhor atitude era fazer jogo defensivo; eles ento o tratavam com mais respeito. 
       - Senhor, j esteve em contato com outros membros do Gabinete, ou com o Vice-Presidente, desde que Voltou? 
       -- No falei com nenhum deles. 
       Ele no reagiu ao "em contato com", e imperceptivelmente o mudou para algo que ele pudesse manipular. 
       - Minha primeira tarefa foi informar ao Presidente de alguns acontecimentos extremamente importantes de poltica exterior Estava preparado para esquivar-me 
a suas perguntas sobre eles, mas parece que no terei de faz-lo at amanh. 
       Sua frase foi recebida com um sorriso. 
       - Vai haver guerra? - indagou uma voz  esquerda. 
       - Vou responder a essa pergunta com a seriedade que ela merece - respondeu Curtice, preparando-se um momento para responder, o que indicou aos cameramen que 
essa era a parte da conferncia que deveria decorrer tranqila. 
       - Entramos num perodo de altas tenses no mundo. H razes para crer que a emboscada foi basicamente dirigida ao Presidente Ericson, com o alvo principal, 
e ao Primeiro-Ministro Kolkov como segundo alvo. Conviria a algumas potncias ou algumas faces de algumas potncias, uma ruptura na aliana sovitico-americana 
No devemos permitir que isso acontea, porque essa aliana  fundamental para a paz no mundo de hoje. 
       - Quem a planejou, Sr. Secretrio? o senhor sabe, pode dizer? 

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       - Ainda no estamos preparados para fazer nenhuma revelao sobre quem eram os assassinos, ou quem os instruiu e contratou. Os soviticos esto realizando 
detalhadas investigaes. Estamos em contato com eles, e ns mesmos estamos fazendo investigaes. Mas o assunto  extraordinariamente sensvel, e o momento  difcil. 
No sou, de forma alguma, um alarmista, mas informei o Presidente, de forma preliminar, de meus demorados debates com Vasily Nikolayev, e o Presidente Ericson e 
eu nos reuniremos novamente no fim de semana. 
       - Pela natureza das perguntas que lhe fez, o senhor teve a impresso de que o Presidente apreendeu totalmente o significado de tudo que lhe contou? 
       Os cachorros no estavam a fim de abandonar o osso. 
       - J respondi a isso, mas devo acrescentar que o Presidente estava preocupadssimo com o progresso de Harry Bok, cujas pernas parecem estar paralisadas. Lamento 
no ter tido boas notcias para transmitir sobre esse corajoso homem. 
       Este era um bom momento para escapar. 
       - Preciso ir, mas amanh estarei disponvel por mais tempo. E com reprteres que tm uma perspectiva bastante diferente, ele poderia ter dito mais. 
       Em sua limusine - o Departamento de Estado mantinha os compridos Cadillacs, para no fazer feio - Curtice resmungou para seu assessor, um funcionrio do corpo 
diplomtico de idade, sexo, credo e origem desconhecidos: 
       - Que  que h com esta cidade? A nica coisa com que se preocupam  a poltica, poder, quem est em cima, quem est embaixo, quem  o prximo. O Presidente 
est cego, isso  horrvel para ele, mas no contexto do que est acontecendo no mundo neste instante, no representa nada. Se Nikolayev conseguir atribuir essa coisa 
aos chineses, as conseqncias sero enormes. Ou se foi iniciativa do bloco rabe-israelense, preocupado com o negcio de petrleo que estamos fazendo com os soviticos, 
ser uma convulso com outro rumo. Todas as chancelarias do mundo esto em suspenso, e de que falam aqui? Da vista de Ericson. Puxa! 
       - O Secretrio Fong perguntou se pode ir  sua casa antes do jantar, senhor. Disse que  assunto da maior gravidade. 
       Curtice olhou vivamente para seu assessor. 
       - "Maior gravidade"... isso  expresso sua ou dele? 
       - Na verdade,  minha. Acho que ele disse que era urgente para danar. 

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       - Isso  mais do jeito de Fong. Vou para casa agora dormir um pouco, j passa de meia-noite para mim, no horrio de Moscou, e o receberei s oito. Ele pode 
jantar conosco. 
       - E se ele no puder a essa hora? 
       Curtice sorriu levemente. 
       - Mike vai poder a qualquer hora em que eu puder. 
       Aps uma soneca restauradora para Curtice, os dois membros do Gabinete jantaram na residncia do Secretrio de Estado e conversaram durante trs horas. O 
argumento do Secretrio Fong era bem mais convincente do que Curtice julgara inicialmente: Ericson perdera a capacidade de governar, e o povo estava comeando a 
perder a confiana nele. Essa perda logo comearia a ser catastrfica. Faltavam trs anos e meio de mandato, o que poderia ser um perodo irremediavelmente longo 
se no houvesse nenhuma verdadeira liderana, e o Presidente era muito teimoso ou, pior ainda, estava muito confuso para tomar a providncia necessria de se afastar 
temporariamente Se o Gabinete permitisse o precedente de deixar de agir face a to bvia incapacidade do Presidente, a Vigsima Quinta Emenda no valeria nada, e 
nenhum Gabinete futuro teria a coragem de votar pelo afastamento de um lder ferido. 
       Curtice quis saber se o grupo que queria a sada de Ericson - o Presidente o chamava de "grupo usurpador" e Fong pegou uma frase de jornal que os identificava 
como "o grupo da vigsima quinta" - tinha possibilidade de vitria. O Voto do Vice-Presidente seria deles? A resposta de Mike Fong foi que o Vice-Presidente no 
julgava apropriado que o homem a tomar o lugar do Presidente influenciasse a deciso do Gabinete, e no votaria contra nenhuma ao da maioria. 
       Os dois homens saram para a varanda, num morro com vista para o Potomaque. 
       - Voc deve estar exausto, George - disse Fong. - No precisa decidir hoje. 
       Mike Fong, ex-governador do Novo Mxico, era o homem indicado para dar incio  ao, reconheceu Curtice. Era um homem de fala macia, que vendia bem seu peixe, 
e que a maioria estimava. Bannerman era excessivamente dominador e era mais eficaz operando de longe. 
       - Dos seis votos, Sr. Secretrio, quantos o senhor tem? 
       - O nico que temos certeza de no ter  o do Procurador-Geral. Ele querer ater-se  mais rgida interpretao da lei, definindo "incapacidade" como uma 
coma demorada em alguma enfermidade sem cura. Bannerman e eu estamos cem por cento juntos. O Secretrio de Defesa est se inclinando para nosso lado. O Secretrio 
de 

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Recursos Humanos, bem, Andy Frangipani tem muitas razes polticas para ficar ao lado de Ericson incondicionalmente, mas pode surpreender. Votar de acordo com sua 
conscincia num assunto dessa importncia. Ento, o panorama  o seguinte: pela retirada de Ericson: dois "sim" e um "no" certos; um "sim" provvel, e um "sim" 
talvez. E voc. 
       - Evidentemente - disse cautelosamente Curtice - no me importa, num assunto desse tipo, que lado tem mais votos. Como voc diz,  uma questo de conscincia, 
e se eu achasse que o Presidente estava incapacitado de funcionar, ou se sua cegueira fizesse outros pensarem que estamos vulnerveis, eu votaria pela sua remoo, 
mesmo que esse voto estivesse condenado, e mesmo que me custasse minha carreira poltica. 
       - Naturalmente - Fong fez sinal afirmativo com a cabea. - O mesmo se passa conosco. 
       - Se eu disser no, e tudo indicar que vocs perdero, abandonaro a causa? 
       - Vamos realizar a reunio do Gabinete segunda-feira, George, e minha opinio  de que a maioria votar pelo afastamento de Ericson. Seria melhor para o pas 
se a votao fosse o mais prximo possvel da unanimidade. Por isso sua deciso  to importante. Daria um sentido de continuidade, de unidade, tudo isso. 
       Curtice ponderou sobre isso. Duas abordagens tinham ficado disponveis ao grupo de Bannerman: agir como se o voto de Curtice fosse crucial e decisivo e que 
eles necessitassem desesperadamente dele, ou fingir que j eram favas contadas, e era melhor para ele juntar-se ao grupo, se desejasse permanecer em Washington nos 
trs anos e meio seguintes. Haviam escolhido a ltima abordagem. Ou estavam blefando, ou tinham forado o Secretrio de Defesa e era provvel que o Secretrio de 
Recursos Humanos desertasse de Ericson. 
       - S decidirei quando for preciso - disse a Fong. - Diga a Bannerman que minha mente est aberta. 
       - Discuta com o Secretrio de Defesa - sugeriu Fong. - Vocs dois so as duas autoridades mais antigas do Gabinete, e Reed ainda no se decidiu tampouco. 
Acho que ele encara o assunto de um ngulo diferente, e inclui as preocupaes de poltica externa e sua superposio. 
       Curtice disse que o faria. Depois que Fong partiu, foi para seu pequeno quintal dos fundos no bairro de Foxhall Road - a vizinhana continuava a ser puramente 
branca, mas por razes econmicas - e ficou sozinho na suave noite de vero de Washington. 
       Quer dizer que eles realmente falavam a srio! Fong era um homem bom, sincero, e queria fazer o que fosse certo. Inclinava-se a ser dominado pessoalmente 
por Bannerman e ideologicamente por 

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aquela ala do partido, mas no geral seus motivos no poderiam ser refutados. Bannerman era outra coisa: um intermedirio do poder cansado de s-lo a vida toda, e 
ansioso para tornar-se um Controlador do poder. Curtice achava que, em termos de poltica e do exerccio do poder, Bannerman, com todos os seus modos despticos, 
talvez fosse melhor do que Emmet Duparquet, o Procurador-Geral, que certamente era o membro do Gabinete que Ericson julgava poder fazer seu sucessor. Ele no confiava 
inteiramente em Duparquet, um sulista, judeu rico, que desprezava as aspiraes do Quarto Mundo. E falando francamente, Curtice tinha de reconhecer que tampouco 
confiava em Sven Ericson. 
       Devia, porm, muitssimo ao Presidente. A nomeao de Curtice Como Secretrio de Estado fora Coisa s de Ericson, sem envolver nenhuma presso poltica nacional 
nem gratido. Como pareceria se o primeiro Secretrio de Estado negro devolvesse essa confiana ao virar-se contra seu Presidente, num golpe frustrado do poder? 
Por outro lado, como pareceria para o primeiro negro Secretrio de Estado ficar grudado no osso,  maneira de um Tio Tom [nota *. Personagem negro de A Cabana do 
Pai Toms. (N. da T.)] agradecido, quando homens srios e patriotas invocassem vitoriosamente a Vigsima Quinta Emenda e conseguissem remover da presidncia um homem, 
teimoso mas fisicamente incapaz? 
       Curtice lembrava-se da histria do juiz corrupto que chamou dois advogados a seu escritrio e enfatizou que um lhe havia oferecido cinco mil dlares para 
absolver o ru, e o outro lhe oferecera dez mil dlares para condenar o mesmo ru. Quando Curtice contava a piada em jantares, sempre se riam dela: "Ento que  
que vocs me dizem, amigos, o primeiro sujeito me d mais cinco mil dlares, e resolvemos o caso segundo seus prprios mritos?", conclura o juiz. 
       Ele pensaria nisso, com toda a solenidade que merecia, e o discutiria com o Secretrio de Defesa. Curtice respeitava muitssimo os julgamentos imparciais 
de Preston Reed. A opinio de Vasily Nikolayev tambm era importante: ele parecia respeitar muito Ericson. O Secretrio de Estado americano resolveu que o melhor 
era esperar para ver; sempre era possvel que no fosse preciso tomar nenhuma deciso. 


O MDICO DO PRESIDENTE/2 
       
       O Refeitrio da Casa Branca, duas salas de jantar dos funcionrios, situadas no subsolo da Ala Oeste, sem janelas e com lambris 

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de madeira, vedadas  imprensa, mas onde membros do estafe podem receber seus convidados, acomodam cerca de cinqenta pessoas. A comida  simples mas saborosa; no 
se servem bebidas alcolicas durante o dia, exceto uma margarita [nota *. Drinque mexicano, feito de tequila, suco de limo ou lima, e acar. (N. da T] ao almoo 
das quinta-feiras dia do almoo mexicano especial. O refeitrio no cobra caro, e representa um prestigioso fringe benefit para o pessoal snior do estafe que no 
 bem remunerado, e uma vantagem para o estafe jnior excessivamente bem pago. Ademais, impressiona bastante os convidados para almoos que ultrapassam a "Sala da 
Situao" do outro lado do vestbulo. Aos sbados no se exige gravata nem palet porque a presena de um funcionrio na "panela de presso" do pas, num dia em 
que quase ningum trabalha, lhe d direito ao privilgio de se vestir informalmente. 
       O Dr. Herbert Abelson, atacado pelo resfriado e irritvel, vestido de jeans e camisa aberta, entrou de cabea baixa no Refeitrio ao meio-dia e sentou-se 
 mesa reservada para os funcionrios que estivessem sozinhos. O doutor pensou que no deveria absolutamente ter vindo: estava espalhando os germes de um tremendo 
resfriado de vero. Entretanto, o noticirio de TV da noite anterior mencionara um "fatdico fim de semana na Casa Branca, em que muita coisa estava pesando na balana", 
e ele supunha que o mdico do Presidente deveria estar por perto. Enquanto esperava pelo almoo "C", a dieta especial, Abelson ficou deprimido, ao ler o Sumrio 
de Notcias. A declarao de Curtice era o lead, o que estava bem - pelo menos servia para lembrar ao povo que o resto do mundo estava em m forma - mas havia uma 
srie de histrias idiotas sobre uma "revolta do Gabinete" e estudos secretos sendo realizados no Departamento de Justia, acerca da Vigsima Quinta Emenda. 
       "A submanchete do Post cita o reprter do Monitor que teve uma entrevista exclusiva com o Presidente e disse": ... Abelson apanhou um exemplar do Post para 
ver o que era uma "submanchete'. A segunda histria mais importante da primeira pgina tinha uma manchete lgubre: "Reprter do Monitor afirma que Ericson 'No Est 
em Si". Nem mesmo a tentativa de consertar a gafe dera certo, e o Presidente julgara que seria 'canja' ". 
       Ele apanhou o telefone perto da mesa e pediu  telefonista que o ligasse com Melinda McPhee. 
       - Como est o Chefe hoje? 
       - Acho que ele pegou seu resfriado - disse ela. - Est assoando o nariz, resmungando e chutando o gato. 

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       - Ns temos um gato? 
       - Se tivssemos, ele o estaria chutando. Como no temos, ele est se desforrando em mim. Por que voc no o procura e lhe d umas gotas para acalm-lo? 
       Ele combinou com ela examinar o Presidente  uma hora. Quando desligou, a telefonista da Casa Branca o chamou de volta e disse que Buffie Masterson o estivera 
procurando, e se ele gostaria que ela o ligasse com a fotgrafa. Ele disse que sim, e desejou que Harry Bok j tivesse voltado: esta faceta de intermedirio no 
lhe agradava. 
       - Al, Herb! - fez a voz alegre e rouca - eu no deveria estar fotografando o que acontece no "fatdico fim de semana?" 
       - Vou v-lo daqui a pouco, Buffie, e lhe perguntarei se quer ser fotografado para a posteridade. 
       - O que eu quero dizer  que... ei, onde  que voc est, no Refeitrio? Estou pertinho da, e j vou para a. 
       Dentro de meio minuto surgia ela; a sala de fotos tambm ficava no Subsolo Oeste, e ao v-la o corao de Abelson se constrangeu ainda mais: ela era to viosa 
e despreocupada! Sentou-se perto dele, roubou trs pedaos de tomate de sua salada, e disse baixinho, para que o garom filipino no escutasse: 
       - Eu quis dizer hoje  noite. A noite toda, se ele quiser. Bem, diga-lhe que  isso o que eu quero. Voc se importa de eu ser franca com voc? Voc  mdico. 
       - Buffie, voc no  uma receita que se possa aviar. 
       - Voc est com pssima aparncia. Como  que vem  Casa Branca barbado? - Ela ps-lhe a mo no brao. - Voc esteve realmente doente ontem, no foi para 
me evitar, no  verdade? 
       - Tive uma gripe branda. Talvez o Presidente a tenha pegado. E suponho que voc est disposta a correr o risco do contgio. 
       A mo dela era forte, sem esmalte, seus dedos eram insistentes. 
       - Quero v-lo. Por favor, diga-lhe isso. Acho que ele tambm quer me ver. Estarei na minha sala, ou deixarei recado com a telefonista de onde estarei. 
       Ela tirou uma fatia de queijo do prato dele, fez um rolinho, e piscou enquanto sumia pela porta. 
       Abelson comeu o que lhe restava do almoo, assinou o vale, e subiu para a ante-sala entre o Salo Oval e a Sala do Gabinete, que eram os domnios de Melinda 
McPhee. Ela estava ao telefone e ele chegara antes da hora, por isso foi at a Sala do Gabinete. Hank Fowler estava sozinho, sentado na poltrona da mesa do Gabinete 
do 

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Presidente, correndo os dedos suavemente pelo mata-borro, pela agenda do Presidente e pelos botes e equipamento de telefone sob a mesa. 
       O mdico do Presidente entrara silenciosamente na sala - a porta estava aberta, mas Fowler imediatamente olhou em sua direo. 
       - Voc me pegou - disse o terapeuta, envergonhado. - Quem ? 
       - Apenas seu cordial mdico do interior, visitando seus pacientes. - Abelson resolveu parar de fingir o alegre. - Como  que voc est indo, Hank? Este lugar 
me deixa nervoso. 
       - Ajude-me a conhecer esta sala. Voc est habituado a ela, doutor, mas para mim  tudo histria recente. 
       Abelson fez um sinal para o guarda  porta. 
       - Guarda, fale um pouco sobre a Sala do Gabinete para este senhor. 
       - A Ala Oeste foi construda durante a administrao de Theodore Roosevelt - comeou o guarda, como se tivessem apertado um boto - e esta sala foi primeiramente 
usada como Sala do Gabinete na Administrao de Taft. J houve pelo menos dez mesas aqui no Gabinete; esta, de nogueira, foi presente do antecessor do Presidente 
Ericson. O caminho l fora, que leva, atravs das portas envidraadas, ao Jardim das Rosas, foi feito para servir  cadeira de rodas do Presidente Franklin Roosevelt. 
Cada membro do Gabinete tem sua cadeira determinada, onde est afixada uma plaqueta de alumnio nas costas, com seu nome e a data de sua nomeao. Tradicionalmente 
o Presidente a compra do governo e a presenteia ao membro do Gabinete que sai. 
       - Onde o senhor est sentado - continuou monotonamente o guarda -  a cadeira do Presidente, e na verdade o senhor no deveria sentar-se nela. 
       Fowler levantou-se e ficou de p atrs da cadeira. 
       - Do outro lado da mesa fica a cadeira do Vice-Presidente,  direita do Presidente fica a cadeira do Secretrio de Estado e  sua esquerda, a do Secretrio 
de Defesa. Desde a reorganizao do setor executivo, s oito cadeiras rodeiam a mesa, quatro de cada lado, e nenhuma nas cabeceiras. Quando a sala  usada para reunies 
da liderana dos dois partidos, algumas das cadeiras encostadas nas paredes so trazidas  mesa, que pode ento acomodar dezoito pessoas. 
       Fowler comeou a movimentar-se em redor da mesa, e a tocar em todas as cadeiras. 
       - H algum retrato na parede? - perguntou. 

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       - Cada Presidente escolhe o de trs Presidentes. Sobre a lareira, o Presidente Ericson colocou o retrato de Woodrow Wilson, e deste lado da sala, os de Grover 
Cleveland e Herbert Hoover. 
       - Ns gozamos um bocado a escolha de Hoover - disse Abelson. - Obrigado, guarda. Podemos usar esta porta para ir ao terrao? Vamos sentar-nos no alpendre, 
Hank, voc vai gostar do Jardim das Rosas. 
       Os dois se sentaram nos degraus que conduziam ao jardim. 
       - As rvores acabaram de florescer. Voc devia ter estado aqui na primavera, Hank. 
       Abelson se deu conta de que, de qualquer modo, o psiclogo cego no poderia t-las visto: quando algum se sente na fossa, a presena de um cego faz com que 
a pessoa seja grata pelo que tem. 
       - Voc parece um pouco deprimido, doutor. 
       -  to evidente assim? Sinto-me pssimo.  a gripe, creio. 
       Foi bobagem dele tentar enganar um psiclogo profissional, ainda mais, que tinha um sexto sentido apuradssimo. 
       - A verdade  que somos um bando de zumbis. Sven Ericson est morto e no sabe. 
       Fowler no disse nada. 
       - Voc tem uma boa tcnica - disse-lhe Abelson. - No diz nada, e a pessoa com quem voc est se sente constrangida, e tenta preencher a lacuna. Mas isso 
tambm d certo com as pessoas cegas? 
       Fowler sorriu. 
       - Com os cegos, emprego uma ttica diferente. Voc est querendo desabafar, sentir-se livre. Estou-lhe fazendo uma gentileza profissional, no cobro nada. 
       Abelson sentiu os temores frustrados lhe subirem  tona. 
       - Ele  um velho amigo meu, o infeliz filho da puta. Ele ainda nem avaliou o que o atingiu. Todos aqui ficam dizendo a ele que vai conseguir vencer isso, 
que  apenas mais um desafio que ele pode superar, mas no sabem que ele j no  uma pessoa completa. Sabe o que quero dizer? 
       Fowler fez um sinal afirmativo com a cabea. 
       -  uma boa maneira de colocar a coisa.  verdade, ele j no  uma pessoa completa. 
       - Cartwright gosta da vida na Casa Branca,  bom funcionrio, e est eufrico por estar de volta. Hennessy  fascinado pelo poder, pelo contato com personalidades, 
pela publicidade. Ele sorve tudo isso, e est se divertindo como nunca. Melinda vive pelo Chefe, e o pe em primeiro lugar, mas at ela faz parte do grupo do "vai 
dar-tudo-certo", 

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porque acha que ele se destruir, se no puder continuar como Presidente. Smitty est reunindo material para um livro, e precisa de mais recordaes antes de poder 
comear a escrever suas malditas memrias. 
       - E voc? 
       - Estou apavorado. Sabe com que estamos lidando? Com guerra, paz, milhes de vidas.  tarefa para um homem completo, e pode at ser difcil demais para um 
homem em perfeitas condies. A questo  mais do que a perda de viso. Sven vai demorar muitssimo at poder coordenar mentalmente as coisas, como costumava fazer. 
E todos ns talvez nos tornemos parte desse trabalho malfeito em relao ao mundo. 
       - O Presidente - o terapeuta cego comeou a falar, mas o mdico o interrompeu. 
       - Voc pensa nele como "o Presidente", com "P" maisculo, porque ele o era quando voc o conheceu. - Abelson sacudiu a cabea em frustrao. - E todo o mundo 
por aqui, os "Assistentes do Presidente", o "Conselheiro Especial", o secretrio disso ou daquilo. Eles no so nada disso: so sujeitos como voc e eu, que assumem 
cargos, e subitamente ficam muito, muito prestigiados. Voc deveria t-los visto na campanha. Assustados, admirados, animados, como eu estou agora. Voc j viu o 
ensaio de alguma pea? Minha mulher Brbara foi atriz. Nos ensaios, um ator pode estar de camiseta representando um rei. Todos os outros, os sditos, esto vestidos 
como eu agora, de jeans etc. A pessoa olha e pergunta: " esse que  rei, e isso  uma corte?" Depois, quando esto todos vestidos para os papis, maquilados, e 
as luzes se acendem, a pessoa tenta entrar no esprito da coisa, mas sabe que  tudo representao.  difcil acreditar que o ator que se viu de camiseta  um rei 
de verdade. 
       - Mas o Presidente  um Presidente de verdade - disse Fowler. - Voc sabe disso. 
       - Ele  o fulano do ensaio de camiseta, e est com o papel de Presidente, e pronto, ele  o Presidente, mas  tambm apenas um sujeito, apenas Sven Ericson, 
no um super-homem. Ele est ferido, no pode fazer seu trabalho. Por que ser que todos ns tentamos faz-lo crer que ele pode? Vou dizer-lhe por que: porque todos 
ns temos um interesse velado. Voc tambm, Hank, gostaria de ver um cego superar sua deficincia, e de representar o papel que a professora de Helen Keller desempenhou. 
No deixe que isso acontea, amigo. Pense no seu paciente. 
       - Ele no  meu paciente,  meu aluno. 
       - Isso  embromao. Todos fingimos que voc s o est ensinando a se alimentar e andar por a, mas voc  um psiclogo 

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profissional. Sua responsabilidade no  tcnica. No sou um grande mdico, Hank, mas de um mdico para outro, esse sujeito no se est dirigindo para uma dbcle? 
Que diabo vai acontecer se ele estiver na fossa e houver uma crise internacional? 
       Fowler ponderou no assunto e Abelson se calou. 
       -  um fato - disse finalmente o terapeuta - que na maioria dos casos de cegueira sbita, a um perodo de coragem e determinao se segue uma perda de vontade, 
um fraquejar que s vezes  descrito como depresso. Isso ainda no ocorreu com Ericson, e talvez nem ocorra. Mas provavelmente ocorra, e no vai demorar. Quem est 
a? 
       Melinda estava atrs deles. 
       - Qual de voc dois pode curar um resfriado? O Presidente vai receber aquele que puder. 
       Abelson foi ao Salo Oval, disse ao seu paciente para enrolar a manga da camisa, e tomou a presso sangnea de Ericson, que estava alta, mas era normal para 
ele. Enfiou um termmetro na boca do Presidente, e enquanto lhe tomava o pulso, disse: 
       - Encontrei com Buffie no Refeitrio, na hora do almoo. Ela est com teso e gostaria de saber por que eu tenho mantido vocs dois separados. 
       - Sei - disse o Presidente. 
       - Se voc quiser, eu farei com que ela v ao terceiro andar l pelas dez da noite. Sua agenda informa que voc vai jantar s sete horas com o P. G. Depende 
de voc. 
       Ericson retirou o termmetro de sob a lngua e disse: 
       - Pode mandar que ela venha - e enfiou o termmetro de volta.
       - Vai lhe fazer bem - concordou o doutor, enquanto o olhava mais atentamente. - Voc est com um resfriado ou o qu? 
       - Voc  o mdico pessoal do Presidente dos Estados Unidos - disse Ericson, retirando novamente o termmetro da bca. - Voc recebe sessenta mil dlares por 
ano dos contribuintes para saber tudo a respeito da sade do Presidente. Que diriam nas faculdades mdicas do pas se soubessem que voc acabou de perguntar se eu 
tenho um resfriado ou o qu? 
       - Ah, mas ser que eles seriam capazes de editorar uma revista mdica? 
       - Se eu pudesse ver, Herb, leria este termmetro para voc. Quer mand-lo a Bethesda? 
       - Voc est com trinta e sete e meio, est febril. Parece que est resfriado. Talvez seja o que eu tive nos dois ltimos dias. 

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De quatro em quatro horas vou dar-lhe aspirina e uma anti-histmina. Comece j. 
       O Presidente engoliu as plulas. 
       - V com calma hoje, Sven. Guarde suas energias para a noite. 
       Abelson saiu do Salo Oval. Cartwright o esperava no vestbulo e lhe pediu para entrar no seu escritrio de canto. 
       - Doutor, estou lhe falando na sua condio de mdico do Presidente, sobre um assunto que poderia afetar a sade do seu paciente - disse Cartwright formalmente. 
       - Invoca-se aqui o privilgio doutor-paciente - replicou Abelson. - Vou lev-lo comigo para a sepultura. Que  que h? 
       - No sei como lhe dizer isso, Herb - disse Cartwright desajeitadamente. - Soube de algumas coisas que o Presidente precisa saber. Vou agora contar-lhe que 
Bannerman j comeou  agir. O Secretrio Fong convocou uma reunio do Gabinete para meio-dia de segunda-feira, ou seja, daqui a quarenta e oito horas, sobre o tema 
da incapacidade do Presidente para desempenhar seus deveres do cargo. 
       - Eles tm os votos necessrios? 
       - Bannerman  um, Fong, dois, Reed, trs. Precisam de um quarto. Frangipani e o Procurador-Geral esto totalmente conosco, e o P. G. vai defender nosso caso 
na reunio. O Secretrio Curtice estava do nosso lado at hoje de manh, mas acabou de ter um encontro perturbador com o Secretrio, de Defesa, e talvez esteja vacilante. 
Acho que vai ficar conosco e a moo ser derrotada, mas ningum sabe com segurana. 
       - O fato de que eles convocaram a reunio j  uma derrota, no ? Isto , era isso que estvamos tentando evitar. 
       - Bem, volta-se  posio anterior. Mas este no  problema com o qual vou aborrec-lo. 
       - Como posso ajudar? 
       Abelson desejava que o Presidente se afastasse antes mesmo da reunio do Gabinete, mas agora que a batalha comeava a tomar forma, o mdico do Presidente 
seria um bom soldado. 
       - Seu relacionamento com o Presidente - comeou Cartwright -  ntimo e pessoal. O meu  apenas profissional. H um assunto pessoal que seria melhor voc 
discutir com ele, e no eu. Tem a ver com a adorvel jovem com quem o Presidente tem um caso. 
       Abelson esperou: isso no era da conta de Cartwright. 
       - A jovem - prosseguiu o chefe da Casa Civil -  uma fonte de preocupaes porque  um "vazamento" potencial. 

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       O mdico fez uma careta; se Cartwright soubesse como essa jovem era discreta, no se preocuparia em que ela fosse um risco para revelar segredos. O episdio 
no trem de campanha, o acidente e o dia anterior de cegueira, o abafamento do caso e a decepo que o abatera to profusamente quando ocorreu a segunda e permanente 
cegueira, tudo isso estava gravado na mente da moa, e jamais fora revelado. 
       - Voc no concorda - falou Cartwright. - Sei de fonte segura que a fotgrafa oficial do Presidente jantou num pequeno restaurante chins, h duas noites 
passadas, com o Secretrio Bannerman. O objetivo era recrutar outro membro do estafe da Casa Branca para a conspirao destinada a tirar o Presidente do cargo. 
       Abelson sentiu uma dor no corao e sentou-se, paralisado. Se Buffie trabalhava para Bannerman, ento este sabia de tudo. Estava tudo acabado. De certa forma, 
seria um alvio. 
       - Isto no  um assunto que nos deva preocupar muito - dizia Cartwright - mas  algo de que o Presidente deve ter conhecimento. Ou para esfriar a ligao 
com ela, ou para continu-la, sabendo de que lado est a moa. Voc est bem, Herb? 
       O doutor assentiu com a cabea: Depois balanou-a negativamente: ele no estava nada bem. Dariam eles a oportunidade a Ericson de renunciar honrosamente, 
ou insistiria Bannerman em revelar a "falta de sinceridade" do Presidente durante a campanha? 
       - No reaja exageradamente - disse Cartwright, que desconhecia as informaes que Abelson sabia - mas apreciaria se voc encontrasse um momento propcio para 
prevenir o Presidente contra o risco de segurana antes que ele reveja a jovem. Francamente, embora no seja da minha conta, e admito as implicaes emocionais disto, 
talvez fosse til se ele no contasse a ela que sabemos de sua traio ao Presidente. Seria uma forma til de se enviar informaes erradas por ela. 
       Abelson precisava ver Hennessy. 
       - Tenho de falar com Hennessy. 
       - Ele j vem - replicou o chefe da Casa Civil. - Vamos juntos contar ao Presidente sobre a reunio do Gabinete. Depois disso, apreciaria se voc falasse com 
o Presidente sobre o assunto pessoal. 
       - No, primeiro preciso falar com Hennessy. A ss, por favor. 
       - Como quiser - disse Cartwright friamente. - Use minha sala, vou verificar como andam as notcias sobre a tentativa de derrubada do poder. 
       Quando Hennessy chegou e viu Abelson vestido de jeans e sentado no sof, perguntou: 

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       - Que tipo de roupa  essa para se usar num fim de semana fatdico? - Depois viu a expresso sombria de Abelson e acrescentou: - Olhe, estamos numa luta, 
mas vamos vencer, anime-se. Lucas lhe falou que o problema da votao  arriscado? 
       - O problema no  esse, Hennessy. Cartwright tampouco est a par do que seja. Sou o nico que sabe o que . 
       O conselheiro especial sentou-se perto da janela. 
       - Ponha-me a par do problema. Sou advogado, meu privilgio  igual ao seu. 
       - Cartwright fica dizendo que no nos preocupemos com nada, mas Nossa Mocinha Buffie est trabalhando para Bannerman. Ela tentou recrutar um membro do estafe 
para ir trabalhar com ele na outra noite. 
       Abelson deixou que as ramificaes dessa revelao fossem absorvidas. 
       - Merda! - exclamou o conselheiro especial do Presidente. - Isso  um problema. Voc tinha razo. Puxa, meu Deus! 
       - Hennessy, voc sabe o que isso significa? Que Bannerman est com a faca e o queijo em relao ao Presidente. Significa que no adianta lutar. 
       - Voc falou com Buffie sobre isso? 
       - No, acabei de saber agora. Eu a vi no Refeitrio na hora do almoo, e devo lev-la para se encontrar com o Chefe s dez da noite. 
       - H quanto tempo Cartwright sabe? - perguntou Hennessy. 
       - Sei l. Ele no se d conta da importncia do que sabe, sobre o fato de Buffie estar a par da cegueira anterior. Bem feito, por no havermos confiado nele. 
       -  uma possibilidade que se arrisca. Acalme-se, Herb, talvez isto no seja o fim de tudo. 
       O mdico o olhou desanimado. Pensou num desenho animado de dois homens acorrentados  parede de um calabouo, e de um dizendo: "Escute meu plano". Abelson 
suspirou e perguntou: 
       - Est certo, conselheiro, onde  que est a esperana? 
       - Estou surpreso de no termos sido contatados por Bannerman - disse Hennessy. - Se eu fosse Bannerman, e tivesse o testemunho de Buffie, pediria que fosse 
declarada a incapacidade do Presidente baseado em que ele no revelou seu potencial para a cegueira antes da eleio. No me arriscaria em reunies de Gabinete. 
       - Isso  demais para mim - disse Abelson. Realmente, era demais. No obstante, era um peso que lhe tiravam das costas, de certa forma, com o fim bem prximo. 
- Voc fala com Ericson, Hennessy - disse ele, entrecortadamente. - Eu no tenho coragem. 

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O CONSELHEIRO ESPECIAL/3 

       - Deixe-me entrar sozinho primeiro - pediu Hennessy a Cartwright. - Herb no quer contar-lhe sobre a moa, por isso eu o farei, e talvez seja melhor se estivermos 
os dois sozinhos. 
       - Evidente - disse Cartwright - mas voc no pode esperar? Temos essa notificao especial de um membro do Gabinete de que o Presidente talvez seja removido 
do cargo, e  o tipo de coisa que ele deve saber imediatamente. 
       Hennessy achou que no lhe cabia ampliar o crculo das pessoas familiares com a histria da cegueira anterior. Esta era uma deciso de Ericson sobre em quem 
deveria confiar e at onde. E ele achava que o Presidente devia saber da possvel defeco de Buffie para Bannerman, para que pudesse enfrentar esse golpe, antes 
de ser atingido pelo outro. Primeiro Ericson teria de lutar contra o inesperado, depois poderia lidar com o esperado. 
       - Lucas, a ligao com Buffie no  apenas um caso ligeiro. 
       O Chefe o trata assim, mas a moa tem importncia para ele, e no seu estado atual, isso pode afet-lo seriamente. Confie em mim, no vou demorar muito, e 
depois ele estar mais em condies de falar sobre a reunio do Gabinete. 
       Cartwright aquiesceu com a cabea. 
       - Vou ficar sentado perto do telefone. 
       - Ele vai querer saber uma coisa: Bannerman est dormindo com Buffie? 
       Cartwright ficou espantado, e Hennessy reformulou a pergunta: 
       - Sei que isto parece meio fora de propsito, mas Buffie e Bannerman esto de caso? 
       - Oh, no, no! - O chefe da Casa Civil parou de abanar a cabea e acrescentou: - No que eu saiba. Creio que o relacionamento deles  de interesse mtuo, 
e ele est prometendo a ela a lua no futuro. 
       - E quem  que ela tentou recrutar do estafe? 
       - Dei minha palavra de que no diria. 
       - Homem ou mulher? 
       Cartwright no falou, e Hennessy no forou. O advogado foi at a ante-sala do Salo Oval, cumprimentou Melinda e Hank Fowler, e entrou para ver o Presidente, 
que estava no sof da pequena sala contgua ao Salo Oval, a "cabina telefnica", sozinho, escutando o Sumrio de Notcias atravs de fones de cabea. Hennessy lhe 
deu uma pancadinha no joelho e Ericson retirou os fones. 

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       - Sou eu, o conselheiro especial e assessor ntimo, e no trago muito boas notcias. Na verdade, se no fosse sbado, seria a Sexta- Feira Negra. 
       O Presidente sacudiu a cabea e disse: 
       - Eu podia ter jurado que tratei bem o reprter do Monitor. Talvez esteja perdendo a bossa. 
       - Como se sente? 
       - Estou resfriado, e anti-histaminas sempre me deprimem. 
       - Esse  o menor de seus problemas - disse Hennessy. - Tenho de p-lo a par de algo, que  uma bomba. No h tempo de suavizar a coisa, por isso prepare-se. 
       -  sobre Buffie. 
       O Presidente tinha estado preocupando-se com ela. Hennessy pensou que no era boa coisa. 
       - Como  que adivinhou? 
       O Presidente alisou o cabelo para trs, e depois literalmente se firmou nos braos da poltrona. 
       - Vamos logo. 
       - Cartwright tem informaes de que ela est de combinao com Bannerman, Eles tiveram um pequeno tte--tte na noite de anteontem. Ela tentou conseguir 
um membro do estafe da Casa Branca para passar-lhes informaes. 
       O Presidente meditou sobre isso. 
       - Buffie e Bannerman - disse finalmente. - Voc acha que  s negcio entre eles? 
       - No esto dormindo juntos, se  isso que voc quer saber - garantiu-lhe Hennessy, como se esta no tivesse sido sua primeira preocupao, conhecendo Ericson. 
- Mas isso no  importante. Vamos, concentre-se nisso. Ela sabe que voc esteve cego durante a campanha, e que ns o escondemos, e isso  bastante para botar todo 
mundo louco, agora. E ela est 'de parceria com o homem que est tentando acabar com voc. 
       - Minha primeira reao no foi essa - disse estupefato o Presidente. - Voc est certo, no estou concentrando-me no que  importante. 
       - H uma forte possibilidade de que Bannerman saiba, e ele est esperando para nos bombardear com isso amanh ou logo, logo. Tambm  possvel que ela ainda 
no tenha contado a ele, porque ele no nos procurou para exigir que voc se afastasse discretamente. 
       - Se ela est no time dele - perguntou-se o Presidente - por que no lhe contaria? 

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       - Vamos percorrer as alternativas - disse Hennessy, fazendo o que ele fazia melhor. - Primeiro: ela  apenas uma boazuda burra que no percebe a importncia 
da informao que tem. Segunda: ela  muito viva e est guardando a informao para a hora certa. Terceira: ela est jogando dos dois lados: trabalha para ele, mas 
no revela um segredo nosso, e fica bem com qualquer dos dois lados que vena. Quarta: ela gosta de voc, e lhe  difcil fazer algo que possa vir a acabar com voc. 
       - Repita as alternativas para mim - disse Ericson. Hennessy obedeceu, e o Presidente disse: - Prefiro a ltima, mas tenho um palpite que  a terceira: ela 
est jogando nos dois times. 
       Ele deu um suspiro fundo. 
       - Puxa, Hennessy, essa  dura de agentar. 
       - No fale de mulheres a um advogado de divrcios - retrucou o Hennessy, esperando dissipar a expresso arrasada do rosto do Presidente. Tentou outra coisa: 
- Como Dorothy Parker dizia, a foda que se consegue no vale a foda que se recebe. 
       - Isso  engraado - disse tristemente o Presidente. 
       -  isto que tem de ser feito agora: primeiro, precisamos descobrir se ela abriu a matraca. Voc vai dormir com ela hoje, o Herb me contou. Portanto, descubra. 
       Ericson sacudiu a cabea automaticamente. Hennessy tinha a impresso de que o Presidente, no seu estado, faria o que seu conselheiro sugerisse. 
       - Agora, Cartwright est l fora. Quer entrar para lhe contar que seu leal Gabinete est atrs do seu couro. Ele est do nosso lado, Sven, e acho que devemos 
contar-lhe sobre sua cegueira anterior. 
       - No - disse firmemente o Presidente. - J h muita gente que sabe. Ele vai falar para a mulher, que  uma espcie de CIA. Vamos manter o segredo entre os 
que sabem ou necessitam saber. 
       Hennessy reviu sua opinio sobre a maleabilidade de Ericson nesse estado. Ericson pegou o telefone. 
       - Diga ao Sr. Cartwright para entrar - ordenou  telefonista - e  Melinda tambm. 
       A Hennessy, ele disse: 
       - Vamos ao Salo Oval para isso,  como se fosse uma cerimnia formal.  o primeiro e histrico acontecimento desse tipo: a revolta do Gabinete. 
       Ele sacudiu a cabea. 

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       -  uma merda duma coisa atrs da outra: eles vo mesmo fazer a reunio. 
       Pegou o brao de Hennessy e foi dirigido at a cadeira do Presidente atrs da mesa do Presidente, perto da bandeira do Presidente. Cartwright entrou pela 
porta do vesturio e Melinda pela porta de sua sala, e quando se sentaram em redor da mesa, o Presidente disse cordialmente: 
       - Disseram-me que Buffie  agora um risco de segurana. Bom trabalho de detetive, Lucas, todos temos de tomar cuidado com o que dizemos a ela. 
       - Na verdade, podemos fazer com que isso seja uma vantagem para ns, Sr. Presidente - disse Lucas alegremente - e passar informaes erradas no momento apropriado. 
No cinema chamam isso de agente vira-casaca. Imagino que a CIA tenha uma expresso mais burocrtica. 
       - Sexo com extremo preconceito - disse Hennessy. 
       - Melinda, sempre lhe disse para no confiar naquela moa - Ericson brincou consigo mesmo - mas voc insistia que ela era uma grande fotgrafa, uma artista 
sensvel, que faria milagres para a minha imagem. 
       - Lamento t-la imposto ao senhor - disse Melinda com um esgar. Hennessy se afastou das cadeiras em redor da mesa do Presidente e se sentou no sof, para 
observar o panorama. L estavam eles, discutindo uma dona boa, e Melinda deveria estar perversamente encantada com a queda de algum que ela odiava cordial- mente, 
e Ericson magoado com a defeco poltica da mulher de que precisava para manter seu moral elevado agora, e por quem tinha afeio. Melinda provavelmente adivinhara 
o grande segredo h muito tempo, mas o conservou para si. Cartwright no sabia o significado da defeco de Buffie, apenas os pormenores, mas guardava um segredo 
para si, o fato de que Buffie estava trepando com um funcionrio do estafe da Casa Branca que fora correndo contar a notcia ao chefe da Casa Civil. Hennessy teve 
certeza da infidelidade sexual de Buffie no momento em que Cartwright se recusou a dizer se seu informante era homem ou mulher. Cartwright no contaria ao Presidente 
a promiscuidade de sua amante porque dera sua palavra  fonte, provavelmente um amigo seu. Hennessy no falaria ao Presidente sobre sua deduo porque era o tipo 
do choque elementar que poderia fazer com que um homem cego se afundasse de vez. O conselheiro especial refletiu que havia um emaranhado de gente na Ala Oeste, entre 
pessoas do mesmo lado. Certamente o outro lado estava sendo igualmente falso entre si. E havia tambm este pequeno passatempo como preldio da notificao formal 
da 

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incapacidade do Presidente. Hennessy sabia que deveria prestar ateno, pois histria estava sendo feita. 
       - Melinda est tomando notas desta reunio, Sr. Presidente - informou o chefe da Casa Civil ao executivo cego - e se houver algum comentrio que o senhor 
no deseje registrar,  s falar. 
       Hennessy achou que o assunto seria melhor que qualquer fita gravada que ele conhecia. 
       - s dez e meia da manh - declarou Cartwright - recebi um telefonema do Secretrio de Recursos Naturais, Michael Fong, para me dizer que pretendia convocar 
uma reunio do Gabinete para discutir a incapacidade do Presidente em desempenhar seus deveres, como prev a Vigsima Quinta Emenda. Ele disse que o objetivo do 
telefonema era perguntar se o Presidente Ericson se dava conta de sua incapacidade. 
       Ericson nada disse, apenas girou a cadeira para frente e para trs. 
       - O senhor h de estar lembrado, Sr. Presidente, de que j havia previsto, para mim, esse telefonema ou uma visita, e que discutimos qual deveria ser minha 
reao, na nossa reunio das cinco e quarenta e cinco de ontem  tarde. O senhor me instruiu que informasse a todos os membros do Gabinete que me abordassem, que 
no tem nenhuma inteno de se declarar incapacitado e, pelo contrrio, que no havia nenhuma incapacidade e que o senhor resistiria vigorosamente a qualquer tentativa 
de lhe usurpar o poder. 
       Ericson concordou com a cabea, e continuou a girar a cadeira. Cartwright continuou: 
       - Dei seu recado ao Secretrio Fong, e o memorando dessa conversa, que o Secretrio e eu concordamos fosse registrado, est anexado aqui. 
       Entregou um papel a Melinda e disse: 
       - Como mostra o memorando, no tentei dissuadi-lo de convocar a reunio. Deixei claro que o senhor estava certo de possuir a capacidade para lidar com quaisquer 
acusaes que surgissem quanto  sua incapacidade. Transmiti seu recado de que o senhor estava certo de que ele agia impelido por motivos patriticos, mas que estava 
profundamente mal orientado. 
       - Voc usou a expresso "mal orientado?" - perguntou o Presidente. 
       - Concordamos com ela ontem - replicou Cartwright. - Ele ento disse que lamentava muito tudo isso, e que esperava que o senhor reconsiderasse, mas que estava 
enviando uma notificao da reunio do Gabinete aos seus colegas membros do Gabinete, e ao Vice-Presidente. Disse que uma cpia dessas cartas, com uma carta 

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capeando todas elas dirigida ao senhor, me seria entregue em mos  uma hora de hoje, sbado. 
       - Agora  uma e meia - disse o Presidente, com os dedos no mostrador de seu relgio. 
       - E j estou com as cartas. A reunio foi convocada para as dez da manh de segunda-feira, aqui na Sala do Gabinete. Suponho no haver objeo a que eles 
usem a sala do Gabinete. 
       -  vontade - fez o Presidente. - Lamento no poder estar presente. 
       - Seria um interessante problema constitucional se o senhor insistisse em comparecer - disse Cartwright. - Falei com o Procurador-Geral aps o telefonema 
de Fong, e ele disse no haver nada na Vigsima Quinta Emenda que impea o seu comparecimento, mas que ele achava que seria inapropriado e inconveniente. Disse tambm 
que, ao receber sua convocao  uma hora, escreveria ao Secretrio Fong e ao senhor para dizer que considerava essa reunio de acordo com a Vigsima Quinta Emenda, 
e que pretendia combater a moo com todos os argumentos  sua disposio. Depois, como um P. S., o Procurador-Geral afirmou que achava que seu papel seria "uma 
barbada", pois isso era uma tentativa de usurpao de poder, e uma deturpao do objetivo dos elaboradores da emenda. 
       - Pelo menos algumas pessoas tm suas cabeas assentadas certo - murmurou Melinda. 
       - Mas que "barbada"! - interveio Hennessy. - O senhor vai estar com o P. G. hoje  noite para jantar, .Sr. Presidente.  melhor que lhe diga que  uma barbada 
com grandes azares. A batalha vai ser dura. 
       - Leia-me a carta de Fong - instruiu o Presidente. 
       - Foi uma evasiva astuciosa - disse Cartwright. -  uma carta a mim, para transmisso ao senhor. Eles no querem admitir que o senhor est em condies de 
compreender uma carta que lhe  dirigida. Aqui vai: "Prezado Sr. Assistente do Presidente." Nunca antes vi essa saudao. "Como uma cortesia, anexo cpias de cartas 
ao Vice-Presidente e a meus colegas membros do Gabinete, convocando uma reunio do Gabinete para as dez horas da manh de 17 de junho, na Sala do Gabinete, sobre 
o assunto da incapacidade do Presidente para desempenhar seus deveres e poderes, segundo o terceiro pargrafo da Vigsima Quinta Emenda da Constituio." Agora vem 
a estocada: "Agradeceria que o senhor procurasse comunicar o contedo das mesmas ao Presidente Ericson, com a afirmao de que eu, como todo americano, espero ansioso 
o dia em que ele possa novamente assumir os deveres e poderes da presidncia, quando se recuperar." 

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       - O sacana... - disse Hennessy. - "Procurasse comunicar" uma ova. Isso  um erro, o povo no vai gostar disso. Os truques de advogados no se bandeiam para 
jris. 
       - O senhor deve responder  carta, Sr. Presidente - disse Melinda - no Cartwright. 
       - Boa idia, Melinda - disse Hennessy. - "Como meu chefe da Casa Civil conseguiu comunicar-me sua mensagem, o senhor me faria agora a gentileza de dizer ao 
Secretrio do Tesouro, que  quem est mandando no senhor, que pegue a Vigsima Quinta Emenda e a enfie no rabo." 
       - No com essas palavras - disse Cartwright. - Mas a idia tem mrito. Uma pequena nota escrita  mo pelo senhor seria perfeito; o senhor conseguiria faz-lo 
num pedao de papel? Tente com a orientao do Dr. Fowler. 
       - Boa idia, garota - disse Hennessy para Melinda, do sof. 
       - S falta voc saber tirar fotografias. 
       - No dia em que no mais precisarmos de voc, Hennessy - replicou a secretria pessoal do Presidente - vai ser um dia feliz para mim e um grande dia para 
o pas. 
       - Chega disso - interferiu bruscamente o Presidente, tirando um leno do bolso e assoando o nariz. - S me falta isso agora, para coroar tudo: um maldito 
resfriado no nariz. 
       - H mais alguma coisa que precise dizer a ele? - perguntou Melinda a Cartwright, fazendo sinal para que eles sassem. 
       - Estou bem aqui - disse o Presidente - e no sou "ele". 
       - Costumvamos chamar meu pai de "Ele Mesmo" - retrucou Melinda. 
       - Calma, garota - fez Hennessy. - Ericson no  "Ele Mesmo". 
       - Est certo, est certo - Ericson estava irritado. -  s que est tudo vindo ao mesmo tempo. Quero ficar sozinho. Mandem Fowler aqui. 
       Melinda saiu  frente do grupo do Salo Oval, e mandou que o terapeuta cego entrasse. Os dois homens ficaram juntos  mesa da secretria, olhando pelas portas 
envidraadas, como se no estivessem dispostos a voltar a seus escritrios solitrios. 
       - Engraado que ele tenha dito aquilo - comentou Hennessy. 
       Melinda o olhou e repetiu: 
       - "Quero ficar sozinho, mandem Fowler aqui"? 
       Evidentemente tambm ela estivera matutando sobre a frase. 
       - Nunca pensei que chegaria o dia - disse Cartwright, mudando de assunto - em que eu no poderia transmitir ao Presidente 

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uma mensagem importante do diretor da Agncia Central de Inteligncia. 
       Ele levantou um dos papis que levara  sala do Presidente. 
       - Isso pode esperar - disse Melinda. 
       - Vai ter de esperar - concordou Cartwright. 
       - Que  que diz a? 
       Hennessy estava pronto para tudo. 
       - At aqui, a posio da CIA sobre a emboscada tem sido de que a armadilha foi provavelmente inspirada pelas potncias do Extremo-Oriente, para causar a ruptura 
de nossa aliana com os soviticos. Agora a Agncia de Informaes do Departamento de Defesa quer objetar contra essa avaliao. Eles dizem que as provas apontam 
para um golpe maquinado por nosso amigo Nikolayev. Se for verdade, o Presidente ter de mudar seu conceito do mundo. 
       - E o que quer o diretor da CIA? 
       - Ele quer que o Presidente saiba que a Agncia de Informaes do Departamento de Defesa estudou a avaliao da CIA, e que existe a possibilidade de que sua 
opinio minoritria seja correta. No caso de um mssil surgir aqui,  o tipo de coisa que um Presidente precisa saber como agir. 
       - O resto do mundo pode ficar quietinho por uns dois dias - sentenciou Melinda. - Temos nossos prprios problemas para resolver. 
       - Desculpe, mas voc se engana - disse-lhe Hennessy. - Lucas tem de informar isso ao Presidente daqui a mais ou menos uma hora, mesmo que o Chefe se desespere. 
       Melinda balanou a cabea e disse: 
       - O Chefe est  beira de um colapso nervoso. Todas essas notcias de hoje, e mais esse tolo resfriado podem ser a ltima gota. No, espere um pouco. Amanh 
voc pode inform-lo, contar-lhe sobre o pacote da segurana nacional. 
       - Voc est certa, mas est errada - disse Hennessy, explicando-se. De agora em diante, temos todos de agir como se o Gabinete lhe houvesse tirado a presidncia, 
e o assunto estivesse nas mos do Congresso. Eles tm trs semanas para decidir quem  Presidente, e todos ns seremos chamados para depor. 
       Hennessy deu a volta na mesa e os encarou: 
       - Estamos sob juramento, e o conselheiro da comisso dir: "Eis uma comunicao vital da CIA, que foi entregue  Casa Branca a tal hora. Quando foi transmitida 
ao Presidente? Como? Esperaram vinte e quatro horas para comunicar-lhe? Que querem dizer com sobrecarga de trabalho? Como, ele estava resfriado? Sua deciso 

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nessa hora foi que o Presidente estava incapacitado para tratar de informao to crucial? Isto no configura uma incapacidade para desempenhar seus deveres?" 
       - Voc  bom para fazer perguntas - disse Cartwright. 
       - E  melhor que voc seja bom nas respostas, Lucas. Seria bom se voc pudesse dizer: "Primeiro discuti o assunto demoradamente com o conselheiro especial 
do Presidente, solicitei esclarecimentos da CIA sobre tal e tal pontos, e depois levei o caso diretamente ao Presidente, que ordenou que os servios de informaes 
reavaliassem tudo ou fizessem o que costumam fazer nesses casos". 
       - Esse filho da puta est certo - disse Melinda, com voz cansada, a Cartwright. - Depois que ele tiver acabado de falar com Fowler, eu farei com que voc 
entre para falar-lhe. No  apenas o que faamos, mas como tudo ficaria num julgamento. 
       - E como estaremos contestando a ascenso do Vice-Presidente ao poder - lembrou Cartwright - no poderemos alegar imunidades. Sugiro que anotemos apenas nas 
nossas agendas as informaes que poderamos submeter ao Congresso sem maiores problemas. 
       - Vocs esto com cara de quem precisa de um drinque - declarou Melinda. Ela foi ao armrio de bebidas e serviu trs bourbons puros com gelo. Eles beberam 
sem fazer brindes. 


O TERAPEUTA/2 

       - O truque das flores no d certo quando se est resfriado - disse soturnamente o Presidente quando Fowler entrou no Salo Oval para sentar-se lateralmente 
 grande mesa. Dois dias antes, como parte do treinamento do desenvolvimento dos outros sentidos - para ajudar Ericson a localizar-se num aposento familiar - Fowler 
solicitara que uma jarra de rosas fosse colocada na mesa de caf, perto da lareira. A fonte do odor tornou-se um marco para o Presidente e deram-se instrues rgidas 
para que jamais se tirasse a jarra da mesa. Entretanto, como disse o Presidente, isso no adiantava quando o olfato da pessoa cega estava obstrudo por um resfriado. 
       - No se pode ganhar todas - disse Fowler, com sua voz macia. - O senhor achou que o truque do relgio lhe foi til para orientar-se? 

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       - , esse truque d certo. Desde que minha audio se conserve, ou que ningum se esquea de dar corda no relgio. 
       O paciente estava com uma disposio negativa, O "truque do. relgio" era o uso de conhecidas fontes de sons como marcos. Na mesa do Presidente, do centro 
para trs, havia um porta-caneta com um relgio pequeno e de rpida pulsao. Do outro lado da sala, perto da porta do vestbulo, haviam recentemente instalado um 
dos relgios antigos conhecidos como "relgio do vov", com um tiquetaque lento e baixo. A qualquer hora, mesmo acordando de uma soneca ou ao se virar, Ericson podia 
escutar onde estava sua mesa e a porta do vestbulo,  calcular sua distncia de cada uma delas. Se queria cumprimentar algum vindo do vestbulo, ele se dirigiria 
para a direita da fonte do tique-taque lento; se quisesse ir ao banheiro, perto da cabina telefnica, sabia que a porta estava  esquerda daquele som. E quando desejava 
assinar algo, podia escutar sua caneta. Para um visitante, o tique-taque no era perceptvel, e fazia parte do cenrio da sala. Eram meios simples e bons de ajudar 
um cego a se orientar. 
       - Como vai seu amigo do jardim? - perguntou Fowler, j que estavam falando de sons. Na vspera, o Presidente insistira em escutar o gaio azul no Jardim das 
Rosas: o pssaro discutia consigo mesmo sem parar, como o gaio num conto de Mark Twain, e acrescentava dimenso aos sons "normais". 
       - Os malditos pssaros no impressionaram o reprter do Monitor - resmungou Ericson. - Pensei que tinha conquistado o sujeito, mas ele me escapou. No gostei 
do modo como ele me perguntou coisas em voz alta, como se eu no pudesse ouvir, e talvez isso me tenha desnorteado. 
       - Isso no deveria ter sido uma surpresa - disse o terapeuta. 
       Voc sabe que gente que pode ver faz coisas assim. Foi uma das primeiras coisas que solicitei a seu estafe que fizesse: manter as vozes no tom normal. 
       - Deu muito certo com Hennessy - observou o Presidente. - Ele  um sujeito baixinho com um vozeiro, e costumava encher a sala com a, voz. Agora percebo que 
luta para mant-la baixo, e isso  anormal. 
       Ericson no queria fazer o treinamento dirio, o terapeuta o percebeu. Isso era uma mudana de comportamento; at ento, o Presidente mergulhara nos exerccios 
de treinamento, e se concentrava nos truques e nas muletas mentais que poderiam fazer com que ele convivesse bem com o incio de sua cegueira. Ericson no dera nenhuma 
oportunidade para introspeco, e Fowler no o foraria. O Presidente sabia que estava sendo ajudado na sua reabilitao 

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por um psiquiatra profissional, e no devido tempo poderia vir a utilizar-se dos talentos no-tcnicos de Fowler. 
       - Como parte do treinamento de identificao de sons - comeou Fowler - trouxe esse gravador. Tenho percorrido a Casa Branca gravando os sons que o senhor 
pode vir a ouvir durante um dia normal. O jogar de envelopes numa mesa, o ar condicionado, o som que um agente do Servio Secreto faz ao andar, comparado ao som 
de uma secretria andando. O senhor ficaria surpreso como... 
       - Hoje, no, Hank. Vamos s conversar. 
       O terapeuta escutou a respirao ofegante de Ericson por algum tempo, at que o Presidente disse: 
       - Olhe, estou pensando em atirar a toalha. 
       Fowler esperou. 
       - Ainda no discuti o assunto com ningum, e voc deve manter o sigilo, mas talvez eu deva mandar tudo pro diabo. Tenho a sensao de que tudo me est encurralando. 
       - Poxa, j era tempo de o senhor ter uma depresso! - reanimou-o Fowler. - Estava comeando a pensar que o senhor era biruta. 
       Fowler aguardou, no silncio que se seguiu, que o Presidente prosseguisse. 
       - Se voc pudesse ver, Hank, e se eu pudesse olh-lo, voc estaria vendo meu olhar desconfiado para voc. Que diabos quer dizer com isso? 
       - A coisa que mais me preocupou na coletiva  imprensa, e at no livro de informaes que o ajudou a preparar-se para ela, foi sua conversa sobre a melhora 
de sua viso. Se o senhor acreditasse nisso, estaria numa enrascada. 
       O Presidente usou a ttica do silncio com ele, o que mostrou que estava aprendendo e Fowler continuou: 
       - Isto , a maioria das pessoas cegas se agarra  idia de que sua viso logo voltar, e que a soluo est prxima. Recusam-se a enfrentar o fato de que 
jamais voltaro a enxergar. Perguntei-me se era isso que o senhor estava fazendo, fugindo da realidade. 
       - No havia percebido - disse calmamente o Presidente - que a maior parte das pessoas acha que ser cego  ver tudo preto. Desde o momento em que voltei a 
mim depois da emboscada, pude perceber alguma luz e cores diferentes. Por isso achei que tinha havido uma melhora, para dar ao pblico alguma esperana e conseguir 
um pouquinho de tempo para mim mesmo. Eu estava mentindo, mas no para mim. 

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       - Deduzi isso, quando o oftalmologista no soube o que dizer. 
       Fowler sorriu  lembrana da perplexidade do oftalmologista. 
       - Para muitas das pessoas,  arrasador quando se do conta de sua cegueira. 
       - Eu j me dei conta - disse o Presidente. 
       - J mesmo? Eis um teste: quanto tempo o senhor vai ficar cego? 
       - Como diabos vou saber, no sou oftalmologista! - A cadeira do Presidente fez sons de que estava sendo movida: - Quanto tempo voc vai ficar cego, Hank? 
       - Vou ser cego pelo resto da vida. 
       As palavras ficaram no ar. 
       - Vejo o que quer dizer.  uma coisa difcil para ser pronunciada. 
       - Bem? - perguntou o terapeuta. 
       Em voz firme, o Presidente afirmou: 
       - Vou ser cego pelo resto da vida. 
       - E tambm produtivo, se o senhor quiser - acrescentou rapidamente Fowler. - No caso de o senhor estar curioso sobre por que prefere o relgio sonar em detrimento 
da bengala de Hoover, ou por que no quer um co-guia, tudo faz parte de sua natural rejeio  idia de ser cego. O senhor no quer usar os smbolos dos cegos. 
Depois que tiver confrontado plenamente a idia, vai querer utilizar toda a ajuda de que puder dispor, para tornar-se mais mbil. 
       - Voc pode estar certo quanto  bengala, mas sempre preferi gatos a ces, se fosse para eu ter um animal aqui. Responda-me isto, Hank: o que o assusta mais? 
       - Perder a audio - respondeu o terapeuta. - Se eu no pudesse ouvir, seria a mesma coisa que um legume. 
       -  - disse Ericson. - Essa foi a primeira coisa em que pensei, depois que o truque do relgio funcionou. Que mais o assusta? 
       - Presidente Ericson - disse suavemente Fowler - isso no est no mesmo nvel dos truques. O senhor me est fazendo perguntas na minha condio de psiclogo 
profissional, um especialista na adaptao mental dos recm-privados de viso.  exatamente isso que todo mundo na Casa Branca me diz para esquecer. Estou aqui apenas 
porque sou a bengala mais rpida do oeste. [nota *. Aluso aos famosos cowboys americanos. (N. da T.)] 
       - Deixe isso, no tenho tempo para deitar-me num sof e contar-lhe a histria de minha vida. Antes eu podia ver, e agora estou cego.

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Hoje de manh, achava que podia resistir a tudo, e agora,  tarde, penso em renunciar  Presidncia. Voc pode me ajudar ou a o? 
       - Claro, pode usar-me  vontade. 
       Fowler teria de esperar para fazer perguntas; agora, seu paciente precisava de apoio imediato. 
       - Essa sensao que tenho no  uma depresso,  como uma desolao. Estou numa armadilha. Voc diz que essa reao  normal, que vai passar? Logo, logo voltarei 
a ser eu mesmo, etc, etc.? 
       - No disse isso - respondeu Fowler, - Tudo que eu disse foi que depois da percepo, vem a depresso, na maioria dos casos Depois a pessoa cega se recupera 
em parte, ou no. De qualquer forma, ela jamais volta a ser o que era, o modo que se sabia ser. Sua auto-imagem precisa mudar. 
       - No comece com sua cantilena - retrucou rpido o Presidente. - Por que no consigo dormir  noite, e por que preciso tirar uma soneca  tarde, como um velho? 
       - O senhor ainda no formou o hbito de dormir segundo a hora, o senhor continua a dormir segundo a luz. Isso  normal. Os vigias noturnos aprendem a ter 
sono de manh e no  note, em questo de semanas. 
       - Por que me sinto, de forma geral, to mal? Recuperei-me fisicamente, fao exerccios todas as manhs, mas nunca me senti to podre na vida. 
       - Tenso emocional constante resulta em perda do tono corporal - respondeu rapidamente Fowler. Estas eram as perguntas-padro. - Quando o senhor dominar a 
tenso mental, seu corpo se sentir melhor. A propsito, nunca se consegue superar inteiramente a tenso mental: sempre se tem de estar mais alerta do que todos. 
Precisa-se exercitar os outros sentidos, e isso desgasta. 
       - Boa explicao - disse Ericson. - Voc faz sentido. Quando isso lhe aconteceu, quando voc ficou cego, teve problemas para tomar decises? 
       Fowler resolveu que j era hora de ser firme. 
       - O senhor no est falando apenas com uma pessoa cega, Sr. Presidente, partilhando uma experincia comum. O senhor est falando com algum a quem chamam 
de "dissecador de crebros", com um profissional, que cobra cinqenta dlares a hora, e que conhece as reaes de milhares de pessoas nessas circunstncias. 
       - Perdoe-me, Dr. Fowler - disse o Presidente - mas por que o senhor est encontrando dificuldades para responder  minha pergunta? 

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       Fowler resolveu rapidamente que no era a hora para ser muito firme, e talvez fosse melhor dar ao Presidente as respostas que ele queria. 
       - No incio tive realmente problemas de tomar decises - disse o terapeuta - parcialmente porque eu fora destrudo e no confiava em mim mesmo, e parcialmente 
porque minha famlia e meus amigos comearam a tomar todas as decises por mim. Eles sempre dependeram de mim, e sempre se ressentiram disso um pouquinho, e agora 
o papel fora invertido, e gostavam disso. Comecei a fraquejar e a deix-los fazer o que quisessem com minha vida. A me rebelei e busquei a ajuda de um psiquiatra, 
e consegui voltar, a estruturar meu ego e minha capacidade de tomar decises. 
       -  isso o que est acontecendo aqui? Hennessy e Melinda tm sido espetaculares, mas tenho uma sensao esquisita de que esto tendo um perverso efeito estimulante 
com meu problema, e no gosto disso.
       - O que nos leva  prxima pergunta - disse Fowler, pois havia escutado, sem querer, algumas conversas perto do Salo Oval, travadas entre pessoas que achavam 
que cegos no escutavam - e tem a ver com sexo. A resposta  que, pelo menos nas duas prximas semanas, o sexo  mais importante do que em qualquer outra poca de 
sua vida. 
       - Graas a Deus! - exclamou Ericson - Pensei ter perdido todo o sentido de prioridades. Se h algo que um Presidente deve ter,  uma noo do que vem em primeiro 
lugar. H poucos minutos, me informaram sobre uma reunio de Gabinete para me derrubar do cargo. Eu me dizia que a coisa mais importante de que me devia lembrar 
era o bem-estar a longo prazo do pas, e a segunda mais importante era a estabilidade da presidncia. Mas me lembrei muito de uma moa, e me perguntei se ela me 
estaria evitando, e se eu seria capaz de ser o mesmo com ela. E na verdade ela no me  to importante assim, Hank. Ela era um divertimento, alguma coisa que me 
transmitia juventude, voc compreende. Agora ela  importante. Talvez fosse importante antes para mim, e eu no o soubesse, mas duvido. E h uma falta de prioridades 
mesmo dentro da minha falta de prioridades. 
       Fowler resmungou, para mostrar que continuava ali. Ericson estava comeando a dirigir as perguntas a si prprio e no ao terapeuta, o que era um bom sinal. 
       - Essa moa... ela  Buffie, a fotgrafa, e isso no  nenhum segredo... tem uma importncia poltica, algo que ela sabe e algo que est fazendo. Ms no estou 
nem preocupado com isso. Estou preocupado se ela vai trepar com outro sujeito, ou se vai mudar em relao a mim. Isso me diria que j no sou Sven Ericson, e 

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apenas um homem cego de quarenta e oito anos que deixou de precisar dela. Conheo essa moa, e vou admitir isso para voc, o que nunca admiti nem mesmo para mim: 
gosto um bocado de controlar a vida dela, e nosso relacionamento. Um dos pegas que eu tinha com ela era que ela achava que eu nunca precisava dela, que a qualquer 
hora havia mais uma poro de moas tendo casos comigo, mais inteligentes e mais bonitas do que ela. Bem, agora realmente preciso dela, e se lhe disser isso, eu 
a perderei, e se a perder...
       - Ter perdido sua atrao pelas mulheres? Sua masculinidade? Deixe disso, essa reao  to previsvel que o senhor deveria poder afast-la sem nenhum problema. 
       - Vou ter mais relacionamentos sexuais do que nunca, bem no meio de todas as espcies de crises, e no vou ter remorso algum - anunciou Ericson, com espcie 
de determinao despreocupada. 
       Agora que o moral de Ericson estava elevado, Fowler fez a pergunta que julgava central  situao: 
       - O senhor precisa do cargo? 
       - O cargo precisa de mim - respondeu o Presidente precipitadamente. Evidentemente, ele no estava preparado para explorar as reas sensveis de suas prprias 
necessidades de poder, e de como elas aumentaram durante sua perda de viso. 
       - Mesmo cego, posso trabalhar melhor do que Nicholas e Bannerman. O cargo precisa de mim muitssimo mais do que eu dele, no se esquea nunca disto, Hank. 
       O mdico lanou um dardo. 
       - Suas palavras me dizem uma coisa, Sr. Presidente, mas sua hostilidade me diz outra. 
       Pausa. 
       - Est certo. Que  que estou pensando mesmo? 
       - Este no  um jogo teleptico, senhor. O que  importante  que o senhor sabe o que est pensando. 
       - Hank, muitos amigos meus tm se consultado com psiquiatras, inclusive minha mulher, sobre quem no pretendo falar. 
       Fowler sabia, atravs de Hennessy, que a mulher de quem Ericson se divorciaria, suicidara-se logo aps o divrcio ser concedido, e apesar de isso ter sido 
devidamente noticiado, esse era um assunto que Ericson jamais discutia com ningum. 
       - O truque  que o paciente fala at fazer todas essas incrveis descobertas sobre o que houve de errado no seu cercado de criana. H um sbito claro de 
percepo ntima, e o problema se resolve apenas porque a prpria pessoa o resolveu. A jogada no  essa? 

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Bem, acontece que, na minha situao, no tenho tempo para ela. Se voc tem algo a dizer-me sobre mim mesmo que me possa ser til, v dizendo, porque  agora que 
preciso saber. 
       - Eles me expulsariam da Associao - disse Fowler, para aliviar o tom da conversa. Ericson estava no caminho de uma sria auto-anlise, num processo bastante 
normal de neg-la com grande determinao e o analista estava satisfeito. 
       - O senhor resolveu largar o cargo ou no? 
       - Voc est maluco, Hank? S disse aquilo para ver sua reao.  assim que Presidentes incentivam o debate livre. Na verdade, Dr. Fowler, alegro-me por termos 
tido essa conversinha. Procure-me a qualquer hora com seus problemas. Veja se consegue animar alguns dos desanimados por aqui, e tenha um papo srio com Herb Abelson. 
       Ele tocou um boto debaixo da mesa: Melinda enfiou a cabea na sala, e perguntou-lhe o que queria. Fowler observou que Ericson preferia tratar por telefone 
com todas as pessoas, mas inclinava-se a chamar Melinda pessoalmente. 
       - Diga a Hennessy que eu gostaria que ele comparecesse ao jantar de hoje  noite com P. G. E mande Marilee aqui, depressa. 
       Fowler podia sentir a expresso carrancuda de Melinda. 
       - Cartwright precisa v-lo imediatamente. 
       - Est bem, depois de Marilee. 
       O Presidente rodou a cadeira em direo ao terapeuta. 
       - Essas depresses, que voc afirma serem normais, quanto tempo duram? 
       - Em algum de ego forte, umas duas semanas. Em seguida se forma uma personalidade substituta, que enfrenta as novas circunstncias. A antiga auto-imagem 
desaparece... No, assim no. O senhor ter tambm momentos de euforia, como ainda h pouco. 
       - Voc  um bom mdico, Hank, mas isso no  euforia. Esquea aqueles receios momentneos de h pouco. Eu s vezes fico meio rabugento quando estou resfriado. 
       Marilee, a substituta de Smitty, surgiu na sala. Fowler observou que ningum jamais batia  porta do Salo Oval. A teoria era que, se a pessoa no era esperada 
nem tivesse sido convidada a entrar, no estaria l. Os membros rio estafe entravam de modo diferente: apressadamente, como Hennessy, respeitosamente, com Cartwright, 
relutantemente, como Melinda, ou reverencialmente, como Marilee. 
       - Faa-me um favor - disse-lhe o Presidente. - Pegue cem dlares de Herb Abelson. V  Garfinkle's, ou a outra loja qualquer, e compre um vidro de Ma Griffe. 
Depois compre uma boa echarpe 

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de seda e embrulhe o perfume nela. Quando Melinda no estiver olhando, ponha na mesa dela. Hoje  seu aniversrio. 
       Marilee sorriu afetadamente e exclamou "sei!" e saiu para executar o servio. 
       - Foi um gesto delicado para Melinda - disse Fowler - mas no acha que  um pouco humilhante para a mulher que  substituta do Secretrio de Imprensa? 
       -  impossvel humilhar Marilee - disse o Presidente, com admirao. - Ela sabe que gosto dela, mas no sabe quanto. Nem eu sei. 
       Fowler observou que estava surpreso que o Presidente soubesse o perfume a comprar, e Ericson o surpreendeu tambm: 
       - Sou um perito em perfumes. Quando eu era garoto, no exrcito na Coria, imaginei um meio de ganhar dinheiro Comprei todas as principais marcas de perfume 
francs e paguei baratssimo no Reembolsvel local. Embarquei tudo para um amigo nos Estados Unidos, como pacotes do exrcito isentos de taxa, e ele vendeu tudo 
por cerca de vinte por cento menos que nas lojas. Ganhei alguns milhares de dlares quando mais os necessitava, e me tornei um perito em todos os perfumes. 
       - O senhor sabe diferen-los? 
       - Evidente,  apenas questo de treinar o olfato, doutor. E uso uma ajuda mnemnica para me lembrar: Ma Griffe significa "Minhas muletas", que  a Melinda. 
       Fowler aliviou sua tenso com uma risada. 
       - Voc provavelmente se admira por eu ficar brincando com bobagens quando algumas pessoas pensam que o mundo se est acabando - disse o Presidente. - Ao usar 
Marilee como usei, fortaleo seu relacionamento com Melinda, o que me d controle mais firme das operaes da imprensa. Ao ser gentil com Melinda quando ela menos 
o espera, a farei minha escrava por um ms, e esta  justamente a, ocasio em que eu preciso de uma escrava. Tambm  uma prova, se houver necessidade de demonstr-la, 
de minha considerao, e o tipo de prova, que faria o maior sucesso com as mulheres do pas. 
       - Eu me enganei - disse Fowler - julguei que o senhor estivesse sendo um bom sujeito.
       - Vou lhe dizer algo para o livro que voc vai escrever algum dia, contrariando a tica mdica, sobre como salvou o Presidente. As trivialidades so muito 
importantes quando as grandes coisas esto em marcha. Quando nada est acontecendo, a pessoa tende a se perder em grandes pensamentos; quando tudo est acontecendo 
ao mesmo tempo, tende-se a pensar sobre coisas pequenas e insignificantes.

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 uma forma de manter contato com o familiar. Coloque isso no seu captulo acerca dos modos de se estabelecer segurana. 
       Fowler sacudiu a cabea: 
       - Estou sacudindo a cabea - informou. - Em troca, gostaria de lhe dar uns conselhos polticos, mas no consigo pensar em nenhum. 
       - Voc vai conseguir. Provavelmente sero bons. Poltica  a arte de parecer confiante enquanto se est engatinhando no escuro. Olhe, vamos esquecer o treinamento 
com sons hoje, est certo? Cartwright tem algo importante para me dizer. Voc continue a coletar todos os barulhos, estalos e coisas que acontecem por aqui em seu 
gravador, e amanh ns os estudaremos. Depois da igreja. Sim, este  um bom domingo para ir  igreja.  melhor, contudo, voc no gravar mais nada: o ltimo sujeito 
que fez isso aqui se deu mal. 
       O telefone ao lado da mesa emitiu trs rudos agudos e Ericson o tirou do gancho. 
       - Sim, Hennessy, estou ouvindo. 
       Depois de um momento: 
       - Isso no  meio melodramtico? 
       Mais um momento: 
       - Tambm gosto disso. Vamos adiante. Voc fale com Herb Abelson e faa com que ele a entregue s nove em ponto. Em ponto, e depois Herb parte imediatamente. 
Meu quarto de dormir d para o Salo de Estar Oval. Diga ao mordomo que jantarei l. 
       Pausa: 
       - Diga isso agora ao P. G., para que ele possa planejar sua agenda, e ns o lembraremos ao jantar de que ser ouvido secretamente a comear das nove. Voc 
 um cmplice sacana, Hennessy.. Qual  o segundo tpico? 
       Longa pausa. 
       - Voc no precisa lembrar-me, farei o possvel para descobrir. Terceiro assunto? 
       Longa pausa. 
       - No sabia disso. No, acho que no devemos, isso  uma idiotice. Eles devem saber acerca da possibilidade de exonerao, devem querer que eu entre em pnico. 
Diga, porm, ao P. G. que vamos pensar no, caso, e que isso talvez seja um dos tpicos a discutir depois das nove horas. Est bem, mas certifique-se de que Herb 
a entregue na hora. 
       Ele desligou o telefone e Contou a Fowler parte da conversa, que o terapeuta sups fosse um esforo para demonstrar que confiavam nele. 

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       - O P G. e Hennessy estiveram estudando a lei. Parece que eu tenho poderes de demitir qualquer membro do Gabinete, ou todos eles, entre agora e a hora da 
reunio. A Vigsima Quinta Emenda no incluiu essa possibilidade. 
       - Eu pensei que o grupo da derrubada do cargo tivesse pensado nisso - disse Fowler. - Poderiam ter convocado a reunio apressadamente. 
       - Por isso acho que  uma jogada furada - concordou o Presidente. - Eles gostariam que eu tentasse exoner-los. Isso estaria diretamente contra o esprito 
da emenda, e constituiria prova de que desejo permanecer no poder a todo o custo. E o povo americano no admite truques obtusos assim. Se eu fizesse isso, o episdio 
seria chamado de "O Massacre da Noite de Domingo". Haveria uma moo para o seu impedimento... sem razes fundamentadas, sem haver cometido nenhum crime. . mas fomentaria 
a agitao. No, tenho de permitir que se realize a reunio do Gabinete, mas no meio tempo posso perguntar Bannerman um bocado. 
       Fowler pde sentir o sorriso de Ericson. 
       - Esse Hennessy  mesmo um sacana! 


A FOTGRAFA OFICIAL/3 
       
       Deitada na cama do Presidente, Buffie podia ouvir vozes abafadas no Salo de Estar Oval - a "sala amarela" - ao lado. Podia tambm escutar os movimentos de 
um relgio na mesa de cabeceira com o telefone, o que lhe pareceu estranho - ela achava que todos os relgios agora eram eltricos - e um rdio porttil tocando 
baixinho na sala, perto da poltrona. Herb Abelson a levara ao quarto de Ericson, e lhe dissera sem jeito: 
       - Ele est tendo uma reunio durante o jantar com o P. G. e Hennessy, mas no se preocupe, a porta est sempre trancada, e o nico meio de se chegar ao quarto 
 pela porta do vestbulo. Ele no sabe quanto tempo vai durar a reunio, mas disse para voc ficar aqui, que ele pode dar umas chegadinhas. 
       Ela sorriu, e saiu da cama para procurar em uma das gavetas o longo cardig de cachemira do Presidente. Balanou-o na ponta dos dedos, posou nua em frente 
ao espelho de corpo inteiro, e depois balanou a cabea, aborrecida porque ele no podia ver nada. No era nem preciso iluminar o quarto. O abajur era para uso dos 
convidados. 
       Esta no era a primeira vez em que eles cumpriam a rotina do jantar no salo de estar. Quando a administrao se estava formando, 

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e reunies tardias aconteciam quase todas as noites, ele realizava uma reunio l, vinha t-la durante um intervalo sexual de vinte minutos, e depois voltava  reunio 
calmo, retemperado, sem tenso, e finalmente voltava e a encontrava adormecida, querendo ser acordada. Tinham sido perodos timos, e a excitao se fundia: nunca 
se sabia se se estava no auge devido ao que se acabara de fazer, pelo que se estava fazendo, ou pelo que se iria fazer. 
       Ela vestiu o suter dele, e perguntou-se como seria para ele, agora, a cama. Ele gostava de contempl-la, e ela sempre refinara ao mximo, ao se movimentar 
em liberdade absoluta, e fazendo poses graciosas e acrobticas, que o ajudavam a preparar um lbum de gravuras mentais. Isto j no era possvel, e ela esperava 
que ele conservasse as velhas imagens vvidas na mente. J no era preciso o espelho. Ela franziu o cenho, recordando das posies que ele a fazia adotar, para que 
pudesse fazer e observar ao mesmo tempo. O fato de ser cego significaria que ele teria prazeres diferentes? Dizem que o tato melhora; estaria ele sentindo mais, 
atravs das pontas dos dedos? 
       Vozes. Buffie tinha um trabalho para fazer depois da hora, e talvez pudesse ouvir algo til. Desligou o abajur, sentou-se de pernas cruzadas junto  porta 
da sala do desjejum, e pelo espao mnimo da parte inferior da porta, conseguia escutar quase toda a conversa. 
       - ... no h razo por que no possamos faz-lo - a voz de Hennessy trovejava. - Ns os exoneraremos antes que eles tenham ocasio de se reunir. Cortamos 
o mal pela raiz. Olhem, esperemos at o ltimo minuto. Na segunda de manh, Bannerman vem  Casa Branca, para a reunio, Cartwright lhe entrega um envelope onde 
diz que ele foi exonerado e que seu substituto foi nomeado Secretrio do Tesouro. Que  que Bannerman vai fazer? Berrar como um porco ferido, mas perde o direito 
de participar da reunio. No , Emmett? 
       Uma voz profunda e ligeiramente sulista que Buffie no reconheceu, disse: 
       - No haveria dvidas sobre a deciso. A emenda cita "os 
       principais funcionrios dos departamentos executivos". Se um homem foi exonerado cinco minutos antes da reunio, no tem nenhum papel a cumprir nela. O cargo 
estaria vago e seria ocupado pelo chefe interino do departamento, que seria ento a pessoa a dar o voto. O exonerado, porm, no participaria mesmo. 
       - S decidiremos no ltimo minuto - disse o Presidente. - Hennessy, faa com que os envelopes estejam prontos. Eu lhe direi o que fazer quando Bannerman e 
Fong chegarem na segunda de manh. 

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       O Secretrio Bannerman adoraria saber disso. Buffie escutava uma poro de conversas jurdicas difceis de acompanhar, e ento o papo tratou de personalidades 
que ela conhecia. 
       - Bannerman julga ter o Secretrio de Defesa do seu lado - disse Hennessy - Sabemos que no  bem assim. Os meninos l de Wall Street esto trabalhando nele, 
e est comeando a ceder. Talvez Bannerman possa exercer alguma presso de Wall Street para escorar Preston Reed, mas a no ser que ele o faa, o voto da Defesa 
vai oscilar para o Presidente. 
       - No sei por que vocs esto to preocupados - disse a voz de Ericson. - O Vice-Presidente estar l. Mesmo se perdermos no Gabinete, o que no vai acontecer, 
ele tem o poder de vetar a deciso do Gabinete no sentido de que ele assuma a Presidncia. E o Vice- Presidente Nichols me garantiu pessoalmente que vetaria qualquer 
tentativa de minha derrubada, exceto se fosse unnime. Acontece que ele no disse isso a Bannerman. Roy Bannerman vai tomar um grande choque se acha que j ganhou. 
       - Quais os trs pontos que devem resumir esta nossa reunio? - perguntou Hennessy em sua voz alta, de tribunal. Buffie podia ouvi-lo perto da porta, e concentrou-se 
no resumo: Primeiro: estamos prontos para surpreender Bannerman com exoneraes quando ele chegar, segunda de manh. Segundo: vamos manter a presso sobre Reed, 
e Bannerman no  bastante ousado para aplicar a contrapresso de Wall Street. E terceiro: no dizemos nada a ningum sobre o Vice-Presidente, que est pronto para 
trair Bannerman, se necessrio. 
       Depois disso houve mais alguma conversa, que impressionou pouco Buffie, que repetiu os trs pontos para no os esquecer. Quando ouviu as cadeiras na sala 
de desjejum rasparem o cho, tirou a cachemira de Ericson e se enfiou debaixo dos lenis. 
       Ele bateu uma vez, abriu a porta do vestbulo e a fechou silenciosamente. 
       - Al, Pdeu!  s intervalo? 
       - No, a reunio acabou. Tenho a noite livre. 
       - Apaguei a luz - disse ela - especialmente para voc. 
       Ela viu o corpo dele dirigir-se  poltrona, onde ele depositou o palet, a camisa e as calas. Sentou-se na beira da cama para tirar os sapatos e chegou a 
ela. 
       - Voc sabe andar direitinho neste quarto - disse ela. Eu j teria dado uma topada. 
       - Quando as luzes esto apagadas, ns dois estamos em igualdade de condies. 

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       Ele jogou o lenol para trs e sua mo contornou-lhe os seios. Depois as duas mos percorreram o corpo dela, que teve a sensao de estar sendo estudada no 
escuro. 
       - Pdeu, voc est preocupado? Eles vo tirar voc daqui? 
       Ele a afastou para o lado e subiu na cama. 
       - Claro que estou preocupado, mas no tanto como Bannerman. Hennessy e o P. G., com quem eu estive agora, j resolveram tudo. Mas h um assunto externo que 
 meio srio. Acho que voc est engordando. 
       Ela achou que estava ficando com remorso porque no gostou da sensao que experimentava. No passado, Ericson a usara e brincara com ela, e tirara tudo que 
um homem pode tirar de uma mulher, mas jamais a maltratara, nem deliberadamente a humilhara ou tentara impor-lhe suas maneiras. Uma sensao incmoda lhe dizia que 
ele no merecia o que lhe estavam fazendo, pelo menos, no da parte dela. Nunca antes ela jogara dos dois lados, e talvez nunca voltasse a faz-lo. Ela desejou poder 
compens-lo. 
       - Voc tem me evitado, Pdeu. Est com outra namorada? 
       Ele nunca respondia a isso, nem ela esperava que o fizesse, mas sabia que ele gostava de pensar que ela estava com cimes. Ele ps-lhe a mo no umbigo, o 
que sempre a excitava. Ela foi para baixo dele e reagiu a princpio ternamente, depois selvagemente. Durante quarenta minutos, segundo o marcador luminoso do velho 
relgio de tique-taque da mesa de cabeceira, ela rolou em cima dele, saltou, contorceu-se sob ele, acariciou-o e inesperadamente, porque tencionava rimeiro fazer 
com que ele chegasse ao orgasmo, gritou aliviada, um lamento longo, fino e entrecortado, como se emitido pela terceira pessoa entre eles. Ela no sabia se ele terminara 
ou no; ia perguntar-lhe, mas deitou-se de novo, exausta. Para variar, ele no fez nenhuma fria observao sobre o desempenho. Ela esperava que ele a beijasse, mas 
isso no era do seu feitio, por isso ela o beijou. 
       - Isso nunca me ocorreu antes - disse-lhe ela. O que era mentira, mas que no fazia mal em dizer. Ela queria que fosse verdade. Ele nada disse e ela sabia 
que ele no acreditara. 
       - Na verdade, aconteceu quatro vezes antes - disse ela clinicamente, para recuperar-se - mas nunca na capital da nao. 
       Ericson ajeitou-a do modo que gostava, no seu colo, enquanto ele se apoiava no espaldar da cama, de onde podia tocar-lhe a nudez quando desejasse, da mesma 
forma que gostava de olh-la. Ela sabia que ele no acreditara, acerca do orgasmo. 
       - Pra dizer a verdade, eu sou sempre assim com vocs, caras cegos - acrescentou ela, o que o fez rir. 

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       Ela encontrou a curva do queixo dele que se enquadrava na curva do seu prprio nariz e testa, e dormiu algum tempo contra ele, o que s fazia com Ericson. 
Geralmente, quando acabava de fazer amor, ela se transformava num tatu, com a espinha virada para dentro e os cotovelos protetores. Ela sabia que ele gostava que 
os dois dormissem juntinhos, que ela ficasse de pernas abertas, vulnervel, e que ele costumava ficar acordado enquanto ela dormia uma meia hora. 
       Depois de algum tempo ela acordou, quando Ericson tirou o brao e saiu da cama para beber gua no banheiro escuro. Ele saiu, ,movimentando-se agilmente entre 
as sombras, em volta da cama, at a janela, e depois se sentou na poltrona. Buffie tambm saltou da cama, tateou para achar o suter dele, vestiu-o e sentou-se aos 
seus ps, segurando-lhe as pernas. 
       - Voc est ficando notvago - disse ela. - Movimenta-se no escuro como um gato. Voc tem uma vantagem  noite. 
       - S consigo dormir tarde - disse ele, com a mo nos cabelos dela. - Hoje deve ser melhor. 
       - Voc no deve pensar em perder o cargo - disse ela. - Se acontecer, aconteceu, e no seria por muito tempo, voc logo voltaria. 
       - No, quando se sai,  definitivo. No h retorno. Voc continuaria comigo, Buffie? 
       Ele fez a pergunta com um tom de sarcasmo que ela no gostou. Ela cruzou as pernas, pegou um p dele, e comeou a massage-lo lentamente, separando os ossos, 
fazendo com que cada dedo se sentisse um s e no parte do p, e no respondeu. Passou cerca de cinco minutos com esse p comprido e ossudo, e depois o descansou 
no ombro, e pegou o outro p que estava no seu ciclo. 
       - Derrota - disse ele, aps certo tempo. Longa pausa. - No  muita gente que sabe como enfrent-la. 
       Ela torceu-lhe o dedo. 
       - Ui! - exclamou ele, provavelmente com um sorriso idiota - mas como  que se transforma derrota em vitria? 
       - Voc no analisou o que estou fazendo - disse ela. - Estou lhe dando esse prazer fantstico no porque voc queira, mas porque eu quero.  uma forma de 
expresso que voc jamais entender. 
       - Continue expressando-se - disse ele. - Faz com que eu me sinta um rei. Deve um Presidente sentir-se um rei? Acho que no. Portanto, o que estamos fazendo 
 errado. 
       Ela notou que as unhas dos dedos dos ps dele estavam compridas. 

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       - Qual foi a ltima vez em que fiz as unhas de seus ps? 
       Ele jamais tratara dos ps antes que ela, na segunda ou terceira noite que passaram juntos, os tivesse tratado. Poucos homens cuidavam disso, e a viso de 
uma mulher liberada cuidadosamente cortando-lhes as unhas dos ps dava  maioria dos homens sensaes de domnio, de que elas poderiam ser facilmente controladas. 
       - Logo depois da posse, aqui mesmo nesta cadeira - recordou-se ele. - Voc me tirou um bife do dedinho, lembra-se? Foi sangue por todo o lado. Chega de tratar 
dos ps. 
       Ele se calou. Provavelmente pensava o mesmo que ela: que cortar unhas agora, sem poder ver, seria difcil para ele. 
       - Bem, pelo menos no vou mais tratar-me com pedicuras amadoras. 
       - Pense sempre em mim como amadora - sorriu ela. - Como fotgrafa uma profissional,  claro, mas como amadora em todas as outras coisas. 
       - Onde diabos voc se meteu na noite da coletiva  imprensa? Eu podia ter precisado de voc. 
       Ela parou de mexer no segundo p, e retirou o outro do ombro. 
       - No dependa muito de mim, Pdeu. Sou livre, compreende? Quando estou com voc,  porque quero estar. - Ela achou que poderia ser mais gentil, e acrescentou: 
H vezes em que preciso ficar s. Voc sabe que dou longos passeios a p. 
       - Isso  perigoso por aqui.
       - Ningum vai me violentar, eu ando com um enorme alfinete. 
       Ficaram calados uns momentos. 
       - Quando Harry Bok estava aqui - disse ela - havia um agente designado para me vigiar  noite. Eu detestava aquilo, Pdeu. No era para me proteger, era para 
proteger voc. Era para espionar a sua propriedade. 
       - Harry fez isso? Ele nunca me disse. 
       Ela pegou no p dele, e puxou gentilmente o dedo at que ele estalou. Isso lhe lembrou o que tinha de dizer a Bannerman: as cartas exonerando os membros 
do Gabinete quando eles chegassem na segunda de manh. Ela estalou o segundo dedo: isso era em nome da presso de Wall Street sobre Reed, o Secretrio de Defesa 
Puxou o terceiro dedo, que no estalou. Ela desistiu e tentou o quarto dedo, que estalou. Isso lhe recordou a possibilidade de uma traio a Bannerman pelo Vice-Presidente, 
depois que o Gabinete houvesse votado. Trs estalos, trs pontos para contar a Bannerman quando ela lhe telefonasse amanh. Ela agora se sentia menos culpada quanto 
 sua deslealdade. 

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       - Posso confiar em voc, Buffie? 
       - No inteiramente. Quando voc me sufoca, fico com vontade de sair por a. Vou dar o rabo ao prximo agente que voc botar no meu rabo. Vou fazer de tudo 
com ele, e mand-lo de volta a voc com um relatrio daqueles. Alguns dos agentes so super, Pdeu. 
       - Voc est querendo brigar - disse o Presidente. - Voc quer ser desagradvel. Por qu? 
       Ela no disse nada. Ele comeara a briga, e quando ela reagiu, ele a acusou de querer brigar. Era um bom truque, a punha na defensiva, mesmo quando ela sabia 
exatamente o que estava havendo. Havia um bocado de motivos para p-la na defensiva, mais do que ele sabia, o que a fez duplamente resolvida a no aceitar a situao. 
       - Fiz um grande trabalho de relaxar esse p - observou ela frivolamente - e agora ficou todo tenso. Esforo perdido. Uma foto perfeita que se estragou no 
revelador. 
       - Aah! -, fez ele, retirando o p e voltando para a cama. Ela ficou na poltrona. 
       - Voc no quer dizer "aah!" - disse ela. - Voc quer dizer arrff! - Tentou de novo. - Arrff! - Ela fez sons mais guturais e leoninos e finalmente foi at 
ele na cama e gritou Arrrfff! no ouvido, mordeu-lhe o pescoo, mergulhou a cabea entre as pernas dele, e o devorou. 
       Mais tarde, juntinhos, com a cabea no peito dele, ela murmurou: 
       - Ns estvamos na cama, como  que acabamos na cadeira? 
       Ela no acompanhara tudo o que acontecera to clinicamente quanto costumava. Na cadeira com ele, totalmente no colo, no se lembrara de como chegaram l. 
       - Voc s est me tratando bem porque tem pena de mim - disse-lhe ela. - No tolero que tenham pena de mim. 
       - No  que eu tenha pena de voc - disse ele, jogando um jogo de reverter papis que eles costumavam jogar para expor o que desconfiavam estivesse na cabea 
do parceiro -  que eu acho bom, para uma moa cega, fazer muito sexo. 
       - Preciso desesperadamente de voc - sussurrou ela. - Preciso, preciso, preciso. Se eu no posso ver, isso quer dizer que j no vou desfrutar de uma boa 
trepada? 
       - Voc est melhor do que nunca, no precisa de ningum. 
       Ericson acariciou-lhe o cabelo e disse: 
       - Sua deficincia  um teso. 

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       - Voc no vai rir de mim quando eu tirar o brao? - perguntou ela. 
       - Basta mostrar-me o encaixe. - Ele estava ficando bom no jogo. - Farei o que voc quiser, desde que voc no fique possessiva. 
       - Mas voc tem de prometer-me que ningum mais vai usar meu encaixe. 
       - Aos diabos com isso - rosnou ele. - Tenho de ser livre. Se voc me disser que posso trepar com quem quiser, eu lhe serei eternamente fiel. E a no terei 
nada contra que me revoltar. 
       - Por que no me deixa confiar em voc? - perguntou ela, como se fosse ele. - Tenho uma necessidade imensa de confiar em algum, e pode ser voc. 
       - Porque no quero que confiem em mim - respondeu ele como Buffie. - Isso significa controle. Por isso trairei voc sempre. 
       - No sempre - disse Buffie. - No nas grandes ocasies. Voc pode me decepcionar nas pequenas coisas, mas quanto ao grande segredo voc me proteger, e sabe 
que voc no  uma merda total, no quanto ao grande segredo... 
       Buffie percebeu que o jogo a levara a dizer mais do que pretendera. Mas no fazia mal que Ericson soubesse que mesmo se ela o traa com algumas coisas, jamais 
contaria sobre o incidente de trem na campanha, e o sigilo sobre sua cegueira de ento. Passar uma inconfidenciazinha para Bannerman era como dormir com um agente 
do Servio Secreto: divertido, e uma forma de ficar quites com a vida ou de progredir, mas no significava ir at o fim, como ter um caso de amor s claras com outra 
pessoa. Umas fofocazinhas e umas trepadinhas faziam seu gnero, mas traio mesmo, no, no era com ela. Ela achava que Pdeu compreenderia. 
       Aps algum tempo, ele perguntou: 
       - O violo ainda est no armrio? 
       H muito tempo, durante a campanha, ele descobrira que ela sabia tocar alguma coisa no violo, e que sua voz era bem razovel. Ela guardou o instrumento no 
armrio do quarto dele, pois no podia carreg-lo para trs e para frente, parecia uma grande metralhadora no estojo, e ela tocaria quando tivesse vontade, normalmente 
depois de fazer amor, e ainda mais quando ele no a satisfazia. 
       Ela sempre achara que o violo era algo que ele tolerava, porque ela estava aprendendo a toc-lo e nunca tinha tempo para chegar a tocar bem. Esta era a primeira 
vez em que ele Lhe pedia para tocar, e a idia lhe agradou. 
       - Voc Rei Saul, mim Davi? - perguntou ela do armrio, procurando atrs dos ternos. 
       - Voc sabe a Bblia - sorriu ele. 

Pg 228 
       - Sei meus filmes sobre a Bblia - disse ela, deixando acesa a luz do armrio para ver a imagem dele, quando se sentou de pernas cruzadas no cho. Gregory 
Peck era Davi, e ficava dedilhando o violo. Isso aplacou o velho rei. 
       - Aplaque-me - disse o Presidente. 
       Ela no sabia o que cantar, mas a fala sobre a Bblia lembrou- lhe o hino que tantos cantores de folclore costumavam cantar para animar as platias. Assim, 
lentamente, comeou, concentrando-se nas cordas e no nas palavras: 
       - Amazing grace, 
       How sweet the sound, 
       That saved a wretch like me. 
       [nota * Surpreendente graa 
       Que doces sons 
       Que salvaram um desgraado como eu.] 
       
       Ela encontrou o acorde certo e continuou, com mais confiana: 
       - I once was lost, 
       But now am found 
       [nota ** Certa vez me perdi 
       Mas agora me encontrei] 
       
       Ela parou abruptamente, abominando o que quase fizera. No confiava em sua voz. 
       - Por que parou? 
       - A cano no era essa - atrapalhou-se. 
       Ele saltou da cama, chegou-se a ela, tocou-lhe o cabelo, passou-lhe a mo no rosto molhado, e acariciou-lhe os olhos. Beijou-a suavemente, e disse: 
       - Cante toda ela. Faz lembrar-me do meu tempo de religioso. Era mais um teste para ela do que para ele, e por isso ela o fez doce e perfeitamente, sem perder 
um acorde. 
       - Amazing grace, 
       How sweet the sound, 
       That saved a wretch like me 
       I once was lost, 
       But now am found, 
       Was blind, but now I see. 
       [nota *** Estava cego, mas agora enxergo, (Notas da Tradutora.)] 
       
       Ela engoliu em seco umas duas vezes e ps os dedos nas cordas. 

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       - Todo mundo conhece essa cano, no ? - disse ele, pensativo 
       - Quase todo mundo, Pdeu - respondeu ela, j com a voz firme. - Todo batista que vai  igreja conhece esse hino porque o canta domingo de manh, e o pessoal 
jovem conhece porque os cantores de folclore o cantam. Ficou muito tempo em primeiro lugar nas paradas. Parece que pessoas de lugares diferentes se unem nessa cano. 
       -  o hino favorito de Carter - lembrou ele. - Como Home on the Range era de FDR, e Missouri Waltz, de Truman.  uma boa ida escolher uma cano popular 
como favorita. 
       - Voc a conhece, ento. 
       - S conheo seus princpios polticos - sorriu ele tristemente. - Como sei que The Battle Hymn of the Republic se tornou a cano de Bobby Kennedy durante 
algum tempo, depois que foi cantada no enterro dele enquanto o cortejo do funeral passava. Mas tampouco sei a letra toda. 
       Ericson estava sentado na poltrona. Os compridos braos estavam ao longo dos braos da cadeira, e as mos agarravam as extremidades, semelhante  esttua 
de Lincoln, no monumento.
       - Eu talvez seja a nica pessoa na Amrica - disse ele, pensativamente - que no sabe a letra de Amazing Grace. E eu deveria, ensine-me, Buffie. 
       Ela a ensinou a ele com bastante facilidade, e depois lhe perguntou por que ele queria alongar-se sobre algo que lhe lembrava e a todos, de cegueira. 
       - Nunca se deve fugir de nada, minha cara - disse ele. - As pessoas tm medo de ficar cegas.  o pior medo que h, vem l de dentro, exceto quando j se est 
cego; e depois o medo mais terrvel  de perder a audio. Mas se um cego foge da idia de estar cego, ou se estremece a expresses como "a olho nu" ou semelhantes, 
ele d ainda mais medo s pessoas.  uma incrvel demonstrao de fraqueza. Fowler sabe como tratar disso, e Hennessy  o melhor de todos: ele procura fazer brincadeiras 
com palavras que falem de cegueira, e todos rimos, ou resmungamos. Esta  a melhor atitude: forar o medo a se expor. Confront-lo. 
       Ela subiu na cama com o violo e sentou-se perto dele. Ele tentou acariciar-lhe o ombro; ela, porm, sabia que ele estava pensando em Amazing Grace, repisando 
a letra para memoriz-la. 
       - Todo mundo sabe esse hino - disse ele, como se falasse sozinho. - Algum dia posso vir a precisar dele. E tambm da idia que ele contm. Engraado como 
isso me escapou todos esses anos. 
       - Ter sido por falta de viso?... - brincou ela. 

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       - Boa! - aprovou ele. 
       - Por que voc est passando a mo no violo, Pdeu? 
       Isso o tirou de suas meditaes; ele estivera tocando na curva do instrumento e no na mulher junto dele na cama, o que era cmico bastante para que ele transportasse 
sua ateno para o presente e para a pessoa alegremente investida do papel de professora. 
       Ericson a apertou, o que ela julgou fosse um carinho. No passado, ele a agarrava, tocava, acariciava ou atacava; ela no se lembrava de um nico gesto carinhoso. 
Buffie no sabia se havia gostado disso tampouco; era um gesto paternal, meio ilgico para dois amantes entre assaltos sexuais. 
       - As pequenas fofocas reveladas no fazem mal - disse ele. - Voc est certa: basta que jamais revele a grande fofoca que sabe. 
       - Voc est comeando a amadurecer, Pdeu - disse a moa. - Algum dia vai entender que nada tem a ver com o que temos juntos; eu apenas me divirto um pouco, 
sem ser nada de srio. 
       - No - respondeu Ericson. - Jamais tolerarei isso. Dar trepadinhas por a est errado, porque me irrita bastante. Fazer um pouquinho de fofocas tambm est 
errado, mas consigo suport-lo, porque no h outro jeito. 
       Ela no pensou: "Somente enquanto no houver outro jeito, e enquanto voc fizer com que sua garota se sinta perturbada pelo remorso, porque a ento ela acha 
que tem de compens-lo". De vez em quanto ela amava esse homem, concluiu, tocando as cordas com os dedos e recordando-se dos trs tpicos que teria de contar a Bannerman 
de manh. 


O SECRETRIO DO TESOURO/2 
       
       A residncia de Washington de T. Roy Bannerman era pequena, mas pretensiosa. Era uma casa de tijolinhos na Travessa das Embaixadas na Massachusetts Avenue, 
e ficava no meio do caminho entre a Casa Branca e a residncia do Vice-Presidente, no Observatrio Naval. A Sra. Bannerman considerava sua estada em Washington como 
um exerccio temporrio no servio pblico desempenhado pelo marido e no trouxe de sua casa de Nova York nenhum dos tesouros de arte nem as antiguidades, o que 
seu marido achou timo, pois j se cansara deles. 
       No domingo do "fatdico fim de semana" - esse chavo se estava tornando privativo da linguagem poltica - o Secretrio do Tesouro passou a manh ao telefone, 
andando para cima e para baixo no felpudo tapete branco de seu espaoso estdio, e arrastando um 

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fio de dez metros. Sua fonte clandestina da Casa Branca - aquela desprezvel oportunistazinha, a fotgrafa e amante de Ericson - telefonara depois do desjejum com 
trs tpicos de informao. Primeiro, a possibilidade de exoneraes quando Fong e Bannerman chegassem segunda-feira.  Casa Branca para a reunio do Gabinete acerca 
da incapacidade do Presidente. Segundo, a necessidade de escorar Reed no Departamento de Defesa, como presso de Wall Street. E finalmente, a traio em potencial 
do Vice-Presidente. 
       Ele transmitiu as notcias  Susan Bannerman, que respondeu a ponto por ponto: 
       - O Presidente seria um tolo se exonerasse voc. E voc seria um tolo de se apoiar em Preston Reed, ou mandar que algum o fizesse por voc. Sobre o Vice-Presidente, 
no estou bem certa: ele  do tipo que ficaria do lado da ltima pessoa com quem falasse. 
       Bannerman admirava o bom senso da mulher, e normalmente dava crdito ao que ela dizia, mas neste caso, sua fonte de informaes era pessoa muito de dentro 
da Casa Branca para que ele no levasse em conta suas informaes, que chegavam em hora importante. Ademais, todo o tempo desconfiara do Vice-Presidente - o sujeito 
era o que o pai de Bannerman chamava de "oportunista" - e seria bem ao estilo de Nichols deixar que o Gabinete fosse adiante, reunisse todas as idias, e depois 
os trasse e vetasse sua deciso. 
       - Nichols poderia acabar conosco - explicou ele  mulher. - A Vigsima Quinta Emenda estabelece que a incapacidade do Presidente seja declarada pelo Vice-Presidente 
e pela maioria dos principais funcionrios dos departamentos executivos, isto , pelo Gabinete. Assim, podemos desprezar o voto de Curtice, e vencer por quatro a 
dois, que  a maioria do Gabinete. Se o Vice-Presidente no vetar, torna-se o Presidente Interino no momento, independente do que diga o Presidente. Se o Vice-Presidente 
vetar, a ao do Gabinete vira apenas um enorme constrangimento, e no significa nada, porque se o Vice-Presidente no estiver disposto a acompanhar o voto da maioria, 
o Presidente continua Presidente. 
       - Eu no me tinha dado conta de que Ericson poderia ser deposto, se resolvesse lutar, sem que o Congresso tomasse parte em alguma altura do problema. 
       - No use a palavra "deposto" - disse Bannerman sem jeito. - Ericson continuaria com o ttulo de Presidente, e a ocupar tecnicamente o cargo de Presidente. 
Os "poderes e deveres" da presidncia, porm, seriam delegados... esta  a palavra, "delegar"... ao Vice-Presidente, como Presidente Interino. 
       Susan Bannerman abriu sua caixinha de sacarina. 
       - E se Ericson mandar tudo isso para o inferno? 

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       - Ento cabe ao Congresso decidir a questo. Se conseguirmos que dois teros do Congresso concordem que o Presidente est incapacitado de funcionar, num prazo 
de trs semanas ele ter de sair e Nichols permanecer como Presidente Interino. 
       Susan Bannerman serviu caf e comentou: 
       - A frase dita por Lady Macbeth me vem  cabea: "E se falharmos?" 
       - "Falhamos". - Bannerman citou a frase seguinte. - Puxa, Susan, voc escolhe as mais horrveis aluses literrias. No haver sangue na mo de ningum. Se 
falharmos, ou se Nichols nos trair, Ericson providenciar para que todos que tentaram tir-lo do cargo sejam escorraados de Washington. 
       - Por que deveria Nichols recusar a presidncia? Ele quer ser Presidente. 
       - Mas quer ser Presidente por mais de trs semanas - replicou Bannerman - e no quer passar  histria como um frustrado usurpador que o Congresso derrotou. 
Por outro lado, se ele recusasse a oportunidade da primeira vez, estaria provando sua lealdade a Ericson do modo mais dramtico. Ento ele talvez conseguisse que 
Ericson proclamasse sua auto-incapacidade, sem nenhuma briga. Ou talvez, num segundo repto, haveria mais possibilidade de o Congresso apoiar o Vice-Presidente para 
que fosse Presidente. 
       A sensata mulher de Bannerman balanou a cabea: 
       - Acontece que seu velho amigo Arnold Nichols no pensa to sinuosamente assim, Roy. Voc, sim. Ericson tambm, mas no Nichols. 
       - Coloquei esse joo-ningum onde ele est hoje - disse Bannerman, permitindo-se ligeira irritao. - E agora, com o bem-estar do pas em jogo, ele est pensando 
em me trair. 
       - Algum diz que ele est. 
       - O Presidente dos Estados Unidos diz que ele est. 
       - Voc acredita nele? - perguntou ela. Isso deteve Bannerman: talvez Ericson estivesse mentindo sobre seu trato com Nichols. Era uma possibilidade. No se 
podia absolutamente confiar em Ericson nesse caso. 
       O mordomo anunciou o Secretrio Fong. Quando seu colega entrou, Bannerman no perdeu tempo em amenidades e foi direto a seu relatrio de informaes supridas 
por Buffie. 
       - Mike, poderamos ser exonerados no minuto em que entrssemos l amanh de manh. 
       - No vai acontecer nada - disse Fong. - Ele estaria provocando seu impedimento. 

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       - Foi isso que eu disse - exclamou satisfeita Susan Bannerman. 
       - Estaramos at melhor com um processo de impedimento - acrescentou Fong. - Para conseguir-se o impedimento,  necessrio uma simples maioria da Cmara, 
e dois teros do Senado. Mas para declarar incapacidade, so precisos dois teros em ambas as Casas. Acho que poderamos obter maioria contra Ericson na Cmara, 
mas no dois teros, a no ser que o Presidente da Cmara votasse a favor, e ele no  favorvel  nossa causa. 
       - Ento Ericson estaria melhor em nos combater na sua segunda linha de defesa - disse lentamente Bannerman. - Bem, mais tarde trataremos disso. Primeiro, 
vamos garantir nossa vitria no Gabinete. 
       Bannerman contou a Fong da necessidade de pressionar Reed; Fong no se sentiu  vontade para faz-lo, mas concordou, "porque voc compreende melhor o pessoal 
da Wall Street do que eu, Roy". 
       O Secretrio do Tesouro foi ao telefone para comear a agir no campo que ele conhecia muito bem. Primeiro ligou para um advogado, depois para um banqueiro 
aposentado, para o atual embaixador  Corte de St. Jaimes em Londres, e para o nico ex-Secretrio de Defesa vivo. Depois de acionar esses instrumentos de persuaso, 
Bannerman chamou o presidente da diretoria do New York Hospital, e solicitou ao velho amigo que enviasse seus mdicos para ficarem de sobreaviso em Washington naquela 
noite. 
       E Curtice? - perguntou Fong. - A nica pessoa que pode convencer o Secretrio de Estado  o Secretrio de Defesa, e no estamos certos da posio dele. 
       - O melhor a fazer - disse Susan Bannerman -  conseguir que Preston Reed comece a influenciar Geoerge Curtice, e enquanto for convencendo Curtice, se convencer 
tambm.  muito melhor do que forar Reed. Ele  o tipo de homem igual a meu pai, que no gosta de ser forado a nada. Est bem, Roy, vou calar a boca. 
       - Ela tem razo, sabe? - disse Fong a Bannerman. 
       - Ela foi responsvel por este tapete - comentou Bannerman. - Voc j viu tapete mais inadequado para a residncia do Secretrio do Tesouro? 
       -  um tapete bem interessante - disse Fong cautelosamente. - Deve ter custado uma fortuna. 
       - Esse tapete branco felpudo  um desastre - afirmou desembaraadamente a senhora. - Reconheo meus erros. Boa sorte com Reed, mas no posso deixar de pensar 
em meu pai. Vamos assistir ao Encontro com a Imprensa? Eles vo fazer um programa especial sobre este "fatdico fim de semana". 

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       A tela do televisor se acendeu e assistiram a um corpo de jornalistas entrevistar dois tcnicos da Constituio: 
       Pergunta: Em primeiro lugar, o que significa "incapacidade", aos olhos da Constituio? 
       Tcnico: A Constituio no explica. A palavra  usada no Artigo II, da 1a Seo, 5 Clusula, que diz: "Em caso de destituio do Presidente do cargo, ou 
or sua morte, renncia ou incapacidade de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, o Vice-Presidente dever assumir... Mais tarde, a redao muda "incapacidade" 
para "impossibilidade", ao dizer "at que cesse a impossibilidade". 
       Pergunta: Que pretendiam os "Pais da Constituio" [nota * Os redatores da Constituio americana, principalmente James Madison. (N. da T.)] dizer com "incapacidade"? 
       Tcnico: A clusula vice-presidencial foi acrescentada no final da Conveno Constitucional, como uma espcie de concluso posterior. No existe nenhuma definio 
de incapacidade para nos orientar. E a histria legislativa da Vigsima Quinta Emenda tampouco ajuda em nada. Os elaboradores dessa emenda acharam que seria um erro 
atar as mos dos futuros Gabinetes e Congressos com uma definio especfica de "incapacidade". Por assim dizer, deixaram isso a nosso cargo. 
       - Isso  bom - comentou Bannerman. - A palavra "incapacidade"  o que este Gabinete diz que . No h precedentes. Ns mesmos criaremos os critrios. 
       Pergunta: Bem, ento, qual o seu conceito de "incapacidade"? 
       Tcnico: Na minha opinio, significa "incapacidade de governar". Nos debates sobre esta emenda, o caso de James Madison foi lembrado. Ele quase foi capturado 
pelos ingleses, na guerra de 1812. Se um Presidente fosse feito prisioneiro por um poder hostil, ou seqestrado por revolucionrios, a Vigsima Quinta Emenda claramente 
especifica que o Vice-Presidente deve assumir os poderes e deveres. Eu interpretaria isso como querendo dizer que as verdadeiras condies fsicas do Presidente 
so apenas um elemento ao se determinar a "incapacidade". Especialmente numa era nuclear, temos de dar amplas conotaes 

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a essa palavra, para abranger qualquer eventualidade sob qual o Presidente no esteja capaz de governar. Uma combinao de incapacidade fsica tal como a do Presidente 
Ericson, ou seja, cegueira, mais o consenso do pas de que ele no consegue enfrentar as imensas responsabilidades de seu cargo, seriam motivos, a meu ver, para 
uma deciso do Gabinete quanto  sua incapacidade. 
       Pergunta: O senhor concorda, Deo McAllister? 
       Tcnico II: No, eu daria uma interpretao menos ampla  palavra "incapacidade". Essa emenda no foi includa na Constituio para incentivar a usurpao. 
Uma vez que comecemos a falar de "incapacidade para governar", comeamos a dizer que um Presidente impopular pode ser destitudo em meio  sua gesto porque o povos 
j no gosta dele; este no  certamente o esprito da Constituio. No, eu diria que "incapacidade"  mais especificamente um mal fsico que se pode demonstrar, 
provar e afianar que torne a pessoa incapaz: uma coma, insanidade bvia, ou algo que no seja duvidoso. Quando um Presidente insiste em que est capacitado para 
exercer seus deveres, apenas a mais inequvoca prova de incapacidade, fornecida por uma junta de mdicos reconhecida- mente capazes, deve ser usada para refutar 
essa afirmativa. 
       -  melhor voc ter um bom apoio mdico - disse Fong a Bannerman. - Ericson vai estar com seu mdico pessoal e o psiclogo cego preparados para atestar que 
ele est em tima forma. 
       - Os mdicos sempre discordam entre si - disse Bannerman. 
       - Essa no  uma deciso mdica, e sim poltica. No se trata da incapacidade de andar e falar, e sim da incapacidade de governar. 
       A chave do assunto  essa 
       Pergunta: Isso no  muito confuso? Num "governo de leis, no de homens", o senhor est dizendo que a Constituio no prov nenhuma orientao ao Gabinete 
sobre como despojar de seu carpo um Presidente incapacitado, e que isso depende exclusivamente dos homens, e no da lei? 
       Tcnico I:  claro que  confuso: esta foi a inteno desde o incio. A Constituio precisa ser flexvel. Por isso a emenda d uma alternativa ao Gabinete: 
fala dos "principais funcionrios dos departamentos executivos, ou de outro rgo como o Congresso, como prev a lei". Isso no caso de a idia do Gabinete no dar 
muito 

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certo, e porque talvez outra gerao prefira que a deciso seja tomada por uma junta mdica, ou pelo Supremo Tribunal. Afinal de contas, no havia Gabinete quando 
se redigiu a Constituio. Pode resultar em que seta uma instituio financeiramente irresponsvel, ou incapaz de tomar uma deciso. 
       Tcnico II: Como pessoa que interpreta a Constituio, gostaria de chamar sua ateno para a histria legislativa acerca deste mesmo ponto. A Comisso Judiciria 
da Cmara reconheceu sua incapacidade para definir "incapacidade" e disse que teriam de confiar num governo de homens. Eis o que diz seu relatrio de 1965: "O xito 
final de qualquer acordo constitucional para obter continuidade nos casos de incapacidade deve depender da opinio pblica, em que prevalea um sentido de "moralidade 
constitucional". Sem esse sentimento de responsabilidade, no pode haver garantia absoluta contra a usurpao. Nenhuma soluo mecnica nem processual fornecer 
uma resposta completa, se se supuserem casos hipotticos nos quais a maior parte dos envolvidos seja de tratantes, e nos quais no exista um sentido popular de propriedade 
constitucional. Parece necessrio que se adote uma atitude que presuma que sempre estaremos lidando com "homens sensatos" no mais alto nvel governamental." 
       Isso pe a responsabilidade no Gabinete, de agir com um sentido de "moralidade constitucional". Apossar-se do poder de um Presidente relutante  o caso mais 
grave de incapacidade bvia. 
       Pergunta: O senhor concorda? 
       Tcnico I: Acho que o trecho que meu colega acabou de ler mostra exatamente o contrrio: que o Gabinete tem a oportunidade de fazer o que julgar seja certo 
para o pas. No agir segundo o sentido literal de uma lei deliberadamente vaga, mas fazer o que  certo em sua opinio. Isto  moralidade: o sentido do que  certo. 
       
       - Perfeito, perfeito! - exclamou Bannerman. - Vo ficar discutindo o dia inteiro e, pensando bem, a deciso depende inteiramente de ns. Desligue essa coisa, 
sim, Susan? Mik e eu temos de preparar nossa estratgia para amanh. 
       O Secretrio de Recursos Naturais comeou a andar pela sala, quase tropeou no tapete felpudo, voltou e sentou-se. 
       - Voc deve aparar essa grama - murmurou, e depois tratou do assunto de sua visita: 

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       "Tudo vai se articular em torno de George Curtice, Roy. Voc vai conseguir seus mdicos, eu vou lembrar todos os pontos histricos que estou estudando, e 
vamos dar um espetculo que ser sempre relembrado. Mas o que vai acontecer naquela sala no mudar voto de ningum. 
       - Ento o problema : que "calor" podemos dar no Secretrio de Estado, sabendo que ele  particularmente sensvel quanto a lhe dizerem o que deve fazer? 
       Fong assentiu com a cabea. 
       - H alguma coisa estranha em nossas relaes com a Unio Sovitica. Reed lhe contou o que pensa a dA, e que o Servio de Informaes da Defesa discordou. 
A opinio da minoria  que Nikolayev armou a emboscada. Se isso for verdade, Curtice vai ficar mal, porque  chapinha de Nikolayev. Hoje de manh Reed vai dizer 
isso tudo a Curtice, e vai deix-lo apavorado. 
       - Faz parte do plano - concordou Bannerman com a cabea 
       - Reed deve garantir ao Secretrio de Estado que vamos apoiar suas atitudes depois da emboscada, quaisquer que tenham sido, o que Ericson talvez no fizesse. 
       Fong sacudiu a cabea, preocupado. 
       - Curtice vai ficar realmente num dilema. Vou v-lo hoje  noite, e de novo cedinho amanh, e lhe direi que o nico lugar em que estar seguro ser conosco. 
Vou relembr-lo do episdio Lansing. 
       - Que episdio foi esse? - perguntou Susan Bannerman, quase fora da sala com a bandeja de caf; ela pareceu reconhecer o nome. 
       - Quando Woodrow Wilson estava enfermo em 1919, e sua mulher e alguns assessores maia ntimos tomavam as decises por ele, o Secretrio de Estado, Robert 
Lansing, tentou conseguir o afastamento do Presidente para que o cargo passasse para o Vice-Presidente Marshall. Logo que Wilson pde aparecer em pblico, a primeira 
coisa que fez foi exonerar Lansing. 
       A mulher de Bannerman sorriu sombriamente, e relembrou as conseqncias em termos familiares: 
       - E esse foi o fim da influncia da famlia Lansing, que durou mais de uma gerao, at que seus sobrinhos, Foster e Allen Dulles, voltaram no governo de 
Eisenhower. Quando um Presidente expulsa algum por deslealdade, o estigma dura muito tempo. 
       Depois de dizer isso, ela saiu da sala. 
       - Ela tem razo - observou Bannerman. 
       - No, Roy, no  isso - disse Fong. - A questo  que, se se ataca um rei, tem-se de mat-lo; acho que foi Oliver Wendell 

Pg 238 
       Holmes que disse isso. Nenhum de ns se pode dar ao luxo de perder, sob pena de haver um bocado de emporcalhao: estaremos arruinados, e nossos nomes cairo 
na lama. 
       - Curtice tem de entender - disse Bannerman com firmeza - que se eu cair, ele no colher nenhum benefcio. Tratarei, durante o resto da vida, de fazer com 
que ele se arrune, e que o primeiro negro Secretrio de Estado americano seja lembrado como um covarde e um fracasso degradante. 
       Fong tirou os sapatos para poder passear pelo tapete. 
       - Farei com que Curtice entenda tudo isso, mas no o ameaarei. Esse vai ser o truque da semana. Antes que eu esquea, voc est com aquele parecer sobre 
a absteno? 
       Bannerman solicitara ao reitor da Faculdade de Direito de Yale um parecer sobre o problema da absteno na reunio d Gabinete para considerar a incapacidade 
presidencial. Seria possvel a um membro do Gabinete recusar-se a votar? Neste caso, o homem logo abaixo, em seu departamento, poderia ser convocado para votar' 
O membro do Gabinete dispunha desse direito pessoalmente, ou o voto pertencia ao departamento, e havia a obrigatoriedade de ser proferido? 
       - Tentarei estar com o parecer - disse o Secretrio do Tesouro. - Curtice deve poder abster-se, se  disso que vamos precisar para obter a maioria dos votos. 
       -  claro que vamos precisar disso. O Vice-Presidente ter de dar o voto de Minerva, se o P. O. for contra, o que far se for inteligente. E Duparquet  bem 
espertinho. 
       Bannerman concordou; o Procurador-Geral, Emmett Duparquet, era habilidoso e competente. Seria um bom defensor do Presidente, e um adversrio difcil para 
eles. 
       - No se preocupe com o Vice-Presidente Nichols, Mike. Ele est cem por cento conosco. 
       Fong sorriu. Bannerman sabia que, como ex-governador e poltico h muito tempo, Fong estava a par da reputao de indeciso do Vice-Presidente. Em nome da 
credibilidade, Bannerman acrescentou: 
       - Est conosco cem por cento, desde que ache que vamos vencer. 
       - O VP  responsabilidade sua - disse Fong, calando os sapatos para ir embora - e eu sou responsvel pelo Secretrio de Estado. Perdendo ou ganhando, no 
terei remorsos, porque acho que Ericson est errado em tentar continuar aos trancos e barrancos. Vou ser sincero com voc, Roy: caso percamos, no tenho os seus 
recursos para me apoiar. 

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       - Vamos ganhar - disse Bannerman firmemente. - No Gabinete e, se preciso for, no Congresso. Mas ganhando ou perdendo, nossa aliana  para a vida inteira, 
Mike. Os Bannermans jamais esquecem um amigo. Aprendemos isso com os Rothchilds, os Kennedys e os Rockefellers. 
       Esto em boa companhia - disse Fong. - Quanto a voc, lembre-se de Robert Lansing. 


O PROCURADOR-GERAL/ 1 
       
       Como sempre, ele chegou cedo ao tribunal. Quando Enunett Duparquet praticava direito criminal, gostava de sentar-se no tribunal mais ou menos uma hora antes 
que todos chegassem, para sentir o ambiente e absorver familiaridade com um caso atravs da familiaridade com um local. Mentalmente, ele punha pessoas sentadas no 
jri, enchia o banco dos rus e o assento do juiz, e fazia sua argumentao de abertura em silncio, muito antes do grito do melrinho. 
       O Procurador-Geral chegara antes que as equipes da televiso estivessem prontas para tomar declaraes, e apenas o pessoal do rdio e da imprensa o encontrou 
a caminho da Ala Oeste. 
       - Estive com o Presidente no fim de semana, conversei com seus mdicos, e estou convencido de que no h incapacidade. 
       Quando lhe perguntaram se a moo era um ato desleal de "cabala", ele no engoliu a isca: 
       - O Gabinete tem o dever de discutir o assunto franca e amplamente. Estou preparado para faz-lo. 
       Duparquet no estava to preparado quanto gostaria de estar, mas no houvera tempo para a exaustiva anlise e preparao que um caso histrico como este exigia. 
A respeito, o Assistente do Procurador-Geral, um respeitado e apartidrio ex-reitor da faculdade de direito, havia elaborado um memorando jurdico para os membros 
do Gabinete, distribudo domingo  noite. Essencialmente, o memorando pormenorizava o procedimento para declarar a incapacidade, explicava como o Vice-Presidente 
se tornaria Presidente Interino no momento em que desse seu voto e houvesse maioria do Gabinete, e determinava o mtodo pelo qual o Presidente deposto teria de refutar 
essa deciso. O Vice-Presidente continuaria como Presidente interino at que o Congresso tomasse a deciso final, dentro de vinte e um dias. 
       Na sala vazia do Gabinete, Duparquet ficou de p atrs de sua cadeira,  direita da do Vice-Presidente, do outro lado da mesa e em frente  cadeira do Presidente, 
que ficaria vazia, O sol matinal de vero escoava pelas portas envidraadas. A vinte passos dali, o 

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Presidente trabalhava no Salo Oval, e continuaria l, sendo ostensiva- mente informado sobre acontecimentos externos, durante toda a manh. O Procurador-Geral, 
que recebera o comando da campanha para manter o Presidente no cargo, decidira que seria melhor que Ericson encenasse um espetculo de que estava lidando normalmente 
com seu trabalho. Ningum acreditaria que ele no estivesse secretamente ouvindo o que se passava naquela sala, mas simbolismo tinha grande efeito nos acontecimentos. 
       O Procurador-Geral andou lentamente pela sala, como faria mais tarde, olhando para os fantasmas. nas cadeiras, enquanto formulava sua argumentao defensiva. 
Pois seria uma defesa; a carga toda do seu argumento seria contra a promotoria, contra os membros que queriam declarar a incapacidade de Ericson. Mas aqui os promotores 
tinham uma vantagem que no existia nos tribunais criminais, onde Duparquet passara a vida advogando, e depois como juiz: no precisavam provar seu caso "sem nenhuma 
sombra de dvida". Era evidente que ele insistiria para que o provassem, mas eles poderiam insistir, com igual fora, que se existia dvida suficiente quanto  incapacidade 
do Presidente para funcionar, ento os membros do Gabinete seriam obrigados a votar pela sua remoo. No havia outro rgo legal a invocar: era um territrio legal 
virgem. 
       Ele no estava dirigindo-se a um jri, lembrou-se o alto filho da Flrida. A metfora do Gabinete como jri no era absolutamente adequada. A maioria dos 
votos j fora resolvida. As cadeiras vazias estavam cheias de espectros: Bannerman e Fong, e Reed provavelmente, a favor da remoo; Frangipani e o Procurador-Geral, 
firmemente contra. O sexto voto era de Curtice, o Secretrio de Estado. Duparquet foi para trs da cadeira do Secretrio,  direita da do Presidente. Se Curtice 
se mantivesse firme contra a remoo, no haveria maioria; se ele apoiasse o grupo de Bannerman, Ericson estaria deposto, pelo menos at que o assunto fosse para 
o Congresso. Se ele tentasse abster-se, o Procurador-Geral lutaria contra seu direito de faz-lo, porque isso daria a maioria de trs a dois s foras favorveis 
 remoo. 
       O caso, ento, no seria decidido por um jri, mas um, s juiz: George Curtice. A argumentao tinha de ser feita para ele, enfatizando seu desejo de no 
ser aquele a quem caberia a deciso. 
       - Se voc achar que vamos perder - dissera Lucas Cartwright a Duparquet logo que ele chegara l minutos atrs: - solicite um recesso antes do voto. Pode ser 
que eu tenha um trunfo contra Curtice. Detestaria t-lo de usar, mas o farei se for absolutamente necessrio. 
       Sob certo sentido, o juiz de apelao estava presente: o Vice- Presidente, que presidiria  reunio e indubitavelmente diria muito 

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pouco aps declarar a sesso aberta, e seria a segunda linha de defesa de Duparquet. Da cadeira do Secretrio de Estado, o Procurador-Geral olhou para o lugar de 
Nichols  mesa: talvez ele pudesse ser manejado pela argumentao. O Procurador-Geral teria de apresentar sua defesa de forma que - se perdesse Curtice e o Gabinete 
       - ainda pudesse vencer, com o veto do Vice-Presidente. No seria fcil: Curtice se ressentiria da certeza e da firmeza  qual Nichols reagiria favoravelmente. 
       O Procurador-Geral saiu da Sala do Gabinete, atravs do escritrio anexo ao Salo Oval, onde Ericson estava sentado, com uma xcara de caf na mo, conversando 
com Hennessy. Nos velhos tempos, em que os companheiros polticos eram Procuradores-Gerais, Hennessy provavelmente teria o cargo de Duparquet. 
       - Eis que adentra o gramado o astro da peleja - disse Hennessy a Ericson - para receber instrues finais do seu treinador, antes do grande jogo. Chute e 
reze para fazer gol,  o que digo. 
       O Presidente no estava com boa aparncia. Evidentemente, passara mal a noite: uma expresso soturna lhe enchia o rosto, e ele massageava as juntas das enormes 
mos. Duparquet ficou satisfeito de no precisar us-lo como testemunha. Ericson perguntou ansioso: 
       - Leu os jornais, Procurador? Os artigos so nojentos. E o noticirio da TV hoje de manh!. Parece que est todo mundo excitado, como se fosse assistir a 
um enforcamento. 
       - Vamos vencer - disse o Procurador-Geral convictamente, embora no to resolutamente quanto o afirmava. - Aposto meu cargo. 
       Hennessy riu desdenhosamente: 
       - Voc j o apostou. Se voc vencer, a prxima vaga do Supremo Tribunal ser sua; se perder, Bannerman o far embaixador em algum pas onde cozinham embaixadores 
em grandes panelas. 
       - No tinha percebido que havia tanta coisa em jogo - disse Duparquet. - Julguei que isso s ocorresse com a presidncia. 
       Ele no gostou da forma pela qual Ericson estava reagindo, e sabia que Hennessy tampouco estava gostando. 
       - Sr. Presidente - disse formalmente o Procurador-Geral em p junto  mesa do Presidente, e pensando nas fofocas que Hennessy faria, ou nas memrias que o 
Presidente escreveria - o Gabinete est prestes a se reunir para discutir se declara sua incapacidade para exercer os poderes e os deveres de seu cargo. Minha opinio, 
baseada em observaes pessoais do senhor nos ltimos dias,  de que essa ao, se tomada pelo Gabinete e pelo Vice-Presidente, seria a primeira usurpao do poder 
presidencial na histria de nossa nao. Pretendo resistir a ela com todas as foras de que 

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disponho. Existe algo que o senhor gostaria que eu soubesse, alm do que j me disse, antes que eu entre na reunio? 
       - No deixe Curtice escapar-nos - disse Ericson - e lembre- se de que Bannerman fez um bocado de presso sobre Reed. Talvez Preston no tenha gostado disso. 
       Indicaes tticas no eram o tipo de conselhos histricos que Duparquet tinha em mente. Ele deu de ombros e preparou-se para partir. 
       - A vitria vale o campeonato - disse Hennessy. 
       - Procurador! - chamou Ericson. 
       Ele parou  porta. 
       Voc no est agindo no interesse de um Presidente hoje de manh. Voc estar servindo a todos os Presidentes que me sucederem, e um deles ser outro Lincoln, 
e estar exposto aos ataques mas selvagens. Pense nele. 
       - Pensarei, Sr. Presidente. E esse foi um pensamento digno de um Presidente. 
       Faltavam cinco para as dez, e todos os membros do Gabinete sala. O Vice-Presidente, segundo o protocolo, chegou sentou-se; Duparquet e os demais sentaram-se 
em seguida.
       - Antes de comearmos - disse o Vice Presidente Nichols, sem se dirigir a ningum especialmente - gostaria de saber se o Gabinete julga que esta reunio deva 
ser gravada, taquigrafada ou registrada de alguma outra maneira. 
       - Eu no fao objeo - declarou o Procurador-Geral - a que todos os procedimentos sejam gravados pela Agncia de Comunicaes da Casa Branca. Certamente 
h interesse pblico no que ser dito aqui nesta ocasio, e um registro completo poderia mais tarde eliminar quaisquer mal-entendidos. 
       - Esta  uma reunio do Gabinete - interveio Bannerman - e reunies do Gabinete nunca so gravadas. Recebemos uma pgina de ata e nada mais. 
       O Vice-Presidente olhou em volta, em busca de outros comentrios. O Secretrio Fong opinou: 
       - Acho que devemos conduzir esta reunio do Gabinete da mesma forma que as demais. Poderemos todos falar mais livremente se soubermos que nossas palavras 
no esto sendo anotadas. 
       No sou contrrio a isso, tampouco - disse o Procurador-Geral, mostrando-se disposto a concordar. - No existe nenhuma exigncia legal para esse tipo de registro. 
Como no h nenhum funcionrio do quadro presente, Sr. Vice-Presidente, o senhor talvez queira designar a tarefa de. anotar a ata a um membro do Gabinete. 

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       - Andy, voc faria isso para ns? 
       O Vice-Presidente escolheu o Secretrio de Recursos Humanos, Angelo Frangipani, que aquiesceu com a cabea. O Vice-Presidente pigarreou e disse: 
       - So agora 10:05 da manh de segunda-feira, 17 de junho, e o Gabinete est em sesso. A reunio foi convocada por solicitao do Secretrio Fong, com o objetivo 
de discutir a possvel incapacidade do Presidente de exercer seus poderes e deveres. 
       Nichols sentou-se mais  frente da cadeira em concentrao; era a imagem de um homem sendo especialmente cuidadoso e imparcial. 
       - Esta  uma triste ocasio, que causou a necessidade desta reunio.  luz da seriedade de nossa reunio, gostaria de voltar  tradio da Administrao de 
Eisenhower, e comear a reunio do Gabinete pedindo a todos vocs que se unam a mim num momento de orao silenciosa. 
       Duparquet achou que fora uma boa jogada essa, irrepreensvel. Nichols no poderia dizer bobagens durante uma orao silenciosa. 
       - Estou sendo informado - disse o Vice-Presidente, quebrando o silncio - neste excelente memorando legal preparado pelo Assistente do Procurador-Geral, que, 
para os fins desta reunio, o Vice-Presidente no  membro do Gabinete. A Vigsima Quinta Emenda diz que eu participo "com" os principais funcionrios dos departamentos 
executivos nesta reunio, e suponho 'que tenha o poder de vetar qualquer ao que, os senhores resolverem tomar. Sr. Procurador-Geral, estou certo na minha suposio 
da lei? 
       O Procurador-Geral sabia que sua posio no era bem correta, mas ele o emendaria sem dar a perceber: 
       - Est, Senhor Vice-Presidente. Se a maioria dos votos do Gabinete declarar a incapacidade do Presidente, e resolver tambm investi-lo dos poderes e deveres 
daquele cargo, o senhor tem o poder de 'vetar essa ao. Acrescento que no existe orientao precisa na Constituio quanto a quem preside a esta reunio, embora 
minha opinio  de que a inteno dos autores da emenda era de que ela fosse presidida pelo Vice-Presidente. Sugiro que seja registrado que o Gabinete o eleja presidente 
da reunio. 
       Bannerman apresentou a moo, secundada por Frangipani, e todos votaram favoravelmente. O Vice-Presidente disse: 
       - Pretendo falar muito pouco nesta reunio. Secretrio Fong, j que a reunio foi convocada por solicitao sua, passo-lhe a palavra. 
       - Permitam-me principiar - disse solenemente Fong, lendo anotaes - com a pergunta feita na Conveno Constitucional de 27 de agosto de 1787 por John Dickenson, 
do Estado de Delaware, 

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acerca do assunto que vamos debater hoje, O Sr. Dickenson leu a clusula sobre a ascenso ao poder do Vice-Presidente, motivada pela "morte, renncia ou incapacidade" 
do Presidente de agir como tal "at que cesse a incapacidade", e depois perguntou: "Qual a extenso do termo 'incapacidade' e quem deve julg-lo?" 
       "Advirto que a primeira parte da pergunta jamais foi respondida. No estamos comprometidos moralmente com nenhuma definio, constitucional ou histrica, 
das palavras 'incapacidade' e 'impossibilidade', Todas as tentativas de defini-las especificamente, o que hoje nos deixaria de mos amarradas, foram rejeitadas pelos 
autores da Constituio e da Vigsima Quinta Emenda.
       "A segunda parte da pergunta do Sr, Dickenson - 'Quem deve julgar a extenso do termo 'incapacidade'? - foi claramente definida na emenda. A esta altura, 
o Gabinete  o nico juiz disso.  nossa responsabilidade solene, e apenas nossa, assegurar que a presidncia seja sempre ocupada por uma pessoa capaz de cumprir 
suas funes, No podemos fugir a essa responsabilidade, As consideraes de amizade, gratido e sentimentos devem ser rejeitadas, de forma a que a nica considerao 
seja a do nosso dever. 
       "Portanto - disse Fong, evidenciando seu primeiro ponto - no existe definio de 'incapacidade' para nos orientar, e somos os juzes exclusivos, neste momento, 
sobre se o Presidente est ou no em condies de desempenhar seus deveres, Sr. Procurador-Geral, na sua condio- de principal autoridade jurdica da nao, e no 
como patrono do Presidente atual, concorda com essa interpretao da Constituio? 
       - Prossiga com sua argumentao, Mike - disse Duparquet, com voz tranqila. - Mais tarde eu a dissecarei. Voc est indo muito- bem. 
       Ele no estava a fim de se envolver numa argumentao legal pormenorizada com o grupo Bannerman a esta altura. Sabia que era mais difcil fundamentar um caso 
sozinho, por isso os deixaria ss. Tampouco adotaria a atitude formal de tribunais, nem a rigidez de um interrogatrio, O assunto precisava ser tratado como se um 
grupo de amigos estivesse reunido para conversar sobre a derrubada do Presidente,. 
       - Como o Procurador-Geral prefere manter seu parecer legal para si mesmo disse Bannerman, interrompendo a argumentao de Fong - gostaria de dizer que a Vigsima 
Quinta Emenda no poderia ser mais clara do que  neste ponto: temos um dever a cumprir, embora doloroso. Como todos sabem, lutei contra a nomeao de Ericson. Sabem 
tambm que lutei ao lado dele na campanha. Considero-o um amigo, e se o destino no houvesse decidido em contrrio, ele poderia ter sido um timo Presidente, Acontece 
que 

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houve a emboscada, a tragdia o atingiu, e ele agora est incapacitado para tomar a deciso que deve tomar no interesse do pas. Temos de tomar essa deciso por 
ele. 
       - E se estivermos errados? - perguntou Frangipani. - Esse  um passo gigantesco a se tomar: retirar a presidncia de um homem eleito pelo povo, e d-la a 
outra pessoa. Especialmente quando ele insiste que  capaz de exerc-la. 
       Duparquet desejou que Frangipani se calasse, mas nada disse. 
       - Se estivermos errados - interrompeu Fong, bem preparado para a questo - a emenda possibilita ao Congresso corrigir o erro. Se apenas um tero do Congresso 
resolver que o Presidente no est incapacitado, ele recebe a presidncia de volta, e tudo bem. Se estivermos certos, porm, e o Presidente no tiver mesmo condies, 
e deixarmos de cumprir nosso dever, ento no haver ningum para tomar a deciso acertada. Se falharmos aqui, agora, privaremos o Congresso da oportunidade de dar 
a esse urgente assunto a considerao que ele merece. 
       "Um a zero para eles", pensou o Procurador-Geral, embora esse ponto talvez fosse mais bem empregado no fim. 
       - Alm disso, Andy - acrescentou Bannerman, falando para Frangipani, mas dirigindo-se a Curtice e Nichols - no o estamos "retirando" do cargo. Estamos providenciando 
para que outro homem eleito pelo povo como seu companheiro de chapa assuma o poder at Ericson estar bem para voltar. Existe um procedimento pelo qual ele 'poder 
declarar que recuperou suas condies, e se o Vice-Presidente concordar, ele receber o cargo de volta sem maiores complicaes. Se o Vice-Presidente no concordar, 
ele pode voltar ao Congresso, e se um tero, apenas um tero, concordar com Ericson, ele recebe a presidncia de volta. A presuno de que ele no est incapacitado 
 sempre do lado do Presidente. Se sua viso melhorar, e se sua... bem, se sua cabea se desanuviar, e ele puder trabalhar sem aqueles incrveis erros... ser nosso 
dever anunciar isso publicamente, e ajud-lo a recuperar o cargo. 
       "Um a um para ns", pensou o Procurador-Geral. Ele usaria esse ponto em relao ao Secretrio de Defesa, que pareciam pouco  vontade. Provavelmente meditava 
sobre os desafios congressionais e o perigo de que o cargo de presidente ficasse meio confuso por prolongado perodo. 
       - Vamos ao ponto bsico do assunto - disse Fong. - O Presidente est- ou no incapacitado? Para ajudar-nos a decidir, reporto-me  pgina 309 da Histria 
Legislativa, depois do trecho que diz que ns, o Gabinete, somos o rgo mais capacitado para resolver. "Supe-se", diz o trecho, "que tal deciso s ser tomada 
aps convenientes consultas com renomados mdicos". 

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Gostaria de propor uma moo, Sr. Presidente. Devido a essa orientao especfica dos autores da emenda... 
       - Mike, por que voc no espera um pouco antes de propor a moo? - sugeriu George Curtice. - Vamos conversar um. pouco sobre o que voc tem em mente. Talvez 
no seja necessrio votarmos. 
       - Boa idia - disse Bannerman, 
       - Est bem, o ponto  o seguinte - concordou Fong. - As nicas opinies mdicas a que atualmente temos acesso, ou que tm acesso ao Presidente, esto nas 
mos de trs homens. Um  um oftalmologista de terceira classe do hospital naval local, O segundo  o mdico pessoal do Presidente, que  um grande sujeito e um 
velho amigo, mas que todos sabemos tem o cargo porque  chapinha do Presidente, no porque seja bom mdico. E o terceiro  um "psiclogo". Sabe-se l o que significa 
isso mas no significa que ele seja um psiquiatra com um M. D. [nota * Doutor em Medicina. (N. da T.)] aps o nome, e ele foi contratado para ensinar o Presidente 
como usar urna longa bengala branca, coisas assim. Ora, esse grupo no  l grande coisa, principalmente para o Presidente dos Estados Unidos. Se devemos resolver 
sobre sua capacidade para funcionar, precisamos dos melhores pareceres dos mdicos mais renomados do pas, nas reas fsica e mental, segundo prev o relatrio legislativo 
que acabei de ler. 
       - Qual  a sua idia? - perguntou Curtice. 
       - Fazer com que o Presidente seja examinado hoje, agora, por uma junta de grandes mdicos, que o Secretrio Bannerman e eu providenciamos para que estivessem 
em Washington e disponveis So homens do maior renome, e credenciais inatacveis. No tomaro a deciso por ns, mas podemos, pelo menos, resolver com fundamento, 
desde que o Presidente consinta ser examinado por eles. Se ele no permitir - Fong levantou as mos - estar praticamente reconhecendo sua incapacidade. 
       O Procurador-Geral balanou a cabea, pasmo, e continuou a balan-la at que todos os olhos se concentraram nele, 
       - O Presidente est cego - disse calmamente. - Afirmo que est totalmente cego. No consegue enxergar. Ele pode, evidentemente, distinguir a diferena entre 
claro e escuro, todos vimos que isso foi dramaticamente provado, e  possvel que haja outras melhoras. Acontece que ningum est sugerindo que ele no esteja totalmente 
cego, segundo qualquer definio legal do termo. Permitam-me constatar se os compreendi perfeitamente, Mike. Voc prope recorrer a vrios dos maiores oftalmologistas 
do pas para repetir-nos que o Presidente est cego? J o sabemos, Mike. Voc acha 

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que este Gabinete vai ter mais certeza desse fato se um desfile de mdicos entrar aqui e for repetindo, um aps o outro: "Poxa, como ele est cego!" "Ele est realmente 
cego!" Isso  para nos apavorar? 
       - O senhor no compreende. Sr. Procurador-Geral - disse Bannerman. - Alguns dos assessores ntimos do Presidente, que querem subir ao poder a qualquer preo, 
tm estado espalhando para a imprensa, e tm at conseguido o apoio do Presidente, que a viso de Ericson est melhorando. Isso cria falsas esperanas. Essa falsidade 
precisa ser destruda, e sua relutncia em submeter seu cliente ao exame mdico desses tcnicos demonstra como  falsa e ilusria. 
       - Em primeiro lugar, Sr. Secretrio - replicou Duparquet - talvez eu seja antiquado, mas acharia de bom-tom que aqui na Sala do Gabinete da Casa Branca, ns 
nos referssimos ao Presidente dos Estados Unidos como "o Presidente", e no como "Ericson". 
       - Retifico o que disse - admitiu imediatamente Bannerman. 
       - Em segundo lugar, considero ofensa pessoal o senhor citar o Presidente como meu "cliente" neste caso. Isso denota certa incompreenso dos papis constitucionais. 
Estou aqui como membro do Gabinete, do Gabinete de Ericson, se assim deseja, e estou no meu direito prprio, e no como defensor de outra pessoa. Como o senhor, 
tenho um voto. No fao segredo de minha posio, mas me ofendo profundamente com sua contestao de meus motivos, ao dizer que ajo no como membro do Gabinete mas 
como um advogado de um "cliente".
       - Deixe disso, Procurador - interrompeu Fong - saia de sua torre de marfim.. 
       - Em terceiro lugar - continuou Duparquet - o senhor pode trazer aqui todos os oftalmologistas do pas e fazer com que eles jurem que o Presidente est to 
cego quanto uni morcego, e eu lhes farei uma pergunta, e apenas uma: "Doutor, o senhor arriscaria sua reputao profissional quanto  impossibilidade de os olhos 
desse paciente melhorarem nos meses e anos que viro?" Se o senhor desejar que o interrogatrio se estenda, eu perguntarei: "Doutor, a quatro semanas depois de um 
acidente, qual o grau de certeza que o senhor pode ter de que uma pessoa cega no melhorar sua viso? Dez por cento? Quarenta por cento? Sessenta por cento?" E 
o senhor quer que despojemos do cargo um Presidente, baseado nesse tipo de obscura possibilidade? 
       - Ele tem razo, Roy - interveio o Secretrio de Defesa Reed. - Ele j afirmou que o Presidente est cego, total e legalmente cego. Acho que todos concordamos 
que a possibilidade que ele melhore  questo de adivinhao. Estamos pensando em hoje. Ele hoje est cego. Se voltar a ver amanh, existe um recurso na 

Pg 248 
Constituio, e ele poder recuperar a presidncia. No estamos, na verdade, discordando sobre oftalmologistas. Vamos prosseguir. 
       - Quando  sade geral do Presidente - continuou o Procurador-Geral, sem esperar nenhum rebate  sugesto de Reed - Mike sugeriu que o mdico pessoal do Presidente 
 incompetente. 
       - Eu no disse isso... 
       - Mas o sugeriu, todos ns o ouvimos e entendemos. 
       - Sugeri que existem muitos outros mdicos mais competentes. 
       - Claro - disse o Procurador-Geral. - Mike, estou certo de que foi sem querer, mas voc realmente nos pregou uma pea. Lembra-se de sua citao da Histria 
Legislativa? Sugiro que a releia e, desta vez, termine a frase, no a interrompa. 
       Fong estava indeciso. 
       - O que li foi o que est aqui. No trouxe o documento original. 
       - Eu termino por voc - disse Duparquet, que havia decorado a frase que ele tinha certeza seria relembrada na reunio. - "Tal deciso s ser tomada aps 
consultas adequadas com renomados mdicos", eis a parte que voc no mencionou, "que tenham estado inteiramente familiarizados com as condies fsicas e mentais 
do Presidente". 
       O Procurador-Geral esperou para que a frase surtisse efeito. 
       O Grupo de Bannerman fora apanhado usando um truque fora do contexto, e isso tinha de preocupar Curtice, que era o juiz. Em seguida, o Procurador acrescentou: 
       - Evidente que esse final altera o significado. No estamos falando dos maiores peritos mundiais em medicina, estamos falando do mdico que mais conhece a 
sade do Presidente. "Inteiramente familiar". 
       - Suponho que eles quisessem dizer "intimamente familiarizados" - disse o Vice-Presidente, e depois fez uma expresso de quem desejava no haver dito nada. 
       - Voc tem razo, Arnold - disse Frangipani. - Leia-se "intimamente" e no "inteiramente". Estamos falando de um ser humano, no de uma mquina. 
       Duparquet ficou satisfeito com a mudana de disposio; de nada adiantaria ser duro quando o grupo queria algum alvio da tenso. 
        guisa de conversa, ele disse: 
       - Sabem, existe um erro na Vigsima Quinta Emenda. O nico erro tipogrfico da Constituio. E diz respeito a ns. 
       Ele pegou um exemplar da emenda, que todos tinham  sua frente, junto com o memorando jurdico, e disse: 

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       - Olhem a Seo 4, linha dois. Diz "os principais funcionrios dos departamentos executivos"... plural, e representa o Gabinete. Depois olhem mais para baixo, 
para a quinta linha do pargrafo seguinte. Diz "os principais funcionrios do departamento executivo"... no singular. Isso poderia significar o posto do Presidente. 
Obviamente, os autores queriam dizer o plural, mas depois que o texto foi ratificado pelos estados, eles no poderiam mudar o maldito erro, a no ser que tivessem 
de emendar novamente a Constituio. 
       - Eles passaram dez anos labutando para conseguir os melhores termos na redao dessa emenda - admirou-se Frangipani - e acabam com um erro tipogrfico. Lembro-me 
da observao de um de meus predecessores em Nova York: "Quando cometo um engano,  daqueles de lascar!" 
       - Meu argumento sobre a sade geral do Presidente - disse o P. G., retornando ao debate -  que o mdico do Presidente  o nico doutor que tratou dele no 
ltimo ano. E tem estado constantemente com ele desde o ms passado. Sua familiaridade , para usar aquela palavra, "inteira". Submeto-files uma declarao assinada 
pelo Dr. Abelson, escrita hoje de manh, aps exame do Presidente, e que atesta a boa sade geral do seu paciente. 
       Duparquet apresentou um monte de papis, que Bannerman encarou soturnamente. 
       - Para seu exame de hoje, o Dr. Abelson recorreu ao Hospital Naval de Bethesda, e a um especialista em contagem de glbulos do Johns Hopkins Hospital. Todos 
os fatos e nmeros esto aqui, elaborados por seis dos homens mais qualificados em seus respectivos campos. Mike, se voc tem algum que vai reptar este relatrio 
sobre o estado geral de sade do Presidente, voc ser o responsvel pela primeira discordncia pblica entre mdicos na histria da Associao Mdica Americana. 
       - O preclaro advogado est torcendo meu pensamento - disse Fong. - No so a presso sangnea nem a pulsao do Presidente que esto em debate.  possvel 
que sua sade em geral seja bastante boa, excetuando o fato de que ele est totalmente cego.  sua sade mental, o trauma resultante do choque da nova cegueira, 
que o torna incapacitado.  disso que quero falar, Procurador, no da maldita temperatura dele. 
       - E que sugere para determinar a incapacidade mental do Presidente? 
       - Temos uma junta de psiquiatras. Eles esto de planto, na sala de espera da Ala Oeste. 
       Duparquet levantou-se da cadeira e apoiou-se com as juntas dos dedos na mesa do Gabinete. 

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       - O senhor submeteria o Presidente dos Estados Unidos a um exame por uma junta de psiquiatras, para determinar se ele est em condies de exercer o cargo? 
       Isso mesmo! - Fong praticamente gritou. 
       - Cavalheiros - ponderou Bannerman, a lgica personificada. - Dirijo sua ateno para o retrato que ocupa o lugar de honra nesta sala. Em 1919 Woodrow Wilson 
sofreu srio derrame. Foi cercado por seus assessores da Casa Branca e por sua mulher, que determinavam o que ele poderia apreciar e o que no poderia. As decises 
sobre a Liga das Naes estavam pressionando o pas, e cerca de vinte e oito textos urgentes legislativos tornaram-se lei sem que ele os assinasse. Pelo que sabemos, 
a Sra. Wilson era o Presidente Interino. As aes do Presidente Wilson eram,  luz do conhecimento psiquitrico atual, obviamente paranicas. Quando seu Secretrio 
de Estado, Sr. Lansing, sugeriu seu afastamento, o chefe da Casa Civil na poca, Joseph Tumulty, o censurou e providenciou que o Secretrio Lansing fosse rapidamente 
exonerado. 
       Bannerman desviou o olhar do retrato para o Secretrio Curtice: 
       - O senhor ocupa a cadeira de um homem de grande valor e coragem. Tenho isto a dizer-lhes, cavalheiros: se o Gabinete de Wilson tivesse o poder que agora 
temos, o Presidente Wilson teria sido examinado por competentes psiquiatras e teria sido forado a renunciar. No pode haver nenhum mal nesse exame psiquitrico, 
s pode haver bem. 
       - Nenhum mal? - perguntou Duparquet. - Que acontecer  sua capacidade para governar, se ele tiver de ser julgado por um supremo tribunal de "dissecadores 
de crebros"? Forar um Presidente a ter sua cabea examinada: isso seria desprestigiar o cargo e o homem. E quem somos ns, para ceder nossa deciso em favor de 
um punhado de psiquiatras? Ser que j no  bastante para ele estar cego? Teremos tambm de implantar a sugesto na mente do povo de que ele tambm est maluco? 
       Duparquet sabia que no estava conseguindo nada: o sarcasmo funcionava com um jri, raramente com um juiz. Mas tambm sabia, assim como Bannerman devia saber, 
que o orgulho de Ericson jamais permitiria que ele se submetesse a uma avaliao psiquitrica pblica, especialmente quando este relatrio contivesse linguagem que 
o leigo poderia achar alarmante. O Procurador-Geral no tinha nenhuma deciso a tomar: Ericson deixara claro que no lanaria o precedente de exames psiquitricos 
de presidentes que no estivessem realmente malucos, por isso tentou reduzir o impacto da recusa junto a Curtice. Tinha de provar que a recusa categrica de Ericson 
era razovel. Subitamente, perguntou a Fong: 
       - Quem  o maior psiquiatra que est a? 

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       - O Dr. Paul Whitney, presidente da Associao Psiquitrica Americana, seria considerado uma escolha lgica para liderar a junta. 
       - Traga-o aqui -, disse o Procurador-Geral. - Vamos falar com ele. 
       Bannerman pareceu alarmado, o que Duparquet notou com satisfao. A estratgia deles era mandar os mdicos embora sem que fossem consultados, e apresentar 
esse fato como evidncia de que um Presidente instvel no toleraria nenhum exame. Bannerman no havia avaliado o que um experiente advogado criminal podia causar 
 credibilidade de qualquer psiquiatra. 
       O Dr. Whitney entrou, e sentou-se na extremidade da mesa. O Vice-Presidente fez com que jurasse sigilo e lhe agradeceu pelo patriotismo em vir. Nichols ilhou 
ento para Duparquet, que disse a Mike Fong: 
       - Ele  todo seu. Deseja que ele faa uma declarao, ou o qu? 
       Fong olhou indeciso para Bannerman, que disse: 
       - Dr. Whitney, poderia dizer ao Gabinete o que seria necessrio, em termos de tempo, para nos dar um relatrio acerca da sade mental do Presidente? 
       - Supondo que tempo seja a essncia - respondeu o psiquiatra, com as mos calmamente cruzadas  sua frente - dois dias de testes e entrevistas. Mais um para 
consultas, e para redigir o relatrio. Acredito que o tempo seria o mesmo que para um testemunho urgente de um perito num julgamento em tribunal. 
       O Secretrio de Estado Curtice virou-se para o Secretrio de Defesa Reed, sentado ao seu lado, em frente  cadeira vazia do Presidente: 
       - Se isso ficasse conhecido, o que significaria para uma possibilidade de intimidao? 
       Reed deu-lhe um breve sorriso. 
       - Se uma potncia hostil julgasse que nosso Presidente estava maluco, nossa intimidao seria ainda mais forte. Sanidade, a preocupao humana com vidas, 
enfraquece uma intimidao: um homem so  menos inclinado a lanar um ataque retaliatrio na devida ocasio. 
       - Ento um exame no o perturbaria? 
       - No. 
       Bannerman interveio: 
       - Apenas daquilo que o senhor pde observar pela televiso, doutor, e de sua prpria experincia com pacientes que sofreram um 

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choque como a perda da viso, qual seria, na sua opinio, o efeito da emboscada de Yalta no tocante s faculdades do Presidente? 
       O resto do Gabinete no olhou para o mdico e sim para Duparquet, para ver se ele seria contrrio a essa pergunta, o que no ocorreu. 
       - Jamais tentaria fazer um julgamento individual de longe - respondeu o mdico. - Falando geralmente, e no sobre o Presidente Ericson, eu diria que um choque 
traumtico como o sbito advento de uma cegueira, teria um efeito prejudicial mensurvel na capacidade da pessoa mediana para... bem, tomar decises. 
       - Que diria o senhor, doutor, posso, Roy? - Duparquet interveio suavemente, como se estivesse ajudando o exame. - Se uma pessoa ficasse subitamente cega, 
fisicamente abalada e inconsciente, escapasse de uma sangrenta tentativa de assassinato na qual um homem morreu em cima dela e, depois disso tudo, esse homem no 
sofresse quaisquer perturbaes mentais? 
       O psiquiatra foi cuidadoso. 
       - No seria uma reao normal. 
       - Vou diz-lo de outra forma. Se uma pessoa sasse disso tudo completamente calma, absolutamente em comando de todas as suas faculdades, a prpria essncia 
da moderao, o senhor diria que seria anormal? 
       - Se o senhor compreende "anormal" como querendo significar no a reao da pessoa comum, eu diria que sim. 
       - Em outras palavras - resumiu o Procurador - a pessoa teria de estar maluca para no ficar perturbada, muito perturbada. 
       - Eu jamais usaria um termo to impreciso quanto "maluca", senhor. Mas compreendo seu ponto de vista, e foi bem apresentado. Gostaria de... 
       - Dr. Whitney, prosseguindo - Duparquet no queria que a testemunha do "outro lado" fizesse uma declarao - gostaria de explorar com o senhor a terminologia 
usada nos relatrios psiquitricos. Esqueamos os indivduos, falemos geralmente.  possvel uma pessoa ter tendncias manaco-depressivas, ou tendncias esquizofrnicas, 
sem ser psictica? 
       - Evidente! Esses termos, quando usados, por leigos, so assustadores, mas quando usados com alguma preciso por mdicos, so necessrios para se compreender 
a estrutura mental do paciente. 
       Duparquet assentiu com a cabea, como se estivesse do lado do mdico. 
       - Esses termos so freqentemente extrados do contexto por leigos, no  verdade? 

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       O psiquiatra concordou com a cabea. 
       - Que me diz de palavras como "psictico" e "neurtico"? 
       - Psicose  uma sria perturbao mental, uma fuga da realidade - respondeu o psiquiatra - e neurose  qualquer das vrias perturbaes funcionais sem nenhum 
visvel efeito, tal como uma ansiedade inexplicada. 
       - Muita gente tem neuroses? 
       - A maioria das pessoas, de uma forma ou de outra, mas so controlveis. 
       - Isso quer dizer que se fizessem um relatrio sobre mim, por exemplo, talvez, dissessem que tenho esta ou aquela tendncia neurtica, que me inclino a depresses 
ocasionais, e a certas manifestaes esquizides relativamente brandas. 
       - Percebo aonde quer chegar, Sr. Procurador-Geral - comeou o psiquiatra, mas Duparquet o forou a voltar  pergunta especfica: 
       - Por favor, senhor, permita que o Gabinete decida aonde quero chegar. O senhor se limite a ser nossa testemunha tcnica e a responder quela pergunta especfica. 
       - Os termos que indicam padres normais de conduta aos mdicos costumam ser assustadores para os leigos. Contudo... 
       - Obrigado, doutor. 
       Deixe-o terminar, pelo amor de Deus! - interveio Bannerman. - Continue, doutor, o senhor no est depondo. 
       - Eu queria enfatizar que, numa situao delicada como esta, os mdicos evidentemente evitariam utilizar qualquer terminologia que pudesse ser mal compreendida 
pelo povo em geral. 
       -  claro - disse o P. G. - E se um reprter de televiso enfiar um microfone na cara de um membro da junta e perguntar: 
       "O Presidente est ou no neurtico?", o mdico responder firmemente "Absolutamente no!" 
       - Bem - tergiversou o psiquiatra - o senhor no poderia esperar que ele dissesse que. 
       - Mudemos de assunto - interrompeu Duparquet. - Qual sua opinio sobre psiclogos? O senhor os poria na mesma classe que quiropratas, charlates ou o qu? 
       - Os bons psiclogos costumam dar excelentes terapeutas. No so mdicos, como os psiquiatras so, e s vezes alguns deles, sem nenhuma qualificao, chamam-se 
de psiclogos; e esses podem causar muito mal. 
       - O senhor diria que algum com um grau de doutorado em psicologia pela Faculdade de Medicina de Harvard, membro da diretoria

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da Associao Psicloga Americana, e cujos artigos sobre dificuldades psicolgicas especficas dos cegos tm .aparecido no Journal of the American Medical Association, 
 "qualificado"? 
       O psiquiatra assentiu com a cabea. 
       - O Dr. Henry Fowler  um dos mais brilhantes psiclogos do pas, e o Presidente Ericson tem sorte em Contar com seus servios. Ele no , porm, um psiquiatra. 
       O P. G. achou que j era hora de dispensar o testemunho do mdico. 
       - Algum outro membro do Gabinete tem perguntas? Ento quero agradecer-lhe muitssimo por sua colaborao, doutor. 
       E ento lisonjeou quase imperceptivelmente o mdico: 
       - Quando eu estudava em Tallahassee, admirava muito seu trabalho sobre as crises de identidade, Dr. Whitney. E sei que meu colega tem orgulho pelo fato de 
que esse estudo tenha sido financiado pela Fundao Bannerman. 
       - Muito amvel em lembrar-se - disse encantado o psiquiatra, evidentemente satisfeito que seu apoio anterior no fosse secreto. - Sempre quis agradecer-lhe, 
Secretrio Bannerman, pela grande assistncia que sua famlia tem dado a muitos de ns nesse campo. 
       - O prazer foi todo nosso - disse Bannerman secamente. 
       Depois da sada do psiquiatra, Fong disse: 
       - Voc ainda  capaz de confundir o depoimento de uma testemunha, Procurador, tenho de reconhecer isso. Mas est cansado de saber que o Presidente Ericson 
 um homem doente, doente da cabea e cego, ou no estaria agarrado ao poder, contra toda a lgica. E voc sabe que um exame psiquitrico profundo provaria isso, 
e por isso ele se recusa a submeter-se. 
       Duparquet recordou-se de que Curtice era o alvo, no o resto da sala, nem os registros, nem a "histria". Como dizia um clebre Secretrio de Estado: "Mostre-me 
um bom perdedor e eu lhe mostro um perdedor". Se ele perdesse Curtice, perderia a Presidncia de Ericson, por isso no podia deixar de marcar todos os pontos. 
       - Acontece que voc est errado, Mike - disse o P. G. - e ainda bem que o seu homem elogiou as credenciais de Henry Fowler. Eis aqui uma declarao do Dr. 
Fowler, repito que datada de hoje, e que contm uma anlise das condies mentais do Presidente. E muito franca e completa, e altamente confidencial. Afirma, sem 
sombra de dvida, que o Presidente est de posse de suas faculdades, e que se est adaptando satisfatoriamente a um dos traumas mais arrasadores que uma pessoa pode 
sofrer. 

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       Os homens na sala fizeram uma pausa para ler a declarao de Fowler, que no era to inequvoca como a classificara Duparquet, e ele rapidamente prosseguiu: 
       - Alm disso, acabamos de desembaraar-nos de nosso dever nesta reunio, ou seja, o de buscar e estudar opinio mdica qualificada de mdicos "inteiramente 
familiarizados" com o Presidente. Sabemos que ele no est mentalmente enfermo. Sabemos que no est fisicamente doente. E sabemos que ele  cego. A nica pergunta 
que devemos responder :  impossvel a um homem cego exercer os poderes e os deveres da presidncia? 
       - No aceito isso - disse Bannerman. - Voc est restringindo demais a pergunta. Ericson, o Presidente Ericson, est confuso e apavorado. Est indeciso, e 
certamente j no  o mesmo homem. A cegueira no  algo com o qual ele tenha aprendido a conviver. Talvez um homem nascido cego, e que portanto soubesse enfrentar 
o problema, pudesse concorrer  Presidncia, ser eleito e ser capaz de trabalhar. Mas estamos falando de uma cegueira repentina, total e chocante, e o homem est 
literalmente cambaleante. No pode fazer seu trabalho adequadamente. 
       O Procurador-Geral vislumbrou uma brecha. 
       - Ser que o compreendi dizer que um homem nascido cego poderia ser um Presidente eficaz? 
       - No tora minhas palavras, Procurador. Estamos discutindo um ponto sutil, e voc no est representando para a platia. 
       - Perdoe minha falta de sutileza, mas se a cegueira no  uma causa ipso facto para uma declarao de incapacidade, voc no tem nada em que se apoiar. 
       Duparquet reconheceu que essa metfora fora meio confusa, mas talvez fosse uma abertura. 
       - Meu ponto  o seguinte - disse lentamente Bannerman. - No estamos apenas falando de cegueira, estamos falando da incapacidade de conseguir sobrepuj-la. 
Hank Fowler  cego, mas conseguiu conquist-la. Levou anos, talvez a maior parte da vida. Um Presidente subitamente cego no tem tempo. Ele precisa enfrentar o fato 
agora, esta tarde. E voc sabe que Ericson no pode. 
       - Fowler no nasceu cego - disse Duparquet - s ficou cego h alguns anos. Voc diria que ele pode ser Presidente? 
       - Droga! - explodiu Bannerman, batendo a palma da mo na mesa, como Duparquet esperava que fizesse. O Secretrio do Tesouro, porm, rapidamente dominou a raiva: 
       - Procurador, o pior cego  o que no quer ver, conforme diz o ditado. Voc se recusa a ver a diferena entre o fato de o 

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povo americano eleger um homem cego, e o de ter um cego subitamente imposto. Essa faz toda a diferena do mundo. 
       - Calma, Procurador - disse Preston Reed. - Se um cego concorresse  Presidncia e fosse eleito, no haveria debate quanto  incapacidade Teria sido uma deciso 
do povo. Essa sbita investida da cegueira  uma situao completamente diferente: o povo no elegeu um cego. 
       - No  como se Ericson usasse culos de lentes duplas - acrescentou Bannerman - ou que tivesse um passado de problemas nos olhos. Se fosse esse o caso, e 
o povo soubesse o risco e o elegesse de qualquer forma, ento voc poderia dizer que o povo sabia o que estava fazendo, e que um cego conviria. 
       - Ericson no tinha esse passado - afirmou Duparquet. - Nunca na vida teve um minuto de problemas com os olhos. Isso lhe aconteceu no desempenho do dever. 
Empecilhos acidentais so um risco que assumimos na eleio de qualquer homem. 
       Ele se arrependeu de haver entrado nessa rea, e gostou quando Frangipani o socorreu, com uma irrelevncia. 
       - No me importaria de que todos os candidatos a presidente fossem submetidos a exames psiquitricos - disse ele, totalmente fora de hora, mas demonstrando 
sensatez. - Isso proporcionaria ao Gabinete, numa ocasio como esta, algo em que se basear, para servir de cotejo. 
       - Isso teria impossibilitado Abraham Lincoln de ser Presidente? - interveio Duparquet. 
       - Ento talvez no seja uma boa idia - disse Frangipani, virando uma moeda de dez centavos, e olhando para Fong: 
       - Mike, tente perceber como eu vejo o assunto. Voc concorda que o Presidente no est biruta, que no est caindo aos pedaos nem em coma, e que a prpria 
cegueira no  uma causa definitiva de remoo do cargo. Que argumentos lhe restam? Que ele derrubou uns copos? E da? Que ele trocou o nome de Uganda? Eu fao isso 
sempre. Que ele ficou danado com um reprter atrevido? Grande coisa. 
       Ningum interrompeu Frangipani. 
       - Eis o que eu acho - continuou ele. - Estamos todos pensando em nosso eleitorado. O P. G. est preocupado com o precedente legal, que facilitaria a usurpao 
futura da presidncia Curtice tem de pensar na nossa imagem perante o mundo. Eu... droga, tive de passar por uma fila de piquete instalada em frente ao edifcio 
do Departamento de Recursos Naturais hoje de manh. Era gente coxa, aleijada, cega, gente que dizia que se fizermos o Presidente sair, mataremos a oportunidade de 
uma vida decente para trinta milhes 

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do pessoas deficientes fsicas. Quero dizer isto: todos ns estamos considerando o assunto individualmente, todos estamos "certos". Estamos convencidos de que sabemos 
o que devemos fazer, mesmo quando nos defrontamos em campos contrrios. Eu digo que, quando a gente no sabe o que fazer, no deve fazer nada. Estamos bastante divididos 
quanto ao assunto, portanto, vamos deixar por isso mesmo, esperar que o Presidente melhore e, se ele no melhorar, tentaremos convenc-lo a se afastar voluntariamente. 
Se tudo der errado, daqui a um ou dois meses, nos encontramos novamente, se for preciso.  isso o que eu acho, e acredito que um bocado de gente neste pas concorda 
comigo. 
       - Esta foi uma convincente explanao, Andy - disse o Secretrio de Defesa. - Voc tem razo ao dizer que encaramos esta terrvel situao do nosso estreito 
ponto de vista. Julgo, porm, que s h uma coisa "certa" para ns fazermos como Gabinete. Deixe-me apresentar o problema segundo o enfoque da Defesa. Talvez vocs 
achem desprezvel. Importam-se se eu andar? 
       Preston Reed levantou-se, foi at a cadeira vazia do Presidente, e inclinou-se contra o seu espaldar. 
       - Nossa mais importante responsabilidade  a sobrevivncia dos Estados Unidos. Todos ns, o Presidente, o Gabinete, e mais tarde talvez o Congresso, precisamos 
nos lembrar sempre disso. No h realmente tempos "seguros", mas os cientistas nucleares tm um meio de avaliar a tenso internacional, usando os ponteiros de um 
relgio. Em certa poca da dcada de sessenta, estvamos a "dois minutos para a meia-noite". Depois, quando houve a aliana sovitico-americana, o perigo retrocedeu. 
No final da dcada de setenta, o relgio dos cientistas indicou que estvamos a vinte e cinco minutos para a meia-noite. Este ano, o perigo cresceu de novo, como 
sabemos todos. O Segundo Mundo do Extremo-Oriente est fomentando problemas entre o Terceiro Mundo e o Quarto Mundo, crendo, talvez, que se possa travar uma guerra 
secundria, que atrairia o Primeiro Mundo e deixaria o Extremo-Oriente com as cartas. 
       "Voltamos, ento, aos dois minutos para a meia-noite. A emboscada de Yalta poderia possivelmente ser o Saravejo desta gerao. Achamos que sabemos a razo 
da emboscada de Yalta, e quem estava por trs dela, mas podemos estar enganados. Se estivermos, e o principal alvo fosse o lder sovitico e no o Presidente americano, 
 possvel que a aliana sovitico-americano esteja sob grande tenso, e uma guerra talvez esteja iminente. 
       Curtice franziu o cenho. O Vice-Presidente engoliu em seco. Frangipani suspirou alto para Fong: 
       - Quem foi Sara Jevo? - e no recebeu resposta. Bannerman permaneceu impassvel e o P. G. o imitou. 

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       - Nessa ocasio - Continuou Reed a sobrevivncia dos Estados Unidos seria enormemente ajudada pela aparncia de estabilidade e Continuidade o potencial de 
sobrevivncia seria muito prejudicado pela aparncia da instabilidade e incerteza. Favor observar que digo "aparncia de". Nesta situao estamos tratando dos planos 
de outras potncias e como parecemos aos olhos delas  ainda mais importante do que aquilo que realmente somos. Sei que  estranho dizer isso, mas  importante que 
percebamos o seu sentido. Sabemos que existe uma moralidade constitucional enraizada em todo americano, e que nos faz estveis enquanto outras democracias desmoronam 
Sabem isso, mas os outros no o sabem. Sentimos nossa estabilidade nos ossos, mas eles no podem sentir o que est nos nossos ossos. 
       - Se parecemos paralisados - Reed se aproximou do seu argumento  como se estivssemos paralisados. Isso, em si mesmo, incentiva os elementos mais militantes 
da aliana do Extremo-Oriente, e talvez da Unio Sovitica, a entrar em ao. Somos alvos abertos para um ataque nuclear. A crise se auto-alimenta. 
       "Alguns de vocs esto com aquela expresso - continuou Reed - que as pessoas adotam quando o Secretrio da Defesa fala sobre Armageddon No sou alarmista, 
mas, por favor, acreditem me quando lhes digo que estou muitssimo preocupado E acho que, se no tomarmos uma atitude que acabe com esse impasse, que termine com 
a aparncia de paralisia, estaremos fazendo um convite  catstrofe. E a catstrofe vir. 
       "Este  o meu pensamento Se o Presidente  o patriota que julgo que seja, ele poder ser persuadido a ir embora. No a se afastar, sejamos realistas, mas 
a renunciar. Devemos enviar Voc, o Procurador-Geral, como nosso mensageiro do Gabinete, dizer que a deciso desta reunio  que ele deveria servir melhor ao seu 
pas atravs da renncia. Claro que ele e Voc esto pensando na estabilidade da presidncia, o que  inteiramente digno de vocs dois. Vocs, porm, devem colocar 
a sobrevivncia da nao acima disso. Faa-o, Procurador.  a Coisa certa a ser feita. No nos force a depor o Presidente. 
       Eles tm trs votos, pensou Duparquet, contra os nossos dois. Se Curtice resolvesse se abster, e conseguisse realmente no votar, eles teriam maioria. 
       Preston - replicou da cadeira - lembra-se daquela frase de antes da Guerra Civil, quando ele disse aos sulistas que eles no haviam prestado um juramento 
no cu para destruir a Unio, e que ele fizera esse juramento para preserv-la? o nus de ter iniciado a guerra foi deles, O nus de precipitar essa crise  sua, 
no nossa. 

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       Foi a vez do Procurador-Geral levantar-se e andar pela sala. 
       - Roy Bannerman nos disse que Woodrow Wilson, talvez incapaz de exercer seus poderes, foi simplesmente isolado por seus assessores. Sven Ericson est isolado? 
Ele no est disponvel para ver qualquer de vocs? 
       A palavra no era bem essa; ele se recuperou e voltou atrs: 
       - ... no est disponvel para receber qualquer de vocs? O Presidente Garfield, quando foi ferido por um assassino, ficou em coma por oitenta dias enquanto 
seu Gabinete discutia se o Vice- Presidente Arthur deveria assumir o posto. Sven Ericson est em coma? Est, por acaso, inconsciente e moribundo? 
       Curtice, Curtice, Curtice, e ele tambm no devia esquecer o possvel veto do Vice-Presidente. 
       - Somos um governo de leis e de homens. Os autores da Vigsima Quinta Emenda, que queriam certificar-se de que as ocasies perigosas de Garfield e Wilson 
no voltassem a acontecer, supuseram que os membros dos futuros Gabinetes no seriam tratantes, e sim, homens sensatos. No previram, talvez no pudessem, que no 
 necessrio haver tratantes para que ocorra profundo desacordo entre eles. No acuso ningum aqui de tentar apossar-se do poder, embora, s Deus saiba, alegaes 
de usurpaes venham a ser ouvidas neste pas de um lado a outro, se vocs derrubarem o Presidente. 
       "Preston, se seu principal argumento  que a nao no d a impresso de estar paralisada, por que no nos unimos e afirmamos haver cumprido nosso dever, 
que achamos que o Presidente  capaz de desempenhar suas tarefas, e depois nos reunimos para apoi-lo e instamos o pas a seguir nosso exemplo? Isso resolveria o 
assunto, e removeria o perigo contra o qual o Secretrio da Defesa to sensatamente nos preveniu. Vocs no tm nenhum juramento para derrubar o Presidente, mas 
o Presidente prestou juramento de cumprir seu dever conforme julgar conveniente. Ao lutar s suas costas, vocs minam sua capacidade de governar. 
       - Esta conversa no est levando a nada disse Bannerman. 
       - Sr. Procurador-Geral, considero seu uso do termo "derrubar" especialmente ofensivo. No sou um traidor, no estamos pensando em nenhuma triao. Secretrio 
Fong, vamos dar prosseguimento ao assunto. 
       Fong pegou um pedao de papel e leu: "Proponho que os principais funcionrios dos departamentos executivos, agindo sob a autoridade que lhes  conferida pela 
Vigsima Quinta Emenda  Constituio dos Estados Unidos, declarem o presente ocupante do cargo de Presidente dos Estados Unidos incapaz de exercer os poderes e 
deveres do dito cargo, e que os poderes e deveres do cargo de 

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Presidente sejam delegados ao Vice-Presidente, como Presidente Interino. 
       - Nunca houve momento mais lamentvel nesta sala - disse Andy Frangipani. 
       - Mike - acrescentou o Procurador-Geral - voc vai se arrepender dessas palavras pelo resto da vida. 
       Virou-se ento para Bannerman: 
       - Pelo menos Mike Fong acredita no que diz. Voc objetiva a subir bem alto, Bannerman, como sempre ocorreu. Deus ajude este pas, se gente como voc subir 
ao poder. 
       - Secundo a moo - foi a resposta de Bannerman, enquanto olhava firme para Duparquet. 
       - A moo foi proposta e secundada disse o Vice-Presidente, e acrescentou pouco convincentemente: - Algum debate? 
       O Secretrio Curtice levantou o dedo: 
       - Uma questo de informao, Sr. Presidente. Antes que votemos, gostaria de saber se a lei exige que todos votemos, ou se a absteno estaria de acordo com 
os regulamentos. 
       O Procurador-Geral esmoreceu mas, para no aparent-lo, aprumou-se na cadeira, O Vice-Presidente o olhou e perguntou: 
       -- Poderia o ProcuradorGera1 nos esclarecer a respeito? 
       - Ele deveria ser a ltima pessoa no mundo a nos esclarecer - disse rapidamente Bannerman. - Ele , em primeiro, segundo lugar e sempre, o defensor do Presidente 
Se ele nos fornecesse uma deciso, haveria um gritante conflito de interesses. A deciso deve partir do senhor, Vice-Presidente. 
       -  claro que a deciso partir do Presidente da assemblia - disse o Procurador-Geral - mas ele tem o direito de pedir ao homem que o Senado confirmou como 
principal autoridade legal da nao uma interpretao da lei. 
       Duparquet pensou que seria melhor pedir um recesso. Que Cartwright aproveitas a ocasio para fazer o que pudesse com Curtice, alegasse tudo o que possusse 
contra o Secretrio de Estado, para fazer com que ele votasse a favor do Presidente. No deveria preocupar-se agora com que o tiro sasse pela Culatra: a persuaso 
no dera certo, 
       - Para dizer a verdade, uma informao dessa importncia merece alguma pesquisa, e at consulta com o Assistente do Procurador-Geral. Em vinte minutos poderei 
obter uma resposta definitiva. 
       Concede-se um recesso de vinte minutos - disse o Vice- Presidente. - Solicito que todos permaneam na rea prxima  

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Sala do Gabinete e da Sala Roosevelt, do outro lado do vestbulo, para que possamos voltar a nos reunir rapidamente. 
       O Procurador-Geral levantou-se junto com os demais, foi ao telefone instalado sob a mesa do Gabinete, no assento do Presidente, e ostensivamente pediu  telefonista 
que o ligasse com o Assistente do Procurador-Geral, o homem no Departamento de Justia que tratava da maioria dos debates junto ao Supremo Tribunal. 
       - Charlie, surgiu o tema da absteno. Procure na Histria Legislativa, no trecho que fala sobre depoimentos na Cmara, creio, e depois  repetido no relatrio 
da comisso, e me telefone daqui a quinze minutos para a Sala do Gabinete. 
       Seu assistente comeou a dizer-lhe que no precisava de quinze minutos, pois sabia a resposta, mas Duparquet falou em voz alta: 
       - Precisa ser em quinze minutos, Charlie - e desligou. 
       Foi at o saguo da Ala Oeste, viu Lucas Cartwright em p defronte de sua sala no fim do corredor, e o seguiu  sua sala do canto. 
       - Curtice quer abster-se - informou. - Vou for-lo a votar, mas ele votar favoravelmente  sada do Presidente, a no ser que voc tenha um meio de fazer 
com que volte atrs. 
       - Vou despejar uma tonelada de tijolos em cima dele - disse rpida e tristemente Cartwright - pois sua sensibilidade j no importa. Alguma sorte com Preston 
Reed? 
       - Ele est acabando conosco - disse Duparquet. - Para falar a verdade, chegou at a me apavorar. 
       - Isso  estranho. A Sra. Cartwright disse que a Sra. Reed comentou que ele estava furioso com a presso contra Ericson que estava recebendo de Wall Street. 
       - Isso talvez o tenha irritado, mas ele  um sacana de princpios. A aparncia de estabilidade  tudo, e o voto dele se baseia apenas nisso. 
       Cartwright refletiu um instante, e sugeriu: 
       - Ento contra-ataque com a instabilidade. 
       - Como? 
       - Se Ericson for derrubado, recorrer ao Congresso para conseguir de volta a presidncia. Sero vinte e um dias de discusses. Se ele perder, voltar de trs 
em trs semanas para declarar que est capacitado, e eles tero de discutir o assunto e votar todas as vezes. De cada oportunidade, sero vinte e um dias. Isso poderia 
simplesmente paralisar o pas. 
       - Ele no faria isso. 

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       - Como  que voc pode ter certeza? E se voc disser que essa  a inteno do Presidente, poder Preston Reed ter certeza de que voc est errado? Se voc 
quiser uma prova dramtica, pea- nos um esclarecimento: estaremos prontos. 
       - Vou tentar. Olhe, no sobra muito tempo. Ataque Curtice de todas as formas possveis. 
       O Procurador-Geral desceu os degraus em direo ao Refeitrio da Casa Branca, entrou no local onde estavam as mquinas de vendas de artigos diversos, e comprou 
uma rosquinha e uma caixa de leite. O leite era para a lcera, e a rosquinha destinava-se a melhorar sua disposio. Sozinho, no balco sem banquinhos, foi sugando 
o leite atravs do canudinho e avanando mentalmente desde o provvel voto do Gabinete para derrubar o Presidente at o momento em que o Vice-Presidente Nichols 
teria de tomar sua deciso. Duparquet tencionava interceder nessa altura, com um apelo, em que lembraria Nichols da restrio demonstrada pelos Vice-Presidentes 
anteriores, e sugerir que a primeira utilizao da Vigsima Quinta Emenda no deveria ser um tpico controvertido, e que o Presidente deveria agir voluntariamente 
ou, pelo menos, estar inconsciente e no se opor a ela. Se assim no fosse, a prpria emenda poderia ser rechaada, sob a alegao de que seria um convite a futuras 
usurpaes. Talvez isso desse certo. Nichols poderia assustar-se  ameaa de ser considerado um usurpador, e de ser violentamente odiado pelos homens leais a Ericson. 
Duparquet avaliou rapidamente seus prprios sentimentos: naquele momento, parte dele era o advogado analtico, agindo segundo a estratgia do rato encurralado; parte 
era o lutador visceral, que solicitava auxlio a Cartwright com todo o tipo de presso que pudesse ser usada; parte dele era o partidrio, que odiava ser derrotado, 
e era leal ao homem que o pusera onde estava; parte era o estadista, que defendia o posto do presidente de uma captura inqua, embora legal, e que desfrutava de 
todos os momentos de sua participao numa hora histrica; a ltima parte cabia ao observador, que estava avaliando tudo isso ao invs de estar l em cima, caso 
alguma ligeira vantagem pudesse ser acrescida  sua causa com a sua presena. Deixou a rosquinha no balco, inacabada, e voltou ao trabalho. 
       - Sirvamos a nosso pas - foram as palavras iniciais do Procurador-Geral, aps Nichols haver reaberto a sesso - e recusemos fazer histria. A primeira vez 
em que a Vigsima Quinta Emenda deveria ser invocada, com toda a majestade e solenidade na transferncia do maior poder na terra, deveria ser numa ocasio em que 
uma arrasadora maioria de americanos pudesse concordar com sua necessidade. No quando homens de boa vontade divergem to profundamente a ponto de lanar dvidas 
sobre a legitimidade daquela transferncia. 

Pg 263 
       Para evitar olhar para o Vice-Presidente, ele encarou Bannerman: 
       - Eu o incluo, senhor, entre os homens de boa vontade, e retro meus arrebatados comentrios quanto aos seus motivos. 
       - Aceito sua justificativa - disse Bannerman, com o queixo firme e a expresso fria. - Comecemos a votao. Seu assistente concordou com sua posio, ou voc 
descobriu outra pessoa na Justia que apoiasse sua opinio? 
       - Oh, no h dvida acerca disso - exclamou alegremente Duparquet. - O Assistente do Procurador-Geral confirmou minha reao inicial. A histria legislativa 
 muito especfica ao determinar que se espera que todos os departamentos executivos votem. Se o chefe do departamento estiver doente, ou no estiver disposto a 
votar por outra razo qualquer, o chefe interino do departamento vota pelo departamento. 
       Voltou-se para o Vice-Presidente: 
       - O parecer formal do Departamento de Justia, Sr. Presidente, que o senhor solicitou,  este: se algum membro do Gabinete desejar se abster de votar quanto 
 incapacidade do Presidente, tem a liberdade de faz-lo pessoalmente, como indivduo, mas o voto do seu departamento deve ser dado por seu substituto imediato. 
Como h seis departamentos, deve haver seis votos. Isso, evidente, se se quiser forar o que estiver dando a impresso de um impasse a um voto. Pessoalmente, acho 
que, na ausncia de uma maioria evidente para qualquer um dos lados, o que significaria que o Presidente no teria de se afastar, o pas e este Gabinete estariam 
mais bem servidos com a retirada total da moo. 
       Fong disse: 
       - No, obrigado. Acho que talvez possamos ter uma maioria definida. 
       Olhou para Curtice, que assentiu levemente. O corao de Duparquet sucumbiu: a presso de Cartwright no funcionara. O Secretrio de Estado parecia desolado, 
mas determinado. 
       Depois de uma pausa, o Vice-Presidente disse: 
       - Bem, obedecendo ao conselho do Procurador-Geral e de seu assistente, minha deciso, Secretrio Curtice,  que as pessoas se podem abster, mas no os departamentos. 
Cada um dos senhores, ou seu subordinado imediato, dever dar seu voto, se o Secretrio Fong no retirar a moo. 
       Nichols suspirou sua relutncia em ser levado  fase dos procedimentos. 
       - Antes de votarmos - disse o Secretrio de Defesa - como no existe muita dvida sobre o resultado final da votao, no poderamos persuadir o Procurador-Geral 
a convencer o Presidente 

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de cumprir com seu dever? Seria certamente melhor para o pas, e no interesse da paz, que o Presidente invocasse voluntariamente a Vigsima Quinta, e no insistisse 
em ser expulso. 
       - O Presidente Ericson no est insistindo em ser expulso - replicou o Procurador-Geral, com tristeza na voz. - Ele est servindo no seu cargo para o qual 
foi eleito por maioria de votos de um povo democrtico. Vocs  que esto insistindo em expuls-lo. Ele  obrigado a resistir a uma injusta captura do poder presidencial. 
       - Voc est, portanto, absolutamente certo - disse o Secretrio Reed - de que o Presidente pretende levar o caso at uma crise constitucional. 
       - Vocs, no ele, esto precipitando a crise. 
       Duparquet agarrou-se  sugesto de Cartwright: 
       - E ainda mais, vocs no se detiveram para considerar as conseqncias  segurana nacional do seu ato. 
       - Como assim? - indagou Reed. 
       - Se - disse o Procurador-Geral - e creio que sua certeza sobre o resultado final da votao no tem razo de ser, mas se o Gabinete resolver votar pela sada 
do Presidente, e se o Vice-Presidente no evitar que vocs o faam Presidente Interino, o que, evidentemente, ele tem o poder de vetar, o Presidente Ericson j deixou 
absolutamente claro que tenciona levar o assunto ao Congresso para a deciso final. 
       - Sabemos que isso  o que ele pretende agora - disse Reed - mas certamente, depois que ele considerar... 
       - Conheo o homem - interrompeu Duparquet. - Sven Ericson lutar contra essa injusta captura do cargo enquanto respirar. E no se esqueam de que ele continuaria 
Presidente. Ocupar o cargo de Presidente, apenas os poderes e deveres da presidncia lhe seriam retirados. Sabem que mais? Ele me disse que seguir literalmente 
as implicaes da palavra "cargo", e continuar a viver na Casa Branca, e a usar o Salo Oval em sua campanha para recuperar os poderes e os deveres, se estes lhe 
forem esbulhados. A ento, Preston, voc v dizer ao mundo que os Estados Unidos tm posio estvel. E voc diga ao mundo, George, que os negcios de estado podem 
ser conduzidos com segurana. 
       - Ele certamente no faria isso - disse Reed. - A idia da Vigsima Quinta Emenda foi de que o Vice-Presidente se tomaria Presidente Interino, e que permaneceria 
como tal durante os vinte e um dias de qualquer impugnao lanada pelo antigo Presidente. Isso foi para evitar um problema de legitimidade, ou de uma mudana 

Pg 265 
de poder de l para c. Voc agora diz que o Presidente Ericson realizaria uma espcie de sit-in? [nota * Greve ou forma de protesto na qual os trabalhadores se 
recusam a abandonar o local de trabalho. (N. da T.)] 
       - As pessoas que chegam a Presidentes - disse o P. G., percebendo que estava conseguindo impressionar Reed - so muito fortes e resolvidas. Lutam durssimo. 
Vamos agora discutir as conseqncias de aes posteriores. Digamos que vocs venam aqui. Digamos que o Vice-Presidente cometa o maior erro de todos os Vice-Presidentes 
da histria e ponha a coroa na prpria cabea. Digamos, ainda, que o Congresso d maioria de dois teros e concorde com isso. Sabem o que aconteceria? 
       - Diga-nos - falou Bannerman, imperturbvel. 
       - Leiamos o segundo pargrafo da Seo 4. 
       O P. G. apanhou o documento e leu: 
       - "Quando o Presidente transmite... sua declarao por escrito de que no existe incapacidade, ele reassumir os poderes e os deveres do seu cargo..." Sabem 
o que significa isso? Que, se for declarada incapacidade, o Presidente Ericson tem o direito de recorrer ilimitadas vezes ao Congresso, no h restrio constitucional 
quanto ao nmero de vezes, e exigir que eles votem a restaurao de seus poderes. 
       Bannerman moveu impacientemente a mo. 
       - Isso no faz sentido. Ele perderia por maioria cada vez maior, a cada oportunidade. Seria considerado um tolo e uma pessoa nociva e, na verdade, sua capacidade 
mental seria ainda mais questionada. 
       Frangipani interveio. 
       - Por outro lado, ele poderia ser considerado, por muita gente, como a conscincia da presidncia, batendo  porta do Congresso de trs em trs semanas, exigindo 
e conseguindo que seu caso fosse votado. O assunto no sairia da pauta, ele agiria como o Rei Lear. 
       - Isso seria desastroso - comentou friamente Reed. - Seria um convite ao aventurismo de nossos inimigos. Nenhum homem que ponha seu pas antes de si mesmo 
faria isso 
       - Se voc no me acredita, pergunte a ele. - sugeriu Duparquet. 
       - Votemos - disse Bannerman. 
       - Espere, Roy, isto  importante - falou Reed. - Aonde voc quer chegar, Procurador? 

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       - Apertemos o boto sob a cadeira de Ericson e solicitemos a entrada de sua secretria. Eu lhe falarei sobre a inteno do Presidente Ericson, e vocs vero 
por si mesmos. 
       -  - disse Frangipani - talvez Emmett esteja blefando. 
       Sem uma palavra, o Secretrio de Defesa Reed inclinou-se at a cadeira vazia do Presidente e apertou um boto; em instantes, Melinda McPhee entrou, com o 
caderno de taquigrafia na mo. 
       - Srta. McPhee - comeou o Procurador-Geral - faa-nos o favor de sentar-se um instante e anotar este meu recado ao Presidente: 
       Ele no fez uma pausa por temer que Bannerman rompesse o mpeto da ocasio: 
       "Senhor: Por favor, escreva, de seu prprio punho, a atitude que pretende tomar na eventualidade, que considero improvvel, de o Gabinete, o Vice-Presidente 
e o Congresso declararem sua incapacidade. Gostaria de mostrar sua resposta por escrito a meus colegas do Gabinete o mais rpido possvel". 
       Melinda no parou para reler o recado; voltou-se e saiu da sala. 
       - Esse foi um grande erro - disse Bannerman. - O senhor est excluindo suas opes. O senhor tambm est aceitando a inevitabilidade da derrota. Sr. Procurador-Geral, 
creio que lamentar a precipitao de sua atitude. 
       Duparquet deduziu que Bannerman no compreendia o pquer poltico, em que os riscos eram grandes. Quando se est certo de perder, aumenta-se a "parada"; quando 
se est  beira da falncia, pede-se mais emprestado, o que torna impossvel aos credores apertarem o cerco sem se prejudicar. Evidente que isso tudo era um jogo, 
e essa era a filosofia do jogo: jogar com a certeza dos outros de que se empregaria sem hesitar toda a fora que se tivesse. E nenhuma opo, na verdade, era excluda; 
se o truque falhasse, o Presidente poderia mudar de idia. 
       Em alguns momentos, em que nada se disse, Melinda McPhee abriu a porta, dirigiu-se  cadeira do Procurador-Geral e colocou o pedao de papel de carta esverdeado 
 sua frente. Ele pensou que ela era uma mulher e tanto: digna de confiana, competente, corpo harmonioso de traos agradveis. Observou-a fechar a porta e depois 
pegou o papel, que Ericson e Cartwright deviam ter comeado a preparar antes do fim do recesso. 
       - A caligrafia  obviamente do Presidente, e a tinta ainda est molhada. Eis o que ele diz: "Sr. Procurador-Geral: No sou o pessimista que o senhor . Porm, 
se tiver de recorrer ao Congresso para garantir minha capacidade, eu o farei repetidas vezes". 
       Frangipani deu um largo sorriso: 

Pg 267 
       - Essa  uma velha expresso de Roosevelt "repetidas vezes". 
       Duparquet dirigiu-se a Reed: 
       - Eu no estava blefando. Ericson realmente tem toda a inteno de fazer o que disse. Se vocs quiserem mergulhar esta nao em trs anos e meio de uma liderana 
amargamente disputada, a responsabilidade  toda sua. 
       - Que coisa horrvel de dizer - exclamou Reed. - E isso que o Presidente acabou de fazer foi algo mau, podre e corrupto. Sven Ericson no  um patriota, Procurador: 
 um homem que coloca sua prpria ambio poltica acima dos interesses do pas. 
       Quando o Secretrio de Defesa comeou a descompor Ericson, Duparquet sentiu a esperana renascer. 
       - Estou envergonhado por Ericson - disse Reed - e por servir em seu Gabinete. Esse homem se consome em uma volpia devoradora pelo poder, e  totalmente destitudo 
de princpios. 
       Obedecendo a uma olhadela de Bannerman, Fong disse: 
       - Proponho que votemos. 
       Reed o olhou azedo: 
       - Voc est maluco? 
       Fong pareceu perplexo. 
       - No compreende? - perguntou Reed. - Ele nos transferiu um grande peso. Se fizer o que ameaa, e o filho da puta seria bem capaz, a nao ficar paralisada. 
No apenas em aparncia, mas em realidade. E isso significaria que estaramos suplicando por uma guerra. No posso votar a favor disso. 
       - Vamos esclarecer bem isso, Preston - disse Fong. 
       - Se voc insistir em que votemos - disse rpido o Secretrio de Defesa - terei de votar contra a sada de Ericson. O Secretrio de Defesa no tem outra escolha. 
Em termos de guerra e paz,  melhor um Ericson cego como Presidente, do que dois Presidentes. 
       Fong, confuso, olhou para Bannerman, que disse: 
       - Votemos. 
       - Mas no pode haver maioria para remov-lo - interrompeu Curtice. - O Promotor, Andy e agora Reed esto com ele. Que adianta forar uma votao? 
       - Ele est certo - disse Fong, atirando-se desanimado na cadeira. - Digamos apenas que tivemos um proveitoso debate. 
       - Votemos - repetiu Bannerman, olhando raivosamente para Reed. - Quero que conste da ata que pelo menos alguns membros deste pusilnime Gabinete quiseram 
cumprir seu dever. 
       O Procurador-Geral olhou para Bannerman, um homem duro e inflexvel. Reed tambm tinha uma medula de ao, e durante todo 

Pg 268 
o debate fora cruelmente consistente. Os olhos de Duparquet foram at Curtice, que mostrara surpreendente fora de suportar o que Cartwright lhe dissera, e indicara 
sua disposio de arriscar a carreira. Frangipani permanecera firme. O pobre Fong estava numa entalada, e Bannerman era o responsvel. No era um Gabinete sem brios, 
como Duparquet o avaliara; na verdade, era extraordinariamente forte. Pena que seria logo dissolvido. 
       - A moo foi devidamente feita e registrada - disse o Vice-Presidente desanimadamente. - Roy, voc quer mesmo continuar com isso? 
       Bannerman com o rosto contrado, assentiu com a cabea. 
       - Ento vocs votaro segundo a ordem de precedncia. Quanto  sada do Presidente, qual o seu voto? Estado? 
       Curtice olhou para Bannerman, deu de ombros e respondeu: 
       - No. 
       - Defesa? 
       Reed respondeu: 
       - No. 
       - Tesouro? 
       - O Secretrio do Tesouro vota "sim" - disse Bannerman. 
       - Justia? 
       Duparquet afirmou: 
       - No. 
       - Recursos Naturais? 
       Fong comentou: 
       - Esta  a primeira vez em que voto contra moo proposta por mim mesmo, mas no vejo mais nenhum objetivo nisso. E Roy Bannerman deve ter a honra de ficar 
sozinho. Voto no. 
       - Recursos Humanos? 
       - No! - trovejou Frangipani. 
       - Cinco a um para os votos negativos - disse o Vice-Presidente Nichols. - Sr. Procurador-Geral,  possvel que eu d meu voto apenas para fins de registro? 
       - No - disse Duparquet, que no admitiria "caronas" no assunto. - Para esse fim, o senhor no  membro do Gabinete. Pode, se desejar, dizer o que quiser 
sobre como votaria, se o assunto tivesse de ter sido deliberado pelo senhor. 
       - Gostaria apenas de dizer que teria votado "no". Na minha opinio, o Presidente  capaz e corajoso, e o Gabinete e a nao se deveriam unir a seu redor. 
       Duparquet reconheceu que o Vice-Presidente fora bastante adequado em suas declaraes, e se perguntou se isso seria verdade, e se Nichols realmente se teria 
oposto a assumir a Presidncia. 

Pg 269
       - Concordo inteiramente - disse Frangipani. - Quem vai dar a boa notcia ao Homem? Procurador, foi voc o heri. 
       O Procurador-Geral sacudiu a cabea: 
       - Acho que seria mais conveniente se o Vice-Presidente o fizesse. Andy, por que no vai ao Presidente? 
       - Quando estiver com ele - disse amargamente Preston Reed - pode dizer-lhe para pegar o cargo de Secretrio da Defesa e enfiar no ouvido. Daqui a uma hora 
ele receber minha carta de renncia. 
       - A coisa errada pela razo certa - comentou Bannerman. - Essa  a histria de sua vida, Preston. Deus salve esta nao de homens atormentados pela necessidade 
de permanecer tolamente consistentes. 
       Enquanto os demais iam saindo, Bannerman e Duparquet ficaram para trs, sentados frente  frente. 
       - Admirei sua insistncia pela votao - disse o Procurador- Geral. - Desejo-lhe felicidades na vida particular. 
       - Voc ganhou a primeira batalha - disse Bannerman. - A guerra no terminou. Aquele egosta incompetente no chegar ao fim do mandato. 
       - Deixe disso, Roy, desista. Reed proferiu a melhor frase da reunio: Um Presidente cego  melhor do que dois Presidentes. 
       Bannerman balanou a cabea: 
       - Um Presidente Interino capaz  melhor do que um Presidente deficiente fsico que no admite sua incapacidade. 
       Olhou Duparquet demoradamente. 
       - Voc  uma personalidade atraente, Procurador, e um consagrado obtentor de votos. Voc joga para vencer. Voc vem do nico estado sulino em que os nortistas 
confiam.  bastante jovem, pode percorrer um longo caminho. Eu, por outro lado, pareo o esteretipo do ricao, e meu nome de famlia  algo negativo na poltica. 
Preciso negociar atravs de outros e, quem sabe, talvez chegue dia em que negociarei atravs de voc. Sei, porm, o que  melhor para este pas Procurador. Talvez 
algum dia voc descubra isso. 
       - Acredito que voc ache mesmo isso - disse Duparquet. -  isso o que o faz to perigoso. 
       Levantou-se e deixou Bannerman sentado l. Que teria Cartwright contra Curtice? E no seria Cartwright um bom substituto para Reed? O Procurador-Geral gostaria 
que o Vice-Presidente e Andy Frangipani terminassem logo com as necrpsias. Ele tinha muito a discutir com o Presidente. 

Pg 271 
       III 
       O MALDITO DISCURSO 

Pg 273
       A SECRETRIA PARTICULAR/2 
       
       Ela fora uma vez ao quarto do Presidente, num passeio com alguns outros assessores snior da Casa Branca, mas esta era a primeira vez em que Melinda McPhee 
estava l s sete da manh, sentada  cabeceira do Presidente enquanto Ericson, recostado nos travesseiros, bebericava o caf e ria alto com o desenrolar das notcias. 
Na noite anterior, ele lhe telefonara para dizer: 
       - No quero que voc grave o Sumrio de Notcias desta vez. Quero que leia este aqui para mim, bem devagar. Pode haver alguns tpicos que eu queira ouvir 
duas vezes. 
       Ela se sentia constrangida. Ler para ele numa cama de hospital era uma coisa, uma funo adequada que um membro do estafe desempenharia para um chefe necessitado, 
mas fazer parte do desjejum na cama era aviltante, e ela o disse: 
       - Escute, Sr. Presidente, por que eu no destaco algumas das notcias na sala de estar ao lado, enquanto o senhor veste um 
       roupo e depois vai at l? 
       - Qual o problema, Melinda? 
       - Meus modos  cabeceira de uma cama so horrveis. E o senhor no deveria estar trabalhando aqui se no est doente, o que 
       no est. 
       - Voc est constrangida - disse, divertido, o Presidente - e  maluca. A porta est aberta, Furmark est l com uma arma, e voc est completamente a salvo. 
Nem seria motivo de fofoca se algum soubesse que voc est aqui. 
       Ela raciocinou tristemente que isso era verdade. Fazia oito anos desde que ela e Ericson tinham passado certa manh na cama, e ela no gostava do contraste 
nas circunstncias. 
       - O senhor quer ouvir o Sumrio de Notcias, ou quer brincar? 
       Ela fez barulho de papel amassado ao se dirigir  porta. 
       - Em um minuto estarei organizada na mesa de jantar. 
       Ericson surgiu um momento depois, com a caneca de caf na mo, usando a comprida bengala. Ela observou que era a primeira vez que ele o fazia; devia estar 
ficando menos inibido. 

Pg 274 
       - Leia-me o Sam Zophar primeiro - instruiu ele - a reunio de ontem deve ter sido um golpe para esse filho da puta. 
       Ela procurou a seo de editorial. 
       - A coluna est com o ttulo de "O Erro de Curtice", e principia assim: "Na reunio extraordinria do Gabinete, realizada segunda-feira, convocada para examinar 
a bvia incapacidade do Presidente em exercer seus deveres, o voto crucial que manteve Sven Ericson no cargo foi dado pelo Secretrio de Estado George Curtice.  
medida que corria a histrica discusso, ficou evidente que o Gabinete estava dividido: trs contra e trs a favor da permanncia. Curtice perguntou se poderia abster-se, 
o que permitiria s foras contra Ericson a maioria. O poltico Procurador-Geral, aps um recesso passado em pressionar os profissionais do Departamento de Justia 
para apoiar sua deciso j tomada, disse no. Ento, o Secretario Curtice, sob a teoria de que uma luta prolongada pela presidncia seria prejudicial ao pas, relutantemente 
deu seu voto para apoiar o Presidente, e carreou consigo o Secretrio da Defesa. A essa altura, at o Secretrio Michael Fong, autor da resoluo para substituir 
o Presidente, bateu em retirada, e deixou o nico voto a ser dado com honra naquela sala para T. Roy Bannerman. S no tempo de Salmon P. Chase houve um Secretrio 
do Tesouro que... 
       Ela interrompeu a leitura. 
       - Ele est muito por fora, no foi isso que aconteceu. 
       - Como  que voc sabe? - perguntou o Presidente. 
       - Andy Frangipani nos contou que Curtice fez p firme, mesmo depois que Cartwright o pressionou, e s veio para nosso lado quando Reed virou a casaca. E o 
Procurador-Geral confirmou isso. Essa coluna do Zophar  um bocado de, de... informaes erradas. 
       - Que  a verdade? - ponderou Ericson, ainda de bom humor, e sem esperar resposta. - Pode no ter sido verdade antes, mas agora que Zophar escreveu, a matilha 
toda vai atrs, e se tornar a verdade. E, Melinda, quem sabe? Talvez tenhamos recebidos informaes incorretas, e Curtice tenha sido nosso real salvador. 
       - O senhor no acredita mesmo nisso, no ? 
       - No, no acredito. 
       Apoiou a bengala no lado da cadeira. 
       - Aconteceu que George Curtice contou a histria a Zophar e acentuou o que queria, sabendo que Zophar o ignoraria e iria a Bannerman. Agora todos acham que 
Curtice estava do meu lado, e a cabea de Curtice no poderia rolar. Foi uma jogada inteligente. D crdito a George, ele est tentando diminuir as perdas. 

Pg 275
       Essa faceta de Ericson Melinda no sabia se gostava: o poltico indiferente, o quase-realista, que no confiava em ningum, que se professava um admirador 
da tcnica e no ligava muito para o certo e o errado. 
       - A dupla Sander-Bennet est com tudo - comentou ela, e leu: 
       "A pele poltica do Presidente Sven Ericson foi salva pela vigorosa defesa do Procurador-Geral Emmett Duparquet, com a ajuda do "carcamano" de Nova York, 
Angelo Frangipani. Washington aguarda o expurgo, O Secretrio de Defesa Preston Reed j renunciou. George Curtice, do Departamento de Estado,  uma interrogao, 
e os "usurpadores do poder" Bannerman e Fong certamente sero exonerados. Quanto ao representante da Flrida, Emmett Duparquet, sua estrela est evidentemente em 
ascenso. O salvador sulino do Presidente, com seu cabelo grisalho,  hoje o segundo homem mais poderoso da vacilante Administrao de Ericson." 
       - Boa, bom! - disse Ericson. - Temos de prestigiar o P. G. Quem foi a fonte dessa notcia? 
       - Smitty disse que falou com Sanders e Marilee falou com o scio dele. 
       - Diga a Smitty que foi uma boa providncia.  exatamente esse tipo de coisa que queremos seja divulgado. 
       Melinda no tinha tanta certeza. 
       - Detesto ver algum virar um cavaleiro de armadura reluzente. Esta  a Administrao de Ericson, e o papel principal pertence ao Presidente. 
       - Voc  excessivamente leal, Melinda - disse alegremente o Presidente. - Gosto de espalhar reconhecimento pelas boas atitudes. Mas voc est cheirando bem. 
       - Obrigada pelo perfume - disse ela, envergonhada por no lhe haver agradecido antes, - Esta foi a primeira vez que o senhor se lembrou do meu aniversrio, 
e isso realmente me emocionou. Quem lhe lembrou? 
       - Acho que Marilee. De qualquer modo, a data est agora gravada a fogo na minha memria. A razo pela qual quero ver Duparquet prestigiado, amiguinha,  que 
ele  dos meus. Ningum pode aparecer mais que o Presidente, a no ser que o Presidente queira. Quero demonstrar que tenho um grande grupo comigo. Ele  a principal 
jia do meu diadema. E no representa ameaa, como o Vice-Presdente representaria, se fosse competente. 
       - Duparquet  um homem ambicioso - disse Melinda. Apesar de si mesma, ela se sentia atrada por ele, por isso no confiava nele. 

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       - Ele poderia ser o prximo Presidente - disse o Presidente - ou se seguiria ao prximo. No fao restries a ele. Todo Gabinete precisa de, pelo menos, 
um presidente em potencial, como Hoover no Gabinete de Harding. 
       - Qual o motivo de sua admirao por Hoover? 
       - Ele foi um grande Presidente, muito mal compreendido - respondeu Ericson. - Ele e Wilson acabaram falidos e odiados, como eu acabarei, mas a histria nos 
far justia. 
       Foi um pensamento melanclico, dito num tom de leve ironia, e ela no soube deduzir se ele fora sincero. 
       - Comece agora o Sumrio de Notcias, e o leia todo. S a interromperei para lhe ditar. 
       O sumrio levou quarenta e cinco minutos para acabar. Ele quis ouvir os textos dos comentrios editoriais e congressionais sobre a reunio do Gabinete. O 
outro tpico que lhe dizia respeito - Melinda o sabia - era este: 
       - O Times informa que os servios de informao esto em completo desacordo sobre quem concebeu a emboscada de Yalta. Alguns dizem que foram as potncias 
do Extremo-Oriente, mas uma minoria insiste em que o homem forte sovitico, Nikolayev, maquinou ele mesmo o assassinato para apoderar-se do poder.  bvia pergunta 
"Quem foi, afinal"?, devemos acrescentar esta outra: "Qual dos dois lderes era o verdadeiro alvo?" 
       - H trs dias - o Presidente ditou o memorando para Cartwright - a idia de que Kolkov era o alvo principal era o maior segredo da cidade. Informe ao Servio 
de Informaes da Defesa que desaprovo a forma pela qual esto jogando o jogo. Eu os escutei, eles no precisavam divulgar nada l fora. No que me diz respeito, 
seu vazamento de informaes empresta credibilidade  opinio contrria. Assegure-se de que eles sejam informados disso.  a nica maneira de cal-los. 
       Melinda saiu da sala e atravessou o Jardim das Rosas para chegar  sua prpria sala. Saiu de novo com uma tesoura, e cortou trs flores, rotina para a qual 
j havia obtido o consentimento do jardineiro da Casa Branca, homem teimoso e intratvel, para colocar na mesa de caf do Salo Oval. Ao voltar, segurando cuidadosamente 
as rosas para evitar os espinhos, encontrou Hennessy derramado no sof: 
       -  cedo para voc - disse ela; Hennessy gostava de julgar-se um "homem da noite". 
       - Me disseram que voc tomou caf na cama com o Presidente - observou ele. - , os tempos esto mesmo mudados. 

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       - Detestaria que minha mente fosse igual  de um advogado de divrcios - replicou ela. Sabia que Hennessy seria o nico a fazer uma observao daquelas. - 
Voc olha para a vida atravs de uma fechadura. 
       Ele ps os ps na mesinha de caf para irrit-la; ela, porm, recusou-se a se irritar. 
       - Garotinha - era assim que Hennessy a agradava, ambos sabiam disso. - Sou o nico do seu lado, algum dia vai se dar conta disso. Quanto mais cego ele fica, 
mais bonita voc parece. 
       Melinda arrumou lentamente as rosas no jarro, reunindo as idias para chegar ao nvel adequado de resposta. 
       - Sabe por que voc no tem amigos, Hennessy? Porque  muito vulnervel, sensvel e apavorado. Voc ataca as pessoas, porque acha que a ofensa  a melhor 
defesa. Tem medo de que algum pudesse gostar de voc se no fosse assim, e ento teria de contar- lhe a verdade sobre como voc  realmente odioso. 
       - Mais um "dissecador de crebros!" E pensar que at alguns meses nunca entrara um psiclogo na Casa Branca! Bem - suspirou - alegre-se, Melinda. Goze sua 
grande vitria. Deixe que o Homem faa o mesmo, at depois do almoo. Preciso falar com ele hoje  tarde. 
       - Voc sabe que a tarde est bloqueada para Hank Fowler. 
       - O assessor ntimo diz que vai falar com ele - espicaou Hennessy. 
       - Por que voc no pega sua assessoria ntima - comeou ela, mas se deteve. Isso era gracejo, no discusso; era uma vlvula de escape aps uma crise, entre 
amigos e aliados, e o assessor ntimo e a secretria particular estavam do mesmo lado. Algum dia, muito depois que tudo tivesse terminado, ela o enlouqueceria ao 
recusar-se a permitir que ele falasse pelo telefone com o ex-Presidente, e se consolou com a idia. 
       - Por que voc no vai at o cercado de crianas - era assim que ela chamava a sauna, conhecida como "unidade de sade" - e sua o bastante para expulsar os 
venenos de seu sistema? 
       - Boa idia. Melinda, voc  jia. Um bonito corpo, e  esperta o bastante para chamar a ateno para isso ao disfar-lo tanto. Um rosto bonito no  tudo. 
Bebi um bocado ontem  noite, julgando que passara a crise, e hoje no me sinto bem. 
       - No sei como percebi isso. 
       Ela se irritou com a forma displicente pela qual ele dissera a verdade sobre seu modo de vestir-se. 
       - Consiga que eu fale com o Presidente l pelas trs. Ele ter uma oportunidade de saborear sua vitria, e eu vou suar, dormir e 

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depois ver os quadros no Fenwick. Se ele quiser saber o que quero, diga-lhe que tive notcias de um velho amigo da campanha, e ver que a expresso dele vai mudar. 
Mas no Conte a mais ningum. 
       Melinda foi at sua mesa, chamou duas secretrias que trabalhavam com ela, e mergulhou na pilha de telegramas e cartas que haviam chegado para desejar boa 
sorte ao Presidente no "fatdico fim de semana". A maior parte da correspondncia era peneirada rotineiramente do outro lado da rua por um computador, e respostas 
"personalizadas" feitas pelo computador eram enviadas pelo correio. Nomes da lista dos "amigos" do Presidente, ou de VIP's numa lista mestre, eram passados a Melinda 
para um verdadeiro tratamento pessoal, Ela consultava seu arquivo de cartes para saber os nomes de batismo e das esposas - "Carinho para Maxine e Carlinhos do S. 
E." fazia enorme diferena, e s Melinda estava encarregada da caneta especial de Ericson, o toque impessoal que assinava seu nome a tinta milhares de vezes por 
semana, uma tradio presidencial para ganhar tempo, iniciada por John F. Kennedy. 
       Smitty entrou enquanto ela trabalhava, "peruou" um pouco e se meteu numa reunio na Sala Roosevelt, considerada uma sala de Gabinete do pessoal. Ao mesmo 
tempo, uma reunio da comisso de Gabinete sobre a reforma antitruste, um dos temas favoritos de Ericson, se realizava na Sala do Gabinete. L em cima, o Conselho 
Domstico escutava uma delegao de patronos dos consumidores. L embaixo, na Sala de Reunies, o Comit de Administrao da Casa Branca estava realizando um seminrio 
sobre administrao federal, o que realmente no era uma utilizao dramtica na sala mais dramtica da Casa Branca, mas conseguir espao para reunies era um bnus. 
Se outro grupo se tivesse querido reunir naquela manh, o abrigo contra bombas sob a residncia teria sido usado. Melinda descansou nessa atividade; depois do ms 
anterior, um dia normalmente agitado era um alvio. 
       - Me disseram que voc  a nica pessoa que consegue arranjar mesa no Sans Souci. 
       A voz era suave e confiante. Ela olhou e contemplou o rosto moreno do Procurador-Geral. 
       - J passa de meio-dia, Procurador - sorriu ela. - O senhor realmente deveria planejar com mais antecedncia. Para quantas pessoas? 
       - S ns dois - disse ele. - Voc precisa livrar-se dessa correspondncia dos admiradores, que provavelmente j est ficando injuriosa, e eu preciso afastar-me 
dos defensores do monoplio. Espero que perdoe minha impetuosidade e aceite meu convite. 

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       Chamavam-no de "O Sedutor de Tallahassee" e estavam certos; Melinda ficou mais encantada do que gostaria de admitir. Pegou o telefone e pediu  telefonista 
da Casa Branca: 
       - Por favor, faa uma reserva para dois no Sans Souci, para daqui a dez minutos. Em nome da Srta. McPhee e um convidado. 
       Ele simulou sua resignao e disse: 
       - Voc tem razo, meu nome nada significa l. Raramente como fora. O Departamento de Justia fica num bairro de baixo poder aquisitivo. 
       No restaurante, sentaram-se na varanda, de onde dava para se observar o panorama no recinto central. Um funcionrio do estafe da Casa Branca no tinha status 
para conseguir uma cabina reservada ou assentos no recinto central, e o matre no contava com a presena do Procurador-Geral, mas Melinda sabia que a elevao seria 
til a Duparquet, para observar o fenmeno do almoo em Washington. Ela gostou do jeito em que ele abertamente demonstrou sua fascinao, e estava confiante em que 
no haveria mexericos por estar almoando com um homem casado: ele era membro do Gabinete. Ela era importante na Administrao, ambos eram aliados polticos, e ningum 
viria ao Sans Souci se estivesse fazendo algo que precisasse esconder, a no ser que utilizasse a teoria da carta sonegada, de Pe. 
       - Havia um comercial de televiso sobre um sistema de calefao residencial - disse Duparquet, enquanto examinava a multido - que mostrava, em cores, as 
ondas de calor que fluam numa casa, e como poderiam ser controladas com um recm-lanado termostato. O mesmo acontece aqui embaixo, onde se podem ver as oscilantes 
ondas do poder. 
       - Mostre-me uma onda oscilante de poder. 
       - Ali - apontou ele. - Olhe agora, para que saibam que os estamos olhando.  o diretor do FBI, McCoy, com o chefe dos conselheiros da Comisso de Superintendncia 
do Senado, gentilmente tentando apavorar-se mutuamente. Naquela cabina mais adiante, perto da escada, est o subsecretrio de Estado, tentando convencer algum de 
que seu patro George Curtice realmente apoiou Ericson na reunio. 
       -  o chefe da sucursal do Los Angeles Times - disse ela, desejando ajudar Duparquet a fundamentar seu raciocnio, mas sem querer ser-lhe superior. 
       - Bem, bem - disse ele. - Vim almoar com a mulher certa. Srta. McPhee... 
       - Melinda. 
       Ela no conseguiu distinguir se ele dissera "Senhora" ou se pronunciara "Senhorita" ao estilo sulino. 

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       - timo. Chame-me Procurador, sempre detestei meu primeiro nome. E l embaixo, quem so aquelas trs fofoqueiras? 
       - A bem vestida, de frente para ns,  a Sra. Cartwright. O Presidente acha que ela poderia ser agente da CIA.  sua direita est Susan Bannerman, provavelmente 
felicssima por voltar a Nova York. Nenhuma delas  "fofoqueira", Procurador. No conheo a terceira. 
       Ela recomendou que a terceira senhora parecia ser mesmo fofoqueira. 
       Ele foi  cesta do po, ignorou as bolachas de gergelim envolvidas por celofane, pegou um pozinho francs, e arrancou um pedao. Melinda gostou do gesto: 
ela estava sempre de dieta, mas se o homem com quem estava queria po, no deveria ficar perdendo tempo com afetadas bolachas de regime. Desejou estar usando uma 
roupa diferente, com uma gola alta, mas como poderia adivinhar que seria convidada para almoar pelo homem em quem estivera pensando? Desde a cegueira de Ericson, 
ela no se sentia encorajada para melhorar de aparncia. 
       - Difcil compreender isso - dizia Duparquet. - Cartwright era cem por cento contra Bannerman na luta, e suas mulheres so amigas ntimas, amigas do peito. 
Perdo, no quis parecer fofoqueiro. 
       - No  assim to difcil de entender - disse ela. - Existe uma ligao nessa histria. Lucas sempre gosta de manter os canais abertos, caso algum queira 
mandar um recado, ou balo de ensaio. Na verdade, ele mandou um bilhete ao Presidente dizendo que sua mulher ia almoar hoje com a Sra. Bannerman. 
       - Voc disse a seu patro que amos almoar juntos? 
       - Voc me acha insegura? 
       - Acho que direi  minha mulher que almoamos. No sou to seguro quanto voc. 
       Ela lhe perguntou por que sua estratgia de deixar que George Curtice inventasse seu papel na reunio, e foi motivada parcialmente porque queria saber, mas 
principalmente porque - com este homem - ela desejava permanecer no cho firme da intriga poltica. 
       - Ele vai ficar com um segredo sujo, e ns o saberemos - explicou ansiosamente Duparquet. - Isso tambm vai fazer com que ele ande na linha nos prximos meses, 
quando Ericson mais precisar. Tambm porque no quero dar a impresso de que a votao foi to difcil como foi. 
       - Quem vai receber o bilhete azul? 
       - Bannerman e Fong. Reed j pediu demisso. Eu me arriscaria com Curtice, mas isso  tudo. 

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       Ela concordou, e teria ido alm - tambm exoneraria o hipcrita do Secretrio de Estado - mas jogou uma isca para Duparquet. 
       - Isso  vingana por eles haverem sido francos. Ser que vai ficar bem para o Patro isso de parecer que ele s quer vaquinhas de prespio no Gabinete? 
       - Eles que se darem. O Presidente no se pode dar ao luxo de demonstrar fraqueza, no agora, quando est fraco. 
       Ela se recostou na cadeira: 
       - Acho que acabei de ser atingida por uma oscilante onda de poder. 
       - Sabe de uma coisa? Gosto de voc - disse ele. - Voc no acredita em bobagens, e no preciso ter cuidado com o que falo. Gostaria de ter algum como voc. 
       Ele no disse para qu. 
       - Algum dia, talvez seja possvel - disse ela, escolhendo o lado profissional. - O Presidente Ericson acha que voc daria um timo Presidente. 
       - Ele disse isso? 
       O Procurador-Geral pareceu um pouco ansioso demais, mas depois se recuperou com uma manifestao sbita da honestidade que costumava livr-lo de problemas: 
       - Melinda, estou  sua merc. Seu chefe disse mesmo isso? 
       Ela gostou de dar-lhe a boa nova: 
       - Ele disse que todo Gabinete deveria ter um Presidente em potencial, e que voc  o potencial desse Gabinete. 
       Ela no mencionou a comparao Harding-Hoover. 
       - Ele tampouco se preocupa com que voc fique no centro das atenes, mas no estou certa se ele tem razo sobre isso. 
       Ele agora poderia afirmar que o almoo valera a pena; ela deixaria que ele pagasse a conta. 
       - Por que ele no deveria ter? 
       Duparquet no usou de rodeios; era parte do seu encanto evitar rodeios encantadores. O garom veio anotar o pedido e ela comeou a pedir uma salada, mas o 
Procurador-Geral interferiu: 
       - Por que uma saladinha mixuruca? Voc  uma mulher saudvel, trabalha muito. Coma decentemente. 
       Ela concordou com prazer, pediu vitela e acrescentou para o garom: 
       - Pea a Paul para descobrir quem est almoando com a Sra. Cartwright e a Sra. Bannerman. 
       Duparquet fez um sinal admirativo com a cabea e perguntou: 

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       - Muito bem, Melinda, quem est dentro e quem est fora? 
       - Agora chegamos ao verdadeiro objetivo do almoo - disse ela. 
       - O verdadeiro objetivo do almoo - retrucou ele -  lanar as bases para lhe passar uma cantada pra valer. Como no nos conhecemos o suficiente, e como detesto 
ser recusado por algum que respeito, preciso ater-me  poltica, pelo menos no incio. Certo? Agora me diga quem est dentro e quem est fora. 
       - Voc est dentro - retrucou ela, e corrigiu - isto , o Gabinete. Cartwright est dentro, como voc sugeriu ontem  noite, e vai substituir Reed na Defesa. 
A propsito, Reed disse ao Presidente que no sabia o que o pusera mais furioso: se a ameaa do Presidente, ou se a no-solicitada presso de Bannerman e seus amigos 
em Wall Street. 
       timo! - Duparquet sorriu. - Quer dizer que a poro de baboseiras que encenei adiantou de algo. Continue... e Bannerman? 
       - Est fora. Vai receber sua exonerao por telefone, amanh de manh, pelo Presidente. O Patro est doido para fazer isso. Hennessy diz que vai haver uma 
investigao no Congresso sobre a ligao entre as decises do Tesouro e o imprio imobilirio de Bannerman, mas oficialmente o Presidente no tem conhecimento disso. 
Hennessy est botando pra quebrar. 
       Duparquet assentiu com a cabea, e ergueu o copo de usque. 
       - O Procurador dos Estados Unidos em Nova York tambm est examinando o assunto. Haver uma minuciosa investigao. 
       - Vocs so todos iguais. 
       - No, no somos - disse Duparquet asperamente. - Quando um homem tenta esgan-la, voc o ataca o mais forte possvel. Ericson e eu estamos de acordo nisso. 
Mas se eu fosse Presidente, e subitamente ficasse cego, renunciaria. Nada de afastamento temporrio, eu simplesmente renunciaria. 
       - Ento como  que voc pode... 
       - Porque  uma deciso que cabe ao Presidente, e s a ele. Se se diz que ele no pode tomar a deciso errada, ento diz-se que ele no pode tomar a deciso. 
O maior perigo  a ameaa de usurpao, que transforma o pas numa republiqueta de bananas. 
       Melinda no escondeu a surpresa: 
       - O Presidente sabe que essa  sua opinio? 
       - No, e espero que voc no lhe diga. 
       Ao colocar sua confiana nas mos dela, ele a trouxe para o seu lado, Melinda conhecia o truque e no iria cair nele. 

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       - Acho que o Presidente deve ter o poder de decidir - disse ele - e Ericson  claramente competente para tomar essa deciso. Quando isso acontecer, devemos 
todos apoi-lo, e eliminar a oposio. Ele foi eleito para tomar essa deciso, e no eu, ou voc ou o Gabinete. No tenho nenhum problema em defend-lo. 
       - Fong permanece - continuou Melinda, como fora instruda. Antes de sair para o almoo, pedira licena para lavar as mos e telefonara ao Presidente para 
saber o que ele queria fosse dito a Duparquet - porque sem Bannerman ele no  problema. E foi ele o autor da moo para se declarar a incapacidade, e o fato de 
ele continuar mostra que o Presidente no se est vingando. 
       - Faz algum sentido - disse Duparquet, de m vontade. - Quem vai substituir Bannerman? 
       - O subsecretrio. Esqueci o nome dele.  um sujeito que colocamos l para representar os interesses do Presidente. Odeia Bannerman agora mais do que nunca, 
o que o torna altamente cotado conosco. 
       - E que  que Cartwright tinha contra Curtice? Ela o olhou irritada. 
       - Que  que voc quer por um msero almoo, todos os segredos da Repblica? 
       - Estou pagando um jantar para saber. 
       - Vamos fazer uma coisa: voc descobre isso de Lucas Cartwright, me conta, e eu pago o jantar. 
       Duparquet mudou de assunto. 
       - Interessante o que o Presidente desconhece. H um bocado de gato escondido por a. Suponho que isso seja parte do divertimento. 
       Melinda manteve o rosto inexpressivo. A suposio do Procurador de que o Presidente no sabia o que Cartwright tinha contra Curtice se baseava em sua prpria 
suposio de que, se o Presidente soubesse, Melinda tambm saberia, e como Melinda disse que no sabia, ento o Presidente tampouco sabia. Mas era claro que o Presidente 
sabia: Cartwright o informara rapidamente sobre como Curtice instigara a memria criativa de Harry Bok relativa ao herosmo de Kolkov, e Ericson, encantado, o revelara 
a Melinda. Se Melinda se permitisse uma aparncia de quem sabia, o que era bom para o ego, Duparquet conseguiria fisgar o que estivera tentando pescar: se a "tonelada 
de tijolos" de presso sobre Curtice viera diretamente do Presidente. Por isso ela fora em outra direo, e agira irritada como se Cartwright no lhe tivesse contado, 
nem o Presidente. Isso levou o Procurador-Geral a engolir a prpria isca, e a concluir erradamente, o que deixou Melinda satisfeita. 

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       O garom voltou  mesa e disse rapidamente que o nome da terceira senhora  mesa da Sra. Cartwright era Sra. Arthur Leigh. Melinda franziu o cenho. 
       - Quem ? - perguntou o Procurador-Geral, totalmente desinteressado. 
       - Mulher do velho coordenador da campanha, aquele que no tinha primeiro nome. Ns todos o chamvamos de "Leigh, o sacana". Fez-se detestado por todos, e 
no conseguiu nenhum cargo depois da eleio. 
       - O arquivo da FBI sobre ele  to comprido quanto seu brao - disse o Procurador. - Alis, um belo e comprido brao. 
       Melinda no conseguiu perceber se o gracejo dele era somente troa mesmo, ou se escondia um propsito; nem sabia como reagiria se ele continuasse. Ela pensou 
no caso durante todo o substancial almoo. Quando saram, recusou o convite dele para uma carona, pois a Casa Branca distava apenas dois quarteires. 
       - Que  que voc quer que eu diga ao Presidente, Procurador? 
       - Diga-lhe que o velho "Sedutor de Tallahassee" tentou tudo, fez todo o charme possvel, mas no conseguiu nada. 
       Duparquet sorriu. 
       - Eu jamais conscientemente faria o Presidente concluir coisas erradas - replicou ela, ambiguamente. Ele que pensasse sobre sua frase. Ela lhe apertou suavemente 
as mos, tentando no mostrar que seu aperto era firme, atravessou a rua, passou pelo velho Prdio do Poder Executivo e dirigiu-se  entrada oeste do subsolo da 
Casa Branca, enquanto pensava no chefe e no seu melhor amigo poltico recente. As diferenas entre os dois eram estas: Ericson tinha quarenta e oito anos, e parecia 
mais: Duparquet tinha cinqenta e quatro e aparentava menos; era uma combinao de algum abertamente rural e suavemente urbano. Ericson era introvertido, deliciosamente 
complexo, sabendo demonstrar cordialidade quando queria. Duparquet, extrovertido, homem de ao, jogador, com um sorriso cativante e a capacidade de projetar um 
tom gelado e cruel na voz. O Presidente era episcopal, um participante nato das grandes coisas, algum que dava sorte ou, pelo menos, costumava dar. O Procurador-Geral 
era judeu, um forasteiro talentoso, que previa problemas. Ericson se interessava mais pelo governo e "o povo", enquanto Duparquet tinha mais interesse em poltica 
e gente verdadeira. Melinda achava que as afinidades entre os dois eram incrveis: a constante premeditao, o flerte autolisonjeador. Ambos amavam o poder, e se 
alegravam por estar no centro das aes, usando os amigos, e deixando que os amigos os usassem, e se diziam tanto que eram idealistas sob o cinismo que realmente 
se tornaram idealistas. Ela conhecia muito bem um deles, e no to bem o outro, mas gostava da forma 

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como os dois se respeitavam, com a cordialidade exclusiva dos vultos polticos que se podiam ajudar e que provavelmente no teriam de competir entre si. 
       Se Duparquet ficasse cego na Presidncia, renunciaria mesmo? Ela parou  entrada da Casa Branca. Evidente que no; o Procurador-Geral dissera isso - como 
Ericson diria se os papis fossem invertidos - para cativar e despertar a curiosidade de uma mulher que lhe poderia ser til um dia. Melinda sabia que ser ofendida 
num mundo de hipcritas acontecia a muitas secretrias. Estava mais preocupada com sua prpria necessidade desse tipo de intimidade com homens que costumavam confundir 
o poder de seu sexo com a atrao sexual do seu poder. Ao saltar do pequenino elevador da Ala Oeste, reintegrou-se ao cargo para o qual fora admitida, e foi ao telefone 
contar a Hennessy que a mulher do "sacana do Leigh" estava na cidade. 


O COORDENADOR DA CAMPANHA 
       
       Ele queria um apartamento para casal do lado do parque, dando para a Casa Branca. Quando o funcionrio da reserva do Hay-Adams Hotel disse que no havia nenhum 
apartamento disponvel assim, Arthur Leigh esperou umas duas horas, ligou para o gerente, e sem maiores problemas conseguiu o quarto certo, com a vista certa. Isso 
porque Leigh sabia insistir, sem esperar impotente nem iradamente, mas objetivamente. Depois que terminaram as campanhas, ele se divertia usando o nico emblema 
poltico que jamais usaria: "Grande Trabalho, Garoto, Agora Suma", e sabia a diferena entre andar por a tendo muitas esperanas, e esperar com metas especficas. 
       Depois da vitria de Ericson no ltimo novembro, ele no ficara por ali. Ericson usara Leigh demais na campanha, para agentar o impacto da maior parte dos 
ressentimentos, e houvera um acordo particular entre o antipoltico candidato e o superpoltico coordenador da campanha de que a recompensa seria dada algum tempo 
depois que o habitual Em salrio, Leigh fora regiamente pago: quinze mil dlares mensais por dez meses de campanha poltica, mas seu acordo tcito com Ericson era 
de que uma vitria mereceria um bnus, a ser determinado mais tarde. Uma espcie de vale para uma oportunidade especfica. 
       Poucas pessoas pertencentes ao crculo ntimo de Ericson compreendiam isso. Quando o "sacana do Leigh" no recebera um cargo no governo logo aps a vitria, 
os jornalistas deduziram que ele e Ericson se haviam desentendido. Hennessy, especialmente, expressou essa deduo para o pessoal do seu meio, durante o interregno, 
lembrando a selvagem luta entre o recm-eleito Woodrow Wilson e seu 

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coordenador de campanha de Nova Jersey, em 1912. Leigh era o pra-raios para as exploses de raiva da campanha de Ericson, o "abominvel joo-ningum" que eliminava 
as ofensas e, depois da batalha vencida, fora aparentemente posto de lado por um candidato que concordava com os que no gostavam do joo-ningum. Mais importante 
do que isso, Leigh fizera centenas de promessas vagas durante a campanha, e se tornara o ponto de contato de inmeras pequenas dvidas. Se Leigh no estava na Casa 
Branca, ningum estaria l para lembrar-se disso. As pessoas que se julgavam com alguma ascendncia sobre Ericson no poderiam encontrar mais essa influncia. Em 
novembro, Ericson se livrava de Leigh como de uma velha pele de cobra e se enfiara na Casa Branca, com encmios por sua independncia poltica. Vrios e aborrecidos 
vales de dvidas foram cancelados pela metamorfose. 
       Sentado  janela do apartamento do Hay-Adams que dava para o parque, e olhando para o outro lado do Lafayette Park para o repuxo em frente  Casa Branca, 
Arthur Leigh esperava. Leu o Post e passou os olhos no Star. Leu as revistas de atualidades que s tinham sido postas  venda aps a reunio do "fatdico fim de 
semana", e esperou mais. Mandou a mulher almoar fora, fez com que Hennessy soubesse de sua presena e ficou quieto. 
       Com a pana tapando-lhe o cinto, chinelos gastos pendurados nos ps estendidos numa banqueta, Leigh leu acerca da renncia de T. Roy Bannerman e ficou satisfeito. 
Desprezava o tipo de espertalho que no suportava ser vencido. Leu sobre o surpreendente fato de Ericson haver mantido Fong no Gabinete, meditou a respeito, e deu 
crdito ao Presidente: mostrava confiana de que ele j no seria desafiado. 
       Aps uns dois dias, o paciente Leigh leu sobre a nomeao de Lucas Cartwright para Secretrio de Defesa, o que fez sentido para ele, e da nomeao de Hennessy 
para substituir Cartwright na chefia da Casa Civil da Casa Branca, o que j no fez tanto sentido para Leigh, a no ser que o Presidente ainda estivesse preocupado 
em agarrar-se  presidncia. 
       Leigh sabia agora a razo disso: com Hennessy, o pessoal da Casa Branca teria de manter alto sigilo sem a possibilidade de haver vazamento do pequeno segredo 
sujo do Presidente, sua cegueira anterior. Leigh sabia que h um ms atrs o episdio acontecido h um ano, com Buffie, no trem de campanha, mereceria apenas um 
pequeno rodap nuns dois livros de memrias. Agora o episdio assuma todo o tipo de sinistras implicaes, como prova de que o povo no votara em um Presidente, 
perfeitamente consciente de sua incapacidade em potencial. Leigh surpreendeu-se realmente de que a moa ainda no tivesse aberto a boca, ou de que algum reprter 
no houvesse investigado tudo, mas isso era um ponto a favor do velho coordenador:

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dava-lhe um pouco mais de poder, caso ele viesse a necessitar. 
       - A pistola ainda est queimando - disse ele, em voz alta. Sua mulher, acostumada a frases sem sentido proferidas pelo marido, que estava envelhecendo, o 
olhou e perguntou apenas: 
       - Quanto tempo vamos ficar em Washington, Arthur? 
       - Mais uns dois dias, talvez uma semana. 
       Na sexta-feira, trs dias depois de haverem se hospedado no hotel, veio um telefonema da Casa Branca: Melinda McPhee convidava os Leigh para uma pequena recepo, 
seguida de jantar, domingo  noite, se eles ainda estivessem na cidade. A mulher de Leigh, ao telefone, repetiu em voz alta o convite, e o marido resmungou: 
       - Lamentamos, mas vamos embora amanh. 
       A Sra. Leigh apresentou suas desculpas e desligou. 
       - No sei por que no podemos ficar mais um dia, Arthur - queixou-se. - No  sempre que nos convidam para a Casa Branca. A ltima vez foi na Administrao 
Eisenhower. 
       - No estamos aqui para nos amarrarem as mos - disse-lhe Leigh. - Daqui a pouquinho Hennessy vai ligar, depois que a garota de Ericson lhe disser que estamos 
indo embora. 
       - As secretrias j no gostam de ser chamadas de "garotas". 
       - Essa dona McPhee no se importaria de ser chamada de garota - sorriu Leigh. - Ela jamais gostou do jeito com que Ericson a tratava, como se fosse um dos 
caras. 
       O telefone tocou. 
       - Deixe que eu atendo - disse Leigh. - Ela deve ter telefonado diretamente do colo de Hennessy. 
       Ele atendeu e resmungou: 
       - Sim? 
       - Quem est falando  o sacana do Leigh? 
       - Posso receber voc agora, Hennessy, mas no tenho o dia livre. 
       - Deixe de bancar o gostoso, Arthur. Voc no tem nenhum encontro marcado por uma semana. 
       - Voc talvez tenha razo, mas o prximo encontro  um estouro. 
       Isso fez com que Hennessy fizesse uma pausa, como Leigh sabia que aconteceria. Hennessy podia intimidar qualquer pessoa que conseguisse irritar, mas Leigh 
o conhecia bem: o divertido desprezo de um verdadeiro sacana em relao a um sacana em potencial. Os artigos dos jornais chamavam Hennessy de "o segundo homem

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mais poderoso da Amrica", mas isso no era verdade; o advogado ruivo era apenas um "produto derivado", e Leigh sabia que Hennessy sabia que Leigh sabia. O novo 
Chefe da Casa Civil era um homem com um grande cargo, no um grande homem num cargo. 
       - Posso encontrar-me com voc no bar de seu hotel - disse Hennessy - ou posso servir-lhe algumas doses do bourbon deixado por Cartwright aqui no seu elegante 
escritrio de canto, voc escolhe. 
       Leigh preferiu ir  Casa Branca, andando descansadamente pelo parque naquela tarde quente, com os escassos fios grisalhos de cabelo desarrumados pela brisa, 
e pensando no que objetivava conseguir. Esta era sua ltima oportunidade de obter muito dinheiro. Se conseguisse a nomeao de seu protegido para diretor do departamento 
de estradas de rodagem do Tennessee, poderia esperar uma deciso consciente quanto  construo de uma estrada de acesso a propriedades sobre as quais ele tinha 
opo, e depois vend-las a um construtor. O homem que faria a nomeao, com o apoio do governador do Tennessee, queria uma palavra oficial da Casa Branca, para 
que Ericson passasse a dever um favor ao governador. Isso seria um "suborno honesto", nas palavras de George Washington Punkitt. O homem a ser nomeado diretor do 
departamento de estradas de rodagem era competente e ficaria agradecido. A estrada de acesso estava dentro ou prxima das propriedades sobre as quais Leigh tinha 
opo: o negcio no feria o interesse pblico. E o vale de dbito que Ericson tinha para com Leigh desde a campanha ficaria liquidado. 
       No Porto Oeste, o guarda j estava de posse do seu nome e fez um sinal de boas-vindas com a cabea, enquanto abria o porto. Leigh caminhou pela pista de 
rolamento at o novo prtico fora da Ala Oeste, e passou por um comentarista de televiso que posava para uma equipe de operadores de cmera, tendo ao fundo a sala 
do Presidente. Leigh esperava que Hennessy no mencionasse o episdio do trem da campanha - isso seria coisa de amador, a palavra mais insultuosa no vocabulrio 
de Leigh - e esperava tambm que o novo Chefe da Casa Civil no o levasse ao Presidente, o que seria constrangedor para Leigh e um erro para Ericson. No se falava 
com o Presidente sobre assunto insignificante como esse. Tampouco ele desejava nem precisava ver Ericson, de quem apenas se recordava como um candidato despreparado 
mas sortudo, que ocultava seu amor pelo povo na sua ojeriza a multides. 
       Leigh murmurou rispidamente seu nome para a recepcionista da Ala Oeste, uma tranqila ex-colaboradora da campanha cheia de laqu, que o reconheceu, mas fingiu 
que no o havia reconhecido. Enquanto esperava, olhou em torno para as antigidades, os quadros hericos com panoramas americanos, e os aparadores com objetos de 
estanho. Tinha a sensao de ser um produtor teatral que escolhe o elenco de uma pea  qual no se espera que ele assista. 

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Leigh povoara esse lugar com seus residentes atuais, e no se impressionaria com seus ocupantes, que se impressionavam to enormemente consigo mesmos. Hennessy era 
a mulher velha que morava num sapato, e tinha tantos filhos que no sabia o que fazer, mas Arthur Leigh fora a necessria caladeira. [nota * Histria infantil americana. 
(N. da T.)] 
       Uma moa "incrvel" vestida de jeans e com uma cmera na mo entrou na recepo, olhou-o calmamente, e disse: 
       -  voc que chamam de "sacana do Leigh". 
       - S meus amigos me chamam assim. 
       - Sou Buffie Masterson, a fotgrafa oficial, e soube que voc estava aqui. Voc  uma lenda viva, e quis conhec-lo. No compreendo por que todo mundo o odeia 
tanto? 
       Ela era to cheia de vida, radiante, jovem e atraente, que ele resolveu choc-la: 
       - E voc  a boazuda que arrastamos de baixo do candidato depois que ele esborrachou a cabea na parede. 
       Buffie ficou lvida. Aps alguns instantes, disse, baixinho: 
       - Agora compreendo por que todos o odeiam. 
       - A franqueza no costuma ser apreciada. 
       - Sabe, Sr. Leigh... - ela chegou-se a ele, com ares de conspiradora - no falamos muito sobre aquele incidente por aqui, viu? 
       - Eu no contei pra ningum - disse ele, gostando do dilogo. - E voc? 
       - Nunca disse a viv'alma - disse ela, levantando a mo direita, com a cmera firmemente segura. - Nem nunca direi. E voc? 
       - Quem foi que a mandou falar comigo? 
       - Hennessy, evidente. Meu trabalho era amaci-lo e lev-lo l para dentro. Mas voc me deu um coice, s porque perguntei por que todos o odeiam 
       Leigh simpatizou com a moa, cuja espontaneidade era calculada. 
       - A resposta para isso  que eles odeiam o tipo de gente em que se esto transformando, e se vem em mim. 
       - Voc  o espectro do futuro do Natal? 
       A moa lia Dickens, no era apenas um corpo bonito. Leigh a observou meditar sobre o que ele dissera, e depois comentar: 
       - Isso no tem nada a ver. Voc acabou de inventar a frase, ou vive dizendo a mesma coisa? 
       - Um "filsofo" me disse essa frase h algum tempo - disse ele, com displicncia, e era verdade, mas ele sabia que ela no acreditaria.

Pg 290
Ele gostava de dizer a verdade de tal forma que se pensasse que era mentira. 
       - Se existisse um "filsofo" desses - disse ela - ele seria redator de discursos aqui. 
       Leigh concluiu que o Presidente sabia o que "caava". Essa moa fazia com que se quisesse agarr-la, segur-la e conversar com ela durante horas, nas quais 
ela violentaria seus pensamentos. 
       - Por que voc no vai dizer a Hennessy que conseguiu me amolecer como devia - resmungou ele - para que eu possa logo falar com ele e no perder meu tempo. 
       - Voc quase acertou - reconheceu ela. - Agora que eu consegui derreter-lhe o corao, devo lev-lo a Hank Fowler, para amaci-lo ainda mais. 
       - O psiclogo cego? 
       - Voc vai gostar dele. Hennessy est com o Presidente, e  melhor voc ir, do que ficar aqui, assustando todo mundo. 
       Leigh sorriu e a seguiu pelo vestbulo do Salo Oval - a porta do vestbulo estava fechada - at uma sala minscula, em que estava um homem baixinho que usava 
audiofones. Buffie foi por trs dele, ps-lhe as mos nos olhos e perguntou: 
       - Adivinhe quem . 
       Fowler retirou os audiofones. 
       - Estava escutando o Sumrio das Notcias, Buffie. Sr. Leigh? 
       Leigh rosnou um cumprimento. A moa sorriu-lhe, ofereceu-se para fotograf-lo, recebeu um sonoro "no", e foi embora. 
       - S temos uns minutos - disse o psiclogo - por isso, vou direto ao assunto. O senhor tem algo a me ensinar? 
       Leigh contraiu os olhos, deu-se conta de que expresses faciais eram inteis com um psiclogo cego, por isso contraiu os olhos no tom da voz. 
       - Ensinar quanto a qu? 
       - Sven Ericson. As coisas que o entusiasmam, as suas deficincias, qual  sua fora oculta. Seu negcio  a psicologia de massas, o senhor certamente me pode 
ajudar. 
       Leigh achou graa. Primeiro a mulher, agora a lisonja de um tcnico, fingindo perguntar o que fazia Ericson vibrar. Hennessy estava lhe abrindo o caminho. 
Ele resolveu que lhes contaria a verdade atravs de algumas frases curtas que eles pudessem interpretar como bobagens, e pudessem convenientemente ignorar. 
       - Enquanto o homem necessitar do poder, o poder no necessitar do homem. Entendeu at aqui? 
       - Siiimmm. 

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       Claro que ele no estava entendendo; o que Leigh dissera era profundo demais para que esse amador percebesse de imediato.  Ele prosseguiu: 
       - Pense no poder como um grande cavalo de raa, com o pescoo forte envolto em trovo, segundo falam. Esse cavalo, esse poder, tem de ter um cavaleiro. Por 
isso, ele examina os jqueis. 
       "O jquei nmero um tem necessidade de montar esse cavalo-poder. Ele s ser um homem completo quanto puder mont-lo. Essa necessidade  uma fraqueza, e o 
cavalo-poder sabe disso, mas a fraqueza pode ser tolerada desde que o jquei tenha pulso firme e aja confiantemente. O jquei nmero um precisa do poder, e sabe 
lidar com ele, por isso o cavalo-poder permitir ser montado. Esse era Ericson, antes da emboscada. 
       "O jquei nmero dois tambm precisa montar o cavalo, para transformar-se num homem completo, mas como no sabe manipular as rdeas, ele age s cegas. O cavalo 
vai derrub-lo, o cavalo-poder no suportar uma dupla fraqueza. Esse  o Ericson de hoje. 
       Leigh comeou a levantar-se, aps pronunciar sua pequena palestra, mas o homem cego pareceu sentir-lhe o movimento, e fez-lhe sinal para ficar. 
       - Continue - disse Fowler. - Com o jquei nmero trs. Ele no precisa do poder, no tem essa fraqueza, mas tampouco tem pulso firme, e no sabe como tratar 
com o poder. O cavalo-poder permitir que o jquei nmero trs o monte? 
       Leigh sorriu. Esse psiclogo era bem espertinho. 
       - O senhor no deveria falar assim do Vice-Presidente dos Estados Unidos - disse-lhe Leigh. - Nichols gostaria de dar uma volta, mas no  uma coisa indispensvel 
para ele. De certo modo, isso  uma fora; o cavalo deixar que ele o monte, mas algum como Bannerman ter de estar l para segurar as rdeas. 
       - Vamos ao jquei nmero quatro - pressionou Fowler - o que no precisa do poder, mas sabe lidar com ele. No tem fraquezas interiores, e seu pulso  firme. 
       - Ah! - exclamou Leigh - o senhor est falando agora de algum como Eisenhower, o tipo de sujeito que se poderia eleger todas as vezes. O cavalo-poder chegar 
at a andar devagar, para os que forem assim. 
       - Agora, a pergunta crucial - disse o psiclogo, fazendo com que Leigh se sentisse constrangido, mas sem poder escapar  extenso de sua prpria analogia. 
- Podem os jqueis mudar, e o cavalo perceb-lo? 
       - Ericson j mudou de jquei nmero um para jquei nmero dois - disse lentamente Leigh - de um homem que precisa do poder 

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e sabe lidar com ele, para um homem que continua a precisar do poder mas j no sabe lidar com ele.  claro que ele poderia mudar mais ainda, para um homem que no 
precisa do poder nem sabe lidar com ele. Esse seria o jquei nmero trs, como Nichols, mas de que adianta isso? O senhor quer que Ericson continue, embora vacilante? 
       - O senhor acha que no h possibilidade de ele se tornar o jquei nmero quatro - declarou Fowler. 
       Leigh concordou: 
       - Isso significaria que ele teria de mudar por dentro, e depois por fora. Nunca vai acontecer. Bem, eu no diria nunca, mas no com rapidez. No na atual 
gesto. 
       Leigh levantou-se, cenho carregado. Fora induzido a falar demais, o que no era do seu feitio. Tencionara parar no jquei nmero dois, porque nunca lidara 
com um candidato que no tivesse aquela lacuna que clamava para ser preenchida. No saberia como tratar com um homem to seguro que podia montar o cavalo ou deix-lo 
em paz, e Leigh no fazia questo de conhecer o jquei nmero quatro. Buffie surgiu  porta e o levou  sala de Hennessy. 
       - Eis o "sacana do Leigh" - anunciou ela - todo amaciado. 
       - Todo endurecido corresponde mais  verdade - resmungou ele para o advogado. Ela acenou adeus e fechou a porta. 
       Leigh e Hennessy participaram ento dum minueto que durou quarenta minutos. Lembranas da campanha, discusso sobre o "fatdico fim de semana", quem do pessoal 
da campanha estava dando certo no estafe presidencial, a acidez estomacal de Hennessy, uma justificativa por no lev-lo para falar com o Presidente, que estava 
repousando na residncia - e isso foi um alvio para Leigh - e este levantou-se para ir embora. 
       - Voc talvez receba um telefonema do Tennessee - disse o poltico ao sair - para saber informaes de um cara chamado Kerr, para o cargo de diretor do departamento 
de estradas de rodagem. Acho que ele foi til durante a campanha.  um sujeito competente. 
       Hennessy fez sinal com a cabea cautelosamente, como deveria, e levou o visitante ao pequeno elevador. 
       - Voc quer me lembrar de algo? 
       Estava jogando verde para pression-lo; Leigh desconfiou de que Hennessy talvez fosse um osso duro de roer nesses assuntos. 
       - No - disse Leigh. - No desejo lembrar-lhe nada. Eu mesmo no me lembro de nada especial. 
       Esperava que Hennessy deixasse o assunto parar por a, o que realmente aconteceu. Pelo amor de Deus, o coordenador da campanha no era nenhum chantagista. 
Era esse o favor que lhe deviam. 

Pg 293 
       Quando Leigh abriu a escura porta de madeira do quarto no Hay-Adams, sua mulher tinha um recado: 
       - Susan Bannerman acabou de ligar. Nos convidou para jantar hoje, s ns quatro. 
       - Que foi que voc disse? 
       - Que voc talvez precisasse ficar na Casa Branca at tarde, e que eu ligaria depois. 
       - timo. 
       Bannerman agira depressa; certamente ele tinha algum na Casa Branca que vigiava quem os assessores do Presidente recebiam, e no desistiria de lutar. 
       - Arthur, vamos  casa dos Bannerman. Nossa nica alternativa  comer no quarto, e isso j est nos custando muito caro. 
       Leigh tinha de supor que Bannerman desconhecia a cegueira anterior do Presidente. Tambm achava que Bannerman no sabia por que Leigh entrara em contato com 
ele, e achava ainda mais que Bannerman julgava que Leigh sabia algo contra o Presidente. Leigh tambm calculou que Hennessy, a quem provavelmente haviam contado 
o incidente do trem, estava preocupado com o fato de que Leigh poderia cometer uma indiscrio sobre a informao. Hennessy logo saberia, atravs do Servio 'Secreto, 
que os Bannerman e os Leigh estavam jantando juntos. Por isso Leigh mandara a mulher almoar no Sans Souci. Isso induziria Hennessy - e o Presidente - a manter Arthur 
Leigh feliz e calado. No se tratava de chantagem, apenas de posio. 
       - Vamos aceitar o convite dele - disse ele  mulher. -  o mnimo que Bannerman pode fazer por ns. Eu o ajudarei a fazer de seu amigo idiota o Vice-Presidente. 
       - Se algum nesta. cidade nos deve alguma coisa, Arthur, como  que estamos morando fora daqui e eles esto todos aqui? 
       - Porque eles odeiam o tipo de gente em que se esto transformando, e se vem em mim. 
       Ela lhe deu um olhar que pareceu exprimir sua vontade de ver se ele estava com febre. 
       - Que foi que voc disse? 
       - Nada. 
       Aquela frase soara melhor quando ele a dissera quela moa "incrvel", a fotgrafa. Olhou pela janela para a Casa Branca, e se permitiu sonhar acordado com 
Buffie durante algum tempo. 

Pg 294 
O PRIMEIRO-MINISTRO INTERINO 
       
       As trs limusines Zis negras espremeram-se atravs do estreito porto do muro do Kremlin, aceleraram os motores e irromperam pela Praa Vermelha. Os poucos 
turistas e bbados que por ali vagavam, s 3 horas da madrugada, observaram o espetculo de poder burocrtico: um desfile de trs automveis, sem flmulas ou motocicletas, 
passando em alta velocidade, com persianas arriadas, na calada da noite. Impressionante para alguns, assustador para outros. 
       Vasily Nikolayev afundou-se no assento traseiro direito do carro do meio. Ele era o Primeiro-Ministro Interino, tendo substitudo temporariamente Kolkov em 
uma de suas duas funes - significativamente no como Secretrio Geral do partido, posto deixado vago por ora. A reunio do Politburo daquela noite no lhe fora 
favorvel. Nikolayev fora confrontado com o fato - nebuloso, difcil de decifrar, porm, um fato - de que Kolkov no fora o heri que estavam fazendo parecer. A 
histria de Kolkov salvando a vida do Presidente americano era supostamente inveno de Nikolayev, destinada a ajud-lo a herdar o manto de Kolkov. A ironia era 
que a acusao era falsa. 
       - Estou surpreso com voc, Vasily. - O homem sentado ao seu lado, Slovenski, no era amigo nem inimigo, mas o escolhido para fazer a viagem com Nikolayev 
porque era aceito como neutro por todas as faces. - Voc sabia que o quarto do hospital tinha microfones, 
       Claro que Nikolayev sabia que a sala do agente do servio secreto estava "preparada": uma sala abobadada fora selecionada com o f:to de tornar possvel a 
vigilncia a distncia. Contudo, lhe disseram que nada extraordinrio fora escutado, nem mesmo quando o agente, Bok, foi visitado pelo Secretrio Curtice e o homem 
do Presidente, Cartwright, naquelas horas terrveis aps a emboscada. Nikolayev recebera o relatrio de Curtice como verdadeiro, ou, pelo menos, no como falso: aquele 
em que Bok apresentara realmente a possibilidade de que Kolkov morrera protegendo o Presidente Ericson. Todavia, a fita era ambgua, com trechos que no se conseguiam 
ouvir, e o Politburo poderia somente suspeitar. Nada estava confirmado ainda. 

Pg 295 
       - Ns vamos perguntar, ns vamos escutar, ns vamos descobrir - ele replicou. Percorreram o resto do caminho para o aeroporto militar em silncio. 
       O avio supersnico Tupolev deixou-os na Crimia em menos de duas horas. No hospital de Yalta, o KGB tinha os preparativos  mo: o americano pertencente 
ao corpo mdico, na sala de Bok, fora drogado, assim como a enfermeira. Os mdicos da comitiva dos Estados Unidos estavam alojados a dez minutos de distncia, e 
os motoristas tinham ordens de no trazer pessoal algum do hospital sem autorizao. 
       Nikolayev e Slovenski, com um engenheiro de gravao, foram levados  sala aonde Bok fora encaminhado para a entrevista. O agente americano do servio secreto 
estava profundamente adormecido. O pentotal, com um excitante de conscincia, foi-lhe ministrado, e Slovenski fez as perguntas: 
       - Seu nome. 
       - Harry Bok. 
       - Esse  o seu nome verdadeiro? 
       - Bokstansky, Harold. 
       O agente foi levado atravs das horas da emboscada at o ponto na ravina. Nikolayev, de corao apertado, estava se convencendo de que a histria Curtice-Cartwright 
fora instigada, e se poderia provar ser fraudulenta. Ningum acreditaria que ele no tomara parte na trama inventada. 
       - E, a essa altura, o Secretrio-Geral Kolkov estava vivo? 
       - No, estava morto. Granada. E deve ter recebido uma dzia de projteis no corpo. 
       - E como foi que o corpo do Secretrio-Geral Kolkov surgiu em cima do Presidente Ericson? 
       - Eu o arrastei e o coloquei ali. No lhe faria mal: estava morto. 
       - E quando foi que teve a idia de que o Secretrio-Geral Kolkov salvou a vida do Presidente Ericson? 
       - Aqui nesta sala, com Cartwright. Curtice eu no sei, mas Cartwright  um homem em quem se pode confiar. Era isso que Curtice e Cartwright desejavam escutar. 
Eu nunca digo que tenho certeza, tambm; s digo que  impresso minha. No posso jurar. 
       O interrogador repassou as perguntas e obteve as mesmas respostas gerais. Nikolayev desligou. Percebia o que Cartwright e Curtice tinham feito, e era o tipo 
de expediente que ele teria usado, fossem os papis invertidos: apresentar uma boa histria de cobertura a fim de poder ajudar o homem local em comando - naquela 
hora 

Pg 296 
e lugar, Nikolayev - a levar uma vantagem; ser trocado por segurana imediata. O erro americano foi deixar seu homem para trs, vivo. 
       Talvez a situao ainda pudesse ser remediada a fita da conversa entre Curtice e ele mesmo estava disponvel, e Nikolayev sabia que ela dava oportunidade 
a diferentes interpretaes. E quem sabe o Politburo pudesse ser convencido de que havia grande vantagem em deixar os americanos comprometidos. Essa seria uma boa 
contra- cartada para jogar, pensou o russo: o conhecimento secreto de que os americanos haviam afirmado falsamente que Kolkov salvara a vida do seu presidente. Poderia 
ser utilizada em alguma situao crtica e, pelo menos at ento, seria aconselhvel ao Politburo reter Nikolayev como Primeiro-Ministro. E, com o tempo... 
       - Vamos tirar uma soneca no avio para Moscou - disse Slovenski, - Eu, pelo menos, vou.  melhor voc planejar o que dizer na reunio das Oito horas da manh. 
       Ocorreu uma idia a Nikolayev. 
       - Faa esta ltima pergunta ao agente: o Presidente Ericson sabe a verdade sobre Kolkov? 
       Quando apresentada a Bok, a pergunta provocou resposta duvidosa: 
       - Eu no lhe contei. Acho que, a esta altura, Curtice ou Cartwright j devem ter-lhe dito. 
       - Voc dir a verdade ao Presidente quando o vir novamente? 
       - Claro que sim. No escondo segredos do Presidente. 
       Bom homem, pensou Nikolayev. Era importante que Ericson ficasse a par de que o "sacrifcio" de Kolkov fora uma fraude, e que sua Administrao conspirara 
com Nikolayev para sua realizao. 
       Na tarde seguinte, em Moscou, Nikolayev examinava um questionrio vindo de um embaixador norte-americano indignado acerca de atividades suspeitas no hospital 
de Yalta na noite anterior. A enfermeira e o mdico americanos insistiam que haviam sido drogados, e no podiam responder por um perodo de quatro horas. Bok no 
se recordava de coisa alguma. Nikolayev instruiu o Ministro do Exterior que pusesse imediatamente um avio  disposio dos americanos em Yalta, desde que assumissem 
responsabilidade pela segurana de Bok em trnsito; ele no permitiria que qualquer suspeita do gnero envenenasse o ambiente diplomtico. O embaixador americano 
recuou; pediria instrues. 
       - Estvamos planejando dar-lhe uma medalha - foi a mensagem indignada de Nikolayev - porm, se desejam Bok de volta ao lar agora mesmo, ns a mandaremos pelo 
correio. 

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       O pormenor importante - Nikolayev deixou claro para Slovenski - era o de que no seria deliberadamente divulgada nenhuma informao coletada na entrevista 
em que fora utilizado o soro da verdade em Bok. Essa divulgao poderia ser usada para constranger a j vacilante Administrao de Ericson, e um escndalo poderia 
faz-la desmoronar. Ele insistia em que o interesse sovitico no seria beneficiado pela queda de Sven Ericson. 
       - Por que no? - Slovenski era, como sempre, cauteloso. 
       - Porque eu tenho o que Churchill chamaria de "relaes especiais" com Ericson - afirmou Nikolayev. - Ele precisa de mim para permanecer no poder, em Washington. 
Podemos usar isso. 
       - Tem certeza de que a coisa no  ao contrrio, Vasily? 
       Nikolayev sabia que isso era verdade, tambm, mas rejeitou a questo: 
       - O presidncia de Ericson combina com nossos interesses. Nenhuma informao sobre a mentira do agente dever ser divulgada. 
       Slovenski deu de ombros. Nikolayev percebeu que, se fosse conveniente  faco dominante do Politburo deixar que se conhecesse a verdade acerca da duplicidade, 
no ataque a Kolkov e Ericson, ento a informao seria ventilada. Caso contrrio, se o segredo fosse mantido, significaria - junto com o prprio Nikolayev - uma 
carta na manga. 
       O Primeiro-Ministro Interino estava bem a par de que seu futuro se achava agora ligado intimamente ao Presidente americano, o qual ele infelizmente condenara 
 morte h apenas algumas semanas. A continuao de Ericson na presidncia era necessria a Nikolayev na consolidao do seu poder. 
       O russo tentou imaginar formas de assegurar que a faco oposta no Kremlin no divulgasse coisa alguma das fitas de Bok que enfraquecesse a posio de Ericson. 
A represa era to grande como a de Dneproetrovski, e era difcil dizer onde a rachadura comearia a surgir. 

Pg 298 
O AGENTE DO SERVIO SECRETO/3 
       
       "Bok voltou!" Harry sorriu diante do cartaz com letras vermelhas carregado por uma delegao de filhos de agentes do servio secreto marchando na direo 
da rampa, enquanto sua cadeira de rodas era levada para baixo por dois integrantes do corpo mdico. Esse era o tratamento de heri que voltava e Harry achou-o um 
bocado simptico. Para dizer a verdade, ele o merecia, e era tambm bom para o Servio, informar ao mundo que seus homens estavam prontos para oferecer suas vidas. 
O maduro agente sempre se perguntara se agiria de forma correta quando chegasse a hora - essa dvida fora agora sanada. Ele tinha certeza, igualmente, de que jamais 
por.a sua vida  disposio novamente. 
       O novo Secretrio do Tesouro, Zack Parker, aquele que surgiu para tomar o lugar de Bannerman, estava ali, j que o Servio Secreto era uma diviso do Departamento 
de Tesouro. O Secretrio fez um pequeno discurso para as cmeras, o chefe do Servio Secreto apertou-lhe a mo, e as famlias dos agentes aplaudiram. Muito bem; 
Harry esperou que isso o ajudasse a obter um cargo no setor de falsificaes - pode-se fazer um trabalho burocrtico de uma cadeira de rodas. Ele estava disposto 
a no levar o resto dos seus dias teis com uma penso por incapacidade. 
       Harry beijou sua esposa de novo para os fotgrafos, e recebeu os abraos dos dois filhos, de quatorze e doze anos - dois canastres, que olhavam para as cmeras 
enquanto davam boas-vindas ao pai - e foi levado para a sala VIP a fim de conceder entrevistas filmadas. Ele fora instrudo: o chefe lhe enviara por telex cpias 
do que fora dito a respeito da emboscada, pelo Presidente, por Curtice e por Cartwright. Ningum o informou exatamente sobre o que deveria dizer, a no ser a insinuao 
geral de permanecer indefinido. At Smitty, o secretrio de imprensa, mandou-lhe um recado: "Guarde alguma coisa para as suas memrias; as ofertas j esto comeando 
a chegar". 
       - Poderia dizer-nos, com suas prprias palavras, Senhor Bok, exatamente o que aconteceu na ravina durante o ltimo ataque ao Presidente? 

Pg 299
       Harry no gostou daquele "com suas prprias palavras". Parecia histria de coluna sentimental, ou da derrubada de algum sem o domnio do idioma. Mas ele 
no se deixou irritar; heris, se desejam continuar heris, so modestos. 
       - Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo - declarou aos jornalistas - e no me posso referir com toda clareza aos detalhes. Pareceu-me que o Secretrio-Geral 
Kolkov tentava alcanar o Presidente, ou se arrastava at ele. No posso jurar isso, porm. De qualquer forma, um bocado das balas e do fogo antiareo que atingiu 
seu corpo teria ferido o Presidente se o corpo de Kolkov no o estivesse protegendo. Todavia, os detalhes ainda me fogem, desculpem. - No dissera nenhuma mentira; 
as pessoas poderiam interpretar como quisessem; bem anloga  descrio de Curtice, porm, no to especfica. 
       Dois dias mais tarde, aps ter recebido toda a adulao e espalhafato por sua volta  ptria como jamais se repetiria, Harry recebeu um telefonema mandando 
que se apresentasse no Salo Oval. 
       Um agente empurrou-lhe a cadeira at l; o Presidente, de culos escuros, estava meio sentado  beira da velha mesa de Hoover. Outro agente pegou o brao 
do Presidente e o trouxe at a cadeira de rodas de Harry, onde as mos de protetor e de protegido fizeram contato. O Presidente pediu aos outros agentes que se retirassem, 
e passou para uma cadeira de balano, agilmente se desviando da mesa de caf repleta de flores. 
       -  bom v-lo novamente, Senhor Presidente - falou Harry, e ento se perguntou se deveria evitar o termo "ver". 
       - Estou vivo, meu chapa, graas a voc. - O Presidente parecia forte e animado a Harry; diferente com aqueles culos,  claro; e a falta de jeito no momento 
do aperto de mos no poderia ser esquecida, porm, a despeito disso, Ericson parecia sentir-se confortvel no Salo Oval. - E graas a Kolkov, suponho. 
       - Bem... talvez. 
       - Cartwright me disse que houve certa confuso a esse respeito, e vocs todos decidiram dar a Kolkov o benefcio da dvida. 
       - H... - Se o Presidente quisesse conhecer a histria, calculou Harry, perguntaria; se desejasse saber apenas o que ele sabia, Harry Bok ficaria de matraca 
fechada. 
       - Se abra comigo, Harry. 
       - O corpo de Kolkov estava deitado l - Harry se abriu, aliviado - e eu o atirei em cima do senhor. A idia de ele ter salvo a sua vida surgiu quando Curtice 
e Cartwright entraram no meu quarto do hospital. 

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       - Nenhuma chance de a coisa ser verdade, ento? - Havia um tom lastimoso na voz do Presidente; se ele precisava de algum consolo quanto a isso, Harry poderia 
dar-lhe. 
       - Claro que h uma chance - ele retrocedeu. - Ele estava com o brao na sua direo, o que deve ter sido seu jeito de cair, ou talvez estivesse engatinhando. 
Talvez eu o tivesse ajudado a alcanar o senhor; ele poderia estar vivo, no sei, no parei para tomar sua pulsao. Talvez fosse at verdade, no posso jurar que 
sim ou que no. Foi por isso que no combati a idia do Curtice. 
       - timo - disse o Presidente. - Reparei na maneira com que voc manejou o assunto na sua entrevista no aeroporto. Evasivo. Harry... - Ericson esticou-se, 
ps num escabelo, e tirou os culos. - Nunca minta, Lembre-se de que j lhe disse isso, quanto s suas memrias, O que eu quis dizer foi: "Nunca minta", 
       - Nem mesmo a respeito das "donas boas?" - Claro que ele jamais escreveria alguma coisa acerca das mulheres na vida de Ericson, mas gostava de brincar sobre 
isso, e sabia que Ericson gostava que brincassem com ele a respeito delas. 
       - Escreva tudo sobre as mulheres - disse Ericson seriamente - mas, lembre-se: elas jamais foram "donas boas". No diga coisa alguma enquanto eu estiver vivo, 
porm, depois que eu morrer lembre-se, primeiro, do meu bom gosto. Mulheres interessantes. A Buffie tem me dado um bocado de dor de cabea, por falar nisso; quero 
que voc tome providncias - Harry ficou surpreso: teria o Presidente esquecido que seu antigo chefe de servios especiais era agora um aleijado? - e segundo: decoro. 
Jamais me exibi, nem deixei qualquer mulher ofender o povo americano, morando na Casa Branca. Mantive as aparncias. E nunca houve adultrio: somente garotas solteiras, 
de moral elevada, ligeiramente supersensuais - Hank Fowler acha que isso no apresenta contradies de termos. 
       - Quem  ele? 
       - Esqueci que voc esteve desligado at agora: Fowler  meu psiclogo; o melhor "encolhedor de cabeas" cego do mundo. Dizemos que ele est aqui para me ensinar 
os truques de como andar por a, porm,  mais do que isso. No lhe diga que revelei isso; ele pode ter idias indesejveis. Vai ser bom voc tambm falar com ele 
acerca da vida numa cadeira de rodas. 
       Harry no pde evitar a lembrana de que recentemente - apenas h algumas semanas antes - os olhos de Ericson nada perdiam, e suas prprias pernas, que vinham 
diminuindo o ritmo, ainda funcionavam. O Presidente leu sua mente: 
       - Sou um cego e voc um aleijado, Harry. Pelo menos por enquanto, e talvez para toda a vida. Vai descobrir que no incio a depresso  um inferno, mas depois 
voc sai dessa. 

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       - O senhor saiu? 
       - Quase. Bannerman e Fong, e creio, nosso leal Vice-Presidente, tentaram me botar para fora h uma semana, faz hoje; voc soube disso. Eu no confessei a 
ningum, exceto um pouco, a Fowler, mas quase desmoronei naquele fim de semana, droga! Fowler, Duparquet, Hennessy: eles me mantiveram inteiro. E quando me senti 
ferido e quis mostrar a todos que no me podiam imprensar, fiquei cem por cento novamente. Agora estou por cima. O ambiente deste local mudou. Duparquet est na 
capa do Time e de Newskeek; soube que at a Melinda est cada por ele, e estou pensando em fazer um discurso. 
       - Como o senhor vai ler o discurso? 
       - Com um ponto eletrnico na orelha. Mas o principal  que o momento est do meu lado. Bem, para definir melhor, passou a ocasio de me afastar, e as coisas 
esto mais ou menos no ponto crtico, Entretanto, agora eu agento qualquer coisa que joguem contra mim, at cair de cara em pblico. O sentimento de desesperana 
est, pode-se dizer, l no fundo, e posso empurr-lo mais para trs. No sumiu, mas eu agento. 
       Harry assentiu com a cabea. Quando se lembrou de que Melinda lhe dissera que o Presidente no podia escutar esse gesto, Ericson j estava falando de novo. 
       - Portanto, a razo pala qual lhe conto isso, e no falei nada para ningum, bem, h duas razes. Uma  que voc  um bom ouvinte, sempre foi, s que agora 
vai ter de adquirir o hbito de resmungar ocasionalmente, e eu sei que no deixar nada transpirar. Exceto aquilo que eu deseje divulgado. A segunda razo  que 
sei o que voc tem passado, falando sem rodeios, e posso ajudar. 
       - Vai me ajudar com aquele emprego? 
       - Bok, voc s vezes  um bocado burro. - O Presidente levantou-se, evidentemente pensando em andar pela sala, mas pensou melhor e resolveu sentar-se de novo. 
- A falsificao pode esperar. Quero voc por aqui. Bem pertinho. H trs pessoas em que posso realmente confiar: Hennessy, Melinda e voc. No me posso dar ao luxo 
de perd-lo. Alm disso - acrescentou; para eliminar parte do sentimento - Herb Abelson no tem bom gosto. 
       No vai ficar bem - avisou Harry, sentindo-se seguro o bastante para argumentar contra seus prprios interesses - o invlido guiando o cego. 
       Ericson rejeitou o argumento: 
       - Voc salvou minha vida, quero-o como companhia e como uma frente. Quem poder criticar? - Mudou de assunto subitamente: - Acha que os russos o foraram 
a falar quando no sabia? 

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       O mdico e a enfermeira que o assistiram se queixaram de terem sido postos para dormir naquela noite? 
       - Pode ser - Harry no sabia disso. Seria verdade, e o que ele lhes teria contado? Ele tinha muito para falar, se os russos soubessem o que perguntar acerca 
dos mtodos e cdigos do Servio Secreto. E dos hbitos do Presidente, das mulheres, tudo. - Acho melhor falar com o Furmark para comear a mudar as coisas por aqui, 
s como precauo. 
       - Voc no se lembra de nada a respeito de ter sido interrogado, ou incomodado de noite, ou alguma coisa assim? 
       - No. A enfermeira americana costumava sentar-se perto de mim at eu dormir. Eu gostava dela por ali. Tinha uma cara inexpressiva, mas um corpo sensacional. 
       - Isso me faz lembrar - falou Ericson. Desta vez ele caminhou at as portas-janelas, abrindo-as para respirar um pouco do abafado ar de vero, deixando entrar 
certa dose de umidade no escritrio refrigerado. - D uma olhada por a para mim, Harry. Estou um tanto ligado emocionalmente  Buffie, e isso no  bom, preciso 
de uma vlvula de escape. Nada complicado. Entende o que quero dizer? Sabe muito bem o que quero dizer porque Herb me disse que sua vida no foi afetada pela paralisia 
nas pernas. Fiquei preocupado com isso por sua causa. 
       - Vai ser meio difcil, mas querer  poder... - Harry falava de si prprio, contudo o mesmo se aplicava ao preenchimento das necessidades do Presidente. 
       - Quando vocs, caras, quiserem parar - exclamou Hennessy, batendo no umbral da porta - podem apresentar-se como "o aleijado, o coxo e o cego". Faro uma 
fortuna no mundo dos discos. 
       - Acha que ganhamos o voto de simpatia, Hennessy? - O Presidente parecia satisfeito; isso devia exigir alguma prtica, raciocinou Harry. 
       - A Cano para Bernadette devia ser seu primeiro grande sucesso. Isto aqui parece um dia movimentado em Lourdes - Hennessy apertou o ombro de Bok. - Anime-se, 
olhos claros; antes voc que eu. Olhe, trouxe-lhe uma comisso. - E mostrou um documento grande e moldurado, que dizia em letras escritas  mo: "Haroldo Bokstansky, 
de Illinois. Assistente Especial do Presidente para ligao com antigos Presidentes." 
       Harry engasgou. 
       - Essa  demais! - Um pensamento lhe ocorreu. Mas, no existem antigos presidentes vivos. 
       - Isso lhe deixa um bocado de tempo para a sua outra funo - rebateu Hennessy - e, alm disso, Sven Ericson  a coisa mais 

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parecida com um ex-Presidente, aps a semana passada. Voc est de licena do Servio Secreto, acumulando direitos de penso e antigidade. 
       - Eu gostaria, Hennessy, que voc discutisse essas coisas comigo primeiro - comeou Harry, porm, o novo chefe de pessoal interrompeu-o com: 
       - Mas isso d uns cinqenta mil - Bok disse: - Aceito. 
       - Este no  local para pormenores domsticos - disse Ericson. - Aqui  o centro do poder, o Salo Oval. Que est havendo de importante? 
       - Voc no tem escutado o velocssimo projtil de alta velocidade, o Sumrio de Notcias? - perguntou Hennessy. E olhou para Harry: - Voc deve ouvi-lo; a 
porcaria parece um boletim meteorolgico para esquilos. 
       - J que tocou no assunto - exclamou o Presidente - voc podia ler para o Harry o trecho a respeito do comit Bannerman. Acho bom a gente p-lo a par de tudo. 
       - Clich - falou Hennessy, imitando a velha figura de retrica dos fongrafos. 
       - Touch - exclamou Ericson. 
       - Ei - interps Harry - se toda essa gozao est sendo usada em meu benefcio, podem parar. 
       - Leia - disse o Presidente para Hennessy. - Voc est carregando a pgina no seu bolso, arrancada do Sumrio de Notcias. - Ele conhecia seu assessor. 
       - "Duas redes de televiso reportaram" - reportaram, reparem - "comunicados sobre o Comit para Substituir o Presidente Incapacitado" - leu Hennessy - "com 
o ex-Secretrio do Tesouro, T. Roy Bannerman, como presidente nacional, e uma ilustre junta de industriais, banqueiros e mdicos, localizada principalmente no nordeste. 
Bannerman disse que seria apartidrio, e lanaria um movimento de mbito nacional para admisso de seguidores daqui a duas semanas." "No estamos contra Sven Ericson" 
- falou o senhor Bannerman - "somos pr-Presidncia. .." O Secretrio de Imprensa da Casa Branca, James Smith, declinou de fazer comentrios, porm, o Procurador-Geral 
Luparquet apontou o comit como "um punhado de maus perdedores, e o povo americano no gosta de maus perdedores". 
       - Boa frase - falou Harry. 
       - Boa pra cachorro - disse o Presidente, caminhando para saia mesa e sentando-se na sua beirada de novo. - Eu mesmo a forneci ao P. G. - Dirigiu-se novamente 
s portas e comeou a 

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mexer na maaneta. - Vamos pegar um pouco de sol; hoje no est muito calor. 
       Harry fez sinal para o agente na porta do corredor, que alertou os agentes no Jardim das Rosas. Hennessy e o Presidente saram e se sentaram nos degraus. 
Bok deslocou sua cadeira de rodas para o topo da escadaria. Ericson virou o rosto na direo do sol, sem semicerrar os olhos. 
       - Melinda est com o rosto apertado contra a janela olhando para ns - disse Harry. A sala dela era a nica outra que dominava o Jardim de Rosas. 
       - Diga a ela para vir aqui - disse o Presidente. Bok acenou para ela com insistncia, e a mulher se juntou aos trs. 
       - Sem roupa de banho? - Hennessy comeou a implicar com Melinda, contudo Harry, que sabia que o Presidente tinha alguma cosa em mente, mandou-o calar a boca 
com um gesto. 
       - A famlia  esta - Ericson disse. - S nos quatro. Um advogado divorcista, uma solteirona, um aleijado e um cego; e estamos comandando uma grande parte 
do mundo. Temos de confiar um no outro para tudo. No temos de confiar em mais ningum. - A voz de Ericson saiu baixa, e Harry calculou que o Presidente pensara 
um pouco antes de afirmar isso. - Deixem-me explicar primeiro acerca da confiana mtua. Confiana  sempre um risco. Nesta situao, maior  o risco que sofremos 
ao abrir brechas em informaes que nos poderiam matar. Vejam Lucas Cartwright. Ele  homem de confiana, e um patriota, mas no  um dos nossos. Quando descobriu 
que Buffie fazia contato com Bannerman, no conseguiu ficar a par daquilo que no sabia, isto , minha cegueira anterior e o incidente no trem com Buffie. Por isso 
aguardou alguns dias, quando toda a presidncia poderia ter entrado pelo cano naquele perodo. No foi culpa de Cartwright;  que simplesmente eu no confiava nele 
totalmente, e tive de pagar o preo. 
       "Por isso minha teoria  a de que ns quatro temos de partilhar nossas informaes a respeito de tudo. No nos podemos dar ao luxo de lacunas. Hennessy, voc 
no sabe que Melinda sabe quanto  minha cegueira naquele dia no trem da campanha; pois estou lhe dizendo agora: Melinda sabe. Melinda, voc no sabe que Hennessy 
sabe que voc passou a noite de ontem com P. G. no seu apartamento no Columbia Towers; pois Hennessy sabe. Harry: voc no sabe que Hennessy e Melinda sabem que 
os russos lhe tentaram arrancar a verdade; eles sabem, e voc ter de contar-lhes tudo a respeito do que acabamos de conversar sobre a emboscada. Nada de segredos 
neste grupo, seno a gente vai acabar sendo expulsa daqui. 

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       Ericson no terminara. Harry sabia que ele no precisava de perguntas. 
       - Agora, acerca de confiar em outras pessoas: no confiem. Hennessy, descubra quem foi o contato de Cartwright, o que nos deu a dica sobre Buffie e Bannerman, 
porm, no conte a Lucas a respeito da cegueira anterior. Melinda, trabalhe o mais chegado que quiser com Duparquet, divirta-sei espero que se torne a Primeira Dama 
dele algum dia, mas, s lhe conte .o que desejamos que saiba, e vou ter de decidir o que isso . Por exemplo: quero que voc conte ao P. G. acerca de Harry, Kolkov 
e a emboscada porque ele no se pode sentar no Conselho de Segurana Nacional com Lucas Cartwright e Gene Curtice como meu contato principal sem estar a par disso, 
no entanto, Duparquet no necessita saber do incidente no trem da campanha. 
       - Harry - Bok observou o Presidente virar-se nos degraus e olhar de modo geral na direo de sua cadeira de rodas, pegar a roda e puxar a cadeira para mais 
perto dele. - Estou contando com voc para mandar os agentes observarem de perto, no-oficialmente, o Vice-Presidente, caso algum negcio esquisito esteja ocorrendo 
l. Tambm Buffie e Bannerman. E Arthur Leigh, o sacana. O chefe do Servio no pode saber do meu interesse porque tudo  oficialmente fora da minha alada, e o 
Servio Secreto no  um setor de espionagem do Presidente, porm, Harry, voc  amigo deles e pode trabalhar por trs da cerca. Entendeu? No gesticule, fale. 
       - Entendi. 
       - Agora vamos recapitular quem no sabe o qu, e quem sabe o qu - disse o Presidente calmamente. Harry gostou da forma por que ficou completamente encarregado 
de tudo. - Alm de ns quatro, as nicas pessoas que sabem a respeito da cegueira no trem da campanha so Buffie, Leigh, e Herb Abelson. Eu tomo conta de Buffie. 
Voc, Hennessy tome conta de Leigh. E Melinda, voc escore o Herb quando ele precisar, e me diga quando eu tiver de ajudar. 
       O Presidente raciocinou por um momento. 
       - Outro assunto: as nicas pessoas que conhecem a pequena histria de Harry a respeito de Kolkov, alm de ns, so Curtice, Cartwright, e em breve o Procurador-Geral 
Duparquet. 
       - E talvez os russos - acrescentou Harry. 
       - E talvez os russos saibam de tudo a respeito da cegueira na comitiva de campanha, tambm, exclamou Melinda. 
       - Como? - O Presidente perguntou asperamente. 
       - Se conseguiram arranc-lo do Harry - ela sugeriu. 

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       Altamente improvvel - falou Hennessy. - No podemos estruturar nossos planos nessa remota possibilidade 
       - Vamos manter a Possibilidade no subconsciente - disse o Presidente. - Muito bem: nenhum segredo entre ns, nenhuma informao deve ser dada a qualquer outra 
pessoa sobre a qual eu no esteja a par. 
       - E eu gostaria de dizer apenas - falou Hennessy no fim da palestra - que acho o Procurador-Geral dos Estados Unidos um homem de muita sorte, que eu pessoalmente 
invejo. 
       Harry viu Melinda lutar contra reagir, o que a tornou mais rubra. 
       O senhor ficaria satisfeito em saber, Sr. Presidente - disse-lhe Harry - que a sua secretria est corando E gostoso saber que algum por aqui ainda consegue 
fazer isso. 
       - Voc agenta um bocado de abuso, Melinda - falou o Presidente - mas eu no posso ficar sem voc. Sem Hennessy eu conseguiria mas no sem voc. 
       - Que vamos fazer agora? - perguntou ela, levantando-se - Ficar sentados e contar piadas sujas? - Harry reparou que a revelao do caso de Melinda, feita 
pelo Presidente, no fora engolida o facilmente como o Presidente, na sua "jogada" de todos-por-um, poderia ter esperado que fosse. Melinda provavelmente no ficara 
zangada por Hennessy saber, ou por Harry, que sempre sabia dessas coisas, porm, quanto ao Presidente saber e no se importar, ou parecer no se importar. Harry 
maravilhou-se diante da complexidade das relaes de Melinda com o seu patro, porm, tinha de admitir que o Presidente no poderia ter evitado de lidar com assunto 
em famlia. 
       Ela empurrou a cadeira de rodas para sua sala, deixando o Presidente e Hennessy na varanda, diante do Jardim de Rosas. Ela fechou as portas envidraadas por 
trs de si para conservar o ar condicionado, e ficou atrs da cadeira dele, com os dedos apertando firme os puxadores.
       - Acho que sei qual  o problema - Melinda lhe disse quando se achou pronta. - Acho que o problema  que estou assustada. 
       Harry aguardou. Na campanha do ltimo ano ela de vez em quando confidenciava seus sentimentos a ele; e ele aprendera que perguntas jamais faziam com que ela 
se abrisse. 
       - Assustada no  a palavra certa - ela Continuou. - Fiquei assustada a semana passada, pouco antes da reunio do Gabinete, mas depois isso acabou. Agora 
tenho esse peso profundo no peito. Pavor. Tenho pavor do que vai acontecer. Fico suspirando o tempo todo. No Suspiro desde criana. Harry, voc compreende? 

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       O agente conhecia a sensao. Harry lembrou-se de quando deu cobertura a uma multido num estdio esportivo, dia de inaugurao, e um Presidente ia atirar 
a primeira bola. Deu as costas para o Presidente, e seus olhos haviam percorrido incessantemente duas possveis fontes de perigo, mas ele se preocupava em que houvesse 
algum outro ponto que ele deveria estar vigiando. Nada acontecera. O Presidente atirou a bola, assistiu ao jogo durante alguns turnos e saiu discretamente. Sua agitada 
ansiedade declinou, porm, jamais desapareceu realmente depois disso. Fez com que se sentisse  beira da inutilidade, e pde entender a necessidade de suspirar de 
Melinda, de encher os pulmes com ar fresco na esperana de que isso dissolveria o pavor. 
       - Voc acha que algum vai trair os segredos - disse Harry - e ento todo mundo se virar contra ns? 
       - No - falou ela, ainda detrs da cadeira dele quando eu penso assim, fico preocupada, mas no  a mesma coisa. Mesmo se o episdio do trem vier  tona, 
a gente pensa numa sada e acaba ganhando. Ericson simplesmente no  um perdedor, voc sabe disso. Ele aparece com um Duparquet na hora exata, ou com um discurso 
de Checkers, ou um discurso dos ministros de Houston, e acaba dando a volta na coisa, acredito nisso. E voc tambm devia acreditar, Harry. 
       - Obrigado pela conversa animadora - disse Harry. - Mas sobre o que voc est resmungando? 
       - Jamais terminar - ela falou. Vai at ficar pior. E quanto mais a gente se mexe na areia movedia, mais impossvel fica sair dela. Acho que meu pavor  
se ele vai cair; e a nica coisa que o Patro possui agora  que jamais falhou. Voc sabe o que sinto por ele, Harry, e eu gostaria de ajudar, mas ele me afastou, 
me enfiando num pombal. Secretria leal. No posso chegar a ele. nunca pude, porm, agora parece que no existe droga nenhuma de qualquer esperana. 
       Harry surpreendeu-se comeando a suspirar, e cortou logo essa. 
       - Talvez seja uma idia boa ter um homem como Hennessy por perto - disse. - Eles todos precisavam de um inflexvel sarcstico. 
       - Hennessy aprendeu um bocado daquele papo chato, na ltima campanha, com aquele sacana do Leigh - disse ela, finalmente soltando os puxadores da cadeira 
de rodas e caminhando para a sua mesa. - Hennessy se desesperou uma vez a respeito de alguma coisa, e Leigh cuidadosamente escreveu um bilhete num pedao de papel 
e lhe entregou, mandando-o manter sempre na carteira. Dizem que o sustentou na poltica atravs de todas as guerras. Aposto que Hennessy ainda o tem. Diz: " Dureza 
em Toda Parte." 

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       Harry observou Melinda endireitar a blusa e revirar uma pilha de cartas, encenando estar muito Ocupada - o que a levou realmente se ocupar. A luz do seu telefone 
piscou. 
       - Irmo Jonathan - disse firmemente - j  hora de voc merecer o dlar dos contribuintes. O Homem gostaria que voc trabalhasse num discurso com ele. Seu 
bilhete diz: "Relaes exteriores, quinze minutos e nada mais; quero Jonathan trabalhando diretamente comigo; e ningum convocado da Secretaria do Estado". - Lendo 
de cabea para baixo, Harry viu que o bilhete transcrito de uma fita de ditafone dizia: "Providencie o tal Jonathan no-sei-de-qu; quero algum que transcreva minhas 
idias, no que tente vender-me as suas". 
       Harry empurrou sua cadeira at a porta do corredor da Ala Oeste. Furmark, chefe dos servios de segurana estava parado perto da estatueta de Nathan Rale, 
e se aproximou para ajudar. 
       - No quero voc - avisou Harry. - Quero a Tenente Kellgren, minha enfermeira Gosto do jeito de ela empurrar: muito suavemente, mas, com firmeza. 
       - Ela est na sala de repouso dos agentes - disse Furmark, empurrando-o at o elevador. - Ela  bem quieta. O pessoal acha que ela  muita alta e peituda 
para voc, mas eles a aceitaram. 
       - Que bom! - exclamou Harry. Diga a eles que olhem, mas no toquem. Tenho planos para ela. E me arranje uma geral sobre Bannerman e Leigh, e sobre Buffie 
e o Vice. Por falar nisso, diga a quem lhe deu a dica sobre Melinda e o Procurador-Geral pra calar a boca e deixar de ser um fofoqueiro. intrometido. 
       - Falou - disse Furmark. - Tem alguma viagem por a? 
       - Nenhuma viagem - disse Harry. - Ericson fica sentadinho aqui mesmo. Ele gosta da Casa Branca. 


O COLUNISTA 
       
       - Eu escrevo como um jumento pretensioso - disse Samuel Zophar  filha, que gentilmente lhe trouxera uma xcara de ch. - J reparou nisso? 
       - No  verdade - respondeu a jovem, que j deveria estar casada, a esta altura, mas que o cronista reconhecia como incorrigvel perfeccionista quanto a homens 
e palavras. - Voc escreve como os melhores escritores, sentado frente a uma mquina de escrever. Apenas, o que voc escreve sai como se tivesse sido escrito por 
um jumento pretensioso. 

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       - No  fcil - disse Zophar. - Qualquer um pode escrever prosa inglesa boa, limpa e lcida. Nem todo mundo, porm, pode mergulhar na pretenso de uma forma 
que intimide polticos e leitores ao mesmo tempo. 
       - Por isso  que o chamo de "Pai" - concordou ela - e no de "Paizinho", "Papa", nem "Papaizinho". Nem pelo seu primeiro nome, como fazem tantas filhas agora. 
Uma das razes pela qual todos ns o amamos  que voc se esfora para ser um jumento pretensioso, que achamos que temos de ajud-lo nisso. 
       - Se uma filha minha me chamasse pelo primeiro nome - retrucou ele - eu a deserdaria no ato. Esse  o problema da famlia americana de hoje em dia: no h 
deserdaes suficientes. 
       - Tem-se de ser rico para deserdar algum; de outra forma no vale. 
       - Ah, mas sua herana tem mais valor do que dinheiro, minha querida:  o poder. O nome Zophar provoca um calafrio nos coraes dos poderosos. Apareo em trezentos 
jornais e cento e sessenta e oito estaes de televiso. E tudo se fundamenta na minha suposta pretenso. - Tirou os culos e a olhou carinhosamente. - Voc entende, 
claro, que algum que esteja fingindo ser um asno pretensioso, jamais poder s-lo, no fundo do corao. 
       - Nem tanto - sua filha o contradisse novamente, conforme ele lhe ensinara, mas comeava a se arrepender. - Voc costumava somente fingir que era pretensioso. 
Acontece que assumiu bem demais o papel de pretensioso, durante tempo demais, e agora a imagem se transformou no homem. 
       - Voc tem trinta anos de idade - assinalou Zophar. - Por que no acha um marido para atormentar com sua tola psiquiatria de amadora? 
       - Tenho fixao paterna pretensiosa - falou ela, beijando-o na cabea - e sou o que eles chamam de "sem graa".  hereditrio, contudo no culpo voc. 
       - Aparncia no conta mais. Ou conta? - Zophar fez uma anotao no seu bloco, e jogou-a na gaveta de "idias para a coluna". - Estaro as pessoas com medo 
de polticos com boa aparncia, preocupadas em serem envolvidas por um rosto bonito? Ou ainda estaro encantadas pelo boa-pinta Harding, que se encaixa na imagem 
que um diretor de elencos tem de um Presidente? 
       - Harding foi o nico editor de jornais que se tornou Presidente - disse sua filha, fechando a porta suavemente. 
       Zophar olhou fixo para a parede branca  sua frente. A parede nua era sua melhor "fonte". Ele recebia uma dica de vez em quando, uma confidncia ou uma anlise 
passada adiante numa festa, mas no 

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agia como um reprter. Correr por a em busca de notcias no condizia com seu auto-retrato do Colunista de Washington A contribuio que tinha de fazer era a de 
detetar ou dirigir tendncias, de fazer reluzir ou manchar reputaes; e introduzir um toque de sabedoria - sabedoria no era termo muito exagerado nos papos e na 
feitura de notcias agitadas no centro da poltica. A parede nua era sua companheira L embaixo, na sala de jantar onde deslumbrava os ataviados personagens transitrios 
no poder, ele revestira as paredes com quadros assinados e anotaes dos grandes ou famosos. Aqui,  sua mquina de escrever, nenhuma distrao: apenas uma pretensiosa 
parede vazia. 
       As aparncias contavam, concluiu Zophar. No a beleza, mas a aparncia confortadora e tranqilizadora Cara de ator de cinema podia ser negativo, porm, traos 
rudes eram quase divinos. Ericson tinha cara de Presidente: era mais velho do que parecia, alto e ligeiramente curvado, montes de rugas que lhe emprestavam personalidade, 
peludo, cabelo desalinhado, maxilar forte, olhos penetrantes. Costumava ter olhos penetrantes, Bannerman, por outro lado, era fisicamente semelhante  caricatura 
freqentemente feita dele: imponente, impassvel, grande demais para ser bom. "O simples tamanho no  pecado", dizia o Presidente Taft, com todos os seus cento 
e vinte quilos, porm ningum confiava num homem desse tamanho. Zophar tambm no confiava em Bannerman, mas por motivo menos superficial. o ex-Secretrio do Tesouro 
desconhecia sua prpria arrogncia. O financista convencera-se de que agia no interesse pblico o tempo todo; no ocorria a Bannerman que ele gostava - e at vivia 
da atrao do poder. Zophar, que freqentemente assumia de propsito um papel olmpico, no conseguia compreender como qualquer homem podia realmente acreditar que 
vivia no topo do Olimpo. 
       Ericson e Bannerman As relaes desses dois talvez dessem um bom livro, da forma como o prendado Stewart Alsop contratava Nixon e Rockefeller. O afastado-dos-eleitores 
Bannerman no era um Rockefeller, e o friamente irnico Ericson estava a grande distncia de Nixon, todavia, a presena de uma cobra e um mangusto no mesmo lado 
da avenida poltica era instrutivo. Zophar achava que Bannerman estava certo a respeito de Ericson: o Presidente estava errado em se apegar ao poder quando obviamente 
no podia corresponder  funo; entretanto, ficaria Zophar mais  vontade com Bannerman dirigindo a nao atravs do seu zero--esquerda, o Vice-Presidente Nichols? 
E se falava de Harding! No todo, calculou o cronista, um Nichols manipulado era melhor do que um Ericson inutilizado. 
       Sua filha bateu e meteu o rosto pela porta. 

Pg 311
       - Um homem ao telefone chamado Gregor - falou. - No deu outro nome. Deve pensar que  a Garbo. Parece muito misterioso, possivelmente um pirado. Devo dizer 
a ele para escrever? 
       Zophar tinha um nmero telefnico que no constava no catlogo, o que era arriscado para um jornalista - como a piada do nmero do Corpo de Bombeiros de Beverly 
Hills que no constava na lista - mas ele no era do tipo que recebia dicas no solicitadas. Nem tinha uma extenso do telefone no seu estdio porque poderia tent-lo 
quando estivesse escrevendo. Hoje ele no tencionava atender a chamados. 
       - Ele  russo - disse  filha. - Eu atendo, 
       Gregor era uma fonte razoavelmente boa, semi-oficial, til no apenas pelo que revelava, mas no fato de ser ele a revelar. Jamais telefonara para a casa de 
Zophar antes, nem o colunista lhe dera o nmero. L embaixo, em frente ao retrato de George Marshall feito por Karsh, Zophar pegou o fone, escutou um pedido de encontro, 
e concordou quanto  hora, porm mudou o local para o bar do Hotel Hay-Adams. Lugares pblicos eram melhores. 
       No fim da tarde, Zophar ps o chapu mole de feltro - ningum usara um desde a posse de Eisenhower - e entrou no seu Checker Marathon: ningum importante 
possua um desses espaosos txis, tampouco. O motorista levou-o da sua residncia, em Wesley Heights, para o estdio de televiso perto da Casa Branca, onde ele 
gravou um vdeo-tape de dois minutos acerca de provvel cisma no mundo semita. Ele sempre acreditou que "l no fundo, judeus e rabes ainda no confiavam uns nos 
outros", e continuava sem aceitar o estarrecedor fato de sua recente aliana, que viera contra sua opinio, frequentemente expressa. 
       Zophar chegou cedo para seu encontro no Hay-Adams, contudo um homem de rosto enrugado e uma barriga displicentemente derramada cumprimentou-o no vestbulo. 
       -  "o sacana do Leigh" - disse o colunista animadamente, e convidou o poltico para beber. Usques puros nas mos, discutiram o estado da Administrao Ericson, 
e Leigh - para surpresa de Zophar - no demonstrou animosidade. O colunista soubera, por Bannerman, que as foras anti-Ericson consideravam Leigh do seu lado. No 
entanto, Bannerman atualmente era um perdedor, e Zophar acreditava que perdedores no tinham aliados, somente ex-amigos. Em vo tentou sondar Leigh algumas vezes, 
admirou suas evasivas no comprometedoras, e finalmente divisou Gregor, seu contato sovitico, olhando para ele de uma cadeira do outro lado do salo escuro. - Arthur 
Leigh - e levantou o copo em despedida - eu o sado com a clssica fala de Shakespeare: "Deus: levante-se para os sacanas!"

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- Zophar gostava desse tipo de aparte. Deixou Leigh e se juntou ao homem que viera ver. 
       - Por favor, v direto ao assunto, Gregor - disse. - Sem suas habituais recordaes dos almoos que fizemos nas "agulhas espaciais", vendo Moscou de cima. 
       - Eu me esquecera desse almoo - observou o compacto agente Sovitico. - Voc apostou que nossa encantadora garonete era sueca, e eu disse que era russa, 
e voc pagou no momento em que ela falou Pajolsta. 
       - Por que estamos nos encontrando? 
       - Tenho uma informao importante - disse Gregor. - Talvez seja a maior histria que jamais consegui transmitir. Por algum motivo, minhas fontes desejam que 
o ouvinte seja voc. 
       Zophar nada disse. A lisonja e a fala promocional faziam parte do Contato, embora Gregor parecesse mais agitado do que usualmente se permitia demonstrar. 
       - A emboscada em Yalta - disse Gregor - foi tramada por Vasily Nikolayev e o Presidente Ericson. O alvo era Kolkov. Ele era o nico alvo. 
       Zophar conteve uma reao, depois deu um olhar de desprezo para o agente sovitico. 
       - E o Presidente Ericson concordou que o cegassem s para dar a impresso de uma emboscada comum. 
       - Reconheo ser uma idia difcil de assimilar imediatamente. No, Ericson no deveria ser machucado. A suposta histria dizia que ele foi salvo pela ao 
herica de Kolkov, que deveria morrer no momento em que salvasse Ericson dos atacantes. 
       - Prossiga - disse o cronista. Estava surpreso porque um agente russo qualquer recebera o "v-em-frente" para divulgar essa espcie de histria. Podia significar 
que Nilcolayev estava sob ataque em Moscou naquele mesmo instante. Isso era muito mais interessante do que a coisa sem-p-nem-cabea que Gregor propagava. 
       - Nikolayev e Ericson concordaram que a emboscada fosse efetuada - Continuou o russo - e que Kolkov fosse assassinado. Kolkov foi morto instantaneamente conforme 
planejado, assim que o helicptero foi forado a aterrar. Por que outra razo o aparelho no foi destrudo no ar? O chefe de segurana do Servio Secreto americano 
Harry Bok, atirou o corpo sem vida de Kolkov em cima de Ericson, na vala, conforme combinado. Depois, cumprindo ordens do seu Secretrio de Estado, ele veio com 
a histria de que Kolkov morrera tentando proteger Ericson, transformando Kolkov num heri. Ericson no deveria ser ferido, sua Concusso e a cegueira no podiam 
ser previstas. 

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       - Qual foi o propsito disso tudo? 
       - Kolkov estava pensando em um golpe pr-esvaziador nas potncias do Extremo-Oriente. Nikolayev, que todos pensvamos fosse homem leal a Kolkov, queria det-lo 
e tomar seu lugar. Entretanto, a fora de Nikolayev no Politburo vinha dos homens de Kolkov, portanto, Kolkov tinha de ser um heri morto para Nikolayev ser seu 
sucessor natural. Est me entendendo? 
       Zophar fez sinal com a cabea para que continuasse. 
       - O acordo foi montado entre Cartwright e Curtice, representando Ericson, e o americano em comando da operao era o Bok. 
       - Como  que os soviticos nada disseram, e Nikolayev  o Primeiro-Ministro Interino? 
       Gregor sacudiu a cabea vigorosamente e deu um gole na bebida. 
       - Nikolayev no est mais no poder. Est no processo de ser substitudo. A histria da coisa terrvel que os americanos fizeram deveria partir dos americanos, 
como parte da sua tradio de investigaes. Foi por isso que me ordenaram transmitir-lhe tudo. 
       Zophar estava cauteloso. Tinha muito a perder se o que Gregor dissera fosse parcialmente verdade, e ele o desprezasse. Tinha mais a perder ainda se acreditasse, 
e a histria fosse ou uma difamao ou uma encenao malograda de poder por uma minoria anti-Nikolayev no Kremlin. 
       - Preciso da corroborao de algum mais alto do que voc, Gregor. Talvez do embaixador. 
       O agente sovitico balanou a cabea. 
       - O embaixador  homem de Nikolayev que dentro em breve ser substitudo. Ele pode at ter entrado na trama com Cartwright e Curtice. Riria de voc. 
       - Provas - disse Zophar. - Sem dvida voc tem provas para me convencer disso. Antes que eu use qualquer partcula da informao, preciso ver as provas. - 
O propsito da sondagem do agente sovitico, calculou Zophar, era conseguir que um poderoso colunista fizesse perguntas no mais alto nvel do lado americano, o que 
talvez provocasse uma reao no pas, capaz de ser til a uma "panelinha" que tentasse destituir Nikolayev em Moscou. Isto , se ele j no tivesse sido exonerado, 
nunca se sabia. - Eu estaria doido - exclamou Zophar - se pusesse toda a Casa Branca em polvorosa baseando-me na sua frgil teoria, sem um simples trao de prova 
genuna. Que provas voc tem? 
       - No tenho nenhuma - disse Gregor. - Somente a verdade. E ela surgir; se no por seu intermdio, por intermdio de algum.  apenas questo de tempo. 

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       Zophar deu de ombros; ele no se precipitaria. 
       - Como voc sabe que  verdade, Gregor, e no simplesmente um conto de fadas anti-Nikolayev? Tenho certeza de que no o embromaria, nem que voc tentaria 
me embromar com base num telefonema interurbano, O que voc tem em seu poder? 
       O russo balanou a cabea: 
       - Estou de posse dessa dica por trs dias; depois eles usaro outra pessoa ou outra tcnica inteiramente diferente. Faa as suas verificaes, eu farei algumas 
por mim. e veremos o que lhe pode ser revelado do meu lado. Quanto tempo precisa para obter uma resposta do Ericson? 
       - No estou dizendo o que farei ou no farei - disse o colunista. - Onde, fisicamente, est Nilcolayev neste momento? Sob priso domiciliar? Em Moscou? 
       - No sei. 
       - D-me um detalhe que seja confirmvel; se a sua histria for verdadeira, a Casa Branca saber que a conheo. 
       O agente sovitico hesitou. Zophar imaginou que estava tentando parecer dramtico. Finalmente Gregor disse: 
       - Bok talvez tenha falado sem saber. Foi por isso que Ericson o chamou de volta aqui to repentinamente. 
       - Sem saber? 
       Gregor balanou a cabea; isso era o mximo que iria revelar. Pegou o resto da bebida, tomou-o, e falou: 
       - Vou deixar voc pagar as bebidas, mas no ponha meu nome nas suas despesas de representao. Vamos nos encontrar aqui, amanh, para o desjejum s nove horas. 
Se no me puder mostrar como investigou a histria, ficarei decepcionado e pouco comunicativo. 
       Zophar saiu rapidamente do Hay-Adams, acenou para o motorista do seu Checker Marathon, entrou no carro e ficou sem jeito ao reconhecer que no sabia que destino 
informaria ao motorista. 
       - Aguarde aqui - falou depressa, e entrou correndo de novo no hotel. De uma cabina telefnica, ligou para o Departamento de Defesa e mandou chamar Lucas Cartwright. 
O antigo chefe da Casa Civil, agora Secretrio da Defesa, estava no Alasca. O colunista pensou em ligar para o Departamento de Estado, porm achou que George Curtice 
iria apenas confundi-lo. O assunto teria de ser encaminhado ao Presidente para comentrios, e voltar diretamente a ele, sem se espalhar pela cidade toda, O diretor-substituto 
da CIA era um amigo de longa data, contudo Zophar sentia que a CIA fora cortada do caso. Se alguma parte da histria tivesse acontecido mesmo - continuava ele, com 
seus botes, verificando sua inclinao para aceitar a histria de Gregor como parcialmente genuna - 

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no mnimo a dica significava que uma faco do Kremlin acreditava seriamente num golpe contra as potncias do Extremo-Oriente, e poderia estar tentando aliciar alguns 
homens pr-Kolkov para seu lado. Isso tinha de ser levado  ateno do Presidente. 
       Zophar conhecera Hennessy em festas, e no confiava nele nem um pouco; ele estava fora de cogitaes. O Procurador-Geral? No, tinha de ser a Casa Branca, 
e algum que desse proteo  histria. Por que no o Secretrio de Imprensa? Normalmente seria contrrio ao cdigo do colunista apelar para o Secretrio de Imprensa, 
a quem recorria todo o resto da imprensa, porm, com Lucas Cartwright ausente, James Smith podia ser o homem. Zophar ligou para a Casa Branca. 
       O Secretrio de Imprensa no se achava l. Era bem de Smitty, ir na mesma viagem idiota ao Alasca exatamente quando se precisava dele, pensou Zophar, furioso 
- e deixar o setor de imprensa presidencial nas mos de algum jovem enfeite de Vassar. Que tipo de governo estava supostamente encarregado de dirigir os Estados 
Unidos? A maior parte dos cargos estava entregue a gente em quem ele no confiava, ou a gente que no conhecia, ou a gente que conhecia e em quem confiava, mas que 
se achava fora da cidade. Zophar no tinha alternativa: deixou recado que iria visitar imediatamente Marilee Pinckney. 
       Entrou no carro, rodeou o Parque Lafayette, saltou perto do porto da Avenida Pennsylvania, mostrou rapidamente o pouco usado passe de imprensa, e entrou 
no escritrio do Secretrio de Imprensa, ocupado por uma jovem alta, digna, de suter e saia formais, com quem o colunista trocou um aperto de mos. 
       - S vou tomar um momento do seu tempo - falou, querendo dizer que s dispensaria a ela um momento do tempo dele, pois desejava mostrar que no estava acostumado 
a lidar com subalternos, a menos que eles lhe trouxessem informaes teis. Reparou que a Senhorita Pinckney no fez espalhafato nem o adulou: simplesmente uniu 
as graciosas mos e esperou seu pronunciamento. - Entrei na posse de certas informaes - prosseguiu ele - que, se verdadeiras, poderiam representar uma fonte de 
problemas para o Presidente e a nao. Como jornalista responsvel, quero verificar os fatos antes de correr para imprimi-los. 
       -  claro, Senhor Zophar - disse respeitosamente a jovem. -- Estou  sua disposio. Qual  a histria? 
       - J que concerne to direta e pessoalmente ao Presidente, eu prefiro discuti-la com ele a ss. 
       Ela sacudiu a cabea: 
       - No vejo nem como eu poderia pedir uma entrevista exclusiva com o Presidente em seu nome, sem saber do que se trata. 

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       Ele se levantou. 
       - No assuma para si mesma a tarefa de dizer "no" sem verificar junto ao prprio Presidente, Senhorita Pinckney. Por favor, diga-lhe, primeiro, que  um 
assunto de grande preocupao pessoal para ele mesmo e sua presidncia. Depois, diga-lhe que espero, naturalmente, ter minha exclusividade assegurada. 
       Ela hesitou. 
       - No me pode dar nem uma indicao? De outro modo, vou parecer inexperiente ou indigna de confiana, e nenhum de ns deseja isso. 
       Ele reconheceu a necessidade dela. Era, evidentemente, uma mulher competente, no no nvel com o qual ele gostaria de lidar, mas poderia ser til para se 
chegar ao topo rpida e silenciosamente. Ocorreu-lhe tambm que essa mulher simptica e inteligente poderia ter um canal direto com o Presidente. 
       - Deixe-me escolher as palavras cuidadosamente - disse ele, e ficou satisfeito ao v-la pegar um lpis. -  uma questo que certo agente do Servio Secreto 
revelou sem perceber. - Ela esperou por mais. - Isso  tudo que direi - falou ele. 
       - Entendi - disse ela, destacando o recado do bloco. - voltarei ao senhor amanh. 
       - Esta noite seria melhor - pressionou ele. - No sou do tipo melodramtico, Senhorita Pinckney, mas este no  um assunto que tolere demoras de qualquer 
espcie. Se tem acesso ao Presidente, leve-o a ele diretamente; seno, leve-o a algum que o faa, e informe-o da urgncia que estou lhe tentando transmitir. 
       - Pode confiar em mim, Senhor Zophar - disse ela - e sei que o Presidente saber dar valor ao seu senso de responsabilidade ao vir nos procurar em primeiro 
lugar. 
       Bem posto. Zophar torceu para que ela tivesse um relacionamento ntimo com o Presidente, para bem de todos. 


O NOVO CHEFE DA CASA CIVIL 

       - No  nada de mais - assegurou Hennessy  moa. - Acho que sei aonde ele quer chegar. 
       - Samuel Zophar  o jornalista mais pretensioso que j conheci - disse Marilee, encarapitada na cadeira Queen Anne para visitantes, na sala antigamente ocupada 
por Lucas Cartwright, que se mudara para o Pentgono. - Ele  um prodgio. Intimidou-me at as entranhas.

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Pensei que era o fim do mundo. - Ela sorriu afetuosamente para Hennessy. - Voc  um verdadeiro consolo, sabia? Eu estava prestes a entrar em pnico e ir correndo 
para o Presidente. Por falar nisso, onde est o Homem? 
       - Na Sala de Estar Lincoln - replicou suavemente Hennessy - onde os Presidentes se escondem. O Jonathan No-Sei-De-Qu, o redator, est com ele; andaram trabalhando 
a semana toda com um discurso sobre relaes exteriores. Se quiser, revele isso na reunio de amanh. 
       Hennessy viu Marilee escorregar para o fundo da cadeira, mordiscando a ponta do lpis e estudando o sofisticado candelabro. A mulher mais genuinamente linda 
e mais conscientemente desinibida da Administrao Ericson, pensou Hennessy, e este pensamento neutro fundia-se com a constrio induzida pelo pnico, na cavidade 
do seu peito. Puxa!, pensou ele, comeou o primeiro desmoronamento, com as notcias saindo da boca de um tolo. 
       - Devo voltar a falar com Zophar hoje  noite - disse ela. - Por que lhe fui prometer isso? 
       - Porque deseja mostrar que trabalha  noite - disse-lhe Hennessy - que no fica por a transando com os caras, e est pronta a empurrar o Smitty para o esgoto. 
       - No  verdade. Quero que Smitty vena. Em algum lugar. 
       - Quando o Secretrio de Imprensa ligar da Vertente Norte - falou Hennessy casualmente - no entre no assunto com ele; Smitty quereria lidar com o caso pessoalmente, 
e isso  uma coisa que o Presidente gostaria de ter oportunidade de resolver. - A sensao de pnico que o dominara assim que ela transmitiu o recado estava diminuindo. 
- Diga ao Zophar, por volta das dez da noite, que voc falou comigo e eu disse que me reuniria com o homem d Servio Secreto de manh bem cedo. 
       - E voc vai mesmo? 
       - Sim; acho que foi Harry Bok quem falou enquanto dormia, ou outra coisa que aconteceu na Rssia, e ele pode ter revelado um daqueles cdigos ou senhas do 
Servio Secreto. No  nada demais; eles podem aprender a rosnar alguma coisa diferente, ou usar microfones diferentes. Que foi mesmo que Zophar disse? 
       Ela releu suas anotaes: 
       - " uma questo que certo agente do Servio Secreto revelou sem perceber". 
       Hennessy assentiu com a cabea, como se isso confirmasse a pouca importncia da coisa. 
       - Trate o Zophar seriamente; ele acha que tem uma grande informao. De qualquer forma, voc deseja manter sua boa vontade. 

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Eu lhe direi o que falar a ele de manh. - At onde Zophar conhecia a histria? Teria Buffie contado? - Tire o rabo da cadeira e diga  Melinda pra enfiar a cabea 
aqui dentro quando voc sair. 
       Marilee levantou-se em lnguida serenidade. 
       - Sem dvida voc passou do degrau de Assessor ntimo para o de Executivo, Senhor Patro. Agora existe um qu realmente excitante na sua voz. 
       Ele sorriu, sentindo-se mal. Quando a porta se fechou por detrs dela, pegou um fone e disse: 
       - Diga ao Bok que preciso falar com ele agora mesmo, e que faa aquelas rodas queimarem borracha. 
       Derramou uma colherada de espesso anticido branco, engoliu, fez uma careta, e ps as mos no estmago por um momento. Quem transmitiria a informao para 
Zophar? E em que quantidade? 
       Hennessy sugeriu a si mesmo que se organizasse, comeando com os fatos  mo. Seis ou sete pessoas estranhas ao Servio Secreto sabiam da possibilidade de 
Harry Bok ter falado aos soviticos sob hipnose ou soro da verdade naquela ltima noite antes de ser levado para fora da Unio Sovitica. Qualquer outro que soubesse 
da cegueira anterior do Presidente tambm seria capaz de somar dois mais dois, pela forma apressada com que Harry fora arrebatado de volta. Uma possibilidade: a 
de que os russos estivessem divulgando o que houvessem sabido de Harry Bok acerca da cegueira anterior de Ericson. Outra possibilidade: a de que Buffie, Herb Abelson 
- que ainda se encontrava abalado e cada vez mais preocupado - ou Leigh houvessem dado uma pista que tivesse chegado a Zophar. Talvez um deles tivesse informado 
Bannerman, que deu a dica a Zophar. Fique calmo, disse Hennessy para si mesmo; isso pode ser uma daquelas pescarias organizadas, e quando voc  o peixe parece que 
o oceano fica cheio de anzis, mas quando voc  o pescador parece que o oceano  muito grande e tem poucos peixes. 
       Melinda e Bok chegaram quase simultaneamente. 
       - Marilee me informou - disse Melinda - sobre algum assunto sem importncia, a respeito de um colunista a par de que Harry cantou alguma coisa para os russos. 
       - Merda! - exclamou Bok, afundando na cadeira de rodas. - Eles arrancaram alguma coisa de mim, sabe Deus o qu. 
       Hennessy fez uma anotao no seu bloco: descobrir, com Hank Fowler, se era possvel pr algum sob hipnose ou o soro da verdade e extrair dele o que j revelara 
a outra pessoa, forado pela mesma tcnica ou droga. Ajudaria saber quanto os russos sabiam. 

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       - Primeiro temos de descobrir o que foi revelado - disse Hennessy, mostrando-se convenientemente calmo. -  provavelmente algum detalhe que foi transmitido 
numa questo de horas, j que Zophar est preocupado em que algum jornalista "fure", e est agindo depressa. Harry e a Buffie? 
       O agente do Servio Secreto pegou o transmissor em seu colo, falou brevemente e sintonizou o receptor no ouvido. Logo aps reportou: 
       - Ontem  noite ela esteve com o redator, Jonathan Trumbull, e hoje pela manh esteve no laboratrio fotogrfico; esta tarde, at o momento, est ocupada 
em compromissos aqui na Casa Branca. No telefonou a Bannerman ultimamente, nem fez nada fora do comum. Ela me abordou h cerca de uma hora atrs: quer estar com 
o Chefe hoje  noite, mas eu tenho coisa melhor para ele, e disse que no. 
       Hennessy no agentou aparentar calma. Deixou-se caminhar pela sala. 
       - E Abelson? - Ele no gostava da maneira aptica pela qual agia o mdico do Presidente. Bok balanou a cabea: 
       - No - Herb est em Camp Hoover, ainda pescando. Mandei alguns caras comprarem truta viva e desviar o rio que desce das montanhas; Herb pegar mais ou menos 
um tero das que passarem. Dizem que ele  um bocado fechado; no tem telefone e nem recebe visitas. 
       - E Leigh? - Hennessy no estava preocupado com Leigh; h dois dias viera um telefonema do Tennessee a respeito de um homem recomendado para diretor do departamento 
de rodagem, e Hennessy pessoalmente dera ordem ao gabinete do governador para o nomearem. O "vale" estava pago, e Leigh era um poltico. Hennessy no esperava problemas 
da parte dele, visto que guardar segredo era essencial para Leigh. 
       Bok operou seu equipamento de comunicaes, franziu a sobrancelha, pediu verificao e repetiu: 
       - Leigh tem visto Bannerman aqui em Washington na casa de I3annerman nos ltimos dois dias. 
       - Hoje, esta tarde? 
       - Esta tarde - disse Bok. - Arthur Leigh teve o que o agente descreveu como o que "parecia um encontro casual" no vestbulo do Hay-Adams com o colunista Samuel 
Zophar. Beberam durante uns dez minutos, ento Leigh foi  casa do Vice-Presidente Nichols, onde se acha agora. 
       - O descarado - desabafou Hennessy - o filho da puta traidor! E eu pensei que tinha "cuidado" dele - Hennessy no 

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cogitara da possibilidade de que Leigh pudesse receber oferta melhor. 
       - A que horas ele bebeu com Zophar? 
       Bok confirmou: 
       - De cinco e vinte s cinco e meia. 
       - Imediatamente aps, Zophar fez contato com Marilee - observou Melinda. 
       Hennessy fechou os olhos. 
       - E ele esteve na sala dela s seis, e ela esteve aqui antes das seis e meia.  isso. Aquele filho da puta do Leigh; nunca pensei que o informante da cegueira 
anterior pudesse ser ele. 
       - No se precipite - avisou Bok - vamos conseguir um relatrio daquele jantar nos Bannermans hoje  noite. 
       - Esperarei por isso - replicou Hennessy, devolvendo um olhar agudo. - Preciso saber quem esteve l e tudo o que falaram. D muita fora a isso, Harry. Se 
tiver de se arriscar um pouco, valer a pena. Cuidado com Zophar, viu? No quero ser apanhado de olho nele; e provavelmente ele est com um p na frente e outro 
atrs agora mesmo. 
       Ficaram em silncio por um momento. 
       - Tinha de acontecer - disse Melinda. - Desde aquele macete de uma-grande-famlia-feliz do outro dia, eu sabia que tinha de acontecer. 
       Hennessy atirou-lhe um olhar duro; no queria que ela desmoronasse ou se emocionasse. Isso ia requerer rigidez mental e certa vontade de jogar, e todos eles 
precisavam ter os nervos em forma. Ele torceu para que Ericson estivesse  beira de uma grande deciso. Bok disse que ia jogar outra mulher que no Buffie na cama 
do Patro naquela noite, o que era bom. Ericson tinha sentimentos difceis de definir em relao a Buffie - descontando o bom gosto - mas o que se precisava esta 
noite era de uma coisa satisfatria e no complicada. E a enfermeira de Bok, de seios grandes, serviria perfeitamente. 
       O Presidente se achava na Sala de Estar Lincoln com Jonathan, o redator de discursos que, Hennessy bolara, andava trepando com Buffie tambm. O garoto provavelmente 
estava com medo de que o Presidente descobrisse. Por bondade, nem Bok nem Hennessy haviam ainda mencionado a ligao Buffie-Jonathan a Ericson. Talvez fosse boa 
idia escond-la do Presidente porque ele ia precisar muito daquele redator, e logo. No era de espantar que o garoto quisesse proteo de Cartwright, como recurso: 
ele estava jogando o Presidente para o alto. Qualquer outro desejaria que o Presidente soubesse de sua lealdade. Hennessy resolveu ainda no dividir essa concluso 
com Melinda e Bok. 

Pg 321
       - Ento, o que acontece agora? - perguntou Bok. - A gente nega a histria e espera que ela desaparea? 
       - Podamos esperar a volta do Smitty - disse Melinda - e ele negaria tudo. Ele no estava na comitiva de campanha; estaria dizendo a verdade 
       - No adiantaria - declarou Hennessy - e seria moralmente reprovvel. Chega de mentiras; chega de viver com um segredo horrvel. De agora em diante, diremos 
a verdade. 
       Hennessy divertiu-se com a maneira com que olharam para ele. 
       - No, isto no est sendo gravado - disse ele. Suas idias estavam apenas semiformadas, porm, ele as testava neles. - A sinopse nmero um  aquela em que 
a gente espera para ser atingido. Zophar, Leigh, Bannerman e Nichols: pegam todos os seus patos numa fileira e acabam conosco. Calculo que eles operem com perfeio: 
primeiro a coluna  passada pelo "fio", depois todo mundo cobre a histria na televiso. Engendramos algumas desculpas esfarrapadas e diz que sentimos muito no 
ter dito antes que o Presidente estava cego, e a merda se espalha pelo Congresso. "O Presidente mentiu pra ns. Ele no revelou tudo! Tem mentido o tempo todo, enquanto 
a gente se solidariza com ele". Tudo isso, e ento vem a sugesto do impedimento, e todo mundo berra para que ele renuncie 
       - Tem outra sinopse, Hennessy? - perguntou Melinda. 
       - Sim. Golpe pr-esvaziador. Vamos admitir que nossa suposio sobre Leigh e Zophar seja verdadeira e esta noite o Vice-Presidente e Leigh tramem a sucesso. 
Saberemos l pelas onze horas, certo, Harry? - Bok assentiu com a cabea. - Muito bem. A gente bola um discurso fantstico, confessando a cegueira anterior. Isso 
nos ocupa o dia todo amanh. Depois Fowler opera aquele doido alimentador-de-udio-para-discursos de que tem falado, e que planejamos usar no discurso de poltica 
externa, e rapidamente requisitamos o horrio principal, e vamos ao ar em quarenta e oito horas a contar de agora. 
       Melinda tinha dvida: 
       - E Zophar agentar calado esse tempo todo? 
       Hennessy afastou a objeo: 
       - A gente o enrola; promete-lhe uma exclusiva com o Presidente, esse tipo de coisa, e o deixa espernear depois. Vai ficar chateado, e, confessemos,  antitico, 
porm  mais importante o Presidente apresentar seu caso de cegueira anterior ao povo do que algum comentarista grito ganhar crdito com a indiscrio de Leigh. 
       Melinda concordou com a cabea: 
       - Marilee pode faz-lo. O Smitty longe daqui  uma boa. 

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       - Gosto disso - disse Bok. -  muito melhor do que ficar sentado enquanto tudo entra pelo cano. E, quem sabe, o discurso pode causar uma exploso. Nunca se 
sabe a reao do pblico. 
       Hennessy gostou mais agora, que se tinha ouvido em voz alta. Havia alguma coisa especial em detalhar um plano em voz alta, que lhe dava forma e veracidade. 
Ele examinou a agenda das atividades presidenciais para o dia seguinte, e sacudiu a cabea sombriamente: 
       - Amanh vai ser uma merda. Esta noite, por volta das onze, direi ao redator para ficar de prontido, e darei instrues ao Chefe. Se Ericson concordar, a 
gente pe a sinopse nmero dois para funcionar. Eu instruo o garoto Jonathan, e ele pode trabalhar a noite toda num esboo. Enquanto isso voc, Harry, providencie 
para que o Chefe seja atendido e durma  uma. Ele, eu e o redator poderemos comear a trabalhar no discurso s oito da manh, e lhe lar redao final amanh  noite. 
Depois botamos Hank Fowler na jogada para passar tudo para a cabea de Ericson. 
       - O Chefe vai topar - disse Melinda. - No tem outra escolha. E talvez seja melhor revelar logo a cegueira anterior, para podermos combat-la de uma vez por 
todas. 
       - Apenas certifique-se de que sua coleguinha Marilee trabalhe a nosso favor - disse Hennessy  Melinda - e no me interessa o que ter de fazer para retardar 
Zophar. 
       - Voc nunca se interessa. 
       Hennessy informou que falaria com eles mais tarde, pegou um Sumrio de Notcias e desceu ao refeitrio para comer. 
       - O de sempre - murmurou para um garom. O "de sempre" de Hennessy consistia em um melo, um bife  minuta e uma garrafa de Chteau Lafite Rothschild safra 
1966, sobra de um jantar de Estado. O almoo custava cinco dlares: um fringe benefit. 
       Sozinho, o ex-advogado divorcista repassou o Sumrio de Notcias, temendo estar um dia atrasado. Forou-se a ler as notcias do estrangeiro: Nikolayev faltara 
a uma grande recepo e havia boatos de que estava doente. Marcou isso com lpis vermelho para ver se a CIA tinha alguma novidade a respeito. Os sino-japoneses denunciaram 
que as potncias semitas interferiam nos negcios internos da ndia, que se tornara um caso econmico insignificante, mas possua um arsenal nuclear de tamanho considervel 
e provocava falatrio de guerra em relao ao rico Coveite, localizado a pouqussima distncia. Isso no era novidade. Hennessy parou; lembrou-se de que queria perguntar 
ao Presidente qual seria o tpico abordado no discurso de relaes exteriores. Escreveu isso no seu caderninho "perguntar ao Chefe". Fosse como fosse, esse discurso 
teria de esperar. 

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       Aps o jantar, de volta ao seu escritrio de canto, com a vista da Elipse na escurido que baixava, o novo Chefe da Casa Civil tentou achar falhas na sua 
prpria anlise. 
       Poderia a revelao de informao ter vindo de outro local - inadvertidamente, de algum da famlia, dele mesmo? Sempre era possvel, e por isso ele se estava 
arriscando e mandara Harry Bok verificar junto  garota de um agente que era a garonete de Bannerman. 
       Poderia Zophar ter elaborado a histria por si s? No era do seu estilo - colunistas recebiam matria, no saam pesquisando. 
       Desconheceria ainda Zophar a cegueira anterior, e estaria atrs de outra coisa? Talvez de uma histria inteiramente diferente? Muito improvvel, pensou Hennessy, 
especialmente visto que o palpite de Zophar se baseava no que Harry dissera aos russos, e a vantagem sovitica era saber da fraqueza secreta do Presidente: sua cegueira 
no-revelada. Hennessy no conseguia pensar em mais nada que Harry lhes pudesse ter contado. 
       A dvida pessoal dissipou-se com uma ligao de Bok: 
       - Bannerman e Leigh falaram a respeito de uma Administrao de Nichols e acerca de Arthur Leigh como o distribuidor de cargos pblicos importantes. Sempre 
tiveram o cuidado de assinalar que seria aps a Administrao de Ericson, daqui a trs, ou quatro anos. 
       - Um no confia no outro, e ambos tm razo - disse Hennessy, convencido de que Zophar no podia ter outra histria alm daquela sobre a cegueira anterior. 
- Provavelmente Bannerman instalou microfones no local. H mais algum l? 
       Harry disse que no, somente os Leighs e os Bannerman, e acrescentou que o palpite de Hennessy parecia exato; Leigh estava do lado deles. O nome de Zophar 
fora levantado durante a conversa, segundo a garonete conseguira captar. 
       O novo Chefe da Casa Civil ligou para o Presidente, que ainda estava na Sala de Estar Lincoln, com o redator de discursos: 
       - Preciso falar com voc agora durante uma meia hora, e gostaria que o redator ficasse por perto, mas no conosco. Vou precisar falar com ele aps falar com 
voc. 
       Que  que h? 
       - Um problema - esquivou-se Hennessy - mas tenho uma forma de lidar com ele. Vou j para a. 
       Foi correndo para o saguo, atravessou a colunata ao longo do Jardim de Rosas, entrou no pavimento trreo da residncia para pegar o elevador. O guarda esperava-o, 
e levou-o ao segundo andar, onde Jonathan sei-l-de-qu estava sentado numa cadeira de balano no saguo central, e exibia a expresso radiante de um jovem que 

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acaba de alcanar o topo de uma montanha. Hennessy mandou o redator ficar por ali, sem sair, enquanto ele falasse com o Presidente na Sala de Estar Lincoln. 
       - Ei, ei - disse Hennessy a Ericson - estou aqui. - O Presidente usava camisa aberta, calas esporte, e estava sem culos. Os olhos se fixavam adiante, no 
vcuo, o corpo longo esticado no sof. - Que tem feito, Sven? 
       - Sido Presidente - disse Ericson. - Emprego interessante. Relaes exteriores nunca foram meu forte, exceto o lado econmico, mas acho que me estou familiarizando 
com a coisa. 
       O ex-professor gostara de falar novamente com um jovem e inteligente estudante, calculou Hennessy, e se pode aprender um bocado ensinando. Jonathan seria 
o redator indicado para esta noite. 
       - Deixe-me contar direto a coisa - disse Hennessy - e se voc gosta mesmo do emprego, talvez queira lutar. Primeiro, precisamos de um drinque. 
       Serviu dois, e ps o do Presidente em sua mo. 
       - Divulgaram informao? - falou Ericson em forma de pergunta, mas que era a declarao de um fato por que j esperava. 
       - Arthur Leigh, o sacana, foi visto com Sam Zophar esta tarde. Meia hora depois, Zophar estava na sala de imprensa pedindo  Marilee uma entrevista com voc 
para contar um grande histria. 
       - H... Pensei que voc tinha dito que ia cuidar do Leigh. 
       - Eu pensei que tinha cuidado - disse-lhe Hennessy. - No vou entrar em mincias, porm, cuidei de um assunto para ele... nada de extraordinrio. Contudo, 
evidentemente no foi o bastante, ou ele recebeu melhor oferta. De qualquer modo, ele se vendeu. 
       - No se pode ter certeza - advertiu Ericson, inclinando-se para a frente, esfregando as tmporas. - Que foi que Zophar disse? 
       - Disse que tinha a ver com alguma coisa que Harry Bok revelou sem saber. Um punhado de gente sabe como a gente trouxe Harry depressa de volta, Senhor Presidente. 
No seria preciso uma tremenda imaginao para que Arthur Leigh calculasse que Harry contou aos russos a respeito do seu acidente na comitiva de campanha. 
       - Talvez sim, talvez no. Marilee vai estar amarrando Zophar? 
       - Nenhum problema esta noite. Do jeito que vejo a coisa, temos duas opes. Uma: sentar firme e deixar explodir, ou duas: tomar pblico ns mesmos. Voc devia 
saber que este momento chegaria; ns todos sabamos, e eu vinha fazendo planos. 
       Hennessy explicou com detalhes as alternativas, enquanto Ericson resistia a cada milmetro do caminho que seu novo chefe da Casa Civil desejava que ele percorresse. 

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       - No sei se eu poderia fazer o melhor discurso possvel to repentinamente, Hennessy. E no tenho certeza de que posso conseguir que qualquer sistema de 
feitura de discursos funcione to cedo. Daqui a algumas semanas, talvez; no em quarenta e oito horas. Eu podia estragar tudo. 
       - Isso podia mesmo - lhe disse seu advogado. Hennessy no tencionava pressionar realmente, sabia que pressionar no combinava com Ericson, entretanto, chegava 
uma hora em que era preciso ser decisivo. - Se voc fizer um discurso contando como foi a cegueira provocada, e como est convalescendo agora, e cada vez mais capaz 
de cumprir sua funo, estar na frente da linha de notcias. Seno, ficaremos reagindo e nos desculpando e vo acabar com a gente. 
       - O que dizem os outros? - Ericson, ao contrrio do seu habitual, parecia precisar de um consenso. 
       - So apenas Melinda e Harry. Eles acham que faz sentido. Melinda acha que voc ficar aliviado quando a coisa fizer parte do passado; vai limpar o ar. 
       - Ela est enganada - disse o Presidente. - Estou mais feliz com tudo do jeito que est. Esta  a hora errada de balanar o barco. Preciso de tempo. 
       Hennessy calou-se por instantes para deixar Ericson raciocinar. Aps alguns momentos, o Presidente disse: 
       - Mande a Marilee espremer o Zophar para ver o que ele sabe. No quero tomar providncias sem ter certeza. Talvez ele no tenha histria alguma, afinal Pode 
ser uma outra coisa... mas, no, no se veio de Arthur Leigh. 
       Hennessy dominou seu gnio; essa era uma droga de maneira para um presidente dos Estados Unidos agir: ficar pisando em ovos quando deveria ficar  frente 
dos acontecimentos. Bem, Ericson era novo; Hennessy, tambm, no seu cargo de Chefe da Casa Civil, e admita que um pouco de precauo podia ser uma boa idia. 
       - Por que no fazemos assim? - sugeriu ele - eu ponho a Marilee para dar recados ao Zophar - graas a Deus Smitty no est aqui - e darei um jeito de v-lo 
pessoalmente amanh de tarde. Enquanto isso, vamos ficar de sobreaviso caso decidamos entrar no esquema do discurso. Vamos instruir o redator Jonathan, esta noite, 
e mandar que faa um esboo do discurso para amanh de manha. A gente bota o Hank Fowler por dentro ento, se voc gostar do discurso, e comea a enfiar o texto 
na sua cabea. Podemos revelar a qualquer hora. Se Zophar tiver somente um pequeno trecho da histria, ou tiver tudo errado, ento podemos ficar quietinhos sem fazer 
nada.  S perderamos um dia de trabalho, 

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       Ericson sacudiu a cabea num "no". 
       - Isso abriria a porta para mais duas pessoas, nenhuma delas particularmente leais a mim. Voc sabe como  quando se entra nos preparativos de um discurso: 
voc se envolve tanto, que quer fazer revelaes; tem aquele momento, tambm, que pode arrastar a gente pela bosta do despenhadeiro. 
       - Voc quer pensar mais no assunto? - Hennessy concluiu que havia perdido. 
       - Sim. Volte de manh cedo. 
       Hennessy apoiou-se no umbral da porta. Podia ver o redator na sua cadeira, no Salo de Estar Oval amarelo, a vinte metros dali, fazendo anotaes em relao 
a algum discurso de relaes exteriores que jamais seria feito. 
       - Sven, quer um conselho do seu ex-assessor ntimo, agora chefe da Casa Civil? 
       O Presidente no respondeu imediatamente. 
       - Eu sei qual  o conselho e no gosto dele - Ericson hesitou. - Muito bem, Hennessy o que voc acha? 
       - O garoto a  leal a voc. Acho que  a fonte de Lucas Cartwright; a que lhe contou acerca de Buffie e Bannerman. 
       - Como o garoto sabe? 
       - Ele  seu cunhado. 
       O Presidente ficou atordoado, e ento Hennessy deu o golpe final: 
       - Ele est comendo a Buffie. - Isso pairou no ar enquanto o sangue sumia do rosto de Ericson. - O garoto no queria que voc soubesse - Hennessy continuou. 
- Por isso Lucas estava to misterioso. Jonathan  leal; foi ele quem delatou Buffie e Bannerman. Podemos contar com Jonathan para ficar de boca fechada pelo menos 
durante uns dois meses. 
       - Depois, ento, ele poder escrever suas memrias - Ericson balanou a cabea. - No me importa o que ele diz. Isso no  verdade, eu me importo; por isso 
 que conversei com ele durante horas hoje  noite, enquanto seu lpis corria para que ele registrasse na Histria uma faceta minha que um monto de gente desconhece. 
Tem certeza quanto a ele e Buffie? 
       - No - Hennessy demonstrou seu sarcasmo. - Vou perguntar a ele. 
       - Fique - disse Ericson, esticando uma das mos na direo de Hennessy. - No quero que o menino saiba que eu sei. Hennessy me amarrei naquela garota, especialmente 
agora, e estou chateado comigo mesmo por causa disso. Puxa! A gente paga por tudo. 

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       - Voc estimulou uma ligao com uma mulher com a metade da sua idade, Sven - disse Hennessy calmamente; no mais o chefe da Casa Civil ou mesmo o assessor 
ntimo oficial, porm, o velho amigo e ex-advogado divorcista. - Acontece com um monte de caras. E voc tem razo, a gente passa um mau pedao depois de algum tempo; 
paga com sangue; mas chega a hora em que voc acaba de pagar. Aparece alguma coisa nova. O tempo cura todos os feridos. 
       - Conselhos... s me faltava essa. 
       - Olhe - disse Hennessy, rpida porm to gentilmente como podia - a melhor notcia que ouvi acerca do seu estado de esprito foi quando Harry Bok me disse 
que voc queria uma garota diferente para esta noite. Isso significa que deseja abalar sua dependncia do apoio emocional e sexual de Buffie porque isso se fortaleceu 
muito. Bom para voc. No pode permitir-se a necessidade dela:  uma fraqueza. 
       - Quantos psiquiatras temos por aqui? 
       Hennessy socou o umbral. 
       - No sei quem o Harry convidou para esta noite, velho chapa, mas se  aquela enfermeira dele, a alta com as pernas fantsticas e as tetas grandes, ento 
voc est melhor do que eu, Gunda Din. - Se Ericson precisava de um pequeno estmulo no ego para seu machismo, calculou Hennessy, isso era fcil de providenciar. 
       - Dizem que a cara dela no  grande coisa. 
       O moral de Hennessy baixou: aqui estava o Presidente dos Estados Unidos, homem recentemente cegado por um ataque, com seu segredo vazando, e o vazamento necessitando 
desesperadamente de ser tampado, e ele preocupado com a atrao de um rosto que jamais veria, a fim de elevar seu ego ferido. 
       - Lembra-me a Ingrid Bergman - mentiu Hennessy. - No usa maquilagem; por isso alguns palhaos no conseguem perceber sua boa aparncia. Mas voc jamais gostou 
de pintura pesada. 
       Ericson levantou-se e mudou de assunto: 
       - Traga o redator Jonathan aqui - disse firmemente. - Vamos instru-lo juntos quanto  cegueira anterior. Deixe de lado aparte do acidente na comitiva que 
aconteceu comigo e Buffie; isso no deve mesmo vir a pblico. Talvez a gente consiga construir uma histria, Hennessy, pelo menos veremos como sai escrito, de manh. 
       - Vou alertar o Fowler, tambm - disse Hennessy, contente porque o Presidente resolvera se encarregar da questo. 
       - No; vamos apenas dar um passo de cada vez e somente se necessrio. Talvez - acrescentou Ericson - tambm possamos inserir 

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algo sobre relaes exteriores no discurso, falar do futuro e essa coisa toda. Nada se desperdiar. 
       - O senhor est penetrando na situao, Senhor Presidente - disse Hennessy orgulhosamente. - Mostrando aprovao, e tudo mais. 
       - Eu s tinha uma tremenda vontade - disse Ericson uma ltima vez - que pudssemos ter certeza de no estarmos super-reagindo ao que pensamos que Zophar sabe. 
       - Isso j est sobrepujado - disse-lhe Hennessy. No era presidencial ter pensamentos adicionais aps uma deciso, O novo chefe da Casa Civil acenou para 
que Jonathan entrasse na sala, e os trs foram trabalhar no discurso. 


O REDATOR DE DISCURSOS/2 
       
       Woodrow Wilson,  com ele que Ericson parece, pensou Jonathan; s que mais humano e menos austero. O mesmo idealismo, a mesma caracterstica de grandeza, 
mas sem a arrogncia. O sonho despedaado. Durante quase trs horas ele estivera a ss com o Presidente enquanto Sven Ericson expunha seus sonhos para o povo do 
pas e sua viso de liberdade no mundo inteiro. Ele era imperturbavelmente piegas em certas coisas, tambm; no o frio e desprendido participante-como-observador 
que era considerado. Ericson se abrira bastante com Jonathan Trumbull, que tinha muita sorte em estar no local com um lpis na mo e a capacidade de transmitir  
Histria. Houve momentos em que Jonathan se emocionara demais para escrever - esses ele podia reconstituir. 
       Grande viso era o que Ericson tinha, concluiu o redator, o olho para o detalhe do momento; a capacidade de sentir fraqueza num lder estrangeiro e a fora 
oculta em outro; a compreenso dos pontos fracos humanos, que transformavam grandes homens em verdadeiros homens. Ao mesmo tempo, Ericson exibia o amplo raio de 
ao de sua estratgia: como trazer  tona as correntes ocultas que motivavam as potncias do Extremo-Oriente, como jogar isso contra as foras que agitavam as potncias 
semitas e certa fatalidade que parecia mostrar que a um Presidente s se dava uma pequena arena, principalmente econmica, na qual manipulava homens ou comandava 
acontecimentos. "Irmo Jonathan", como o chamavam, anotara tudo: Ericson estivera vulnervel e em excelente forma. Nos prximos anos ele incorporaria parte dessa 
viso do Presidente a esboos de discursos, o que seria uma forma de - para um rapaz relativamente sem experincia - causar impacto no mundo e dar sua contribuio

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 ao e  emoo do seu tempo, mesmo que s um pouco, e de segunda mo. 
       Que noite! - maravilhou-se Jonathan, no assento traseiro do carro da Casa Branca que o levava de volta a Columbia Plaza. Era a primeira vez que tinha um carro 
 disposio, mas o Presidente e Hennessy evidentemente no gostariam que ele rodasse por Washington sozinho nessa noite. E que noite! Primeiro, as horas com o Presidente, 
a intimidade de discutir os seus sonhos; depois a bomba sobre a cegueira anterior, quando Hennessy chegou. Balanou a cabea num espanto admirado pelo que o Presidente 
deveria estar passando nas ltimas semanas. Finalmente agora dependia do Irmo Jonathan, de sua mquina de escrever e de sua habilidade com as palavras, apresentar 
a histria de forma que minimizasse o terror do julgamento e acentuasse o desejo presidencial de gozar da confiana do povo, j que o Presidente se recusava a perpetrar 
uma mentira. 
       - Nada de pieguices - instrura o Presidente Ericson. Deveria apenas dizer o que ocorreu em seqncia durante a campanha: como ele perdera a viso temporariamente 
aps um choque, como nada fora dito durante um dia inteiro, enquanto seus assistentes se perguntavam se ele recuperaria a viso, como se julgou erroneamente, depois, 
que seu estado fosse puramente temporrio e no se repetiria. Esse engano deveria ser admitido francamente, em retrospecto. Que as pessoas, com a percepo tardia 
dos fatos atingissem plena satisfao. Deveria lembrar-se de que - disse o redator a si mesmo - essa percepo tardia dos fatos poderia obter solidariedade em relao 
ao Presidente. 
       Jonathan dera forma mentalmente ao discurso quando o carro parou  sua porta e o motorista falou: 
       - Vou ficar aqui at ser substitudo, por isso no precisa ligar pedindo carro. O senhor  um figuro esta noite, senhor Trumbull; aproveite. 
       Ele ps a chave na fechadura do apartamento e reparou que no estava com duas voltas. As luzes se achavam acesas. Buffie dormia numa cadeira  frente da televiso. 
O corao de Jonathan apertou; jamais deveria ter-lhe dado a chave. De todas as noites em que precisava ficar sozinho, esta era a prpria. 
       E o segredo; ela no deveria saber sobre que ele ia escrever. No, ele dolorosamente compreendia que esta no era noite para Buffie. Tocou-lhe o ombro, e 
depois se lembrou do carro l fora. O motorista a veria. Deveria mand-la para casa no carro da Casa Branca? Deus, no! Isso sem dvida chegaria ao conhecimento 
do Presidente. No podia deix-la aqui; tinha de preparar um discurso em sete horas, mas no podia mand-la para casa. Jonathan no 

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sabia exatamente o que fazer, por isso sacudiu-lhe o ombro at que acordasse. 
       - Eu me sentia s, por isso vim para c. - Ela se espreguiou. - Depois peguei no soninho. Zangado? No est com outra garota ali no vestbulo, est? Se est, 
mande ela entrar, eu no...
       - No, no, estou contente em v-la. - Ela ficava adorvel ao acordar. -  que tenho um discurso para acabar e vou precisar escrever a noite inteira. 
       - Grande drama - sussurrou ela. - Eu fico trazendo caf, e massageando suas costas. Ns dois vamos salvar o mundo. - Especulativamente, ela lhe tocou a perna. 
       - No, olha,  srio, Buffie. Tenho de comear o trabalho. Se me atrasar com isso, estou perdido. 
       - Qual  o assunto? 
       - Relaes exteriores - respondeu, em meia verdade. - Escute: temos trabalhado nisso a semana toda, e agora eles esto precisando imediatamente. Hennessy 
no  como Cartwright, com ele  imediatamente mesmo. - Trabalhar no discurso do Presidente, saber do segredo do Presidente, estar com a garota do Presidente, e 
ter um prazo at a madrugada: tudo era demais. Jonathan precisava de um pouco de tempo para ordenar as coisas. - V para o quarto, caia na cama - sugeriu - e v 
dormir. Assim, no ficar s, eu estarei aqui mesmo. 
       Se ela sasse para dar uma olhadinha no discurso, ele tinha esboos do material sobre relaes exteriores em que estivera trabalhando. Deixaria tudo espalhado, 
ela no estava interessada nisso. O segredo da cegueira, que seria to til a Bannerman Buffie no poderia ver. 
       - T bem - bocejou ela. Deliberadamente, no provocantemente, despiu-se diante dele, colocou a roupa debaixo do brao e o beijou. - Todo mundo anda to ocupado, 
que uma garota no consegue mais nem que trepem com ela - disse virando-se.  porta do quarto de dormir, acrescentou: - ltima Oportunidade, 
       - Suma. 
       - Ih, voc  to mando! Voc Tarzan, mim Jane. Voc Sanso, mim Dalila. Voc Casanova, mim... como era mesmo o nome? 
       Jonathan lanou-lhe um olhar sbito e vazio: 
       - Boa idia. 
       - Que idia? Voc vai usar o Tarzan no discurso? "E agora" - assumiu um tom srio, de discurso - "como demonstrao especial de respeito aos nossos aliados 
africanos, resolvi adotar um chimpanz-guia. E aqui est ele agora". - Ela pegou na mo de um chimpanz 

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imaginrio e deu a volta pela sala, gritando "Espere por mim, Chita!" Aps um instante, parou. - Sua idia no era essa? 
       - Sanso - repetiu Jonathan - Bblia. Tipo da referncia de que eu precisava. 
       - Voc vai mesmo pr esse negcio de Bblia? 
       - Sanso perdeu a viso, mas isso no o deteve. bvio. E voc tem razo, Buffie: a histria da Bblia est no local errado. - Foi at o quarto, pegou o telefone 
e ligou para sua pesquisadora. - Sally? Tenho um desafio. Est de p? Ora, levante-se, chapinha, a noite  uma criana. Olhe, preciso que voc encontre um poema 
de John Milton, um poema longo chamado Samson Agonistes.  um pouco tarde para ir  Biblioteca do Congresso, mas no lhe vou dizer o que fazer. Consiga o poema, 
leia-o, ache alguma passagem que se aplique ao Presidente Ericson e me chame de volta daqui a algumas horas. Se precisar de um carro da Casa Branca, use meu nome; 
esta noite funcionar. Muito bem, mexa-se. 
       - Voc  um terror - disse Buffie. - Eu detestaria trabalhar para voc. - Ela continuava com a pilha de roupas no brao. - Quer me dar algumas ordens? Estalar 
o velho chicote? Eu no diria no. O Novo Voc t fazendo eu me ligar. 
       Jonathan tinha coisas mais importantes a fazer. 
       - Voc deu sua contribuio - interrompeu ele, divertindo-se. - Agora saia de cima de mim. 
       Ela inclinou a cabea respeitosamente e fechou a porta do quarto. 
       Problema adiado. Ele agora precisava fazer o discurso mais importante de sua vida. Daria conta disso, tambm. Jonathan sentia-se inesperadamente confiante, 
em parte porque sempre soube que poderia faz-lo, e principalmente porque tinha o incio na cabea: "H um assunto em minha conscincia que sinto devo compartilhar 
com meus compatriotas americanos" - esta seria a abertura. Comearia com o forte voto de confiana do Gabinete. Depois faria um rpido retorno  campanha, para explicar 
que, na ocasio, a perda temporria da viso parecera insignificante. Depois viria a segunda cegueira, e a pergunta: Que dizer agora? A certeza inicial do Presidente, 
de que iria enxergar de novo em breve, igual  primeira vez. Depois o engano, que seria reconhecido; e isso desarmaria todos, quanto ao encobrimento, O dilema, sua 
luta com a conscincia, sua deciso de contar tudo. Seria veemente quanto  nova capacidade de Ericson para enfrentar as coisas, falaria um pouco dos problemas com 
Moscou e das potncias do Extremo-Oriente, depois falaria sobre a viso presidencial de paz. Pode um homem cego ter uma viso? Boa imagem. Jonathan, que gostava 
de fazer primeiro as partes fceis do esboo de um discurso, escreveu a abertura e o fecho, e 

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delineava algumas linhas soltas para inserir depois, quando ouviu o telefone tocar. 
       O telefone ficava no quarto de dormir. Sua pesquisadora no poderia ser to rpida. Quem ligaria a esta hora, meia-noite e meia? Abriu a porta, lembrando-se 
subitamente da mulher, e ficou atnito ao ver Buffie, nua e sentada na cama, segurando o fone e dizendo: 
       - Sim, ele est. Quem quer falar? - Buffie sorriu e lhe entregou o receptor. -  o Presidente - disse. 
       Jonathan fechou os olhos, apavorado. Buffie riu por entre os dentes. 
       -  a telefonista da Casa Branca, amor, no Ericson. Eu no faria isso com voc. 
       - Al? 
       - O Presidente quer falar, Senhor Trumbull Quer aguardar? - Buffie deu-lhe espao na cama. Ele sentou-se na beira, olhando para longe. 
       - J terminou tudo? - A voz do Presidente estava tranqila e animadora, sem sinal de esgotamento nem alegria forada. 
       - Estou com a primeira pgina na mquina - disse Jonathan. 
       - Estou brincando, Jonathan. V com calma, tem a noite toda. E h uma possibilidade, tambm, de que eu no o use por uns dois dias. 
       - No h mais urgncia? 
       - Bem, voc sabe como  o Hennessy; tudo tem de ser para ontem. - Jonathan acabara de fazer a mesma observao. Obviamente o Presidente e seu redator estavam 
sintonizados Ele hesitou em receber a confidncia de Ericson num assunto to ntimo como uma crtica ao chefe da Casa Civil. - Veremos. Oua: acabo de falar com 
Herb Abelson, que est todo preocupado; por isso quer botar no seu rascunho que eu mantive tudo em silncio, mesmo contra a opinio dele? Ele gostar disso, e pra 
mim no custa nada. No contei ao Herb acerca do discurso,  claro. Ningum alm de voc, eu e Hennessy sabem dele, e temos de manter a coisa assim. 
       - O discurso sobre relaes exteriores - disse Jonathan, pensando em Buffie atrs dele. 
       O Presidente parou. 
       - Esse mesmo - disse finalmente - Bem, eu estava me sentindo bem, e quis que soubesse que tenho toda confiana em voc, e que s vou precisar do rascunho 
s nove horas. V em frente. - E desligou. 
       Jonathan virou-se 
       - Bem, era o Presidente, e ele no lhe mandou recomendaes, graas a Deus. 

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       - Ele estava acordado, no ? E sentia-se bem? 
       Ele concordou com a cabea. Ela pensou no caso durante certo tempo, com o sono lhe fugindo, e observou de bom humor: 
       - Ele fica assim depois de comer uma mulher. Gosta de ligar para algum e falar de negcios. No sei quem diabos ele acha que impressiona. 
       - Est com cime, Buffie? No  do seu feitio. - Ocorreu a Jonathan que Buffie devia estar imaginando outra mulher no seu lugar, ao lado do Presidente, naquela 
noite, fazendo com ele o que ela fazia quando estava l. Buffie, porm, se enganara presumindo que o Presidente s fazia isso para se mostrar ou fazer graa; o chamado 
tivera um objetivo: acrescentar o texto sobre o Dr. Abelson. 
       - s vezes detesto esse sacana - respondeu ela, bem desperta - porque ele  muito importante para mim. Estou amarrada nele. - E ps o dedo por dentro da bochecha 
e puxou, para ilustrar. 
       - Voc o ama? 
       - Claro que o amo, e ele  doido por mim. 
       - Ento por que o est espionando para o Bannerman, que s deseja arruin-lo? - Jonathan tinha muito o que fazer, mas valia a pena descobrir isso. 
       - No h futuro para mim e Ericson. Comeamos a nos separar no instante em que nos juntamos - Buffie saiu da cama e foi at a janela, com os seios firmes 
demais para balanar, de mos unidas como se para aquec-las, na frente do ar condicionado. - Para ele sou um pedao de carne que ficou inconveniente, e agora ele 
est emocionalmente envolvido e sente pena de si mesmo por necessitar de uma mulher em especial, e especificamente por necessitar de uma  margem de sua classe. 
       - Deixe disso, ele no  esnobe... 
       - S ! Ele no tem nada que lhe interesse para conversar comigo. Quando se dirige a mim s est tentando descobrir o que as pessoas jovens pensam, ou as 
mulheres pensam, ou como falamos. Eu sei disso. Ele usa os outros; quero dizer usa totalmente, nada  desperdiado. Ele fabrica lembranas, sabia? Sempre que estou 
com ele sei que est pensando em como vai se lembrar da coisa quando eu j tiver ido embora h bastante tempo e ele estiver lidando com gente do seu prprio mundo. 
Com seu prprio grupo enrugado e decrpito. 
       - A cegueira no muda nada? 
       - Sim, pe a carga toda em cima de mim, o que ele sempre desejou. Ento eu sou a puta porque me afastei, agora que ele precisa tanto de mim, e essa palhaada 
toda. Tenho de cuidar de mim sozinha porque ele jamais cuidar, cego ou no. - Correu as pontas 

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dos dedos pelos braos encolhidos. Quando no estou com ele, no sinto sua falta.  quando estou, que mais sinto sua falta. 
       Jonathan disse a si mesmo que algum dia teria de aprofundar esse sentimento, mas agora ele tinha um prazo na madrugada. 
       - V dormir um pouco - disse ele, de cabea fria, mas Buffie no estava pronta para isso. 
       - Qual a importncia de um maldito discurso? Voc s vai se atrasar algumas horas. No me abro assim com vontade para qualquer um. Est com medo de ver meu 
interior? 
       Jonathan sacudiu firmemente a cabea. 
       - Desculpe, mas  uma merda de um discurso importante, e as necessidades da nao vm primeiro. 
       - Ele vai revelar o grande segredo? 
       - Que grande segredo? 
       - Voc  um bom risco de segurana, Jonathan - disse ela, com um sorriso desconcertante. Ele se perguntou quanto ela saberia, e quanto Bannerman saberia por 
intermdio dela. Ela, porm, no conseguiria nada atravs desse redator de discursos. 
       - Ele vai contar tudo acerca do que houve no trem - continuou ela - e voc tem de juntar as peas para que tudo parea inocente. 
       Ela sabia. 
       - Voc sabe! - disse ele, estupidamente. Entretanto, se ela sabia, por que todo mundo no sabia? Por que Bannerman no usara aquilo para expulsar Ericson 
da presidncia? - Pensei que fosse o segredo mais bem guardado do mundo - disse alto para si mesmo - e a primeira pessoa que encontro sabe de tudo. 
       - Ento Pdeu vai mesmo abrir o jogo - disse Buffie. Ele  quem sabe.  um ato corajoso. 
       - Voc contou ao Bannerman? 
       - Claro que no. Que espcie de pessoa voc pensa que sou? 
       - Uma traidora - especificou Jonathan - um dedo-duro, uma garota que ama um homem e o entrega ao seu pior inimigo. 
       - Mas no conto o principal. Conto mixaria, claro:  uma oportunidade de subir um degrau na carreira. - Subiu na cama e se enfiou sob as cobertas. - Mas no 
chupo o sangue. No sou uma puta. 
       - Como  que voc sabe? O Presidente lhe contou, Buffie? 
       - Sobre no enxergar antes? 
       Ali estava, em palavras diretas, de algum que sabia. 
       - E,  isso, sobre a cegueira prvia. 

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       Ela riu. 
       - Ele no contou como foi? 
       Jonathan sacudiu a cabea. 
       - Voc vai querer botar isso no discurso - disse ela, com seriedade debochada - para dar colorido. Uma historieta para animar a legenda do quadro. Bem, ns 
estvamos trepando no beliche superior do trem da campanha, nos sacudindo que nem doidos, e eu estava quase gozando...
       - Meu Deus! - exclamou Jonathan. Desejou no estar escutando. 
       - ... quando ... bam! Os freios foram acionados, e ele estava em cima de mim assim, e minhas pernas estavam desse jeito, e pam! L bateu ele com a cabea 
no espaldar de ao. Ele ficou com um peso morto, porm ainda de pau duro, e ainda dentro de mim. Eu no conseguia respirar, no conseguia tirar ele de dentro de 
mim, por isso berrei um bocado e Harry Bok apareceu e nos salvou. Depois... 
       - Essas so coisas ntimas - interrompeu firmemente Jonathan - suas e do Presidente dos Estados Unidos, e voc devia guard-las para si. No me contaram isso. 
E pode ter certeza absoluta de que no vai aparecer no discurso. 
       - Que pena! - suspirou Buffie. - Ele ganharia um bocado mais de solidariedade. O que  que voc vai fazer ele dizer: que deu de cabea num assessor econmico? 
       - No entro nessa espcie de mincias; ele bateu com a cabea, e pronto. - Ele teve uma idia. - E  bom pra voc no comentar como aconteceu. Se isso vier 
 tona e Bannerman souber que voc sabia e o embromou o tempo todo sem contar nada, ento ele por voc na lista negra para o resto da vida. Isso no ajudaria sua 
carreira. 
       Ela balanou a cabea e mordiscou uma unha. 
       - Eu no tinha pensado nisso. Esquea o que eu falei. Foi tudo mentira. 
       - Buffie - disse ele - por que voc tem de jogar com as duas pontas contra o meio? Essa gente com quem anda mexendo  poderosa. 
       - Acho que, se for um pouco leal a todo mundo, todo mundo ser um pouco leal comigo. E no posso ser cem por cento para o Ericson: eu cairia numa armadilha 
e jamais sairia. - Ela sentou-se e olhou inexpressivamente para Jonathan. - Estou mais feliz com voc, aqui e agora, do que jamais seria com ele, mesmo na cama do 
Senhor Lincoln. - Ele viu o nimo dela mudar a essa idia. - Imagino a mulher que Harry arranjou para ele. Provavelmente a 

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Sam Silenciosa, a enfermeira sueca de mamas grandes e lbios carnudos. 
       - Voc  uma fraude - disse Jonathan. 
       - Mas no um fraude genuna - ela tentou escapar  acusao. 
       - Uma fraude genuna, sim. Voc me vem com essa merda toda sobre carreira, e como devemos olhar para a frente, e fazer mdia com os poderosos que ficaro 
aps sairmos da Casa Branca, mas nada disso  a realidade. Voc no est indo para frente: est se divertindo. Esse negcio todo  uma tremenda curtio de ego para 
voc, mas voc no confessa isso, nem para si prpria. Deita com o Presidente, deita com o seu redator... est deitando com Bannerman tambm? 
       Essa pergunta estivera no seu subconsciente desde que ela o apresentara a Bannerman, mas ele imediatamente desejou poder engolir as palavras porque ficou 
com medo da resposta de uma garota com tamanha fidelidade  infidelidade. Jonathan estava mais profundamente envolvido com ela do que queria reconhecer, e comeava 
mesmo a se ressentir do seu caso com o Presidente. 
       - Ele  um homem aterrador sob muitos aspectos - disse ela, sem responder. - E eu realmente no gostaria de aborrec-lo. Acho melhor calar a boca a respeito 
do trem e da minha participao. Voc tambm, t? 
       A possibilidade no negada de que o corpulento Bannerman tambm gozasse dos favores de Buffie subitamente enfureceu Jonathan, que desejava v-la como um esprito 
livre e no como uma espcie de devassa, como uma inteligncia superior na farsa de um cmplice, e como uma mulher que podia pertencer a ele. O redator de discursos, 
com seu prazo at a alvorada, atirou as cobertas para trs e olhou para o corpo jovem, mas j usado demais, que estava curvado pela surpresa. Despiu-se e irrompeu 
por dentro dela como o faria um multimilionrio perigoso ou um candidato num trem da campanha. Satisfez-se, retirou-se antes que ela tivesse oportunidade de atingir 
o clmax, tomou um banho frio e voltou  sala, de calas jeans e sem camisa, para terminar o discurso. 
       A redao caminhou bem. O interldio feroz e punitivo devia ser exatamente do que ele precisava, pensou Jonathan. Um novo comeo. Garota estranha, aquela. 
Inseriu uma passagem na perorao, acrescentou a linha sobre o Dr. Abelson que o Presidente queria, aconselhando que toda a verdade fosse revelada desde o princpio, 
e comeou a grampear os pargrafos em seqncia, em folhas brancas. Ele trabalhava assim, usando pedaos de trechos. s vezes o primeiro rascunho era uma colagem, 
mas seu mtodo era esse. Olhou para o relgio eltrico: 3:15. O dia ainda no rompera. Comeou um segundo esboo do incio. 

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       O que ele conseguia enxergar do Rio Potomaque estava virando de preto para cinza quando o telefone tocou novamente, s 4:35. Desta vez ele andou depressa 
para evitar que Buffie o atendesse de novo; ela, porm, estava toda espalhada, descoberta e profundamente adormecida; quando dormia, dormia mesmo. Ele atendeu  
chamada. 
       - Estou com o Sr. Hennessy na linha, Sr. Trumbull - disse a telefonista. - Desculpe incomod-lo a esta hora. 
       - J fez tudo? - perguntou Hennessy. Sua voz era inexpressiva. 
       - No est ruim - respondeu Jonathan. - Ainda preciso de umas duas horas, para reduzi-lo para meia hora. - O redator se sentira cansado h meia hora atrs, 
mas a sensao de esgotamento passara e ele estava com um segundo flego, que ficaria funcionando bem at as duas da tarde, quando, sem dvida, ele cairia aos pedaos. 
       - Olhe, estamos com um problema - disse Hennessy. - Herb Abelson tomou plulas demais e morreu. 
       - Suicidou-se? O mdico do Presidente? 
       - Talvez, talvez tenha sido acidente. Vou agora para Camp Hoover; so cerca de duas horas de carro. Se no houver bilhete, no foi suicdio. 
       - O Presidente falou com ele esta noite, ligou para mim e disse...
       - , eu sei - disse Hennessy. - Estou com o registro dos telefonemas. No discurso, fale dele usando o verbo no passado. Diga que foi um acidente, ou melhor, 
no o inclua no discurso; uma coisa nada tem a ver com a outra. Se o Presidente quiser divagar sobre o caso, no deixe. 
       - Voc acha que a tenso do segredo e talvez a idia de que ele no abriu o jogo para o oftalmologista tenham sido demais para o Dr. Abelson? 
       - Creio que ele estava preocupado com alguma coisa, talvez sua prpria vida particular, e talvez tenha esquecido de quantas plulas estava tomando. - A voz 
de Hennessy era fria e controlada. - No superdramatize isso, no tire concluses precipitadas. Vou examinar os vestgios, conversar com o guarda florestal de l 
e trazer o corpo de volta. Isso pode ser apenas uma coincidncia. A razo por que liguei para voc  para ter certeza de que est fazendo o maldito discurso porque 
vamos ter de us-lo mais cedo do que o Presidente pensa. 
       - Estou fazendo. 
       - timo! Devo estar de volta l pelas dez da manh. Leve o discurso a Melinda, na sala dela, s oito. Ela, voc e o Presidente comearo imediatamente a trabalhar 
nele. Direi a ela que chame 

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o Hank Fowler para participar na mesma hora. No diga nada sobre Abelson at eu voltar. Isso conclui especificamente essa boazuda a na sua cama. 
       E desligou. 
       - Boa viagem - Jonathan desligou o fone. Sabia que o esboo do discurso estava bom, mas j no tinha certeza de que seria bem recebido. A presso para Ericson 
revelar tudo deve ter sido intensa, e a deciso do Presidente de confessar o assunto pareceria mais um ato de necessidade do que de conscincia. - Pressgio - disse 
em voz alta para a garota na cama, a fim de diminuir a sensao que teve ao identific-lo. Ela no se moveu. - Tristeza e condenao - sugeriu. Talvez a sensao 
pesada em seu peito fosse apenas o resultado de uma noite insone, e talvez o regozijo de trabalhar diretamente com o Presidente num discurso logo voltasse. Sabia, 
porm, que algumas coisas no poderiam ser encobertas, nem mesmo para uma Candida: a morte do mdico do Presidente, o medo controlado na voz de Hennessy, a horripilante 
suspeita de que a piada de Hennessy sobre a boazuda na cama fosse baseada em vigilncia  sua casa e no em mera conjetura. - Trepidao iluminada - disse  forma 
de Buffie e, como resposta, ela rolou o corpo. 


O TERAPEUTA/3 
       
       - Pensei que lhe mandara ter uma conversa franca com Herb Abelson, Hank - disse o Presidente, com voz fria. 
       - E mandou mesmo, senhor, mas nunca cheguei a faz-lo. - As conseqncias por no haver cumprido a determinao oprimiam e assustavam o psiclogo. - Parecia 
que sempre havia coisas mais importantes a fazer. Falhei com o senhor e falhei com Herb - Hank Fowler ps-se  prova por haver confundido suas prioridades. Sua falha 
para com Abelson fora consideravelmente maior do que sua falha para com o Presidente. 
       No foi culpa sua, foi minha, mais do que de qualquer outra pessoa. Ontem  noite, quando falei com ele, no avaliei bem a situao. Herb parecia estar mal, 
extremamente irritado e nervoso, mas no  beira de alguma coisa drstica. 
       Fowler ouviu o dbil som de uma unha sendo roda. Houve um silncio, um suspiro, e depois: 
       - Que foi que voc achou do discurso? - perguntou o Presidente. O redator, Jonathan Trumbull, o lera para eles momentos antes e depois fora mandado de volta 
 mquina de escrever. 
       - O discurso em si ou o contedo? 

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       - Analise tudo, Hank. Preciso saber a sua posio antes de entrarmos nas atividades do dia, que podem vir a ser algo febris. 
       O psiclogo, com um cotovelo apoiado na mesa do Presidente, no Salo Oval, resistiu  tentao de reagir como um cego, e relembrou estar lidando com um paciente 
com problema. - Primeiro, a respeito do discurso em si. Levou cerca de vinte minutos, que acho podem ser cortados para uns quinze. Acho que seria a durao conveniente 
para o senhor. 
       - Concordo - disse o Presidente. 
       - Eu teria de ouvi-lo novamente algumas vezes - disse Fowler, ganhando confiana com as mincias - mas creio que se divide naturalmente em cinco segmentos 
de, digamos, trs minutos cada. Podamos separ-lo e o senhor o usaria melhor dessa forma - Fowler sabia que itens pormenorizados ajudariam a reforar a confiana 
do Presidente, e a sua prpria. O terapeuta sentia-se orgulhoso do seu mtodo de segmentar um discurso, resumindo cada segmento com um gravador que poderia ser escutado 
num pequeno audiofone. Permitia a um cego falar de improviso, com notas auriculares "sopradas" pela sua prpria voz gravada. 
       - Voc sabe como eu trabalho - disse o Presidente. - Em quanto tempo eu aprenderia a fazer isso? 
       Fowler considerou que Ericson era um rpido assimilador. Com esse estudante-paciente a preparao podia ser acelerada. 
       - Eu diria que o senhor precisaria de umas seis ou sete horas. Se resolver como vai ser o discurso at as dez da manh, poderia discursar hoje  noite - Fowler 
preferia que o discurso fosse feito no mesmo dia; excesso de ensaios ou de memorizao eliminaria a espontaneidade necessria. 
       - timo, talvez eu precise mesmo - falou o Presidente. Comeou a estalar os dedos. Fowler sabia que deviam ser cinco estalos; trs em uma das mos, dois na 
outra. Ao som do quinto, o psiclogo mencionou o contedo do discurso, a parte mais difcil da sua opinio. 
       - Quando  sua cegueira anterior - comeou. - Acho que o senhor errou. 
       - Sempre gosto de me submeter a um julgamento moral - disse o Presidente - por quem no estava l. 
       - No, no estou julgando o caso de que o senhor devia ou no ter tornado pblico a cegueira de dois dias no trem antes das eleies - Fowler fez uma pausa, 
permitindo-se pequeno julgamento. - Eu acho que deveria, porm, com toda a confuso, posso ver que - ele estudou a frase - o no dizer nada poderia fazer parte da 
semiconscincia aliada ao perodo ps-concusso. Bem-posto. O problema no  esse. 

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       - Muita gente pensar que o problema  precisamente esse. 
       - Sei... bem, isso  uma coisa a ser discutida ou explicada - Fowler resolveu fazer presso desse item com o Presidente, j que representava um perigo que 
Ericson, evidentemente, no sabia que enfrentava. Discuti-lo poderia contribuir para o sentimento de culpa de Ericson quanto ao suicdio de Abelson, mas isso teria 
de ser confrontado rapidamente, de qualquer forma. - Creio que o senhor errou em no informar os seus mdicos a respeito da cegueira prvia, aps a tentativa de 
assassinato em Yalta. 
       - Isso  fcil de dizer, Hank - falou o Presidente, no to friamente desta vez - porm, eu no queria apressar deciso alguma. E visto que eu passara por 
alguma coisa semelhante antes, no trem da campanha, calculei que seria passageiro. Voc tem de compreender: as relaes mdico-paciente no me teriam protegido, 
a histria viria a pblico. Com toda probabilidade, eu teria perdido aquela votao de incapacidade no Gabinete. Eu precisava de tempo. 
       Fowler sacudiu a cabea e disse automaticamente: 
       - Estou balanando a cabea para dizer "no", O senhor est raciocinando poltica e taticamente, Senhor Presidente. Eu estou raciocinando medicamente, como 
Herb Abelson deve ter pensado: um mdico escondendo de um especialista relevante sintoma mdico, e talvez causando o tratamento errado. Posso compreender por que 
ele no agentou. 
       O Presidente aguardou, e Fowler abriu o jogo: 
       - No sou homem de medicina, porm me interessei realmente em conhecer alguma coisa a respeito das causas da cegueira. Na primeira vez em que o senhor se 
acidentou, no trem, talvez tenha rompido o canal tico: o encaixe do nervo tico que fica entre o olho e o crebro. 
       - Herb mandou tirar alguns raios X - replicou Ericson. - Ps nas chapas nomes de alguns membros do pessoal e mandou que os lessem em Bethesda. E disse que 
no revelavam nenhum dano permanente. 
       - Sei... - fez Fowler - e pode ser que no houvesse nenhum. Entretanto, como da segunda vez em que aconteceu, em Yalta, seguiu-se a cegueira, talvez o tratamento 
devesse ter sido diferente. 
       - Que quer dizer? 
       - No sou mdico - preveniu Fowler de novo - mas pode ser que, se soubesse de uma cegueira anterior, um oftalmologista, ao examinar seus sintomas aps a emboscada, 
mandasse chamar um neurocirurgio. 
       - Vamos logo - interrompeu Ericson. - V direto ao assunto. 
       - Talvez - disse Fowler sem se apressar - um neurocirurgio 

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tivesse resolvido, sabendo da cegueira anterior, operar e levantar o alto do canal tico para aliviar a presso do nervo. Uma operao podia ter ajudado - Fowler 
deixou o Presidente pensar isso, depois tratou de amenizar o golpe: -  claro que ele poderia no ter recomendado nada disso. E que uma operao poderia no adiantar. 
S estou sugerindo que o comportamento poderia ter sido diferente, caso os mdicos estivessem a par de todos os fatos. 
       - Ento, se eu no tivesse decidido manter isso em segredo - disse o Presidente - eu talvez no estivesse cego hoje. 
       - Isto  ser muito dramtico - falou o psiclogo. - Pelo amor de Deus, no comece a encarar uma possibilidade remota como um fato concreto. No passa de uma 
possibilidade. S trouxe o assunto  baila agora para que o senhor entenda o que Abelson estava sofrendo. 
       - Meu Deus! - disse o Presidente. - Ele se estava dizendo que, por me ter escutado e no ter revelado tudo ao mdico de olhos, foi o responsvel por minha 
cegueira. 
       - Bem,  isso que um monto de outros mdicos vai pensar. 
       - E dizer. - A cadeira do Presidente rangeu debilmente quando ele se inclinou todo para trs. - "Ericson, com sua propenso ao segredo, agentou a carga sozinho. 
No foi culpa do mdico, foi culpa do paciente:  um campo inteiramente novo da impercia. No gastem sua solidariedade com o sacana. Sua prpria nsia pelo poder 
foi responsvel pela sua cegueira. E os moralistas vo ter o prato do dia: vem o que acontece quando se escondem as cosas? Deus revida." - Aps uma pausa, Ericson 
acrescentou: - E talvez seja isso o que Deus faz. 
       - Nenhum mdico iria ao ponto de afirmar que um tratamento alternativo teria evitado a sua cegueira - protestou Fowler. 
       - E nem precisaria, com essas palavras. Basta fornecer a Bannerman um pretexto; e, por falar nisso, Bannerman tem alguns mdicos na mo, e eles diro exatamente 
isso por estarem justamente indignados. - O Presidente suspirou, e disse suavemente: - Ainda hoje de manh, eu falei: "Podia ser pior"; e, sem dvida, . 
       Fowler procurou uma sada: 
       - Muita coisa depende de como reage o seu oftalmologista. 
       - Sei... - O psiclogo notou, no que fosse muito importante, que o Presidente adquirira o hbito de assentir com a cabea na presena de uma pessoa cega. 
- Hank, aps o discurso desta noite, gostara que voc tivesse uma conversa com o comandante do Hospital Naval de Bethesda. Ele talvez possa consultar com o pessoal 
do setor de olhos, e sugerir que eles podiam ter feito a mesma coisa a despeito de qualquer obstculo, mas que, de qualquer 

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modo, a operao teria sido perigosa nas minhas condies. Voc faria isso, com tato? 
       Fowler hesitou. 
       - Voc est a, Hank? 
       - Eu falarei com ele, Sr. Presidente. Talvez eu esteja apenas antecipando problemas que ainda no existem. 
       - No, no; foi bom voc ressaltar aquilo. Talvez possamos evitar declaraes de um mdico de olhos com a cuca quente. 
       Fowler deu um risinho. 
       - Qual  a graa? 
       - Eu estava imaginando um mdico de olhos com a cuca quente. 
       O Presidente pegou um fone e disse: 
       - Ponha-me em contato com o Secretrio de Imprensa, James Smitty, l no Alasca, ou sei l onde. Siga a pista dele. - Para Fowler, acrescentou: Acho melhor 
botar o Smitty por dentro agora: 
       esto aparecendo mais ngulos do que eu calculava. 
       - Pensei que Smitty estivesse praticamente inalcanvel. 
       - Essas telefonistas localizam qualquer um em qualquer lugar. Elas so capazes de arranc-lo de um iglu e traz-lo at um telefone num tren puxado por ces, 
voc vai ver. Preciso dele agora. Ser que terei mesmo de aparecer na televiso hoje  noite? Talvez haja uma forma de ganhar tempo com Zophar. 
       Fowler no entendeu a referncia do Presidente ao colunista, mas sentiu que Ericson podia usar a equipe  sua volta para preparar o discurso. J que fazer 
o discurso era um ato de Conscincia - uma confisso para limpar o ambiente e dar slida base moral ao Presidente - ir adiante com isso era um ato a ser incentivado. 
Porm, Fowler se perguntou por que Ericson estava impelido a apresentar as notcias da cegueira anterior agora, hoje, e com tamanha pressa aparente. 
       Parece que o Presidente leu seus pensamentos: 
       - Existe certa urgncia nisto, Hank, porque suspeitamos de que algum falou, e que a notcia est a ponto de ser divulgada. Um dia eu ia contar tudo, com 
calma, mas agora no temos muita escolha. Posso at eliminar o discurso, posso adi-lo indefinidamente, mas quero que voc me prepare, caso eu resolva discursar 
hoje  noite. - Ao telefone, o Presidente disse: - Mande Marilee vir aqui, se j voltou do desjejum, mas no precisa procur-la - Tocou uma cigarra que Fowler escutou 
soar na mesa de Melinda, do lado de fora do Salo Oval, e num instante a secretria entrou na sala. - Mande o Jonathan voltar aqui e chame tambm o Harry Bok. Pegue 
seu caderno de notas, Melinda, e vamos ver se voc ainda sabe taquigrafia. 

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       O psiclogo gostava da maneira pela qual o Chefe do Executivo conseguia limpar sua mente da autodvida e se concentrar no assunto em pauta - neste caso, um 
discurso, Ericson reuniu sua tropa, mostrando a cada um onde sentar-se em volta da mesa, depois mandou o redator ler o seu discurso em voz alta e integralmente. 
Enquanto Jonathan prosseguia, o Presidente murmurava seus comentrios para Melinda, e Fowler estruturava um discurso em cinco partes na prpria mente. 
       - Muito bem: o primeiro passo  cortar - disse Ericson - o longo pargrafo que diz que eu sinto muito no haver tratado antes desta questo. Pode ser dito 
como uma boa frase, que seja pesarosa, citvel, e vamos nos livrar logo disso. A referncia  percepo tardia est excessivamente espirituosa; no quero esforar-me 
para conseguir impressionar, portanto corte isso. Reduza o incidente no trem da campanha para a metade do tempo que tem agora, e d fora- s circunstncias em torno 
da deciso aps a emboscada. Melinda, leia meus comentrios administrativos especficos. - Ela leu; Fowler percebeu que o Presidente ia dando forma ao discurso para 
uma apresentao mais prtica, apresentando mais um esclarecimento do que uma desculpa, com um enaltecimento emocional no fim, como apelo ao povo, contra a influncia 
dos comentaristas. 
       - Agora so nove e meia - disse Ericson, tocando no relgio. - Veja se faz essas mudanas depressa, Irmo Jonathan, e depois use a Melinda para rebater  
mquina. No se preocupe com a limpeza, Melinda, no posso ver, de qualquer jeito, mas quero o discurso em forma para ler para o Hank, que poder dividi-lo em sees 
para mim. 
       - Marilee est aqui - disse Melinda. - Quer que ela entre? 
       - Sim. Todo mundo saia e v trabalhar. Harry - dirigiu-se ao agente do Servio Secreto - d seus palpites quando quiser: voc tem sensibilidade para o modo 
como essas coisas se encaminham. Hank, fique aqui comigo. 
       O elenco saiu rpido, e Fowler cumprimentou Marilee quando ela se sentou onde estivera Melinda. 
       - Que  que h com Zophar? 
       - Ele no  suscetvel a encantos, Senhor Presidente. Eu lhe apliquei o tratamento completo, porm ele no foi nessa. Nem estava presunoso como de hbito. 
Ficou como um reprter nervoso por causa da sua histria. - Sua voz estava tensa. Fowler escutou-lhe as longas unhas batendo leve e nervosamente na mesa do Presidente. 
       - Qual  a informao que ele tem? - Interrogao clnica de Ericson, observou o psiclogo, isso era bom. 
       - Informaes com mincias considerveis,  o que ele deseja que pensemos, acerca do que Harry Bok contou aos soviticos sob 

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o soro da verdade ou hipnose, na vspera em que arrastamos Harry de volta. Zophar disse que  algo genuinamente escandaloso... 
       - Foi esse o termo que ele usou? Escandaloso? 
       - Ele usou essa palavra - disse Marilee. - Falou que  um jornalista responsvel e que no deseja exagerar nem brincar com suas fontes, nem permitir ser usado. 
Por isso deseja v-lo pessoalmente, Senhor Presidente. Ele disse que se todos os membros do Gabinete tivessem sabido da coisa, o voto para declar-lo incapacitado 
teria passado. 
       - Foram essas as palavras dele? "Todos os membros"? 
       - Sim, Sr. Presidente. 
       No silncio que se seguiu, Fowler interrompeu: 
       - Essa histria certamente teria causado impacto em alguns dos seus adeptos. O Procurador-Geral, por exemplo, deu grande importncia ao fato de no haver 
qualquer indicao, antes da eleio, de que teria havido alguma coisa nesse sentido. E nos contou sobre... 
       - Agora no, Hank. - Quando o Presidente o interrompeu, o psiclogo percebeu que Marilee no estava ainda inteirada do contedo do discurso. - Marilee, a 
terminologia exata aqui pode ser importante - disse Ericson cautelosamente - Ele falou mesmo: 
       "se todos os membros do Gabinete tivessem sabido da coisa", ou voc est parafraseando? Ele no disse: "Se o Gabinete tivesse sabido"? 
       - "Todos os membros" repetiu Marilee. - Foi h somente alguns minutos atrs, por isso ainda posso escutar as palavras dele no meu crebro. 
       A cigarra do telefone soou e Ericson apanhou-o: 
       - Smitty? Quero voc de volta correndo. No, agora mesmo. Est explodindo uma histria que voc no a conhece, e talvez eu tenha de ir  TV com um discurso 
esta noite - Fowler pde ouvir as reclamaes estourando durante um momento at que o Presidente interrompeu: - Quero voc aqui depressa, numa questo de horas, 
para me ajudar a decidir se vamos falar ou no, mas, nesse nterim, explique  Marilee como se consegue tempo nas redes de televiso rapidamente. No posso mand-la 
fazer uma coisa sem a sua aprovao. - Isso era uma mentira, contudo, certamente um adoante em cima do Secretrio de Imprensa. - Ligue para ela do aeroporto, Smitty; 
no faa ligao alguma do avio; no  seguro. Voc tem pistolo junto ao Sam Zophar? timo. Volte depressa. - E desligou. 
       - Eu disse ao Zophar que ele poderia falar com Hennessy hoje  tarde, por volta das cinco - disse Marilee. - Hennessy podia retard-lo ainda mais com uma 
promessa de deix-lo ver o 

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senhor amanh. E por falar no diabo, aqui est o nosso chefe da Casa Civil, com uma cara de quem chegou ao fim. 
       - Foi uma longa noite - falou Hennessy da porta. 
       - Est se sentindo bem? - O novo tom de preocupao na voz de Marilee formou uma imagem do chefe da Casa Civil na mente de Fowler: amarrotado, descabelado, 
com olhos injetados. 
       - Estamos olho com olho - disse Hennessy - e no interessa quem pisque, porque vocs, caras, jamais diriam a diferena. 
       - Ele est bem - falou Marilee. 
       - Se manda, beleza - disse Henessy fatigado. - Vou procur-la daqui a alguns minutos a respeito de Zophar, para voc me dar as dicas. 
       - E Smitty vai voltar no fim da noite - avisou ela, com a voz sumindo no vestbulo. 
       - Quem diabos chamou o Smitty? - Evidentemente, Hennessy no ficou satisfeito com a perspectiva do regresso do secretrio de imprensa. 
       - O lder eleito por 250 milhes de americanos mandou cham-lo - replicou o Presidente. 
       - No havia bilhete reportou Hennessy. - Ou Herb no cometeu suicdio algum, que  a posio que defenderei, ou remeteu o bilhete para algum: sua esposa, 
talvez, da caixa de correio a milha e meia estrada abaixo, o que  improvvel. - Com um exagerado gemido atirou-se no sof. 
       - Onde...
       - Numa capela funerria perto da sinagoga de Adas Israel - disse o chefe da Casa Civil. - Ele era judeu. Melinda pode dar a notcia  esposa dele; ela a conhece. 
       - Foi uma dose exagerada de plulas para dormir? - perguntou Fowler. 
       - Sim: o que no significa automaticamente suicdio - alertou Hennessy. 
       - A maioria das pessoas pensa dessa forma - opinou Fowler. Ele no queria encorajar algum a afastar o Presidente da realidade. 
       - Sem bilhete, no h suicdio - falou Hennessy persistentemente. - Que a companhia de seguros prove o suicdio. At ento a esposa dele receber a quantia 
pela qual ele foi segurado. 
       - Ah! - exclamou Fowler Ele se irritou por haver esquecido esse ngulo. Ainda bem que um advogado experimentado estava envolvido e poderia proteger a famlia. 
Fowler estava contrariado por haver pensado que Hennessy s desejava salvar a Casa Branca de um constrangimento. 

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       - Pode ter sido um acidente - rosnou Hennessy. - Havia uma garrafa de usque perto, eu a mostrei ao guarda florestal, Herb poderia estar deprimido, e bebendo, 
e esquecera a quantidade que bebeu. No nos precipitemos. Nada  oficial a menos que seja oficial. Sei que dose excessiva acidental de plulas parece esquisito, 
mas no ser fcil transformar isso na dura realidade de um suicdio sem, pelo menos, um bilhete. 
       Pobre Herb - disse o Presidente, com voz que Fowler mal pde escutar. - Freqentamos a escola juntos. - Aps um momento, em tom normal: - Hank, diga ao Hennessy 
por que voc acha que Herb andava deprimido. - O psiclogo informou o chefe da Casa Civil quanto  possibilidade de abrir o topo do canal tico aps uma segunda 
avaria, e que, como no houve tal cirurgia, isso pode ter perturbado o mdico que Herb Abelson quase fora. 
       Hennessy gemeu, mas no por causa de Abelson. 
       - Essa bichinha desse mdico de olhos poderia ter simplesmente ignorado a discrio do caso. 
       - Hank disse que ele falaria com o comandante de Bethesda a esse respeito - disse o Presidente. 
       Fowler balanou a cabea, acrescentando: - H. .. - para Ericson, no muito feliz com sua misso, embora contentasse um paciente. E provavelmente era a verdade; 
as probabilidades eram fortemente contra o fato de que um tratamento diferente pudesse fazer toda uma enorme diferena. 
       - Vamos nos fixar no assunto central - prosseguiu o Presidente - se vamos ou no falar na TV esta noite. 
       - Voc poder preparar o Presidente, Hank? 
       - No se preocupe com isso - interrompeu o Presidente. - Estarei pronto para um discurso, se precisar estar. A questo : terei de estar? Fale com Marilee, 
Hennessy, e veja o que Zophar sabe. Ela disse que ele afirmou ser alguma coisa escandalosa e que teria significado uma votao diferente do Gabinete se, e aqui est 
o termo exato, "se todos os membros do Gabinete tivessem sabido da coisa". Que diabos quer isso dizer? 
       - Examinando bem, parece significar que um ou mais dos membros do Gabinete sabiam a respeito da cegueira anterior. O que no  verdade - Hennessy fez uma 
pausa. - Voc chegou a contar ao Duparquet? 
       - Nunca - disse o Presidente. - As pessoas que sabem, agora, so da famlia, e temos de incluir o Hank na famlia, e o redator de discursos, Jonathan. Marilee 
no sabe. 
       Fowler sentiu, e no ficou envergonhado por isso, a emoo de estar no centro do poder, recebendo toda a confiana. Eles no podiam evitar de confiar nele, 
todavia, mesmo assim, era emocionante. 

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O fluxo de acontecimentos parecia estar tomando velocidade e Hank Fowler estava sendo carregado junto. 
       - Eu dobro o Zophar esta tarde - disse Hennessy - com Smitty, se ele chegar. E se o Smitty no cair aos pedaos sob a presso, esse sacana metido a virtuoso. 
Acho que as redes de TV precisam de um aviso de trs horas antes, portanto podemos tomar uma deciso s seis para ir ao ar s nove. - Ele se espreguiou e gemeu; 
a noite insone o atingia - S mais trs anos para terminar. Se quiser se eleger de novo, arranje outro cara. Vou mandar Melinda falar com a mulher do Herb. 
       - Mande-a primeiro entrar com o discurso - falou o Presidente. 
       Quando Hennessy saiu, Fowler usou os momentos antes de o redator de discursos voltar, para ver como andavam a mente e o nimo do Presidente. Sem perguntas 
capciosas: 
       Como est se sentindo? 
       - Como se estivesse cometendo um erro - replicou calmamente Ericson. - Estou fazendo a coisa certa moralmente ao dizer a verdade acerca da cegueira anterior. 
Porm, estou sendo apressado a faz-lo, e isso  ruim. No gosto de comprometer tudo, a menos que seja absolutamente necessrio. Por isso, ao confessar a verdade 
estou certo, e ao faz-lo agora posso estar enganado. Prematuro. Sentimentos misturados. 
       - Nenhum alvio por finalmente a coisa estar vindo  tona? O senhor deve estar em conflito - disse Fowler, pensando tambm que o Presidente estivera muito 
precavido contra seu psiclogo at agora. 
       - No estou ansioso por faz-lo, Hank.  cedo demais, no  bom haver muitos choques seguidos: no  bom para o povo. E importante que eu me mantenha neste 
posto. 
       - Pelo senhor ou pelo povo? 
       - Por ambos. - A cadeira rangeu de novo, e Fowler escutou o baque surdo dos ps do Presidente na mesa. - Analise a alternativa: Nichols seria um desastre. 
Seria uma marionete para Bannerman; e Hank, voc no conhece isso to profundamente quanto eu, Bannerman no  um homem de bom carter - Essa frase ficou no ar at 
Ericson acrescentar: - Sei o que est pensando. Quem diabos sou eu para falar em carter depois de ter enganado as pessoas acerca da cegueira? Bem, no fiz nada 
venal, nada nascido de um motivo para mentir ou trapacear ou roubar, mas somente para estabilizar uma situao at eu poder lidar inteligentemente com ela. A revelao 
total da verdade no era importante antes das eleies. S se tornou importante aps a emboscada, em retrospecto, todavia, naquela ocasio havia outras coisas mais 
importantes. - Ele saiu da cadeira e caminhou at as portas envidraadas, virou de costas para elas e falou diretamente para. Fowler, no outro lado da sala: 

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       - Fiquei nesse estado porque estava tentando fazer alguma coisa pelo pas, pela paz do mundo. Falo srio, voc sabe que sim. E se eu puder me agentar no 
cargo, se conseguir resolver isso, farei bem meu papel; no apenas bem, porm infinitamente melhor do que nosso Vice-Presidente e Bannerman, que poderiam atamancar 
isso tragicamente Sim, eu sinto muito por haver cometido alguns erros tticos. Contudo, talvez fizesse as mesmas coisas, se tivesse de repeti-lo; no estou arrependido 
quanto s concesses, Hank, porque  isso que voc tem de fazer para entrar e ficar. E voc no pode fazer droga de bem algum se no est dentro. 
       - O senhor no estar apenas racionalizando seus sentimentos de culpa? 
       - Claro que estou racionalizando - irritou-se Ericson. - No seja tolo, essa  a nica forma de voc poder viver com sua culpa. O nico aborrecimento maior 
que me atormenta retrocede a um ano atrs, em julho, na conveno, quando comprei meu ingresso ao concordar em aceitar o nome que Bannerman apontou para meu colega 
de chapa. Esse foi o grande engano. Pelo amor de Deus, homem, no posso deixar a nao sofrer por esse erro; no enquanto tiver um sopro de vida. Certo: vou fazer 
concesses, vou conspirar e vou aparar algumas arestas da mesma forma que todos os homens que j trabalharam neste cargo tiveram de fazer. Contudo, vou manter este 
local fora do alcance de Bannerman nem que seja a ltima coisa que eu faa, o que talvez v acontecer. E, melhor ainda: vou ser um bom Presidente, voc ver, melhor 
do que teria sido enxergando. No sou to frio como antigamente, nem to objetivo, e talvez isso seja bom; talvez eu no me devesse concentrar numa pequena e honesta 
paixo a vida toda. Gosto daqui. Perteno a este lugar. Vou ficar e vou fazer um trabalho dos diabos. Ouviu isso, Hank? - Virou-se na direo da porta que levava 
 sala de sua secretria. - Melinda, onde diabos est aquele discurso? Atravessou a passos largos o fundo no Salo Oval rumo  porta e Fowler pde ouvir a pancada 
de uma cabea contra uma porta que no deveria estar fechada. O psiclogo atravessou a sala num instante, e alcanou o Presidente bem na hora em que este caa ao 
cho, amaldioando e berrando, mais de frustrao do que de dor. Fowler sentiu o sangue pegajoso na tmpora de Ericson. Depois o psiclogo se preocuparia porque 
o primeiro pensamento que ocorreu  sua mente naquele instante foi o de que o talho poderia ser coberto por maquilagem na hora da apresentao na TV. 


O SECRETRIO DE IMPRENSA/2 
       
       - S um arranho - insistiu Hennessy, - Ele bateu com a cabea e se levantou na contagem de quatro. O novo doutor examinou-o,

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ps-lhe um pedao de esparadrapo cor da pele na fronte, e com a maquilagem na televiso, ningum ver nada. 
       Ocorreu a Smitty que Hennessy estava minimizando tudo. Aps uma viagem supersnica de seis horas vindo dos campos petrolferos da Vertente Norte, o Secretrio 
de Imprensa chegou  Casa Branca, e foi atingido por cinco impactos diferentes de informao. Primeiro, a pendente revelao de Zophar; depois soube pela primeira 
vez da cegueira anterior, quando lhe mostraram o esboo do discurso adiantadamente, cpia do qual no seria divulgada; em seguida soubera do suicdio de Abelson, 
o qual fora anunciado como provvel acidente, e isso era dilacerar a verdade; e havia tambm a possvel reao do pblico quanto ao "ele mesmo que causou isso", 
que Hank Fowler temia; e, finalmente, havia notcias acerca de um discurso iminente com intuito de se adiantar s declaraes de Leight-para-Zophar, que o Presidente 
poderia fazer  noite, 
       - De acordo com voc, tudo  muito simples - falou Smitty para Hennessy,  mesa da sala do chefe da Casa Civil - s que quando se mete a mo, a coisa  bem 
pior do que parece. 
       - Est demais para voc, Smitty? Sei que voar esgota um homem da sua idade. 
       - O Sr. Zophar chegar daqui a alguns minutos - Marilee mudou de assunto. - Qual ser a estratgia? 
       O Secretrio de Imprensa no gostou da piada de Hennessy em referncia  sua idade - um homem mais idoso pode ser um excelente chefe da Casa Civil como demonstrara 
Lucas Cartwright, com quase setenta; muito melhor do que o agressivo advogado divorcista que o Presidente escolhera. - Smitty tampouco gostou da forma pela qual 
Marilee se intrometeu nos seus assuntos durante uma curta viagem  regio norte. 
       - Tem havido muita droga de estratgia aqui nos ltimos dias - irritou-se ele. - Podamos ter evitado um monte de problemas para ns mesmos, se tivssemos 
dito a verdade. 
       - Eu sabia - disse Hennessy, saltando de uma cadeira e se aproximando da janela, onde ficou, mexendo com as chaves no bolso. - Devamos t-lo deixado l, 
caando esquims. Eu lhe disse que a primeira coisa que ele diria : "Eu avisei a vocs". 
       - Eu nunca avisei a vocs porque nunca soube - lembrou-lhe Smitty. - E por que vocs me queria aqui, j que no gostam de me escutar? 
       - O Presidente insistiu na sua presena aqui durante a crise - falou Marilee suavemente. - E eu estou contente mesmo que tenha voltado. E o Hennessy tambm, 
mas ele est encontrando certa dificuldade em expressar-se. 

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       Hennessy virou-se, com a disposio subitamente modificada: 
       - Ela tem razo. Desculpe, Smitty; talvez voc trabalhasse melhor no meu cargo, mas ele  meu, pelo menos por enquanto. Quer ajudar? 
       - Estou aqui, estou aqui - disse Smitty, sentindo-se melhor. Talvez pudesse transformar a situao; do jeito que estava, dificilmente poderia piorar, e ele 
conhecia Zophar fazia muito tempo. - A primeira coisa que Sam Zophar vai perguntar  o que o Presidente tem lido ultimamente. 
       - Hem? - Hennessy deu-lhe um olhar esquisito. 
       -  o estilo do Zophar - explicou Smitty. - No importa a urgncia do seu assunto, ou o que ele realmente deseje discutir, comea com os livros que o Presidente 
est lendo. Tem feito isso desde que o conheo, h uns vinte e cinco anos. 
       - Mas o Presidente est ce... - Hennessy deteve-se. - No, ele tem lido livros. Ns combinamos uma coisa com o Bibliotecrio do Congresso, de onde ele manda 
aqueles livros falantes, as fitas. Marilee... - apontou para o telefone na mesa de Smitty, o qual ela usou para saber as solicitaes que o Presidente fizera. - 
Quer que ela fique aqui para isso, Smitty? 
       - No precisamos da Marilee - comeou Smitty, provocando o interrogativo olhar de desespero da mulher ao telefone - porm, ela pode ficar, tambm, j que 
iniciou isto com Sam Zophar. Quero que ela esteja pronta para assumir no momento em que eu for ocupar o seu cargo. 
       - Como deveremos proceder - disse Hennessy atenciosamente - nunca no dizendo a verdade? - Smitty notou a negativa dupla, que era um pouquinho diferente de 
"sempre dizendo a verdade". 
       - Eu farei o mocinho, e voc o bandido - disse Smitty, e Marilee tapou o telefone para acrescentar: 
       - Ele jamais adivinhar a verdade. 
       Smitty grunhiu, e continuou: 
       Verei o que deseja, e quanto poderei arrancar do homem; voc fica calado, a gente discute um pouco, voc amolece e diz que ele poder ver o Presidente mais 
tarde. Ento verei o que mais a gente pode extrair dele. 
       - Se ele sabe da histria da cegueira anterior em detalhes - disse Hennessy cautelosamente - ento lhe direi que o Presidente tenciona revelar tudo pela televiso 
esta noite. Direi que sinto muita pena porque sua histria foi "furada", mas que talvez lhe possamos dar alguns detalhes exclusivos aps o discurso. 
       - Detesto fazer isso com um jornalista - disse Smitty. - uma traio; eles jamais nos traro qualquer coisa para averiguao 

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de novo se no protegermos uma exclusiva. - Isso tudo tinha sido resolvido antes de sua volta do Alasca, acrescentou para si mesmo. 
       - Voc sabe que se ns no contssemos a verdade, estaramos acabados, Smitty. Deixe essa deciso para mim, contrariando sua objeo, est bem? - O Secretrio 
de Imprensa ficou satisfeito porque Hennessy entendeu seu recado. O chefe da Casa Civil prosseguiu: - E se o Zophar no souber de coisa alguma? O Presidente suspeita 
de que tudo seja uma sondagem: ele est somente jogando verde; recebeu uma dica de Arthur Leight, e no informaes reais. Talvez ele tenha uma histria diferente, 
alguma coisa sem importncia. Isso significa que podemos aguardar um dia ou dois, quem sabe abafar a coisa um pouco... 
       - O Presidente tem de fazer este discurso - disse firmemente Smitty - e quanto mais cedo, melhor. No farei parte de um embuste. - Ele viu Hennessy estremecer 
a esse aparte, mas continuou a "vender seu peixe": - No estou dizendo que vocs todos encobriram um crime. Homens honestos poderiam diferir quanto  data da revelao 
da histria toda. Mas isso poderia ser interpretado como uma farsa por Bannerman e o resto, e a gente ficaria muito mal vista, especialmente o Presidente. 
       - Quer dizer especialmente voc. 
       -  isso mesmo. 
       Hennessy visivelmente provocava o outro: 
       - Voc certamente ficou a favor da verdade nua e crua no momento em que soube dela, Smitty, e Marilee  nossa testemunha. - O chefe da Casa Civil falava como 
se estivesse fazendo uma declarao a ser registrada. A cabea loura com o telefone encostado balanou. 
       -  essa a histria toda? - Smitty sentiu que tinha de perguntar isso, para tambm ser registrado. E nem sabia se queria uma resposta. 
       - Ainda sou o conselheiro especial do Presidente - falou Hennessy. - Existe uma relao advogado-cliente que ele e eu temos, que poderia ser o motivo pelo 
qual eu consegui o cargo de chefe da Casa Civil. Talvez haja outra questo envolvida, e suponho que teria de cont-la a vocs, se me encostarem na parede, mas vocs 
teriam de fingir que jamais ouviram nada a respeito. 
       - No sou advogado - disse Smitty, e ficou aliviado quando Hennessy entendeu a dica e ficou calado. Marilee desligou e leu do seu bloquinho: 
       - Ele pediu trs livros a semana passada, e Melinda disse que se divertiu com os trs. Um  o atual best-seller e no-fico, Partners in Pain, a dupla biografia 
de Jacqueline Kennedy e Pat Nixon: 

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e os outros so mais antigos, de fico: Billy Budd, de Herman Melville, e The Man that Corrupted Hadleyburg, de Mark Twain. 
       -  isso que ele faz de noite? - At Hennessy ficou surpreso. 
       - So ttulos bastante respeitveis - reconheceu Smitty. 
       - Eu fiz um curso sobre Melvilie - disse Marilee. - Billy Budd  um jovem marujo que acaba enforcado porque matou um companheiro depravado. Culpa e inocncia; 
o bem e o mal... 
       Que diabos voc est resmungando a? - Hennessy estava atnito. - Estamos todos contra a parede; o Presidente dos Estados Unidos est aguardando nosso sinal 
para ver se faz o discurso mais duro de sua vida esta noite, e voc fica nos ministrando um curso de literatura para calouros de Vassar. 
       - Zophar deve estar no saguo oeste agora - disse Smitty, vendo que eram 5 horas da tarde no seu relgio. - Marilee, traga o homem. - Quando ela foi busc-lo, 
o Secretrio de Imprensa e o chefe da C. C. no conseguiram pensar em nada para se dizer. De certa forma, Smitty desejava no ter sido chamado de volta. 
       - Cavalheiros! - Zophar, pedante como sempre, mas ainda, achou Smitty, agora que estava barrigudo, entrou na sala do Secretrio de Imprensa, acenou mais do 
que apertou mos, e comeou a estudar as telas nas paredes. - Aqui est Jim Hagerty, Smitty, que voc gostaria de imaginar como seu prottipo, mas os secretrios 
de imprensa eram mais poderosos no tempo de Eisenhower. 
       - Hagerty teve de lutar com uma verdadeira incapacidade - foi tudo o que Smitty falou. Ento calculou que sua velha associao com esse pretensioso velho 
espertalho poderia ser usada em vantagem do Presidente, e acrescentou: - Voc j as viu ir e vir, Sam. 
       - No creio que voc ficar muito tempo nesse emprego - disse o colunista objetivamente - a menos que queira receber ordens de Nichols. No sei se lem minha 
coluna - esperou que todos acenassem com a cabea, o que Smitty zelosamente fez - mas defendo claramente a posio de que a Administrao Ericson ter curta durao 
- Smitty pensou, de incio, que o colunista pronunciara mal "curta durao" com o som de "viso", mas deduziu que Zophar falara certo e estava se exibindo. 
       - Por que acha isso, Sam? 
       O colunista ignorou a pergunta com um gesto; ele viera para perguntar, no para ser interrogado, parecia dizer a mo imperiosa; e certamente no para apressar 
suas perguntas nem discutir assuntos de grande importncia com gentinha. Smitty recordou-se de que deveria fazer o papel de Senhor Bonzinho. 
       - Normalmente eu comearia perguntando que livros o Presidente tem lido, Smitty, mas isso dificilmente seria de bom... 

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       - Melville, creio - disse Smity, calmamente. - Marilee, voc estava verificando aqueles livros sonoros da Biblioteca do Congresso fintes de eu partir para 
o Alasca, no ? 
       - O gosto dele  bastante ecltico - informou ela tranqilamente, e Smitty ficou satisfeito por que ela usou uma palavra valiosa: - Um pouco de Melville, 
um pouco de Twain, e a nova biografia de Kennedy e Nixon. E tambm William Blake. 
       - O que, de Melville? - Zophar estava desconfiado. 
       - Billy Budd. 
       O colunista sorriu: 
       - "Deus abenoe o Capito"... Como era o nome dele? 
       - "Deus abenoe o Capito Vere"... foram as ltimas palavras do marujo - replicou Marilee sem se alterar. Smitty sentiu uma onda de orgulho; a turma que trabalhava 
com James Smith no tinha instruo superior. Mas que diabos estaria Ericson fazendo, lendo esses velhos romances, quando havia tanto dever de casa presidencial 
a ser feito? 
       - No queremos tomar muito do seu tempo, Sr. Zophar - disse Hennessy. 
       - E eu no quero tomar nenhum tempo de vocs - replicou o colunista. - Gostaria de falar com o Presidente sobre um assunto da maior gravidade, 
       - Marilee nos contou um pouco do que voc desejava saber, Sam - disse Smitty. - Poderia explanar um pouco alm? 
       - No respondeu Zophar. - Eu o respeito, Smitty, e  por isso que estou aqui, mas  simplesmente fundamental que eu veja o Presidente. 
       - Isso no  impossvel - falou o Secretrio de Imprensa - e quero lhe assegurar que todos compreendemos que voc no pediria uma entrevista para tratar de 
assunto sem importncia. Ficamos gratos, tambm, pela oportunidade de comprovar uma histria. No caso de a sua dica ser errada, isso evitar situaes embaraosas 
para todos. 
       - Eu no lido com "dicas". Minhas informaes so reais, no sofro o risco de ficar embaraado, e no vim aqui para passear. 
       Smitty permaneceu frio: 
       - Voei seis milhas para comparecer a esta reunio, Sam, e eu ficaria bem melhor aos olhos do meu chefe se tivesse alguma indicao... 
       - Foi esse o papel que a Senhorita Pinckney representou ontem para mim, e j estou farto dele. Se voc vai ficar bem ou mal no  problema meu. Vou falar 
com o Presidente agora, esta noite, ou devo publicar a histria conforme a recebi? 

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       - Se eu fosse voc, Smitty - disse Hennessy com a voz firmemente controlada - daria primeiro um chute na bunda desse cavalheiro para expuls-lo imediatamente 
da Casa Branca. Depois lhe diria que os trs ou quatro alcagetes que sabemos serem suas fontes nesta Administrao... incluindo Lucas Cartwright... sero convidados 
a deixar de ser seus informantes. E ele j pode saber que no vai mais ser convidado para jantares oficiais e festinhas ntimas, inacessveis a colunistas, que ele 
gosta de freqentar. Eu lhe diria, usando as imortais palavras de Thomas Jefferson: "Publique e v pro diabo que o carregue!" 
       - Felizmente voc no  o secretrio de imprensa - disse Smitty a Hennessy, com um olhar severo. - O Sr. Zophar est nos fazendo um favor por estar aqui, 
e se no pode trat-lo com civili... 
       - Ah, pelo amor de Deus! - exclamou Zophar. - Acabem com essa palhaada de mocinho e bandido. J vi essa pea encenada aqui mesmo, nesta sala, uma dzia de 
vezes, e muito mais bem representada. Vocs vo ou no me facilitar as coisas? 
       Hennessy surpreendeu Smitty ao sorrir cordialmente para Zophar. 
       - Voc est igual a um velho juiz que conheci em Nova York. Era advogado divorcista antes de ser nomeado. Jamais consegui arrancar-lhe um nquel. Por falar 
em velha-guarda: por onde anda aquele velho sacana do Arthur Leigh? 
       - Encontrei-o ainda outro dia - disse inocentemente o colunista - muito por acaso. Parecia, porm, meio por fora. (Smitty admirou a forma por que Zophar protegia 
sua fonte, confessando seu encontro com Leight para o caso de terem sido vistos juntos - contudo inocentando-o como improdutivo.) 
       - Olhe, Sam - disse Smitty, dando a impresso de capitular. - Por que voc no nos conta tudo o que sabe da histria que vai revelar, e ento veremos o que 
se pode fazer? 
       - Os Soviticos arrancaram algumas informaes de Harry Bok - explicou Zophar. - Informaes que, se conhecidas na ocasio da sesso do Gabinete sobre a incapacidade 
do Presidente, teriam resultado na proclamao de que o Presidente estava incapacitado e na nomeao do Vice-Presidente como Presidente Interino. Isso porque as 
informaes extradas do Sr. Bok eram simplesmente capazes de provocar um escndalo. 
       - Uma rpida pergunta - disse Hennessy. - Voc falou a Marilee que alguns membros do Gabinete j estavam a par da notcia? 
       - Eu disse isso a ela? Devo ter ficado atnito pelos seus encantos. Como , vou conseguir falar com o Presidente ou no? 
       - Fique aqui com a Marilee - falou Hennessy. - Smitty e eu voltaremos j. 

Pg 355 
       Smitty ouviu as opinies de Hennessy no vestbulo, entre a sala secretrio de imprensa e o Salo Oval, e depois foi ao encontro Presidente, que aguardava 
com Melinda e Harry Bok, 
       - Detesto passar a perna na exclusiva de algum, Sr. Presidente - disse Smitty a Ericson, sentado atrs da mesa, pondo os dedos para cima, - Mas acho que 
ele tem a histria, e seria melhor o senhor contar ao povo americano  sua moda. 
       - Hennessy est a com voc? - o Presidente no ficou alegre som a notcia de Smitty. 
       - Estou bem aqui. Sobre o caso de alguns membros do Gabinete saberem: Zophar no confirmou, talvez no seja verdade. Ele usou a palavra "escndalo" com muita 
nfase. Acho que voc seria louco se esperasse, a menos que esteja encontrando dificuldades em conseguir preparar-se para o discurso. 
       - Ele acabou de nos dar uma demonstrao - disse Melinda. - Precisa s de uns retoques para o Presidente estar pronto. 
       - Sr. Presidente - disse Smitty dolorosamente - no vejo a coisa da mesma forma que Hennessy. No creio seja importante saber que droga de histria o Zophar 
tem. Mesmo que fosse uma coisa inteiramente diferente, o senhor tem de contar a verdade a respeito da sua cegueira.  a nica coisa certa a fazer. Eu, por exemplo, 
no poderia trabalhar a seu favor l fora, naquele covil de lobos, sabendo que o senhor estava vivendo uma mentira. 
       - No quer encostar uma arma na cabea dele, "seu" merda? - bufou Hennessy. Para o Presidente, acrescentou: - Ele s disse isso para que conste no seu futuro 
livro de memrias. E assim no vale. Tem de decidir o que  mais prtico para se fazer agora. 
       - Se eu pudesse escolher - disse o Presidente, aps pensar um pouco - no faria o discurso agora. Daqui a umas duas semanas, e sob as circunstncias certas, 
eu o faria melhor. - Pausa. - Estamos entrando em pnico e com base em bem pouca informao: no gosto disso. - Outra pausa. - Sabem por que vou faz-lo? Pela razo 
que me deu medo o tempo todo: porque o discurso est pronto; estou com ele na cabea; estou animado e no me animarei facilmente de novo. Alm disso, nunca fui grande 
jogador, mas gostaria de lanar os dados aps sacudi-los na mo o dia todo - Ericson no terminara ainda, e Smitty no se aproximou do telefone. - Por tudo isso, 
e tambm porque seria difcil  bea para mim contrariar todos os conselhos de vocs. No existe absolutamente nada me afastando disto, e o impulso est mais ou 
menos me empolgando. No  assim que gosto de tomar decises. - Smitty sabia que todo mundo na sala estava sem graa, mas s vezes um homem tem de ser obrigado a 
fazer o que  certo. - Mas nem sempre consigo fazer o que gosto. Portanto, prosseguiremos. Todo mundo v fazer o que tem de ser 

Pg 356 
feito para armar o esquema, e eu atuarei. Hank e eu trabalharemos aqui. 
       Smitty achou que Ericson tinha sorte em possuir um chefe da Casa Civil - mesmo sendo Hennessy - que podia elaborar uma deciso quando o chefo se sentia relutante 
em tom-la. Ele tinha certeza de que Ericson se mostraria  altura dos fatos, e se- apressou em ir dizer a Zophar que sua histria fora passada para trs. Era uma 
pena quanto  exclusividade, mas o Presidente decidira falar na TV. 


O APARELHO DE TELEVISO 
       
       O aparelho de televiso com quatro telas, cada uma focalizando uma rede de emissoras, aparecia na sala do secretrio de imprensa naquela noite com a mesma 
imagem: a Casa Branca superiluminada, vista das fontes do gramado fronteiro. As vozes nas telas eram diferentes, e misturavam diferentes verses sobre o mesmo motivo 
de pasmo. 
       - ... h somente trs horas atrs, quando o Secretrio de Imprensa do Presidente pediu este horrio para o que ele descreveu como uma "importante alocuo 
pessoal". Este ser o primeiro discurso preparado feito pelo Presidente Ericson desde a emboscada em Yalta, h seis semanas atrs... 
       "... nenhuma publicao prvia de um texto; na verdade pode no haver nenhum texto, pois este  o primeiro discurso de um Presidente que est incapacitado 
de ler. O Presidente tem andado em relativa recluso nas ltimas horas. Os nicos membros do estafe a v-lo foram o Doutor Henry Fowler, o psiclogo cego que o ajudou 
a preparar sua apresentao, e sua fotgrafa oficial, Buffie Masterson, que registrou alguns momentos histricos antes deste histrico 'primeiro'... 
       "... somente especulaes, mas disso h bastante. Alguns dizem que o Presidente foi profundamente afetado pelo aparente suicdio do seu mdico pessoal, o 
Doutor Herbert Abelson. A Casa Branca tem sugerido que a morte pode ter sido o resultado de uma superdose acidental de remdios. Por que o mdico do Presidente tiraria 
a prpria vida, se foi isso o que ele fez? A pergunta est nas bocas do corpo jornalstico reunido aqui esta noite. Existem tambm conjeturas de que este pode ser 
o momento em que o Presidente Ericson resolveu renunciar de acordo com as clusulas da Vigsima Quinta Emenda, agora que se abandonaram as presses para retir-lo 
do Gabinete. A teoria  que, tendo resistido vitoriosamente contra seu afastamento, ele talvez agora esteja pronto para sair, de espontnea vontade... 

Pg 357
       "... e senhores: o Presidente dos Estados Unidos. 
       As quatro trilhas sonoras se fundiram em uma s, e a voz de Svn Ericson disse: 
       - Boa noite, meus concidados. - As quatro cabeas de um homem, cada um com um colorido ligeiramente diferente, surgiram no conhecido cenrio do Salo Oval, 
por trs da mesa e  frente das cortinas, com bandeiras  esquerda e  direita, sem retratos de famlia nem outros pontos que desviassem a ateno, pois Ericson 
no tinha famlia para mostrar. 
       "Esta  a primeira oportunidade que tenho de conversar com vocs desde o assassinato do Secretrio-Geral Kolkov, h seis semanas. 
       "Desde aquele dia trgico me venho recuperando do ataque. Tenho me adaptado  cegueira que o ataque provocou. Realizei uma coletiva com a imprensa para responder 
s perguntas mais prementes. E tenho lutado para proteger a presidncia contra um confisco sem precedentes dos seus poderes. 
       "Agora, finalmente, posso comparecer diante de vocs para discutir um assunto pessoal do passado, e para revelar nova iniciativa que afetar o futuro. 
       "Deixem-me primeiro explicar como estou fazendo este discurso. Este pequeno aparelho na minha orelha no  um aparelho auditivo - no h nada errado com minha 
audio, graas a Deus -  um minsculo fone de cabea ligado ao gravador aqui da mesa. De vez em quando vou apertar um boto que tocar para mim uma gravao de 
minha prpria voz, feita hoje, resumindo o que desejo dizer. Farei uma pausa de alguns segundos, ouvirei minhas anotaes e depois prosseguirei falando de improviso. 
No  refinamento: estou agindo desta forma para no esquecer de nada que lhes desejo dizer, e que precisem ouvir. Portanto, quando me virem fazendo uma pausa, ser 
para escutar minhas anotaes. 
       A cmara do pool mostrou o gravador em cima da mesa, e o dedo do Presidente tocando nele durante trs segundos. Na sala do secretrio de imprensa, Smitty 
disse: 
       - Isso  bom: ele est interessando todo mundo no processamento do discurso. No est escondendo coisa alguma. 
       Sua substituta, assistindo junto com ele, sacudiu a cabea: 
       - Isso  apelo emocional. No  do estilo de Ericson. 
       - Primeiro, e resumidamente, as ms notcias. Muitos de vocs tm me mandado cartas e gravaes com preces... pelo que serei sempre grato. Porm meus mdicos 
me dizem no haver nenhuma evidncia que me d esperana de recuperar a viso. Como um 

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milho e meio de outros americanos, estou cego, e devo ficar assim pelo resto da vida. 
       "J no luto contra a idia. No tenho pena de mim mesmo, e a ltima coisa que desejo  que algum tenha pena de mim. Ser um teste para meu prprio carter 
aprender a viver com a cegueira; e ser um teste do carter nacional que o povo americano aprenda a conviver com um Presidente cego. Juntos, passaremos por esses 
testes. 
       "Houve, porm, um momento em que eu talvez tenha falhado nesse teste, e quero falar-lhes a respeito. Mostra como  importante encarar os fatos, independente 
de quo desagradveis eles possam ser. Aprendi uma lio com esse episdio, lio que me foi proveitosa nas ltimas semanas, e quero compartilh-la com vocs. 
       Na sala, Smitty disse: 
       - A vem. - Marilee suspirou: 
       - Jonathan armou bem a coisa. 
       - Durante a campanha de eleio no ano passado, fiz, num velho trem, um circuito de paradas em Ohio. Foi um recurso publicitrio, como se diz em campanhas... 
como o feito pelos partidrios de Lincoln e que disseram que ele estragou, coisa que jamais fez. Foi algo de limpa e tradicional alegria... mas houve um acidente 
no trem. Como alguns de vocs devem lembrar-se, e divulgamos na ocasio, quando o trem fez uma parada perto de Lima, perdo, pronncia de Laima, fui atirado contra 
um anteparo e sofri uma leve concusso. 
       "Anunciamos que eu tinha sido 'posto a nocaute', o que no deixava de ser verdade. Houve outra coisa, porm, que no foi revelada: mais ou menos durante um 
dia aps eu haver batido com a cabea, fiquei sem enxergar. No me ocorreu que ficara temporariamente cego; pareceu-me apenas que estava demorando muito para recuperar 
totalmente a percepo. Assim, nada divulgamos sobre o caso, e ficamos aguardando para ver, na prpria acepo da palavra. E foi o que ocorreu: aps mais ou menos 
um dia, meus olhos estavam bons de novo. 
       Smitty: 
       - Marilee, o que  que voc acha? 
       - Nossa! Eu no sabia dessa! Pobre homem! 
       - Em retrospecto, suponho que meus auxiliares deveriam ter divulgado que eu perdera a viso durante algumas horas. Porm, francamente, recusei-me a encarar 
o fato. Recusei-me a crer que no fazia parte do processo de receber uma pancada e ver estrelas. E aguardei, e nada mais disse a respeito quando recobrei a viso. 

Pg 359
       "Bem, aprendi minha lio. Com o benefcio d percepo tardia do fato, posso dizer isto:  importante encarar o fato da cegueira, dizer a verdade a respeito 
dela, e ento triunfar sobre ela. E  por isso que lhes estou contando tudo isso esta noite; os que me podem estar apoiando, na esperana de que minha viso voltar, 
ponham essa esperana de lado. Aprendi a viver com a cegueira, e vocs devem fazer o mesmo. 
       A cmara enquadrou a mo do Presidente usando o gravador com suas anotaes. Smitty olhou para Marilee: 
       - Ele inverteu o quadro todo; no  nenhum escndalo:  uma lio. Ah, aquele garoto redator, se foi idia dele, o homem  bom pra danar. No estava desse 
jeito no rascunho que eu li: comeava com uma confisso 
       Marilee, de olhos cheios dgua postos nas telas, gesticulou para que se calasse. 
       - Aps a emboscada em Yalta no ms passado, enquanto eu estava inconsciente, meu pessoal nada contou aos soviticos acerca da minha perda de viso. Isso mostrou 
bom senso, j que o objetivo bsico era tirar a comitiva presidencial da zona de perigo e traz-la de volta ao solo americano o mais depressa possvel. 
       "Aps recobrar a conscincia, no Air Force One, percebi que no enxergava. Mandei que meu pessoal mantivesse a cegueira em segredo por enquanto. Eu no queria 
que alguma potncia estrangeira pensasse que os Estados Unidos estavam incapazes de reagir a uma ameaa. Eu tinha razo em fazer isso. Talvez eu tenha errado, por 
no confidenciar aos meus mdicos a concusso do ano passado. No entanto, naquele momento, a cegueira anterior no parecia to pertinente. Meu pessoal e eu nos preocupamos, 
em primeirssimo lugar, em assegurar que a nao e o mundo soubessem que o Presidente dos Estados Unidos estava bem o bastante para tomar certas decises, e, se 
necessrio, repelir qualquer ataque. 
       "Naqueles momentos cruciais a nao e eu tivemos a felicidade de contar com dois grandes servidores pblicos me assistindo: George Curtice, o Secretrio de 
Estado, e Lucas Cartwright, que era ento meu chefe da Casa Civil e  agora Secretrio de Defesa. Esses dois homens foram muralhas de fora em Yalta. Hoje eles so 
as autoridades mais importantes de Gabinete do pas. - Ele acionou o gravador para ouvir as anotaes. 
       "Aps consult-los mandei, esta tarde, que estendessem um convite ao novo Primeiro-Ministro da Unio Sovitica, Vasily Nikolayev, atravs de canais diplomticos 
normais. O governo dos Estados Unidos est preparado para reatar negociaes no ponto em que foram tragicamente interrompidas em Yalta. Nossa sugesto  que essas 
conversas vitais tenham lugar em Washington em futuro prximo,

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possivelmente perto do Dia do Trabalho. Deixem-me acrescentar isto, meus concidados: a Administrao Ericson est pronta, disposta e capaz de conduzir essas negociaes. 
- Ele operou novamente o retrocesso do gravador. 
       Smitty balanou a cabea, preocupado: 
       - Ele est embromando: os russos ainda no responderam  sondagem; ele a fez somente esta tarde. Precisava de uma frente. 
       Marilee rejeitou a frase de Smitty: 
       - No  nada demais. Nikolayev vir um dia desses. O Presidente no se arriscaria assim, sem saber. - O momento com o gravador acabou. 
       - Permitam-me agora tocar num assunto pessoal. Tive de fazer a mim mesmo uma pergunta muito sria e profunda h no muito tempo atrs. A pergunta era essa: 
O que seria melhor para o povo americano, a minha sada ou a minha continuao? 
       'Muitos homens e mulheres de boas intenes e sensatos me ressaltaram que nenhuma pessoa  indispensvel. Certamente no tenho iluses de grandeza nem sede 
de poder. Fui eleito para fazer o que for melhor para a nao, no o que for melhor para mim. E considerei cuidadosamente o argumento de que uma outra pessoa, no 
gozo de todas as suas faculdades, seria mais capaz como Presidente do que eu, que no tenho a faculdade da viso. 
       "Enquanto eu refletia sobre isso, houve um movimento para me destituir, para usurpar minha autoridade constitucional, atravs do uso sem precedentes de uma 
nova emenda at ento nunca utilizada. No tive dvida de que o rumo certo era o de resistir a essa tentativa de golpe. Como Presidente no podia permitir que me 
expulsassem do cargo, o que conseqentemente o enfraqueceria em definitivo. No foi para isso que fui eleito. 
       "Entretanto, agora que a crise passou, tive de estudar o caso de novo. Sem presso, sem coao - o que  melhor? Alguns versos de John Milton, no poema pico 
Samson Agonistes me foram relembrados. O cego Sanso, na agonia de seu cativeiro, implorou alguma forma pela qual ainda pudesse ser capaz de servir ao seu povo. 
- O Presidente escutou as anotaes e ento falou: 
       "Agora cego, desalentado, envergonhado, desonrado, subjugado, 
       Em que posso ser til, como servir 
        minha nao... 
       "Deus atendeu ao brado de Sanso e lhe devolveu a fora para confrontar seus inimigos, para fazer seu sacrifcio, para libertar seu povo. 

Pg 361
       "No sou Sanso, inclinado  destruio. E no tenho o gnio de Milton. Todavia, sei que o povo americano elegeu um homem, um ser humano para Presidente. 
No um computador com memria infalvel; no um gerente, com algum mtodo supremamente eficiente; nem uma guia, com olhos de guia. Vocs elegem um homem, com seus 
defeitos e fraquezas, e seu carter; porm, o mais importante de tudo, vocs elegem um homem que pode - todos esperamos - crescer junto com sua funo, grande demais 
para qualquer homem que ainda no a tenha exercido. 
       "Acredito, no estou certo, mas acredito, que bem posso estar a caminho de ser esse homem. A emboscada em Yalta custou-me a viso, mas talvez me tenha dado 
uma percepo com que talvez, de outra forma, eu jamais tivesse sido aquinhoado. 
       "Por isso  que vou prosseguir. Este cargo, esta Casa Branca, tm sido ocupados por homens atormentados, por homens aleijados, por homens que venceram grandes 
empecilhos nas suas vidas. 
       "Ao relembrar as ltimas semanas, compreendo agora que minha cegueira, minha cegueira permanente, no foi minha maior deficincia; meu maior obstculo foi 
a minha prpria incerteza: saber ao certo se permanecer no cargo era a atitude correta. 
       "Posso no enxergar, o que  problema tcnico, mas j no sou deficiente. Com a ajuda de Deus, com a ajuda de vocs, sei agora que posso cumprir a misso 
para a qual vocs me elegeram. E tenciono seriamente cumpri-la. 
       "Obrigado e boa noite." 
       O Presidente retirou o fone de ouvido e o colocou na mesa, perto do gravador. Tirou os culos e os ps tambm na mesa, inclinando-se bem para trs na enorme 
cadeira. As quatro telas do aparelho de televiso desviaram-se da imagem do Presidente e focalizaram os objetos em cima da mesa, enquadrando-os, em silncio, durante 
quase trinta segundos. 
       Smitty assoou o nariz: 
       - Porra, ele conseguiu! Eu sabia que conseguiria. Eu sabia ser a coisa certa a fazer! 
       Marilee, com os polegares apertou as lgrimas que caam e depois procurou o leno, para enxug-las: 
       - Estou to orgulhosa! Nunca fiquei to orgulhosa! 
       Smitty aumentou o som de um dos canais, e cortou o dos outros. O reprter que resumia o discurso, ao reconhecer seu contedo emocional usou um tom de voz 
respeitoso: 
       - ... misturou as ms notcias da natureza permanente de sua cegueira com as boas notcias da continuao das negociaes com a Unio Sovitica, provavelmente 
no comeo de outono. 

Pg 362 
Ele tambm revelou um fato do qual no tnhamos conhecimento: que durante a campanha de eleio no ano passado um acidente o cegou durante uns dois dias, e que a 
divulgao dessa cegueira prvia foi abafada. - Virou-se para alguns analistas, que comearam a dissecar as possibilidades de outra reunio de cpula. 
       - Estas no so sugestes feitas por alto - disse um. - Um convite para reunio de cpula nunca  feito publicamente a menos que haja sido aceito particularmente. 
       - Puxa! - grunhiu Smitty, mudando de canal. Em toda parte a reao era em surdina, como se a televiso aguardasse uma dica dos jornais matutinos sobre como 
divulgar as notcias. Polticos abordados para fazer comentrios mostravam-se reservados, tambm, exaltando a coragem do Presidente, embora julgando cautelosamente 
o "episdio do trem de campanha", como j comeava a ser chamado. Reprteres disseram que no ouviram comentrio algum da Comisso para Substituir o Presidente incapacitado, 
"que evidentemente fora apanhada de surpresa", e T. Roy Bannerman estaria em Londres a negcios. O correspondente de uma rede de TV na Casa Branca declarou que soubera 
que o chefe da Casa Civil do Presidente, Mark Hennessy, se opusera a quaisquer revelaes no discurso, mas que "pelo menos um membro" do estafe do Presidente ameaara 
renunciar, a menos que a verdade viesse a pblico. As telas encheram-se com outros comentrios cautelosos at as nove e meia, e voltaram  sua programao normal. 
       Na sala com as quatro telas escurecidas, a famlia oficial do Presidente reuniu-se no-oficialmente a fim de comparar reaes. Melinda McPhee foi a primeira 
a se reunir a Smitty e Marilee, seguida por Hennessy, 
       - Ele botou pra fora! - comentou Melinda, maravilhada. - No soou to mal... Ou estou maluca? 
       - Quando se faz o que  certo - disse o Secretrio de Imprensa, com os ps na mesa - no se pode estar errado. Hoje at o Hennessy concordar com isso. 
       O chefe da Casa Civil estava exultante, mas no arrebatado: 
       - Voc aparece com uma boa desculpa por no dizer nada durante seis semanas; voc mantm o auditrio preso pela forma com que apresenta o discurso, com truques 
de audio-rpida, e eles no entendem direito o que est dizendo; voc embaralha uma deciso de no dizer que estava cego no trem de campanha e, rpido como um 
coelho, culmina com um comunicado sobre relaes exteriores; voc apela para o sentimento, dizendo que ser cego a vida inteira e usa isso como contraponto para 
apagar a falha de no revelar a verdade antes das eleies. Faa tudo isso, Smitty, e no poder estar errado. 

Pg 363
       - Nossa - disse Marilee - esse discurso no foi o que eu ouvi... 
       Smitty rejeitou o aparte: 
       - A gente acertou em cheio. Entre, Buffie: devemos registrar para a posteridade a feliz foto do estafe do Presidente no momento do seu maior triunfo. 
       Buffie se movimentou pela sala do Secretrio de Imprensa, captando algumas fotos "espontneas" autoconscientes, enquanto eles falavam. 
       - Onde est o Irmo Jonathan? - perguntou Melinda. - Algum devia dar um tapinha nas costas do garoto. - Marilee apanhou o telefone para descobrir onde estava 
ele. 
       - Sam Zophar deve ter ficado roxo - disse Smitty - por ter um furo mundial arrancado de suas mos. 
       - Gostei daquela do Sanso - admitiu Hennessy. - Um Presidente cego citando um poeta cego a respeito de um heri bblico cego; essa foi grande! 
       - Sem dvida maior do que um chimpanz-guia - resmungou Buffie irrelevantemente. 
       - Se j terminou o papo furado - Smitty falou para sua substituta - v  sala de imprensa e diga-lhes que estamos sendo asfixiados por telegramas, e que a 
mesa telefnica da Casa Branca no consegue dar conta dos chamados. 
       - Mas os telegramas foram desativados no ano passado - protestou Marilee. 
       - ... Bem, o principal  frisar que a mesa telefnica est realmente ocupada. 
       -  melhor eu falar com a telefonista... 
       - Puxa vida, Marilee! - explodiu Smitty benevolentemente. - Nunca houve um discurso presidencial, desde que Franklin Delano Roosevelt comeou a usar o rdio, 
que no fosse seguido por uma avalancha de telefonemas. A desgraada da mesa telefnica da Casa Branca foi feita para ficar congestionada aps um discurso. V at 
a sala de imprensa e diga que a mesa telefnica est congestionada, seno eles vo pensar que ningum viu o programa. 
       Marilee foi cumprir sua misso, e passou por Harry Bok no vestbulo quando era empurrado pela enfermeira alta e silenciosa. Harry encaminhou-se  sala de 
Smitty, olhou as telas sem imagem e o grupo risonho, e perguntou: 
       - Quem est com o Homem? 

Pg 364 
       - Pensei que fosse voc - disse Hennessy. - Acho bom a gente lhe dizer como ele esteve timo, seno vai pensar que fracassou de novo. 
       O advogado caminhou pelo saguo. Harry Bok olhou para Melinda, sorriu de lado para Buffie, que o fotografava, e fez sinal  enfermeira Kellgren para que o 
empurrasse atrs de Hennessy, rumo s dependncias do Presidente. 


O COLUNISTA/2 
       
       Samuel Zophar apertou o controle remoto que desligava o aparelho de televiso. Levantou-se e colocou o controle em cima do aparelho onde poderia ach-lo novamente 
sem os culos, mas se perguntou por que usava aquilo, afinal, j que tinha de se afastar e aproximar do aparelho. O dispositivo talvez se justificasse porque dava 
a algum a deciso de poder controlar a programao. 
       Ericson estava se transformando num Presidente, isso ele tinha de admitir. Nem todo homem que foi eleito Presidente se tornou um Presidente, porm Sven Ericson 
tinha o carter e a astcia necessrios - de leo e de raposa - para se habilitar. Pareceu ao colunista que o discurso fora elaborado com extraordinrio cuidado, 
apresentado com vacilante percia - exemplo do uso poderoso da comunicao em massa na liderana poltica. Entretanto, quando Zophar trabalhava numa coluna com igual 
cuidado, sua percia era geralmente para encobrir o que ele no sabia, ou para semear uma idia casualmente,  qual pudesse voltar meses depois, quando anunciara 
que chegara, com sua perspiccia,  frente do resto da turma. Zophar suspeitou que havia alguma coisa no discurso de Ericson que no batia bem no ouvido. 
       O colunista estava irritado com o Presidente por no o ter recebido, mas deixou isso de lado; obviamente o homem planejara esse discurso durante os ltimos 
dias, e se Zophar estivesse no lugar do Presidente, preparando uma bomba caseira, no daria entrevista a colunista algum a respeito de um assunto de relaes exteriores. 
Todavia, um elemento de falsidade escondia-se no momento da verdade de Ericson - ele tomou nota dessa frase - porm ele no conseguia captar o que fosse. 
       Para Zophar, o episdio no trem da campanha era de menor importncia. Poder-se-ia admitir falha na revelao da verdade total quanto ao estado de sade do 
candidato antes das eleies, porm somente imbecis acreditariam nisso. A dbia afirmao de Ericson de que no sabia quando se apercebera do assunto, verdade ou 
no, 

Pg 365
dava cobertura ao Presidente nesse ponto - abrir os olhos no faz parte do acordo? No, a parte falsa devia ter algo a ver com grandes acontecimentos, com a nova 
iniciativa junto aos soviticos. Era essa moeda que um crebro ctico teria de morder. 
       Ele pegou o bloco branco pautado de anotaes e escreveu os fatos que conhecia. 
       De Gregor, o agente sovitico, sabia o fato real - ou a alegao convincente - de que Harry Bok, do Servio Secreto dos Estados Unidos, revelara uma fraude 
fantstica dos americanos contra os russos, que Kolkov fora transformado num heri que no era e que Vasily Nikolayev fazia parte do embuste americano para retratar 
Kolkov como tendo sacrificado a vida para salvar a de Ericson. 
       Depois, de sua prpria deduo, Zophar conhecia o fato superficial - ou conjetura promissora - de que uma faco do Kremlin lutava ativamente para derrubar 
Nikolayev naquele instante, e mandara Gregor difundir a histria junto  imprensa ocidental. 
       Terceiro: pelo discurso de Ericson ele via o contrrio - deduzido de longa experincia - que os soviticos haviam concordado informalmente em mandar Nikolayev 
aos Estados Unidos a fim de continuar as negociaes, o que significava que o antigo Ministro de Relaes Exteriores estava firme na sela. 
       Zophar sublinhou essa frase e olhou para a pgina durante longo tempo. No, no havia forma de esses fatos se encaixarem, se a histria de Gregor tivesse, 
pelo menos, alguma verdade. Virou uma pgina em branco e escreveu algumas perguntas. 
       Por que Ericson se esforara para agradar Curtice e Cartwright? Cartwright mostrara-se leal durante a crise do Gabinete, mas Curtice no - devia haver alguma 
coisa unindo os dois homens alm dos assuntos nacionais, o que fez Ericson desejar lig-los a ele. 
       Por que Gregor no estava disposto a mostrar-lhe alguma prova concludente? O agente sovitico tinha alguns fatos; disso o colunista tinha certeza - a coisa 
precisava ser arrancada dele, O provvel tpico era uma fita gravada com as revelaes de Bok sob hipnose ou ao de drogas. 
       O colunista sublinhou outra linha. Que poderia ele fazer para verificar os fatos em seu poder? Primeiro: podia certificar-se de que os soviticos haviam concordado 
em mandar Nikolayev por volta do Dia do Trabalho, e talvez descobrir tambm por que se passou tanto tempo entre o comunicado e a conferncia. Depois ele poderia 
apoiar-se em Gregor. 
       Zophar consultou seu caderninho de endereos, bojudo fichrio de couro com folhas soltas, entulhado de nmeros, ocorrncias, historietas e lembretes de nomes 
de esposas, e ligou para a casa de um ex-Secretrio de Estado. O velho amigo seria capaz de descobrir, 

Pg 366 
naquela noite, um pouco do que Zophar precisava saber; e o ex-Secretrio devia certas coisas ao colunista. Aps a ligao, com seu pedido encaminhado, Zophar dirigiu-se 
a Gregor. 
       - Preciso falar com voc aqui e agora disse com premncia ao russo, pelo telefone. - Sua reputao profissional depende disso. J sabe o endereo. Venha. 
- E desligou. Quem estivesse gravando as conversas de Gregor que desvendasse essa. 
       A primeira de suas iscas a produzir uma fisgada foi atravs do ex-Secretrio de Estado: 
       - Samuel, parece que houve apenas uma pequena confuso com o convite para a reunio de cpula. - O colunista sabia que nada agitava o velho cavalheiro: seis 
anos de Gabinete deram para ver tudo. - Habitualmente, ou pelo menos na ausncia de um conselheiro de segurana nacional, nosso homem em Moscou sonda seu equivalente 
sobre um convite, para ter certeza de que ser recebido favoravelmente. Parece que isso no aconteceu neste caso, e ningum do Servio Secreto sabe que droga os 
russos vo dizer. Ou Ericson se precipitou... o que no  do seu estilo... ou teve uma conversa semiparticular com Nikolayev pelo telefone vermelho. 
       - Nesse caso - disse Zophar - o Conselho de Segurana Nacional saberia e informaria ao Diretor da CIA. 
       - Certo. Sabe, vocs esto bem informados! Verifiquei isso, e o Diretor da CIA no sabe nada a respeito de ligaes pelo telefone vermelho nas ltimas semanas. 
Pode ser que o Presidente esteja forando a barra ou que simplesmente presuma que seu convite ser aceito, baseado em alguma mensagem intermediria no-oficial. 
       s onze e meia, cerca de duas horas do trmino do discurso de Ericson, Gregor apareceu na casa de Zophar. O colunista serviu lentamente um conhaque, lanou 
um olhar furioso, acendeu um cigarro, olhou zangado de novo, e, num tom ameaador, declarou: 
       - Foi uma sorte dos infernos eu no ter confiado em voc. 
       Gregor no recuou: 
       - Minha informao  precisa. 
       - O Presidente dos Estados Unidos - falou Zophar, acentuando as slabas - acaba de comparecer diante do mundo e demonstrar que sua informao no passou de 
besteira. A faco contra-revolucionria que voc evidentemente representa, Gregor, foi esmagada. Nikolayev est to firme no comando que se pode dar ao luxo de 
sair do Kremlin e vir  Amrica. Somente meu bom senso e meu ceticismo natural quanto a informaes no-comprovadas evitaram que eu usasse a sua falsa informao. 
Isso quer dizer que mantive minha reputao, e voc a vida. 
       - Voc est to seguro de que tem razo - disse Gregor. 

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       - Prove o contrrio. 
       - Neste momento - falou lentamente o agente Sovitico - Nikolayev se acha na priso de Lubyanka. Foi destitudo de todos os acue poderes e est sendo preparado 
para um julgamento. 
       Zophar sentiu o peito latejar diante da sbita posse de uma informao exclusiva e em seguida uma descontrao, ao considerar a probabilidade de estar errada. 
Assumiu um olhar entediado. 
       - Voc conta histrias fantsticas, meu amigo. Eu gostaria que mc desse uma base com que prosseguir. 
       - Voc no confirmou isso junto ao Presidente? Foi  Casa Branca duas vezes hoje... que foi que ele lhe disse? Ele no confessou que a histria de que Kolkov 
lhe salvou a vida foi um embuste? 
       - O Presidente... - Zophar pretendia elucidar a si mesmo. - No tenho a liberdade de dizer o que ele me contou, alm de afirmar que tudo o que me foi dito 
por voc  mentira. Nada confere. Jamais acreditarei em voc novamente, meu bom homem, e tambm nunca mais... 
       Gregor cedeu, ou fingiu que sim. Nada de dramtico, nada de baixar os ombros ou pendurar a cabea - apenas uma piscada perceptvel de olho e um leve sorriso. 
Ele foi at o saguo, onde deixava a capa de chuva, e voltou com um pequeno gravador. 
       - Tenho duas fitas aqui. Est familiarizado com a voz do agente Harry Bok? 
       - No. 
       - No importa; no  a fita importante. Ele est drogado, e quem sabe o que um homem pode dizer quando est drogado? A fita agora no aparelho  a do quarto 
de hospital do agente Bok, quando era visitado pelo seu Secretrio de Estado e por Lucas Cartwright. Est familiarizado com as vozes deles, claro. 
       -  lgico. 
       - Use o fone de ouvido - disse Gregor. 
       - No gosto dessas coisas. Ligue o gravador bem alto, e pronto. 
       - Use o fone de ouvido; de outra forma no  fcil escutar - Zophar sabia que Gregor julgava que a sala, esta sala, estava aparelhada com microfones ocultos, 
e no queria uma gravao feita da sua gravao. Homem desprezvel! Ele ps o fone de ouvido, fez uma careta para a msica de fundo, escutou tudo de uma vez s, e 
pediu que tocasse de novo. Na segunda vez ele entendeu no apenas as vozes como tambm muitas das palavras. 
       Bok: A eu o arrastei para fora dos destroos... estabeleci um permetro... rosto chins, bem no meio dos olhos... o cara com 

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a arma pipocando acertou... granadas me acertaram, mataram Kolkov, e eu arrastei seu corpo para cima do Presidente... 
       Curtice: No teria sido possvel que Kolkov, enquanto ainda vivo, tentasse proteger o Presidente com seu prprio corpo? 
       Bok: Morto, eu acho. Arrastei-o. 
       Cartwright: Ento o Secretrio est procurando por alguma coisa que ajude a melhorar a situao. Como certo herosmo da parte de Kolkov. 
       Curtice: Uma coisa de que os russos se possam orgulhar... 
       Bok: Muito bem; pode ser que Kolkov tenha se arrastado... 
       Isso era tudo. Zophar retirou o fone de ouvido, sentindo a onda de emoo diante das notcias nas suas mos, e a sensao doentia de expor a fraude americana, 
o que beneficiaria a Unio Sovitica. 
       - Isso foi o que se pode chamar de "conduzindo a testemunha" - disse o colunista. 
       - Reconheceu as vozes de Curtice e Cartwright? 
       Triste, Zophar disse: 
       - Quanto ao Curtice no posso jurar; no o conheo to bem, mas o outro era Lucas Cartwright, a menos que voc tenha conseguido um tremendo imitador para 
trabalhar para voc. - Mandou Gregor rodar a segunda fita, em que Bok enumerava o que ocorrera. Como ele temia, a voz drogada do agente confirmava o que fora ouvido 
no quarto de hospital. A prova era to firme como qualquer uma que Zophar provavelmente conseguiria para qualquer artigo, e agora ele se achava propenso a aceitar 
mais do que Gregor tinha para oferecer. 
       - H quanto tempo Niklayev est na priso de Lubyanka? 
       - Quatro, cinco dias. 
       - E ns no sabamos? Ningum sabia? 
       Gregor sorriu. 
       - Uma falha da informao do seu lado. Olhado de outro ngulo, ningum deu a informao, pra variar. At que estivssemos prontos. 
       - O Kremlin acusar o Presidente de conspirar com Nikolayev para assassinar o Secretrio-Geral Kolkov? 
       - No, quanto a isso, mudaram de opinio. Ericson aprovou a mentira, porm no tomou parte nos planos.  de nosso interesse nos apegarmos  verdade neste 
caso. 
       O colunista balanou a cabea e se levantou. 
       - Desculpe t-lo insultado antes, mas era a nica forma de obrig-lo a falar srio. 

Pg 369
         Gregor deu de ombros:
       - Voc acha que Ericson sabe sobre Nikolayev e que o convite no seu discurso desta noite foi um truque muito inteligente? 
       Zophar, com a informao recebida mais cedo atravs do ex-Secretrio de Estado, tinha bons motivos para duvidar disso, mas no estava a fim de fornecer a 
Gregor qualquer coisa que os soviticos pudessem usar. 
       -  possvel - replicou. - Com Ericson, nunca se sabe. 
       Gregor pegou a capa de chuva e o gravador e saiu para a rua de Georgetown. Zophar,  janela, viu o carro partir. Homenzinho Inteligente, esse russo, perito 
em sobrevivncia; no era desprezvel, conforme o condenara antes, muito apressadamente. Gregor vivia num ambiente repleto da rotina da fraude, em que a meia-verdade 
era meia-norma. Os pensamentos de Zophar passaram para Lucas Cartwright, que ele conhecia e em quem confiara durante a maior parte de sua vida adulta. O que motivava 
aquele honorvel homem a abraar esse tipo de negcio? A presso deve ter sido enorme. 
       - Talvez parecesse uma boa idia, na ocasio - disse alto o colunista, e subiu para sua parede vazia e sua mquina de escrever. 


O AGENTE DO SERVIO SECRETO/4 
       
       Bok empurrou sua cadeira de rodas at o escritrio de Hennessy, e escutou o advogado dizer de cara fechada: 
       - Voc acaba de ser eleito para pr a campainha no pescoo do gato. 
       O agente olhou para Melinda McPhee, Hank Fowler e Hennessy sentados em torno da mesa no canto ao sul da Ala Oeste, e balanou a cabea. Harry calculara que 
seria o candidato lgico a ler, para o Presidente, a coluna de Zophar e os comentrios das agncias noticiosas em torno da coisa. Naquele momento, Bok se odiou - 
tudo ia to bem; houvera um dia inteiro de reaes favorveis ao discurso do Presidente, trinta e seis horas antes, e agora esse impacto da parte cega - quanto a 
um assunto diferente - talvez como resultado de algum engano que Harry Bok cometera; uma inconfidncia na qual fora participante involuntrio. Ele era uma figura 
apagada; um rosto no segundo plano das fotos dos jornais, subitamente atirado ao centro do palco. Por que ele? Harry Bok no queria aquilo; ele no era bom na coisa. 
Seu negcio era falsificao. 
       Ainda no eram 8 horas da manh daquele dia de vero intenso e de baixa umidade, que tornava a tristeza na Casa Branca ainda mais completa.

Pg 370 
Harry tirou um po doce da mesa e aguardou enquanto Melinda lhe servia uma xcara de caf; jogou dois comprimidos de sacarina e comeu outro po doce. 
       - Quando tudo isso for entendido - falou Hank Fowler suavemente - todos vero que Harry estava apenas cumprindo com seu dever naquilo que julgou melhor para 
os interesses do pas. 
       Melinda no foi to gentil: 
       - Nenhum segredo entre ns quatro, lembra-se? Foi o que o Presidente falou. Voc devia ter nos contado que o herosmo de Kolkov foi uma farsa, Harry. Talvez 
houvesse uma forma de nos prepararmos para isso. O Chefe sabia? 
       Harry no sabia se devia responder a essa. 
       - Mais ou menos - ele no se comprometeu. - Francamente, no imaginei que a situao iria dar nisso. Esse filha da puta desse colunista faz tudo parecer uma 
conspirao entre os dois pases, ou uma trama de Ericson para ajudar a manobrar o poder no Kremhn. Eu jamais vi a coisa dessa forma. No foi assim que aconteceu. 
Creio que no. Ele no podia ter certeza; o que fizera Cartwright? Ou Curtice? Ou, quanto a isso, o que fizera Ericson aps descobrir que Kolkov no era o heri 
que apresentaram? - Acho bom eu ir ler essa histria para o Presidente antes que ele ligue o rdio. 
       - Leve tambm o Sumrio de Notcias - disse Melinda, entregando-lhe o gravador e a fita cassete para a audio-dinmica do Presidente. - s quatro horas desta 
madrugada, quando o sumrio ficou completo, tinha um pacote de boas notcias. Eu at dormi bem. Escutar isso vai fazer com que ele se sinta melhor depois que voc 
ler a coluna para ele. 
       - Diga-lhe que estou a caminho - Harry impulsionou sua cadeira sozinho para o corredor. Ele dera a manh de folga  enfermeira Kellgren, e um agente o empurrara 
pela colunata at a residncia. O Presidente estava de roupas ntimas no quarto de dormir, barbeando-se, e seu entusiasmo radiante fez Harry sentir-se pior. Enquanto 
o barbeiro ficou ali ele tocou o Sumrio de Notcias para o Presidente; quando o auxiliar saiu, Harry parou a gravao e disse: - E agora as ms notcias. Parece 
que estvamos preocupados com o que no deveramos, e o que no estava nos preocupando deveria ter-nos preocupado. 
       - Quer dizer que Zophar no sabia da cegueira anterior? - Ericson armou uma carranca, que parecia dizer "eu avisei". - Muito bem, Harry, v direto ao assunto. 
       - A coluna de hoje, de Zophar ocupa o maior espao de primeira pgina - disse Harry, indo direto demais ao assunto: - Esta  a manchete: "Lder Sovitico 
Declarado Destitudo; Acusado O Conluio Nikolayev-Ericson". 

Pg 371
       - Hem?! 
       Harry leu a manchete de novo, e os primeiros pargrafos da coluna: 
       - "Vasily Nikolayev, que substituiu o assassinado Alexei Kolkov como Primeiro-Ministro sovitico h um ms atrs, provavelmente foi deposto... e possivelmente 
preso... porque seus colegas do Politburo suspeitaram que ele conspirou com o Presidente Ericson para consolidar seus poderes no Kremlin." 
       - Nossa! - exclamou Ericson. - Leia tudo. 
       Harry leu, e continuou: 
       - "Gravaes em fitas, de posse das autoridades soviticas, e que este reprter escutou, mostram que o Secretrio-Geral Kolkov no salvou heroicamente a vida 
do Presidente Ericson. Essa foi uma histria engendrada pelo Secretrio de Estado, George Curtice, aps a emboscada, e o ento Chefe da Casa Civil Lucas Cartwright, 
e obedientemente repetida pelo agente do Servio Secreto Harry Bock". - Bok parou. - Ele escreveu errado o meu nome. 
       - Pode deixar - o Presidente assegurou-lhe - voc vai ser um nome popular muito em breve. Mas j no como heri. V lendo. 
       Bok leu a coluna toda at a concluso: 
       - "Ainda no sabemos se o convite feito esta semana pelo Presidente a Nikolayev foi manobra desesperada para salvar a vida e o emprego do lder sovitico, 
ou se, embora seja bastante confuso, a Administrao Ericson ainda no percebeu que ocorre uma convulso do Kremlin. O que sabemos  isto: O Presidente, ao enaltecer 
seus auxiliares no discurso desta semana, ps o seu selo de aprovado na burla Curtice-Cartwright e uniu-se  tentativa de enganar tanto o povo dos Estados Unidos 
quanto o da Unio Sovitica." 
       - Continue lendo - ordenou Ericson, pegando o telefone e mandando a telefonista chamar Hennessy. Enquanto Harry continuava lendo, o Presidente disse: - Diga 
ao Diretor da CIA, se j estiver acordado, que desejo saber o que a agncia sabe a respeito da situao de Nikolayev: se est na cadeia ou no poder. Agora me d 
sua opinio - Escutou por um momento, ento balanou a cabea. - No, Smitty vai ter de desmarcar a reunio das onze horas porque ele no pode ter coisa alguma a 
dizer antes que eu o informe, e no sei o que informar a ele at eu saber o que est havendo com Nikolayev. Isto , para que temos a droga da CIA? Quinze bilhes 
de dlares por ano, e no sabemos quem comanda a Rssia, pelo amor de Deus! Sei... - Ele escutou, depois interrompeu: - Se eles no bolarem uma tima idia dentro 
de uma hora, vou pegar o telefone vermelho e mandar chamar pelo maioral para ver quem diabos atende. No estamos indefesos. Mande o Curtice vir  minha sala em meia 
hora, 

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e diga ao Cartwright para tirar o rabo de onde estiver, e que ambos devem ficar de boca fechada no caminho. Certo - O tom de voz do Presidente era malevolente; Harry 
sentiu o seu desamparo em no saber se a afirmao bsica de um problema urgente era verdadeira e por no poder reagir at certificar-se de que era um problema real 
que exigia uma reao Congele tudo - Ericson disse rpido a Hennessy - at eu descobrir o que h nisso de verdadeiro. A decidirei. Ningum mais dever tomar decises 
ou fazer quaisquer declaraes. Se voc puder descobrir onde Zophar colheu esse material, ajudaria muito. Sem dvida no foi do Arthur Leigh. 
       Ericson foi at onde ficavam suas roupas e comeou a vestir-se rapidamente. Alcanou confiantemente cada pea, sem pensar no treinamento, enquanto praguejava 
para Bok o tempo todo: 
       - Eu endireito toda a merda da histria da cegueira anterior; tiro o peso das costas, e agora isto. Harry, nunca ningum me disse que tramamos com Vasily 
para bolar uma histria fazendo de Kolkov um heri. 
       - Se o senhor est dizendo... - Essa era uma possvel sada: Harry poda dizer realmente que jamais revelara claramente o embuste para o Presidente. Podia 
dizer que apenas "indicou". "Indicar" era uma palavra ambgua: no significava que ele tinha certeza de haverem compreendido o que ele divulgara. 
       Abotoando o colete, o Presidente fez uma pausa. 
       - Talvez isso fosse pior: eu no saber. Talvez fosse melhor se eu tivesse sabido e ratificado a ao, na interesse nacional. 
       Harry franziu as sobrancelhas; estava confuso, ao tentar imaginar onde estava a verdade. Ele contara para o Presidente? Ser que o Presidente o compreendera 
- que Kolkov no era heri? Entendera o Presidente a coisa agora, e estaria reagindo  poltica do problema? O Presidente gostaria que Harry Bok lhe contasse mais 
alguma coisa? 
       - Sabe? - pensou alto o Presidente. - Quando a histria a respeito de Kolkov estava sendo preparada, eu me achava inconsciente, semimorto. O motivo de se 
preparar a histria do herosmo no foi venal, droga! Lucas e George s queriam evitar uma reao furiosa, talvez uma guerra. E eles queriam me retirar da Rssia 
s pressas. Depois, quando fui informado, achei que seria prudente no dizer coisa alguma na ocasio. 
       Na coletiva  imprensa o senhor disse que Kolkov era um grande heri - lembrou-lhe Harry, ainda sem saber se Ericson estava elaborando uma cena ou narrando 
algo de que realmente se lembrava. 
       - Na ocasio no recebi informaes completas - respondeu Ericson conjeturalmente. - No, isso no colaria. - Tentou outra jogada: - Achei melhor dar apoio 
 opinio experiente dos meus 

Pg 373
altos assessores. - Ele gostou mais dessa, e Harry percebeu sua expresso descontrair-se, mas endurecer depois. - Gostaria de no ter convidado Vasily para vir aqui, 
no discurso de ontem  noite, porm, eu precisava de uma frente e jamais me ocorreu que a CIA desconheceria uma grande mudana no Kremlin. Eu devia ter feito a coisa 
pela Secretaria de Estado, merda, para sentir Moscou primeiro. Sou culpado disso. A outra coisa, a histria inventada, foi uma idia do Curtice e do Cartwright, 
que eu posso ter acertado ou errado ao ratificar, mas eu estava abalado, e talvez ela seja defensvel. Porm, convidar Vasily foi idia minha, e sei que pegou a 
Secretaria de Estado de surpresa, e a de Defesa tambm. - Botou o palet e verificou pelo tato se o cabelo estava penteado. 
       - Qual  o mal em convid-lo? 
       - Harry, voc no est raciocinado. Se eu sabia que Vasily Nikolayev estava acabado e o convidei a vir aqui, parece que eu estava tentando influenciar o Kremlin 
para que o mantivesse no poder. Se eu no soubesse que Vasily estava acabado e o convidasse ... e acabei de saber hoje de manh que ele foi engaiolado... ento eu 
ia parecer o Presidente mais burro desde Warren Gamaliel Harding. A essa altura no me posso dar ao luxo de parecer imbecil. No nas grandes coisas. 
       Harry rolou a cadeira de rodas at a porta: 
       - Me d um empurro - pediu ao Presidente. Ericson pegou as barras e empurrou, guiado pelos freios de Harry. O agente tentou analisar mentalmente as alternativas 
de Ericson: se devia parecer ardiloso, mentindo para o mundo, ou confuso, admitindo que jamais esteve no controle da verdade. Escolha difcil. 
       Ericson parecia  vontade empurrando a cadeira de rodas, e Harry fez sinal ao agente seu colega, no elevador, de que a estranha dupla no precisava de assistncia. 
Na base do "meio  esquerda" e "tudo  direita" Harry fez com que o Presidente o levasse ao andar principal, fora da residncia, depois do Jardim de Rosas. 
       - Buffie est tirando uma foto nossa - disse Harry, enquanto passavam pela colunata. - Ela est nos degraus perto da entrada da Sala do Gabinete. 
       - Deixe - disse Ericson. - Mostra que sou bondoso; que fao tudo para auxiliar os deficientes. 
       - Ns dois precisamos de um pouco de solidariedade hoje - disse Harry. 
       - Eu gostaria muito que voc fosse um co-guia - respondeu o Presidente enquanto sacolejava a cadeira. - Um co saberia lidar com uma coletiva  imprensa. 
Ficaria sentado l, uivando, at que parassem de torcer sua cauda. 

Pg 374
       Harry resmungou. Essa era a forma de Ericson dizer-lhe que Harry Bok estaria enfrentando a imprensa hoje, sem ajuda de Smitty, que estaria protegendo a prpria 
reputao. 
       - Tudo  esquerda, motorista. Aqui est Buffie, com um vestido azul de zuarte e cmaras penduradas. Ol, Buffie. 
       Ericson parou de empurrar e Harry observou Buffie aproximar-se deles. Ele relutou em continuar a descrio para o Presidente porque teria sido cruel. 
       - Esta  uma boa situao - ela falou. - Mostra que voc tem bom corao, Pdeu. 
       - Eu estaria melhor com um bom servio de informaes - disse o Presidente. 
       - Aqui est um beijo pro Harry - disse Buffie, inclinando-se para dar um rpido e barulhento beijo na boca de Harry porque estavam  vista de meia dzia de 
pessoas, e o agente tinha de ser o substituto de Ericson. - Eu tenho bom corao tambm - disse ela. Ericson empurrou a cadeira de rodas novamente, e Buffie disse: 
- Boa sorte para hoje. 
       - Todo mundo lida com o senhor por meu intermdio - assinalou Harry. - Mais trs passos, as portas envidraadas esto abertas, e aqui estamos. L est Melinda, 
parecendo confiante, e Hennessy, austero, como se fosse Deus, e triste comigo por ter entregue a ma  Eva. 
       - Voc devia ter me contado, Harry - disse Hennessy, falando ao Presidente por intermdio de Harry. - No se escondem fatos do advogado. Eu no sabia que 
estvamos apenas brincando, a respeito de Kolkov. Talvez se eu soubesse, poderia ter feito planos para hoje de manh. 
       Ericson sentou-se detrs da mesa Hoover e falou: 
       - Cheguem-se e faam algum rudo - Hennessy, Melinda e Harry falaram, para que o Presidente conhecesse suas posies na sala. Estavam reunidos em torno da 
grande mesa junto com Smitty, Marilee e Hank Fowler. - Curtice vem? - perguntou o Presidente. 
       Hennessy, com voz de nojo, falou: 
       - O Secretrio de Estado recusa-se a ser convocado de maneira to brusca. Escutei isso do seu impertinente assistente; Curtice nem quis falar comigo no maldito 
telefone. 
       - Entendo as razes dele - falou brandamente Ericson. - Melinda, convide o George Curtice para vir almoar aqui por volta do meio-dia; e pea com delicadeza. 
Lucas vai voltar? 
       - Cartwright est a caminho - avisou Hennessy. - Chegar de noite. 

Pg 375
       - Vai me fazer muito bem a entrevista com a imprensa esta manh - disse Smitty. - Que diabos vou dizer? Nikolayev est dentro ou fora? O Kolkov salvou sua 
vida ou no? Se Sam Zophar tiver razo, por que droga voc...
       - Cale essa boca, Smitty - disse Hennessy, para alvio de Bok. - Vamos ter contato com a imprensa daqui a um minuto. 
       - No, no - disse Ericson, ainda gentilmente; pareceu a Hank, que ele abafara sua fria e no estava ofendendo ningum esta manh. - Smitty: conte-me a reao 
 coluna. 
       - Foi ruim - falou o Secretrio de Imprensa. - E est ficando pior a cada minuto que a gente no der informaes. Francamente, nunca vi a coisa to feia. 
Marilee estava na sala de imprensa, conte a ele. 
       - Eles esto em p de guerra, irritando-se uns aos outros - disse tranqilamente Marilee. - No outro dia, com o discurso, houve um sentimento diferente. No 
tinham tanta certeza sobre o que estava certo ou errado, ou como seria interpretado. Mas esta manh tem um bocado de gente com a cabea quente na sala de imprensa. 
Falam de mentira, incapacidade, tudo. 
       - Sei - disse Ericson, virando sua cadeira na direo de Me- linda, que se achava prxima  cadeira de rodas de Bok. - Vamos ouvir notcias de Ma Griffe. 
- Harry reparou que a secretria estava usando mais perfume do que o habitual, e o Presidente podia distingui-lo facilmente. 
       - Os telefonemas so de preocupao - disse ela. - Eu transmiti ao Diretor da CIA o seu desejo e ele deu a impresso de estar... bem, calmo e indefeso, acho. 
O Procurador-Geral ligou para registrar sua esperana de que um esclarecimento seria imediatamente publicado. Sua tia Flora ligou - ela era o parente vivo mais chegado 
do Presidente, freqentemente usada como cata-vento situacionista da opinio pblica pelo pessoal da Casa Branca - e disse que o comentarista da televiso de hoje 
de manh devia ser fuzilado pelo que disse sobre o senhor, a menos que ele estivesse certo, e se fosse assim ento o senhor  que devia ser fuzilado. 
       - E o Congresso? 
       - Esbravejando como de costume - informou Melinda - mas o Presidente Frelingheusen ligou para dizer que sustaria qualquer comentrio at ver a sua declarao 
de que eu deveria inform-lo sobre quando o senhor tenciona faz-la.  a maneira dele de se apoiar no senhor um pouco. 
       - Eis o que faremos - disse Ericson. - Smitty, adie a sua entrevista coletiva matutina at as duas da tarde. 
       - No ser justo com os jornais da tarde... 

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       - A vida  injusta, segundo dizem. Mas voc pode comunicar que lhes apresentar Harry Bok esta tarde para ser interrogado  vontade. Harry vai contar a verdade 
acerca de Kolkov: que ele nada pode afirmar; havia estilhaos voando por toda parte; ele mesmo entrou em choque; e que acha que a notcia do herosmo pode ser genuna, 
mas,  claro, h uma probabilidade de ter tido essa idia enquanto em estado de choque. O testemunho de Harry, segundo me descreveu,  ambguo e confuso. Como geralmente 
 a verdade. Na hora em que ele estiver fazendo declaraes  imprensa esta tarde eu terei instrues para voc, Smitty, a respeito do que dizer sobre Nikolayev 
- Bok gostou da forma pela qual Ericson estava agindo num momento de aperto. - Melinda, mande meu tradutor de russo vir aqui agora mesmo, e separe o vdeo-tape para 
o telefone vermelho. Muito bem, a reunio acabou; agora s quero o Hennessy. Todo mundo de cabea erguida, nada de rostos sombrios, exceto o Smitty, que normalmente 
 sombrio. Vai ser um longo dia. Vamos em frente. 
       O pessoal saiu, com Harry empurrando sua cadeira pela varanda, para a sala de Melinda, ao lado, onde o caminho fora feito geraes antes para a cadeira de 
rodas de Roosevelt. Ele olhou para ela, com sua saia preta bem arrumada e blusa branca, fazendo a ligao para o tradutor e alertando o Departamento de Comunicaes 
da Casa Branca sobre o telefonema pelo telefone vermelho. Os meios de gravao requeriam uma ordem assinada pelo Presidente e contra-assinada por Hennessy, que Harry 
observou Melinda preparar. Ericson tocou a cigarra; Melinda ligou a chave de escuta para ouvi-lo dizer: 
       - Certifique-se de que George Curtice no diga nada a nenhum jornal antes de falar comigo - e ento, olhando para Harry Bok, ela deliberadamente no desligou 
a chave do intercomunicador. 
       - Cretino - escutaram Hennessy falar. - Voc no precisava disso. Era evitvel. 
       - Tem razo, Irmo Hennessy - replicou a voz de Ericson. - Essa confuso toda podia ter sido evitada se voc soubesse que diabos estava fazendo - Bok numa 
ouvira Ericson usar aquele tom agressivo na voz antes, mas Melinda evidentemente que sim. 
       Minha culpa? Est me culpando? Eu estava a dez mil milhas de distncia... 
       - No sobre o caso Kolkov, sobre a cegueira anterior. 
       - Que droga  essa, Sven? 
       - Eu jamais precisaria fazer o maldito discurso! 
       Hennessy ficou em silncio, e o Presidente, friamente aborrecido, prosseguiu: 
       - Zophar no estava de posse da histria da primeira cegueira. Ele sabia a histria de Kolkov. Eu lhe perguntei dez vezes: tem certeza 

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de que ele sabe? E voc respondia que sim. Acontece que ele sabia de alguma coisa, sim, mas no o que voc pensava. Voc entrou em pnico, me fez entrar em pnico, 
e ento eu tive de fazer o maldito discurso, e agora voc est enrolado at o pescoo. 
       - Sven, eu nem sabia que existia uma histria sobre Kolkov. Banquei o paspalho bonzinho, junto com o resto da Amrica do Norte. Calculei que voc, Harry, 
Curtice e Cartwright estavam dizendo a verdade quanto a ele ser um heri... 
       - No embrome, Hennessy, voc sabia que estvamos bolando alguma coisa em cima disso. No preciso definir todas as mincias para voc. Voc, porm, tinha 
a mente fixa no outro grande segredo culpado; a cegueira anterior, e na hora em que algum comeou a fazer perguntas a respeito de certa coisa... alguma outra coisa... 
voc se precipitou e concluiu erradamente. Harry no contou aos russos sobre a cegueira, ele lhes contou a histria falsa sobre Kolkov ... mas voc tinha tanta certeza! 
Ah! Voc tinha tanta certeza... Eu nunca - neste trecho a voz de Hennessy uniu-se a de Ericson, terminando a frase: - precisaria ter feito o maldito discurso. 
       - Certo, eu estraguei tudo - confessou Hennessy. - Quer outro advogado? Quer Cartwright de volta? Ou Smitty? 
       - Preciso de Cartwright no Gabinete e no confio no Smitty, por isso estou entalado com voc. Mas pare de ser to malditamente certo de si, est me custando 
a presidncia. 
       - J estudou a possibilidade, Senhor Presidente, de que minha errnea suposio pode ter sido a maior chance que j teve? J imaginou como estaramos hoje 
se a histria de como voc e seu chapinha Vasily andaram esculhambando os fatos por a viesse  tona... e se ainda no nos tivssemos livrado da histria da primeira 
cegueira? 
       - Eu jamais precisaria fazer o maldito discurso - repetiu Ericson. 
       - Fazer o maldito discurso foi a coisa mais feliz que aconteceu por aqui em trs meses - Hennessy deslocara-se de uma possibilidade para uma certeza. - Agora 
j  passado, e no nos atormenta mais. Pensamos que o teto ia cair; que o Gabinete se ia reunir de novo e reabrir o caso com novas provas; lembra-se do escndalo 
que Duparquet fez por no saber, antes das eleies, de qualquer vestgio de cegueira? A gente pensou que eles nos matariam por causa disso... mas isso no aconteceu. 
Voc confessou, voc foi grande, voc conseguiu Livrar-se de tudo. No entende? 
       - Se eu no tivesse de fazer o maldito discurso, no teria necessitado de me agarrar a uma frente, e no teria cometido aquele engano sobre Nikolayev. Agora 
estou entalado nele. Saia da defensiva, advogado, e tente compreender a forma pela qual as paredes esto nos esmagando. 

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       - Sabe por que voc fica to calmo numa crise? - a voz forte de Hennessy trovejou. - Fica calmo porque est apavorado demais. Claro, isso d um orgasmo  
Melinda, e  Marilee tambm, ver voc frio e equilibrado, mas a verdade  que voc est paralisado por dentro. Voc quer repetir o catecismo? Vamos l: "Eu jamais 
precisaria fazer o maldito discurso". 
       Houve silncio durante alguns minutos. Harry Bok olhou para o interfone na mesa de Melinda e ficou com medo de dizer qualquer coisa, por pensar que ele recebia 
e transmitia. Melinda segurava um caf e aguardava. 
       A voz do Presidente rompeu a pausa: 
       - Aahh! Talvez tenha sido pro bem. 
       - Poxa, Sven, desculpe! Eu pensava que estava agindo certo, mas o tempo todo andei quebrando a cara. Deixei voc mal. Cartwright jamais... 
       - Voc est exagerando um pouco a mea culpa, Hennessy. 
       - Voc acha? Tem um tom na minha voz que eu ainda nem usei. Ele acaba com um jri; "advogado duro se dobra",  um macete. 
       - Gozado como a primeira cegueira no causou uma exploso - A raiva se dissipara, e agora o Presidente estudava as ironias. - Eu tinha certeza de que aquilo 
era tudo de que eles precisavam para tirar os meus poderes, todavia, aps divulgarmos a histria, a reao ficou mais ou menos no ar: nem isto, nem aquilo. E agora 
esse negcio do Kolkov-heri... que eu nunca achei fosse nada demais; nunca me detive realmente nele... talvez se torne incontrolvel. No  fcil saber. 
       - Vamos viver um dia de cada vez, Sven. Isso passa. 
       - Estou comeando a admitir a possibilidade de talvez no sermos to bons nesse tipo de servio. 
       - Voc est melhorando a cada hora - assegurou-lhe Hennessy. - O trabalho do pessoal tem sido um pouco negligente ultimamente. 
       - No sei. Se eu no sou bom na coisa... - A voz de Ericson sumiu. 
       - Comparando a qu? 
       - Srio. Nunca deveria ter deixado o Bannerman ter-me empurrado o Nichols. 
       - O seu choro terminou, Sr. Presidente? 
       - No se culpe por tudo, Hennessy, mesmo que, s Deus sabe, tudo tenha sido culpa sua. Voc acha que eu tinha de fazer aquele discurso? 

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       - Voc jamais teve de fazer o maldito discurso. Agora vamos ver nosso tradutor e fazer uma ligao direta pelo telefone vermelho para no sei quem. Pergunte 
a ele como est o tempo em Moscou e pea por favor para soletrar o prprio nome. 
       Melinda, desligou a chave do aparelho e esperou que Hennessy sasse. O chefe da Casa Civil parou, sentou-se  beira da mesa dela e ps a mo na caixa silenciosa: 
       - Encheu os ouvidos, boneca? Gostou do pedao em que eu falei que voc tinha um orgasmo sempre que ele agia calmamente durante uma crise? Ficou corada? 
       - Quer dizer? - Ela tentou bancar a burra; Harry ficou contente porque Hennessy no olhou para ele. 
       - A luz estava acesa no aparelho dele, ao lado da mesa. Ele no podia ver, mas eu sim, e sabia que voc estava na escuta. Diga- me: quando ele est comendo 
uma dona l dentro voc se diverte olhando pela fechadura? 
       Abalada, Melinda olhou para Harry: 
       - Voc continua andando com uma arma? Me d ela aqui; vou mat-lo - Harry sabia que ela no falava a srio, porm, havia uma ameaa real na sua voz. Harry 
sabia que ela odiava Hennessy de certa forma, s vezes; e odiava o lado de Ericson que se transformara num Hennessy. 
       - Isso me lembra - Hennessy virou-se para Harry - chega de Buffie, mesmo se ele a quiser: o risco  muito grande. Nunca fomos to vulnerveis. Toda vez que 
ele tiver teso, chame aquela sua enfermeira, ou seja l quem for que voc use. - Harry no gostava do jeito com que Hennessy se deliciava ao falar assim na frente 
de Melinda. - Mantenha-o cansado, Harry. Use a cabina telefnica. Buffie no aponta mais a arma pra gente: a maior parte do segredo foi divulgada. Agora o problema 
 evitar que ela descubra como estamos sensveis e mande o Bannerman dar o golpe fatal. Estou com a razo; vocs dois mantenham a Buffie afastada. Com quem mais 
devemos nos preocupar? 
       - Herb est morto - disse friamente Melinda. 
       - Voc falou com a mulher dele? 
       - Dei a notcia  Brbara - acrescentou Melinda. - Ela est com uns amigos. 
       - Amigos nossos? 
       - Que diabos quer dizer? 
       - No quero problemas desse lado - disse-lhe Hennessy. - No quero saber de histrias dizendo que Ericson levou o marido dela ao suicdio. 

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       - Brbara Abelson  gente nossa - disse Melinda. 
       -  mais do que se pode dizer do marido dela - resmungou Hennessy, ao que Melinda retrucou com: 
       - Herb no era duro, mas no cometia erros imensos e estpidos - Hennessy deu a impresso de gostar da abertura para uma grosseria: 
       - Olhe, Velha Fiel: voc no acabou de passar a noite investigando um suicdio com um tira nas suas costas enquanto tentava descobrir um bilhete de suicdio 
que poderia estragar tudo. Voc no regressou com um corpo num saco. Voc no foi acusada pelo patro por ter sido uma idiota, quando tudo o que fez foi tornar possvel 
a ele permanecer no emprego, e quando sua maior desvantagem era no saber o que certos gnios das relaes exteriores andavam esculhambando. E voc no foi humilhada 
pelo papai, como uma criancinha surpreendida numa besteira, enquanto sabia que seus respeitados colegas estavam observando s escondidas e gozando tudo. Portanto, 
foda-se, Melinda. 
       Bok resolveu que era hora de intervir: 
       - Tenho uma coisa a dizer - falou, e Melinda e Hennessy deixaram de se olhar iradamente para olhar em sua direo. - Desculpe ter escutado. Isso foi um erro. 
No foi uma coisa que fizemos conscientemente, Hennessy, apenas comeou a sair pelo interfone e a gente no desligou. 
       - No pea desculpas - falou Melinda, com a voz tremendo. - Provavelmente ele mandou instalar um microfone na sua cadeira de rodas. 
       - Eu estava pensando, agora mesmo, como  l na Rssia - Continuou Harry, no apenas para interromper a discusso dos dois, mas porque desejava dizer isto: 
- onde voc tem de observar tudo o que diz. Sempre tem algum escutando, ou obrigando voc a falar quando no sabe nada, sem mais nem menos. E no h defesa contra 
isso: mais cedo ou mais tarde eles alcanam voc. Eu devia ter pensando nisso quando comeamos a escutar, mas eu s pensei: "Poxa, Isso  interessante" e tambm: 
" importante que a gente saiba disso". Isso  mentira. No podemos fazer isso, meus velhos; temos de nos respeitar mutuamente ao mximo que pudermos. 
       - No me venha com moralismos - disse Hennessy, e riu forte. - Melinda e eu gostamos de nos irritar, Harry; nunca falamos a srio. Mande o Hank Fowler explicar-lhe 
isso:  uma relao amor-dio. 
       Houve uma pausa na qual todos evitaram ferir-se mutuamente. 
       Hennessy puxou as calas para cima e falou: 
       - De volta ao trabalho. Faremos a ligao pelo telefone vermelho da Sala de Reunies, O tradutor j deve estar l. Levarei o Chefe. 

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Melinda, empurre esse aleijado. Lembre-se, Harry: mantenha Buffie a uma milha de distncia, e traga mulheres pra dentro e pra fora sempre que ele tiver um minuto. 
 melhor &e trepar d que se preocupar. 
       - Eu no sou um dos rapazes - disse Melinda firmemente. Hennessy examinou seus seios insolentemente, deu de ombros e voltou para o Salo Oval. Melinda fechou 
os olhos, respirou fundo e prendeu o ar; vagarosamente, exalou. 
       - Veja a coisa por este ngulo - sugeriu Harry. - Em algum ponto disso tudo ele usou a palavra "amor". - Pode ter sido a forma de um amargo advogado divorcista 
diz-lo, mas Harry reparou na referncia amor-dio e no queria deixar a observao despercebida. 
       - Nunca fui to humilhada - irrompeu Melinda, abrindo uma gaveta e tirando raivosamente alguns lenos de papel de um recipiente e apertando-os contra os olhos, 
agora que Hennessy sara. 
       - Ele estava sendo simplesmente maldoso... 
       - Harry, estou humilhada comigo mesma, no percebe? - Quando ela afastou os lenos, seus olhos ainda estavam quentes pelas lgrimas. - Eu fiz uma coisa nojenta: 
eu o espiei quando ele estava absolutamente nu. Ele jamais esquecer isso e no posso culp-lo. Que ser que este local anda fazendo conosco...
       - Espere um pouco - disse Harry, meio atrasado. 
       - E eu arrastei voc nisso; na escuta clandestina - falou Melinda, amargurada. - Da mesma forma que Cartwright e Curtice fizeram em Yalta. No foi culpa sua; 
voc apenas concordou com o que eu estava fazendo. Depois, quando voc fez seu pequeno discurso, juro que nunca me senti to pequena em minha vida. 
       Isso era verdade, pensou Harry; seus pecados resumiam-se principalmente em concordar com as pessoas em quem confiava. 
       - Todo mundo comete erros - falou ele. 
       - Desculpa manca - ela disse, sem pensar, e ento reagiu ao duplo significado: - Poxa! - olhando para o teto - tem-se de observar tudo o que se fala perto 
desses caras. Vamos, eu vou "empurrar o aleijado", como diz o Hennessy, quando deseja bancar o piedoso. 
       Ela empurrou-lhe a cadeira de rodas pelo saguo, at o elevador, pelo subsolo, para fora passando pela sala de descanso dos agentes, e desceram uma rampa 
at a Sala de Reunies. Na hora em que chegaram, ela j se havia se recuperado; empurrar uma cadeira de rodas era provavelmente uma espcie de terapia. 
       Harry sempre ficava desapontado na Sala de Reunies: um bocado de mapas, algum equipamento eletrnico, uma tela de televiso -

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um lugar provvel para se ir numa crise, mas a disposio montona do aposento no enfatizava o drama da forma como ele imaginava que deveria. O agente  porta assentiu 
com a cabea e sorriu ligeiramente para Melinda. Agora que Harry pensara naquilo, a nova verso do telefone vermelho - um telefone-televiso em contato constante 
por satlite - hoje seria especialmente til. Nesta situao, ver Vasily Nikolayev era to importante como ouvir a sua voz: uma voz poderia ser imitada por telefone. 
       Quando Ericson tomou seu lugar  mesa o membro da WHCA [nota * White House Communications Agency. (N. da T.)] falou em ingls pelo seu bocal: 
       - O Presidente dos Estados Unidos est chamando o Primeiro-Ministro da Unio Sovitica. 
       O tradutor americano repetiu a mensagem em russo para um dos microfones na mesa. Uma voz respondeu em russo e uma voz russa traduziu: 
       - Sua comunicao foi recebida. Por favor, aguarde. - Harry sabia que a comunicao no era uma surpresa completa para Moscou: as telefonistas se haviam sinalizado 
h cerca de meia hora antes, a respeito de uma ligao pela linha especial. Eles observaram a tela preta para ver a cara de quem ia aparecer. 
       O rosto eslavo de Vasily Nikolayev encheu a tela e Harry Bok soltou o flego, aliviado. Ento ocorreu-lhe que o Presidente ainda no recebera a mensagem que 
os olhos podiam ver, e sussurrou para Ericson: 
       -  Nikolayev - enquanto que a voz russa dizia: 
       - Senhor Presidente, que prazer falar com o senhor! - Aps a traduo, Nikolayev sabia falar ingls, porm, o protocolo da linha especial exigia traduo 
oficial que seria controlada por outros funcionrios em ambas as capitais, Ericson disse: 
       - Isto no  - repito - no  uma emergncia militar. - Isso tambm era padro: alertas causavam grandes despesas. 
       - O propsito desta ligao - disse Ericson, como se o propsito j no tivesse sido amplamente alcanado ao ver Nikolayev no cargo -  o de acelerar meu 
convite pblico para que o senhor visite este pas e continue nossas reunies. No foi possvel, devido a razes internas, fazer um contato particular primeiro, 
o que fazemos normalmente. 
       - A poca no  boa - disse o russo. - Lamento no lhe poder dar uma resposta imediatamente. O Presidium [nota * Comisso Administrativa Permanente. (N. do 
T.)]  ter de estudar isso cuidadosamente. 

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       - Por favor, d meus cumprimentos aos membros do Politburo que eu conheci durante minha visita, antes de Yalta - disse o Presidente. - A composio desse 
grupo  a mesma de quando eu estive a? 
       - O Presidium considerar seu gentil convite - falou o russo, olhando direto para a cmara - e ficar contente quando eu lhes disser que sua recuperao parece 
ser progressiva. - Muito formal e bastante evasivo. 
       A voz de Ericson tornou-se igualmente formal: 
       - Uma palavra pessoal, Primeiro-Ministro Nikolayev: chegou ao meu conhecimento a cuidadosa assistncia mdica que o senhor to gentilmente prestou ao meu 
auxiliar do Servio Secreto, Sr. Bok, que regressou recentemente. 
       Harry no sabia se ficava alegre ou preocupado. Estaria Ericson dizendo a Nikolayev que sabia acerca da droga ministrada, e, sendo assim, o russo entenderia? 
       - O agente Bok  considerado um heri - falou o Primeiro- Ministro Sovitico - e um dia, quando ele vier a aceit-lo, ns lhe daremos a mais alta medalha 
por bravura que oferecemos a um membro de nao estrangeira. Ele  um digno produto de seus fuzileiros. Todos os membros do Presidium sero informados de seus agradecimentos 
ao nosso pessoal do hospital - Harry achou que ele entendera e preferiu ouvir apenas o "gentilmente" de Ericson. Num tom ligeiramente impaciente, Nikolayev concluiu: 
- Mais alguma comunicao neste canal de emergncia, Sr. Presidente? - Essa foi uma repulsa. 
       - Obrigado e bom dia - disse Ericson, e o funcionrio desligou. queles na Sala de Reunies o Presidente ordenou: - Hennessy, Bok, McPhee, CIA, fiquem - os 
outros saram. - CIA - disse o Presidente. 
       - Vamos passar de novo - disse o chefe do setor sovitico na CIA. 
       A repetio durou s um minuto. Harry observou Ericson desta vez, e no a tela: o Presidente parecia fatigado, e esfregava a tmpora. 
       - Evidentemente Nikolayev est encrencado - disse o analista da CIA. - Ele disse que o Presidium, o grande Conselho, estava estudando o convite: isso  anormal. 
.0 senhor percebeu isso, Senhor Presidente, quando perguntou sobre o Politburo, e ele repetiu "o Presidium". Como o senhor sabe, o Politburo, a assemblia menor, 
sempre esteve no comando durante transies; se no est agora, 

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e o Presidium muito maior  o foro, o poder est todo difuso, e ningum sabe quem est no comando. 
       "Dois: quanto a ele no se poder definir sobre vir aqui, na minha opinio isso  terrvel, senhor.  uma confisso de impotncia, contrria ao estilo de Nikolayev, 
e ao de qualquer lder sovitico de alguma influncia. 
       "Trs: a maneira pela qual no respondeu  sua pergunta acerca da composio do Politburo, e a forma pela qual cortou o senhor no final foram insultantes... 
a menos que ele no tivesse alternativa. Presumo que ele estava sem espao para manobrar; que tinha instrues especficas para nada dizer, e nada foi o que ele 
disse. - O analista consultou suas anotaes. - Quatro: houve algum significado secundrio na sua referncia a Harry Bok que eu no entendi. De que se tratava? 
       Harry tambm ficou intrigado com aquilo. O Presidente tinha bons motivos para crer que o chefe de segurana do seu Servio Secreto fora drogado e interrogado 
no hospital de Yalta: o emprego de "gentilmente" por Ericson deve ter sido sarcstico. 
       - Eu queria dar uma entrada a Vasily para que nos contasse alguma coisa - disse Ericson lentamente, ainda esfregando a fronte. - Ele nos disse que Harry ainda 
 considerado um heri, o que significa que eles vo insistir na histria de que Kolkov foi tambm um heri, pelo menos por enquanto. Acho que esto esperando para 
ver de que lado o gato vai pular. 
       - A referncia a Bok ser um fuzileiro pareceu injustificada - disse o analista. - Seria alguma pista? 
       Harry sacudiu a cabea: 
       - Eu estive na Marinha quando garoto; jamais fui fuzileiro. 
       A cabea de Hennessy voltou-se rpido para ele: 
       - "Diga isso aos fuzileiros". 
       - O senhor acha que  isso? - perguntou tensamente o analista. - Nikolayev estaria a par do significado de um americanismo como esse? 
       - Sim - disse Ericson, sentando-se. - Eu o usei em Moscou quando passava uma guarda dos fuzileiros diante da embaixada, e contei ao Vasily que vinha de uma 
antiga reao do Exrcito quanto a fuzileiros burros. Eu lhe disse: "Diga isso aos fuzileiros" significa "V contar isso a outro". E sabe, e, mais importante, ele 
sabe que eu sei que ele sabe. 
       - Ento vamos inverter o significado da frase anterior - O homem da CIA consultou as anotaes. - Ele disse: "O agente Bok  considerado um heri". A verdade, 
ento,  que Bok no  

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considerado um heri, e provavelmente Kolkov tambm no... isto , se no nos estamos precipitando quanto  referncia dos fuzileiros. 
       - No se precipite - falou Hennessy, olhando duro para Melinda.
       - Vasily pode ter entrado pelo cano - concluiu o Presidente. - Ele pode estar acabado e se arriscou demais nos dizendo isso. Algum por l acha que ele nos 
pode manter em desvantagem no trazendo a pblico a mudana no poder, ou tentando nos convencer com aquela conversa de Presidium. No acredito nisso: no  a forma 
que eles operam. Sabem que estou preso ao meu convite, por isso me esto dando um pouco mais de corda. No confirmam a histria de Zophar, que Nikolayev e sua panelinha 
esto fora; tornam possvel para mim desmenti-lo, errar, e me afundar mais. 
       - O que o senhor no far - disse Melinda. 
       - No se eu puder evitar - falou o Presidente. Aps um silncio, acrescentou: - No, no posso, no importa no que d. Vou ter de ficar manso nessa e deixar 
passar. No podemos deixar os russos pensando que me fazem mentir para o mundo. 
       - Ento voc vai confirmar a histria de Zophar? - perguntou Hennessy. - Confessar que convidou Nikolayev sem saber que ele estava deposto? 
       - Obrigado, Frank - o Presidente dispensou o homem da CIA. - Instrua seus companheiros; diga ao seu Diretor para assistir ao filme. - Assim que o analista 
saiu, Ericson perguntou: - Quem ficou aqui, s ns? 
       Melinda respondeu: 
       - Hennessy, Harry e eu. S a famlia. 
       - Eu vou fazer uma terrvel figura - comentou o Presidente - como um homem que no sabe que diabo vai fazer em relao a outra superpotncia. Incompetente, 
incapacitado, tudo. Mas tenho de aceit-lo, sabiam? No posso deixar os filhos da puta de l pensarem que montaram em mim. 
       - No estou entendendo nada! - exclamou Melinda. Harry ficou satisfeito porque ela disse isso. 
       - Os homens no poder em Moscou atualmente, sejam quem forem, acham que Ericson e Nikolayev conspiraram para pr Nikolayev no poder - disse Hennessy lentamente. 
- Portanto, o que nos esto oferecendo agora  uma espcie de meia cobertura para que neguemos a histria do Zophar. Vo manter Nikolayev no posto por algum tempo 
a fim de evitar que o Presidente parea um idiota total; mas ns lhes ficaramos devendo um favor, eles poderiam revelar a verdade a qualquer hora. - A Harry pareceu 
que Hennessy admirava a tcnica. - Eles esto tentando fazer conosco o que acham que tentamos fazer com eles... 

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       - Falou bem apoiou o Presidente, acrescentando: Eu jamais precisaria fazer aquele maldito discurso. 
       Harry perturbou-se com a injustia da crtica que viria: 
       - O senhor vai fazer a coisa certa para o pas, mas vai ser pixado. Isso  uma patifaria. 
       - Acaba dando certo - disse o Presidente. - Eu me safei lindamente por haver ocultado a primeira cegueira. Tive de agir errado, e uma coisa puxa a outra, 
e s o confessei porque o Hennessy gosta que eu faa discursos. E o que acontece? A merda toda explode. Devo admitir, porm, que vou pagar indefinidamente pelo engano 
a respeito de Nikolayev. Bannerman se encarregar disso. 
       - De volta ao trabalho - disse Hennessy. - Voc vai almoar no escritrio com o Secretrio Curtice, e ento... 
       O Presidente interrompeu: 
       - Direi que foi uma pena ele no ter chegado mais cedo; eu queria sua presena aqui quando fiz a ligao pela linha especial. 
       -  - Hennessy sorriu mostrando os dentes como um lobo. - Depois direi ao Smitty o que falar para as suas hienas, e ele far a reunio da imprensa com Harry, 
e com Curtice tambm. Deixemos o velho George tomar parte na festa. Kolkov-o-heri foi idia dele, pra comear. Vamos ganhar o dia. Direi aos duendes para no prepararem 
um Sumrio de Notcias,  deprimente demais. 
       - Falarei com o Presidente Frelingheusen pessoalmente - disse o Presidente. 
       - Diga-me uma coisa - Harry achou que tinha de interceder. - Esta suspeita que os russos tm de que o senhor e Nikolayev fizeram um conchavo para ajud-lo 
a chegar l em cima, era verdade? 
       - Tenho de lhe dar algum motivo para ler as minhas memrias, Harry - disse o Presidente, levantando-se. 
       Enquanto Harry ia sendo empurrado para os degraus, recordou a pergunta de Melinda para Hennessy: "Voc acha que esta  uma das ocasies em que a gente espera 
pelo pior, mas ele no acontece?" E a resposta de Hennessy: "Durante os prximos dias, mocinha, este local vai parecer a casamata do Hitler. 

Pg 387 
IV 
AS CENTELHAS VOAM PARA O ALTO 

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O REDATOR DE DISCURSOS/3 

       - Voc  um bolinador de mamilos - disse Buffie, de costas, com as mos por trs da cabea, enquanto Jonathan aumentava a tenso entre seu polegar e o dedo 
mdio, e a cada dez segundos, como um geyser infalvel, apertava-lhe o mamilo. - Pior que isso - ela afirmou: - voc  um apertador de mamilos preocupado. Voc pensa 
que est escrevendo um livro, e o heri diz ento: - e aprofundou a voz para imitar um heri: - "Eu franzi as sobrancelhas pensativamente, apertando-lhe o mamilo, 
s de brincadeira, sem me importar em como eu a estava deixando louca de paixo, fazendo-a ansiar por mim com meu desinteresse." 
       - Palavras como "preocupado" e "desinteresse" no so usadas por pessoas reais - ele falou, despertado pela imaginao dela, com os olhos numa pilha de esboos 
a tinta de Buffie, em cima de sua mesa. Eles captavam mais em algumas poucas linhas intuitivas do que ele jamais conseguiria captar em prosa. - Mas continue, o que 
diz a herona? 
       - Ela no diz nada, mas se contorce apaixonadamente - brincou Buffie. - Na realidade ela no  a herona,  apenas um personagem secundrio que voc pe na 
histria para dar tempero ou mostrar que a necessidade de sexo e a necessidade de poder so iguais. Ela conhece seu lugar: a trepada favorita de todo mundo, quando 
eles no esto ocupados demais 
       - Voc est fabricando imagens mentais de tudo isso - contra-atacou o redator, enquanto seu dedo mdio voava novamente para o alvo. - Voc no apenas deseja 
ser um personagem d meu livro, como tambm deseja ser o ilustrador 
       - Que aparece junto  minha imagem? - ela sorriu com afetao, imitando uma contoro apaixonada. 
       - Um homem bonito e viril - falou Jonathan - bem amadurecido para a sua idade, deitado nu, enviesado na cama, tocando preguiosamente num corpo esguio, macio, 
com o joelho levantado e o dedo do p em ponta, para dar mais atrao. Sua imagem est deliberadamente fora de foco. Luz matutina, no crepsculo do apetite, impotncia 
da saciedade. 

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       - Esta  a imagem - ela assentiu com a cabea. - Luz de fundo, para disfarar os rostos, mas o corpo cujo mamilo est sendo apertado no pode ser disfarado, 
no h outro igual no mundo. Impresso granulada, em preto e branco. Ambiente gostoso, perfumado. - Ela suspirou de felicidade. Ele imaginou que ela ficasse felicssima 
com sonhos de sucesso. 
       - Por que voc nunca usa perfume, Buffie? 
       - Eu digo se voc fizer questo, mas voc no se interessa. 
       - Se perguntei  porque quero saber - disse Jonathan. - Sei suportar a dor. - Ele na verdade, no podia, e imaginou se estaria se desviando para uma daquelas 
reas onde ela deveria fazer que ele sentisse uma ferroada de medo ciumento. 
       - No uso perfume porque Sven Ericson est ligado em odores - disse ela. - Sempre esteve, porm, agora mais do que nunca. Ele sabe que Melinda cheira a Ma 
Griffe e aquela secretria de imprensa debutante, Marilee, cheira a Femme. Sam Silencioso, a enfermeira de Bok, com as tetas balanantes, cheira a algum Lily of 
the Valley barato. Ele classifica as mulheres dessa forma. Ele me deu um perfume, que eu aposto a Melinda escolheu, e supostamente devo us-lo para me encaixar na 
minha categoria. Mas eu no o uso. Nem outra coisa qualquer. 
       - Ento como ele sabe que voc est por perto? - Jonathan sentiu-se impelido a descobrir, mesmo suspeitando que no desejava saber o motivo. 
       - Eu cheiro a mim - disse ela. - Quando me aproximo dele, ou o toco, fico excitada. Fico molhada, entende? E quem tem nariz sensvel realmente sabe dizer 
quando uma garota como eu fica com teso. 
       Jonathan tentou no demonstrar a dor que o atravessou. Ali estava ela, pronta para fazer amor com ele por causa de um aperto no bico do seio, contudo disposta 
a lhe descrever sua excitao por outro homem, como se ele fosse seu irmo ou um conspirador. Jonathan conhecia bem aquele odor almiscarado; ficava impregnado nele 
o dia todo aps se haver regalado com Buffie. Ele odiava tomar o banho que apagara o cheiro de mulher. 
       - A Tenente Kellgren no tem peitos balouantes - disse ele para feri-la, como vingana. - Ela tem um busto firme e cheio, que faria qualquer mulher orgulhosa. 
Ficam bem nela. Voc tem razo: ela fala pouco, mas no  vulgar. 
       Essa a atingiu; Buffie rolou para fora da cama e se sentou no peitoril da janela. 
       - Voc vai bulinar os meus mamilos pensando naqueles seios balouantes da Fora Area - anunciou. Aps a raiva passar, 

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voltou para ele e comeou a massagear-lhe o p. - Voc no tem ido trabalhar nos ltimos dois dias - disse. - Desde o discurso que escreveu. Ningum sente sua falta 
no escritrio, Deus sabe, mas eu sim. - Seu argumento era certo: a presena de um redator aps um discurso era to intensamente desejada como a de uma rameira aps 
uma trepada. 
       Jonathan no tinha vontade de regressar  Casa Branca naquele dia. Ele vira as fotos da irada linha de piquete, das demonstraes na Praa Lafayette, dos 
nibus nariz-com-nariz em torno da Ellipse, mantendo a rea inacessvel. Lera, antes, a tpida reao ao discurso que supostamente escrevera, e, no dia seguinte, 
as histrias acerca da fraude em Yalta. Assistira na televiso, na noite anterior, a um longo programa deplorando a forma pela qual o Presidente estava estragando 
as relaes com a Unio Sovitica. O redator sentiu-se duplamente trado: o rascunho do discurso que ele apresentara fora revisto e distorcido pelo Presidente, transformado 
numa ardilosa omisso de tpicos. Alm disso, ele soubera apenas depois do setor de imprensa, sobre as mentiras nos altos escales acerca da emboscada em Yalta. 
Aquilo mostrara uma faceta negativa de Ericson que ele no percebera: sua duplicidade em questes pessoais e a fraude em negcios de estado. Jonathan no estava 
pronto para demitir-se nem mesmo para expressar seu descontentamento - e certamente no para se juntar a Bannerman - mas tampouco estava preparado para voltar imediatamente 
ao trabalho na Casa Branca. De qualquer forma, ningum sentia sua falta. 
       - O discurso que Ericson fez no foi o discurso que escrevi - disse a Buffie. - Escrevi um discurso que confessava uma farsa de campanha e pedia desculpas 
por isso. No me espanta ele no o ter lido: ele sabia de uma mentira maior a respeito de Yalta, aguardando para explodir no seu rosto a qualquer hora. Mas eu no 
sabia isso. Tinha poucas informaes para utilizar. 
       - Nunca ouvi voc cham-lo de "Ericson" antes - observou Buffie, irrelevantemente, pensou ele. - Voc sempre disse "o Presidente", at quando falava nele 
entrando em mim. 
       - O Presidente ainda  o Presidente - disse ele, irritado - e eu sou um membro leal do seu estafe. Quando ele "entra" em voc, como diz to romanticamente, 
ele representa ele mesmo, e no 250 milhes de outros americanos. Quando voc trepa com ele, Buffie, est trepando com um indivduo, e no com o seu pas. Um pnis 
no  um mastro de bandeira - Jonathan ficou surpreso consigo mesmo; no fora isso que ele comeara a dizer. A incrvel metfora n final, porm, fora inteiramente 
espontnea, mesmo no sendo o tipo de imagem que ele costumava usar. 
       Ele observou Buffie atravessar o quarto at o armrio, escolher uma gravata e ficar diante do espelho em tamanho natural, nua, 

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vagarosamente dando o lao em volta do pescoo. Ela puxou um cinto das calas dele e o apertou em volta da cintura - os buracos ficavam afastados demais para se 
encaixar na fivela, porm, ela improvisou. Usando apenas a gravata e o cinto, ela calou um par dos seus sapatos, se aproximou da beira da cama, ajoelhando-se para 
alcanar-lhe o pnis. Ela o acariciou, apertou e brincou com ele at o rapaz atingir uma ereo palpitante, e ento ela subitamente ficou de costas, fez continncia 
e comeou a cantar The Star Spangled Banner, o Hino Nacional. Quando ele comeou a rir, perdeu a ereo e ela desfez a continncia. 
       Que mulher! - riu ele, levando-a de volta para a grotesca pantomima. Era a nica mulher que conhecera que era birutamente sensual, ou sensualmente pirada 
e, ao mesmo tempo, decididamente desleal. "Inexorvel impulso", plagiando Churchill. Ele tinha de se lembrar para no descarregar suas frustraes e decepes relativas 
a Ericson em cima dela, porque certamente seriam transmitidas a Bannerman. A imagem de Buffie nas mos de Bannerman, ou pior, Bannerman nas de Buffie, apagou o sorriso 
do rosto de Jonathan. 
       Ele apertou-lhe novamente o bico do seio, o que o ajudou a raciocinar. Com quem poderia discutir isso? Seus amigos, a maioria conservadores cheios de princpios, 
lhe haviam recusado confiana, quando se passou para o centrista Presidente democrtico. A garota que ele amava era uma espcie de agente duplo atrada para o perigo 
e de exuberante duplicidade. O novo chefe da Casa Civil era um advogado divorcista agressivo e oportunista, O velho chefe da Casa Civil, Lucas Cartwright, que Jonathan 
sempre achara que oferecia slida base de honradez e idealismo na Casa Branca, regressara do Alasca na vspera, para ser atacado numa coletiva de imprensa. Ps de 
barro. Mas seria justo encostar ps de barro no fogo? 
       - Vai trabalhar? perguntou ela, quando ele comeou a se vestir - Como seu nico e verdadeiro amor, lamento, porm, como contribuinte,  bom de ver. 
       Ele pensou em contar ao seu nico e verdadeiro amor que estava de sada para o Pentgono a fim de falar com Lucas Cartwright e arrancar-lhe um pouco de verdade, 
mas resolveu esconder isso dela; seria melhor que ela no tivesse nada interessante para relatar a Bannerman a respeito do seu paradeiro aquela semana. Podia ser, 
tambm, que Bannerman no fosse o Homem Mau, mas o Homem Bom num disfarce terrivelmente eficaz. 
       - Voc me arrancou da depresso, Buffie - disse ele, de forma a parecer mentira. - Quando sair, limpe o banheiro. Recebo um monte de queixas quando voc deixa 
as suas coisas em cima da pia. - Isso queria dizer que ele, ao chegar  casa encontrava um recado de Buffie escrito com batom no espelho, o que o animaria de novo, 

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desde que no soubesse que ela estava dormindo com o Presidente ou sendo seviciada por um derrubador de Presidente. 
       Na sada, Jonathan disse: 
       - Me compre uma loo aps-barba; no quero que o Presidente me d uma cantada. - Ele estivera imaginando essa frase de despedida havia dez minutos e se sentiu 
melhor por haver mentido quanto a procurar Lucas Cartwright. 
       No Pentgono, o guarda  mesa no se impressionou com o passe sofisticado da Casa Branca de Assistente Especial do Presidente, exibido por Trumbull. Ele no 
marcara entrevista com o Secretrio de Defesa e sua secretria no permitiu que ele aguardasse na sala de espera de audincias. Um general-brigadeiro veio ao telefone, 
e Jonathan se escutou dizendo: 
       - Sou assistente especial do Presidente dos Estados Unidos, e vou falar com o Secretrio de Defesa no primeiro momento possvel. O senhor me encaixar entre 
duas entrevistas, general, ou ter um inimigo implacvel na Casa Branca. 
       Funcionou; como os quilos de coronis no Pentgono, os assistentes especiais podiam no ser muita coisa dentro do velho edifcio do Executivo, mas nos departamentos, 
o ttulo tinha algum peso. 
       Lucas Cartwright, que parecia cansado aps o longo vo e uma provao de dois dias com a mdia, estava cordial como nunca. 
       - Voc ficar contente em saber - disse, na sua forma gentil, que descontraiu Jonathan - que deixou o general de uma estrela com quem falou com uma poa de 
mijo embaixo da mesa. Suponho que voc se identifica com os militares? 
       Jonathan assentiu com a cabea, afundando-se no canto de um sof de couro, de frente para a mesa do Secretrio, sob o retrato de Forrestal. Ele sabia que 
Cartwright estava sob tanta tenso como seu predecessor, por isso foi direto ao assunto: 
       - Meu estoque de heris est acabando, Senhor Cartwright. 
       - Voc no devia ficar deprimido, Irmo Jonathan. Seu discurso da outra noite foi brilhante. Escutei-o numa pequena tenda na base da Vertente Norte, e fiquei 
profundamente comovido. Voc devia ficar orgulhoso, sendo relativamente to jovem, por ter... 
       - Eu no escrevi o maldito discurso. 
       - Ah! - Cartwright piscou os olhos - me disseram que sim. 
       - Sim, eu fiz o rascunho de um discurso. Bom discurso. Objetivo, sem lugar para compaixo, seguindo uma orientao fixa. Mas esse no foi o discurso que o 
Presidente apresentou. 
       - Ele adulterou o que voc escreveu? 

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       - No, no. Ele fez um discurso inteiramente diferente. Escondeu o que ocorreu naquele trem de campanha foi moralmente errado: o povo tinha o direito de saber 
que um candidato a Presidente ficou quase dois dias sem conseguir enxergar. No meu esboo de discurso confessei isso; usei de franqueza, porm, o Presidente deturpou 
tudo. Reduziu a coisa a quase nada. E no foi quase nada, foi errado. 
       Cartwright tirou os culos, esfregou os olhos e ps os culos em cima da mesa de caf, prximos a um jornal com uma manchete que dizia: "Contestadores Rodeiam 
a Casa Branca". Ele disse: 
       - Eu no me havia realmente concentrado nisso, Jonathan; tenho andado muito ocupado com a outra histria, a que a imprensa gosta de chamar de "Fraude de Yalta". 
No discurso do Presidente, a referncia ao cego Sanso... 
       - Essa foi minha - disse Jonathan rapidamente. - A dica do Sanso foi a nica parte minha. 
       - Achei que era. Foi muito tocante. 
       - No posso fazer com que ele entenda - disse Jonathan para a mesa de caf. - Isso apenas deu fora  fraude. Foi tudo uma fraude. 
       - Tudo? 
       - A essncia da coisa. O Presidente Ericson embromou todo mundo na poca das eleies; embromou-os com o discurso, e ningum est percebendo isso. Ao contrrio, 
todo mundo est revoltado quanto  sua Farsa de Yalta. 
       - Gostaria que voc no se unisse  essa caracterizao geral, Irmo Jonathan - falou Cartwright com um olhar pesaroso, e o redator de discursos deu-lhe uma 
olhada acusadora. - Voc faz com que eu me sinta como o Joe Jackson Sem-Sapato. - A vem uma daquelas interminveis histrias do Cartwright, pensou Jonathan, e esperou 
enquanto o Secretrio de Defesa contava: - Em 1919, acho, houve o escndalo Black Sox do beisebol. Joe Jackson Sem-Sapato, o grande arremessador, foi acusado de 
entregar o Campeonato Nacional para que alguns jogadores pudessem faturar. A um jovem f aproximou-se do herico Joe Sem-Sapato, com lgrimas nos olhos, e implorou: 
"Diga que  mentira, Joe". Isso abalou a nao. - Aps uma pausa, Cartwright disse: - Posso deduzir da sua expresso sombria que minha lembrana do Joe Sem-Sapato 
no transmitiu a perspectiva que eu esperava. Bem, no faz mal. 
       O telefone interrompeu-os: 
       - Senador, o senhor... sim. - Longo silncio. - Senador, seu tom de voz me aflige. Ns nos conhecemos h muitos anos e esta  a primeira vez em que duvida 
da minha integridade. Vou creditar isso ao calor do momento, e no vou recordar-lhe o caso quando a 

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tempestade passar - Jonathan reparou na confusa metfora, a menos que se referisse aos relmpagos do calor. Cartwright escutou o senador at ele desligar, aplacou 
sua raiva o melhor que pde, o que fazia bem, e se voltou para o jovem na sala: - Esse chamado foi de um dos nossos ardentes adeptos e mais francos defensores. Alguns 
dos outros telefonemas no so to gentis. 
       - No me sinto culpado por me sentir culpado - disse Jonathan - nem de estar aqui incomodando-o quando tudo o que o senhor realmente deseja  a lealdade cega. 
Quero uma boa razo para ficar do lado de Ericson. No posso conversar com o Hennessy porque o acho um homem genuinamente mau, e Smitty tem o raciocnio bastante 
lento; quanto aos outros no conheo bem. Isso deixa o senhor como o nico a quem posso apelar para que d algum motivo pelo qual eu no deva tomar parte na corrida 
pelos botes salva-vidas. 
       - H um ditado na Marinha - disse Cartwright pesarosamente. - Quando a gua atinge o nvel superior, siga os ratos. 
       Jonathan franziu o cenho. 
       - Sua compreenso e sua vontade de continuar junto ao Presidente - disse o homem mais velho com evidente sinceridade -  mais importante para mim do que voc 
pensa. Pergunte-me qualquer coisa: serei franco e confiarei completamente em que voc no revelar o que eu lhe disser. 
       - Por que o senhor inventou aquela histria de Yalta? 
       Lucas Cartwright no titubeou: 
       - Era urgente que tirssemos o Presidente e sua comitiva de l. Ficamos com medo de que a emboscada fosse apenas parte de uma tentativa para mat-lo. Foi 
uma idia que George Curtice bolou: combinar com Nikolayev nossa partida imediata. Pensando melhor e sensatamente, talvez tenha sido um erro, mas naquela hora parecia 
uma mentira ingnua, uma histria que no prejudicaria a reputao de ningum, somente a enalteceria. E tambm uma histria que esfriaria as paixes que pudessem 
ter surgido entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica. Aquela mentira ingnua pode hoje parecer a Farsa de Yalta, porm, na ocasio, pareceu uma idia fantstica. 
       - Isso foi na ocasio - disse Jonathan. - Mas, aps o seu regresso no houve necessidade de prosseguir com a mentira, O Presidente sabia? 
       Cartwright hesitou: 
       - No seria direito discutir com algum, mesmo com voc, o que eu disse ao Presidente. Nem voc deveria, caso algum faa semelhante pergunta acerca de suas 
conversas particulares com o Presidente. Mas lembre-se de que o Presidente Ericson esteve em 

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choque durante os dois ltimos meses, recentemente cego e sob enorme e inacreditvel tenso. A responsabilidade por no esclarecer a situao  minha e do Curtice, 
no do Presidente. 
       - Se o senhor cometeu um terrvel engano - pressionou Jonathan - no deveria renunciar e admitir a culpa toda como sendo sua e do Curtice? 
       - Essa seria a minha tendncia. Mas no vou renunciar porque desejo minha leal traseira plantada naquele assento do Gabinete se houver outra tentativa de 
expulsar o Presidente. 
       - Isso est sendo tramado? 
       - Pode ser. Mike Fong continua l. Se essa tempestade da opinio pblica sair do controle bem poder ocorrer outra tentativa de usurpao. 
       Jonathan sacudiu a cabea; ele queria desviar-se da estratgia e entrar a fundo na corrupo. 
       - Por que o Presidente no lhe contou a respeito da cegueira anterior... ele no confiava no senhor? 
       - Evidentemente no... no; nem posso dizer isso. Ele confiava em mim, e ainda confia, e tem razo em faz-lo. Ele achou que eu no tinha necessidade de saber 
do incidente do trem, e o comunicado ficou limitado queles que tinham necessidade de saber, como o pobre Herb Abelson. Uma vez que se comea a romper o princpio 
do precisa-saber, se abrem excees realmente se insultam todos os outros. 
       - Mas o senhor precisava saber. A cegueira anterior era importante para as decises que o senhor tomou em Yalta aps a emboscada. 
       - Ah, isso  verdade. No me deixar a par do segredo foi, em retrospecto, um terrvel engano. 
       - Senhor Cartwright - insistiu Jonathan - foi errado. - Ele queria escutar essa palavra dos lbios do Secretrio de Defesa. 
       - No, um equvoco, mas no foi errado. Foi uma deciso ttica, no uma questo moral, de certo contra errado. - E amenizou: - Fiquei profundamente magoado 
l no Alasca quando escutei aquele discurso, e soube da cegueira anterior. Acreditava gozar da total confiana do Presidente, o que eu merecia. Sou humano, fiquei 
enfezado com a coisa e sem dvida teria ficado ranzinza durante anos com minha esposa. Mas isso so negcios de estado; grandes homens tm grandes motivos para manter 
seus prprios segredos e nenhum assistente pode insistir em penetrar em cada segredo do Presidente. Por isso ele tem diferentes assistentes para funes diferentes. 
       - Como Hennessy? 
       - Mark Hennessy no  o homem venal que voc pensa que . 

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       Se Cartwright ia defender Hennessy, pensou Jonathan, ele ia assumir um grande problema de credibilidade: 
       - Mark  mais inclinado do que voc e eu a pr os fins antes dos meios - disse Cartwright. - O que no  automaticamente imoral, se os bons fins so urgentes. 
Paulo, o Apstolo, tinha muito orgulho de ser "todas as coisas para todos os homens", como afirmava, porque achava essa ttica s vezes necessria para salvar todos 
os homens. No estou dizendo que homicdio ou incndio premeditados so admissveis como meios para um bom fim, mas j se apararam algumas arestas na Casa Branca 
a fim de servir a bons fins durante muitos anos. Em benefcio da nao. 
       - Hennessy dedica sua lealdade a um s homem, Ericson, acima de tudo. Isso  errado. 
       - Certo; a lealdade pode tornar-se um vcio, mas  uma qualidade baseada mais na virtude do que no vcio. Foi o Hennessy quem mudou a nfase do seu discurso? 
       - Acho que sim - falou Jonathan. - No pode ter sido Hank Fowler e sei que no foi a Melinda. 
       - Possivelmente o Presidente teve alguma coisa a ver com isso - sugeriu conjeturalmente. Cartwright, acrescentando rapidamente - embora sempre seja possvel 
que ele tenha sido obrigado a se desviar do seu texto reto-e-estreito para seguir a ultraleal opinio do Senhor Hennessy. De qualquer forma, se o culpado pela redao 
final foi Hennessy, sua dedicao ao Presidente no precisa ser assim to depreciada. Cartwrights e Hennessys vo e vm, voc sabe. 
       Jonathan no se incomodou em desafiar esse argumento de no-culpe-o-patro porque tinha sua prxima pergunta cuidadosamente engatilhada: 
       - Por que os jornais esto agitados por causa da Fraude de Yalta quando no reagiram diante da farsa maior do trem? Por que todo mundo, inclusive o senhor, 
est fugindo do ponto principal: que a venalidade real no foi tanto a de enganar os russos em Yalta, mas de enganar o eleitorado americano, ao encobertar a cegueira 
anterior? 
       Cartwright balanou a cabea: 
       - "Venalidade", "encobertar", essas palavras so fortes, sabe disso. Temos de lidar com a crise real, no com a crise que voc acha deveria estar havendo. 
Se pensa que as decises sobre Yalta eram defensveis, como parece estar dizendo, ento deveria estar ajudando a convencer as pessoas de que o Presidente e a nao 
no foram to mal servidos. Pelo menos a inteno foi boa. Mais tarde, se quiser, ns dois poderemos analisar minuciosamente a moralidade do episdio da primeira 
cegueira. 

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       Jonathan no podia aceitar essa: 
       - Diga-me sem rodeios: o senhor no se levanta, por estes dias, sentindo um peso no corao? No pega o seu jornal matutino calculando qual a nova bomba inventada? 
Nunca se pergunta se o que vem fazendo est errado, profundamente imoral, realmente podre? 
       Cartwright entregou-se a um profundo suspiro. 
       - Sim para todos os itens. Mas depois me pergunto: como tanta coisa pode ter sado to errada com um ntegro patriota como eu aqui, no centro de tudo? Mas 
nem tudo  o que parece. "Aquilo que voc planta,  aquilo que voc colher", diz a Bblia. Ns no plantamos isso. Ou, se o fizemos, plantamos a coisa inconscientemente 
durante um prazo de um ano, e agora tudo est sendo colhido em uma semana, o que desvirtua a colheita. Da forma por que tudo se est delineando, parece que todos 
ns nos sentamos e conspiramos para enganar o mundo em relao a tudo. Mas no aconteceu assim. Homens diferentes efetuaram aes diferentes por motivos diferentes. 
E fizemos tudo pelo melhor interesse do pas, e com o Presidente em mente. Para equilibrar. 
       - Os fins no... 
       Cartwright levantou um dedo pedindo silncio. 
       - ... justificam os meios, voc ia dizer. Memorizei uma citao de Charles De Gaulle quanto a este assunto, e a tenho repetido de vez em quando para vrios 
Presidentes: "Todo homem de ao possui forte dose de egotismo, orgulho, aspereza e astcia. Todavia, todas essas coisas lhe sero perdoadas e sero at mesmo encaradas 
como altas qualidades se ele puder transform-las nos meios para atingir grandes fins". 
       - O poder corrompe - citou Jonathan de volta. 
       - O poder tende a corromper - falou Cartwright, corrigindo a citao - contudo, no existe garantia de que ele corrompa. s vezes os homens corrompem o poder. 
E os fins geralmente no justificam os meios, porm, s vezes o fazem. Talvez isso confirme a regra. Se h alguma coisa que eu aprendi servindo a trs Presidentes 
 que o absolutismo leva ao desastre. - E emendou: - s vezes o que leva ao desastre  uma ausncia absoluta de absolutismo. Essa  uma citao citvel? 
       - Pragmatismo - falou Jonathan com o que ele esperas fosse o grau certo de sarcasmo. 
       - Do Latim pragmaticus - instruiu Cartwright - que significa "relativo a assuntos de Estado", e s recentemente veio a significar "prtico". 
       O mpeto de Jonathan arrefeceu um pouco: 

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       - E uma outra coisa, desejo ardentemente que o Presidente fique afastado da minha garota - ele deixou escapar. Era verdade ele ficou alegre porque a coisa 
saiu, embora ridculo como ele sabia que parecera. 
       - No pode haver droit du seigneur - concordou Lucas Cartwright rispidamente. - Voc tem toda razo quanto a isso. Concluo, ento, que a jovem a que se refere 
tambm deseje que as atenes do Presidente no lhe sejam mais dirigidas? 
       - Droga, no! Toda vez que ele chega perto dela, ela fica excitada - disse ele. E no apenas figurativamente, podia ter acrescentado. Cartwright dava a impresso 
de conter um sorriso com certa dificuldade, e falou: 
       - Se voc conseguir tomar conta dela, alguns de ns podero cuidar dele. Mas no posso lutar suas batalhas por voc em relao  moa. 
       - Ah, eu nunca devia ter tocado no assunto. Desculpe; esquea. 
       Outro telefonema: 
       - Sim, Hennessy. Sim, Jonathan est aqui no meu gabinete neste instante. Trouxe algumas questes ticas, porm, eu diria que ele  digno de confiana. H... 
Eu no sabia que ele conhecia moa. Mais alguma coisa? - Hennessy, o sacana furtivo, estava investigando-o; provavelmente algum do Pentgono informara  Casa Branca 
que um redator de discursos presidenciais estava falando com o Secretrio de Defesa, e Hennessy prontamente quis saber por qu. Ele tinha razo em desconfiar. 
       - Se eu fosse voc, Mark... - Cartwright era o nico a chamar Hennessy pelo primeiro nome, que era sua forma de ser formal - e, como sabe, eu no sou mesmo 
voc, eu verificaria o alegre nimo geral do nosso garoto de olhos azuis, o Procurador-Geral. A discrio no seria a mesma se ele abrisse a boca. Como voc, fiquei 
preocupado principalmente com a reao  Fraude de Yalta, como foi caritativamente apelidada, porm, o Irmo Jonathan sugeriu que o jri talvez ainda esteja ocupado 
com a revelao da primeira cegueira - Hennessy deve ter feito alguma referncia a redutores de discursos faladores porque Cartwright prosseguiu: - Entretanto, as 
sensibilidades morais do jovem bem poderiam estar mais intimamente de acordo com as do pblico em geral do que as suas ou as minhas. Isso quer dizer que o Procurador-Geral 
Duparquet ficar desconcertado. Ele deu grande nfase, na reunio de Gabinete, quanto a no haver meios de saber em Yalta que o Presidente estivera cego antes, lembra-se? 
De certo modo o Procurador-Geral beneficiou-se de um erro, porque seu cliente mentiu para ele. Constrangimento pode obrigar um homem como Emmett Duparquet a fazer 
coisas estranhas. - Evidentemente Hennessy discordava. 

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Cartwright continuou: - Bem, voc est a bem no centro da situao na Casa Branca, e eu no. Uma outra coisa... realmente? Ele ficou surpreso. - Eu tenho um receptor 
aqui. Vou olhar tambm. Falo com voc mais tarde - Cartwright apertou calmamente um boto e disse  secretria: - Parece que vem alguma coisa pelo receptor telegrfico, 
 aquela mquina l no saguo com o papel amarelo, no o branco, acerca de um grupo de reprteres entrevistando a viva do Doutor Abelson aps o funeral. Quer trazer 
a mensagem aqui? E depois fique procurando "anncios" posteriores, como os chamam, e os traga aqui, tambm. 
       Jonathan sentou-se. 
       - Tem um rdio? - Cartwright assentiu com a cabea, pegou um radiotransistor na gaveta da mesa, e ligou numa estao s de noticirios; antes de a cpia do 
receptor telegrfico chegar, o boletim entrou no ar: 
       "A viva do mdico do Presidente disse hoje, aps o funeral, que o Doutor Herbert Abelson tirou sua prpria vida porque, palavras suas: 'no poderia viver 
com uma mentira' ". 
       Jonathan aproximou-se da mesa de Cartwright e ficou ao lado do Secretrio da Defesa, que amparava as ms notcias nas mos. O locutor recapitulou os pormenores 
da morte de Abelson trs noites antes, causticamente leu o texto da declarao da Casa Branca divulgado no dia seguinte, e que sugeria que poderia ter sido causado 
por uma dose excessiva de comprimidos soporferos e se interrompeu para mudar para o canal do correspondente da rede na casa de Abelson. 
       "A viva abalada pela dor acaba de libertar cpias da carta do seu falecido marido, o mdico do Presidente, que chegou na correspondncia desta manh, a manh 
do funeral de Herbert Abelson. Aparentemente o Doutor Abelson escreveu a carta em Camp Hoover, um conjunto rstico de casinholas a umas duas horas de Washington, 
e caminhou at uma caixa de correio mais ou menos a uma milha estrada acima, alm do isolado retiro. Em profunda depresso, regressou e tomou a dose fatal de plulas 
soporferas. Aqui est o texto da carta - estou lendo uma fotocpia que alguns amigos da viva, Senhora Barbara Abelson, distriburam h alguns momentos atrs. Certos 
pargrafos foram suprimidos, provavelmente com intimidades que a Senhora Abelson prefere continuem ntimas, porm, a maior parte do texto  a que segue". 
       Cartwright afundou tristemente na cadeira e deixou o radiotransistor na mesa. Jonathan permaneceu de p, visualizando o rosto do homem morto cujas palavras 
estavam sendo lidas: 

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        "Querida Brbara: no agento mais. No posso viver comigo mesmo. Sempre fui um covarde e agora estou adotando a soluo de um covarde. 
       Devido a eu ser um fraco, o Presidente dos Estados Unidos est cego. Devido a eu ser um fraco, existe um horrvel segredo na Casa Branca comendo as entranhas 
do nosso governo. Desculpe se isso parece superdramtico, porm, voc pode se dar ao luxo de ser dramtico num bilhete suicida. 
       Aps o acidente no trem, quando Sven Ericson recobrou a conscincia e no podia ver, eu quis chamar um oftalmologista imediatamente. Contudo, Sven disse que 
no, e o coordenador da sua campanha, aquele sacana do Leigh, disse-me que eu no tinha o direito de alarmar o povo. Ento fiz o que mdico algum que se respeita 
faria: concordei com meu paciente numa deciso mdica. 
       Achei que tudo ia bem quando sua viso retornou no dia seguinte, porm, estava errado. Deve ter ocorrido alguma ruptura capilar no canal tico. Sua viso 
era vulnervel porque eu pus a poltica adiante da medicina, porque eu deixei o Senhor Duro me influenciar. 
       Depois da emboscada em Yalta, eu sabia que tinha de relatar aos mdicos a sua cegueira anterior. Todavia, o Presidente se apoiou em mim, mas eu j estava 
at o pescoo envolvido na fraude, por isso me deixei levar. No contei ao mdico de olhos o que ele precisav saber para fazer um diagnstico adequado. Se eu tivesse 
contado, sem dvida ele teria chamado um neurocirurgio, e talvez Ericson restaurasse a viso. 
       Que foi que deu em mim? Como pude deixar esses caras, especialmente o Hennessy, evitarem que eu cumprisse meu dever como mdico? Todos ficaram me lembrando 
que eu era um pssimo mdico; que o item mais importante na minha maleta preta era o nmero do telefone de um mdco de verdade de Bethesda, e eles tinham razo at 
certo ponto. Mas um pssimo mdico  igual a um mau padre: pode fazer certas coisas corretamente e marcar um tento. Eu fracassei com meu paciente, fracassei com 
a nao, e estou cansado de fracassar. Estou cansado da forma pela qual Sven falou comigo esta noite, me dando tapinhas na cabea e me dizendo que no me preocupasse. 
Ele costumava ser meu amigo. Desisti de um bocado de coisas por causa dele para trabalhar nesta maldita panela de presso, e acho que ele est alucinado pelo poder: 
faz tudo para permanecer no cargo, independente do seu grau de incapacidade e de quem tenha de mentir por ele." 
       O locutor, com o tom de voz mudado, falou: 
       "Em seguida h diversos pargrafos suprimidos, provavelmente despedidas pessoais  sua esposa e filhos. Um pargrafo final": 

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       "Vou caminhar at a caixa de correio, que Deus sabe a que distncia fica, no meio da noite, e remeter esta carta. Se eu tiver medo e no levar a cabo o que 
tenciono, ficarei em casa algumas manhs para interceptar a correspondncia antes que voc a receba. Se eu conseguir faz-lo, voltarei e tomarei uma dzia de Seconal. 
Eu a amo. No agento mais. Adeus. Herb." 
       O transistor empoleirado na mesa murmurou mais alguns minutos contando a cena em frente  casa dos Abelson, com os espelhos tapados com tecido preto, a chegada 
de crianas e parentes, e ento: 
       "A senhora Abelson vai encarar os microfones e cmaras agora. Soubemos que vai tentar falar sobre este..." 
       Cartwright desligou seu transistor e ligou o aparelho de televiso do escritrio. O rosto inchado e devastado de Barbara Abelson surgiu na tela. A voz ao 
fundo disse que ela ia ler o bilhete de suicdio do marido. 
       - Meu Deus! - exclamou Jonathan - ela vai ler aquilo, e com esta sero cinco vezes hoje: nos noticirios da. noite, de amanh de manh, como quando Ruby matou 
Oswald. - Ele sabia que o assunto seria incutido na alma americana, repetido mais e mais vezes at que a maioria dos espectadores pudesse recitar as palavras e jamais 
esquecer o rosto. Como era de se esperar, assim que a viva comeou a ler a carta em voz alta, a cmara cortou para a foto da mesa da sala de jantar do seu falecido 
marido, depois deu uma panormica de outra foto da famlia reunida, voltou para a viva, depois focalizou os objetos marcantes da campanha que o mdico do Presidente 
orgulhosamente reunira, as cartas emolduradas de Ericson, sua nomeao em pergaminho e finalmente a lamentosa, perseverante ex-atriz lendo as ltimas palavras do 
marido. 
       Jonathan resolveu que deveria continuar ao lado do Presidente porque ficou preocupado com o impacto devastador da apresentao pela televiso. O redator de 
discursos no pensava tanto em Abelson, ou sua viva, mas sim no efeito que a apresentao que provocava lgrimas teria sobre o pblico telespectador. Ele calculou 
que deveria constranger-se por causa da sua aparncia insensvel, mas ficou satisfeito por se manter de um lado. Estudou a fisionomia de Cartwright, olhando para 
a tela, queixo cado e olhos midos. O homem estava mais profundamente afetado do que ele; Jonathan sentiu-se bem por isso. 

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O EX-SECRETRIO DO TESOURO 

       - Desligue isso - disse Bannerman a Mike Fong, que desligou a ofegante recapitulao do locutor sobre o desempenho da viva do Abelson. Bannerman, que regressara 
na noite anterior de Londres, ricara furioso com a maneira pela qual a Comisso para Substituir o Presidente Incapacitado estivera deitando a perder o ataque a Ericson. 
Ele convocou Fong, o Vice-Presidente Nichols e Marty Quinn - o agente de imprensa que acabara de ser contratado para dirigir o pesioal da comisso - para uma reunio 
na sua casa. Quinze minutos antes de surgirem as notcias da programao sobre Abelson, Bannorman lhes ensinara alguma coisa acerca de como atacar um Preildente. 
       - Vocs deixaram passar a melhor: a baixeza moral - ele lhes disse - e fizeram o maior alvoroo em torno daquilo que jamais iorvir para destitu-io. Por 
que no posso confiar estratgia a algum? Devia ter sido bvio. S espero que no tenham estragado tudo. 
       - H piquetes marchando em volta de toda a Casa Branca, Roy - assinalou o Vice-Presidente. - Isso foi providncia da comisso. 
       - Um bando de garotos e desordeiros com quem voc pode contar para qualquer negcio - rosnou Bannerman. 
       - Mas esto recebendo uma cobertura enorme - explicou Quinn, o agente da imprensa. - Televiso, editoriais; a frase "Fraude de Yalta" j faz parte do vocabulrio. 
       - Esquea os seus inconseqentes retalhos de jornal! - Bannerman no tentou esconder suas frustraes quanto  incapacidade dos seus aliados. - Dizem que 
Roosevelt traiu a Amrica em Yalta; Isso o prejudicou? No estamos procurando ferir Ericson  luz da Histria ou derrot-lo nas prximas eleies; estamos a fim 
de forlo a sair agora, recrutando toda a raiva do povo americano e a fria dos veculos noticiosos. 
       - Calma, Roy - disse o Secretrio Fong. - Marty est fazendo um bom trabalho. A coluna de Zophar foi uma bomba, e ns a 

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apoiamos com toda a organizao: os telegramas, as cartas, as marchas, as declaraes no Congresso, tudo. Ericson est pelo pescoo. 
       Bannerman disse a si mesmo que no se poderia dar ao luxo de ofender Fong ou Nichois, tinha de esfriar o nimo, mas a estupidez deles o irritava. Explicou 
lentamente, como se para crianas: 
       - Ns no vamos vencer no campo das relaes exteriores. Veremos uma grande baguna, e um bocado de barulho, e os redatores idosos de editoriais cacarejando 
e resmungando para bancarem os formidveis. Mas o que o homem da rua pensar? Vai achar que tem um Presidente cujo pessoal tomou decises difceis aps uma tentativa 
de assassinato, pelo bem do pas... 
       Ele tentou isso no discurso, e quebrou a cara - disse Quinn. 
       - Com quem a coisa fracassou? - zombou Bannerman. - Zophar fez com que ele parecesse um tolo, mas a grande plebe vai formar fileiras com seu Presidente, se 
a questo for ele contra os russos. Qual a concluso? Ericson tentou passar a perna nos soviticos? O sujeito comum vai dizer: "Que h de to ruim nisso? Ento o 
Ericson deu um fora, mas, pelo menos, est do nosso lado." 
       - Voc acredita mesmo nisso, Roy? - o Vice-Presidente estava preocupado. 
       - No apenas isso - Bannerman no resistiu a falar abertamente: - Acontece que acho que Cartwright e Curtice agiram certo ao retir-lo rapidamente do perigo. 
Quando for Presidente, Arnold, s espero que o seu pessoal o sirva to bem. Esse Harry Bok, ele no  um mentiroso...  um heri, penso eu. Esse Ericson decidiu 
explorar isso para ajudar a pr um homem do Kremlin no poder, e que tinha uma dvida com o Presidente americano, ento eu digo que lhe tiremos o chapu por isso. 
E depois que a multido de espertinhas parar de bufar e urrar a respeito de fraudes, voc ver que a maior parte das pessoas do pas ter a mesma opinio. V, ento, 
tentar conseguir que Ericson desista. Anotem o que digo: todo esse maldito escndalo sobre a Fraude de Yalta vai virar, a menos que a gente a ponha de lado e entre 
no essencial imediatamente. 
       - Qual  o essencial, Senhor Bannerman? - O agente de imprensa era malevel; fora contratado para cumprir ordens. Bannerman esperara mais bom senso de Fong, 
que pelo menos estava na poltica havia muito tempo, ou mesmo de Nichols, que talvez os anos pudessem ter feito um pouco menos ingnuo. Mas no, Bannerman teria 
de comandar o espetculo sozinho. No sairia do pas por nenhum motivo. 
       - Enganou o povo nas ltimas eleies, isto  o essencial - disse-lhe. - O povo tem o direito de saber; lembre-se daquela frase: "Um direito de saber", se 
os seus candidatos presidenciais j estiveram internados num manicmio, foram comunistas na juventude ou 

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foram cegos em alguma ocasio. Ericson encobriu isso. Ele mentiu. No revelou a verdade completa sobre sua incapacidade, e ela agora paralisa a nao; e no por escolha 
da nao: o povo jamais soube. Ele tinha o direito de saber, mas o perigo lhe foi deliberadamente, corruptamente escondido. Isso  errado, imoral. Deus castigou 
Ericson por causa disso, e agora ele deve ser afastado. 
       - A Constituio no prev isso - resmungou o Vice-Presidente. - Nem mesmo diz que por no se revelar a verdade completa se deva ser afastado. No existe 
impedimento por esse motivo, no  um grave crime. Temos de mostrar que ele est incapacitado e no pode funcionar. 
       Fong uniu-se a Nichols na ofensiva: 
       - Pelo menos a Fraude de Yalta fez o povo achar que Ericson no sabe droga nenhuma do que ocorre na Rssia. Isso  prova de incapacidade. Porm, creio que 
o Roy est certo, o povo pode debandar para o lado dele em assuntos de relaes exteriores. 
       Bannerman fechou os olhos. Valeria a pena derrubar Ericson, para admitir gente que no entendia de moldar a opinio e de manejo do poder? Ele respondeu com 
uma afirmativa  prpria pergunta porque seria capaz de us-los para governar bem um pas. 
       - Primeiro temos de esclarecer qual o caminho a seguir - falou o ex-Secretrio do Tesouro. - Se o do impedimento, ou o da Vigsima Quinta Emenda. Se for atravs 
do impedimento, teramos de Contar com um grave crime, uma obstruo da justia, ou um abuso de poder. Ainda no temos isso. Portanto, o impedimento permanece como 
ameaa, como alternativa, no nossa principal arremetida. Temos de percorrer a rota da Vigsima Quinta Emenda: criar uma tempestade na opinio pblica to severa, 
que at um Gabinete passivo, de apoio tenha de jogar a questo para o Congresso, por medo de que se no agisse, faria com que o prprio Gabinete fosse Impedido. 
       - No  por isso que nos devemos concentrar no fato de Ericson no saber quem estava governando a Rssia? - Nichols ainda no entendera a situao. 
       - Certamente que vamos utilizar isso - disse-lhe Bannerman - mas  somente um argumento intelectual. Voc tem razo, Arnold, a questo  a da incapacidade; 
mas um erro crasso no  suficiente. O nico fator capaz de obrigar o Gabinete a cumprir sua misso  uma opinio pblica furiosa. E o pblico vai ficar possesso 
quando descobrir que foi enganado. Ento a rota da Vigsima Quinta Emenda ser uma forma conveniente de executar a vontade do povo. Entendeu? A desculpa ser incapacidade, 
mas o motivo real ser o de que ele roubou nas eleies quando deixou de revelar 

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a verdade nua e crua acerca de sua cegueira. E no precisamos esgotar o processo todo: s at o ponto em que ele renuncie. 
       Eles entenderam o plano. O impacto de Barbara Abelson lendo o bilhete de Suicdio do marido foi emocionalmente discutido pelos outros trs. Bannerman sentou-se 
silencioso, com sua teoria justificada, tentando encontrar uma frmula lgica de acompanhar o caso, para manter a Casa Branca em estado de stio. 
       - O mdico de olhos - disse Bannerman finalmente. Pensou no jovem e inseguro mdico, na sua obscuridade, que parecia fraco nas coletivas de imprensa, e que 
se escudava no jargo mdico. - Ele  o elo mais prximo. Vamos dar em cima dele. Mike, voc conhece meus contatos no mundo mdico; primeiro temos de fazer um escndalo 
acerca do auto-sacrifcio do Doutor Abelson - fracote miservel, pensou ele; qual era o problema de Ericson, cercando-se de gente que no resistia a presso? - atormentar 
o pessoal da Associao Mdica Americana, tudo isso. Mas falem com o mdico de olhos, arranjem uma coletiva com a imprensa, no amanh, mas depois de amanh, para 
falarmos sobre como ele teria tratado Ericson diferentemente caso soubesse a respeito da cegueira anterior. Todos os mdicos gostam de descarregar em cima dos seus 
pacientes, de culp-los pelas falhas cientficas. Ele com certeza vai esfoar-se por atingir isso em grande estilo. 
       - Talvez os militares tentem bot-lo na linha - disse Quinn. Esse foi o primeiro comentrio til de meus partidrios, pensou Bannerman. 
       - Temos amigos que garantiro ao doutor um futuro na clientela particular - disse Bannerman. - Se fizerem presso nele dos altos escales de Bethesda, a fim 
de que cabe a boca, poderemos explorar isso. Contudo, comecem j a trabalhar no caso atravs da imprensa mdica. Abelson era redator mdico; devem estar furiosos. 
       Isso deu uma idia a Bannerman: como teria Ericson tentado abafar o escndalo da cegueira anterior? O encobrir  sempre mais trabalhoso do que o ato original: 
envolve mais gente, parece indigno e sua exposio mantm a panela fervendo. Talvez o jovem redator do Presidente recebesse um pedido para escrever alguma coisa 
ambgua. Buffie, a de todo mundo na Casa Branca, era a chave para ele. Talvez Arthur Leigh, que foi mencionado no bilhete suicida de Abelson como "o sacana do Leigh", 
se lembrasse de como o encobrimento fora conduzido, e estivesse pronto para falar. 
       - Senhor Vice-Presidente - disse Bannerman formalmente - a reunio est a ponto de chegar ao mago do assunto, e no h necessidade de o retardarmos aqui. 

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       Nichols entendeu sua "deixa" e ficou feliz em partir. Bannerman mandou Quinn trazer Buffie e Leigh depressa. 
       Leigh foi o primeiro a chegar, contente com a chegada numa limusine e a nova notoriedade. 
       - Os reprteres esto seguindo-me por a como se eu fosse uma cadela no cio - rosnou. 
       Mike Fong abriu o jogo para o ex-coordenador de campanhas: Que outras mincias ele tinha para contribuir, em relao ao encobrimento da primeira cegueira? 
       - Tem um ngulo sexual na questo - sugeriu. - Sem dvida Erlcson no mencionou isso no discurso daquela noite; porm, quando o trem de campanha foi obrigado 
a parar, ele estava na cama com a garota, a fotgrafa, trepando nos intervalos das paradas da campanha. Ele estava montado nela quando bateu com a cabea. Bok sofreu 
tentando separar os dois, com ela xingando e berrando no leito superior enquanto a gente tentava manter tudo em silncio. Isso deve acrescentar certo tempero  histria. 
       A puta. Os olhos de Bannerman apertaram-se. Isso queria dizer que Buffie sabia o tempo todo sobre a cegueira anterior de Ericson, c nada falou. De posse dessa 
informao h duas semanas atrs, ele poderia ter arrancado Ericson do cargo. A cadela o retardara, deixando-o pensar que ela estava traindo o Presidente, enquanto 
s lhe passava inteis e pequeninas dicas. Talvez fosse uma agente duplo. Bannerman a subestimara; subestimara o uso que Ericson fazia dela. Sua onda de raiva dirigiu-se 
primeiro  mulher, depois  sua imperdovel superconfiana. No entanto, agora ele tinha uma vantagem: Buffie ainda no sabia que ele sabia tudo o que ela sabia. 
E ele usaria isso para domin-la e us-la. 
       Bannerman forou-se a permanecer calmo, e dirigiu sua ateno para Leigh: Por que ele ficou acessvel to rapidamente? O poltico, um desses intermedirios 
improdutivos com quem se tinha de lidar no caminho para o poder, normalmente negociava suas informaes. Bannerman esperava que Leigh tirasse alguma vantagem, ou 
promessa, ou alguma consulta; todavia, aqui estava ele, oferecendo espontaneamente informaes vitais. Por qu? Uma razo era a de que Leigh no sabia o que o seu 
"ngulo sexual" realmente revelara a Bannerman: que Buffie andara escondendo informao vital. Outra razo podia ser a de que, tarde na vida, Leigh estava aprendendo 
a lidar com homens de recursos - para Bannerman um presente dado sem restries exigia retribuio com dividendos, e seria de maior valor para o doador do que qualquer 
emolumento exigido por um contrato. Um Bannerman no se poderia dar ao luxo de criar dvidas com um Leigh por coisa alguma. Uma terceira possibilidade ocorreu-lhe: 
a de que Leigh possusse algo mais de valor muito maior 

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- possivelmente embaraoso ou obscuro - para revelar na devida hora. O ngulo sexual poderia ser apenas um aperitivo. 
       Bannerman afastou Leigh dos outros para que os dois pudessem conversar livremente. No ptio, olhando para a longa faixa de relva, e longe de qualquer provvel 
vigilncia eletrnica, ele fez a oferta abruptamente: 
       - Arthur, qual  a sua ambio? O que deseja na vida? 
       - Voc quer dizer qual  o meu preo? - Sacana ordinrio, pensou Bannerman. O mundo ficaria melhor sem esses grosseiros intermedirios polticos. 
       - No, se quisesse saber o seu preo, Arthur, eu lhe teria perguntado qual era ele. No sou acanhado. Porm, me disseram que voc  um homem de talento, e 
me ocorreu que a forma de alist-lo na causa  descobrir diretamente o que voc deseja. Poder? Posio? Dinheiro? Fama? 
       - Fico com a coluna trs - disse Leigh. - Dinheiro. Estou cansado de poltica. Pus um Presidente na Casa Branca, e no h coisa alguma que se possa fazer 
que supere isso. Portanto, est na hora de tratar do meu conforto. 
       - Certo - falou Bannerman, aliviado por se tratar de uma questo simples. - Vou fazer-lhe um emprstimo, dizer-lhe onde investir e garanti-lo contra perda. 
Em seis meses ser um homem rico. A gente calcula o lucro mais tarde. 
       - No me esquecerei. 
       - Agora fale srio - ordenou Bannerman. - Estamos sozinhos; estou com a corda no pescoo; agora  a hora de voc se abrir e me dizer o que Ericson fez para 
esconder a sua cegueira anterior - Leigh estava comprado; e permaneceria comprado, como costumava dizer Henry Clay Frick, at surgir uma oferta maior. 
       - Isso pode me meter num srio problema - argumentou Leigh, especulativamente. Bannerman calculou que ele no estava sendo pudico, mas que se preocupava em 
se envolver numa negociata de corrupo. E tentou esperar que ele falasse. Leigh sabia esperar, tambm, e finalmente Bannerman disse: 
       - Voc vai ser bem pago pelas suas dificuldades, e bem protegido juridicamente, a fim de diminuir qualquer dificuldade que dizer a verdade lhe possa trazer. 
Os melhores advogados do mundo nada lhe custaro. 
       Leigh resolveu-se: 
       - Hennessy tentou subornar-me. Ele pensou que eu ia revelar seu grande segredo... o que, francamente, eu jamais teria feito. Da perguntou se havia algum 
que ele pudesse nomear, no meu Estado, que me pudesse ser til. 

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       - A nomeao foi feita? - Bannerman sabia que isso era importante porque promessas no cumpridas no eram venais, pelo contrrio: eram prova de pureza poltica. 
       Sim, apesar de protestos locais. A presso veio da Casa Branca, porm, e o governador do Tennessee no pde dizer no. 
       - O que a pessoa nomeada poderia ter feito por voc? 
       - Negcio de rodovia, zoneamento, esse tipo de coisa. Contudo, nada foi feito por essa pessoa. Nem lhe foi ainda pedido. - Somente Hennessy agira corruptamente; 
Leigh no tentara embolsar dinheiro. 
       Bannerman caminhou at um banco baixo de pedra, olhando por cima dele para o exuberante parque. Provavelmente Leigh extorquira a nomeao de Hennessy, ameaando 
revelar o segredo, e o assistente do Presidente consentira em fazer uma nomeao de aparncia inocente. Agora Leigh queria transformar isso numa oferta de suborno. 
Bannerman resolveu que essa acusao subsistiria? Poderia chegar a atingir o prprio Ericson? Sam Zophar seria o homem a divulgar a histria. 
       - Chame Zophar; conte-lhe tudo. No tente redimir-se totalmente; todo mundo sabe que voc  grandinho. 
       - Estaremos correndo um risco - disse Leigh. Verdade: Hennessy provavelmente contra-atacaria a extorso ou filtraria outras iniquidades do sombrio passado 
de Leigh. 
       Bannerman foi direto ao assunto: 
       - Quanto voc pretendia ganhar? 
       - Uns dois milhes s da terra. 
       - Isso d s um milho e meio lquido, aps os impostos, com muito otimismo - disse Bannerman. - Seu antigo clculo, que voc no deixa sair de sua mente. 
Vamos estabelecer como novo objetivo dois milhes lquidos. - A ele o dispensou: era um empregado caro, fazendo um trabalho desagradvel. Hoje  quarta-feira. No 
desperdice a histria nos jornais de sbado: laa com que seja publicada nos matutinos de segunda-feira. Fale com seu amigo Zophar. 
       Bannerman desceu os degraus da varanda, pegou um telefone no quarto de dormir e chamou um assistente em Nova York. Soletrou o nome de Buffie Masterson: no 
sabia seu primeiro nome verdadeiro; e pedia ao FBI uma sindicncia informal da garota e sua famlia imediata, por telefone, dali a meia hora. Ligou para a esposa 
Susan, em Nova York, para pedir-lhe que controlasse o paradeiro da Senhora Arthur Leigh durante os prximos dias. 
       Bannerman refletiu acerca de contar a Fong e ao membro do estafe, Quinn, quanto  prxima acusao de suborno de Leigh contra Hennessy.

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Mas sacudiu a cabea: eles no precisavam saber. De volta  sala de estar ele disse ao membro do estafe para comear a concentrar a presso da associao mdica 
sobre Andy Frangipani, da Secretaria de Recursos Humanos, atravs da pergunta: Deveria um homem que no confia no prprio mdico lidar com o destino do pas? At 
agora a presso da Secretaria de Recursos Humanos fora toda a favor de Ericson, pelos politiqueiros, e a favor dos deficientes. O suicdio de Abelson deveria forar 
a mudana dessa atitude. 
       Despediu Fong e Quinn, e se concentrou em como faria a garota falar. L embaixo, no seu escritrio-quarto de dormir, Bannerman recebeu o telefonema do seu 
contato no FBI. Curiosamente, e inutilmente, a garota jamais estivera em encrencas, e os nicos relatrios do FBI falavam da investigao feita em todos os campos 
quando ela foi trabalhar na Casa Branca. Os relatrios dos agentes faziam fofocas sobre sua moral - nada novo nisso - porm, nunca foi presa. No havia nenhuma informao 
degradante; somente registros de prmios pelas suas fotografias, e alguns prmios de espetculo de arte. 
       - Diga-me os contatos de influncia - pediu ao homem, fazendo anotaes minuciosas a respeito da famlia e dos amigos dela. - Quem era seu protetor antes 
de Ericson? - Ele anotou a resposta, a qual era, coincidentemente, atualizadssima: uma ligao feita de Nova York para investigar a agncia de publicidade onde 
o ex-amante de Buffie trabalhara, descobria que ele fora despedido naquela manh, numa dispensa geral da agncia. - Verifique a linha de crdito, e o banco, da loja 
de alimentos vegetarianos em Fond du Lac, e qualquer vulnerabilidade financeira. - Desligou sem despedir-se. Havia anos que Bannerman descobrira quanto tempo se 
podia economizar, e quantos subalternos se lembravam de sua posio pela simples atitude de nunca se dar ao trabalho de dizer ol ou at logo. 
       Ele reconheceu que precisava da satisfao de provar a essa garota e a si mesmo que ningum traa T. Roy Bannerman. Admitiu, tambm, que sua satisfao em 
puni-la no deveria chocar-se com sua necessidade contnua de um par de olhos e ouvidos na Casa Branca. Precisava de sua lealdade exclusiva, a qual, se no podia 
ser obtida pela esperana de recompensa futura, viria do medo da retribuio imediata. Ele no a subestimaria novamente, nem ela a ele. 
       - Lavei o rosto antes de vir - disse Buffie, referindo-se delicadamente  florista da pea de Shaw quando em ambiente estranho e luxuoso. Ela vestia colete 
curto e saia, roupas de trabalho da fotgrafa da Casa Branca; mas estava sem cmaras. Os saltos altos chamavam a ateno para suas pernas longas, e Bannerman pde 
imaginar de que modo ela exercia sua influncia; no apenas com 

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sua aparncia agressiva, ou a silhueta flexvel, mas tambm como o modo de caminhar, o mpeto que parecia desejar dar aos outros. A muitos outros, ele sabia, em 
campos demais. 
       - Voc tem escondido coisas de mim, Buffie. 
       Ela assumiu um olhar intrigado, depois riu nervosamente: 
       - Poxa! Nunca pensei que estivesse interessado em mim dessa forma, Senhor Bannerman. 
       Ele fez sinal para que ela se sentasse na cadeira reta de frente para a mesa do quarto de dormir. Seu rosto estava normalmente impassvel, e ele mantinha 
a voz baixa, desprovida de sentimentos. 
       - No estou interessado nas suas qualidades como prostituta; estou interessado somente no seu valor como fonte de informaes. 
       Ela empalideceu e se levantou. 
       - Ei! No sou prostituta de ningum, meu chapa; e no sou obrigada a levar esporro de... 
       - Sente-se. - Ele no levantou a voz. Ela sentou-se. - Voc tem se divertido um bocado - continuou - jogando nas duas pontas contra o meio. Com voc tem sido 
como num jogo.  amiga de todo mundo, confidente de todo mundo, traidora de todo mundo. 
       Ela nada disse, parecendo a Bannerman estar convenientemente amedrontada. Medo no seria o bastante. 
       - Voc estava a par da primeira cegueira do Presidente - ele prosseguiu. - E no me contou. Ao invs, deu-me pequenas e inteis informaes, com o conhecimento 
do Presidente, apenas me embromando o tempo todo. Velho e estpido Bannerman, 
       - Como sabe que eu sabia? - sussurrou ela. 
       - Voc estava deitada de costas, com as pernas em torno dele, quando aconteceu. 
       - Ele sabe que eu sabia - ela disse, como se para si mesma. Pegou a bolsa de lona que deixara perto da cadeira e a colocou gentilmente no colo, contendo-se 
e segurando seus haveres, aguardando os prximos acontecimentos. 
       - Pergunto-me se voc se d conta - disse-lhe calmamente Bannerman - de como era importante para mim, e para a nao, saber a respeito da cegueira anterior 
h semanas atrs, quando o Gabinete se reuniu. 
       Passado um instante ela disse: 
       - Era importante mesmo? 
       - No banque a loura burra comigo. Voc resolveu me sacanear, jogando para ganhar uma nota alta se jogasse as cartas certas. Mas no jogou. Perdeu. Agora 
vou lhe dizer o que perdeu. 

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       Apanhou um pedao de papel com suas anotaes e observou-o durante mais ou menos um minuto. Ela rompeu o silncio: 
       - Suponho que a idia sobre aquela revista gorou, n? 
       Ele a olhou como se ela tivesse falado em idioma estrangeiro: 
       - Parece que voc no entende, Buffie. Voc me traiu. No posso permitir que pessoa alguma me traia e fique impune. Se eu no reagisse vigorosamente a notcia 
se espalharia de que eu podia ser trado impunemente. No posso deixar isso acontecer. Voc vai pagar pelo que fez. Vai se arrepender disso pelo resto da vida. 
       - Olhe aqui, sei que o senhor est chateado, e tem esse direito; no fui cem por cento com o senhor. Mas nunca menti. As informaes que lhe dei foram teis, 
no foram? 
       Bannerman encolheu os lbios, esperava que ameaadoramente. 
       - Voc me contou o que Ericson desejava que eu soubesse. Voc pensou que me podia manejar do modo como manejou todos os outros homens com quem entrou em contato. 
Agora vai descobrir como estava errada. 
       - Se bater em mim, eu grito. No topo essa jogada de sadismo; no vou deixar que me machuque. 
       - No vou tocar em voc - ele assegurou-lhe, gozando o momento. - Vou apenas destruir a sua vida e as vidas daqueles que voc ama. No gosto disso, mas  
o que terei de fazer. Quer ver como vai ser feito? 
       - No. Quero ir embora. Posso ir? 
       - A porta est aberta - falou ele. - Est livre para sair a qualquer hora. - Ela se levantou, apertando a sacola de lona com as os - Fond du Luc, Wisconsin 
- murmurou ele. - Estou no ramo bancrio, Buffie, e tenho muitos amigos nesse setor. Dz aqui, que a Masterson's Health Foods tem uma linha de crdito de quinze mil 
dlares, dos quais deve uns onze mil atualmente. Muito bem: da noite para o dia esse crdito vai ser extinto, e no ser renovado. A Masterson's Health Foods vai 
passar tempos difceis, bem como as duas pessoas s quais pertence. 
       Ela balanou a cabea. 
       - Voc est fazendo tipo - ela disse, no acreditando. - O velho banqueiro perverso vai antecipar a hipoteca do pequeno personagem. Isso no pode acontecer 
mais; no neste dia e nesta poca. 
       Ele acenou com a cabea, de modo prtico. 
       - Entendo. Voc prefere uma coisa mais sofisticada. Que mais tenho na lista aqui? Um cara chamado Stanley Marcowitz: 
       voc viveu com ele em Nova York durante quase trs anos, ligao prolongada para voc. Ficaram amigos, como se diz. 

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Muito bem; como uma espcie de amostra grtis... uma pr-estria de coisas que viro para voc e os seus... ontem  noite falei com um amigo que falou com um cliente 
que fez contato com uma agncia de publicidade. E uma coisa aconteceu hoje que vai afetar adversamente a vida do seu ex-amante. 
       - Ningum pode fazer isso - disse ela. - Voc acha que  Deus; e acha que pode me assustar, mas no consegue. Est blefando. 
       - Pague para ver. O telefone est ali. Tem o nmero da agncia? 
       Tinha. Ligou direto e disse: 
       - Ol, Sally. O Stanley est a? - Logo aps seu rosto empalideceu e demonstrou pnico. Ela desligou sem falar. 
       - Voc o alcanar em casa - disse Bannerman. - E vai alcan-lo nesse local durante muito, muito tempo, porque nenhuma outra agncia em Nova York estar 
inclinada a empreg-lo. 
       - Ele trabalhava l havia dez anos - ela falou, sentando-se novamente, entorpecida. - A vida toda. Como pode fazer isso? 
       - S estou comeando - disse Bannerman, homem de negcios integral, examinando a lista. - Tem a sua irm em Milwaukee. Ela est na condicional aps aquela 
priso por txicos. Daqui a uma semana vai ser encontrada carregando umas "bonecas", como eles dizem, e a lei ser estritamente obedecida. A penitenciria federal 
para a qual ela provavelmente ser levada fica em Joliet...
       - O senhor venceu. Pare. Chega com tudo isso - Buffie curvou-se para a frente na cadeira, com a cabea apertada contra a sacola no colo, e Bannerman viu seu 
corpo oscilar com um soluo seco, depois outro. Ela se endireitou aps longo momento e, corajosamente, admitiu Bannerman, sussurrou: - Sabe mesmo como ferir uma 
garota. 
       Bannerman, a meio caminho do seu objetivo, levantou sua massa da cadeira e caminhou at a janela. Ela fora abalada, mais do que impressionada, contudo faltava 
fazer mais. 
       - Provavelmente voc pensa que seu amigo, o Presidente, poder bloquear essas providncias. Ver que ele no tem fora num nvel to baixo. Ele pode comandar 
o mais temvel ataque atmico, mas no pode mandar que um banco local faa um emprstimo, que uma loja empregue uma fotgrafa, ou que um guarda deixe de efetuar 
uma priso. Ou que uma agncia de publicidade no despea um bom elemento cujo erro foi se juntar a uma mulher que mais tarde se revelou uma traidora do seu pas. 
       - Olhe aqui, desculpe. Vamos ser amigos. O que  que eu tenho de fazer para evitar que o teto caia na cabea de todo mundo? 

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s dizer, senhor Bannerman, que eu fao. No vai haver mais tapeao, prometo. 
       Isso ainda no era o bastante. 
       - Cometi um erro ao confiar numa prostituta - disse ele tranquilamente, olhando para a paisagem. - No farei o mesmo erro de novo. Aparentemente voc acha 
que suas desculpas so o suficiente. No compreende que voc traiu o seu pas. O que fez, reter prova vital, , a meu ver, nada menos que traio. Voc merece ser 
destruda. E ser, junto com seus pais, sua irm e seu amigo. No preciso mais de voc. Adeus. - Ele virou-se para a olhar, e pela primeira vez viu o tremor de medo 
que desejava. Ela comeou a torcer a sacola nas mos. 
       - Eu poderia contar-lhe algumas coisas sobre o Hennessy - ofereceu ela. 
       Ele no estava interessado: 
       - Hennessy estar sem emprego dentro de setenta e duas horas - disse ele. -  um corrupto. Voc no tem coisa alguma de valor para mim. Bom dia. 
       - Que tal um grande corpo? - Ela levantou-se para mostrar-lhe. - Todo seu, quando quiser. E eu fao coisas doidas; qualquer negcio. No sou puta, srio que 
no sou, mas no h coisa alguma que eu no faria com voc...
       Ele sacudiu a cabea: 
       - Eu j sabia que voc ia fazer essa oferta h muito tempo. Sempre funcionou a seu favor, no foi? Obrigado, mas no estou interessado. Voc  usada demais. 
       - Poxa, moo, tem de haver alguma coisa!... - Ela se ajoelhou. - Estou de joelhos, Senhor Bannerman. Desculpe, desculpe, eu no sabia em que estava me metendo... 
- E finalmente comeou a chorar, o que logo se transformou em uma histeria gratificante para observar, e a bofetada dele fez com que ela rolasse por metade do aposento. 
       Buffie apoiou-se na cama, comps-se, e ficou sentada por algum tempo, respirando profundamente. Levantou-se, tirou lentamente a roupa e se deitou na cama, 
apoiada em um dos cotovelos, esfregando a face. 
       - Se quer me machucar, v em frente. Eu grito no travesseiro. Ningum vai ouvir. Eu fico marcada facilmente, mas Pdeu jamais ver. 
       Ele estudou-a cuidadosamente. Ela no fazia pose falsa como as vagabundas das revistas de mulheres. As lgrimas no lhe estragaram os olhos, O corpo tinha 
uma graa natural, o colorido clssico da loura meio ruiva natural encantava o fluxo dos seus movimentos,

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o vermelho dos lbios e dos bicos dos seios dignos de um dos seus Bouchers, talvez at o Titiano para o qual dera certa vez um lance. Lindo nu. Bannerman lembrou-se 
de que uma das torturas de Ericson devia ser a idia de que no podia mais ver uma beleza dessas. Terminado o exame, ele no se moveu na direo da cama. A garota 
de Ericson devolveu o olhar fixo, com os olhos, temendo que sua ltima carta no marcasse ponto, e fez um gesto final, convidativo; deplorvel, porm, nada desajeitado. 
       - Sou casado e feliz h trinta e trs anos - disse Bannerman i jovem mulher que se oferecia a ele - e jamais fui infiel  minha mulher. No vou comear agora, 
com um lixo que tambm  traidora. 
       Ele no viu quando ela se vestiu porque descobriu que estava com vontade de faz-lo. Quando ela acabou, apanhou a sacola e, juntando alguma dignidade, dirigiu-se 
a ele sem lgrimas. 
       Talvez eu seja um lixo aos seus olhos, Senhor Bannerman, porm, no aos meus. E no sou traidora. S estava tentando ajudar todo mundo um pouquinho, e usei 
um pouquinho do meu ntimo. 
       - Pode ir agora - ordenou ele. 
       - Estou apavorada, Senhor Bannerman - disse ela, sem parecer nem um pouco apavorada. - Estou com medo de que o senhor no me d outra oportunidade. Farei 
qualquer coisa que mandar. Sou sua escrava. Farei qualquer coisa. 
       Como se relutantemente, ele assentia com a cabea. 
       - Qualquer coisa - repetiu ela, e ele sentiu que ela falava srio. 


O TERAPEUTA/4 
       
       - De manh, toda vez que vou at a porta da frente apanhar o jornal - disse Hennessy - eu tenho um troo. 
       Hank Fowler no estava acostumado com o termo: 
       - Voc tem o qu? 
       - Diga a ele o que  um troo, Hennessy - falou Melinda. Os trs estavam no pequeno ptio do lado de fora do escritrio, perto do Salo Oval, de frente para 
o Jardim das Rosas. 
       - O troo que eu sinto - disse Hennessy, saboreando a definio -  um sbito afluxo de merda no corao. 
       - A sensao que se sofre - explicou Melinda - quando a gente vai jantar tora, em algum lugar, e de repente se lembra de 

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que convidou uma dzia de pessoas para jantar na sua casa uma hora antes. 
       - Ou quando se est sentado  mesa - falou o ex-advogado divorcista - feliz como um mexilho na mar alta, isto  quando os pescadores de mexilhes no conseguem 
peg-los, e um garoto chega e diz: "O senhor no devia estar no tribunal agora para o ltimo sumrio desta manh?" Isso  um troo! Uma espcie de pequeno pnico 
sdico, referente a alguma coisa em que a culpa  toda sua, cruel e frio de sua parte, uma coisa que no tencionava fazer, mas que pessoa alguma acreditar nisso. 
       - Tudo o que voc pode  dizer: "Ih, meu Deus!"- acrescentou Melinda. - Conheo a sensao, porm, no conhecia o termo que a definia at que Hennessy falou 
"troo" um dia. 
       Fowler sorriu, e anotou mentalmente que devia usar aquela palavra num seminrio para psiclogos - o minipnico indefensvel, auto-atribuvel, era comum e 
lhe seria til a nomenclatura. Era aplicvel tanto ao dotado de viso quanto ao privado dela. 
       - Vocs dois tiveram um troo ontem - ele lhes disse - quando a senhora Abelson deu a coletiva  imprensa. 
       Ambos acompanharam seus acenos com a cabea num "...", como ele lhes ensinara. Fowler sabia que Melinda estava nervosa por no ter dado mais ateno aos 
avisos de Hennessy quanto aos "amigos" da senhora Abelson. Talvez, cercada por pessoas diferentes, ou em retro, a viva no tivesse atacado o Presidente e trazido 
a pblico o bilhete do suicida. Hennessy abstivera-se de repisar o fato; como revelara a Fowler, sentia-se culpado por no ter efetuado a misso para a qual se designara 
em Camp Hoover: achar e destruir o bilhete suicida. 
       Teria significado cinqenta mil para a viva, e teria impedido que o doido do Herb causasse um grande prejuzo. Tive um palpite de que a nota estava naquela 
caixa de correio na estrada. Devia ter bolado uma forma de apanh-la. 
       Fowler tinha suas dvidas quanto a isso. Era mais provvel que Hennessy, que adorava atacar Melinda McPhee de vez em quando, estivesse tentando compartilhar 
de sua vulnerabilidade neste caso. Homem perverso, pensou o psiclogo, que encontrava satisfao em nadar contra qualquer correnteza de culpa ou crdito em vigncia. 
       - Cad o Homem? - perguntou Hennessy  Melinda. Estava quase na hora do almoo, e o Presidente ainda no aparecera na Ala Oeste. Fowler dormia l, num quarto 
antigamente ocupado por Harry Hopkins, mas descia para o desjejum toda manh, s sete. 
       - Na Sala de Estar Lincoln, com Harry Bok - replicou ela. - Ele est de baixo astral. O fato de Barbara ter lido aquela carta 

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atingiu-o de verdade. Ele escutou a droga da coisa meia dzia de vezes. No consegui fazer com que parasse; ficou o tempo todo voltando a fita e tocando de novo. 
       Fowler perguntou o que o Presidente fazia naquele momento, e ficou intrigado quando Melinda lhe informou que Ericson estava escutando, com audio-dinmica, 
partes da Bblia. 
       - No espalhe isso por a - avisou Hennessy. -  muito cafona. No combina com Ericson. O povo vai pensar que ele est abalado. Quais captulos? 
       O Livro de J, creio. Ele maneja bem rpido aquelas fitas. 
       - Hank, como  que ele se est agentando? - Hennessy parecia preocupado. 
       - Surpreendentemente bem, apesar de tudo - Fowler no queria discutir o nimo do seu paciente com pessoa alguma, mas Me- linda e Hennessy eram extenses de 
Ericson. Eram a sua antena de receber sinais; seus tentculos para manipular outros. Fowler disse-lhes que estava animado pela forma com que Ericson estava lidando 
com as tempestades da semana: o suicdio de Abelson; a suposta necessidade de confessar a primeira cegueira; a carga contra a Fraude de Yalta e em seguida a segunda 
e muito mais sria onda de reao ao suicdio. Ocasionalmente o Presidente sacaneava, porm geralmente apoiava o pessoal ao seu lado. Uma razo para isso, presumiu 
Fowler, era o ritmo dos acontecimentos - todo da um impacto ou contra-impacto - o que deixava pouco tempo para introspeco. Na semana seguinte, quando Ericson talvez 
tivesse tempo para preocupar-se, essa seria a hora certa para ele se preocupar. Enquanto isso, a natureza apaixonada da atividade trazia, em si, a prpria terapia. 
       - Quero que ele saia da defensiva - disse Hennessy. - Vamos marcar-lhe um evento na prxima semana que seja controvertida, mas presidencial: assuntos nacionais. 
Alguma coisa que envolva o seu namorado, Melinda. O que anda deixando ele doido atualmente, alm de voc? 
       Fowler gostou da forma pela qual Melinda ignorou a pretensa provocao: 
       - O Procurador-Geral, que  um amigo mas no um namorado, tem insistido com a gente para conseguir que o Presidente o acompanhe ao duocentsimo aniversrio 
de algutna grande data constitucional em Colonial Williamsburg. Dia do Direito. Voc disse que no. Ele tentou a aprovao passando por mim, mas - ela retrocedeu 
antes que Hennessy percebesse o duplo sentido - ele me pediu para interceder, e eu discordei. 

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       - Talvez a gente faa isso. Na semana que vem estaremos muito pr-Constituio. Hank, voc conseguiria que o Homem subisse numa plataforma para fazer discurso? 
       - Provavelmente ele gostaria disso - replicou Fowler, e uma voz suave disse-lhe, ao ombro, que havia um telefonema na sua sala. Ele pegou a bengala e atravessou 
a sala de Melinda at seu prprio cubculo, que lhe fora indicado por Hennessy com a piada: "Voc  o nico membro do pessoal que no reclamar de uma sala sem vista. 
Se quiser diga aos seus amigos que tem uma janela. 
       O preocupado comandante do Hospital Naval de Bethesda estava ao telefone: 
       - No posso realmente ser responsabilizado por isso, Doutor Fowler - disse a voz agitada. - Eu estava seguindo ordens. - Gentilmente Fowler perguntou do que 
se tratava, e no se perturbou, ao saber que o oftalmologista, Lilith, estava a ponto de "subir pela chamin", como disse o comandante. A exploso do mdico de olhos 
de quem se ocultara a verdade j era esperada, e Hennessy providenciara para que outros oftalmologistas e neurocirurgies definissem a exploso com declaraes periciais 
que efetivamente trariam balbrdia  questo. 
       - Almirante, que forma tomar o protesto do Doutor Lilith? 
       - Ele est convocando uma maldita coletiva de imprensa na associao mdica esta tarde. J pensou, um mdico?  essa ateno toda que ele vem recebendo nos 
dois ltimos meses: subiu-lhe  cabea, o imbecil acha que  uma celebridade. 
       - Voc lhe sugeriu que a tica da medicina, e a tradio naval... 
       - Claro que sim, Fowler, e isso  parte do problema. Ele estava todo agitado... voc sabe que ele  oficial da reserva, no de Anpolis... e eu lhe lembrei 
as relaes mdico-paciente. Ele disse que eu deveria ter contado isso ao Presidente. Ento fiquei quicando dentro das calas e o avisei de que se botasse a boca 
no mundo eu lhe daria um chute no rabo, e ele cairia na enfermaria de um varre-minas nas Aleutas. 
       Hank Fowler suspirou: 
       - Ele no reagiu bem a isso, suponho? 
       - Foi quando ele comeou a gritar a respeito da sua obrigao para com a ptria e a dignidade da profisso mdica, e Deus sabe o-que-mais. Eu fiquei brabo 
e me arranquei; infelizmente quebrei nosso sigilo na certeza de que o faria cair em si. 
       Fowler sentiu pequena sensao de terror diante da possibilidade de seu prprio envolvimento na provao de Ericson, no como respeitado psiclogo, mas como 
participante criticvel. 

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       - Prossiga, Almirante; o senhor lhe contou sobre a nossa conversa? 
       - Lamento o que houve; eu lhe contei, sim, mas apenas para Impression-lo com o fato de que no podia esperar ajuda da Casa Branca, quando baixssemos o pau 
de surriola nele. 
       - Almirante, a nica coisa que lhe pedi foi para lembr-lo da tica profissional. 
       Bem, pelo que recordo, o senhor foi um pouco alm disso, ou eu fui e o senhor me acompanhou - o oficial naval estava protegendo a traseira - mas, de qualquer 
forma, ele ficou todo perturbado com o que chamou de presso da Casa Branca para negar-lhe o direito  livre expresso. Disfarce... argumentou ele... esse tipo de 
papo. Ele simplesmente no  um oficial de confiana, e  uma dessas malditas ironias do destino que nosso homem principal em Bethesda as tivesse doente quando houve 
a emboscada de Yalta. 
       - O senhor achou que eu queria que o senhor o pressionasse? 
       - Olhe, Doutor Fowler, estamos juntos na coisa. No sei exatamente o que o Presidente, que  meu comandante-em-chefe, lhe Contou, no entanto, o que percebi, 
lendo nas suas entrelinhas, foi que ele desejava que esse homem fosse um bom marujo. Esforcei-me ao mximo para cumprir a vontade do Presidente, e sinto muito que 
ela tenha sido... ... contraproducente. 
       Fowler agradeceu-lhe e desligou antes que ele complicasse a Casa Branca mais ainda. Foi para perto de Melinda, aguardou que ela largasse o telefone, e lhe 
pediu que o acompanhasse at a sala de Hennessy. O chefe da Casa Civil tambm recebera uma ligao nos ltimos minutos. Ambos estavam a par da prxima. entrevista 
do Doutor Lilith com a imprensa. 
       - Tive um troo - disse-lhes Fowler, e relatou seu telefonema com o comandante de Bethesda. - Estou com medo de haver piorado a situao. - Mesmo contando 
a histria do seu telefonema inicial para o almirante, ele se viu minimizando o principal tpico da ligao  medida que enfatizava a tica profissional que mencionara. 
Fowler sentira uma ferroada na conscincia quando ligou pela primeira vez para o almirante, contudo no achara sua providncia de tentar reprimir o oftalmologista 
to ruim assim, e certamente fora em boa causa. 
       - No  culpa sua, Hank - disse Melinda. 
       -  totalmente culpa sua - falou Hennessy. - Sua e do Presidente por confiar quele almirante burro de Bethesda uma funo que exigia certo refinamento. Eu 
sabia que Lilith era bicha. Agora vamos aparar isso. Bem-vindo ao clube, Doutor Fowler. 

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       Fowler se perguntava como uma coisa destas podia estar acontecendo a ele: 
       - Estou assustado - disse sinceramente. 
       - No fique - ordenou Hennessy. - Durante certo tempo ser o assunto do dia, mas depois acabar e ser esquecido. Grande consolo! Anime-se, garoto; pelo menos 
voc no poder ver as negras manchetes: "Psiclogo Cego Aterroriza Corajosa Bicha da Marinha". 
       Fowler sentia-se alegre porque Hennessy estava por perto numa ocasio destas: 
       - Se o senhor concorda - disse ele, mexendo no bigode, sinal de que estava agitado - acho melhor eu no assistir  coletiva da imprensa. Ponha-se no lugar 
do Doutor Lilith, Melinda: o almirante ameaando-a, dizendo que o psiclogo da Casa Branca mandou que ele torcesse seu brao. Sinto empatia pelo mdico de olhos. 
       - Sinta empatia por si mesmo, Hank - disse Melinda. - No comece a enxergar isso pelos olhos dos outros. Vai acabar biruta. 
       - Vamos, vamos - apressou Hennessy - temos coisas a fazer. Hank, sente-se e dite o que recorda que disse ao almirante; e se a idia de se apoiar no mdico 
de olhos foi sua, e no do Ericson, anote isso tambm. Mandarei os mdicos do nosso lado desacreditarem Lilith por haver procurado libis e por haver tomado as decises 
erradas. Melinda instruir o Homem. 
       - Certo - disse Fowler, inepto colaborador. - Diga ao Presidente que sinto muito. 
       - Pelo amor de Deus, pare de se desculpar disse rpido Hennessy. - Esses lances aparecem sempre. Pra comear eu dei um fora sobre a necessidade da merda do 
discurso, mas isso j  passado. Melinda insistiu na porra do controle da viva do Abelson, a atriz, mas isso  passado. Voc insistiu na porra do mdico de olhos 
bicha, e, daqui a vinte e quatro horas, isso tudo ser passado. 
       A voz de Melinda acrescentou, em murmrio: 
       - Quanta porra por aqui! - Para Hank, disse: - Essa  a primeira vez que falo essa palavra horrvel em voz alta na minha vida; srio mesmo. Hennessy deve 
estar me corrompendo. 
       - Deixe o Procurador-Geral corromp-la - disse Hennessy. - Lucas Cartwright diz que  perto do Duparquet que se deve ficar no caso de haver outro putsh no 
Gabinete. Hank, chore bastante, se preferir, mas no deixe isso afetar a maneira como ajuda o Homem, como psiclogo. 
       Fowler saiu para trabalhar com o gravador no seu memorando para arquivo. Quando escutou a televiso na sala de Melinda, aproximou-se da porta para ouvir o 
Doutor Lilith. 

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       A atuao do oftalmologista, em contraste com a da senhora Abelson no dia anterior, comeou sem emoo. Muito banalmente, quase afetadamente, apresentou uma 
srie de logros mdicos do Presidente Ericson e sua equipe pessoal, aps os exames nos Aores. Depois o mdico mostrou como a falta de conhecimento da cegueira anterior 
levou a um tratamento diverso do tratamento "correto" o qual, afirmou com grande segurana, teria sido o da neurocirurgia, a fim de aliviar a presso no nervo tico. 
A apresentao de Lilith, que Fowler sabia era feita em frente a um quadro negro com todos os diagramas adequados e impressionantes, absolveu Lilith de culpa pela 
continuidade da cegueira de Ericson. O mdico apresentou a questo - com exatido injustificvel, pensou Fowler - da cegueira permanente, como sendo culpa total 
de Ericson. O psiclogo perguntou-se se se tornara to partidrio de Ericson e das pessoas cegas, que permitia s suas prprias emoes influir nas suas anlises 
cientificas. Ao escutar o homem que Hennessy caracterizara to cruelmente como "bicha", Fowler deduziu que suas emoes haviam feito exatamente isso, e ele no estava 
infeliz com esse resultado. 
       A coletiva  imprensa em tom baixo do Doutor Lilith assumiu um teor no-mdico quando ele se referiu ao discurso do Presidente e  sua evocao bblica de 
Sanso: 
       - Qualquer pessoa que leia aquele poema de Milton hoje em dia - disse o oftalmologista s cmaras - no pode deixar de se emocionar com este verso, que s 
refere ao heri cego: "Quo bem recaem sobre ele seus merecimentos." No sugiro, de forma alguma, que qualquer ser humano merea ser cego, porm, sugiro, sim, que 
a mentira deliberada do Presidente aos seus mdicos foi a causa primria da permanncia da sua perda de viso. No precisava ter sido assim: a neurocirurgia podia 
ter feito toda a diferena. O Presidente Ericson se castigou. 
       Em seguida o mdico de olhos desandou. Fowler estremeceu ao escutar a voz de Lilith, agora comeando a tremer, contar sobre "a intensa presso diretamente 
da Casa Branca" a fim de manter o silncio; as ameaas do almirante, mencionando os funestos avisos da runa de sua carreira naval feitas pelo "no-mdico que se 
intitula mdico", Henry Fowler. O psiclogo encolheu-se, sacudiu a cabea e voltou  sua sala; era penoso demais escutar diretamente da fonte. Havia tempo suficiente 
para fazer a audio-dinmica dessa fala no sumrio do dia seguinte; ou para ouvi-la repetida nos noticirios, ou no saguo da Ala Oeste, como parte daquela srie 
de ecos ricocheteando nas paredes da casamata da Casa Branca. 
       Fowler sentiu-se emporcalhado. Aps a onda inicial da injustia que arrastou redemoinhos de culpa, sua ligeira variao do reto e do direito, nada sria, 
era interpretada como terrvel presso. 

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Contudo, ele podia ver agora, que, do lado de l aps o exagero compreensvel do almirante, bem poderia ter parecido uma presso terrvel. Henry Fowler no achou 
que estivesse realmente errada - fora idia do Presidente - no entanto, Fowler sabia que havia errado porque era responsvel por suas prprias aes. Era um assunto 
to sem importncia, suspirou, ampliado para algo to escandaloso: a televiso, os editoriais, as denncias verbais de "mais embustes da Casa Branca". Um ligeiro 
escorrego, uma conciliao errnea de um paciente, e ele se tornara comparsa - pior, tornara-se prova adicional - da venalidade corrosiva de Ericson, que de certa 
forma se supunha estar relacionada  sua incapacidade. 
       Estaria mesmo? Poderia um homem atacado como um odioso Maquiavel ser destitudo por ser incapaz de cumprir os deveres do cargo? Isso no parecia consciente 
para Hank Fowler. Ele observou os matizes da sua perspectiva interior e se perguntou como ajudara a unir a improvvel combinao de acusaes: sinuosidade e incapacidade. 
Ele se acusou de haver falhado ao Presidente, falhado  causa dos deficientes, falhado  sua prpria escalada desde a inutilidade at o respeito. Onde errara? Devia 
ter estudado a questo com Hennessy antes de fazer aquela ligao. Neste aposento cheio de gs, somente homens experientes tinham permisso de usar fsforos, de 
ser protetores presidenciais. Ericson era uma fora fundamental, no um protetor; no era funo do Presidente acobertar uma reao a uma ao imprpria - essa era 
funo dos seus assessores mais chegados. E eles tinham de ser homens muito cautelosos, no cegamente leais, e nem garotos inexperientes, como o Doutor Fowler. 
       Ele se perguntou por que tentava to arduamente no culpar o Presidente. Essa questo analtica o preocupava; voltaria a ela quando tivesse tempo. Enquanto 
isso, o psiclogo permitiu-se afundar durante dez minutos na sua angstia, e a refletir o medo de um mdico combatendo uma epidemia, ao olhar para as mos e calcular 
se ele mesmo contrara a doena. 


O NOVO CHEFE DA CASA CIVIL/2 

       Hennessy inspecionou os estragos da semana apresentados  sua frente na forma de recados telefnicos cor-de-rosa. Numa das extremidades da longa mesa que 
ele herdara com o emprego e a sala, estava um grupo de recados de deputados e funcionrios graduados. Essas papeletas rosadas ficaram expostas em formato de leque, 
como uma exploso de queixas contra o discurso presidencial pela televiso; 

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solicitaes para falar com o chefe da Casa Civil sobre assuntos que agora pareciam histria antiga. Depois arrumados numa longa fileira que contrastava com o leque 
de reclamaes, havia um lote de mensagens sobre a Fraude de Yalta, uma reao  coluna de Zophar, a maioria vinda de jornalistas e dos membros do Congresso que 
se consideravam "srios", isto , preocupados com relaes exteriores. Todos estavam decididos a derramar no ouvido do homem que tinha acesso ao Presidente todos 
os tipos de conselho e todos os tipos de perguntas. Um terceiro agrupamento, correndo paralelamente igual  montagem de um jogo de pacincia - sua secretria fizera 
isso artisticamente, reparou Hennessy tristemente - era composto de pessoas afetadas pelo suicdio de Herb Abelson, a maior parte de velhos amigos do Presidente 
e do seu falecido mdico. Um conjunto do grupo da "pacincia" fora grampeado junto, antes da reao da viva; um composto mais espesso estava datado aps a espetacular 
apresentao de Barbara no vdeo. As notas aps a conferncia com a imprensa a respeito do ultraje do oftalmologista surgiam em seguida, no conjunto isolado, formado 
por algumas das mesmas pessoas que haviam ligado antes, naquela semana, e mais alguns tipos polticos que desejavam soar o alarma da reao local. Hennessy j tinha 
em mos uma boa medida da reao local na forma de pesquisas-relmpago, que mostravam a popularidade de Ericson corroda em grandes quantidades no que se pensava 
fosse o "fundo rochoso": de 42 por cento a 30 por cento em uma semana. 
       Ele pegou o interfone e se queixou com a secretria: 
       - Por que todos esses recados telefnicos esto em papeletas cor-de-rosa? Isto  cor pra mulher. Me arranje papeletas de recado para um executivo homem. Azuis 
talvez. Sim, azul-claro. E d todas estas que esto inundando a minha mesa para outra pessoa responder. - E apanhou o ltimo pacote de recados, o das ligaes que 
teria de atender. Uma de Cartwright, que lhe diria como dirigir aquela zorra, e lhe recordaria para ficar em cima de Duparquet. Uma de Duparquet, feita havia somente 
meia hora, e ele cuidaria dessa dentro em breve. Uma do filho de Hennessy que vivia em Boston com a filha e a esposa de Hennessy; sua famlia, que ele no visitava 
havia mais de ms e da qual ficava contente em se afastar. O rapaz provavelmente queria dinheiro, o que podia esperar, ou explicaes, que podiam esperar mais ainda. 
Uma de Smitty: dane-se essa, pensou ele, se fosse importante, o Secretrio de Imprensa teria descido at o saguo e invadido sua sala. Mas parou quando viu uma do 
"Senhor Bom-Amigo". 
       O "Senhor Bom-Amigo" era Marty Quinn, o agente da imprensa que Hennessy colocava na Comisso de Bannerman para Substituir o Presidente Incapacitado. Atravs 
de Marty, Hennessy dera 

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 comisso de Bannerman seu nome duro e de ataque-direto, em vez de um ttulo institucional que seria mais eficaz em termos de opinio pblica. O recado de Quinn 
no trazia nmero para resposta. 
       Hennessy comeou a fazer uma ligao para o Procurador-Geral Duparquet quando sua secretria chegou, fechou a porta por trs de si, e falou: 
       - Tem uns detetives do FBI l fora, na sala de espera, pedindo para lhe falar. 
       - Sondadores de terreno? - O FBI vivia mandando homens para investigaes completas de pessoas a serem contratadas ou comissionadas. 
       - No; querem tratar de um assunto relacionado ao senhor. Eu lhes disse que marcassem uma entrevista, porm foram persistentes: disseram que vo ficar por 
l at o senhor ter um momento livre. 
       Hennessy franziu a testa. Evidentemente algum membro da equipe da Casa Branca metera seu dedo nisso. Irritado, disse  secretria para mandar os agentes do 
FBI entrarem imediatamente. Este no era o dia para um funcionrio de nvel mdio ser apanhado numa confuso. 
       Os agentes foram educados, como sempre. Um tinha cabelos grisalhos a fazia as perguntas; o mais moo anotava e parecia de respeito. 
       - Desculpe incomod-lo, senhor, quando tem tantos chamados para responder - disse o agente mais velho, dando uma espiada no monte de papeletas cor-de-rosa. 
       - Eu jogo pacincia com elas. Qual  o problema? 
       - H quanto tempo conhece um homem chamado Arthur Leigh? 
       - Ele no  candidato a emprego - falou rpido Hennessy. 
       - Se for, h um engano. 
       - Esta no  uma sindicncia de recrutamento, senhor. Conhece-o h muito tempo? 
       - Desde a campanha do ano passado. - A nica coisa que Hennessy devia a Leigh eram desculpas por presumir erroneamente que o ex-coordenador da campanha cantara 
a pedra para Sam Zophar quando, na verdade Leigh cumprira sua palavra no combinado. 
       - Quando o viu pela ltima vez? 
       O instinto de advogado de Hennessy apareceu: 
       - De que se trata? 
       No tenho a liberdade de revelar, senhor;  uma verificao preliminar. Ele esteve aqui recentemente? 
       O agente era um perito interrogador, jamais deixando um comentrio isolado, e sempre encerrando com uma pergunta. Claro que 

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o FBI sabia quando Leigh visitara Hennessy - todo visitante da Casa Branca  registrado pelo Servio Secreto. Hennessy tocou no boto do "gente me aborrecendo" por 
baixo da mesa. 
       - Lembro-me de que esteve aqui h algumas semanas atrs - falou Hennessy - e lhes darei a data exata dos meus registros com prazer - Sua secretria bateu 
e entrou por causa do "gente-me-aborrecendo", e disse: 
       - Esto aguardando o senhor. Disseram que a reunio no pode comear sem a sua presena. 
       - Marie, estes cavalheiros desejam a data e a hora da visita que Arthur Leigh fez h algumas semanas passadas - disse Hennessy, com a expresso de quem sentia 
muito ter de sair correndo. - D-lhes a informao e, se quiserem, marque outra hora para falarem comigo amanh. Espere, amanh  domingo... Segunda-feira, aps 
a reunio do estafe. 
       - Podemos esperar at que o senhor volte - falou atenciosa- mente o agente mais velho. 
       - No gosto de desperdiar dinheiro dos contribuintes - disse Hennessy. - Nem insultar o Bureau, fazendo com que seus melhores homens fiquem plantados aqui 
dentro - Detetives no vestbulo da Ala Oeste, atraindo a ateno da imprensa; era disso que ele no gostava. 
       - Existe certa urgncia no caso - pressionou o agente. 
       - Meus deveres me chamam em outro local, no momento - explicou o chefe da Casa Civil do Presidente, ainda gentil - e eu no lhes vou dar respostas apressadas 
a perguntas importantes. Estou a par da Seo 1001 do cdigo 18 dos Estados Unidos - Isso era uma lei s vezes invocada para causar problema quando outras eis no 
podiam ser usadas para aql4ele propsito, e tornava crime contar uma mentira a qualquer agente federal. No precisava de juramento, era uma lei deficiente. Hennessy 
queria que os agentes soubessem que ele no estava a fim de cair na armadilha de fazer declaraes danosas para um relatrio de agente. Ele sabia por que o agente 
mais velho trouxera o outro, e o advogado no ia dar entrevista alguma sem uma testemunha prpria. 
       Hennessy saiu da sala, atravessou o saguo energicamente, e desapareceu no Salo Roosevelt. Apreciou os quadros durante um minuto - gostava do Remington de 
Teddy Roosevelt, com seus homens subindo San Juan Hill - e quando se assegurou de que os homens do FBI se haviam retirado, retornou  sala e ligou para o Procurador-Geral. 
       - Que diabo est havendo, Emmett? Alguns rapazes seus esto rondando por aqui - Hennessy reprimiu sua raiva porque o Presidente 

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precisava de Duparquet como nunca antes. - Por acaso estacionei em local proibido na porta de uma casa de massagens? 
       - Eu liguei para voc faz pouco - a voz de Duparquet estava formal, o que Hennessy interpretou como havendo outra pessoa no escritrio dele - para dizer que 
o diretor do FBI designou alguns homens para investigarem Arthur Leigh, e que ele e eu esperamos que voc coopere, se for convocado para uma entrevista. 
       - Qual  o caso? 
       - Alegao de corrupo. 
       - De quem? 
       - No posso dizer - Essa atingiu Hennessy como um torpedo. Significava que provavelmente ele era o alvo das investigaes do FBI. Algum deve ter descoberto 
o acordo que Hennessy fizera para tratar do problema da rodovia de Arthur Leigh. 
       - Senhor Procurador-Geral, deixe-me fazer-lhe uma pergunta inteiramente adequada. Sou eu o alvo de sua investigao? 
       - A essa altura - disse calmamente Duparquet - nenhum indivduo  um alvo. Se o assunto  considerado pelo Procurador dos Estados Unidos neste distrito como 
merecedor de considerao de um grande jri, qualquer que seja o alvo ser informado, como de direito. Atualmente, voc no  o alvo. Como autoridade federa espera-se 
que voc coopere com qualquer investigao que o FE possa empreender. - O Procurador da Repblica local provave mente estava sentado ao lado dele, Hennessy pensou. 
Sua primeira reao foi pensar como isolar o Presidente de quaisquer acusaes de corrupo contra seu chefe da Casa Civil. 
       - Como o senhor sabe, Procurador, eu uso dois chapus aqui o de chefe da Casa Civil e o de conselheiro jurdico do Presidente Acha que esta  uma boa ocasio 
para o Presidente nomear outra pessoa a fim de preencher a funo de conselheiro? 
       Duparquet parou um instante, depois disse firmemente: 
       - Acho. Digo isso sem nenhum preconceito contra o senhor, mas como medida de precauo. Para evitar qualquer conflito em potencial de interesses. 
       - Compreendo - Agora vinha um item importante ser registrado: - Procurador, por favor discuta isso pessoalmente com o Presidente. minha inteno cooperar 
com o FBI, responder a todas as devidas perguntas, e no discutir este assunto com o Presidente de forma alguma. 
       - timo - disse Duparquet, novamente aps um momento de pausa. - Acho isso muito conveniente. Quanto mais cedo falar com os agentes, melhor - Hennessy teve 
a impresso de no estar f alando com um s homem, mas com o Departamento de Justia. 

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As ligeiras pausas provavelmente eram olhares trocados, acenos positivos ou negativos com a cabea, na sala do P. G. 
       Ele desligou, abriu espao no meio das papeletas cor-de-rosa e colocou uma colher, um copo e seu vidro de anticido branco na mesa. O estmago ardia e o corao 
disparara, agora que o telefonema fora encerrado. 
       Quando Leigh pedira aquela nomeao para diretor do departamento de estradas de rodagem, Hennessy percorrera desde o concessionrio de cargos pblicos da 
Casa Branca at o contato poltico no gabinete do governador do Tennessee. A nomeao sara, conforme ele prometera a Leigh. Agora, Hennessy se perguntava, onde 
estava a vulnerabilidade? Provavelmente era cedo demais para o diretor do departamento de estradas de rodagem ter elaborado um despacho para beneficiar Leigh financeiramente, 
O concessionrio ou o homem do governador podia ter botado a boca no mundo, mas que crime fora cometido? Nenhum. Hennessy resolveu descontrair-se. Tomou uma colher 
cheia do anticido, fez uma careta, e tomou outra. Visualizou as paredes do estmago sendo revestidas, como nos comerciais da televiso, e se sentiu aliviado. 
       Possivelmente eles poderiam argumentar que ele teria dado a ordem para a nomeao do diretor do departamento de estradas de rodagem em troca do silncio de 
Leigh acerca da cegueira anterior, o que era verdade, mas quem podia confirmar isso? Somente Leigh, e ele j provara ser mais de confiana do que Hennessy suspeitara. 
Portanto, que restava ao FBI? S a acusao de que a Casa Branca cedera aos desejos de um velho partidrio poltico quanto  nomeao de um amigo seu, o que vem 
sendo feito desde tempos imemoriais. Sem o quid pro quo, nenhuma venalidade. 
       A menos, claro, que o sacana do Leigh fosse a fonte da alegao. Hennessy comeou a afastar isso do pensamento, com raiva por no haver confiado em Leigh 
antes, porm a coisa voltou: o que poderia Leigh ganhar botando Hennessy e ele mesmo numa encrenca? 
       - Poderia ganhar um monto de dinheiro - disse em voz alta para o vidro de anticido. Se Leigh resolvera "entregar" a Bannerman, poderia derrubar Hennessy 
facilmente - desde que o prprio Leigh estivesse disposto a cair tambm. Leigh poderia argumentar que Hennessy tentara suborn-lo, e Hennessy contra-atacaria com 
extorso - s que os registros mostrariam que ele fez o favor para Leigh. Hennessy teria de penetrar a fundo, afirmando no ter havido quid pro quo, mas ningum 
acreditaria nele. Bannerman nem precisava de uma condenao de Hennessy num tribunal, mais tarde: somente uma denncia, agora, de um assessor da Casa Branca, sujaria 
um pouco o Presidente. 

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       O que diria ele aos agentes do FBI? Hennessy declararia, com uma testemunha sua presente, que Leigh recomendara um homem para o cargo, e ele concordara - 
afinal o homem tinha um "vale" poltico. Nada fora mencionado, em qualquer ocasio, a respeito do silncio acerca da cegueira no trem da campanha. Se a histria 
de Hennessy estivesse em desacordo com a de Leigh, ento azar. Nenhum Procurador-Geral razovel solicitaria uma condenao baseada na acusao fundamentada de um 
homem contra outro. Ou solicitaria? Hennessy sentiu a necessidade de um advogado criminalista. 
       Pelo interfone, sua secretria avisou que o "Senhor Bom-amigo" estava de novo ao telefone. 
       - Estamos com um caso importante junto  associao mdica - disse-lhe Marty Quinn, duma cabina telefnica. - Bannerman acha que a revelao da primeira cegueira 
 muito mais importante do que a Fraude de Yalta. Est com o mdico oculista sob controle e lhe ofereceu um negcio fora da Marinha, creio eu. Voc tinha razo quanto 
a Bannerman, Hennessy:  um filho da puta de primeira categoria. 
       Hennessy no estava muito interessado nisso: 
       - Que h com o Arthur Leigh? 
       - Ele se reuniu com Bannerman e Nichols anteontem - relatou Quinn. - Bem na hora da coletiva da Barbara Abelson com a imprensa. Bannerman levou Leigh para 
fora; no sei o que deu da. 
       - O que deu da fui eu - murmurou Hennessy. - Olhe: no caso de eu ter de me mandar, ou ficar doente, ou qualquer coisa, quero que voc faa contato novamente 
comigo - Harry Bok foi o primeiro a vir  mente, porm o corpulento homem da cadeira de rodas estivera afundado nos papis esta semana, e talvez recuasse frente 
 necessidade espalhafatosa de permanecer no poder. Hennessy sabia que Marty Quinn, que se arriscava dessa forma, no confiaria num associado de segunda categoria: 
isso s deixava Melinda. Hennessy deu-lhe o nmero particular do telefone dela e baixou o fone lentamente. 
       Ele pensou em Melinda. Freqentemente fazia isso, e quase perdia o sono, porm, agora Hennessy pensava nela como um dos ltimos apoios humanos deixados ao 
Presidente. Uma mulher solitria, diziam todos, mas todos podiam estar errados: muitas vidas intercruzavam com a sua. Hennessy sentia prazer em pensar nela intimamente, 
e ocasionalmente deixava-se pensar entrando nas calcinhas dela, contudo seu relacionamento, calculava ele, estava fadado  caoada, ao passatempo e  confiana forada. 
Ele no conseguia definir a conexo Ericson-McPhee, que no podia ser meramente a relao esposa de gabinete, me-protetora que aparecia na superfcie. Como se sentiria 
ela a respeito do que o Presidente sentia 

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acerca do seu caso com Duparquet - e como, realmente, ele se sentia? 
       Melinda se mostrava menos dura e mais forte do que Hennessy calculara originalmente, e ela ficava cada vez mais forte. Ele se deixou imagin-la como sendo 
Beau Geste no Fort Zinderneuf, galantemente colocando cadveres nos parapeitos para que os atacantes pensassem que o forte ainda era defendido. Hennessy se confessou 
que sentia inveja de Ericson por possuir a lealdade dela, e Inveja de Duparquet por possuir sua afeio, porm era bom que da se encontrasse em ambas as situaes: 
o Presidente precisava dela agora como nunca antes, e seu domnio sobre o Procurador-Geral, se era srio como Hennessy mais ou menos esperava, ajudaria a manter 
Duparquet partidrio da causa de Ericson. Melinda punha suas prioridades  frente; no era o tipo de pessoa que deixava a paixo cortar o caminho da lealdade. 
       Ela apareceu  soleira de sua porta - como sempre, silhueta delgada, pernas de bailarina, um pouco agressiva - para dizer: - Acabei de saber. O Chefe diz 
que esto procurando por voc. 
       O Procurador-Geral dera o telefonema, e indubitavelmente aconselhara Ericson a no discutir, absolutamente, o assunto com Hennessy, nem se envolver com ele 
de nenhuma forma. 
       - O Homem quer ver voc. 
       Ele se perguntou se ela estaria dizendo a verdade. 
       - Acho que ele no deve, no se for sobre esse assunto. Previna-o. 
       - Emmett j disse a ele para no falar com voc - disse ela - mas ele insiste. 
       - Por acaso o Homem pediu seu conselho, Melinda? Que foi que voc lhe disse? 
       - Eu lhe disse que se ele pensasse duas vezes sobre no receber voc, eu lhe quebraria a maldita bengala branca. 
       - Foi uma fraqueza - disse zombeteiramente Hennessy, para ocultar seu alvio. - Dei um grande fora. De novo. Que acontece com gente que s d fora? 
       Pela primeira vez, ela no respondeu aos modos agressivos dele. 
       - Todos os que do foras vm para Washington e trabalham com Sven Ericson - disse ela, suavemente. - Todos ns erramos. Ora, Hennessy... 
       Ele a interrompeu. 
       - Primeiro vou consultar meu advogado criminalista. Depois, falarei com os agentes do FBI, e a minha secretria anotar tudo. Depois, se eu achar que  sensato, 
discutirei o caso com o Presidente. Lembre-se, e falo sinceramente, lembre-se disso para depois: 

podemos proteger o Chefe, mas ele no nos pode proteger. Nunca se esquea disso e, pelo amor de Deus, compre e use uma blusa decotada. 
       Ainda uma vez, ela no reagiu a isso, o que o deprimiu. 
       Durante as horas que se seguiram, o chefe da Casa Civil do Presidente discutiu o assunto com um amigo de longa data, que era advogado criminalista em Nova 
York. Depois Hennessy se entrevistou com os agentes. Como era de esperar, o interrogatrio parecia baseado em informaes fornecidas por Arthur Leigh. Conforme instrues 
do seu advogado, Hennessy apresentou uma histria simples e insistiu nela: Leigh merecia que suas recomendaes fossem consideradas; o homem que recomendara tinha 
capacidade; no houve quid pro quo; nada sobre "ficar calado" de que Hennessy pudesse lembrar, e achou que disso se lembraria. Hennessy jamais falou: "ele disse". 
Apenas: "ele indicou", palavras vazias, e confundiu mais ainda com: "no recordo das palavras de Leigh, mas seu principal tpico pelo que entendi, foi..." Hennessy 
tornou-se um ru difcil de condenar, pelo menos no tocante a "uma negociata". No entanto uma denncia... isso era diferente. 
       Ele se servira de uma dose de usque, pensando que poderia ir falar com o Presidente, quando Ericson bateu com a bengala na maaneta da porta e o Presidente 
surgiu logo atrs: 
       - Eu devia ter-lhe arranjado aquele co-guia - disse Hennessy indo at a porta e trazendo Ericson para uma cadeira. - Isso teria arrancado algumas lgrimas 
dos nossos rapazes no banco dos reservas. 
       - Est falando como se j estivesse no caminho da rua - falou Ericson. - Voc precisa  de um Hennessy, como o que eu tenho, ele lhe daria nimo. 
       - Voc quer dizer "enfie um basto na bunda". Diga o que tem em mente, Sven. 
       - Presidentes no falam como advogados divorcistas - Ericson segurou o copo de usque que Hennessy encaixara em uma de suas mos. - Muito bem - suspirou o 
Presidente. - Como  que a gente tira o rabo dessa? 
       - A gente fica de olho na rosca, e no no buraco - disse-lhe Hennessy, sentindo-se melhor o suficiente para usar a filosofia que viu na parede de um restaurante. 
- Voc  a rosca; a gente lhes d o buraco. 
       - Sei... Preciso de voc. No se precisa transformar num mrtir.
       -A est a coisa - explicou Hennessy. - Eles j recrutaram um jri. Ouviram Arthur Leigh dizer que o subornei para no 

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contar sobre a cegueira, e aposto que o sacana do Leigh diz que eu lhe contei que voc sabia de tudo. O Procurador-Geral vai fazer eu entrar l na segunda-feira 
para me obrigar a contradizer a histria dele de qualquer forma. Se eu o fizer, eles estaro com uma acusao pronta para ser entregue no ato. 
       O Presidente jogou o gelo no copo: 
       - Acusao de qu? 
       - A est a parte mais bonita. No por subornar Leigh com a promessa de uma nomeao que no significa comportamento criminoso algum: isso nem havia lugar 
no tribunal; no, eles me acusariam de perjrio, contando at dez, toda vez que eu discordasse de Leigh. Seria a palavra dele contra a minha: em quem acreditar? 
Num julgamento, poderia acontecer qualquer coisa. Nenhum de ns tem cara de digno. 
       - E se voc apelasse para a Quinta? 
       Hennessy balanou a cabea vagarosamente, depois se lembrou o falou em voz alta: 
       - No adianta. Um assistente do Presidente no pode alegar auto-incriminao. Seria o mesmo que dizer que Leigh diz a verdade, e essa seria o seu ltimo cartucho. 
       - Apele para a Quinta - disse firmemente Ericson. - Falo srio. No vou deixar que se exponha  acusao. Esse negcio est saindo do controle. - Ericson 
passou as mos nos cabelos. - Eu deixo Herb se suicidar; arruno as possibilidades de Harry refazer a vida; pego um sujeito bacana como o Hank Fowler e arraso com 
sua reputao, e no vou ver voc ir para a cadeia. Desculpe. O cargo no vale isso. 
       - Corta essa, Sven. Temos de planejar. Eu no poderia viver depois de apelar para a Quinta e voc sabe disso. Vou prestar declaraes e serei magnfico: contarei 
ao jri tudo sobre a reunio na casa de Bannerman, onde a coisa foi boiada com o Vice-Presidente no local. Forarei os acusadores a chamar Bannerman e Nichols como 
testemunhas, e eles vo ter de cometer perjrio at ficarem vermelhos de vergonha. Esse negcio de jri  uma faca de dois gumes. Se pegarmos um jurado desleal que 
espalhe a nossa verso da histria para um reprter amigo, o que podemos fazer, poremos aqueles caras na defensiva. No farei as coisas tranqila- mente, no  meu 
estilo; vou armar um inferno de um rolo. No serei julgado seis meses aps a acusao, quando voc ou continuar no cargo e a histeria ter acabado, ou j ter sado, 
e ningum vai querer ser vingativo. Dar certo. 
       - Toda vez que voc diz "dar certo" - falou o Presidente - eu me preocupo. Exceto quanto ao divrcio e s eleies. Nada mais deu certo. 

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       - Ganhamos as grandes paradas. - Sentaram-se silenciosos por alguns minutos. Hennessy prosseguiu: - Roy Bannerman no  otrio. Ele armou bem a jogada; talvez 
tenha abordado a esposa do Herb; sem dvida abordou o oftalmologista bicha, ele jamais ps a mo no seu joelho? Ser que existem oculistas bichas? E Bannerman fez 
contato com Leigh. Talvez ele tivesse metido a mo no caso Zophar. Eu soube que h uma certa espcie de velha relao entre Bannerman e Zophar. D crdito ao filho 
da puta que ele joga bocha sem luva. 
       - Voc  paranico, Hennessy. 
       - At um paranico tem alguns inimigos verdadeiros - ele citou sua mxima favorita da sabedoria freudiana. - Olhe, se eu estiver certo quanto quele jri, 
estarei livre l pelo meio da semana que vem. Divulgue uma declarao de que est convencido da minha inocncia, porm concorda que eu fique afastado at a questo 
ser julgada. Eu pego o Nichols numa coletiva da imprensa, acusando-o de estar presente  sesso de "derrubao", e voc o "congela". Quem tem em mente para chefe 
da Casa Civil? 
       - Smitty, creio. O crculo est se fechando. 
       - Faz sentido; a Marilee passa a secretria de imprensa. Todo mundo vai gostar dessa. Minha sada talvez aumente a fogueira em vrios sentidos. 
       - Grande! Em quem' vou confiar? 
       - Em Melinda. Ela ter um bom contato que voc no precisa saber pelas costas de Bannerman. No confie em Buffie, por falar nisso. Trepe com ela, se quiser, 
porm mantenha a boca realmente fechada; ela agora  um problema. Lucas  firme, ainda, no entanto Mike Fong est pronto para esfaquear voc pelas costas de novo: 
       por que no o dispensa? 
       - Ele pode maquinar um impedimento - disse o Presidente. 
       - Demonstraria que tenho medo do meu prprio gabinete - Hennessy ficou alegre porque Ericson resolvera analisar a situao. - Que foi que houve entre voc 
e Melinda, de repente to chapinhas? Vocs costumavam se atracar. 
       - Isso quando ela no sabia onde era seu lugar - disse Hennessy. - Ela anda bem; no comete erros. Muita coisa depende de seu namorado se manter na linha. 
- Para ns dois, pensou ele: Duparquet podia decidir o destino de Ericson no Gabinete, e o de Hennessy no tribunal. 
       - Caso voc esfrie a sua fanfarronice no fim de semana - avisou o Presidente - e resolva apelar para a Quinta, ficarei contente. Tem razo: voc teria de 
sair daqui em qualquer um dos casos. Deus!  como jogar a partida final e perder a rainha. 

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       - O oftalmologista  a rainha, no eu. 
       - Onde foi o erro? - Ericson torceu a bengala branca em ambas as direes ao mesmo tempo, com uma das mos no sentido do relgio, e com a outra em rumo contrrio. 
- Qual a jogada errada, que eles pegaram voc dessa forma? 
       - Se pudesse enxergar, me veria sacudindo os ombros. Eu tinha de dar ao Leigh o que ele desejava, no ? E voc estava totalmente por fora da coisa. 
       - Totalmente - disse Ericson automaticamente. 
       - E o assunto jamais foi levantado quando dissemos adeus. 
       - Nunca. Suponho que agora seja o adeus, ento. - Era este o propsito da visita dele, e somente agora Ericson pareceu perceber a coisa. 
       - Por algum tempo. 
       - Sei... - O melhor de se trabalhar para um homem cego, pensou Hennessy, era que ele no podia ver os seus olhos. Aps alguns momentos, quando confiou na 
prpria voz Hennessy falou: 
       -  voc que est na minha sala, no eu na sua, lembra-se? 
       Ericson levantou-se. 
       - Apenas me aponte o centro do poder. 


A SECRETRIA PARTIULAR/3 
       
       - No quero ouvir todo o Sumrio de Notcias esta manh, Melinda - disse-lhe Ericson - leia-me apenas o pior. 
       Passava das nove e ele continuava na cama como se relutasse em enfrentar o dia; estava agindo assim desde a ltima semana, desde o maldito discurso, e esse 
hbito era ruim. Ela resolvera inserir "reunio de pessoal, sala de desjejum, residncia" de 8:30 s 9:30 na agenda pblica. 
       Entretanto, ele tinha razo quanto ao Sumrio de Notcias. As manhs de tera-feira eram pior, pois recapitulavam a nova redao e interpretao que as revistas 
da atualidade faziam da semana prvia, que explodiam como uma bomba de ao retardada, exatamente quando se esperava que o pior tivesse passado. As revistas semanais 
normalmente adicionavam alguma sujeira extra para se manterem "na onda",  que era depois usado pelos jornais e pela televiso, aumentando o mpeto do desastre iminente. 
Nas teras-feiras o Sumrio de Notcias trazia tudo isso, mais as ocorrncias da segunda-feira que j haviam superado nas datas as revistas de atualidades, fazendo 

Pg 434 
com que as velhas ms notcias competissem com as recentes notcias. 
       - A capa do Times  a Fraude de Yalta - disse ela, de leve - com uma montagem de Cartwright, Curtice, Harry Bok e Nikolayev, todos numa espcie de teia de 
aranha. 
       - "Ah!, mas que teia complicada ns traamos" - recitou Ericson desanimado - "quando de incio nos exercitamos na fraude". Isso  simbolismo. Muito sutil. 
Bem, antes isso que Barbara Abelson. 
       - Ela  a capa do Newsweek. Ou metade dela; a outra metade  o Doutor Lilith. Hennessy costumava cham-lo de mdico oculista bicha, e tinha razo. - Ela engoliu 
em seco; Hennessy sara h dois dias atrs, e j se dizia "Hennessy costumava. .." 
       - A coletiva de Hennessy  imprensa pegou bem? Ela ps a questo da melhor maneira: 
       - Recebeu uma boa cobertura. A histria surgiu na coluna de Zophar na segunda-feira de manh, dizendo que ele enfrentaria o jri naquele dia, portanto Hennessy 
ficou meio na defensiva. As manchetes foram: "Assessor de Ericson Acusado de Tentativa de Suborno", o que no  bom, e houve uma chamada ontem na televiso que o 
mostrou atacando Bannerman e Nichols como os "grandes manipuladores" da coisa toda. 
       - Mas isso j acabou, no? 
       - Bem, foi mencionado em alguns dos editoriais desta manh. O Times diz: " questionvel a convenincia da presena do Vice-Presidente na casa do Senhor Bannerman 
enquanto esta questo era presumivelmente discutida". 
       - Que mais dizem? 
       - Troos sobre segredos do jri, nada de pr-julgamento, e depois a facada: "Seja ou no verdadeira essa ltima acusao, o fato  que o pblico americano 
- aps uma semana inteira de choques acerca das provas da fraude e da duplicidade da Casa Branca - est pronto a acreditar no pior quanto  capacidade do Presidente 
Ericson de poder controlar seu estafe. Ele tem se mostrado um homem que - ao passo que seus prprios instintos possam ainda estar bons - est num estado no qual 
deve 'concordar' com as decises dos homens  sua volta, ratificando, portanto, uma poltica de mentiras. As revelaes da semana passada, a comear pelo seu discurso 
precipitado e mal recebido, lanaram srias dvidas sobre a capacidade de governar do Presidente. Seu Gabinete, embora repleto dos seus amiguinhos, tem a responsabilidade 
de invocar os dispositivos da Vigsima Quinta Emenda. Claro que a soluo mais racional seria o afastamento voluntrio do Presidente." 

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       Ericson escorregou para dentro da cama e ps as mos atrs da cabea, no travesseiro: 
       - Que espcie de ateno o Procurador-Geral vem recebendo? 
       - Emmett tem recebido timos comentrios da imprensa - disse Melinda, irritada. - O Procurador da Repblica apresentou- lhe a acusao do Leigh na semana 
passada, e nosso chapa Duparquet mandou-os jogar o FBI em cima do Hennessy, apesar da repercusso. Todo mundo gostou da maneira pela qual ele avisou o Presidente 
para que jamais se metesse nisto: mostrou sua independncia. 
       Ericson riu pesarosamente por entre os dentes: 
       - Quando os membros do meu Gabinete fazem alguma coisa que no agrada  imprensa,  porque eu perdi o controle; mas quando. Duparquet solta os cachorros em 
cima do meu melhor amigo,  porque ele est sendo maravilhosamente independente. 
       - Eu no me irritaria contra a imprensa - disse Melinda. - Pelo menos eles no escreveram sobre como o senhor fica na cama a manh toda, com sua secretria 
ao lado como uma espcie de manicura. - Ela jamais se acostumara com essa situao; ainda se ressentia, embora, Deus sabia, Ericson no tivesse tirado vantagem disso 
nos ltimos anos. Ela gostava de se queixar da coisa e ele gostava de escutar as reclamaes, e assim eles iam em frente. 
       - As minhas unhas precisam ser cortadas? - perguntou o Presidente, tocando-as. - Voc tem razo, sabe? Eu devia estar no meu gabinete, enfrentando a batalha. 
Voc precisa mesmo tomar banho desse perfume? 
       - Emmett gosta dele - disse ela sem emoo. - Tomo banho dele para o homem da minha vida, no para o senhor. Alm disso, esta sala tresanda a Lily of the 
Valley, ou Apple Blossom, ou sei l a que droga barata. 
       - No arrase com o gosto da minha amiga - sorriu o Presidente. 
       - Enfermeiras deviam cheirar a linimento - espicaou ela. 
       - No sei por que todo mundo presume que minha amiga seja a enfermeira Kellgren - exclamou Ericson, animando-se e estendendo a mo para pegar o roupo que 
ela lhe entregou. - Harry vive pra cima e pra baixo com ela e jamais fomos devidamente apresentados. Ela  do tipo calado: no queixa, massageia bem, a esta altura 
da minha vida,  exatamente do que preciso. 
       - O senhor sente falta de Buffie - Melinda podia sentir sua dor. 
       - Pxa! Sim. Mas deixe-a pra l; j tenho dores de cabea demais. 

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       Ela sabia que ele a provocava desta forma por um motivo, no entanto, ela no ia ajud-lo. Finalmente ele tocou no assunto do Procurador-Geral: 
       - Melinda, podemos confiar no Duparquet? Ele  um homem bom? 
       -  um homem razoavelmente bom - avaliou ela. - No sei se podemos confiar nele. 
       - Um desses caras que defende sua integridade no importa a quem doa, mesmo que para isso chegue at a Casa Branca? 
       - No seja sarcstico. Ele fez um bocado pelo senhor. - O que deveria ela lhe dizer? Que Emmett era um amante atencioso, gentil? Que ficara realmente pesaroso 
por no ficar disponvel aos domingos e na maioria das noites? Que ela lhe arrumara um jantar na sua casa na noite anterior,  base da luz de vela e vinho, que nem 
um casal de universitrios, e que lhe deu uma "geral" seguindo cuidadosas instrues de Hennessy, enquanto ele sabia exatamente o que ela fazia? - Ele  ambicioso 
como o senhor. E tem princpios, como o senhor. Entretanto, no passou pelo que o senhor tem passado. Nunca o atingiram to duro. 
       - Tenho muitos planos para esse homem - disse Ericson lentamente. - Quero me agentar durante uma gesto para depois entregar o cargo a algum em quem eu 
confie. Pode ser ele. 
       - Pode deixar - disse Melinda dramaticamente. - Jamais direi isso a ele. 
       O Presidente, a caminho da cadeira do barbeiro, riu sem amargor. 
       - Se voc ainda no lhe contou, pode faz-lo. Cada cinco minutos, mais ou menos, toque no assunto. Voc me entende to facilmente, Melinda; espero que possa 
adivinhar os desejos dele tambm. Mande o barbeiro entrar. Temos manicura? 
       - O senhor precisa das suas unhas para se agarrar s coisas - exclamou ela enquanto acenava para que o homem no saguo juntasse seu equipamento. 
       - Como est o seu moral, minha chapa? - O Presidente lhe fez a pergunta suavemente, mas a mulher sabia que era importante dar-lhe uma resposta sria. 
       - Gozado, sinto-me melhor agora do que h uma semana atrs. Eu estava aguardando, apavorada, que o outro sapato casse. Eu sabia que a semana passada teria 
de acontecer, e foi pior do que eu pensava, porm agora isso  passado. Como diz minha me: isso  uma bno. 
       - Caram muito mais sapatos do que eu havia planejado. Tem certeza de que no foi atingida? 

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       Ela no tinha certeza alguma: 
       - Talvez eu esteja anestesiada... 
       - ... como diz a enfermeira Kellgren. 
       - ... vai ver, eu sou clarividente. 
       - Eu conheci a Claire, manicura no velho Roney Plaza. Ela estava resolvida a encerrar seu pensamento: 
       - Mas tenho a impresso de que atingimos o fundo. No h outro desastre a caminho, que eu saiba; o que acontecer daqui pra fronte ser surpresa. Isso  melhor 
do que saber que alguma coisa terrvel est para ocorrer. Entende o que digo? 
       - Continue pensando dessa forma - avisou Ericson. - O pior que pode acontecer  a gente perder nossos empregos, enfraquecer a presidncia, destruir a liberdade, 
etc. L o momento mais escuro antes da madrugada. - Surgiu um tom de amargura no tom de sua voz, que no agradou a ela. 
       - No entende o que quero dizer? 
       - Ah!, Melinda, entendo, sim, e gostaria de enxergar agora mesmo - e estendeu as mos como se para emoldurar o que pudesse ver. - Se eu pudesse ver, estaria 
olhando para o seu cabelo castanho, os olhos desconfiados; e olhando pela janela para um dia glorioso, e, logo aps, olhando para o rosto redondo do homem que tem 
tanto orgulho em ser o barbeiro particular do Presidente dos Estados Unidos. Todavia, s o que consigo enxergar neste instante  o rosto do Herb Abelson me olhando, 
acusando-me, e o rosto da Barbara Abelson me olhando e odiando-me. Ainda bem que no conheo o rosto do Hank Fowler, seno eu o veria me olhando. 
       - E o Shoeless Joe Jackson? - Sua referncia ao jogador favorito de Lucas Cartwright fez com que ele sorrisse um pouco. 
       - Diga que no  assim, Melinda. 
       - Deixe disso - murmurou ela - aqui est o barbeiro. - No saguo ela divisou Harry Bok sendo empurrado pela enfermeira Kellgren. - Acho bom voc ir falar 
com ele, Harry; est um pouco abatido. - Um pensamento sbito: - Ei! ela sabe tratar de mos? 
       Harry virou-se na sua cadeira de rodas: 
       - Voc sabe tratar de mos? - A enfermeira Kellgren sorriu e acenou com a cabea, inclinando o chapeuzinho branco. - Ela sabe - disse Harry. - Provavelmente 
 a melhor manicura de Washington. 
       - Fique aqui - Melinda disparou para a dispensa no andar de cima e voltou com uma saboneteira, um pouco de sabo e uma toalha de mo. Mergulhou a mo na bolsa 
e tirou uma lixa e um 

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cortador de cutcula, e entregou esse material  eficiente enfermeira, que o juntou ao Lubriderm que sempre trazia no bolso do uniforme. 
       - Harry, entre com ela, bata um papo amigvel com ele e no o deixe ficar de brincadeira. Faa com que ele desa ao gabinete dentro de alguns minutos. Enfermeira, 
por que voc no bota um pouco daquele seu adorvel perfume? O Presidente gosta dele e o ajuda a saber onde voc est. 
       Melinda desceu, sentindo-se melhor. Quando ela mimava Ericson, o fazia sentir-se culpado acerca de sua autocompaixo, e o auxiliava a sair da situao. A 
viso que o homem cego tivera de olhos acusadores na escurido perturbou-a e ela a afastou; com a partida de Hennessy, ela teria de carregar um peso naquele dia 
e naquela noite. 
       A correspondncia, a qual ela supervisionava, estava aumentando em hostilidade. O setor de expedio recebera a recomendao de no fazer nenhum levantamento 
dos prs e dos contras, por medo que o resultado transpirasse, mas a amostragem que lhe fora enviada trazia porcentual mais alto do que o normal de correspondncia 
negativa. O esquadro de bombas relatou quatorze cartas-bombas no fim de semana, quase o total dos seis meses anteriores na presidncia; esses dados jamais foram 
divulgados com medo de inspirarem mais malucos. O que mais deprimia Melinda eram as cartas dos partidrios desanimados, a correspondncia tipo "Joo sem Sapatos", 
e Melinda deu uma espiada numa: "... confiava no senhor porque no era um poltico; mas por que teve de mentir a respeito da cegueira? Eu teria votado no senhor, 
de qualquer maneira. E ento, como Presidente, o senhor no teria nada a esconder". Outra: "... precisava demonstrar seu machismo. Voc deu tudo o que tem  sua 
funo, e obviamente no est  altura dela. No faa o pas sofrer por causa da sua deficincia. Existem timas instituies de cegos e a Casa Branca no  uma 
delas.."
       Ela discou para a sala do pesquisador: 
       - Vinte e oito por cento e continua descendo - disse ele. - Vocs acabam de atingir o ponto mais baixo dos anos Nixon, e esto a cinco pontos do nvel mais 
baixo de Truman. 
       Ela achou que no havia necessidade de passar isso adiante. Seu corao apertou um pouco quando viu os homens da Administrao de Servios Gerais removendo 
os arquivos da sala de Hennessy, e introduzindo as coisas de Smitty, porm seu nimo cresceu quando Marilee lhe mostrou como pretendia refazer a sala de imprensa 
de Smitty. As coisas seriam feitas rapidamente, e no haveria monotonia. Ela se lanou ao planejamento do Dia do Direito a ser comemorado no dia seguinte, em Williamsburg. 
Emmett Duparquet, que ficara to ansioso pela participao do Presidente na semana anterior, no tinha mais certeza de que a idia era boa. 

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O Presidente contudo, comeara a ansiar pela coisa - no faria nenhum discurso formal, apenas alguns comentrios a respeito da Constituio e da formulao da lei 
- e seria um alvio escapar do ambiente de casamata da Casa Branca. Melinda encarregou-se das divises dos quartos e arranjou para si mesma um chal, perto da casa 
do Procurador-Geral: eles jamais haviam passado uma noite inteira juntos. 
       Smitty, o novo chefe da Casa Civil, entrou na sala dela, propositadamente de modo casual, para procurar algumas cartas. Ela calculou que ele provavelmente 
no sabia o que fazer com a agenda de Ericson, precisava dos seus conselhos, porm no queria abrir mo de sua nova autoridade. Viu-se tentada a cozinh-lo um pouco, 
mas decidiu cooperar: 
       - Esqueci de dizer-lhe, Smitty: o Presidente espera que voc e Lucas Cartwright passem algum tempo juntos em breve. Ele estava pensando que voc poderia dirigir 
o gabinete como Lucas dirigiu e no como Hennessy. 
       - Era isso que eu estava pensando tambm - disse Smitty - de modo mais acessvel. Hennessy operava muito na intimidade. No era bem isso, pensou Melinda: 
o Presidente jamais confiara totalmente em Cartwright e no confiava totalmente nele. Em Hennessy ele confiava. Por outro lado, Melinda admitia que Lucas estivera 
no cargo num perodo mais ameno, e se o Presidente tivesse confiado mais em Lucas Cartwright e lhe contasse a respeito da cegueira, muito pranto poderia ter sido 
evitado. - O Conselho de Assessoria Econmica quer falar com o Chefe - disse Smitty, sem emoo. 
       - Ele estar livre esta tarde s cinco, ou amanh de manh s nove - replicou ela. - Voc precisa de uma data para Curtice e de um resumo da poltica exterior, 
tambm? 
       - Se no for muito... 
       -  para isso que pagam a ele: para ser Presidente. - Ela estava decidida a encher a agenda de Ericson, para dificultar-lhe o ficar aptico. - Se preferir, 
pode trazer os economistas aqui esta tarde, e Curtice e a CIA amanh, exatamente antes que ele parta para Williamsburg. 
       - No ser demais para ele? 
       Claro que , boneco cretino, pensou ela, e ele ficar furioso com voc; depois me dir que eu mande voc se acalmar, mas respondeu: 
       - Acho que ele est ansioso. E ser algo para Marilee contar aos reprteres tambm. Mas se certifique de lembrar ao Presidente do Conselho para lhe conseguir 
um resumo de uma pgina da situao, antes da reunio: isso padro. 

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       - Claro. 
       Claro. Melinda descobriu que subitamente estava dirigindo o governo dos Estados Unidos, ou pelo menos dirigindo aquela pequena parte sob controle do Presidente. 
No realmente dirigindo, mas, na ausncia de um forte chefe da Casa Civil, e com um Presidente moroso, dependia dela forar as pessoas a se reunirem. Se as pessoas, 
incluindo os membros do Gabinete, pensassem que o Presidente no queria receb-las, no pediriam para v-lo. Todo mundo tinha medo de ser rejeitado. Ericson, no 
seu estado atual, era passivo - disponvel se queriam v-lo, porm ele no os convocaria nem exigiria um relatrio. De repente dependia dela fazer com que o Presidente 
e sua Administrao pensassem que cada um estava por cima do outro. 
       - Voc tem de dar-lhe crdito - disse o ex-secretrio de imprensa. - O Chefe est realmente se agentando bem. Reparei como ele praticamente deu um passo 
 frente h umas duas semanas atrs, comeou a se recuperar bem, mas pensei que os choques da ltima semana pudessem t-lo abalado. 
       - No - respondeu Melinda - ele voltou l do fundo da fossa quando teve aquele horrvel resfriado e no conseguia escutar nem sentir cheiro muito bem, mas 
desde ento vem se fortalecendo mais e mais. 
       Se isso fosse verdade... Era meia verdade, porm; Ericson vinha se desempenhando como nunca antes, at o episdio do maldito discurso e tudo que se seguiu. 
Smitty no estava por dentro, contudo, e se ficasse convencido de que Ericson no fora desanimado pela luta, essa boa notcia se espalharia. Especialmente agora, 
que j no era mais secretrio de imprensa: agora no era mais um propagador, mas um participante. Reprteres o creditariam com informaes verdadeiras dos bastidores. 
Ela teria de lembrar isso ao Presidente. 
       Cerca de uma hora mais tarde, Marilee enfiou a cabea na sala: 
       - Ei, Melinda! Est interessada no meu sucesso contnuo? - A secretria do Presidente, ao telefone com Williamsburg, sorriu e assentiu com a cabea, concordando. 
Marilee, com aparncia radiante e aristocrtico como Melinda sempre desejara ter, afundou-se numa cadeira e disse: - Smitty est agindo como se soubesse qual  o 
grande problema daqui, mas no sabe. Tenho um jantar hoje com trs vacas de sininho, e eu gostaria de lhes entregar alguma coisa recente. Bem cheia de perspiccia. 
Sabe de alguma coisa assim? 
       Melinda tapou o telefone: 
       - O Chefe estava se sentindo um pouco abalado no fim de semana. Uma espcie de crise pessoal. Depois Duparquet intercedeu por ele, falou em integridade, e 
o Chefe gostou disso. 

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       - Ele no ficou zangado porque o Procurador-Geral lanou o PBI em cima do Hennessy?  o que a maioria das pessoas pensa. 
       - O que a maioria das pessoas pensa no  o que ocorre aqui; voc sabe disso. 
       - V em frente - disse Marilee - eles daro um jeito nisso. 
       - O Presidente gostou quando o Procurador-Geral lhe disse pura no mais fazer contato com o Hennessy. O Presidente cortou-o logo, mesmo eu sabendo que Hennessy 
tentou falar com o Chefe para ver se ele mandava Duparquet tirar seus cachorros de cima dele. 
       - Ei! Isso  coisa quente. O Smitty sabe? 
       - Marilee, minha chapa, eu confio em voc mas no conheo Smitty to bem assim. Vamos ns duas cuidar uma da outra, est bem? 
       - Certo. Smitty ser um superchefe da Casa Civil, vai mesmo, mas sinceramente foi uma merda como secretrio de imprensa. Que mais devo saber? 
       Melinda fingiu estar pensativa, depois recolheu certas informaes pelo telefone e desligou: 
       - A segunda razo pela qual Ericson est se sentindo muito mais forte hoje: est alegre porque Hennessy saiu daqui, e alegre porque Smitty entrou. 
       - Acho melhor anotar - disse Marilee, pegando emprestados um lpis e papel. - Por que isso? 
       - Hennessy estava tentando tirar vantagem da cegueira do Presidente, centralizando poder demais. Ericson no gosta disso; ele  seu prprio patro. Nem deseja 
seu Gabinete dominado por nenhum membro da Casa Branca. 
       - Entendi. Com a sada de Hennessy voc ficou em muito melhor forma, tambm, Melinda, no  mesmo? Voc e Hennessy... bem, era muita tenso. 
       - No quero bancar a sabidona, mas percebi que Hennessy seria uma fora malfica desde o comeo. Estamos melhor sem ele, e com muita sorte de termos o Smitty 
no seu lugar. - Ela observou Marilee anotar todos os itens. - Tudo isso fica nas entrelinhas do tema principal que voc deve apresentar queles caras: hoje o Chefe 
est mais forte do que nunca, e  por isso que age dessa maneira, e por isso assumir uma carga muito maior de atividades. 
       - Eu sei, eu sei - falou Marilee, passando os culos para o topo da cabea. - Smitty acaba de me mostrar a nova agenda e me disse que o Presidente quer mais 
coisas para fazer. 
       Melinda apanhou sua correspondncia e comeou a mexer nela tediosamente. Entregou um carto-postal a Marilee e explicou: 

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       - Recebemos um bocado deste tipo. - O carto dizia: "Agenta firme, Senhor P!" 
       - Me deixe com ele. Vou bot-lo na minha mesa, onde todo mundo tenta ler de cabea pra baixo. 
       Melinda fez meno de retornar aos seus deveres. 
       - Pode divulgar o que quiser; no vou julgar a imprensa. 
       - Isso faz de Hennessy o cara que caiu - disse Marilee impassvel - e sei como voc se sente, mas eu at que gostava dele, de forma meio biruta. Uma outra 
coisa: acha que vou estar com o Presidente muito mais agora? 
       - No - falou Melinda e a srio. Marilee no insistiu no assunto, porm agradeceu  sua aliada e saiu. A secretria do Presidente levantou-se, fechou a porta, 
voltou para sua mesa e pegou o caderno de anotaes. Folheou as pginas taquigrafadas, com as instrues que Hennessy lhe dera para incuti-las na mente de Marilee, 
que as passaria  imprensa. Ela as transmitira todas, at sua idia de "fora malfica", que ela considerara exagerada. 
       Melinda no se sentia mal. Ela e Hennessy haviam discutido a esse respeito e ele a convencera de que, j que partia, seria melhor levar uma parte do dio 
existente na Casa Branca com ele. Portanto, ela seguira sua sugesto. Entretanto, passaria muito tempo antes que Ericson encontrasse outro membro do estafe que pusesse 
os interesses do Presidente em primeiro lugar, mesmo ao custo de sua prpria reputao. Mesmo porque, recordou Melinda, Hennessy gostava de ser odiado. 

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O SECRETRIO DE RECURSOS HUMANOS 
       
       Angelo Frangipani no gostava de espremer-se no assento traseiro de um carro compacto. Quando prefeito da cidade de Nova York, "o Carcamano" andava numa comprida 
limusine equipada com sirena, na qual ele andava "a toda", conforme a tradio flamejante do seu predecessor, Fiorello "Carcamaninho" La Guardia. Mas agora que era 
um figuro de Washington, conforme rosnava freqentemente, tinha de rodar num atraente e pequeno Ford Pinto que tinha dificuldades para andar quando atolava num 
pedao de goma de mascar. Essa era uma concesso que teve de fazer, num dia inspirado, em manobra poltica antipoluio, e ele gostava de dizer que fora o pior erro 
da sua estada em Washington. 
       - Sou o nico membro do Gabinete, em cinqenta anos, que no tem motorista - dizia a todo mundo - porque preciso do espao no meu carro. - Realmente o esquema 
dirija-voc-mesmo o carro pequeno, era um truque bem-sucedido, adicionado  sua inatacvel imagem de bom sujeito. - O segredo da minha imagem de bom sujeito - dizia 
a seus quatro filhos que no queriam sair de casa -  que eu realmente sou um bom sujeito. 
       Estacionou no espao reservado em Capitol Hill para o Presidente da Cmara, e subiu as escadas, para a sala de Mortimer Frelingheusen. H vinte anos atrs, 
como deputado novato de Brooklyn, Frangipani trabalhara numa comisso cujo presidente era o homem de Wyoming que mais tarde se tornou Presidente da Cmara. Mort 
era um republicano, e Andy um democrata, o que indicava que ambos estavam inclinados a se gostar, e o Secretrio de Recursos Humanos estava satisfeito porque, se 
tinha um amigo poltico em quem podia confiar nesta cidade, era o francamente partidrio Presidente da Cmara, que apoiava a Administrao de Ericson em poltica 
exterior, opunha-se a ela nos assuntos domsticos, e sempre era responsvel por um tom de conteno, quando os adeptos da Vigsima Quinta Emenda comeavam a perturbar. 
       Andy largou o chapu branco de palha na mesa da recepcionista, anunciou-se e passeou pela velha sala de espera ornamentada, 

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interessando-se pelos quadros nas paredes e pensando no que iria dizer. 
       A Administrao da qual ele era parte orgulhosa estava em apuros. Embora a burocracia funcionasse e os cheques fossem emitidos, o esprito dominante em Recursos 
Humanos, seu Departamento cuja tendncia era gostar de Ericson - era o de que o Presidente era um zumbi poltico. Ele sabia que em Washington os nimos assumiam 
vida prpria e ecoavam pela imprensa, reforados por pessoas que lidavam com ela. A cidade andava igual  velha montanha-russa de Coney Island, s que jamais se 
sabia se o carro poderia sair dos trilhos. 
       Numa ocasio como esta, um bom poltico deveria contar os nmeros favorveis. Andy sabia os nmeros do Gabinete; o Presidente saberia os da Cmara e teria 
boa noo quanto aos do Senado. Se os nmeros capazes de expulsar Ericson no estivessem l, chegara a hora de algum poltico sensvel transmitir essa alegre notcia 
ao Presidente e  habilidosa imprensa. Caso os nmeros se achassem ali, ento Angelo Frangipani deveria refletir sobre eles e resolver o que fazer. 
       Ao Presidente da Cmara - homem cadavrico - Andy desabafou rapidamente o que trazia no corao: 
       - No gosto do que est acontecendo no pas. Ningum me mandou vir falar com voc, Mort, e o que dissermos aqui ser segredo de tmulo, porm no pode continuar 
deste jeito. Tem de ser resolvido. 
       - O Presidente est incapacitado para cumprir seus deveres? 
       - isso era bem do velho Mort: ia logo ao assunto. 
       - Ele os cumpriria, se deixassem - disse Andy - mas no esto deixando, o que significa que ele no pode cumpri-los. Se todo mundo acha que voc no tem capacidade 
para governar, ento voc no tem.  uma mxima auto-alimentada. 
       - Auto-realizadora. 
       Andy lanou um olhar de desespero para o companheiro. 
       - Eu sei o que  mxima auto-realizadora. Eu disse "auto- alimentada", o que  uma impropriedade cheia de cor. Se voc entendeu isso, Mort, vai ter futuro 
na poltica. 
       O Presidente da Cmara acenou com a cabea, tirou uma garrafa e dois copinhos de uma gaveta da mesa e serviu dois usques. Bebericaram em silncio por um 
momento, O Presidente perguntou: 
       - Como  a situao com Ericson, pessoalmente, digo, ele no enxerga, no sabe de onde vem a prxima paulada, deve estar sofrendo. Ele est abatido? Bebendo? 
De porre? Nervoso? O qu? 

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       - Dizem que ele trepa um bocado -- replicou Andy - o que e um sinal sadio. No est bebendo. Dorme demais, talvez, o que tambm fao quando no quero enfrentar 
determinado dia. No total, porm, anda reagindo melhor nas ltimas semanas do que a maior parte das pessoas sob tais circunstncias. Ele  um lutador, Mort, jamais 
o subestime. Ele gosta daquele cargo. 
       - Est arrancando dele as solues de que precisa? 
       Andy rejeitou a pergunta. 
       - O Departamento de Recursos Humanos dirige-se por si prprio. , de longe, o maior departamento atualmente e a nica colher que o Presidente pode meter nele 
 para dizer: "Cresam somente dez por cento neste ano fiscal." Isso ele pode decidir: se sero cinco, dez ou quinze por cento, dentro de alguns meses, quando ter 
de consolidar o oramento. O resto so despesas domsticas. Disso cuido eu. 
       - Ele se sente culpado quanto  Fraude de Yalta? - perguntou o Presidente da Cmara. 
       - No. 
       - Isso  bom - Mort surpreendeu-o com essa reao. - No se pode andar por a sentindo-se culpado e ser um chefe do executivo. Ele errou no tocante  primeira 
cegueira. Deveria ter contado e seguido em frente depois. 
       - Foi isso que ele tentou - disse Andy - mas depois a merda entrou no ventilador. 
       O Presidente balanou a cabea: 
       - Ele tentou deixar passar essa da cegueira, mas quebrou a cara naquela outra jogada: a de Yalta. Ele no teve o comportamento correto na campanha, e, o que 
 pior, desde ento tem manejado mal a coisa. 
       - Concordo - afirmou Andy. - Isso  motivo para substitu-lo pelo Nichols? 
       - Agora chegamos ao principal. - O Presidente observou o lquido mbar no seu copinho de bebida. - Se dependesse de mim, eu daria uma oportunidade ao homem. 
Quanto a no divulgar a cegueira anterior, ele deve confessar, francamente, que errou por completo. Na questo de Yalta, ele pode alegar que seu pessoal fez o que 
pensou fosse melhor para a nao diante de um problema crucial, e a turma o apoiar. Ele no precisa desculpar-se por tudo. 
       Andy apresentou o caso abertamente: 
       - Se o Gabinete no o declarar incapacitado, o Congresso vai tentar o impedimento? 
       - J existem votos suficientes para impedi-lo neste instante, uma escassa maioria. Contudo, o processo leva meses e nunca se sabe 

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qual ser a disposio na hora da votao. Enquanto isso, o pas ficaria bastante paralisado. Por isso eu reprimi o pessoal a favor do impedimento; o Congresso est 
aguardando para ver o que o Gabinete far. 
       A bola estava de novo nas mos de Andy: 
       - Se o Gabinete votar pela sada dele e ele levar essa deciso ao Congresso, este apoiar o Gabinete? 
       - S  necessria a maioria do Congresso para impedimento - disse o Presidente, sem hesitar - no entanto, so precisos dois teros da Cmara para confirmar 
uma remoo feita pelo Gabinete. J pensei muito no assunto e fiz algumas sondagens, e eis o que penso: se a coisa seguir a rota do impedimento, a Cmara ter maioria 
para o impedimento de Ericson, e o Senado provavelmente o condenar, pelos necessrios dois teros. Porm, se seguir os trmites do Gabinete, usando a Vigsima Quinta 
Emenda, ento a Cmara no ter os dois teros de que necessitaria para confirmar o Gabinete e manter Ericson fora do cargo. 
       Frangipani assoviou: 
       - Ento a situao no ser resolvida. Voc est me dizendo que no h jeito de chegar l partindo daqui. 
       - Estou dizendo-lhe que Ericson tem um apoio superslido de quarenta por cento da Cmara, isto , da maioria dos democratas e alguns dos meus republicanos 
que sabem que tipo de homem  Bannerman, e alguns cobras jurdicos que acham que um "alto crime" tem de ser traio. Isso  suficiente para negar uma votao de 
dois teros ao Congresso. Pode contar com isso. 
       - Se o Gabinete resolver destitu-lo - disse lentamente Andy 
       - ento voc pensa que essa manobra falhar na Cmara. Se o Gabinete no agir, ento voc acha que a Cmara declarar o impedimento e o Senado condenar o 
Presidente.  isso? 
       - Voc sempre soube contar, Andy. Teria um grande futuro no Congresso. Qual a sua contagem no Gabinete? 
       Fong  a favor da destituio, claro. Hoje  quarta-feira; o Presidente est em Williamsburg por causa daquela festa do Dia do Direito, com Emmett Duparquet; 
Ericson foi para dar apoio ao Procurador-Geral, que anda meio abalado. Emmett no gostou nem um pouco da histria do Hennessy, e considera questo de honra pessoal 
o Presidente t-lo enganado quanto  primeira cegueira. 
       - Cartwright, da Defesa, ficar com o Presidente - analisou o Presidente da Cmara. - Ele  desse tipo. 
       - Lgico. Curtice, do Estado, provavelmente, posso estar errado, votar pela destituio. No Tesouro, Ericson ps o Zack Parker, que odeia tanto a Bannerman 
a ponto de apoiar o Presidente 

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at em estado de rigor mortis. Assim, so dois certos a favor do Presidente, um pela destituio, e dois mais ou menos com tendncia  destituio. 
       - E o Secretrio de Recursos Humanos? 
       Frangipani abriu as mos: 
       - No sei. Todos estes anos, sempre que algum me dizia estar "indcciso", eu costumava dizer: "Este filho da puta no confia em mim". O fato  que estou indeciso. 
Esse  o motivo verdadeiro da minha vida, Mort. Algum conselho? 
       No. - O Presidente acabou a bebida de um s gole. - Voc tem a sua responsabilidade constitucional, eu tenho a minha. Voc joga primeiro. 
       Andy levantou-se para ir embora; mais exatamente, levantou- se para falar nos minutos finais antes de sair. 
       - Ericson no pode governar porque todos dizem que no est em condies, A alternativa  Nichols, que  instrumento de Bannerman. Ele  o que meus amigos 
judeus do Brooklyn descrevem como "camaleo": venal e perigoso. 
       - No lhe invejo a escolha, Andy. Dos males o menor. 
       - O que eu gostaria de fazer - disse Andy; e esperava que no muito astutamente - era inventar uma alternativa. Estamos na poltica, pelo amor de Deus, deve 
haver outra soluo. 
       - Diga ao Presidente que lamento por ele e desejo suas melhoras - falou o Presidente da Cmara. - Estou preocupado com o argumento de "incapacidade para governar", 
isso amplia demais a Vigsima Quinta Emenda. Se o Presidente est incapaz fsica ou mentalmente,  uma coisa; mas se ele  impopular, fraco, ou est na iminncia 
de perder apoio.. . temos de agent-lo durante mais quatro anos porque foi para esse perodo que o elegemos. E no sou o nico que pensa dessa forma. 
       - Quarenta por cento "superslidos", hem? - Andy esperava poder forar o prognstico de Frelingheusen at se tornar um compromisso, e ficou surpreso por no 
estar desapontado. 
       - Se eu precisar ir ao fundo disto - disse o Presidente da Cmara - tenho alguns "vales" que revolucionariam a questo. Eu os colocaria em fileira, como costumava 
fazer o Sam Rayburn e, no caso de no precisar deles, eu os deixaria votar segundo suas conscincias ou seus distritos. Contudo, se precisasse deles, estariam presentes. 
       Andy no desejava forar sua sorte, nem dar tempo ao Presidente de explicar sua observao. Ele viera solicitar conselho e algum apoio, e saa como transmissor 
da garantia voluntria do Presidente. Frelingheusen repetiu-lhe  porta: 

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       - Ericson tem maioria contra ele aqui na Cmara, suficiente para o impedimento. Porm, aqui no haver dois teros para ratificar nenhuma usurpao. Aja de 
acordo. Se quiser transmitir isso aos ouvidos do Presidente, Andy, no fao objeo, no entanto, terei de neg-lo caso o leia em algum lugar. 
       O Secretrio de Recursos Humanos atravessou correndo o saguo e passou pelos degraus que levavam ao seu pequeno carro na vaga do Presidente da Cmara. Havia 
uma multa de estacionamento nele. Comeou a dar marcha  r para dar um jeito na coisa, mas mudou de idia: dane-se! - ele pagaria os dez dlares. Frelingheusen 
fizera o bastante pelo poder executivo naquele dia. 


O PROCURADOR-GERL/2 
       
       Emmett Duparquet caminhou at o atril, assentiu cordialmente com a cabea para seu apresentador e recebeu os aplausos durante aquele momento alegre antes 
de transmitir o que, ele tinha certeza, era um excelente discurso. O auditrio em Colonial Williamsburg era da Prefeitura de Burgueses, impregnado de histria virginiana, 
um dos auditrios mais antigos da Amrica. A platia, espremida, era constituda de eminentes advogados e juristas, incluindo muitos que ele conhecia, e que seu 
olhar localizou no grupo. O corpo de imprensa da Casa Branca estava l tambm, espalhado pelas laterais do salo longo e estreito, e se queixara amargamente da sua 
posio ruim, mas a reclamao no foi aceita pelos funcionrios do Dia do Direito. 
       O Procurador-Geral estava ambivalente quanto  presena do Presidente Ericson na plataforma. De um lado, a deciso de Ericson quanto  sua primeira incurso 
fora da Casa Branca aps a emboscada acentuava a importncia da ocasio; o corpo de imprensa que acompanhava o Presidente transformou o que teria sido uma funo 
de elite, pouco divulgada, num evento de mbito nacional dos meios de comunicao. Um excelente discurso de Duparquet, que de outra forma teria passado despercebido, 
seria selecionado para a televiso naquela noite, e visto por 80 milhes de norte-americanos. Por outro lado, o Procurador-Geral teria ficado mais satisfeito se 
ficasse desligado do Presidente durante a semana na qual o Departamento de Justia estava para indicar seu principal assessor. Duparquet estava zangado com o Presidente, 
ele confessava a si mesmo: defendera Ericson no Gabinete, numa hora de grande crise, e o cliente lhe omitira informao, vital. Duparquet fora enganado, e se comprometeu 
a jamais ser enganado duas vezes. 

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       Entretanto, o Presidente ali estava, em pessoa, com seus olhos sem viso - no usava mais culos escuros -  vista total da p'atia. Duparquet era membro 
do seu Gabinete e seu anfitrio nas cerimnias do Dia do Direito; e qualquer demonstrao de frieza seria aumentada fora de propores - na verdade, nas propores 
merecidas. Se voc ajuda a criar uma situao, disse a si mesmo o Procurador-Geral, deve agir conforme ela o exigir. 
       - Na Fora Area, durante a guerra no Vietnam - comeou de, essa referncia ao seu herosmo como piloto no estava deslocada neste contexto - e mais tarde, 
lia vida poltica, tenho tido o privilgio de conhecer muitos homens corajosos.  uma honra compartilhar desta tribuna, hoje, com um homem cuja bravura pessoal  
uma inspirao para todos os norte-americanos, Presidente Sven Ericson. - Muitos aplausos; uma reverncia  bravura de Ericson era inatacvel mesmo para aqueles 
que discutiam sua capacidade de governar, ou se achavam desgostosos com sua tolerncia em relao aos partidrios corruptos ou capciosos. 
       "O Presidente far algumas observaes informais no fim da tarde - disse ele - o que me fez sentir como Edward Everett, o homem que foi o relator principal 
em Gettysburg. - Talvez isso fosse um pouco de exagero, contudo a frase foi bem recebida pelo pblico disposto a perguntar 'gostamos-de-voc-mas-quem--seuamigo?'. 
Duparquet ps os culos e se lanou a dissertar sobre as regras da lei, o que sabia seria interpretado  luz da investigao sobre Hennessy, e da duplicidade de 
alguns dos seus colegas membros do Gabinete. Sua passagem mais eficaz - a que seu assessor de Imprensa marcara para as cmaras de televiso - conclua com uma referncia 
a John Adams e o conceito de 'um governo de leis, no de homens'. 
       O bonito queimado de sol, vindo da Flrida, sentou-se ao som dos merecidos aplausos, nem gentis nem estrepitosos - o emprego ponderado da admirao de seus 
pares jurdicos. Duparquet era um homem numa situao difcil, e a platia sabia que ele sabia que eles sabiam disso. 
       O presidente da solenidade, magistrado aposentado do Supremo Tribunal, agradeceu-lhe e, consciente da convenincia, apresentou o Presidente com as oito palavras 
de praxe. [nota * Senhoras e Senhores, o Presidente dos Estados Unidos. (N. da T.)] Duparquet e todas as pessoas na Prefeitura de Burguesses observaram Ericson levantar-se, 
fazer meia-volta  esquerda, dar deliberadamente cinco passos, dar meia-volta para a direita, caminhar confiantemente, e tocar no atril. Isso foi um alvio. Ento, 
antes de o Presidente poder dizer palavra diante dos aplausos, comeou a demonstrao visual. 

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       Duparquet empalideceu. Em quatro pontos, demonstradores bem vestidos, que se haviam misturado aos advogados na platia, levantaram-se e deram a conhecer sua 
presena, mostrando cartazes antes escondidos debaixo dos assentos. Um cartaz dizia: "Renuncie"; outro "Fraude"; mais um "Aceite a Vigsima Quinta"; e outro mais: 
"A Verdade Nua e Crua". A platia reteve a respirao e os aplausos morreram. 
       Como os demonstradores estavam em silncio, Duparquet ficou num dilema: deveria aproximar-se do Presidente, agora em p sozinho diante do atril, e lhe contar 
sobre os cartazes? Deveria deix-lo falar sem saber que eles estavam ali? Se ele se levantasse, daria fora ao argumento dos manifestantes: o de que o Presidente 
era praticamente indefeso, quando sem auxlio do seu pessoal; se no se levantasse, a tenso angustiante continuaria sem parar. No houve providncias do Servio 
Secreto no sentido de remover os manifestantes ou seus cartazes. 
       - Todos se descontraiam - disse o Presidente. - Posso dizer, pelo som da tomada de flego, considervel, alis, que a demonstrao teve incio. 
       Os manifestantes silenciosos ficaram intrigados. As cmaras que antes focalizaram os cartazes viraram-se para o Presidente. 
       - Para vocs que no esto bem situados - falou tranqilamente o Presidente - os cartazes dizem: "Renuncie" e "Aceite a Vigsima Quinta", e sentimentos similares, 
O propsito de uma demonstrao visual e silenciosa, sem o berreiro habitual,  o de mostrar como estou indefeso e dependente. 
       "A verdade : estou dependente dos outros quanto  faculdade da viso. Esta manh os agentes do Servio Secreto me disseram que diversos cartazes estavam 
sendo contrabandeados para a Prefeitura de Burguesses e escondidos debaixo das cadeiras. 
       "Eu lhes disse para deixarem o plano da demonstrao ir em frente porque seria uma ponte para eu tambm fazer uma demonstrao. 
       "Estamos reunidos hoje num salo antigo, palco dos primeiros movimentos da liberdade americana. Especialmente em tal cenrio, e num dia em que se comemora 
a prtica da lei, seria errado de minha parte fazer alguma coisa que infringisse o direito de qualquer um de falar livremente. 
       Os assistentes achavam-se ainda chocados demais para reagir. O senso de ocasio de Duparquet sugeria-lhe que o Presidente tinha algumas palavras bem preparadas 
para dizer que capitalizariam aquele choque, aliviando a platia da tenso, e isso refletiria bem sobre ele. O Procurador-Geral no podia deixar de torcer pelo homem 
no pdio, como fariam mais tarde milhes, vendo um filme pela televiso. 

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       - No tenho discurso para hoje - continuou Ericson. - No o poderia ler se tivesse. Esta  uma hora para refletir seriamente sobre todas as coisas admirveis 
e sbias que nosso Procurador-Geral falou quanto  nossa devoo  aplicao da lei. - Silncio total. O auditrio estava magnetizado; os manifestantes, paralisados. 
       "Um episdio da histria nos vem  mente, contudo: talvez seja apenas uma lenda, porm dizem que Lorde Nelson, numa batalhe naval, ouviu de um tenente assustado 
que estavam sendo atacados por uma enorme armada. O ajudante apontou para a frota de navios vindo em sua direo e insistiu para que Nelson retirasse seu navio do 
caminho deles. 
       O Presidente fez uma pausa. 
       - Nelson, como se lembram, era cego de um olho e usava uma venda sobre ele. Disse a seu tenente: "D-me seu telescpio". Pegou o telescpio e, de modo que 
todos os seus homens pudessem observar, levou-o at a altura do olho cego. Fingiu descortinar o horizonte e disse ento: "No vejo nenhuma armada. Prossigam." E 
prosseguiram para a Batalha de Trafalgar, e venceram a luta que mudou o curso da histria. 
       Fez outra pausa para dar efeito. 
       - Olhando para este salo hoje, no vejo sinais que me assustem. Vou prosseguir e esta Administrao permanecer. 
       O Presidente virou-se, aguardou que um agente lhe pegasse no brao e saiu do palco. O salo explodiu em vivas; juristas normalmente discretos gritavam palavras 
de encorajamento; at advogados mais convencidos da necessidade da renncia de Ericson batiam palmas vigorosamente. Os manifestantes arriaram os cartazes e no fizeram 
meno de reclam-los quando os cameramen os enquadraram de perto. Duparquet, junto com os outros, aplaudiu at o Presidente estar fora do alcance das palmas. 
       - Espetculo danado de bom - disse o Procurador-Geral horas depois no chal que Melinda havia reservado. - Hoje de manh exibia grande velocidade de raciocnio. 
Foi idia do Ericson? 
       Ela concordou com a cabea. 
       - Ele s recebeu o recado meia hora antes de o helicptero levantar vo. Chamou o Jonathan Trumbull, e juntos bolaram a jogada do Nelson. 
       - E por coincidncia o redator tinha a historieta da Batalha de Trafalgar na ponta da lngua? 
       A secretria do Presidente sorriu abertamente. 
       - Ele tem coletado todos os episdios sobre cegueira que j aconteceram, de Sanso em diante. Aquela do Nelson foi usada por Hank Fowler um dia. Provavelmente 
no  verdade, por isso o Chefe 

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disse que poderia ser uma lenda, assim os bufes historiadores no podero atac-lo. 
       O telefone tocou. Ele levantou a sobrancelha quando ela se preparou para atend-lo. 
       - Por que no diz a eles que est de folga esta noite? 
       - Direi. - Justia era justia: se ele ia se arriscar a no estar disponvel naquela noite, o mnimo que ela poderia fazer seria no receber telefonemas. 
- No, Harry, eu no ia pegar o helicptero para voltar - ele escutou-a falando. - uma hora de vo; tempo demais num negcio daqueles. Meu estmago j sofre normalmente. 
Ele est satisfeito consigo mesmo? timo. No, eu vou ficar por aqui. Volto no fim da manh. - Ela mordeu o lbio, insegura quanto a certo detalhe. - Hennessy disse 
para barr-la. Quem? Absolutamente no. Nunca a Marilee, escutou? Deixe que seja a Buffie, ento:  melhor um diabo que a gente conhea. Muito bem, mas avise a ele. 
E diga  telefonista que vou dormir e no me chame a menos que os msseis estejam a caminho. Boa noite, Harry; foi um bom dia. Voc teria ficado orgulhoso. 
       - Que negcio  esse - Duparquet no tinha direito de fazer essa pergunta, e ficou surpreso quando ela lhe deu uma resposta sem rodeios: 
       - A namorada do Presidente consta na folha de pagamentos do Bannerman. Isso dificulta as coisas. 
       - Roy Bannerman faria isso? - Duparquet estava genuinamente chocado. Aquilo era uma combinao suja, o tipo da jogada que se associaria a Arthur Leigh ou 
Mark Hennessy. Por outro lado, pensou ele, Leigh andava evidentemente associado a Bannerman, e poderia haver fraude em ambas as direes. 
       S lhe disse porque voc me perguntou - disse Melinda. - Se no deseja saber de uma coisa, tome cuidado com o que pergunta. Confio em voc. 
       - Por que est to boa comigo esta noite? 
       - Estou feliz porque meu patro se saiu to bem hoje, acho. - E ento ela disse o que ele queria: - E porque estou com voc, sem voc ter de sair correndo. 
- Ela serviu-lhe um usque, ignorou o sof e se sentou longe dele. - Emmett, eu no sou do tipo coelho. 
       - Temos de parar de nos encontrar desse jeito - zombou ele. Ela se espreguiou - ele gostava de v-la curvar as costas - e se aproximou dele. Beijo longo, 
s boca a boca durante bastante tempo; nada de agarramento porque ele tinha muito tempo esta noite. Ela soltou-lhe e lhe afrouxou a gravata; meteu a mo e massageou 
o grupo de msculos na nuca. Ele lhe pegou nos seios, apoiando 

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gentilmente seu peso enquanto ela esfregava, e se mordiscavam de modo ntimo, at ela recuar. 
       Voc no usa batom. 
       - S do tipo incolor, nada que algum possa ver no seu colarinho. E por que acha que sempre encontra sabonete branco puro rio banheiro l de casa? 
       - Porque voc no quer que eu fique cheirando a sabonete de mulher. - Ele no pensara antes nessa ateno. 
       - No sou destruidora de lares - falou ela calmamente, tirando um dos seus longos fios de cabelo negro do palet dele. - E no desejo perd-lo. 
       - H um tempo para construir e um tempo para destruir - ele lhe disse, no to suavemente. Ele queria achar uma ocasio para Jogar a imagem da idia de que 
suas intenes, como se dizia, no eram totalmente desonrosas. No queria contrair compromissos, porm desejava que ela se envolvesse mais com ele. Ele tinha cinqenta 
e quatro, ela trinta e oito; ele perdera, havia muito, o interesse pela esposa e seus filhos j estavam fora de casa na escola; ele se via construindo vida nova 
com esta mulher, que no precisava ser informada dos antecedentes de tudo. Ele podia falar com ela frente e frente, fazer amor com ela como homem e mulher e simplesmente 
ficar junto dela, como amigo e amiga. Jamais encontrara essa combinao antes. Perguntava-se se teria algum rival. A afeio entre Melinda e Ericson parecia-lhe 
avuncular. O Presidente certamente abenoaria o casal, caso se recuperasse da surpresa. Pelo que Duparquet sabia, Melinda no saa com outros homens; nos ltimos 
dois meses, desde Yalta, ela sempre estivera  sua disposio quando no trabalhava at tarde. 
       O telefone interrompeu de novo. 
       - Pensei que voc tinha desligado isso. 
       Ela atendeu zangada: 
       - Hem? - Acalmou-se um pouco. - Faa a ligao com o Senhor Trumbull. Olhe, Jonathan, estou de folga esta noite. Por que no liga para o Presidente. Ele gosta 
de ouvir boas notcias. - Ela fez sinal para que ele pegasse na extenso. 
       - Sei... - disse o redator. - Buffie est com ele, e juro que no vou ler as reaes do discurso para ele, enquanto minha garota escuta na extenso com o 
rabo de fora. 
       Melinda interrompeu rapidamente, ao ver Duparquet escutar na extenso, e a expresso de horror fingido no seu rosto. 
       - Ento dane-se o Presidente, Jonathan. Deixe-o sofrer. Deixe-o ir dormir pensando que este grande dia foi uma emenda ruim. 

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Essa vai ser a sua vingana pela forma com que ele tenta prender a garota que voc anda roubando dele. 
       - Certo. - A voz estava ressentida, e ainda agitada. Era, descobriu Duparquet, a histrica aluso do jovem a Lorde Nelson que seria lembrada na histria e 
seu orgulho por causa disso superava todas as outras emoes. - E enquanto estiver nessa, vou descrever para o Presidente todas as fotos que sua maldita fotgrafa 
oficial tirou, mostrando-o em poses ridculas. Vamos ver se ele gosta dessa. Melinda voc tem razo: eu gostaria de ter idade bastante para comer voc. 
       - Voc jamais ser to velho assim, Jonathan. Foi bom voc ligar; no ligue mais. - Ela desligou e foi para a varanda do chal reconstrudo. Duparquet seguiu-a 
pela noite de vero sem estrelas e se sentou com ela no anacrnico balano ingls. 
       Por que as pessoas acabaram com as varandas? - perguntou ela. 
       - Por causa dos insetos - respondeu o .homem da Flrida. - Nos velhos tempos o pessoal era picado o tempo todo e passava metade das horas acordado, se coando. 
Depois vieram as varandas com telas, que no adiantavam nada no inverno. Ento elas passaram a ser feitas fechadas com vidro. Acabaram as varandas, mas acabaram 
os bichinhos. 
       - Eu coo as suas costas se voc coar as minhas - Duparquet aproveitou isso para fazer ponte de volta  poltica. Pegou a mo dela e se balanaram silenciosamente 
por algum tempo. Ela encolheu as pernas para baixo de si e ele empurrou. 
       - Voc no deve ficar eufrica por causa de um bom esforo do Presidente - avisou ele - ou por uma parte de uma coluna de jornal. - Por que ele estava falando 
de poltica? Manobra errada. Ele resolveu esquecer Ericson naquela noite; ela porm, continuou o assunto. 
       - Por que no posso ter prazer numas notcias boas, ou numa reao decente? O ambiente no tem sido muito divertido desde a semana passada. 
       - No quero v-la magoada, Melinda. No tenha grandes esperanas. - Ele sabia de muitas notcias ruins a caminho, a maioria das quais ele mesmo divulgaria. 
       Voc quer dizer Hennessy? 
       Ele no podia deixar de contar-lhe. 
       - Hennessy ser acusado na sexta-feira por ter mentido ao jri. 
       - Que rapidez! 
       - Tem razo disse ele. Sentia-se mal devido  rapidez do processo - mas este  um assunto de estado. Quando o principal 

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assessor do Presidente dos Estados Unidos mente para um jri, isso provoca uma reao mais veloz do que nos casos comuns. 
       Ela disse apenas: 
       - ? - o que o irritou porque o princpio de que todo homem era igual perante a lei estava, at certo ponto, solapado desta maneira. O Procurador da Repblica, 
que tecnicamente se subordinava ao Procurador-Geral, era um jovem ambicioso que cheirava sangue e manchetes no caso Hennessy, e agira com rapidez indevida; tambm 
tinha um pouco de certeza demais acerca da oportunidade dessa acusao, o que significava que tinha um jri meramente de "vaquinhas de prespio"! Duparquet tambm 
estava perturbado porque o Procurador da Repblica era geralmente conhecido como tendo sido "nomeado por Bannerman" numa das distribuies de cargos pblicos havida 
na conveno de escolha do ano passado, e poderia ter interesse extra em perturbar a Casa Branca nesta semana. O Procurador-Geral, contudo, no queria revelar essas 
dvidas  secretria do Presidente; soubera que ela no gostava pessoalmente de Hennessy e o culpava pela maior parte dos problemas do Presidente, no entanto... 
uma acusao to cedo assim parecia-lhe de inspirao poltica e ele no tencionava botar lenha na fogueira. 
       - Teria causado aquela confuso - respondeu ele - se eu tivesse mandado o Procurador da Repblica e o chefe da Diviso Criminal da Justia retardarem este 
caso. 
       - Podia parecer que voc fazia parte de um esquema de proteo - disse ela, com uma voz tranqila que o perturbou. Duparquet sentiu que ela o levava a uma 
armadilha. 
       -  mesmo - respondeu ele cautelosamente. 
       - Seria necessrio um verdadeiro palhao para enfrentar a ameaa de um rolo desses - disse ela, sem emoo, balanando lentamente para frente e para trs 
na escurido - favorecer os direitos individuais de um acusado. Seria igual a um esprito de porco tentando argumentar com uma multido de linchadores. - Isso o 
feriu. Ele reprimira a conscincia nesse assunto e no gostava que fosse comentado por algum que ele desejava tanto o respeitasse. - s vezes voc tem de fazer 
algumas coisas que fazem com que parea uma pessoa sem integridade - continuou ela - e agir assim torna-o o nico a saber que realmente  uma pessoa ntegra. 
       O Procurador-Geral completou o pensamento para ela: 
       - E s vezes voc faz algumas coisas que fazem voc parecer para o pblico uma pessoa ntegra, o que realmente mostra a voc mesma como  egosta e venal. 
       - Acho que  isso mesmo - concordou ela. 
       - Pelo amor de Deus, Melinda! O homem ofereceu suborno ao Leigh; um cargo que teria posto dinheiro no bolso dele com a 

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autoridade do Presidente dos Estados Unidos. Esse tipo de corrupo tem de ser banida imediatamente, mesmo se algumas arestas forem cortadas, porque o pblico deve 
manter sua f no governo. - isso devolvia a questo  sua verdadeira perspectiva, julgou ele; no estvamos lidando aqui com autofurto. 
       - Esses so fins muito importantes - falou ela numa voz to baixa que ele teve de inclinar-se para a frente. - Justificam os meios, creio. 
       - Nossa me! - Ele saltou do balano que rangia e entrou para tomar seu usque. Voltou logo depois e se sentou no parapeito da varanda, observando as formas 
da moa na escurido. - Muito bem. Seguindo princpios inflexveis eu deveria ter diminudo a velocidade daquele processo. Eu deveria ter perguntado ao Procurador 
da Repblica qual o crime que veio investigar, pra incio de conversa, e por que teve de apelar para perjrio. No h dvida de que Hennessy teria vencido qualquer 
acusao de suborno. E ao agir assim, eu estaria cometendo o mesmo erro que arruna todo mundo perto do Ericson: no somente fui seu advogado no Gabinete, como tambm 
estaria bloqueando uma acusao contra seu principal assessor. Isso teria sido chamado de obstruo da justia. Minha carreira teria acabado nesse ponto, e eu teria 
sentido a satisfao de saber que voc e eu sabamos que eu tinha seguido princpios. 
       - Eu teria esfregado assoalhos para ns - zombou a silhueta no escuro. 
       - Fale srio. H um sem-fim de facetas em toda deciso de um promotor. Quando um tira comete um crime jogam o cdigo todo em cima dele e o homem no pode 
reclamar de "justia igual"; ele traiu a confiana pblica, e foi o que Hennessy praticou. 
       - Por que supe que ele tenha agido assim? Para ganhar uma grana sozinho? 
       Ela devia ter sido advogada, pensou ele. 
       - Suponho que ele achou que o objetivo de manter o segredo do Presidente justificava os meios - replicou Duparquet. - E a verdade : s vezes justifica, s 
vezes no. Quanto  deciso de Hennessy, os fins no justificavam os meios. Quanto  minha deciso, justificavam. 
       - Essa  uma resposta sensata - disse ela. Venha sentar-se no balano, parou de balanar. - Ele no podia; ela o havia agitado, e a varanda era um bom lugar 
para caminhar. 
       - Acho melhor a gente tocar logo no assunto principal - falou ele. - Um dia desses, do jeito que as coisas vo indo, o Gabinete se reunir novamente sob a 
invocao da Vigsima Quinta. Na ltima vez fui o advogado do Presidente porque acreditei na causa. No porque eu gostasse do Ericson, e gosto, nem porque fosse 
uma 

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sbia manobra poltica. Eu convenci outros, e me convenci, com base numa srie de fatos que terminaram sendo falsos. 
       - E agora voc vai ficar quite com ele. 
       - Nada disso. - Ela encontrava mesmo um modo de enfurece-lo com a identificao de suas prprias dvidas. - Eu dei toda nfase a isso: que o pblico norte-americano 
formou sua opinio no dia das eleies, de posse de todos os fatos a respeito da viso do Ericson. Eu disse que nada foi escondido. Isso foi uma mentira; eu no 
menti: pensei que estava dizendo a verdade, porm o fato no era um fato, era uma falsidade. A deciso do Gabinete foi tomada ... pelo menos parcialmente... com 
base numa total mentira. Ora, quando um promotor descobre provas que inocentem um ru, deve torn-las disponveis  defesa. Da mesma forma, quando o defensor do 
Presidente usa de uma mentira para derrotar seus oponentes, tem de achar uma soluo para isso. 
       - Vamos, Emmett; voc simplesmente no quer afundar com o navio do Ericson. 
       Ele parou de caminhar: 
       - No vou negar isso. Mas a coisa no  to simples. Meu cliente me mentiu. 
       Ele fez isso para proteger voc. Voc  inocente. Se ele lhe tivesse contado, voc teria de continuar, apenas omitindo a questo em torno da verdade nua e 
crua. No est alegre agora, l no fundo, porque ele no lhe contou? 
       - Absolutamente no! - Ele voltou a sentar-se na balaustrada. - Espere um pouco, a vem a resposta tardia l do fundo: a resposta  sim. Estou inocente. No 
entanto, Ericson no o fez para proteger-me, certo? L do fundo do corao? 
       - Ele no lhe contou porque achou no haver necessidade de voc saber - admitiu ela. - Engano. Se ele tivesse lhe contado voc no teria chamado tanto a ateno 
sobre a verdade total. Mas isso no quer dizer que voc v tra-lo porque ele no lhe relatou tudo... 
       - Trair  uma palavra pesada - disse ele, no querendo aceitar nada disso. Se ela ia discutir com ele, teria de seguir certas regras lgicas. - Vou recusar-me 
a defend-lo como representante da lei, tomando uma deciso constitucional. 
       - Voc realmente acha que ele est em coma, ou doido? 
       - Essa definio  sua e dos colunistas. Essa no  a minha definio de uma incapacidade de cumprir com seus deveres. 
       - Ele  simplesmente impopular demais,  isso que quer dizer? 
       - Sua cegueira faz parte da coisa. Sua reao psicolgica  presso faz parte tambm. E a reao do pas  sua condio fsica 

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e psicolgica tambm  parte disso.  um crculo vicioso, piorando a cada minuto, e sua totalidade  tal que provoca, na verdade, incapacidade. 
       - Voc acaba de dizer que no vai defend-lo. Parece at que vai votar contra ele. 
       - Talvez - Duparquet prosseguiu e tomou a deciso: - Sim, vou. - Ele estivera se enganando quanto a manter uma mente esclarecida. 
       O telefone tocou de novo. Ele a encarou com olhar irritado. 
       - No me importo quando isso me interrompe no ato do amor, mas agora est interrompendo minha corrente de pensamento. 
       - Talvez esta seja uma boa hora para um descanso - disse ela e foi atender. Isso era mau, pensou ele; ela devia ter deixado o telefone tocar. Se o tivesse 
feito, estaria lhe provando alguma coisa acerca de suas prioridades. 
       Ele no se esforou para escutar, mas a ouviu falando com um "Senhor Bom Amigo". Logo depois ela regressou, porm no se sentou. 
       - Voc arrumou a coisa direitinho - disse ela friamente. - Fong vai reunir o Gabinete na sexta-feira de tarde. Apenas algumas horas aps a acusao de Hennessy 
ser resolvida. 
       - Acusaes so julgadas - corrigiu ele, automaticamente. - Eu no sabia da sincronizao dos dois fatos, Melinda. Parece, mesmo, meio arranjada. 
       - E voc tem os seus instrumentos  mo. O que lhe prometeu Bannerman? 
       - Essa foi muito vulgar. 
       - Foi mesmo - concordou ela, monotonamente. - Desculpe- me. - Ele lhe ps as mos nos ombros; ela, porm, se desvencilhou. - Estou decepcionada com voc, 
Emmett. 
       - Discordamos quanto ao Presidente - afirmou ele. - Discordamos sobre Hennessy. Eu posso ter razo em alguns pormenores, voc em outros. Quando tudo isso 
acabar... 
       - ... est acabado. Voc recebeu tudo o que Ericson tinha a oferecer e tudo o que eu tenho para oferecer. E agora voc prossegue, na rua de mo nica da vida. 
       Ele no podia aceitar isso. Ela estava aborrecida, superagitada - certo, esta era uma noite ruim. Entretanto, as pessoas no tomam decises sobre suas vidas 
e futuros pessoais baseadas em desacordos polticos. Por outro lado, reconheceu ele, ela jamais recebera indcio de que ele a encarava seriamente. 

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       - Quando isto terminar - continuou ele - ns nos veremos de novo. E no estou falando somente de amor no fim da tarde, ou de brincadeiras inconseqentes. 
Tenho boas intenes. Eu a amo. Quero... - parou antes de se aprofundar mais. - Quero discutir idias de um futuro com voc, sobre uma existncia juntos. 
       - O momento  este, agora - disse ela, apressada - nesta varanda estupidamente reconstruda, sem telas para manter os bichinhos afastados. Voc est cortando 
a garganta do Hennessy, mandando um homem para a priso contra todos os seus prprios princpios, e agindo errado porque parece certo.  conivente com o movimento 
para destituir o Presidente, entregando o pas  pior espcie de gente que existe porque... principalmente porque est chateado por no lhe haverem contado tudo, 
e parcialmente porque sabe em que direo o vento est soprando. Voc  um poltico, Emmett, mas no um homem de poltica. 
       - E Sven Ericson ? 
       - Est se tornando um. Poxa! uma pena que vocs, caras, tenham todos de fazer a gente cortar um dobrado para chegar l! 
       Ele ficou na iminncia de uma resposta agressiva, mas se controlou porque desejava mais a mulher do que vencer uma discusso. 
       - No posso crer que estejamos a ponto de ser sacrificados devido a um desacordo poltico...
       - Voc sabe que  mais do que isso. O tipo de homem que voc , Sven Ericson foi h alguns meses atrs. Voc acha que ter sorte em abrir seu caminho e conseguir 
tudo sem nada em troca, sem dor. Talvez chegue l, mas com outra pessoa. Eu j paguei minhas dvidas. 
       - Quero ficar com voc esta noite. 
       - Vou dormir sozinha. Sei como . 
       - Melinda, ser que eu me... isto , sabe tudo o que est rejeitando? 
       Ela assentiu com a cabea: 
       - Eu j havia calculado tudo. Eu no ia ser apenas a segunda Senhora Duparquet, de Boca Raton, Flrida. Eu ia ser a Primeira Dama, depois. 
       - A possibilidade ainda existe. - Ela seria uma tima Primeira Dama para ele. 
       - Muita coisa depende do que voc fizer nos prximos dois dias. 
       Obviamente, ela falava srio. Decepcionado, frustrado, mas no confuso, ele saiu do chal e passou a noite acordado e sozinho. 

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O LIDER SOVITICO/2 
       
       Ao rudo da lingeta da fechadura, Vasily Nikolayev afastou o olhar da tela do aparelho de televiso para a porta da cela. J que o diretor da penitenciria 
de Lubyanka no conseguia decidir se seu ocupante era um traidor, uma estrela de espetculo de tribunal ou um Secretrio-Geral, a cela fora generosamente designada, 
e o prisioneiro era um dos poucos em custdia com permisso de usar um cinto. Nikolayev estivera observando o noticirio da Euroviso levado at Moscou por um cabo 
restrito a dirigentes soviticos e que mostrava as principais passagens das dramticas negociaes do Presidente norte-americano com os manifestantes em Williamsburg. 
Ele ficou satisfeito por Ericson, ligando o destino poltico do Presidente ao seu prprio. 
       Slovenski, o sobrevivente profissional, entrou na ceia. Nikolayev sabia que o burocrata neutro, que fizera carreira por no contrariar faces internas do 
Politburo, geralmente era escolhido para levar boas notcias aos prisioneiros. 
       - Tenho boas notcias - iniciou e pegou uma cadeira ao lado de Nikolayev, em frente  televiso. 
       - J sei - disse Nikolayev, fazendo-lhe sinal para ficar em silncio at que o noticirio terminasse, como se tivesse certeza de que a investigao iria inocent-lo. 
Aps alguns instantes, o que era o suficiente para ilustrar seus argumentos e tudo o que poderia suportar, o prisioneiro levantou-se, desligou o televisor e olhou 
na direo de Slovenski. - A investigao revelou a verdade? 
       - Sim - disse animadamente Slovenski. - Voc conspirou com os lderes da Fora Area para matar Kolkov e Ericson, e depois pr a culpa nos chineses. 
       Nikolayev no demonstrou medo algum: 
       - Voc chama isso de boas notcias... 
       - No - afirmou Slovenski. - Chamo isso de verdade, que foi o que me pediu. As boas notcias so que voc foi nomeado Primeiro-Ministro pelo Presidium. No 
prximo congresso do partido, se tudo correr bem, voc vai ser eleito Secretrio-Geral. 
       - Conte-me o resto no carro - disse Nikolayev. Estava livre e, embora a 'cela fosse a melhor de Lubyanka, ele queria sair dali mais do que estivera disposto 
a confessar para si mesmo. Desceram o corredor e passaram pelas celas onde ele sabia haviam ficado seus companheiros de conspirao da Fora Area. - Que aconteceu 
a eles? 
       - Morreram num desastre de aviao - respondeu Slovenski. 

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       Na limusine Zis, percorrendo a Praa Dzerzhinski rumo ao Kremlin, o burocrata neutro explicou as aparentes contradies: 
       - Aps ficar confirmado que voc planejou a emboscada, a questo que dividiu o Politburo era se voc fez a coisa certa ao livrar-se do velho Kolkov. A ciso 
foi mais profunda que nunca e o assunto saiu de controle, indo para o Presidium. 
       - Primeira vez - assinalou Nikolayev. Puxou a cortina para trs e olhou as ruas, ainda  luz do dia. Primeira vez, tambm, que o deslocamento de um prisioneiro 
poltico tivera lugar numa hora razovel. 
       - E ltima, espero. Levou eternidades. A deciso foi a de que Kolkov planejava um ataque pr-esvaziador contra as potncias do Extremo-Oriente; que isso estava 
alm de sua autoridade, e que voc agiu no interesse do partido ao elimin-lo. 
       Nikolayev assentiu com a cabea. 
       - E o resultado oficial da investigao dir que... 
       - Uma outra coisa. Conforme voc disse, os chineses tentaram matar ambos os lderes a fim de dissociar as duas superpotncias. Considera-se que tal concluso 
atende ao melhor dos nossos interesses, e que a conseqncia  que voc dever ser o Primeiro-Ministro. 
       - E meus amigos da Fora Area? - Nikolayev pensou rapidamente nos bravos homens que haviam conspirado com ele a fim de evitar uma guerra. 
       - Kolkov tinha muitos amigos. Matar um Secretrio-Geral no pode passar sem punio. Porm no caram em desgraa. .. morreram num acidente. 
       Nikolayev balanou a cabea, em resignao ou aprovao, depois pensou nos trs homens do Politburo que carregaram o caixo junto com ele no funeral de Kolkov 
- eles teriam de ser prontamente expulsos. Perguntou a Slovenski sobre seu paradeiro e ouviu que todos estavam em Moscou. 
       - Estaes de energia eltrica - disse decisivamente Nikolayev. - Um se torna diretor da estao em Irkutsk; o outro em Samarkand, o terceiro em Novosibirsk. 
Jamais devem entrar em contato uns com outros. 
       J que seu colega de viagem nada dizia, Nikolayev acrescentou: 
       - Existe uma quarta estao de fora; trabalho duro, inverno rigoroso.  a que voc vai dirigir, caso aqueles trs homens no estejam fora de Moscou s oito 
horas amanh de manh. 
       Slovenski sacudiu a cabea: 
       - Talvez algum dia, quando voc for Secretrio-Geral. Ainda no. Todos ficam onde esto. 

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       Nikolayev deprimiu-se; ele no estava no poder, era um testa-de-ferro. Enquanto o carro passava pela Praa Vermelha e dobrava pela entrada estreita no Paredo 
do Kremlin, Slovenski continuou: 
       - Outra razo pela qual ficou resolvido que voc ser declarado inocente e falsamente acusado  porque acreditamos seja de nosso interesse a permanncia do 
Presidente Ericson no poder. 
       Nikolayev nada falou, sabendo que a explicao viria a seguir. Slovenski prosseguiu: 
       - Primeiro: a alternativa para ele  o banqueiro Bannerman, agindo atravs de Nichols. Bannerman, como sabe,  intratvel, e sua tendncia  a de lidar separadamente 
com as potncias do Extremo-Oriente. A maioria dos homens no seu departamento e na sua equipe  perita em chineses e japoneses, e ele provavelmente causaria uma 
ruptura na aliana URSS-EUA. Ericson, por sua vez... 
       - ...  cego.  fraco. Ficaria agradecido pelo meu auxlio - Nikolayev no acreditava que seus colegas-membros do Politburo apoiassem tal bobagem. 
       - Sua mente  mais sutil que isso, camarada - Slovenski deu um sorriso por entre os dentes. - J lhes informamos, atravs de Gregor, que voc e os homens 
do Presidente Ericson planejaram uma histria fazendo um heri do Kolkov, salvando a vida de Ericson em Yalta. Est sendo chamada de Fraude de Yalta. Voc e Ericson 
esto juntos nessa. Isso o compromete junto a voc. 
       Nikolayev aguardou. Aquilo ainda no era o suficiente. 
       - Segundo: temos a opo de deixar a verdade genuna ser conhecida a qualquer hora, que voc mandou matar Ericson. Isso foraria a opinio pblica a no deixar 
Ericson reagir violentamente a certas iniciativas nossas, por parecer uma resposta a um desentendimento pessoal. Ele teria de provar que agia como um Presidente 
cauteloso, no como homem a fim de ficar quite. 
       Nikolayev sacudiu a cabea impacientemente. 
       - Fale srio. Essa deciso de me dar uma segunda oportunidade foi tomada nos ltimos dias. Por qu? 
       - Ericson convidou voc para visitar Washington - disse rispidamente Slovenski - sem nos consultar primeiro. Ns poderamos fazer com que ele passasse por 
um idiota, o que ajudaria a destitu-lo do poder, ou poderamos fazer com que parecesse muito esperto, o que o ajudaria a se manter no poder. Nesse ponto, o futuro 
dele est em nossas mos. Pensa-se, embora no unanimemente, que podemos usar voc para fazer com que ele se torne nosso devedor. 
       Agora a coisa comeava a tomar sentido para Nikolayev. Seu instinto inicial - o de que seu prprio destino estava ligado ao de Ericson - estava correto. Assim 
como os americanos pensaram que 

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ajudar Nikolayev atravs da histria de Kolkov comprometeria o lder sovitico, tambm o Politburo achou que us-lo para apoiar Ericson comprometeria o lder norte-americano. 
Um carrossel - jogada justa. Mas a verdade de fato no seria revelada um dia, breve, j que o KGB e a CIA andavam trocando informaes? No oficialmente. Ericson 
saberia que Nikolayev, de incio, tentara mat-lo, e depois salv-lo. Ao tentar colocar-se no lugar de Ericson, Nikolayev s encontrou emoes conflitantes. 
       - Ele pensar que sou insincero - observou Nikolayev, e Slovenski grunhiu uma risada. Em resumo, a jogada era segura: Ericson no poder graas  influncia 
sovitica seria melhor do que Bannerman no poder, contrrio  influncia sovitica, O truque exigiria que Ericson pedisse a ajuda de Nikolayev a fim de estabelecer 
um quid pro quo no futuro. 
       Inclinaram-se para a frente quando o carro parou diante do apartamento de Nikolayev no Kremlin. O lder sovitico subiu as escadas sozinho e foi abraado, 
em meio a lgrimas, pela esposa e pelos trs filhos, que no sabiam se jamais o veriam novamente. Ele no podia compartilhar do seu senso de alvio feliz: estaria 
seguro enquanto fosse til. 
       Naquela noite, na sala de estar escurecida de seu apartamento, ele sentou-se sozinho e analisou sua posio: se Ericson conseguisse cumprir o mandato, Nikolayev 
teria trs anos para consolidar seu poder. O posto de Premier era quase insignificante, mas, tambm, se tivesse o ttulo de Secretrio-Geral, poderia lentamente 
usurpar o controle dos postos-chave do partido, dos velhos homens de Kolkov. 
       O primeiro passo seria mandar recado a Ericson de que o Premier sovitico estava disposto a ajudar, se necessrio. Ericson teria de fazer a solicitao pessoalmente; 
isso era essencial para estabelecer a base para o futuro compromisso. O segundo passo era fazer o que fosse preciso para manter Ericson no cargo. 
       Como fazer contato com Ericson? A linha especial passava por duas burocracias. Possivelmente poderia tratar atravs de Curtice, mas ele no tinha certeza 
se Curtice era homem de Ericson ou aliado de Bannerman, no mundo bizantino da poltica de Washington. Havia sempre o Gregor, a fonte oficial extracanais do mundo 
cinzento das publicaes e da diplomacia; sem dvida ele informaria aos inimigos de Nikolayev no Kremlin quais os contatos que o Premier fazia, contudo, j que Nikolayev 
supostamente comprometeria Ericson, isso no faria diferena. 
       Ele decidiu que Gregor seria o canal. No dia seguinte sondaria Ericson atravs de Gregor, sobre quando uma acolhida sovitica ao convite americano seria mais 
propcio. Essa declarao simultnea 

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provaria, para o bem de Ericson, que os dois lideres estavam em contato ntimo; que o Presidente americano sabia o que ocorria na Unio Sovitica, e que ele no 
somente no era um homem que cometia erros crassos, mas um homem de poderoso controle dos eventos mundiais. 
       O russo tentou imaginar-se na posio de Ericson: sem viso, sem popularidade, quase sem poder, lutando para se agentar. A posio de Nikolayev era at certo 
ponto diferente: sem poder, ainda no cargo, com uma oportunidade de transformar a sombra em substncia. Durante sua visita a Moscou e a caminho de Yalta, o americano 
fora um confidente, homem quase infalvel, o filho da fortuna. Certamente a perda de viso lanara-o em depresso, mas o homem que Nikolayev vira na tela da linha 
especial havia no muito tempo atrs, parecia confiante o suficiente. Talvez a aparente confiana fosse genuna, nascida de alguma encoberta fonte de f; por outro 
lado, talvez a confiana fosse prova da falta de contato de Ericson com a realidade. Se ambos conseguissem conquistar de volta seu poder, perguntou-se Nikolayev, 
seria ele capaz de manipular pessoa to imprevisvel? Seria a cegueira, em ltima anlise, alguma espcie de vantagem sutil numa reunio de cpula? 
       Ele bocejou, gozou uma longa espreguiada longe do frio confinamento de Lubyanka, levantou-se e foi at a porta do quarto de dormir, batendo imediatamente 
com a tbia numa mesa de caf que fora transferida de lugar na sua ausncia; caiu pesadamente sobre a mesa, repleta de pratos e um samovar, e berrou um palavro 
enquanto a porcelana se espalhava por todo o aposento. Sua esposa veio correndo de camisola e o ajudou a manquejar at o banheiro, ensopado de ch, rindo do alvio 
da tenso e da priso. Nikolayev tinha, de certa forma, calado os sapatos de Ericson, e isso lhe ensinou uma lio; um homem cego tem a caprichosa vantagem de saber 
que no sabe quais os obstculos  frente. 


A FOTGRAFA OFICIAL/4 

       - "Seu" escritorzinho filho da puta! Voc nunca escreveu um discurso decente na sua vida! - Buffie bateu o fone da extenso, ajustou o roupo branco de esponja 
ao corpo e sentiu lgrimas nascendo. 
       - Era a minha fotgrafa oficial - disse calmamente o Presidente pela sua extenso. - Ela deve ter apanhado o telefone e escutado. Desculpe por isso, Jonathan, 
mas acho que voc j desconfiava. Ela mordeu a sua isca. 

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       Ela sacudiu a cabea e, irritada, enxugou os olhos com o roupo. No fora essa a atitude que ela esperava. Quando Jonathan terminou de ler para o Presidente 
a nica coluna decente a seu respeito e prosseguiu reclamando como as fotografias de Buffie eram nojentas, ela percebeu que o redator no falava srio acerca das 
fotos. O homem que amava estava dizendo que sabia da sua presena ali, e pior, ela estava escutando sua conversa com o homem que ia para a cama com ela, e Jonathan 
a irritou a ponto de faz-la sentir-se culpada da coisa. O detalhe enfurecedor  que ela realmente se sentiu assim, pela primeira vez na vida. Ento ela lhe deu 
um fora e, se constrangeu Ericson, dane-se. No o constrangeu, lgico, pensando bem; ele estava humilhando o jovem ao deix-lo perceber a situao no seu todo e, 
provavelmente, estava gostando disso. 
       Quando o Presidente desligou, ela disse: 
       - Tenho uma confisso a fazer, Pdeu. - Ela estava enroscada, na cadeira, observando a longa silhueta dele esticada na cama, em diagonal, como de hbito, provavelmente 
sentindo-se completamente feliz aps fazer amor gostoso, depois de um bom dia e de receber boas notcias. Ericson havia reencontrado sua cadncia e penetrara nela 
com aquele ritmo uniforme e auto-satisfatrio, que mantivera havia muito tempo, na campanha; e no do outro jeito, agarrando, tateando, como nos ltimos meses. Pessoalmente, 
ela gostava mais da maneira antiga, porque preferia homens seguros e independentes que a deixavam agir do mesmo modo; Jonathan, todavia, complicava a situao. Ela 
sabia que Pdeu precisava menos dela agora, porm isso, surpreendentemente, no a afastou dele. Por que ele precisava menos dela? Provavelmente porque Sam Silenciosa, 
com as tetas enormes, andava servindo-o melhor que nunca. Como poderia uma fotgrafa trabalhadora, com mos speras de operar nos cidos do laboratrio, competir 
com uma enfermeira registrada, treinada em massagem sueca? Os pensamentos de Buffie mudaram subitamente para a costumeira perspiccia; no era nada daquilo. Pdeu 
est sentindo-se melhor, e indo em frente. Isso era bom para ambos. Agora ela teria de fugir de Bannerman. 
       - No jogue sua culpa em mim, Buffie. J carrego mais do que posso tolerar. 
       Ela prosseguiu: 
       - Voc sabe que eu tenho brincado com Bannerman e aqueles caras... os mauzinhos. 
       - Sei. 
       - Nada srio. Jamais contei sobre o trem de campanha; s coisas mixurucas, fofocas. Achei que ia ajudar-me mais tarde, multo dinheiro e contatos de editores; 
eu podia ser editora, e quem sabe 

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o que mais - Ericson nada falou. - Eu no fui desleal com voc. Sabia? 
       Ericson ps as mos na nuca e se espreguiou. Era um homem de boa aparncia, para seus quarenta e tantos anos, anguloso, superfcies planas e juntas pontudas. 
       - Claro que voc estava sendo desleal, Buffie, entretanto continuou comigo quando precisei de voc, e um compensa o outro. Portanto, fique tranqila. 
       - No consigo ficar. Estou assustada paca. 
       - No vou despedi-la. Droga! Nem posso dizer se as suas fotos saem ou no. 
       Ele no entendeu. 
       - Olhe, Pdeu, no  voc que me assusta. Voc  um cara bom. L no fundo talvez no tenha corao, m&  um amigo. Bannerman, contudo, me assusta muito; eu 
digo muito, sem brincadeira. Pensei que podia jogar nas duas pontas contra o meio, mas quebrei a cara. Isto no  um jogo, esta vida na Casa Branca; o pessoal trabalhava 
pra valer. So malvados. 
       - De que ele tem ameaado voc? 
       - Tudo. - Ela comea a respirar pesadamente, mas no queria ir ao fundo do assunto, por isso controlou-se. - Ele conseguiu despedir meu antigo namorado, s 
como amostra. Ele s precisou estalar os dedos e o cara acabou. Pode arruinar o negcio do meu pai, o que no  muito difcil, e tornar as coisas duras para a minha 
irm, e Deus sabe o que pode fazer para barrar minha entrada para sempre nas revistas. 
       - Isso so apenas ameaas, Buffie. 
       - Pdeu, acredite, esse camarada gosta de machucar. Bateu forte em mim e garanto que se divertiu com a coisa... 
       - Ele bateu em voc? 
       Ela no queria que Ericson se fixasse na parte menos importante: 
       - Eu estava ficando meio histrica, e ele me bateu para que eu me controlasse, porm esse detalhe me apavorou... 
       - Ele deu em voc? - Ericson sentou-se na cama e virou a cabea na direo dela, espantado. 
       - Isso no foi o pior, Pdeu.  o modo pelo qual ele poderia me atingir que est arrasando com a minha vida; Bannerman  poderoso, tem amigos em toda parte, 
gente que tem de fazer o que ele manda. 
       - Ele bateu em voc. Onde? 
       - Na cabea, onde no aparece. Esquea. 

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       - Buffie, foi numa de sexo? Voc andou com ele? 
       Ela balanou a cabea. 
       - Responda-me, Buffie. 
       - Desculpe. No, ele  uma pessoa muito sria.  o nico direito que eu conheo que no d seus pulinhos. 
       - Quer dizer que ele bateu em voc para deixar de ser histrica, o que ele mesmo provocou, e para ter certeza de que o medo ficou gravado. Esse cachorro, 
muito bem. - O Presidente sentou-se na beira da cama, de frente para ela, de modo prtico. - O que ele quer que voc faa? 
       - Primeiro queria que eu lhe trouxesse um recado, e rpido, e foi por isso que eu ameacei o Harry Bok de escalar uma janela ou qualquer coisa drstica caso 
ele no me deixasse entrar esta noite. E eu o faria, com ou sem Sam Silenciosa. 
       - Quem? 
       - Sam Silenciosa, com os enormes seios, mos velozes e macias, a lata de leo no bolso... 
       - Qual era o recado dele? Espero que tenha anotado. 
       - Eu anotei - disse ela, pegando seu estojo de fotgrafa e tirando o bloco. Olhou as notas: - O melhor para o pas, na opinio dele  que voc renuncie. - 
Ela calculou que o Presidente j sabia disso, portanto apressou-se: - Ele diz que voc precisa pensar em segurana financeira, sendo cego e tudo, e ele garante um 
bolo de cinco milhes de dlares pelas suas memrias. 
       - Elas s valem uns trs - comentou Ericson. - Continue. 
       - Ele acha que mais importante  "uma atividade posterior, digna dos seus talentos". Ser que anotei isso? Ele diz que o Instituto de Estudos Econmicos Internacionais 
ser o veculo. Tem capital de trs milhes, atualmente, e sede em Washington. Ele afirma que o capital pode subir para trinta milhes e montar sede onde voc quiser. 
       - Sob controle dele? 
       - Espere um pouco; tenho uma coisa aqui sobre isso, tambm: voc teria direito de nomear a nova diretoria, e ela seria vita... ham... vita... 
       - ... vitalcia. 
       - Isso! 
       - Mais alguma coisa? Afinal,  a presidncia. 
       - Ele disse que voc podia indicar o que desejasse para mim. Isso no  importante. - Ela sentiu-se esquisita mencionando isso. Bannerman achou que Buffie 
tinha ligao emocional com o Presidente

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e no entenda que ela e Pdeu estavam iniciando espcie de amizade pura. 
       - No, essa  a nica parte importante. Muito bem, isso  a sobremesa... qual  o prato principal? 
       - Voc pergunta se ele me pediu para transmitir uma ameaa? 
       - Ela desejou que Ericson no a imprensasse para arrancar todas as informaes que possua. 
       - . 
       - Creio que ele no chegou a tanto. Pode ter feito isso, mas eu esqueci. No, era eu quem ele ameaava, no voc - Bannerman no ousaria ameaar Ericson, 
raciocinou ela. 
       - Olhe, Buffie, quero esclarecer bem a coisa. Tem um lpis? Amanh de manh, isto , quinta-feira, diga-lhe que eu considero o recado dele uma oferta de suborno. 
Anote estas palavras: "uma arrogante tentativa de usurpar a presidncia". - Ele falou isso lenta- mente, e ela anotou. - Agora acrescente isto: "Qualquer ao contra 
voc, ou os seus seria prima fade"; p-r-i-m-a f-a-c-i-e "prova de coao contra mim". Compreende, Buffie? Isso seria um gesto aberto, prova da oferta de um suborno. 
       - Poxa! Pdeu, o que eu disse foi realmente um suborno? 
       - Bannerman negaria; diria que foi uma honrosa oferta para me persuadir a cumprir minhas obrigaes e me assegurar que eu no ficaria sem recursos se me demitisse. 
A eu subiria no meu pedestal e diria que foi um suborno sujo, baixo. 
       - E o que eu diria? 
       - Voc diria uma coisa muito importante; diria a verdade, exatamente, e nem uma palavra mais. Voc anotou aquilo que ele lhe disse? D-me aqui. - Ela entregou-lhe 
as notas, desejando que sua letra fosse mais legvel; todos os editores se queixavam de suas anotaes indecifrveis. O telefone zumbiu na cama de cabeceira do Presidente. 
       - Eu saio - ofereceu ela. 
       - No, fique. No direi coisa alguma que possam arrancar de voc  pancada. - Pegou o fone com firmeza, sem tatear, e falou: - Sim. Est certo, vou atender. 
Sim, Melinda, estou com a Buffie aqui. Sexta-feira? Que rapidez! Hennessy.. . os sacanas. Por que est a sozinha? Ah!. . . - Ela deve ter tido alguma coisa que 
o atingiu. - Sinto muito. Vejo voc de manh. No vou precisar do Sumrio de Notcias, o Jonathan me leu a melhor parte. Chegue na hora; estarei no gabinete s oito. 
- Devolveu o fone ao gancho vagarosamente, sem pensar, e sacudiu a cabea quando afirmou: - J no dou sorte s pessoas. 
       - A sorte muda, Pdeu. 

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       - Venha c. Me d suas mos. - Ela ajoelhou-se perto dele, ao lado da cama, colocando suas mos nas dele. 
       - Minhas mos so minha pior parte - afirmou ela. - Minhas mos e meus ps no so atraentes. O resto do meu corpo  cor de leite, com um delicioso polvilhado 
de sardas como convm a uma mulher com cabelo louro a bronzeado e olhos verdes flamejantes. 
       - Quem escreveu isso? 
       - Jonathan. Pode ser que ele no escreva bons discursos para voc, mas, homem, ele me escreve cartas amorosas violentas. 
       Isso agradou Ericson, que riu gostoso, agradando-a, por sua vez. Ela teve a intuio de que esta seria a ltima vez dos dois juntos, sem que ningum fosse 
tomar um grande deciso por causa disso. Ela ficou triste, mas, de certa forma aliviada; ser amante de um Presidente provocava alta tenso e no tinha nenhuma graa 
se voc se sentia culpada. 
       - Vocs dois vo morar juntos? Coabitar? 
       - Nossa! No, Pdeu. - Ela se deu conta de que ele realmente no entendia gente mais jovem. - Isso  troo antigo, da dcada de setenta. Isso  para a Marilee 
e o seu cara da televiso que pensam que viver separado no est com nada. Ou para a Melinda e o procurador-Geral, fugindo de uma deciso: eis um casal realmente 
careta. No, obrigada, Jonathan e eu vamos agir como gente de vanguarda, do jeito moderno: contrato de casamento, bebs, hipotecas, e um-acordo--um-acordo. A menos 
que Bannerman estrague tudo. 
       - Est bem, Buffie, desabafe. - Ele reteve as mos dela com firmeza, envolvendo-as com as suas. -- No posso olh-la nos olhos para ver se est dizendo a 
verdade, porm tenho a maneira secreta de um cego perceber pelos seus dedos. - O corao dela apertou. Ele sabia que ela era supersticiosa e acreditaria naquilo, 
o que aconteceu. - Bom, de que outro modo o Bannerman planeja us-la? Que mais ele est maquinando contra mim? 
       - Voc estava tendo relaes no trem quando bateu com a cabea - ela deixou escapar. - Devo revelar essa histria amanh para um reprter, em tempo para um 
grande dia de rebentem-o-Ericson, na sexta-feira. Eu no contei a ele, Pdeu, o sacana do Leigh  quem deve ter falado. E eles acham que isso mostra como voc  imoral, 
um velho sujo que no pode esperar nos intervalos das paradas da campanha. Bannerman acredita que isso  um grande escndalo. 
       - O que me d um motivo venal para encobrir o acidente - pensou Ericson em voz alta. - Hennessy chamaria isso de um 

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golpe bom e sujo. - Ele apertou-lhe as mos. - Eis o que fazer: 
       leia para Bannerman o que eu lhe disse acerca do suborno. Diga-lhe que voc acrescentou a jogada de estar comigo quando ocorreu o acidente porque pensou que 
me assustaria. E eu falei que isso corrobora a extorso. Pegue o lpis: e-x-t-o-r-s--o. A voc desmorona: fica histrica, banca a louca: esse caso tem acabado 
com seus nervos. Entendeu? 
       - No vai ser difcil. 
       - Ele recuar, voc vai ver. No precisar dar aquela do reprter porque estar incontrolvel, e ele vai perceber. Talvez at se preocupe com relao  minha 
acusao de suborno, mas voc  a chave, por isso ele vai querer que voc se acalme. Isso d pro gasto. 
       Ele recostou-se no travesseiro e fez sinal para que ela se juntasse a ele na cama. Ainda de roupo, ela deitou-se. 
       - Que negcio  esse de toalha? - Ela a tirou relutantemente. Ele sentiu-lhe o corpo calmamente, esfregando seu brao e pensando. - Buffie, a sua melhor aplice 
de seguro seria um livro. 
       - Chantagem? Essa j  manjada. 
       - No, um livro a ser publicado: sua vida na Casa Branca comigo. O envolvimento com Bannerman. Linda mulher no meio... 
       - ... pele branca leitosa. 
       - ... no; srio. No estou brincando. Incluindo as ameaas  sua famlia. Deixe o Bannerman ameaar process-la; ele jamais conseguir ir at o fim. No 
iria querer prestar um testemunho sob juramento neste caso. 
       - No sou escritora. 
       - Mas est amando um escritor, e o pobre do cara est doido de amor por voc. Escrevam juntos. - Agora ele espremia o brao dela agitadamente. Ela ficaria 
com uma mancha para esconder de Jonathan de manh. 
       - Seja a primeira a escrever um livro assim. E faa um livro tremendamente bom a meu respeito tambm. Conte tudo: como eu realmente a amei e no fim a perdi 
para um homem mais moo do que eu. - Era a primeira vez que Pdeu admitia isso. - Passei algum tempo com Jonathan, calculando que escreveria um bom livro algum dia 
onde eu contaria tudo sobre o meu sonho pelo pas. Muito animador. Mas se ele escrevesse um livro comum de um freqentador ntimo da Casa Branca, pr-Ericson, no 
venderia um s exemplar. A histria de amor venderia adoidado. 
       - Eles imprimem fotografias num livro desse tipo? - Pdeu nunca se acostumara  idia de que ele era uma fotgrafa profissional. 

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       - Ah, claro, fotos e texto. - Ele pensou um pouco. Ela estava pensando a mesma coisa. - Lembra, daquele filme que voc tirou de ns aquela vez em Camp David, 
no fim de semana antes do discurso de posse, com aquele aparelho que voc montou, e pegou ns dois juntos? Aquela foi coisa bem ntima, porm eu no me Importaria... 
       - Eu me importaria. Jonathan ficaria danado da vida. 
       - Est brincando! - A ele percebeu que ela estava. - Ele poderia manejar a situao com bom gosto. Sem nenhuma vulgaridade, jamais. Emoes sincera, do jeito 
que foram na realidade. 
       Foram. Ento por que. perguntou ela se Pdeu se tornara seu tio mais recente, estavam eles deitados juntos e nus na cama? Ele leu seu pensamento: 
       - Tem de haver a ltima vez - disse ele gentilmente. - Um adeus de amigos. Amanh seremos s amigos. 
       - Eu estava torcendo para voc poder aceitar isso - disse ela, chegando-se o mais perto que podia com a fronte e o nariz perto da curva do seu queixo, conforme 
ele gostava. 
       - Eu tambm - disse ele - isso e mais alguma coisa. 
       - Quem acordar primeiro - ela lhe disse - no acorda o outro. - Porm ela sabia que ele no estava a fim de dormir. 


O SECRETRIO DE RECURSOS NATURAIS 
       
       Mike Fong, sentado no vestbulo da Ala Oeste, diante do Salo do Gabinete no dia que j fora alcunhado de "Sexta-Feira Negra" por uma imprensa na expectativa, 
no tinha certeza de que esta reunio de Gabinete fora uma boa idia. Ele expressara suas reservas a Roy Bannerman: os adeptos da Vigsima Quinta no tinham os votos 
seguros nas mos. 
       As decises positivas de quatro dos seis membros do Gabinete eram necessrias para destituir o Presidente. O voto de Fong era um. O voto de Curtice, com o 
fito de expiar seu crescente senso de culpa por causa da Fraude de Yalta, era o segundo. A possibilidade de um terceiro era Emmett Duparquet, advogado do Presidente 
na ltima batalha, e que fora transformado em palhao pelo cliente. Lembrando-se do erro de fazer presso sobre Preston Reed antes da ltima reunio, Fong persuadira 
Bannerman a deixar o Procurador-Geral Duparquet estritamente sozinho. 
       Mas onde estaria o quarto? No seria Lucas Cartwright, agora no lugar de Reed como Secretrio de Defesa. Nem Zack Parker, um 

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       inimigo franco de Bannerman. E Andy Frangipani, de Recursos Humanos, votando pelo seu eleitorado de excepcionais e compassivos, era um esteio de Ericson. 
       - Onde est a lgica da coisa? - Perguntara Fong a Bannerman. - Se entrarmos para perder de novo, Ericson me exonerar na certa, junto com qualquer outro 
que se puser contra ele. Depois que esperana ns teramos? - Fong no estava exatamente ansioso para perder seu emprego no governo, apesar de todas as garantias 
pessoais de Bannerman. 
       - Impedimento, pra comear - replicara Bannerman. - Foi por isso que impediram Andrew Johnson, por exonerar um membro do Gabinete. Precisaremos de todo precedente 
que pudermos encontrar, se resolverem sobre o impedimento. Exonerar voc aps um movimento malogrado para usar a Vigsima Quinta Emenda seria um erro fatal para 
o Ericson. Ns temos de for-lo a cometer enganos. 
       Quando Fong resmungou alguma coisa acerca de no gostar de perder no Gabinete de duas em duas semanas, mais ou menos, Bannerman esclareceu quem estava dando 
as cartas: 
       - Mike, voc tem de continuar a bater naquela porta do Salo Oval. Se ela no cai, voc bate nela de novo. A presso em cima do Ericson nestes momentos tem 
de ser enorme. Nenhum homem agenta isso por muito tempo. 
       Ordens eram ordens e Mike Fong obedeceria. Certamente Bannerman tinha razo quanto  presso: durante dez dias a Administrao Ericson estivera sob bombardeio 
da imprensa, do Congresso e agora dos tribunais, com a denncia, nessa manh, contra o assessor presidencial Mark Hennessy. Suicdio, escndalo, disfarce, erro crasso 
internacional, fraude, fraude, fraude. As estatsticas mostravam o povo americano farto de Ericson e suas confuses. No mais sentiam pena dele - afinal no fora 
ele mesmo que provocara sua cegueira? Mike Fong estava convencido de que qualquer homem normal, sob tais presses e com um centmetro de patriotismo, renunciaria. 
Porm Ericson permanecia ali, paralisado politicamente e teimosamente paralisando a nao. Nichols no era competente, pensou Fong, quando o Vice-Presidente apareceu 
no vestbulo para a reunio das 4 da tarde, mas pelo menos o pas estaria funcionando. Com Ericson no cargo, parecia que no havia Presidente algum. 
       - Vamos discutir o assunto novamente? - perguntou o Vice- Presidente convidando os outros a entrarem no salo. Nichols tomou seu lugar  mesa, oposto  cadeira 
vazia do Presidente. Quando as outras cadeiras foram sendo preenchidas, Fong surpreendeu-se ao ver um rosto estranho sentado na cadeira do Tesouro - no o de Zack 
Parker, o substituto de Bannerman, mas o de um homem alto, plido, que ele no conhecia. 

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       - A reunio est aberta - disse o Vice-Presidente. 
       Lucas Cartwright imediatamente replicou: 
       - A reunio est encerrada at que chegue o Secretrio do Tesouro. 
       - Fui informado de que o Secretrio Parker est doente - disse o Vice-Presidente. - Um ataque srio de gastrenterite, mal que o faz sofrer h algum tempo. 
J que ainda no h secretrio-substituto sentado em seu lugar est o Subsecretrio de Assuntos Monetrios, Albert Hay. 
       Cartwright argumentou, zangado, que no existia urgncia para exigir reunio naquele dia e props adiamento at a segunda-feira seguinte, O Vice-Presidente 
negou: a reunio fora convocada de acordo com a Vigsima Quinta Emenda e no poderia ser adiada sem o consentimento do membro convocador, e Fong negou permisso. 
       - Suspeito de um golpe - disse dramaticamente Cartwright. - Vai nascer pelo menos uma suspeita na mente do pblico de que a comida do Secretrio Parker foi 
adulterada. Isso lanar uma sombra sobre qualquer deciso que for tomada aqui, especialmente j que est sendo elaborada com uma pessoa to indecente. 
       - Ningum morrer se esperarmos at segunda-feira - disse Frangipani - por respeito ao Zack Parker. Afinal, Zack nunca esteve numa reunio de Gabinete. 
       - Proponho a questo - disse Fong. Por que Bannerman no o avisara a respeito do novo homem, Hay? Era por isso que Bannerman se mostrou to disposto a convocar 
a reunio, sabendo que Parker ficaria doente? Cartwright estaria certo quanto ao golpe? Fong ficou satisfeito por no saber. 
       - O Procurador-Geral nos daria uma opinio legal? - Cartwright procurava auxlio. 
       Duparquet deu de ombros: 
       - Se Mike no quer aceitar um adiamento, a deciso  esta. 
       - No quero - disse Fong - porque existe uma urgncia: exatamente hoje de manh, culminando uma incrvel srie de revelaes, o chefe da Casa Civil do Presidente 
foi pronunciado com seis artigos de perjrio; o governo est paralisado; o Presidente no tem condies de agir. Francamente, Lucas, creio que sua sugesto da possibilidade 
de um golpe  um negcio tremendamente horrvel de dizer, e acho que deveria retir-la. No costumo andar por a envenenando caf dos outros para afast-los das 
reunies. Fiquei to surpreso como voc ao ver... 
       - Hay - falou o homem na cadeira do Tesouro. 
       - ... Hay aqui, esta tarde. 

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       - No retiro coisa alguma - disse Cartwright. - Essa confuso armou-se rpido demais e eu suspeito. Se voc tem como objetivo a deposio de um Presidente, 
pela primeira vez na histria desta nao, deveria muito bem ter um Gabinete completo aqui. - Ele no parecia o Lucas Cartwright elegante, frio: era um homem zangado. 
Fong interpretou isso como significando grande preocupao da parte de Cartwright. 
       - O Procurador-Geral apresentou o caso pelo Presidente da ltima vez - disse o Vice-Presidente. 
       - Oponho-me a que o senhor assuma esta presidncia - falou Cartwright. 
       - Indeferido - disse Nichols. - Existe precedente. 
       - Quem est anotando? - tentou Cartwright 
       - Boa pergunta - concordou Nichols. - Andy, voc faria a ata de novo? 
       - Deveramos ter uma narrao literal deste jogo de poderes - exclamou Cartwright - disponvel para o pblico. Proponho que chamemos uma estengrafa. 
       Vamos submeter isso  votao - disse Nichols. Fong sabia o rumo que essa votao tomaria: na ltima reunio de destituio, sem a presena de Cartwright, 
aquilo fora discutido exaustivamente. Fong estava contente por ganhar a primeira votao de cinco a um. Cartwright no era advogado to competente como Duparquet 
fora. 
       Voc falar pelo Presidente, Emmett? - perguntou o Vice- Presidente. 
       - Transfiro para o Secretrio Cartwright - falou o Procurador-Geral. - Ele foi chefe da Casa Civil e conhece a situao do Presidente melhor do que qualquer 
um de ns. 
       - Quais so as acusaes? - exigiu Cartwright. 
       Fong, sentindo-se mais confiante a cada momento, explicou: 
       - S existe uma "acusao", como voc diz.  a de que o Presidente dos Estados Unidos est incapaz, incapacitado para cumprir as funes e deveres do seu 
cargo. - Puxou a carteira, escolheu 
       o carto que carregava desde a ltima reunio e mais uma vez leu: 
       - Proponho que os membros principais dos departamentos executivos, agindo sob a autoridade neles investida pela Vigsima Quinta Emenda da Constituio dos 
Estados Unidos, declarem que o atual ocupante do cargo de Presidente dos Estados Unidos est incapaz de executar as funes e poderes do cargo, e que os poderes 
- aqui Fong sentiu o horrendo significado do que fazia, e sua voz baixou em respeito - e deveres do cargo de Presidente sejam transferidos para o Vice-Presidente, 
que agir como Presidente Interino. 

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       - Em discusso - disse o Vice-Presidente. Parecia que ningum tinha coisa alguma a dizer. Como anteriormente, as palavras que Fong lera pairaram pesadas no 
ar, e o medo que Mike Fong sentiu mas jamais expressou devia estar em todos eles. O que diria a Histria? Que eles haviam corajosamente cumprido com seu dever? Ou 
que foram os primeiros usurpadores norte-americanos? 
       - Eu gostaria de ouvir as palavras do Procurador-Geral - falou Cartwright. - Nenhuma prova foi apresentada que confirmasse a incapacidade clnica do Presidente 
Ericson. A responsabilidade da prova certamente  daquele que promove tal moo. 
       - Na realidade, no - afirmou dolorosamente Duparquet. - Isto no  uma ao contrria. A emenda no diz coisa alguma a respeito de uma "dvida razovel". 
 uma questo de julgamento dos homens aqui reunidos. 
       - Voc diz que podiam pegar um Presidente normal, saudvel e, sem provas, declar-lo incapaz e substitu-lo pelo Vice-Presidente? 
       - Certamente que no, nem  esse o propsito da legislao - afirmou o Procurador-Geral. - No entanto, teoricamente, poderiam. Se o Presidente objetasse, 
teria um remdio na lei: poderia pedir uma reintegrao pelo Congresso. 
       - J discutimos isso antes - falou George Curtice. - Todos conhecemos os argumentos e a lei. Vamos cumprir com nossa obrigao. 
       Fong olhou para Cartwright, plido, tremendo, enquanto esse bom homem olhava por cima da mesa para Duparquet. 
       - O Procurador-Geral deseja repudiar tudo o que falou na reunio anterior deste Gabinete? 
       - Minhas provas me repudiaram - disse Duparquet. Num tom resignado, exps as razes pelas quais desertava de Ericson: - Eu disse ao Gabinete na ltima vez 
que nenhum eleitor poderia antecipar um ato de Deus, e nada havia na ficha de Ericson que fizesse os eleitores acreditarem que ele era mais propenso  cegueira do 
que qualquer outro. Pensei que isso fosse verdade, porm no era. Talvez algum tenha votado contra a destituio do Presidente com base nessa mentira. Sinto a necessidade 
de corrigir isso agora. 
       - Certamente a prova mdica dever ser recente - argumentou Cartwright; corretamente, Fong admitiu para si mesmo - para ficar de conformidade com o propsito 
legislativo dos elaboradores da Vigsima Quinta Emenda, que eu trouxe aqui... 
       - Ns levamos em considerao, na ltima vez, a concluso mdica do Doutor Abelson, mdico do Presidente - falou o Vice. - Era tamanho conjunto de mentiras 
que ele se matou por causa disso.

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Seu bilhete de suicdio continha sua opinio de que o Presidente Ericson  incapaz. 
       - No lhe fica bem estar de gua na boca - disse Cartwright rpido ao Vice-Presidente - diante da perspectiva da usurpao dos poderes legtimos do Presidente 
Ericson. 
       O salo ficou tenso. Cartwright tocara num nervo. Fong pensou que o Vice-Presidente estava excedendo-se ao tomar parte to ativa nesta reunio. 
       O Vice-Presidente tem o poder de vetar uma deciso deste Gabinete - disse suavemente Fong - portanto, acho que seria boa idia se ele se recusasse a tecer 
comentrios posteriores. 
       Cale-se - disse Frangipani ao desgostoso Vice-Presidente. - Voc no  do Gabinete. Ns cuidaremos disso. 
       - Proponho a votao - disse Fong. 
       - Espere - Cartwright parecia desesperado, quase doente. - Todo mundo quer esperar um instante e analisar a profundidade da ao que estamos discutindo? A 
Histria no trata gentilmente do regicdio. Vocs esto atacando um Presidente, um Presidente, cavalheiros. Pela primeira vez, em mais de dois sculos, um pequeno 
grupo de homens est subtraindo os mais respeitados poderes, na terra, do lder eleito pelo nosso povo e deliberadamente entregando-os a outro homem. 
       - Se estivermos errados - exclamou Curtice - o Presidente poder recorrer ao Congresso. Se estivermos certos e no agirmos, o povo no ter nenhum recurso. 
       - Tenho trabalhado nesta casa, indo e vindo, h trinta anos - disse Cartwright, com olhar de perdedor. - A gente simplesmente no reverte a deciso do povo 
desta maneira. Enfraquece a prpria base da Casa Branca...
       Fong no precisou apresentar a moo novamente. Olhou para o Vice-Presidente, que falou: 
       -  votao para destituir o Presidente. O Secretrio de Estado. 
       George Curtice, sentado  direita da cadeira presidencial vazia, disse:
       - Eu voto sim. 
       - O Secretrio de Defesa. 
       Cartwright falou deprimido, mas com a voz forte: 
       - Voto no. 
       - O Secretrio do Tesouro. 
       Albert Hay, em substituio ao doente Zack Parker, disse: 

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       - Achei que esta deciso no era para ser tomada por mim mesmo, por isso entrei em contato com o Secretrio Parker no hospital antes da reunio. O Tesouro 
vota no. 
       Fong no podia acreditar. A substituio de ltima hora de Parker, o inimigo de Bannerman, no fora arquitetada por Bannerman. O Secretrio do Tesouro deve 
ter ficado doente, mesmo; a coisa se resumia nisso, e ningum da turma do Bannerman teve a oportunidade de trabalhar este subsecretrio. 
       - Retiro minha acusao de golpe - disse Lucas Cartwright suavemente. 
       - O Procurador-Geral - continuou o Vice-Presidente. 
       - Sim - disse firmemente Duparquet. Graas a Deus no tentamos pression-lo, pensou Fong; ele  um desses caras que reagem mal a presses. Dois a dois. Estamos 
perdidos, Precisamos de quatro, e o final estava entregue a Frangipani. 
       - O Secretrio de Recursos Naturais. 
       - Sim - disse Fong  sua prpria moo. Era a segunda vez que votava neste sentido e a primeira que derrubava um Presidente. Deu seu voto com a certeza de 
que isso lhe custaria o cargo. 
       - O Secretrio de Recursos Naturais. 
       - Sim - falou Andy Frangipani. 
       Silncio. 
       - Um voto de "sim" ser um voto para destituir o Presidente - avisou Lucas Cartwright, como se talvez Frangipani no houvesse entendido. 
       - Eu sei - disse o "Carcamano", impassvel. O Vice-Presidente  agora o Presidente Interino. 
       Ningum sabia o que fazer em seguida. Finalmente Duparquet disse a Nichols: 
       - Senhor Presidente Interino: o senhor tem o poder de vetar a deciso tomada neste dia por este Gabinete. O senhor vai exercer seu veto? 
       - No - disse Nichols. 
       - Ento sugiro que declare esta reunio... 
       - Esperem - disse de novo Cartwright. -  luz do voto eu gostaria de propor que demos ao Presidente Ericson a oportunidade de afastar-se voluntariamente, 
sob os dispositivos da Vigsima Quinta Emenda. Talvez assim seja mais decente. 
       Todos olharam para Fong. Ele sabia que Bannerman esperava que ele enfiasse a espada no perdedor, para certificar-se de que o inundo veria Ericson ser deposto 
do cargo contra sua vontade. 

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       - Creio que esta  uma sugesto piedosa, Lucas. No tenho objees. Por que no vai ver se  isto que o Presidente Ericson deseja? E ele poder expressar-se 
na forma de nota manuscrita ao Secretrio de Estado. 
       Cartwright deixou o Salo do Gabinete pela porta que levava ao Salo Oval. O resto deles ficou sentado, sem dizer palavra, durante trs minutos. Cartwright 
retornou com um bilhete nas mos e uma expresso estranhamente animada. 
       - O Presidente Ericson deu-me esta mensagem: "Hoje cedo recusei uma oferta para negociar a presidncia. Agora rejeito uma oferta de desistir da presidncia. 
O ato que praticaram hoje... usurpar meu poder constitucional... unir seus nomes ao de Benedict Arnold. Combaterei seu ato no Congresso at que os poderes do Presidente 
fiquem uma vez mais nas mos da pessoa que o povo elegeu para tal posto." 
       Aps um momento, Nichols exclamou: 
       - Ele no est questionando nosso direito de praticar este ato, est? 
       No - respondeu Cartwright. - Mas ele mandou vir um colcho para o Salo Oval, Se o senhor deseja o Presidente longe deste local, Senhor Presidente Interino, 
vai ter de jog-lo na rua. 

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V
O PRESIDENTE

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O PRESIDENTE/1 
       
       Ericson correu as pontas dos dedos pela beirada da mesa usada por Herbert Hoover uns cinqenta anos antes. Sentou-se em sua cadeira e descansou a fronte gentilmente 
no topo ligeiramente escamado da mesa, sentindo a presso fria e rolando a cabea para trs e para a frente. Escutava o bater quase inaudvel do relgio no canto 
esquerdo da mesa, e depois o tique-taque profundo e lento do relgio antigo perto da porta que dava para o vestbulo  esquerda.  direita o gaio fazia barulho no 
Jardim das Rosas. Adiante, um pouco  direta, mais ou menos na marcao das duas horas no seu relgio mentalmente posicionado, surgia o rudo da sala de Melinda: 
um telefone tocando abafado, uma mquina de escrever batendo, vozes ao longe. 
       Ele levantou a cabea e se inclinou para trs, girando a cadeira para ficar frente  janela de vidraa arredondada. Talvez ele estivesse se enganado, contudo 
o Presidente achou que talvez pudesse distinguir mais matizes de cinza no que haviam sido apenas imagens em branco-e-preto. Na manh anterior, quando Buffie pensou 
que se estava esgueirando silenciosamente para fora da cama, sua silhueta se confrontara com a janela lanando uma luz por trs dela e ele pde mais facilmente - 
ou se deixou pensar assim - distinguir seu corpo enquanto ela se torcia para dentro do vestido. Ele teria de tentar isso novamente com a Sam Silenciosa. 
       A campainha soou e ele pegou o receptor. Ele chamava seu telefone de "igualador", do jeito que os bandidos se referiam s suas armas, nos mistrios que andava 
escutando no gravador nos ltimos tempos. Melinda estava novamente ao telefone: 
       - No quero for-lo a nada, mas estamos todos aqui  sua disposio: Lucas, Smitty, Harry e eu. E o advogado constitucionalista que queria e que Lucas escolheu. 
Devemos entrar? 
       - No neste instante. Conversem no Salo Roosevelt. Quero pensar um pouco. 
       Ele levantou-se, passou os dedos pelo canto noroeste de sua mesa, o que marcava atravs da conhecida ilha no seu escritrio 
       seis passos at a porta ao lado da porta do vestbulo. Ele empurrou-a

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e entrou na passagem estreita: minsculo lavatrio  sua direita; a "cabina telefnica"  esquerda. Deitou-se no pequeno div que ocupava uma parede. Ericson perguntara 
ao administrador da Casa Branca de que forma o aposento era usado desde os dias de Harding. O administrador respondera delicadamente que para "sonecas", e acrescentou 
que o uso original - como cabina telefnica - foi restaurado quando o Presidente Kennedy instalara uma extenso de telefone particular isolada da mesa telefnica. 
       Ericson descansou a cabea no travesseiro de couro, que sua esposa havia tanto tempo atrs insistira em chamar de "almofada de lanamento". Essa era uma das 
poucas lembranas que ele tinha da esposa, uma solitria como ele. Jamais quis filhos. Ele teria se dado bem com alguns filhos que no veria ao voltar para casa, 
nos ltimos dez anos, porm a vida na Casa Branca teria sido dura para crianas. E seria melhor, de qualquer modo, no ter de explicar o que ocorrera nesta ltima 
semana a algum que desejava confiar totalmente em voc. Ele afastou da mente o suicdio da mulher no dia-do-divrcio; talvez fosse da que Herb Abelson tivesse 
tirado sua idia. 
       Aqui estava ele, nem peixe nem carne, nem Presidente nem no- Presidente. Ele gostara de introduzir aquele bilhete no Salo do Gabinete h uma hora atrs 
- a referncia a Benedict Arnold fora excessiva, pensando bem, pois para isso havia assessores que refreavam. Ele no se sentia realmente terrivelmente desafiante. 
Deixava Bataan e estendia a luta em Corregidor, mas ultimamente essa posio, tambm, fora perdedora. Ele podia tentar dar uma aparncia boa s coisas, porm jamais 
venceria perdendo - que coisa incrvel, imaginou, teria dado no Andy Frangipani? A desero de Curtice ele podia entender: uma mea culpa para a imprensa liberal. 
Duparquet estivera zangado durante uma semana e mostrara sinais de passar para o outro lado; Melinda tentara junto a Duparquet, dando tudo que tinha, Ericson sabia, 
e a considervel custo pessoal, todavia o Procurador-Geral ficara de olho na oportunidade principal, e a grande oportunidade agora era a de encerrar tudo entre ele 
e o Presidente. Mais precisamente: o semipresidente. Curiosamente Ericson nutria pouco ressentimento por Fong. Mike era um instrumento voluntrio de Bannerman, contudo 
sincero na sua crena da incapacidade de Ericson. Preocupava o Presidente ser o alvo de um atirador frontal como Mike Fong que, se ganhasse, provavelmente seria 
trado por Bannerman. Mas o voto de Andy Frangipani foi um choque - o Presidente contara com seu apoio e no lhe dera ateno; talvez tenha sido por isso: nunca 
deixe algum sentir que  "favas contadas". Havia alguma coisa mais a, porm: Bannerman talvez tivesse falado com Andy, ou algum o pressionara de outra forma;

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ou algum fundamento poltico arcano de Nova York podia estar, atrs desse caso. 
       Ericson no sentia prazer em entrar nesta luta sem Hennessy. Lucas Cartwright era um homem bom e acabara se mostrando mais um firme legalista do que Ericson 
jamais o julgara ser, contudo, no possua o entusiasmo por uma batalha sem trguas. Nesta situao no havia algum que Ericson conseguisse refrear, acalmar, evitar 
que agisse de cabea quente; sem Hennessy o semipresidente teria de ser a fonte do mpeto para batalhar, e outros teriam, ento, de refre-lo. No era uma tarefa 
comum para um Presidente, nem fazia Ericson sentir-se bem. 
       Havia tanta coisa para fazer, se ele pudesse continuar no poder! Tanto que seria adiado por dcadas, talvez uma gerao, se Ericson aquiescesse, seguindo 
a correnteza para fora da porta que levava ao descanso honrado. Ele era o primeiro economista profissional a ser eleito Presidente; o primeiro que entendia profundamente 
as foras que infra-estruturavam o sistema que impelia o pas  prosperidade ou aos tempos difceis. Somente Ericson - ele disse a si mesmo - o democrata que falava 
como conservador, que governara com  primeiro Senado republicano, somente Ericson poderia efetuar uma reforma radical em nome da economia livre. Sua primeira nomeao 
fora significativa: um jovem financista a encabear a Junta de Reserva Federal, colega de estudos de Ericson. Como companheiros de quarto sonharam no que poderiam 
fazer juntos se manejassem as alavancas do poder econmico. Compartilhavam de uma viso da Amrica do Norte - Ericson sorriu pesarosamente ante a freqncia com 
que usava esse clich na sua campanha eleitoral estabelecer um imposto de renda negativo que reformaria o sistema da previdncia, garantindo acabar com a fome nos 
Estados Unidos, como Herbert Hoover e, mais tarde, Lyndon Johnson haviam prometido. 
       E se estivermos certos? - Ericson se perguntou, e se a velha forma keynesiana, a interveno governamental direta na economia, que tanto falhara na conteno 
do ciclo comercial, estiver errada? E se pudssemos dirigir a economia mais criativamente, mais indiretamente, fazendo como nossa conquista central o aumento da 
produtividade do trabalhador, o nico modo para uma contnua elevao do padro de vida? S Deus sabia, mas a liberdade econmica fora jogada fora em vrios outros 
pases, buscando a segurana perfeita - no poderia uma Administrao Ericson mostrar ao mundo o que uma economia livre poderia trazer para seus cidados? 
       E se tivssemos certos, e eu cedesse, e Bannerman e Nichols nos levassem pela trilha de mais emendas, mais erros crassos, mais retrocessos, sem jamais entender 
a oportunidade? A Histria no me condenaria por ser o pior tipo de covarde? Essas inovaes na economia

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no eram o tipo de conselho passado adiante com as chaves para o cargo; tal conselho tinha de se unir ao poder em uma pessoa no Salo Oval a fim de superar um julgamento 
constante. 
       O Presidente mudou de posio no div do minsculo quarto. O div era dez centmetros curto demais para ele, porm ali ele no podia colocar um maior. Por 
que no deslocavam a parede para o Presidente dos Estados Unidos? Se ele resolvesse permanecer mandaria deslocar a parede para poder se esticar. 
       Ele pensou nisso ao apertar o sapato de encontro  parede. Seria a sua jogada de "tanta-coisa-para-fazer" uma racionalizao total, a necessria parada ao 
seu desejo de viver um vida completa, mesmo cego, sua teimosia inata que sempre o empurrava para trs quando pressionada ou seu amor em ser o Nmero Um? Com um s 
gesto ele poderia remover uma parede, ou uma montanha. O mais poderoso lder do mundo livre. J que o poder lhe fora arrebatado, Ericson podia arrebat-lo de volta. 
       Poder era a palavra errada. Todos os analistas viviam falando em "poder presidencial" como se ele fosse gerado por alguma mquina no poro da Casa Branca, 
ligada  Grande Represa de Coulee, e que podia ser "passado" de mo em mo pela emenda constitucional. Na verdade; seu poder era investigado por todos os lados: 
no tanto pelo Congresso ou os tribunais, mas pela inrcia, crtica, enfado, confuso, a presena proibida da Histria, e, mais importante ainda, pela sua prpria 
falta de convico. Mesmo quando Ericson se sentia mais determinado tinha de admitir a possibilidade - "nas entranhas de Cristo", como Oliver Cromwell declarara 
diante do Longo Parlamento - de que podia estar errado. Portanto, em lugar de "poder" leia-se "grau de impotncia", nvel que cada Presidente enfrenta pessoalmente, 
em geral no fim do seu primeiro ano no cargo. 
       E no entanto, e no entanto, mesmo assim, ainda. Tanto poderia ser feito, ou tantos enganos evitados por um homem, especialmente um homem que no deseja meramente 
ser Presidente, mas quer agir como Presidente. Deitado ali, com o p na parede, Ericson chegou  concluso de que seus prprios motivos para lutar pela sua permanncia 
eram bons; que ele no precisava do poder - ou grau de impotncia - pelo bem de sua prpria alma. Talvez h algum tempo atrs; agora no. A esta altura ele sabia 
que preferia manter-se na direo pelo que podia fazer. O problema real que o desafiava era se ele poderia fazer o que queria, cego, impopular e em estado de stio. 
Lembrou-se dos quatro jqueis de Arthur Leigh, metfora cultivada que Hank Fowler agitadamente passara adiante para ele, O primeiro jquei era o homem que precisava 
de poder mas no podia manej-lo - esse nunca fora Ericson. O segundo homem era aquele 

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precisando de poder, mas sabendo lidar com ele - esse tinha sido Ericson. O terceiro era o homem que no precisava do poder e no podia manej-lo - esse era Ericson 
atualmente, e o Vice-Presidente Nichols tambm. E o quarto era o homem que no precisava do poder mas sabia lidar com ele - o "homem autnomo dirigido-por-outro" 
de David Reisman - ser que Ericson se tornaria esse? E, se assim fosse, em tempo suficiente para salvar sua presidncia? 
       Para impedir o apocalipse, Ericson retificou os quatro cavaleiros de Leigh, colocando "a vida poltica" em vez de "poder". Ele no buscava poder - queria 
ser parte central da ao. Assim ficava melhor. O Presidente tirou o sapato da parede. Se permanecesse, deixaria a parede no local, como smbolo particular da limitao 
do poder. Poltica, Ericson pressups para si mesmo, era a cincia das sadas, isto , a descoberta de solues para dilemas que criavam novos problemas no to 
complicados como o dilema original. No seu prprio dilema, ele precisava de uma sada. Saberia reconhecer uma quando a visse? Esperava que sim. 
       O Presidente levantou-se do curto div e entrou no pequeno lavatrio, colocou-se cuidadosamente em posio e urinou com preciso. Endireitou o fecho das calas 
e seus pensamentos, lavou o rosto lentamente com sabonete, aplicou uma toalha molhada na nuca por um instante e se preparou para seus assessores que enxergavam. 
Esperava que Lucas houvesse encontrado um bom advogado constitucionalista; algum no apenas afiado na teoria, mas com certa compreenso do elemento humano nesta 
situao. Ericson atirou a toalha para onde deveria estar a cesta, mas no ouviu o barulho satisfatrio. Deu de ombros - era culpa da cesta, no dele, se ela estava 
onde no devia. Contou os seis passos de volta  mesa Hoover e apertou o boto, chamando Melinda. Ela abriu a porta. 
       - Vamos trabalhar - disse-lhe ele. - Ainda estamos sendo pagos? 
       Os outros vieram em grupo atrs dele. 
       - Cumprimente o Senador Apple - disse a voz de Cartwright - seu novo advogado. - Ericson estendeu a mo. Uma velha mo nodosa segurou a sua e apertou forte. 
A escolha de Lucas foi uma surpresa agradvel: Apple tinha setenta e poucos anos, aposentara-se do senado havia uma dcada atrs para fazer um monte de dinheiro 
como diretor de um escritrio de advocacia em Washington. O Presidente esperava que a mente do velho ainda estivesse em forma. 
       Ericson caminhou para uma das poltronas em frente  lareira, indicando a cadeira perto dele ao Senador Apple. Isso era para mostrar ao advogado que ele era 
importante, no teria de lidar com o Chefe do Executivo por cima de uma mesa, como um funcionrio. Os outros tomaram lugares em volta deles; Ericson ouviu a cadeira 

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de rodas de Harry Bok, sentiu a presena de Hank Fowler e o cheiro do Ma Griffe de Melinda. Smitty entrou correndo, por ltimo, e fechou a porta. 
       - Senhor Presidente - disse a voz sibilante e ofegante do Senador Apple -  minha concluso que o senhor est entrando num negcio difcil. 
       - Difcil, talvez; mas  constitucional? 
       O senador no hesitou: 
       - Tudo est sendo feito legalmente, porm acho que a Histria Legislativa mostrar que este desprezvel ato de hoje no foi inteno dos autores da Vigsima 
Quinta Emenda. 
       - Como pode ter certeza? - Ericson gostou da segurana dele. 
       - Posso ter toda a droga da certeza - resfolegou o senador. - Eu fui um dos autores. Eu era o presidente do Subcomit para Emendas Constitucionais quando 
a Vigsima Quinta Emenda foi passada, e eu sei o que pretendia. 
       Por isso Lucas escolhera o Senador Apple. Ericson estava comeando a gostar da coisa: 
       - O senhor acaba de chamar-me de "Senhor Presidente" - ele falou. - Eu o sou? 
       - O senhor ser chamado de "Senhor Presidente" at o dia em que morrer - replicou Apple - como sou chamado de "senador", e no significa nada. Sua pergunta 
deveria ser, presumo, se ainda , de fato, Presidente dos Estados Unidos. 
       - Acho isso interessante - disse Ericson buscando instrues. 
       - Sim, o senhor ainda  Presidente. Ocupa o cargo de Presidente. Contudo, assim que uma mensagem escrita  recebida pelo Presidente pra tempore do Senado, 
e pelo Presidente da Cmara, dizendo que o Gabinete o declarou incapaz de exercer seus deveres e funes... o que ocorre agora... seus poderes e deveres so transferidos 
para o Vice-Presidente, como Presidente Interino. 
       - Presidente sem poder. 
       - Certo - disse Apple objetivamente. - O senhor no pode dar ordens. Por outro lado, o senhor no  responsvel pelo dever de dar uma ordem. 
       - Posso contratar um advogado? 
       - Boa pergunta; como indivduo, lgico, pode. No entanto, poder o senhor, como Presidente, designar um defensor que ser pago pelo pblico? Poderia estabelecer-se 
a dvida de que o senhor no tem esse poder. 
       Ericson fez sinal afirmativo com a cabea; esta no era uma luta que ele gostaria de alimentar. 

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       - Ento o senhor vai ser meu advogado particular. Gosto disso: abrange o privilgio advogado-cliente, etc. 
       - No - exclamou o Senador Apple. - No ceda nem um centmetro aos sacanas. O senhor me contrata, eu mando uma conta dos meus servios ao governo, e, como 
sabe, meus honorrios so exorbitantes. Vou querer usar alguns dos meus jovens colegas da firma neste caso, tambm. Pense da seguinte forma: uma vez que o senhor 
comece a agir como se no tivesse o direito de defender-se ou recuperar seus poderes, ento certo poder remanescente desaparecer. 
       - Qual poder remanescente? 
       - Olhe em sua volta - disse o velho. - O local, as pessoas. O senhor ainda possui algum controle geral... bem, chamemos de influncia. .. sobre seu Secretrio 
de Imprensa, seu chefe da Casa Civil. Permanea no cargo, continue agindo como Presidente, o que o senhor ; deixe Nichols tentar usurpar um por um os seus poderes. 
Vai fazer com que ele aparea como o usurpador que . 
       Ericson meditava sobre uma coisa que Apple dissera h um momento atrs. 
       - Quando o senhor disse que eu no podia dar ordens, o que quis dizer? 
       - Sua secretria particular aqui, Senhorita...
       - McPhee - disse Melinda. 
       - Senhorita McPhee. Ela trabalha para a Casa Branca. Ela pode, se quer, obedecer s suas instrues quanto a dar um telefonema, bater uma carta, mas no pode 
transmitir uma ordem executiva. Como conselheiro especial, posso pedir auxilio ao resto do pessoal da Casa Branca, no posso insistir. 
       - Como ele far para recuperar os poderes? - indagou Lucas Cartwright. -  para isso que o senhor est aqui, Senador. 
       - Item Um - falou o advogado - transmitir cartas para o Presidente pro tempore e o Presidente da Cmara, dizendo simplesmente: "Senhor. De acordo com a Seco 
4, Pargrafo 2 da Vigsima Quinta Emenda da Constituio, esta  para inform-lo que no existe incapacidade. Sinceramente." Sugiro que o senhor escreva do prprio 
pulso, com a data de hoje, e a hora, 17:15. 
       Ericson no hesitou. Foi at a mesa, pegou na gaveta o papel verde do Presidente, apanhou a caneta, e escreveu as duas cartas, descansando apenas para dizer: 
       - No deveria ser "Presidente pro tempore"? 
       - Presidente pro tem serviria - disse Apple - mas v em frente, se prefere se mostrar. 

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       Ericson entregou as duas cartas e Smitty, como chefe da Casa Civil, pegou-as: 
       - Farei com que sejam entregues logo aps as de Nichols. 
       - Qual  o Item Dois? - Ericson sentia-se contente porque as coisas iam andando. 
       - Os usurpadores tm quatro dias para contestar sua afirmao de que no existe incapacidade alguma. Se o fizerem, o que imagino acontecer, as palavras da 
emenda dizem: "Imediatamente 
       o Congresso decidir a respeito". Visto que o Congresso se acha, agora, em sesso, a questo teria de ser resolvida dentro de vinte e um dias, a partir do 
momento em que for determinado o problema. 
       Ericson voltou da mesa e se sentou de novo na poltrona. Sentia-se indiferente, como se esta fosse uma discusso acadmica numa sala de aula de cincia poltica, 
a respeito de como lidar com a presidncia no dia-a-dia. Essa indiferena nunca o ajudara muito no tocante  necessidade que seus redatores chamavam de "iniciativas 
arrojadas", mas era uma forma til de anlise. Ele perguntou ao Senador, e incluiu Cartwright, o que esperavam fosse a prxima providncia de Bannerman & Cia. 
       - Se eu fosse eles - opinou o Senador Apple - no momento em que eu entregasse a carta de incapacidade e assinasse meu nome como Presidente Interino, meu primeiro 
ato seria o de lacrar seus arquivos. 
       - Eles poderiam fazer isso? Arquivos pessoais, tambm? - perguntou Lucas. 
       - No s poderiam, como deveriam. Eles no vo querer o senhor saindo por a com qualquer coisa que ajudasse o Presidente Interino a governar o pas, ou que 
os ajudasse a provar que o senhor estava realmente incapacitado. 
       - Meu telefone est tocando - disse Melinda calmamente, e saiu. Ericson ligou os ouvidos  sala dela; no havia telefone tocando; ela ia, esperava ele, pegar 
seu ditafone no cofre ao lado da mesa. Ele sentiu um sinal de medo diante da perspectiva de seus relatos pessoais carem sob controle de outra pessoa. As fitas incluam 
no somente declaraes de homens da Administrao e do Congresso, mas tambm sua anlise do caso Nikolayev e, pior de tudo, as declaraes durante aqueles momentos 
de sua depresso profunda, pessoal, na ocasio em que sofreu o resfriado forte. Hank Fowler dissera-lhe que tais declaraes seriam boa terapia e Ericson dissera 
tudo o lhe viera  mente, inclusive todas as dvidas quanto a si mesmo. Esse ditafone poderia ser usado para provar sua incapacidade diretamente dos seus prprios 
lbios. O dirio de um homem era sua propriedade mais ntima, acreditava Ericson - no devia ser 

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usado contra ele em caso algum. Confiava que Melinda compartilhasse de sua preocupao. 
       Quando sua ateno voltou para a conversa, Hank Fowler estava batendo papo sobre um assunto irrelevante: um co-guia de cegos, recm-adquirido para o Presidente, 
e que acabara de ser instalado nos canis por trs da piscina, no gramado sul. 
       O Presidente interrompeu: 
       - No tenho tempo - disse a Hank - de comear a treinar com um co hoje. 
       - Espere a - falou Smitty. - Talvez a imagem seja favorvel: Presidente, lutando para recuperar seus poderes usurpados, faz seu primeiro passeio com seu 
novo co-guia para cegos. Mostra que o senhor no est em pnico. Hank,  um vira-lata, como combinamos? 
       Ericson nada disse, imaginando por que a discusso passava para este campo. Ele sabia que Fowler devia ter um objetivo para interromper este assunto num momento 
crucial. 
       - Muito esperto, mas somente um vira-lata - disse Fowler. 
       - Foi isso que o Presidente pediu. Sem pedigree. Uma espcie de cruzamento de pastor alemo com um... no sei; talvez um colhe. Passeei com ele ontem e isso 
fez me sentir melhor. Vou ver como ele est agora. 
       Fowler saiu. Ericson, ainda atnito, estava alegre porque o psiclogo sara do sentimento de culpa e da depresso aps a coletiva de imprensa do oftalmologista. 
Se o cachorro ajudara Hank, ento seria bom ter um co por perto. Talvez pudesse auxiliar um semipresidente tambm. 
       - Aps sua nota ser entregue ao Congresso - disse Smitty de repente - eu marco um passeio com o senhor e Hank, seguidos pela imprensa. Seja bonzinho na primeira 
sesso de treinamento. Quero fotocpias dessas cartas dizendo que "no existe incapacidade alguma". Ser histrico e os jornais estaro procurando matria ilustrada. 
       Lucas Cartwright aparteou: 
       - Preciso descrever a expresso do seu rosto, Senador Apple, para o Presidente: o senhor d a impresso de estar pensando: "aqui estamos, no meio de uma crise 
constitucional, no prprio centro do poder, conhecido como Salo Oval, falando em passear com um cachorro". 
       - Ah, que nada - exclamou o Senador. - No Senado, em alguns momentos muito cruciais, a gente fica sem fazer droga nenhuma; alivia a tenso. 

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       - Esto comemorando alguma coisa - Ericson ouvia certa confuso ao longe. Foi at as portas envidraadas e abriu-as; todos escutaram, ento, rudos de gritos 
e estalos, como fogos de artifcio. Smitty foi at o vestbulo a fim de verificar junto aos telgrafos, e voltou imediatamente para dizer: 
       - As cartas do Gabinete foram entregues. Agora vou remeter estas - Ericson fechou as portas, isolando o som, e deixou escapar certa amargura: 
       - O poder foi transferido. Vocs j no ouviro ordens de mim. S pedidos. 
       - Esta  uma hora triste - falou Lucas. 
       -  uma hora histrica - disse o Senador, indmito. - Vamos refletir mais sobre o assunto quando o poder fluir de volta, reparando o mal praticado neste dia. 
       - Tenho uma tarefa a cumprir - disse Cartwright, saindo velozmente. Ericson, sentindo-se a um s tempo esgotado e zangado, sabia do que se tratava: como Secretrio 
de Defesa, Lucas tinha de tomar providncias para que o homem com a pasta preta se transferisse para o Presidente Interino. Deixar Nichols viver com a responsabilidade 
de ordenar um ataque nuclear se os msseis aparecerem, pensou o Presidente, no  uma das tarefas mais alegres do Presidente. O encargo de Cartwright era bem simples: 
mandar o coronel e o sargento, agora na Sala de Reunies, atravessarem a rua e tomarem posio na sute do Vice-Presidente, no velho Edifcio dos Departamentos Executivos. 
Seria dali que Nichols exerceria o poder at Ericson ser legalmente compelido a desocupar a Casa Branca. 
       O Presidente nominal discutiu os termos da emenda com o Senador durante dez minutos, para conhecer suas prerrogativas, quando escutou uma pancada suave na 
porta da sute normalmente protegida por Melinda e Hank, porm desocupada no momento. 
       - Aqui est o Diretor Hewitt - disse Harry Bok, apresentando o chefe do Servio Secreto. - Entre, chefe. 
       Ericson s falara com Hewitt uma vez, numa reunio anterior; todos os contatos do Servio Secreto vinham atravs do chefe da segurana; antes Bok, agora Furmak. 
Ele se lembrava de um sujeito de gestos mansos, calmo e respeitoso, que se engajara na fora nos dias de Roosevelt. 
       - Achei que seria uma demonstrao de respeito, senhor - iniciou o diretor, formal, porm sincero - bem como da afeio que todos ns nutrimos pelo senhor, 
se eu mesmo viesse cumprir essa difcil misso. 
       Ericson gostou do senso de previso do Senador Apple. 

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       - Espero que cumpra com o seu dever, Diretor Hewitt. - Ele desejou poder lembrar-se do primeiro nome do homem. 
       - Meu dever  lacrar os arquivos - respondeu a voz gentil. 
       - O Presidente Interino ordenou que aplicssemos um lacre em cada diviso de arquivo, cofre, gaveta de mesa, e outras instalaes aqui na Casa Branca. Quando 
o Congresso resolver a questo, senhor - evidentemente ele j soubera da resposta de Ericson - vai encontrar tudo exatamente conforme deixou. - Isto , Ericson acrescentou 
para si mesmo, se o semipresidente ganhar; se Bannerman e Nichols vencerem, esses arquivos sero rebuscados a fim de encontrarem provas que justifiquem cada acusao 
de fraude ou incapacidade. 
       Ericson ouviu o agente do Servio Secreto aproximar-se da mesa Herbert Hoover: 
       - Agora vem a parte que talvez considere ofensiva, Senhor Presidente: vou ter de pr este lacre plstico nas gavetas da sua mesa tambm. Eu. 
       - No to depressa! - Ericson levantou um dedo, foi para trs da mesa e abriu a gaveta dupla. - Pode adicionar ao seu relatrio que o Presidente fez uma tentativa 
de esconder seu vcio secreto. - Tirou uma sacola plstica contendo balas puxa-puxa, que lhe fora presenteada pelos partidrios de Atlantic City, Nova Jersey, e 
bateu com ela no topo da mesa. - Pode morder uma, para experimentar, mas cuidado com os dentes. 
       - Esta  uma coisa terrvel de se fazer, Senhor Presidente. Espero que saiba como me sinto. - O diretor estava genuinamente envergonhado. Mais doloroso, no 
entender de Ericson, era a forma pela qual o homem se preocupava com o que aquela confuso estava provocando na instituio em que servia. 
       - Entendo perfeitamente. Lembre-se do que voc prometeu ao Harry Bok h alguns meses atrs. 
       - No vou esquecer, nem o meu sucessor. - O diretor passou pela cadeira de rodas de Harry e lhe murmurou alguma coisa, a respeito de falsificao. Harry Bok 
respondeu: 
       - Obrigado, Rufus. 
       - Ah!,  Rufus - enfim Ericson tinha um primeiro nome para usar fique tranqilo quanto a isto.  uma faca de dois gumes, e fico satisfeito em saber que ningum 
ficar remexendo nos arquivos da minha Administrao durante as prximas trs semanas. 
       Quando o diretor do Servio Secreto saiu, Ericson escutou seus agentes j se deslocando pelas salas adjacentes  sua. Pensou em Melinda, que andava pelas 
redondezas com uma pasta, ou coisa semelhante, contendo as fitas gravadas - ele esperava que ela no 

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as levasse para seu apartamento, que tambm poderia ser lacrado. Afastou isso da mente: ela era de confiana. 
       - Senador, sejam quais forem seus honorrios exorbitante pelos conselhos de hoje - disse Ericson ao homem, com fervor - valeu a pena. 
       O Senador Apple deu uma risada alta e comeou a fazer reminiscncias dos seus tempos, dissertando sobre a emenda que causava tanto dissabor. Enquanto o velho 
divagava de uma forma que Ericson achou til a uma calma reflexo, uma viso interna repentinamente invadiu a mente do Presidente. Ele quase estalou os dedos: "Eureca!" 
era o que geralmente se gritava quando um mistrio aparente se tornava imediatamente claro. 
       Hank Lower e o co. A razo pela qual o psiclogo tocara no assunto do co-guia no era nem um pouco irrelevante. Quando o Senador mencionou as palavras "lacrar 
os arquivos" e Melinda saiu da sala como um furaco, Hank deve ter pensado nos seus prprios arquivos. Ericson sabia que Fowler fazia anotaes copiosas de suas 
conversas, na sua qualidade de psiquiatra. Ele podia imaginar mesmo "troo", como Hennessy chamava, que atingiu o psiclogo diante da idia daquelas cassetes serem 
tiradas dele. Aquelas anotaes eram bem de um psiquiatra: intensamente pessoais, particulares e ntimas. Ericson ps-se no lugar de Fowler: onde ele poderia escond-las? 
Hank no poderia lev-las para casa porque estava morando no segundo andar da Casa Branca. Primeiro ele comeou a falar no cachorro novo, subiu para sua sala, e 
caminhou para os canis, onde - se Ericson estava certo, e ele sabia que sim - escondeu as cassetes numa casa de cachorro. O Presidente podia visualizar o pequeno 
psiclogo avisando ao jardineiro encarregado do canil para no chegar perto do co-guia do Presidente e depois se agachando com seu pacote de fitas para escond-lo. 
       Que pessoa leal, de recursos, agradvel era Hank Fowler, pensou o Presidente. O exemplo mostrou-lhe alguma coisa: se um psiclogo cego podia reagir to imaginativa 
e corajosamente a uma crise, ento um Presidente cego tambm podia. 
       Lucas regressou, resmungando a respeito de como a Casa Branca estava sendo revistada: 
       - Como Hennessy costumava dizer, pensei ter ouvido o latido de um elemento presidencial. - Rapidamente, Ericson perguntou-lhe: 
       - Quem vai pr em votao nossa causa na Cmara? Tinha confiado em Andy Frangipani para isso, mas agora ele est fora. 
       - Farei discretas perguntas a respeito de um lder de bancada Senhor Presidente - disse Cartwright. - Por falar nisso, apesar de confessar que estou furioso 
com o limo Frangipani por causa do seu desprezvel voto de hoje, devo dizer-lhe que ele me deu uma

Pg 493
mensagem no saguo logo aps. Pediu para dizer-lhe que no o odiasse; que era melhor amigo do que voc pensava, e para no fazer nada drstico. 
       - Voc vai falar com ele em breve, Lucas? 
       - Se eu resolver permanecer no Gabinete - respondeu o Secretrio de Defesa - ou se no for expulso, calculo que Andy e eu nos encontraremos de vez em quando. 
       Ericson foi positivo: 
       - Fique. Crie razes. Nichols no pode exoner-lo; ningum pode exonerar ningum nesta situao. - Teve um pensamento, mais uma suspeita: - E deixe um canal 
aberto para Frangipani. Ele tem fora na Cmara e  chapinha do Presidente. Talvez no seja o sacana que pensamos. 

2. 
       - O desjejum aqui  uma festa - disse Jonathan Trumbull mordendo um bolinho ingls com manteiga, torrado. Ericson lembrou- se da maneira em que a mesa era 
apresentada: os talheres de prata brilhavam, o servio de linho individual contrastava com a mesa de nogueira escura do Gabinete Grant, enquanto garons de luvas 
brancas pairavam perto dos que faziam as refeies reforadas de domingo na sala de jantar familiar da Casa Branca, ao lado do muito mais amplo Salo de Jantar do 
Estado. 
       Ericson queria que seus assessores mais chegados, seu crculo particular, recebessem o tratamento completo de Domingo-na-Casa-Branca, tanto como prmio pela 
lealdade como incentivo para esforos futuros. Melinda parecia um pouco rabugenta, mas Marilee, a primeira mulher secretria de imprensa da Presidncia, estava especialmente 
animada; talvez por isso Melinda estivesse rabugenta. Lucas Cartwright parecia mais feliz como membro visitante do Gabinete do que como assessor; agora ele era mais 
um "por dentro" de fora do que um "por fora" de dentro. Smitty estava mais calmo, agora que tinha o cargo de chefe da Casa Civil, o qual Ericson julgava que ele 
no saberia desempenhar, porm a maior parte da sua responsabilidade governamental fora assumida pelo chefe da Casa Civil do Presidente Interino no Edifcio de Departamentos 
Executivos. Harry Bok e Hank Fowler pareciam contentes porque as ferozes crticas que lhes tinham sido feitas pela imprensa pouco duraram; toda a ateno da imprensa 
dividia-se agora entre o prprio Presidente e o novo Presidente Interino, Arnold Nichols. O Senador Apple achava-se ausente: o mais novo membro dos "defensores da 
capacidade" como os chamara um jornalista amigvel, aps instado por 

Pg 494 
Marilee, estava no escritrio preparando-se para uma apresentao, ao meio-dia, no "Encontro com a imprensa". 
       - Temos de sair da defensiva - desabafou Ericson. - Estou cansado de ser atingido por alguma coisa nova todas as manhs. No podemos devolver algumas dessas 
pedradas? 
       - O Senador Apple est com as anotaes com a letra de Buffie - avisou Jonathan - as quais vai mostrar hoje na televiso. Vai exigir uma investigao do que 
ele prometeu chamar de "a mais arrogante trama de um grupo endinheirado para adquirir altos postos na histria desta nao." 
       - Ele  bom para isso - disse Cartwright. - Tem o tipo de boca que se presta a frases que enchem a boca. 
       - timo - admitiu Ericson - mas ser momentneo. No foi um suborno genuno da parte de Bannerman, e o negcio no vai colar. Mas podemos usar os argumentos 
para confundir as acusaes contra Hennessy. - Mencionar Hennessy era deprimente e Ericson se apressou: - Necessitamos de um vilo e Nichols no  suficientemente 
vilo. Teremos de mudar o rumo da questo. No  um Presidente normal contra um Presidente incapacitado - devia ser um Presidente legal contra Bannerman e seus representantes. 
       - Robs fica melhor - aparteou Smitty. 
       - Bannermanismo - sugeriu Jonathan - o novo termo para usurpao ilegal. - Ericson gostou dessa. Pelo menos o garoto estava tentando. 
       - Melinda, talvez o seu amigo possa levantar algumas outras reunies assistidas por Nichols. Os conspiradores, esse tipo de coisa. Algum deputado poder tachar 
a manobra como uma impropriedade. - Ele acentuou "seu amigo". - Os outros, Ericson sabia, pensariam que ele se referia ao procurador-Geral. Ericson falava do "Senhor 
Bom-Amigo", o agente de Bannerman. No sentiu necessidade de informar aos outros de sua existncia. 
       - No gosto do modo pelo qual os usurpadores mantm controle da prxima manobra - continuou Ericson, usando "usurpadores" como parte natural da conversa. 
- Eles tm quatro dias para responder  minha declarao de ausncia de incapacidade. O prazo final  no fim da tarde de segunda-feira, e acho que vo esperar at 
o ltimo minuto. Quais as nossas armas de contra-ataque, Smitty? Como poderemos roubar-lhe a notcia na segunda-feira  noite em todos os noticirios de TV? Alguma 
coisa pictrica, que no seja passear com o cachorro. 
       - Grande vira-lata - disse Fowler, dando a Smitty uma oportunidade de pensar - todo mundo o ama. 

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       - O senhor podia aparecer de repente na sala de reunies com a imprensa na tarde de segunda-feira - acrescentou Marilee, sugerindo o bvio. - Diga alguma 
coisa que obrigue as pessoas a escreverem a seus congressistas dizendo que estes so os vinte um dias mais cruciais da histria. 
       - Vinte e Um Dias que Abalaram a Presidncia - disse Jonathan, exagerando, pensou Ericson, mas, se esforando. 
       - Posso fazer isso - afirmou Ericson - e farei. Arranje tudo para as cinco horas .e dominaremos os noticirios da noite e da manh seguinte, nos jornais. 
Mais alguma coisa que algum possa fazer? 
       Silncio. Tpico, pensou o Presidente; sempre  fcil imaginar meios de gerar notcias usando o prprio Presidente. O difcil era usar outros. 
       - Tudo isso  extremamente importante - falou Lucas - porm o nome do jogo  Um Tero Mais Um. Smitty, voc j est indubitavelmente imaginando formas de 
desfilar membros da Cmara individualmente, aqui, com o intuito de falarem com o Presidente e verem com seus prprios olhos que ele no est incapacitado. 
       - Sero duas dzias por dia - disse Hank, bom de clculos. - Vinte e quatro homens vezes vinte e um dias d mais ou menos 435, nmeros de membros da Cmara. 
       - Jonathan, prepare-me uma boa fala de dez minutos - ordenou Ericson. - Verifique junto ao senador. Smitty, comece a comboiar o pessoal aqui pra dentro toda 
manh, s oito horas. 
       - D-lhes um desjejum destes - disse Jonathan, de boca cheia. 
       - E convide as mulheres deles - acrescentou Melinda. 
       - Boa idia - disse Lucas. - Mandarei a Senhora Cartwright arrebanhar algumas mulheres-de-deputados-contra-o-bannermanismo. 
       - Esquea o Senado - avisou Ericson, com o pensamento adiante. - L provavelmente perderemos e no quero desperdiar nossos recursos. Concentrem-se na Cmara 
e, pelo amor de Deus, ningum ataque o Presidente Frelingheusen, no importa o que ele faa. - Levantou-se. - Todo mundo assista ao Senador Apple ao meio-dia e ligue 
para ele depois, a fim de dizer-lhe que esteve formidvel. Smitty, traga os colegas advogados dele do escritrio para uma recepo esta noite, se quiser. Use este 
local para um adeus em propores. 
       Saiu, usando a longa bengala casualmente, em locais j muito conhecidos. Gostou quando ouviu. Harry Bok dizer aos outros: 
       - O Chefe est de novo com o diabo no corpo. 

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       Ericson sentia-se emocionado porque estava na iminncia de se arriscar. Dois dias antes, Marilee dissera-lhe que seu namorado na televiso lhe falara sobre 
uma estranha sondagem: uma fonte profissional russa, Gregor qualquer coisa, estava ansioso para transmitir uma mensagem ao Presidente, e queria que algum falasse 
com ele. Marilee afastara a idia e mencionara o caso s superficialmente ao Presidente. Ericson captou tudo rapidamente e disse-lhe que arranjasse uma forma de 
o russo fazer uma excurso turstica pela Casa Branca no domingo de manh, com o resto dos visitantes. Melinda ficaria no salo das porcelanas, no trreo, perto 
da exposio de pratos usados na administrao de Rutherford B. Hayes - Ericson gostava desse toque: usar um Presidente que roubou uma eleio - e traria Gregor 
para falar com algum annimo, porm "chegado ao Presidente". 
       Aps um dia de reflexes, Ericson resolveu que o algum deveria ser ele. Se espalhassem a notcia de que Lucas Cartwright, Secretrio de Defesa, fazia contatos 
com um homem do KGB, especialmente com relao  Fraude de Yalta - at ele mesmo usava essa expresso agora, pensou o Presidente - ele perderia o emprego. Smitty 
provavelmente ia preferir no faz-lo de forma alguma e ainda dizer ao Presidente que nenhuma outra pessoa tampouco deveria, pois isso poderia levar a renncias, 
relatrios, etc. Ningum mais nas redondezas era da pesada - Hank, Harry, Marilee, nem Jonathan - e o Senador no se encaixava nos moldes conspiratrios. Melinda 
poderia falar com Gregor, contudo os russos provavelmente pensavam que ela era apenas a secretria do Presidente. Era numa ocasio destas que Hennessy teria vindo 
a calhar. 
       Ericson sabia que falar com Gregor pessoalmente era audacioso e possivelmente tolo, entretanto no se apresentavam alternativas no momento. Se o homem tinha 
uma mensagem dos bastidores do Primeiro-Ministro sovitico, o Presidente dos Estados Unidos devia receb-la. Ericson disse a si mesmo que no era a emoo do mistrio, 
das comunicaes em mais alto nvel, nem a identificao que sentia entre o destino de Nilcolayev e o seu prprio que o obrigavam a lidar diretamente com o agente 
neste caso. A posio do lder sovitico era um espao vazio nas estimativas atuais da Inteligncia norte-americana, e Ericson - mesmo sem os poderes - ainda sentia 
o peso de alguns deveres do cargo de Presidente. 
       No segundo andar da Casa Branca, na Sala de Estar Lincoln, o Presidente recebeu o agente sovitico. Furmark revistou-o - Ericson ouviu o passar de mos rpido 
e perito - e Melinda introduziu-o na sala, pequena para os trs, no entanto, Ericson queria a presena de Melinda para fazer anotaes e ficar capacitada a prosseguir 
com o agente numa futura reunio, se necessria. 

Pg 497
       - Eu no esperava tratar em nvel to elevado - disse o nervoso russo. - A Senhorita McPhee s me disse que eu falaria com algum chegado ao Presidente. 
       - Isto no faz parte da excurso normal pela Casa Branca - disse animadamente Ericson. - Para dizer a verdade, normalmente no existe excurso na manh de 
domingo. Tivemos de juntar cento e poucos visitantes para fazer com que o senhor viesse at aqui confidencialmente. 
       O russo foi direto ao assunto: 
       - Trago uma mensagem confidencial do Primeiro-Ministro Nikolayev. 
       - Como vai o Vasily? - Ericson usou a tcnica de Roosevelt, a da intimidade para ver se o agente era bona fide. 
       - Jamais o conheci disse Gregor. A mensagem me veio atravs de um intermedirio que chegou de Moscou h dois dias. No sei como  a aparncia nem o temperamento 
do Premier. O senhor est compreensivelmente interessado em alguma confirmao que revele a autenticidade da mensagem. No tenho uma, sequer. 
       - Sei... - disse Ericson, levantando a sobrancelha. 
       - S posso dizer uma coisa a meu respeito que as suas agncias de Inteligncia j lhe transmitiram, sem dvida: que sou a fonte da informao que saiu na 
coluna do Senhor Zophar na semana passada. 
       Ericson fez sinal com a cabea como se isso no fosse novidade para ele. O homem certamente era do KGB, pela forma como superestimava a CIA e o FBI: todos 
esses sujeitos viviam convencidos de que o outro lado sabia mais do que na realidade sabia. Gregor provavelmente pensava que vinha sendo seguido a maior parte do 
tempo. Se pelo menos ele olhasse em volta, descobriria que no havia pessoa alguma por ali, contudo, isso apenas o faria suspeitar de que era vtima de mais tcnicas 
sofisticadas de vigilncia. Ericson fez a pergunta bvia. 
       - Ento para que faco o senhor opera? 
       - Sou um instrumento, Senhor Presidente, usado por qualquer grupo, ou faco, como diz, que esteja no controle. 
       Ericson nada disse, o que descobriu era um til recurso ao lidar com russos, que no gostavam de silncios. 
       - No devo lealdade - explicou Gregor - apenas fao contatos. 'Considera-se que uma pessoa assim  til a qualquer grupo que se torne dominante, motivo pelo 
qual tenho feito o que fao h tanto tempo. 
       - Qual  a mensagem exata - perguntou lentamente Ericson, sinal para que Melinda anotasse tudo ao p da letra - a que o 

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senhor se referiu como trazendo no-oficialmente da liderana sovitica? 
       - Primeiro - e no compreendo exatamente o significado disto - o Primeiro-Ministro Nikolayev aconselha que o senhor no transmita o contedo desta mensagem 
aos fuzileiros. 
       Ericson assentiu com a cabea, no se permitindo sorrir - o agente, sem querer, apresentara suas credenciais. 
       - Segundo: ele deseja que o senhor saiba do seu regresso ao seu apartamento no Kremlin aps uma visita de trs semanas ao seu Tio Flix - Ericson entendeu 
a referncia: Nikolayev contara-lhe que a Priso de Lubyanka ficava na Praa Bzerzhinski, batizada assim por causa de "Flix de Ferro" Dzerzhinski, da polcia secreta 
sovitica. 
       - Sei... 
       - Ele diz que no consegue fazer com que certas pessoas, que o Primeiro-Ministro chama de "meus Bannermans", aceitem misses fora de Moscou, em estaes de 
energia eltrica. 
       Ericson imaginou Bannerman dirigindo a Jurisdio do Vale do Tennessee. Por que os soviticos resolviam mandar seus homens-fortes em desgraa dirigir estaes 
de fora? Seria uma ironia dostoievskiana dar o governo de um poder natural a homens incapazes de lidar com o poder poltico? Gregor no era a pessoa indicada para 
discutir isto. A mensagem de Nikolayev era a de que o ttulo de Primeiro-Ministro no era importante: ele ainda no estava no controle. 
       - O Primeiro-Ministro Nikolayev est pronto a aceitar seu convite para visitar os Estados Unidos - prosseguiu Gregor - se o senhor achar que essa visita lhe 
seria de auxlio pessoal - Ericson podia ouvir a voz de Vasily dizendo: "E ento voc fica me devendo uma, meu amigo." Para Ericson, a imagem mental correspondia 
a dois exaustos lutadores pesos-pesados, no dcimo quinto assalto, agarrando-se um ao outro num clinch que evitava o colapso dos dois. 
       - E este  o fim da mensagem. - O agente russo parecia aliviado. 
       - Quando recebeu a mensagem? Tente ser exato. 
       - O homem chegou aqui na sexta-feira  noite; deve ter sado de Moscou na Aeroflot SST na sexta-feira cedinho. Provavelmente recebeu a mensagem do Primeiro-Ministro 
na quinta-feira  noite, que seria o fim da tarde de quinta-feira aqui em Washington. 
       Fora antes da reunio de Gabinete na sexta-feira, que declarou Ericson incapacitado. Se Vasily tivesse usado a linha especial, pelo menos o voto de Curtice 
poderia ter sido contrrio. Talvez sim, talvez no, pensou Ericson, recusando-se a repisar o jogo do "se pelo menos".

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Agora a questo era: a mensagem seria ainda vlida? Deveria Ericson responder, ou deveria a resposta vir de forma a devolver o assunto aos canais competentes, de 
onde iria para o Presidente Interino? 
       - Leve este cavalheiro ao Salo de Tratado para que tome um caf - disse ele  Melinda. - Quero estudar a possibilidade de mandar uma mensagem de volta. 
       Quando saram, ele comeou a analisar a charada. A resposta bvia demais era que os russos pensavam que seria de seu interesse ajudar Ericson a se manter 
no poder, presumivelmente porque ele seria, ento, um Presidente fraco, grato a Nikolayev pelo auxlio. No entanto, Ericson sabia que isso seria m interpretao 
de si mesmo, e que Vasily Nikolayev no cairia nessa - o que significava que Nikolayev estava do lado da faco dominante do Kremlin que pensava em usar o fraco 
Nikolayev para ajudar o fraco Ericson. A anlise de Ericson criou outras hipteses: aquilo significava que Nikolayev se deixava usar por uma panelinha que ele no 
controlava, e que ele precisava de Ericson - com sua aparente fraqueza explorvel - para permanecer por cima. Por isso ele estava se oferecendo para ajudar, calculando 
que, se Ericson pudesse se agentar por mais trs anos de mandato, isso lhe daria tempo de consolidar o seu prprio poder. 
       Ericson parou para se perguntar se estava lidando com a realidade ou com alguma idia de um escritor de cinema para tramas internacionais. Estaria esta fertilizao 
recproca de tramas - a luta interna do Kremlin afetando a luta da Casa Branca, e vice-versa - relacionada a acordos da vida real entre naes? O inexperiente Presidente 
no podia saber; esperava que sim, recordando-se da "manobra Trollope" praticada por Kennedy contra Khrushchev na crise de msseis cubanos, quando ignoraram uma 
mensagem agressiva e responderam a uma outra anterior. Certamente o assassinato de Kolkov era realidade, como sua prpria cegueira. Essas ocorrncias reais encobriam 
complexos motivos de ambio pelo poder. Ericson ficou feliz porque podia analis-los to desapaixonadamente - curiosamente, quase inumano, no sentia dio pessoal 
pelas potncias do Extremo-Oriente que haviam ordenado a emboscada - se  que o fizeram - ou por Nikolayev, o homem pessoalmente responsvel pela sua cegueira, caso 
a opinio da minoria na rea da Inteligncia estivesse certa. Ele explorou mais fundo: 
       Pergunta: J que a Unio Sovitica depreendeu ser do interesse sovitico manter Ericson no poder, viria isso contra o interesse americano? Ericson, em concepo 
maquiavlica, no teve problemas neste caso: a bvia premissa sovitica, a de que Ericson seria um Presidente sem fora graas a Nikolayev, era 100 por cento errada 

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e Nikolayev sabia disso. No entanto, Nikolayev seria dependente, para ter poder prprio, da contnua falsa impresso da faco controladora do Kremlin, de que Ericson 
dependia dele; impresso essa falsa que Ericson poderia explorar. Este jogo de xadrez tridimensional permitia a Ericson chegar  feliz concluso de que era do interesse 
da Amrica do Norte que ele recobrasse o poder presidencial. Pelo menos no que dizia respeito s relaes com os soviticos. 
       Prxima pergunta: J que as circunstncias na Casa Branca haviam mudado desde que a mensagem de bastidores de Nikolayev fora mandado por intermdio de Gregor, 
e Ericson perdera o poder, seria de auxilio para Ericson se Nikolayev aceitasse agora formalmente o velho convite? Ou tal aceitao favoreceria Nichols, dando a 
impresso de que os soviticos haviam esperado para responder at um novo Presidente Interino tomar o cargo? Exasperado, Ericson sacudiu a cabea. Este era o tipo 
do problema que chefes de estado enfrentavam nos velhos tempos dos barcos a vela, quando levava meses para se receberem notcias de uma declarao de guerra ou um 
rompimento de paz. Ericson desejou poder escrever as seqncias cronolgicas e as opes numa longa folha de papel. 
       Quando parou de forar uma resposta na mente, ela apareceu: o mago da questo era convencer a Cmara de Deputados de que o impacto da suposta gafe de Ericson 
- de ter convidado precipitadamente um Primeiro-Ministro sovitico sem saber que ele fora deposto - no fora gafe alguma. A forma de provar isso era insistir em 
que as informaes transmitidas a respeito da destituio de Nikolayev eram totalmente inverdicas. Zophar afirmaria - e poderia ser verdade - que Nikolayev fora 
destitudo e estava agora de volta temporariamente. Porm, tanto Ericson quanto Nikolayev poderiam divulgar que a histria fora mentira desde o incio. No houvera 
destituio de Nikolayev, nem nenhuma gafe de Ericson. 
       A estratgia de Ericson, ento, se assemelharia  manobra Trollope de Kennedy: fazer Nikolayev atender ao convite de Ericson da ltima semana, como se nada 
houvesse acontecido a qualquer dos dois. Daria a impresso de que Nikolayev recebera um convite, estudara-o durante uma semana mais ou menos, e, no curso das negociaes 
diplomticas, aceitara. Toda a fofoca dos colunistas especuladores e dos agentes russos que forneciam informaes, nesse nterim, poderia ser desfeita como fumaa. 
Pareceria que Ericson no cometera um erro, e o Gabinete que o expulsou daria a impresso de ter tomado sua deciso dentro de uma atmosfera envenenada de falsa histeria 
nas relaes exteriores. 
       Na Sala de Estar Lincoln, Ericson balanou a cabea em aprovao ao seu processo de anlise mental. Descuidadamente, apanhou o molde de gesso da mo direita 
de Lincoln que ficava no canto da mesa.

Pg 501
A mo, agarrando o cabo de uma vassoura serrada, tinha mais ou menos o tamanho da sua. Ericson sopesou a pea, analisando um problema que Presidente algum jamais 
tivera: j que no possua mais os poderes de Presidente, nada poderia fazer - mesmo no oficialmente - junto a uma potncia estrangeira. Seria corretamente acusado 
de violar o Ato Logan, que probe cidados norte- americanos de tratar com outras naes como se autorizados pelo governo dos Estados Unidos. 
       Receber esse agente sovitico, agora sentado no Salo de Tratados com Melinda era uma situao delicada: se transpirasse a informao de que Ericson trocara 
mensagem com o Primeiro-Ministro sovitico durante o perodo de vinte e um dias durante os quais o Congresso "decidia a respeito", o voto final seria certamente 
contra ele. Ericson tinha de rejeitar a proposta sovitica de modo a continuar encorajando Nikolayev a confirmar sua vontade de atender ao convite de Ericson - no 
de Nichols. 
       Ele mandou chamar Melinda e Gregor. 
       - Espero que os dois tenham lpis - principiou. - Primeiro item: no vou responder a qualquer mensagem particular ou pblica at ficar em posio constitucional 
de faz-lo. - Comeou, ento, a responder: - Segundo: considero censurvel para qualquer um, possivelmente representando potncia estrangeira, desorientar deliberadamente, 
mude para "iludir", iludir deliberadamente um jornalista norte-americano. Seu manejo desumano de Samuel Zophar neste assunto  repugnante. - Isso deveria dar a Nilcolayev 
o sinal para se manter na argumentao de jamais-aconteceu e mostrar que o Presidente norte-americano convidara um lder sovitico que estava no poder e no na cadeia, 
contrrio ao que fora divulgado. Essa manobra prejudicaria seriamente a reputao de Zophar, mas ele merecia; tambm destruiria Gregor, o agente, que no o merecia, 
porm ele tinha de correr tais riscos na funo que escolhera. 
       "Finalmente - disse Ericson - tenciono relatar esse contato ao Presidente Interino e ao Secretrio de Estado por escrito, para que eles tomem qualquer providncia 
que seu poder lhes concede - Ericson levantou-se e estendeu a mo ao pobre sujeito: - Obrigado e bom dia. 
       Furmark acompanhou Gregor  sada e Ericson ditou um memorando rpido a Melinda, dirigido a Nichols e Curtice: como registro, a fim de proteg-lo contra qualquer 
acusao de usar poderes presidenciais que no mais estavam em suas mos, mantendo-se fiel a esta iniciativa, ele usou as exatas palavras que transmitira a Gregor: 
       - ... como registrado por taquigrafia pela minha secretria, Melinda McPhee, que esteve presente durante toda a reunio. 

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       - Mandarei isto s casas deles imediatamente - disse Melinda quando ele parou o ditado. 
       - No tem pressa - falou Ericson. - Ponha isso no malote interdepartamental. Ponha uma daquelas pequenas etiquetas vermelhas para mostrar a alta prioridade, 
e assim chegaro ao destino em poucos dias, O correio normal ser mas lento? 
       - Nada  mais lento do que um malote interdepartamental marcando "alta prioridade" - avisou Melinda francamente. 
       Ele pegou o telefone e mandou chamar Smitty, que ainda estava no salo dos desjejum, l embaixo, com Jonathan e Marilee. 
       - Acabo de ser abordado - comeou Ericson - por um sujeito delicado que proclama ser amigo de Nikolayev e diz trazer uma mensagem dele. Rejeitei a manobra 
e estou mandando um memorando para o Presidente Interino e o Secretrio de Estado a fim de mostrar que no estou metendo o nariz em terreno proibido. No vou remeter 
cpia desse memorando a pessoa alguma alm de voc, Smitty, porque  meu chefe da Casa Civil e no guardo segredos de voc. Alm disso, esse agente disse que foi 
a fonte de informao da coluna de Zophar. Essa coluna  um motungo, e Nikolayev est na sela, como sempre esteve desde a emboscada. 
       Ericson escutou Smitty fazer os rudos apropriados e depois foi ao mago do telefonema: 
       - E tambm, como este memorando fica mal para a ingenuidade de Zophar, vocs talvez queiram sentar-se e discutir isso como velhos amigos. Sua primeira reao 
instintiva ser a de proteger-se com alguma histria invocando que o Kremlin mudou o poder duas vezes nas ltimas semanas, mas isso  tolice. Alm disso, todo mundo 
poder chegar  fonte secreta de Zophar agora. A fonte, um russo chamado Gregor no-sei-o-qu, admitir que mentiu para Zophar. 
       - Tem razo querendo ajudar Sam neste caso, Senhor Presidente - disse Smitty rispidamente. - Mostra que no  vingativo. Depois, ele ficar lhe devendo muita 
coisa, e, se ele puder ser convencido... 
       - Voc e ele bolem uma soluo para livrar a cara dele - disse Ericson magnanimamente; e no resistiu a acrescentar: - mas nada que nos obrigue a mentir. 
       - Bem, talvez a gente tenha de enfeitar um pouquinho os fatos - aconselhou Smitty - mas por uma tremenda boa causa. 
       Ericson descansou o fone e disse: 
       - O homem nasceu para os problemas, assim como as centelhas voam para o alto. 

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       - Aleluia!, ou qualquer outra coisa que se deva dizer - exclamou Melinda. Ericson estava contente porque Melinda estivera presente durante toda a manobra 
de Gregor; no apenas por ela ser de confiana, como tambm por possuir o senso de apreciar certa conspirao criativa no mais alto nvel. - O senhor est muito 
mais astuto agora do que quando era Presidente de verdade - comentou ela. 
       Ele abaixou a cabea, concordando. 
       - Agora vejo mais claro o jogo de poderes. Muita gente acha que poder  a manipulao de pessoas e a conformao de eventos. No  assim. Pessoas e eventos, 
tempo e oportunidade, todos entram em confluncia a fim de manipular e limitar um homem supostamente no poder. O golpe  desviar-se dos impactos para que no o atinjam 
mas batam contra qualquer coisa que se considere obstculo. 
       - Quer que eu anote isso, ou o qu? 
       Ericson riu solto, ficou surpreso ao ver que era fcil rir de novo e disse: 
       - No!... Parece profundo, mas sempre fica nojento escrito. Vou discutir o assunto com o Jonathan um dia desses, e ele recolher o material para o seu livro. 
Agora vamos despachar os telegramas convidando os deputados para o caf amanh de manh - ele lhe lembrou. - Essa foi a melhor idia do desjejum, mas Smitty vai 
esquecer ou no saber onde encontrar a lista. - Ele teve outro pensamento: - Se eu pudesse enxergar, o que mais gostaria de ver  a expresso na cara de Zophar quando 
receber a notcia de que sua fonte o entregou. 
       - A coisa no  brincadeira - comentou Melinda. 
       - Voc foi feita para ela, como eu - replicou ele. - Por falar nisso, se por acaso voc tiver de abandonar o navio, onde est a maleta? 
       - Num cofre do Aeroporto Nacional. Remeti a chave para minha tia, em Providence; ela guarda todas as minhas lembranas da Casa Branca. 
       Ericson pensou nas suas mais profundas dvidas pessoais e suas confisses, minuciosamente embaladas em caixas de ditafone, guardadas numa valise por cinqenta 
centavos por semana num depsito pblico. 
       - No vai esquecer de pagar outro meio dlar quando o prazo expirar? 
       - Jamais esqueo de alguma coisa - ela retrucou friamente. - Sou um computador ambulante. 

Pg 504 
       Ela se arriscava demais pelo bem dele. Como poderia dizer-lhe que gostava dela sem a humilhar? 
       - Quando estiver de saco cheio de mim, Melinda, lembre-se de quanto eu preciso de voc. 
       - Sempre me lembro. 
       Ele no abordara direito o assunto, disse para si mesmo. Um dia, com tudo isto passado, ele teria de bolar um jeito de consolidar com Melinda McPhee. 

3. 
       
       Ericson passou sua quinta manh contando uma histria inspirada, levantadora-de-moral, aos deputados e rebatendo suas perguntas: - Por que mentiu sobre a 
primeira cegueira? Por que no revelou seu estado ao povo antes das eleies? Por que corroborou a Fraude de Yalta? Por que no contou aos mdicos o histrico de 
sua cegueira aps a emboscada? - Nenhum dos deputados perguntou a Ericson acerca do "suborno" de Hennessy porque a maioria deles compreendia muito bem pagamentos 
por servios polticos. Ericson sentiu que sua fala estava bem dirigida a este ponto, e era especialmente eficaz junto s esposas. 
       Saiu para dar seu passeio de treinamento com o cachorro e Hank Fowler em torno da Ellipse, aps o desjejum com os deputados. A sesso de treinamento era um 
acontecimento dirio pelo qual j ansiava, quando comeou a perceber que realmente era o co que o estava treinando. Aps o passeio, o Presidente deu um mergulho 
na piscina Ford e deu uma boa gargalhada quando o vira-lata pulou para dentro, atrs dele. Era sexta-feira, uma semana aps ter sido "despojado dos seus poderes", 
como gostava de definir, evocando certa simpatia, e Ericson encorajava-se em pensar que a mar de opinies podia ter comeado a virar. 
       Na beira da piscina ele gesticulou, fazendo sinal para o Servio Secreto de que desejava um telefone. Pegou o fone e, com os ps brincando na gua, pediu 
as estatsticas - nenhuma notcia boa: o nvel de apoio a Ericson baixara a 25 por cento, mdia do pior de Truman e Nixon, mas o pesquisador disse, tentando anim-lo: 
       - Manteve-se assim, estvel, nos ltimos trs dias. 
       O cachorro estava sentindo certa dificuldade em sair da piscina, e os homens do Servio Secreto tiveram de empurr-lo pela traseira. Em agradecimento, o vira-lata 
- Ericson teria de dar-lhe um nome, porm no se queria apressar - sacudiu-se vigorosamente, molhando os dois agentes que tinham ficado ao lado da piscina. 

Pg 505 
       Ericson nunca fora de paparicar cachorro, mas este animal parecia ter senso de humor. Ele disse: 
       - Deite perto de mim, vira-lata - e para espanto seu, o co molhado fez exatamente isso. Ericson escutou o zumbido do mecanismo de avano automtico de uma 
cmara do outro lado da gua, e presumiu que Buffie estivesse tirando fotografias. timo: cada fatia de publicidade positiva ajudava. In extremis, ele superara seu 
desagrado pelas imagens piegas que visavam obter simpatia. Se ele pudesse convencer com um xale e uma cartola, a fim de favorecer sua "imagem lincoinesca", o teria 
feito. 
       Mandou a telefonista transmitir-lhe o Sumrio de Notcias: 
       Tpico A: O assunto principal das quatro redes era a resposta pessoal de Nikolayev a Ericson, aceitando seu convite para visitar os Estados Unidos no incio 
do outono. A histria acentuava a reunio secrete dos soviticos em Moscou quanto  forma pela qual a resposta foi redigida. Primeiro, dirigida ao Presidente Ericson 
e no ao Presidente Interino Nichols, porque fora Ericson o autor do convite. Segundo, Nilcolayev disse que ficaria feliz por se encontrar com qualquer pessoa que 
o governo americano indicasse, ficando assim cuidadosamente neutro no tocante aos assuntos internos americanos. Terceiro, os informantes de Moscou mais uma vez derramaram 
gua fria nas especulaes da imprensa norte-americana que diziam que Nikolayev fora deposto ou preso. 
       Essa histria ligava-se intimamente a detalhes domsticos (a leitura dinmica de Melinda ficou mais veloz), o histrico confronto constitucional sendo disputado 
no Congresso. A resposta de Nikolayev  usada como indcio de que Ericson no errou ao fazer o convite. Todavia, isso foi rebatido pela publicao, hoje, da pesquisa 
Gallup, que mostra Ericson atravessando o "nvel mais baixo de Truman" com 23 por cento de aprovao, o que vem sendo usado pelos partidrios de Nichols como prova 
de que Ericson perdeu a capacidade de governar. 
       Outros acontecimentos: Um grupo que se intitula Comisso para Proteger a Presidncia - formado por jovens advogados do interesse pblico, opostos  Comisso 
para Substituir o Presidente Incapacitado - acusou hoje aquele oftalmologista que se exonerou da Marinha ontem, o Doutor Perry Lilith, de ter sido pago para atacar 
o Presidente com a oferta de um emprego lucrativo no Hospital de Nova York, onde a Junta de Curadores  encabeada por Roy Bannerman. Lilith nega isso." 
       As sobrancelhas de Ericson levantaram-se. Parecia um grupo que Hennessy poderia ter formado, porm ele se achava fora dessa, pelo que Ericson sabia. Essa 
ajuda foi inesperada. 

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       "No caso da corrupo de Hennessy, ms notcias para Ericson: o homem nomeado diretor do departamento de estradas de rodagem no Tennessee, por insistncia 
da Casa Branca, fora condenado, usando outro nome,, por fraude h dez anos atrs..." 
       - Aperte o boto de " frente rpido" - disse Ericson  telefonista. Isso deveria lev-lo ao resumo das opinies. 
       "... diz que se Ericson no conseguir pelo menos 51 por cento dos votos de confiana de ambas as Casas, dever encarar isso como rejeio congressional  
sua presidncia. Embora o Presidente fosse capaz de recuperar sua presidncia com um tero de apoio em cada uma das Casas, esse  um pobre argumento tcnico para 
reclamar poderes e deveres". 
       - Bolas! - exclamou alto o Presidente. Sentiu o cachorro lamber-lhe o brao em resposta. - Esse no  o seu nome - disse ele. Nome interessante para um cachorro, 
entretanto. 
       "O colunista Samuel Zophar confessa estar ambivalente quanto  grande controvrsia, recuando de sua prvia posio de militante anti-Ericson. Afirma, aspas, 
por um lado, a nao ficaria certamente melhor com novo homem no comando, e Arnold Nichols tem a experincia e a capacidade para cumprir a misso. Entretanto, um 
Presidente Interino no  um Presidente de verdade, quando o homem eleito para o cargo est constantemente batendo  porta. Fecha aspas. 
       Num editorial assinado, o redator-chefe do Times pede ao Presidente Ericson que abandone sua luta pela reintegrao, "no porque exista nele uma incapacidade, 
mas porque existe uma incapacidade no pas para se adaptar a dois Presidentes. Mesmo se o repto de Ericson for derrotado - e nossa ltima contagem estatstica demonstra 
que isso bem pode acontecer - a Vigsima Quinta Emenda deixa a porta aberta para repetidas objees e uma srie completa de paralisias de vinte e um dias. "O pior 
cego  aquele que no quer ver", e Sven Ericson no quer ver que seu primeiro dever  o de aliviar a nao dessa terrvel cisma de poder... 
       - No fui eu quem comeou - afirmou preguiosamente Ericson pelo telefone. 
       "A primeira contagem da Associated Press no Senado acusa vinte e nove pela reintegrao de Ericson, sessenta e um opostos, e dez neutros. A maioria dos observadores 
diz que os neutros surgiro com oito a dois contra Ericson, negando-lhe um tero do Senado de 

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que ele necessita para reassumir os poderes da presidncia. Mas, na Cmara a histria pode ser diferente: certa maioria  contra a reintegrao do Presidente, mas 
no est definido se essa maioria pode alcanar dois teros, e alguns deputados demonstram raiva por serem includos na estatstica antes de todos os argumentos 
serem apresentados. 
       O Wall Street Journd censura o "Presidente nominal", como chama Ericson, por caracterizar como oferta de suborno uma sugesto perfeitamente legtima e humana 
do ex-Secretrio de Tesouro Bannerman querendo preparar seu caminho para uma, carreira produtiva aps sua renncia. Lembramos a citao at certo ponto lgubre de 
Franklin Roosevelt: "Nunca fale de corda na casa de um homem que foi enforcado". Suborno, aps o processo contra Hennessy, deveria ser a ltima palavra ouvida na 
Casa Branca de Ericson... 
       Eles tinham razo quanto a isso, Ericson comentou consigo mesmo, batendo gua com os ps. Fora uma jogada vulgar, embora no um ineficaz fragmento de demagogia, 
e que obtivera certo alvio na presso sobre Buffie. Ele reparou que Bannerman abandonara o ngulo do sexo no trem da campanha - a acusao de suborno havia feito 
com que recuasse. 
       Aqui estava ele, pensou Ericson, criticado por fazer algumas acusaes bastante espalhafatosas a fim de evitar acusaes ainda mais escandalosas, e lutando 
por uma vantagem na imprensa enquanto o maior governo do mundo livre ficava, nas palavras de Wilson, "indefeso e desprezvel". Valeria a pena? Estaria ele realmente 
lutando para recobrar seus poderes a fim de refutar o enfraquecimento da presidncia, ou seria isto uma justificativa? Analisando-se de modo mais apurado, quanto 
disso era uma justificativa? Ele alisou o plo molhado do cachorro. 
       - Este  um dos meus raros momentos de dvida ntima - disse ao animal, que no publicaria autobiografias. - No tenho sofrido muitos ultimamente. - Nem era 
intenso. Ericson sabia que, se perdesse na Cmara, se eles refutassem seu repto de recuperar seus poderes, no voltaria para lutar repetidamente. Isso era alguma 
coisa que usava para ameaar, no para fazer. Se perdesse, renunciaria permanentemente e deixaria o Presidente Interino tornar-se Presidente.. 
       Ericson levantou-se e contou seus passos em torno da piscina at o vestirio. Em poucos instantes, usando calas e camisa esporte, percorreu o caminho de 
volta ao Salo Oval, porm no entrou. Com o cachorro ao lado, o Presidente sentou-se nos degraus em frente 

Pg 508 
ao Jardim das Rosas, perto da sala, consciente de como sua simples movimentao da piscina at a cabina e depois at o Jardim das Rosas fora controlada pela polcia 
e o Servio Secreto da Casa Branca. Pelo menos uma dzia de pessoas se preocupara com seu deslocamento, e uma instalao eletrnica enviava sua movimentao no terreno 
para centros de controle em algum ponto subterrneo. Mais tarde um registro seria escrito, preenchendo-se espaos num formulrio: hora, deslocou-se de onde para 
onde; acompanhado por quem, protegido por quem, de que ponto alto de observao. No incio do mandato a onipresena de outros olhos fizera com que ele se sentisse 
estranho. Aps a cegueira, consolado. Agora ele se sentia como um Gulliver liderando centenas de fileiras de liliputianos. Respirou profundamente o ar do jardim 
na tarde mormacenta. 
       - Parece que ele tem um pouco de calhe pelo focinho. 
       Ericson tentou localizar a voz nasalada dos ianques - o jardineiro da Casa Branca, que s vezes o cumprimentava, passeando pelo Jardim das Rosas - mas o Presidente 
no se lembrava do seu nome nem do rosto, de encontros anteriores. 
       - Um pouco de colhe, porm  mais alsaciano, creio - replicou Ericson, com certa culpa. Ele tem escavado suas plantas? 
       - No, no, ele segue o caminho dele, eu o meu. E nunca suja as trilhas, fico alegre em dizer, O Doutor Fowler toma conta do canil, tambm. 
       Ericson sorriu diante da imagem de Hank Fowler escondendo as fitas cassete na casinha do cachorro. Ele apontou para o canteiro onde se recordava ficava um 
conjunto de tulipas vermelhas e amarelas: 
       - Que espcie de tulipa  esta? 
       Aps uma pausa, o jardineiro falou: 
       - Eu arranco as tulipas no fim de maio. Essas de que o senhor se lembra eram do tipo Rainha de Sab, e ficavam perto das Triunfadoras branca. Sumiram h muito. 
       Ericson percebeu que o jardim da primavera de que ele se recordava no era o mesmo jardim no meio do vero: 
       - O que tem ali agora? 
       - Znias crescendo bem. Delfnias, l elas so azuis e heliotrpios roxos. 
       - Havia amores-perfeitos - recordou Ericson - azul-escuro e amarelo; em algum lugar l perto das magnlias. 
       - ... agora cravos-de-defunto - disse duro, o jardineiro, como se estivesse envergonhado dos amores-perfeitos daquele ano. - Vermelho ferrugem. E cravos-de-defunto 
amarelos; 

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o Presidente Kennedy queria essas flores por causa do Senador Dirksen. Ele queria a todo custo fazer do cravo-de-defunto a flor nacional. 
       Ericson tentou lembrar-se das rosas no Jardim das Rosas e perguntou: 
       - Onde esto as rosas? 
       - Nos quatro cantos: no muitas. No sei por que chamam isso de Jardim das Rosas,  o que menos tem aqui. 
       - Vermelhas - aparteou Ericson. 
       - Droga! No. A Rainha Elizabeth  cor-de-rosa e a Resgate do Rei  amarela. Se se pem rosas vermelhas, o jardim fica com um ar pesado, fica triste, O senhor 
no deseja realmente que se ponham rosas vermelhas nele, certo? 
       - No, no - respondeu velozmente Ericson, cnscio de que um capricho presidencial pode tornar-se uma tradio repelente. - Alguma rosa branca? 
       - Bem ali - disse orgulhosamente o jardineiro, provavelmente apontando para algum local - plantadas perto das anmonas:  a rosa de arbusto Nevada, e eu cultivo 
elas melhor que ningum. O pessoal comenta  bea sobre elas. 
       O Presidente tentou recordar-se de como era uma anmona, e sacudiu a cabea: pensou num grande molusco, mas isto era um haliote. Tantas imagens a que ele 
no prestara ateno e que viriam a servi-lo to bem hoje!...
       - Em breve tudo estar diferente de novo - sugeriu. 
       - Chegaro crisntemos daqui a algumas semanas. Ficaro onde estavam as tulipas, isso o senhor se lembra. 
       O frio da primavera na viso da sua mente era opressivo. O Presidente jogou uma pergunta ao jardineiro que jamais fizera a algum: 
       - Se voc fosse eu, desistiria e iria para casa? - E sentiu que podia prever a resposta com segurana: "Agente firme, Senhor Presidente." O estafe permanente 
da Casa Branca sempre apoiava pessoalmente qualquer homem que se transferisse para o Salo Oval, e Ericson calculou que no era o primeiro Presidente buscando contrastar 
as pesquisas de opinio pblica com a opinio de um homem da rua que jamais ia  rua. 
       - Se eu sofresse de uma incapacidade funcional - disse o jardineiro - e todo mundo quisesse me sacanear e o pessoal que eu empreguei quisesse me enfiar uma 
faca nas costas, eu bem que jogava tudo pro alto. 
       Ericson resolveu que esta era a ltima vez que bancava Henrique V andando no meio das tropas  noite. 

Pg 510 
       - Voc acha que eu no devo ficar? 
       - O senhor est l por um fio, se no se importa que eu fale assim, Senhor Presidente. Acho melhor o senhor sair enquanto d pra lucrar alguma coisa. 
       - Que mais eles me podem fazer? - Ericson sabia que no ia receber o tipo de resposta que poderia usar no prximo desjejum com os deputados. 
       - Eles podem cansar o senhor; fazerem que sinta que a culpa  sua. Podem tirar seu auto-respeito para que o senhor v para casa sem nada. D uma oportunidade 
a si mesmo, Senhor Presidente, jogue tudo pro alto. Estou lhe dizendo isso porque me perguntou e eu acho o senhor um homem bom - Ericson no teve vontade de responder. 
- O senhor erra querendo transformar aquele animal num cachorrinho de estimao - avisou o jardineiro, se afastando - ele  um co de servio, no esquea. 
       Alguns momentos mais tarde, Ericson disse ao cachorro: 
       - Sabe qual  seu nome? - Agenta firme. Escutou? - E abreviou: - "Genta Firme". - De vez em quando repetia para que o co reconhecesse o seu nome: - Genta 
Firme! 

4. 
       
       No vigsimo dia, o dia antes da votao no Congresso para "decidir a respeito", como dizia a Vigsima Quinta Emenda, e aps sua vigsima reunio de desjejum 
com deputados, cuja maioria de nomes principiava com W, Y e alguns Zs, Ericson recebeu um telefonema de Lucas Cartwright. 
       - Fui abordado por Andy Frangipani - disse Cartwright - que foi abordado por Mike Fong para avisar que T, Roy Bannerman quer uma entrevista com voc. 
       - Mande o homem aqui - Ericson ficou entusiasmado com a abordagem; podia significar que Bannerman no acreditava que t1nha fora na Cmara. Ningum podia 
ter certeza, e pelas contas de Ericson, examinadas conjuntamente com um escrutnio independente feito por Frangipani, havia 140 votos apoiando o repto do Presidente 
contra o Presidente Interino. Ele precisava de um tero mais um, 146, dos 435 membros da Cmara. 
       De nove neutros, sete provavelmente iriam contra ele. Na sua prpria contagem, faltavam-lhe quatro votos. No entanto, ele sabia que em qualquer batalha se 
conhece a prpria fraqueza, e no a do adversrio. Eles sabiam a deles, no a sua. Ericson ficou alegre porque Bannerman fizera o primeiro movimento, visto que isso 
podia ser uma indicao de que ele se preocupava com a sua contagem. 

Pg 511
       - Ele acha que seria psicologicamente debilitante para ele fazer a peregrinao at voc - disse Lucas. - Deseja v-lo em territrio neutro; e no quer informaes 
divulgadas antes ou depois - Ericson podia entender a preocupao do terreno neutro. Quanto a informaes divulgadas "antes ou depois", no tinham significao. 
       Qual a sua concluso, Lucas? 
       - Felizmente para a Repblica, a Sra. Cartwright est com o camarote presidencial para o concerto no Kennedy Center esta noite. Voc podia ser nosso convidado 
e mostraria sua serenidade na noite anterior  votao histrica. Presumivelmente podamos "cavar" ingressos. para os Bannermans em algum outro camarote. Durante 
a barulheira e o tiroteio da Abertura 1812, voc podia travar uma discusso privada na saleta de paredes vermelhas atrs do camarote. 
       - Estarei l. Seja meu segundo. 
       - Ele pede que sejam apenas vocs dois. 
       - Bastante justo. E sobre Duparquet, est nos ajudando ou nos atacando na delegao da Flrida? 
       - Nem um nem outro. Bannerman apoiou-se nele de uma direo e sua secretria, Srta. McPhee, de outra. O Procurador-Geral est agora to neutro que talvez 
jamais entre de novo no esquema. 
       - Onde vamos encontrar aqueles quatro votos, Lucas? Seria uma droga perder por to pouco. 
       - Andy e eu estamos fazendo o que podemos, senhor. Ericson sacudiu a cabea: 
       - No entendo o Andy: primeiro ele me corta a garganta, e agora ajuda a botar as ataduras. O que  que ele deseja? - O Presidente tinha um palpite, mas queria 
a opinio de Cartwright. 
       - Ele no se abre, Senhor Presidente. Aprendeu a sua- poltica democrtica na cidade de Nova York, podendo assim ensinar a arte de firmar convnios em Biznico. 
Aceitei o auxlio e no fiz perguntas. 
       Ericson resolveu ir ao concerto em traje a rigor. Era uma estria e ele faria uma apresentao elegante; assim sua foto sairia em todos os matutinos no dia 
da votao. Ele deveria ter pensado em sair  rua de forma confiante, com ou sem Bannerman. 
       Ericson sentou-se na ltima fileira do camarote presidencial, com a mente palpitando enquanto os outros escutavam msica, at ser informado de que Bannerman 
se achava na sala de trs. Tateou seu prprio caminho de volta e estendeu a mo. Bannerman apertou-a e o dirigiu at uma cadeira. 
       - Tem um pouco de champanha no refrigerador ali - disse Ericson, esperando demonstrar segurana - tomemos um drinque civilizadamente. 

Pg 512 
       Isso no deixou alternativa a Bannerman seno dirigir-se  geladeira, abrir o champanha e servi-lo em dois deselegantes copos plsticos. Ericson sentiu o 
seu ser colocando na mo e falou: 
       -  presidncia. 
       -  presidncia - repetiu solenemente Bannerman. - Este  um brinde adequado: vim falar com o senhor a respeito de reforar a presidncia. 
       - Estou ouvindo. 
       - O senhor e eu temos nossa contagens de votao na Cmara - iniciou Bannerman. - A minha demonstra que o senhor perder por poucos votos; a sua indubitavelmente 
mostra que o senhor tem exatamente o bastante. 
       - Vencerei - disse Ericson. 
       - Se vencer - falou o oponente - ser pelo esmalte dos dentes - Ericson sorriu diante do uso inconsciente, por Bannerman, de uma frase extrada do Livro de 
J. - Se perder, tambm ser por pouco. Minha teoria  a de que, vencendo ou perdendo, o senhor ter se esprimido por entre a mais escassa minoria. No poderia concebivelmente 
governar sob tais circunstncias. 
       - Temos uma Constituio. Vou governar. 
       - Sua coragem o honra, Senhor Presidente - Ericson sacudiu a cabea na semi-escurido. Bannerman era um litigante da pesada. - Porm, me ocorre que a presidncia 
se adaptaria melhor a uma vitria genuna: a uma maioria. Vim sugerir que o senhor tenha essa vitria amanh. 
       - E o preo? - perguntou o Presidente. 
       - Sua renncia. - Negcio claro. Ericson sabia aonde Bannerman queria chegar e acenou sua compreenso com a cabea, enquanto o grandalho explicava: - O senhor 
deseja mostrar que Presidente algum, nem mesmo privado da viso, pode ser destitudo contra a sua vontade. Acredita ser necessrio defender esse princpio pelo bem 
da prpria presidncia. Aceito isso e presumo seja o seu motivo basicamente patritico. Portanto, sugiro que a Cmara o apie amanh, preservando seu direito de 
servir. Aps ter provado sua teoria de forma impressionante e inesquecvel, o senhor ento sairia voluntariamente. A presidncia ficaria mais forte do que nunca 
e a nao poderia prosseguir sem submeter-se a essa indescritvel presso. 
       Bannerman, Ericson verificou naquele instante, no tinha realmente certeza da sua vantagem; era muito apertada para se considerar, por isso ele props um 
acordo razoavelmente sensato. Normalmente a oferta seria tentadora, porm faltava o elemento humano. Ericson no entregaria voluntariamente a chave da Casa Branca 
nas mios de Bannerman, mais do que a entregaria a Nikolayev. 

Pg 513 
       - Se o senhor se importar com a presidncia - falou Bannerman - aceitar esta oferta. 
       - Importo-me com o pas, tambm - disse-lhe Ericson. - Vou vencer isso pelo regulamento, e cumprirei meu mandato. - Pensando bem, Ericson achou bom deixar 
uma fresta da porta aberta. - No sou um homem intransigente, Roy. Esta oferta no foi insultante e no a estou rejeitando sem racionar. Talvez haja alguma forma 
de trabalharmos juntos para dar base  presidncia aps a votao de amanh. 
       - No se decida to rapidamente - instou Bannerman. - Pense com calma. 
       Ericson balanou a cabea. Ouviu a porta que dava para o saguo externo abrir e fechar quando Bannerman passou por ela. Sentou-se ali mesmo enquanto a msica 
l fora subia num crescendo. A oferta que Bannerman fizera no era to ruim. Ericson no hesitara em recus-la, mas se perguntou se fizera o que era certo. 

5. 
       
       No vigsimo primeiro dia, Ericson convidou sua famlia oficial para o Salo de Estar Oval amarelo da residncia, a fim de observar a votao na Cmara. Sentia-se 
de cabea leve, aliviado, fatalista como no dia das eleies, um ano antes. Fizera tudo que pde imaginar para persuadir, lisonjear, ameaar e cativar cada voto 
que lhe pertencia. Sentia-se bem por estar to cansado. 
       Melinda sentara-se ao lado dele num dos sofs; Smitty e Marilee no sof em frente a eles. Buffie andava pelo Salo, trabalhava, ia at a varanda Truman para 
tirar instantneos atravs das janelas. Jonathan, sentado no cho diante da TV, mexia no aparelho. 
       - Ser que vocs no do um jeito nessa imagem? - disse o Presidente, arrancando um riso acanhado. Harry Bok atirou-se da sua cadeira de rodas para uma poltrona. 
Hank Fowler mandou que Genta Firme se deitasse. 
       Estar na sala dos candidatos esperando os resultados, raciocinou Ericson, era a nata da vida poltica: cercado pelos seus companheiros de sofrimento, com 
o poder subindo ou se esvaindo, unidos pelos "laos msticos da memria", conforme Lincoln, sabendo que dentro de alguns momentos seria tudo ou nada. Desejou que 
a enfermeira Kellgren estivesse ali porque sem dvida ela tambm era do time, mas ele no queria fazer estardalhao disso. Lucas Cartwright e o resto do Gabinete 
se achavam na Cmara dos Deputados, junto com o Senador Apple, que formara um relgio de bolso constitucional algumas horas antes, evocando a comparao de um comentarista 

Pg 514
de televiso sobre a "resposta para Hayne", de Daniel Webster. Ericson, observando-se, ficou estranhamente contente: estava pronto para ganhar ou perder. 
       Apanhou o telefone e disse: 
       - Ligue pro Hennessy. - A sala ficou em silncio e Jonathan diminuiu o volume da TV. Quando a telefonista contactou o ex-chefe da Casa Civil em Nova York, 
o Presidente perguntou: - Est vendo? 
       Hennessy respondeu: 
       - Vendo o qu? Nunca vejo televiso de dia. 
       - Tem uma novela hoje que voc deve ver. Estamos todos aqui, assistindo, e no sabemos o final. 
       - Pode deixar: o mocinho vence sempre - disse Hennessy. 
       - Quem  ele? - Ericson desejou estar brincando. 
       - Isso s se fica estabelecido quando algum vence - explicou Hennessy. - Ento voc fica a sentado, cercado por puxa- sacos, e resolveu que sentia saudades 
minhas. 
       - No - disse o Presidente. - Eu nem me lembraria disso se a Melinda no tivesse comeado a resmungar: "Cad o Hennessy? Ele  o responsvel por essa confuso 
toda. Vamos ligar para ele". A ns ligamos. Eu faria Melinda falar com voc, mas ela est reprimindo emoes. - Ericson escutou uma tomada de flego e calculou 
que fosse ela. 
       - A Buffie est a? Vestida? Diga a ela pra me mandar uma foto desta ligao para eu decorar a cela. 
       - Eu vou ganhar hoje - falou Ericson - e voc vai ganhar no seu julgamento. - Ele no tinha certeza dos dois. Se Ericson vencesse, haveria o problema do perdo. 
Se perdesse, tudo bem, exceto para Hennessy. - Hoje estou pensando principalmente em mim mesmo. 
       - Motivo pelo qual me ligou. Legal, meu chapa. Vou ligar a TV e torcer por voc. Diga  Melinda que sinto falta dela: isso vai arras-la. 
       Ericson disse, virado para a sala, a fim de que Hennessy escutasse: 
       - Hennessy disse que vocs todos esto trabalhando muito bem; muito melhor do que se ele estivesse aqui. 
       - Diga  Melinda que sentar em sua mesa e olhar para baixo do vestido dela  o que mais falta me faz. 
       - Ele recorda com carinho nossas noites em volta da lareira 
       - traduziu Ericson para o grupo. - Cuide-se, meu chapa. 
       - Voc foi gentil em telefonar, Sven. 

Pg 515
       Ericson bateu no gancho do fone e mandou a telefonista localizar Cartwright na tribuna da Cmara. Quando atendeu, o Presidente perguntou: 
       - Como est sua contagem? 
       - Cento e trinta e nove mais dois. 
       - Faa o possvel. - Faltavam cinco. Desligou sem anunciar a desanimadora contagem para as pessoas na sala. A televiso acompanhava o martelo do locutor e 
a chamada do Presidente Frelingheusen para o relatrio da Comisso Especial da Incapacidade do Presidente. O Senador Apple opusera-se ao nome, mas as foras de Bannerman 
foraram a denominao. O presidente da comisso, um republicano que liderara uma srie de audincias bastante sbrias e completas, levantou-se e disse: 
       - Cada membro, Senhor Presidente, recebeu o relatrio integral desta comisso, uma transcrio cronogramada das nossas audincias, e diversos memorandos da 
lei referente ao Pargrafo 2, Seo 4 da Vigsima Quinta Emenda, junto com o sumrio preparado pelo Conselho do Presidente e pelo Conselho do Presidente Interino. 
O relatrio da comisso, votado unanimemente, diz o seguinte: - Ericson mandara Apple utilizar certa linguagem incua de concesso sobre o acordo, no relatrio da 
comisso, a fim de fazer com que a luta acontecesse na tribuna da Cmara. Todos os membros da Cmara aproveitaram seus cinco minutos nas redes de TV. 
       "O Presidente dos Estados Unidos foi afastado do cargo atravs de uma reunio devidamente constituda e adequadamente convocada do Gabinete do Presidente 
- leu o presidente para uma Cmara silenciosa - e os poderes e deveres de seu cargo foram transmitidos ao Vice-Presidente como Presidente Interino, segundo os estatutos 
da Seo 4, Pargrafo 2, da Vigsima Quinta Emenda. O Presidente, em conseqncia do mesmo pargrafo, subseqentemente declarou no existir incapacidade, e o Gabinete, 
consistindo conforme exige a lei dos principais representantes dos vrios departamentos, informou a ambas as Casas do Congresso sobre o desacordo com a opinio do 
Presidente. A emenda manda que o Congresso resolva a questo dentro de vinte e um dias. 
       "Esta comisso afirma que a deciso do Gabinete foi recebida de modo regular e em boa f, refletindo a inteno dos autores da emenda conforme expresso na 
Histria Legislativa. A comisso tambm afirma que a objeo do Presidente e seu julgamento pessoal de que no existe incapacidade so tambm recebidos legalmente. 
Assim, a deciso sobre a existncia ou ausncia de incapacidade cai, como pretende a emenda, no julgamento individual dos membros da Cmara e do Senado. 

Pg 516 
       Ericson, escutando, balanou a cabea; a Constituio deixou aos seres humanos a deciso de assuntos subjetivos. Num "governo de leis, no de homens" s vezes 
as leis tm de colocar uma grande parte de discrio nas mos dos homens. 
       A voz de Frelingheusen veio fria: 
       - O escrevente far a chamada. 
       A lente da televiso, Ericson sabia, fixava-se no totalizador eletrnico, acompanhando a votao e ele podia escutar os deputados individualmente dando seus 
votos pr e contra. Alguns "sim" e "no", e um "presente" ocasional  pergunta. Um voto de "sim" era para apoiar Ericson no seu pedido de reintegrao dos poderes 
presidenciais. 146 - um tero - era o que os comentaristas chamavam de "seu nmero mgico". 
       A montona chamada corria sinistramente e o comentaristas da televiso ocasionalmente aparteava com "Esse foi inesperado", ou "Esse voto de 'no' foi de um 
deputado que as foras de Ericson contavam como aliado". Gozado como o pequeno grupo que ficara ao seu lado fora caracterizado como "foras", pensou Ericson. Sua 
tenso no aumentou, conforme ele esperava, frente ao longo correr da votao, mas um aperto no peito permaneceu constante. Aps dois teros da chamada serem efetuados 
- na letra S - Lucas Cartwright telefonou com um relatrio sombrio: 
       - No estamos conseguindo sangue novo, Senhor Presidente. Parece que temos uns 140, 142. 
       - Frangipani concorda? 
       - Andy acha que venceremos, de algum modo, mas no pode prever por quantos votos. 
       - E os votos dos caras que esto se omitindo? - Ericson sabia que alguns deputados votariam segundo sua conscincia apenas se tivessem de faz-lo, e dariam 
preferncia a votar pelos seus distritos. Se ficasse claro que Ericson iria perder, eles iam querer constar nos registros como tendo votado contra ele. As normas 
da Cmara permitiam aguardar at que as coisas se definissem. 
       - Dos nove que votaram "presente", espere a, tem outro, dos dez, que se omitiram todos constam da nossa lista como contrrios ao senhor. 
       - Alguma oportunidade de os atrairmos? - A perspectiva de Ericson era negativa, porm ele se dizia que nada terminava antes de tudo terminar. 
       - Botamos homens rondando o vestirio e se esforando ao mximo. Contudo, esses homens votando "presente" no saram dos seus assentos. A maior parte deles, 
agora que estou observando, sentou-se nas filas da frente. 

Pg 517
       - Por que isso? 
       - No sei. 
       - Andy sabe? 
       - Espere a - Lucas regressou logo depois. - Andy deu uma de suas expressivas encolhidas de ombros, estendeu as mos e olhou para o teto. Deve estar dizendo 
alguma coisa em italiano. 
       Curiosamente Ericson ficava mais descontrado  medida que a chamada se aproximava do final. Ele sabia estar pronto para a derrota como nunca antes na sua 
vida, e tambm estava preparado para a vitria porque se acostumara com isso. 
       - Zwyorkin - o escrevente disse o ltimo nome. 
       - No! - gritou Zwyorkin. 
       O locutor da televiso falou: 
       - H 430 deputados presentes e votando; ausentes somente cinco. Ericson precisa de um tero desses votos, ou seja de 144; ele tem 140, faltam-lhe quatro. 
Onze representantes votaram "presente", na verdade se omitindo, enquanto aguardam o final. A maioria, se no todos, sabe-se que so contra Ericson. E agora o escrevente 
vai chamar os que ainda no votaram. 
       O escrevente chamou os nomes. O primeiro votou sim, os dois seguintes no. Depois dois "sim". Ericson s precisava de um voto de sim dos seis homens remanescentes. 
       O homem seguinte votou sim. Houve um grito dos partidrios de Ericson na Cmara e um gemido ecoou na galeria. Ento, para fechar a votao, os cinco deputados 
seguintes tambm votaram sim. Emocionadamente, o locutor da televiso disse: 
       - No h mais dvidas, Ericson conseguiu - ele tinha os votos em reserva! 
       Ericson sentiu a mo sendo apertada por Melinda,  sua esquerda. A cadeira de rodas de Harry Bok rangeu, e ele sentiu a mo firme no seu brao. Perto do aparelho 
Jonathan batia palmas. O estalido da cmara de Buffie veio se aproximando e ele sentiu seus lbios lhe roarem o rosto. Lembrou-se de dizer alguma coisa para o livro 
de Jonathan. 
       - Quarenta e um Presidentes dos Estados Unidos o sadam - falou o Presidente para o Congresso, pela tela da televiso. A Melinda, murmurou: - Deve ter havido 
alguma jogada. Frangipani foi o autor. 
       O martelo estava batendo e o sotaque de Wyoming do Presidente Frelingheusen, afirmou: 
       - Dois teros do Congresso no apoiaram o Presidente Interino e o Gabinete no seu parecer de que existe uma incapacidade. 

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Portanto, de acordo com a Seo 4 da Vigsima Quinta Emenda da Constituio, o Congresso resolveu a questo. - Eles aguardaram os termos da deciso. - O Vice-Presidente 
cessa agora de ser Presidente Interino, e eu determino que os poderes e deveres do cargo de Presidente sejam transmitidos ao Presidente. 
       Alguns segundos depois Lucas Cartwright ligou e, com voz contida, falou: 
       - Como Secretrio da Defesa  meu dever informar-lhe, Senhor Presidente, que o coronel e o sargento em contato com nossas foras retaliatrias retornaram 
agora ao poro da Casa Branca dos seus postos temporrios no Edifcio de Departamentos Executivos. 
       - E apenas h alguns momentos atrs - replicou Ericson - eu no podia provocar nem uma pequena guerra 
       - No posso dizer que sei como as coisas acabaram assim - falou Cartwright - mas sei que foi bom para o pas. 
       - Lucas, voc foi cem por cento dedicado. - Ericson falou srio e sentiu uma onda de admirao pelo homem mais velho. - A maior parte dos meus erros foi causada 
porque no confiei o suficiente em voc. 
       Eu precisava escutar isso - Cartwright brincou com ele. Ericson riu por entre os dentes ao telefone, para que Lucas soubesse que entendera o que ele quis 
dizer, e falou: 
       - Lucas, os outros membros do Gabinete esto a, praticando pugilismo? 
       - Esta seria uma caracterizao honesta das atividades deles, senhor. 
       - Faa-me um favor. - Havia ameaa no tom de voz de Ericson. 
       Cartwright aconselhou: 
       - Lembre-se das palavras de Churchill: "na derrota, a altivez; na vitria, a nobreza..." 
       Ericson j fora nobre certa vez, o que quase provocara sua queda. 
       - Diga ao Mike Fong que quero sua exonerao em cima da minha mesa antes do encerramento das atividades de hoje. Diga ao Emmett Duparquet para no se preocupar 
em renunciar: ele est exonerado. 
       - Esqueceu do George Curtice? - Cartwright era um homem pacfico, mas no desmemoriado. 
       - Na vitria, a nobreza. Diga ao Andy Frangipani que gostaria de falar com ele no Salo Oval assim que ele puder. - Ericson desligou e, pela primeira vez, 
sentiu o prazer e a dor de voltar ao poder. 

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       - Angelo Frangipani - disse o Presidente por trs da mesa do Salo Oval, ecoando o nome pela boca - foi o seu voto na reunio de Gabinete que enfiou a faca 
nas minhas costas e provocou a primeira usurpao de poder na histria norte-americana. 
       - Rutherford B. Hayes pregou uma boa contra o Samuel Tilden - opinou o Carcamano, e Ericson pde visualiz-lo olhando para o teto, charuto na mo, comparando 
usurpaes. - Mas acho que barrei ele. 
       - E no entanto - prosseguiu o Presidente - quando a barra estava pesada no Congresso, voc no somente me auxiliou junto  delegao de Nova York, como tambm 
foi uma grande fonte de confiana e fora. 
       - O senhor nunca falou tanta verdade. 
       - Uma teoria que defende sua aparente mudana de ideais - disse Ericson -. e que diversos dos seus amigos colunistas tm espalhado,  a de que voc foi atacado 
por uma espcie de remorso ps-coital aps seu voto no Gabinete. Depois, ento, trocou de campo e procurou emendar o mal que seu voto havia causado. 
       - Tem uma teoria melhor, Presidente Ericson? 
       - No - disse o Presidente. - Gosto dessa teoria. Tem a virtude da simplicidade. Detesto levar em considerao a possibilidade da trama, com voc bancando 
Warwick, o fazedor de reis. - Ele queria dizer a Frangipani que no queria saber de quaisquer acordos feitos com o Presidente Frelingheusen, que obviamente gerou 
aqueles ltimos votos relutantes, como Andy sentira-se confiante de que conseguiria. Ericson no podia ter tanta certeza quanto ao motivo bsico de Andy, embora 
tivesse vaga idia do plano a longo prazo. 
       - Acontece que eles tinham os votos para o seu impedimento - disse Frangipani, como se mudando de assunto - a maioria da Cmara que o teria pronunciado, e 
dois teros do Senado para o condenarem. O senhor se espremeu por uma diferena entre dois teros da Cmara e metade da Cmara: dois teros exigidos pela Vigsima 
Quinta Emenda, e metade pelo impedimento. 
       Foi isso, ento: Frangipani se convencera de que, se o Gabinete no tivesse agido, o Congresso agiria - e a alternativa da Vigsima Quinta Emenda oferecia 
um pouco mais de proteo na Cmara a um Presidente. 
       - No foi exatamente um voto de confiana - concordou o Presidente. 

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       - Esse  o prximo passo - disse o Secretrio de Recursos Humanos. - Todos gritaro que o senhor venceu tecnicamente, porm no ganhou, na realidade, no 
recebeu um voto de confiana. Se dermos ouvidos a eles, acabamos virando a Inglaterra. 
       - No vai ser fcil governar desse jeito - falou Ericson, pensando em abrir a porta para qualquer sugesto que Andy tivesse em mente. 
       - Governar vai ser uma merda durante trs longos anos, e o Partido Democrtico vai cair pelas tabelas nas prximas eleies 
       - Frangipani estava seguro. - Mas no me entenda mal: teria sido pior com Roy Bannerman  frente do pas, aquele porco arrogante. 
       - Ento suponho que no h outra soluo. 
       O Presidente estalou os dedos umas duas vezes e o co veio para seu lado. O animal no precisava mais ficar preso no canil o tempo todo, protegendo as cassetes 
de Hank; ele vasculhara seu esconderijo havia uma hora atrs e abalara o Presidente com o sombrio comentrio: 
       - O maldito vira-lata mastigou duas delas - e assim permitiu ao co encontrar um novo lar no gabinete. 
       - Ol, Genta Firme. 
       - Que espcie de nome  esse para um cachorro? 
       - Eu estou agentando firme, e ele fica comigo. 
       O grande co meteu o focinho na sua mo, depois caminhou at o Secretrio de Recursos Humanos para cheirar seus sapatos. 
       - O que aconteceria - perguntou Frangipani ao cachorro - se o seu dono e Nichois renunciassem os dois? 
       Ericson sabia a resposta, claro, mas hesitou antes de d-la. 
       - O terceiro na sucesso se tornaria o Presidente. 
       - E quem  esse, afinal? - Frangipani esfregou a orelha do co. - O Secretrio de Estado? 
       O plano de Frangipani, que de vez em quando surgia no fundo da mente de Ericson, tornou-se claro: o terceiro na sucesso para a presidncia, como ambos bem 
sabiam, era o Presidente da Cmara. 
       - Antigamente era o Secretrio de Estado - disse o Presidente cautelosamente - porm isso mudou h algumas dcadas atrs. 
       Frangipani levantou-se para ir embora: 
       - Um dia desses vamos dar um passeio naquele seu iate de luxo: o senhor e eu, Bannerman e Fong. Nichols, no. 
       - Como o povo se sentiria - falou o Presidente, referindo-se ao problema inerente ao plano de Andy - com a presidncia mudando de um partido para Outro durante 
um mandato de presidncia? 

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       - Nada bem - disse Andy. - Seria fogo! Porm muita coisa dependeria de se estar falando acerca de homens que seriam moderados ou extremistas. O senhor talvez 
pudesse mudar de democrata para republicano, desde que no mudasse de liberal para conservador, ou vice-versa. 
       - Suponho que teria de existir certa compreenso tcita para no se virar o barco durante o restante do mandato - arriscou Ericson. 
       - O senhor no conseguiria nada por escrito. Teria de ser um filho da puta de confiana. 
       - Isso teria mesmo - Ericson no queria prolongar a conversa a esta altura. Levantou-se, estendeu a mo: - Andy, suas bnos vm com grandes disfarces. 
       Frangipani apertou a mo do Presidente entre as suas: 
       - Convide-me para seu iate de luxo algum dia. Trarei alguns amigos para um bate-papo. 
       - Eu no ia querer parecer a favor de coisa alguma que se assemelhasse a um acordo - disse Ericson. 
       - Era isso o que Lincoln... o cara com quem o senhor tenta se parecer... costumava dizer - disse Frangipani. - Ele mandou um telegrama ao seu coordenador 
de campanha na conveno de 1860: "No faa acordos em meu nome." E David Davis, o coordenador, respondeu: "Droga! Ns estamos aqui, e ele no." Lincoln honrou os 
acordos. 
       - E Davis acabou no Supremo Tribunal - acrescentou Ericson. - Voc quer mesmo ser juiz? 
       - Senador por Nova York - corrigiu-o Andy. - O que eu no poderia fazer no ano que vem se o senhor arrastasse o pas e o partido pro fundo. Processe-me, sou 
egosta. 
       - Eu no faria isso - disse suavemente o Presidente. 

7. 
       
       Durante dois dias, Ericson nada fez alm de treinar suas andanas com Genta Firme, tomar sol e se isolar do Sumrio de Notcias, o qual ele sabia estava 
repleto de pedidos acalorados para que renunciasse, aps o "voto de no-confiana". Ele emprestou Camp David a Lucas Cartwright para o fim de semana, para que convidasse 
seus amigos e os principais arrecadadores de votos durante a luta na Cmara. 
       Sentado nos degraus que levavam ao Jardim das Rosas, ao anoitecer, o Presidente disse a Hank Fowler: 

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       - O gaio se foi. 
       Aps dez segundos escutando, o psiclogo disse: 
       No tenho notcias dele h uns dias. Acha que no soube da votao na Cmara? 
       Ericson sorriu e se espantou consigo mesmo por sentir falta da ave tagarela. Ela era uma fonte de sons, um auxiliar. Ericson no gostava de transformar seus 
hbitos. Talvez o pssaro no gostasse da presena do cachorro. A gente consegue ajuda, a gente perde ajuda. 
       - O senhor anda esquisito aps sua grande vitria - falou Fowler. 
       Ericson inclinou-se para trs e respirou fundo o ar abafado. Hank fazia o que devia, o que agradava ao Presidente. 
       - Voc agora  um famoso psiclogo, embora um tanto controvertido - disse ele. - Deveria ser capaz de descrever minha atitude mental com uma frase melhor 
do que "o senhor anda esquisito". - Ericson lembrou-se de j ter passado por essa situao com Herb Abelson havia muito tempo atrs, o que o deprimiu. 
       - Subitamente o senhor introverteu-se - disse clinicamente Hank. - Aps um perodo de ao ousada, o senhor esconde-se no medo. De certa forma est deixando 
o medo reprimido da semana passada atingi-lo. 
       - E tudo isso de graa - disse Ericson. - O Air Force One tambm. Quer saber por que desejo me manter na presidncia? 
       - Quero saber se o senhor ainda deseja isso - disse Fowler. Quando ele no seguia a corrente de pensamento, o Presidente ficava intrigado, mas no queria 
perguntar. Aguardou e o psiclogo prosseguiu: - Agora que se mostra  altura da situao e defendeu o cargo, acho melhor jogar tudo pro alto. - Ericson lembrou-se 
do jardineiro usando o "jogue pro alto". Deu um resmungo descomprometido e Hank continuou: - Mas agora o senhor se conhece e reconhece o perigo da queda, e no vai 
querer fazer nada numa hora em que se acha cansado e assustado. 
       O Presidente balanou a cabea e no disse "sei". Ao invs disso, dirigiu-se a Fowler: 
       - Sabe o que voc est pensando? Est pensando que acaba de Vencer seu primeiro encontro com o escndalo, seu primeiro medo na carreira desde que superou 
a cegueira. Quer um pouco de tempo na Casa Branca, hoje, para fazer uma higiene; para deixar tudo se acalmar antes de prosseguir. 
       Hennessy diria que isso  clinicar sem licena - disse Fowler, e Ericson percebeu-lhe o sorriso velado na voz. 
       Ericson ps a mo no peito: 

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       - Sempre pensei que a expresso "meu corao apertou" tosse apenas uma expresso. Mas, sempre que penso no Hennessy, preso, meu corao parece que cai dentro 
do peito. Ainda no me desliguei direito do Hennessy. Vamos treinar o cachorro, 
       Levantaram-se, deram uma volta pela jardim que escurecia, desceram a colunata at o poro da residncia, entraram e saram da biblioteca, atravessaram o saguo 
do Salo de Ouro e o Salo da Porcelana sem um erro, exceto quando esbarraram num agente do Servio Secreto perto do Salo Oval, que recebera ordens para no fazer 
rudo nem sair do caminho. 
       Hank seguiu seu caminho e Ericson sentou-se atrs da mesa no Salo Oval, no escuro, com o co arfando suavemente aos seus ps. Ele escutava Melinda ainda 
na sua sala e o guarda  porta do vestbulo informando a mesa telefnica a respeito do paradeiro do Presidente. Ericson no fizera planos para o jantar. Pensou em 
Marilee, e resolveu que mandaria Harry Bok arranjar Saiu Silenciosa para o fim daquela noite. A cigarra soou e Melinda disse que o Secretrio de Estado estava l, 
onde passara por acaso aps uma reunio l em cima, e queria saber se podia falar com o Presidente. 
       - George, no quer jantar comigo? Ericson sentiu a surpresa e a alegria de Curtice ao gaguejar um sim, 
       - Tem certeza de que no tem outro programa? Ericson gostava deste jogo; as pessoas sempre tinham algum programa, que imediatamente desmarcavam diante de 
um convite do Presidente, - Se tiver  s dizer, eu entenderei. - Como sempre o convidado emitia seus protestos, ansioso por jantar com o Presidente, porm Ericson 
insistiu: - Voc trabalha muito nesses jantares em Georgetown, George. Aprecio isso... 
       - Senhor Presidente, sabe que entendo alguma coisa de protocolo - finalmente Curtice abriu o jogo E a primeira regra do protocolo de Washington  a de que 
um convite da Casa Branca tem prioridade sobre os outros; no pode ser recusado com a desculpa de um encontro anteriormente marcado. O senhor sabe que tenho um programa 
para o jantar e sabe que a melhor coisa possvel de me acontecer  eu mandar um recado dizendo que no posso ir porque vou jantar a ss com o Presidente. 
       Ericson riu e falou: 
       - Siga-me, ento, o vira-lata e eu o levaremos at l na opinio de Ericson, Curtice era um executivo til. 
       Ao jantar, Curtice apresentou a pergunta que Ericson sabia estava em sua mente: 
       - Por que no pediu minha demisso, Senhor Presidente? 

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       A mente de Ericson preparou a resposta honesta: ele no precisava. Ao exonerar Fong e Duparquet, eliminara a possibilidade de perder outro voto do Gabinete, 
por isso podia manter Curtice sem perigo para si prprio. Depois, no queria conhecer gente nova. E exonerar Curtice afastaria negros e alguns liberais, enquanto 
o fato de hav-lo mantido ostensivamente trouxera a Ericson certo apoio naquela rea. Em voz alta, disse: 
       - George, entendi perfeitamente seu Voto no ms passado e, se eu fosse voc, e tivesse de fazer alguma coisa para sanar a deciso de Yalta - ele jamais usaria 
a palavra "fraude" naquele contexto - provavelmente teria votado como voc. E, mais importante, o que voc fez em Yalta ser relembrado com carinho pela Histria, 
no importa o que digam agora. E mais importante ainda, preciso de voc. Pense em ficar por aqui muito tempo mais. 
       O homem ficou obviamente emocionado. Ericson estava contente por no ter sido sincero. 
       - Senhor Presidente; o senhor acaba de criar o Secretrio de Estado mais profundamente leal que qualquer Presidente jamais teve, de agora em diante. - Aps 
engolir em seco a voz grave recomeou: - Prximo item: quanto tempo ser "de agora em diante"? 
       - Calculo que pelo menos um mandato inteiro, talvez dois - falou Ericson. Curtice, que emitira opinies judiciosas em Georgetown, teria confirmao disso 
em breve, e de modo muito mais eficaz do que qualquer declarao de Smitty ou Marilee. 
       - Boas notcias essas - disse o Secretrio. - Agora vamos cuidar de Nikolayev. O senhor provou que no precisava dele, mas ele ainda precisa do senhor. Vamos 
fazer com que ele venha at aqui para apoi-lo. 
       - Concordo - disse Ericson. "Concordo" era melhor do que "aprovo" em linguagem poltica. - Voc se encarrega das providncias, George: poca, mincias, tudo. 
Mande a Nikolayev uma mensagem pessoal minha e use a frase "Flix tem ferro na espinha". Entendeu bem?  uma referncia secreta  Priso de Lubyanka, onde ele nunca 
foi mantido prisioneiro, no importa o que o pobre Sam Zophar foi induzido a acreditar. A vem Melinda - Ericson sentiu o cheiro do Ma Griffe perto da porta onde 
Melinda estava; ele tocara a campainha dela pouco tempo antes. - Melinda, o Secretrio vai agir em conjunto com a Unio Sovitica quanto  visita do Nikolayev. Ele 
dever ter acesso  minha agenda com prioridade sobre qualquer outro assunto. George, trabalhe com ela; nada de burocracia. - Ericson no queria Smitty, seu chefe 
da Casa Civil, atrapalhando seus preparativos. Melinda seria o canal. Ele daria outra ocupao qualquer a Smitty. 

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       Curtice e Melinda saram juntos. Ericson deixou seu pedido a Harry Bok para mais tarde, pediu ao mordomo um copo grande de conhaque e disse ao cachorro: 
       - Venha, Genta Firme; vou lhe mostrar a casa. - O Presidente sentiu necessidade de sentir o todo da Casa Branca novamente. 
       Ele passou a correia no cachorro, sentiu o animal tornar-e uma extenso do seu brao, e saram juntos da pequena sala de jantar at o Salo de Jantar do Estado, 
em torno da longa mesa at o consolo da lareira. Ele tateou a inscrio feita no mrmore e a leu para o co: 
       - "Que homem algum, no sendo Honesto e Sbio, governe sob Este Teto". John Adams. Sua esposa costumava pendurar a roupa lavada aqui, ou talvez fosse no Salo 
Leste. - Caminharam pelo corredor, atravessaram o Salo Vermelho, o Salo Azul, o Salo Verde, at o Salo Leste. Ele sentiu o co tenso, percebeu o homem do Servio 
Secreto diretamente adiante, cumprimentou, e passou ao seu lado. Ericson estava realmente satisfeito pelo modo com que o co trabalhava, enquanto ele mal sabia trabalhar 
com o prprio. Agora tinha um amigo, ao qual no devia coisa alguma: o cachorro era recompensado pelo sucesso dos seus servios. Andando pela casa, Ericson descrevia 
seriamente para Genta Firme os Presidentes cujos retratos se achavam nas paredes, lembrando-se da colocao de cada um. Ao subir a escada, apontou para uma paisagem 
do Alasca, "de onde vinham os ces esquims". Ocorreu a Ericson que os funcionrios e os guardas, seguindo sua trilha de local a local, pensariam que ele era excntrico, 
conversando com o cachorro acerca dos quadros, mas isso o agradava. Todo mundo precisava de algo para sua autobiografia, inclusive criadas e mordomos. 
       Parou no meio do caminho, na escada, e se sentou ao patamar. Casa boa, pensou; no era um palcio, nem um museu, nem - conforme alguns Presidentes chamavam-na 
- "uma grande priso branca". Ericson achava-se aproximadamente no seu centro, com dois andares acima e dois abaixo, e as alas Leste e Oeste espalhando- se por ambos 
os lados. A maioria dos outros acessrios da Casa eram aumentadores de ego: os desfiles de automveis, o avio, Camp David, a Banda da Marinha, o alojamento de ajudantes 
e guardas, mas a Casa possua o que nenhum desses tinha: a capacidade de fornecer ao seu ocupante um senso histrico de lugar. A Casa no era grande nem imponente 
demais - a nova Manso do Governador em que morara por ltimo era quase do mesmo tamanho. A Casa Branca tinha a proporo adequada e era de bom gosto - nem muito 
modesta, nem muito opulenta - um centro do qual a democracia deveria orgulhar-se, e no para que anti-realistas se sentissem culpados. Era permanente e contnua, 
e cada Presidente acrescentava

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alguma coisa, ou estabelecia alguma coisa e somente uns poucos a rebaixavam de alguma forma. 
       Ericson tentou deixar a Cmara ajud-lo a decidir se pertencia ou no quela Casa, nas suas atuais condies. Acima das escadas e no saguo abaixo, a presena 
de Lincoln fazia-se sentir no quarto de dormir e na sala de estar, no como um santurio exigindo reverncia, mas como o local onde um homem vivera, trabalhara e 
deixara um resduo de si mesmo, ou assim sentia Ericson. Lincoln, um homem astuto e flexvel, quando se ultrapassava a adorao ao heri. Ericson sempre admirou 
a forma inteligente pela qual sua Proclamao da Emancipao, durante a Guerra Civil, libertou os escravos somente nos estados rebeldes, e no nos leais estados 
fronteirios. 
       Ser que ele enfraqueceria mais a casa, ficando ou partindo? Ericson mostrara a todos que era um Presidente de verdade, o quadragsimo primeiro dia na longa 
sucesso de alguns que deviam ter-se sentado ali aps um baile ou aps uma crise, e imaginou como ficaria, comparado com os outros. Sven Ericson provara que no 
podia ser expulso, e a Vigsima Quinta Emenda, com todo o seu potencial de dano, seria sempre respeitada pelo precedente de Ericson. Agora, porm, Andy Frangipani 
eliminara, com a maior percia, a segunda razo mais forte de Ericson para permanecer: a certeza de que o sucessor seria pior. Se Nichols pudesse ser afastado, e 
se Mort Frelingheusen fosse o sucessor, a nao estaria bem servida. A sbita perda dessa justificativa, que o acompanhara nos momentos mais sombrios, deixou Ericson 
sentindo-se como separado na porta de um alapo, mantendo com a mo a porta de mola igual  caixinha de controle remoto para televiso. Tudo o que lhe deixaram 
para que se mantivesse no posto foi a teoria do "somente Ericson": 
       somente ele tinha a viso da economia correta que poderia abrir a porta a uma sociedade justa. E por si s essa justificativa atingia Ericson como um tanto 
egosta, j que era possvel que suas idias sobre economia estivessem totalmente erradas. 
       Ao se observar por esse processo, como Ericson sempre gostava de fazer, reparou com orgulho que estava pensando como um patriota: no existiam mais sua necessidade 
pessoal de permanecer, o medo do que mais ele poderia fazer, nem o senso de que o cargo agora lhe devia uma segunda viso. Ele colocava as necessidades do pas em 
primeiro lugar, pesando o que era melhor, sem um trao de egosmo ou mesquinhez. 
       - Realmente impressionante - disse ao cachorro, ainda de correia. - Se eu sou to valioso, por que no fico? 
       Uma resposta a isso, Ericson sabia, era a falta de iniciativa de um homem cego. Ultimamente, quando assinava um decreto que lhe 

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fora descrito oralmente, ou escutava um resumo verbal baseado num longo memorando que ele teria lido quando enxergava, sofria uma perturbadora preocupao ao ver 
como era realmente dependente de outras pessoas - bem como em outros imprecisos sentidos. Ele ajudara a preparar a propaganda que dizia que o Presidente aprendera 
a sobrepujar sua dependncia e viera a acreditar muito nisso, porm havia aquela incerteza quanto a algum momento, em alguma hora - num momento crucial, talvez - 
quando poderiam aproveitar-se dele. Ericson analisou rapidamente o pensamento e o suprimiu porque minava sua confiana. 
       Ele seguiu Genta Firme escada acima at a residncia, sentindo-se bem consigo mesmo, a par de que estava passando pelo to decantado Processo de Tomada de 
Decises. Ele sabia que uma parte da engrenagem faltava, faltara durante quase toda a sua vida: 
       uma companheira, algum para quem jactar-se e em quem se apoiar. A vida de solitrio tinha suas vantagens - Poxa! As responsabilidades e a perda de tempo 
que evitava - porm, s vezes a abenoada independncia desgastava-se. 
       O cachorro tomou seu lugar costumeiro  porta do quarto de dormir do Presidente, perto do agente do Servio Secreto, e Ericson entrou, fechando a porta gentilmente 
 sua passagem. O cheiro bem-vindo do seu favorito perfume vagabundo estava presente: a mulher mexeu-se na cama e ele escutou as cobertas serem abertas  sua espera. 
Tirou a roupa na escurido sua conhecida e se sentou na beira da cama, perguntando-se se faria amor com Sam Silenciosa primeiro e tomaria uma massagem relaxante 
depois, ou se tomaria uma massagem relaxante antes e faria amor depois. Analisou as alternativas lentamente no crebro, saboreando as duas. Ela tocou nele, arrastando 
os cabelos pela sua perna, e ele decidiu que a massagem viria depois. 
       Encheu a mo com um seio generoso, mais firme do que de hbito, refletindo a poca do ms, presumiu, e lhe beijou o pescoo, enterrando o rosto na fonte daquele 
Apple Blossom, ou Lily of the Valley, eu fosse o que fosse que Sam Silenciosa estava usando. Ele tinha uma imagem dela clara na mente: um nu de um filme dos anos 
60, de Ingmar Bergman: esguia, alta, corpo de causar impacto, um brilho rosado na pele. E ele romantizou o rosto dela; nada lhe custava e lhe dava prazer torn-la 
uma beleza mais perfeita na sua imaginao. Ela explorava sua sensibilidade ao toque, como sempre fazia, trabalhando com os dedos pelas costas dele, e ele principiou 
um ritmo suave, calmo, at romper um novo nvel de paixo dentro dela, seguindo isso com prazer at o orgasmo feroz dela, e ento, menos violentamente, at o seu. 
Ela melhorava dia a dia, pensou ele, e cada vez menos ele visualizava Buffie fazendo amor. 

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Ele rolou de cima dela aps alguns momentos e se deitou de barriga, com os braos abertos, a fronte nas mos, aguardando a massagem. 
       Mas a massagem no veio. Isso o aborreceu um pouco, j que ele se acostumara ao toque final, porm no quis pedir; tinha de ser parte do ato do amor, no 
um esquema de salo de massagens. Aps um momento, Ericson apoiou-se num cotovelo e percorreu os dedos pelo corpo dela, ainda trmulo, molhado de suor. Tocou no 
cabelo louro comprido, tpico das mulheres escandinavas que ele conhecera, e aps um segundo repetiu o toque. 
       - Cortou o cabelo? 
       - H... - ela murmurou, ainda distante. 
       Ele ps a mo na barriga dela, localizou o umbigo e deslocou a mo a fim de tocar sua cicatriz de apendicite. No havia. Tocou no bico dos seios novamente, 
que era semelhante a um boto na enfermeira Kellgren. Este bico era pontudo, gostoso, mas no o mesmo. Ocorreu a Ericson que Harry Bok lhe pregara uma pea. 
       Sua primeira reao foi de aborrecimento - jamais gostara de ser enganado - mas isso logo passou, com a preocupao de saber se ela seria discreta. Isso tambm 
passou num segundo, visto que Harry Bok certamente seria cauteloso, e foi substitudo por uma brincadeira estranha: "Dr. Livngstone, presumo?" veio  sua mente, 
seguido por um direto e educado: "J nos conhecemos? Sou o Presidente. Moro aqui." Imaginou uma acusao rspida: "Voc no  a Tenente Kellgren,  uma impostora." 
Ou uma brincadeira sdica: "Est pronta, agora, para o chicote e as correntes?" 
       Ele ria por entre os dentes abertamente, diante da multiplicidade de suas opes, quando a sentiu deslizar e se sentar, respirar fundo e dizer numa voz baixa, 
porm muito conhecida: 
       - Sou eu, Melinda. 
       Isso o desnorteou. Ericson no o esperava de forma alguma e no reagiu, alm de parar de sorrir. Aps longo pausa, ele conseguiu falar: 
       - H quanto tempo no a vejo. 
       -  o tipo da coisa que o Hennessy diria - ela sussurrou. 
       O duplo significado de sua prpria fala provocou-lhe uma reao: 
       - Eu costumava escrever todo o humor negro do Hennessy - ele disse, sentando-se ao lado dela. - Pra chatear voc. 
       - Est zangado comigo? 
       - Poxa, claro que no! Um pouco surpreso, apenas. Trouxe o Sumrio de Notcias? 
       - Ah, deixe disso!... 

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       Ele estendeu o brao e tocou aquele rosto conhecido, depois a trouxe para a frente e lhe deu um beijo srio na boca. 
       - Voc  uma mulher encantadora - falou depois - e o seu tempo  certinho. 
       - Agora me sinto sem jeito - disse ela. - Mas antes, no. 
       - Voc no estava e nem precisa ficar. Sirva um conhaque pra ns, est na mesa de cabeceira. 
       Ela lhe ps o copo na mo e exclamou: 
       - Oito anos! 
       - Voc ficou melhor. 
       - Voc tambm. 
       Ericson se confessou que ficou realmente muito alegre. 
       - Muito bem, que negcio  esse afinal? - ele brincou com ela. - Quer que eu devolva o emprego ao Duparquet? No precisava chegar a este extremo. 
       - O que mais me matou foi quando voc descobriu sobre ele e no deu a menor bola. 
       Na verdade ele dera, recordou Ericson, porm vislumbrara a importncia do caso deles para seus prprios interesses. 
       - Claro que no - afirmou. - Nunca imaginei voc assim, nua, excitada. Hennessy pensava nisso o tempo todo, porm. Ele era doido por voc, Melinda. 
       - Di s em pensar nele. 
       Ele tomou o usque e mergulhou nos seus pensamentos. Ela tomou um banho de chuveiro e voltou dizendo: 
       - Suponho que eu deva ir embora agora. 
       - No, durma comigo de agora em diante - disse ele sem refletir. - Eu estive pensando, d pra assustar. 
       - O qu? 
       - O jeito como me enganei; eu pensei que Sam Silenciosa estaria aqui. Quando entrei, senti o perfume dela, por isso tive certeza de que era ela. E toquei 
no seio dela, mas no o achei exatamente o mesmo, portanto me adaptei a ele, forando um princpio nos meus preconceitos. S senti o que esperava sentir, no a mulher 
que estava ali. E agi baseado nessa idia. Pensando bem,  um pouco assustador. 
       - Olhe, foi o nico jeito de eu. 
       - Eu sei, eu sei, e valeu a inteno. Mas sem dvida prova que um homem cego  realmente cego. - Ele pensou mais um pouco nisso enquanto ela entrava ao seu 
lado na cama. - Sou realmente muito dependente das impresses que recebo dos outros. 

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       No  to difcil enganar um cego, e mais fcil ainda um cego enganar a si prprio. 
       - Nunca mais, eu juro. 
       - Voc no entende. E  uma mulher inteligente, deveria entender. Por isso, vou explicar com detalhes. Sente.se e sirva outro drinque. Que horas so? 
       S umas onze. 
       - Ligue pro Frangipani. 
       - De volta ao trabalho - ela resmungou, apanhando o telefone e fazendo a ligao. Entregou o fone a ele, quando o Secretrio atendeu. 
       - Esteja no cais amanh  noite, s oito - disse Ericson sem rodeios - para dar uma volta no iate de luxo. Traga seus amigos. timo. Isso no  uma obrigao, 
Andy; s estou verificando por a, para saber minhas opes. Certo. - Ele devolveu o fone a ela. - Diga  Marinha que quero o Sequoia amanh  noite para um jantar 
de quatro pessoas; partiremos por volta das oito e quinze. - Ela tomou as providncias com um telefonema rpido. 
       - Agora preste ateno - disse ele. - Quero elaborar a coisa na minha cabea, pensando em voz alta. Assim que ouvir alguma coisa sem nexo, avise. No deixe 
passar nada e no deixe seus prprios conceitos interferrem. Certo? Talvez eu leve algumas horas porque acho que tenho um monto de coisas para dizer. - Ele sentiu-se 
bem porque ela estava ali, e no Sam Silenciosa, ou Buffie. - E depois - ele acrescentou, pensando nos dois - vou acabar com a sua raa! 

8. 
       
       O Presidente, mediante prvio acordo, foi o ltimo a embarcar. Genta Firme no estava entusiasmado ao guiar seu dono para o iate, mas quando Ericson comeou 
a subir a rampa, o cachorro foi na frente. Os quatro homens sentaram-se juntos na popa, a cu aberto, conversando a respeito do co, at Bannerman dizer abruptamente: 
       - Parabns pela sua vitria, Senhor Presidente, se se puder chamar um voto de no-confiana de vitria. Acho que foi um desastre para a nao. 
       - O velho e bom Roy - disse Frangipani cordialmente - um mestre do disfarce. Pare de fazer rodeios, Bannerman, conte pra ns como se sente de verdade. 
       Fong interrompeu: 

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       - O senhor ganhou limpo e direito, Senhor Presidente. No lhe nutro ressentimentos. - Tilintou o gelo no copo. -  sua sade. 
       Houve um estranho silncio durante o brinde, do que Ericson gostou. Frangipani aliviou a tenso dizendo: 
       - Ei! O especialista em dizer coisas inadequadas sou eu, Mike - e Ericson escutou todos rirem, exceto Bannerman. 
       O Sequoia desceu o Potomaque rumo a Mount Vernon enquanto Frangipani contava uma histria sobre as expresses nos rostos de certos deputados quando o ltimo 
grupo de votos "sim" forou a passagem estreita para Ericson. O Presidente, que acreditava que a melhor forma para descontrair Bannerman seria alimentar seu interesse 
pelos assuntos de relaes exteriores confidenciou que George Curtice combinara com Nikolayev que ele visitasse os Estados Unidos dentro de duas semanas. 
       Bannerman no estava "a fim". 
       - Vamos falar francamente. Mike disse que ele e Andy estavam bolando um esquema. Vamos abrir o jogo. 
       - Andy - disse Ericson, com um tom de desaprovao na voz - voc no me contou que tinha um esquema em mente. E me disse que amos fumar o cachimbo da paz. 
       - Eu menti - afirmou Frangipani. - Mike eu temos uma bomba para jogar em cima de vocs dois. 
       -  idia do Andy - falou Fong. 
       - O problema  o seguinte - disse Andy. - O Roy acha que o pas vai desmoronar por causa de um Presidente incapacitado. Ele est, pelo menos parcialmente, 
certo. O Presidente no admite ser expulso do cargo e agora que Arnold Nichols conquistou o poder por trs semanas, o Presidente no admite renunciar desde que isso 
signifique que Arnold se tornar Presidente. Certo? 
       Ericson concordou com a cabea. Aquela era uma boa forma de argumentar: no revelar que Ericson se recusaria a transferir o cargo a Bannerman e seu fantoche, 
e sim sugerir que o Presidente estava aborrecido com Nichols. Dessa maneira, Frangipani oferecia alguma esperana a Bannerman. 
       Se voc assentir ou balanar com a cabea disse o Presidente a Bannerman - por favor, faa algum barulho positivo ou negativo, para me ajudar. 
       - Eu no pisquei um olho - falou Bannerman. 
       - Eis a soluo - continuou Andy. - Bannerman recebe o que deseja, o Presidente evita o que o preocupa e o pas fica com um Presidente cem por cento. 

Pg 532 
       - Como? - perguntou o Presidente, em benefcio de Bannerman. 
       - O senhor renuncia, Presidente - iniciou Frangipani. 
       - Vo pro inferno com isso! - respondeu prontamente Ericson. 
       - ... renuncia ao receber a exonerao do Vice-Presidente. O Presidente da Cmara se tornaria, ento, Presidente. 
       - Ridculo - disse Bannerman. 
       - A dificuldade - falou cautelosamente Fong - que reconhecemos,  a de que haveria uma transferncia de poder, no poder executivo, dos democratas para os 
republicanos. - Fong, que evidentemente bolara tudo isso com Frangipani, estava agindo como se esta questo de partido fosse o fator predominante nas preocupaes 
de Bannerman. Ericson sabia que Bannerman daria pouca, se alguma, importncia  troca de partidos, mas viu que seria uma boa idia se Mike Fong discutisse primeiro 
sobre uma objeo no existente. 
       Sem dvida isso  um retrocesso - disse Andy. - Por isso  que o Presidente e o Vice-Presidente funcionam em equipe, para assegurar a continuidade do partido. 
Mas vejam a coisa por este ngulo: a nao est numa sinuca; Ericson jamais renunciar, a menos que Nichols o faa tambm; e no existe tanta diferena ideolgica 
assim entre Ericson e Mort Frelingheusen. No  como passar de radical para reacionrio. 
       - E talvez alguma coisa pudesse sair da - acrescentou Fong - atravs de um acordo de cavalheiros, a fim de fazer com que permanecesse certa porcentagem das 
pessoas nomeadas pela Tabela C. Metade, talvez. 
       Bannerman no continuou a reagir, pelo menos audivelmente, portanto Ericson balanou a cabea num "no". 
       - No gosto disso - comentou. -  um pensamento construtivo, certamente que eu no renunciaria de outro modo, mas esmagaria grande parte do acordo, O povo 
no aceitaria. 
       - O povo aceitaria muita coisa - disse Bannerman finalmente, de modo rspido - para ver o senhor fora da Casa Branca. 
       - Tenho de dar comida ao meu cachorro - disse o Presidente. - Depois que eu fizer isso, vamos jantar. - Ele desceu para dar a Fong e Frangipani uma oportunidade 
de amaciar Bannerman e para dar  idia de uma renncia dupla um exame final. 
       A tigela com a rao seca para cachorro estava  esquerda da pia da cozinha, fcil de alcanar. Ericson abriu a bica, deixou cair meia xcara dgua na tigela, 
misturou tudo com os dedos, abaixou-se, e ps a tigela na frente de Genta Firme. Hank ensinara-lhe que 

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era importante o prprio dono do animal aliment-lo com as prprias mos e no entregar essa tarefa a outra pessoa. O Presidente gostava de faz-lo; poucos encargos 
igualmente simples eram-lhe confiados. 
       Ele s precisava tomar uma deciso quando Bannerman mordesse a isca. No havia ainda nenhuma presso para resolver. Ericson ainda podia mergulhar no prazer 
de um "e se...", numa espcie de purgatrio de idias, sem sentir o impacto do prazo final para uma deciso. Se Bannerman concordasse em expulsar Nichols, o que 
Ericson faria ento? Acompanharia a deciso? Recuaria, deixando Frangipani mal, que sem dvida teria assegurado a Bannerman que podia obter a aquiescncia do Presidente? 
       O co no fazia rudos de quem come. Ericson no o culpava, o alimento era to pouco apetitoso... Hank, porm, aconselhara-o a no mimar o animal com carne. 
O Presidente falou com firmeza: 
       - Coma. - Mas escutou o cachorro cheirar a tigela e recuar. Ericson agachou-se, descansando um joelho no cho da cozinha, pegou um punhado da rao e estendeu-o 
para Genta Firme, que lambeu de sua mo. 
       - Tem esses quatro jqueis, entende? Um deles precisa de poder e pode lidar muito bem com ele... esse era eu. - Ofereceu-lhe uma segunda mo de rao. - O 
segundo jquei precisa do poder, mas no sabe de forma alguma lidar com ele... esse tenho sido eu desde a emboscada, - Ofereceu ao co um terceiro punhado. - Isso 
 sabedoria poltica, Genta Firme; Hank aprendeu-a daquele sacana do Leigh. Espero que tenha aprendido direito, O terceiro jquei no tem aquela necessidade tremenda 
de poder... tome, como na tigela... e no sabe lidar muito bem com o poder. Esse sou eu, hoje: sem nenhuma das desvantagens de um cara louco pelo poder, mas tambm 
nenhuma das vantagens. - O co comeou a comer mais seguidamente e Ericson se levantou. 
       "Voc deve estar intrigado quanto ao quarto jquei - disse ele, apoiando-se na estreita ombreira da porta enquanto falava ao cachorro. - Aquele que no precisa 
do poder, mas sabe lidar facilmente com ele. Vou lhe dizer uma coisa, meu chapa, esse tipo  difcil de encontrar, e sem droga de dvida alguma eu ainda no cheguei 
l. - Ericson tateou em volta,  procura da outra tigela, a menor, no topo da pia; achou-a, encheu-a de gua e ps ao lado da tigela de rao. O cachorro aproximou-se 
agradecido e lambeu a gua aos goles, voltando ao alimento com nimo, enquanto sua plaqueta de identificao batia ritmadamente na tigela  medida que ele comia. 
- Talvez algum dia, porm. Pode ser. 
       O Presidente espreguiou-se, sorriu e pensou de novo naquele mistrio intrigante, amorfo, sempre-capitalizado, chamado o Processo de Tomada de Decises.

Pg 534 
Quando ele resolvera desistir da presidncia? Neste instante, em que alimentava o cachorro? Ou na cama com Melinda, ao descobrir a facilidade com que um cego se 
engana? Ou antes disso, quando Andy Frangipani comeou suas manobras com a aprovao ttica de Ericson? 
       A verdade a respeito das grandes decises, refletiu Ericson, era a de que elas jamais percorriam processos lgicos, sistemas burocrticos, formulrios de 
opes, blocos amarelos, at chegarem a uma concluso. Suas falas dramticas, sem capites thurberianos com suas vozes iguais a gelo fino, cortante, berrando: "Vamos 
avanar!" As grandes decises eram uma questo de esquemas mentais, predisposies, tendncias - custavam uma existncia para se determinar - seguida pelo bombardeio 
das circunstncias, a busca do senso do que era correto - jamais concludas em algum momento limitado de concluso, mas na lembrana de haver "sabido" qual seria 
a deciso, em alguma hora indeterminada antes. Havia semanas que Ericson sabia estar pronto para fazer o que tinha de fazer, se pelo menos Andy ou algum outro pudesse 
ser induzido a produzir uma soluo que o Presidente analisasse pelo seu Processo de Tomada de Decises. Isso tornou sua deciso mais uma vontade de no obstruir, 
do que uma deciso de ir adiante, semelhante  falta de vontade de Truman de deter a corrente de acontecimentos que levaram ao lanamento da Bomba A - no no mesmo 
nvel de grandeza, porm do mesmo tipo relutante de maria-vai-com-as-outras. 
       - Ainda no resolvi - ele avisou ao cachorro, que rodava a tigela pela cozinha om a lngua, mas sem fazer rudos de mastigar. - Uma deciso no  uma deciso 
at ter de ser tomada. - Aliviado, ligeiramente eufrico, sentindo-se admiravelmente patritico, Ericson caminhou para a cabina principal a fim de juntar-se aos 
outros para o jantar. Adotou uma expresso carrancuda e nada disse. Aps os quatro terem devorado seus bifes, Bannerman apresentou uma idia que lanou sua primeira 
luz de entusiasmo ao problema. 
       - Se o senhor fizesse alguma coisa igual a essa, e tenho certeza de que Arnold Nichols jamais a aceitaria, o sucessor teria de possuir um governo de coalizo. 
       - Como o Roosevelt, na guerra - disse Andy. - Metade de democratas, metade de republicanos; um governo de unidade nacional durante alguns anos. Existe precedente. 
       - No - falou Bannerman - quero dizer no mais alto nvel. 
       Todos meditaram sobre isso. Fong finalmente esclareceu: 

Pg 535
       - Teria de haver certa garantia de que o novo Presidente nomearia um Vice-Presidente do mesmo partido do Presidente deposto. 
       - Quer dizer que o Ericson democrata renuncia - disse Andy, o dono da verdade - junto com Nichols; o republicano Frelingheusen assume e nomeia um democrata 
para Vice-Presidente. Que poderia ser mais natural? 
       - Concordo com a primeira reao de Roy - disse Ericson, levantando-se da mesa - esse negcio todo  ridculo. Ningum jamais conseguir que Arnold Nichols 
renuncie, e ningum... quero dizer ningum!... pode obrigar o prximo Presidente a fazer qualquer coisa. Seria totalmente errado subir  presidncia com base em 
algum tipo de promessa. Imoral. Esqueam. Vamos l fora, Andy. 
       Os dois foram para a proa. 
       - Ele est mordendo a isca - falou Ericson, suavemente intrigado. 
       - O senhor daria um tremendo ator da Broadway - comentou Frangipani. -  um verdadeiro artista. No sei se confio mais no senhor. O que acha que ele aceitar? 
       - Tem certeza de que ele pode provocar a renncia de Nichois? 
       - perguntou Ericson. 
       - Tenho. 
       - Bannerman quer a vice-presidncia para ele mesmo, Andy.  isso que ele aceita. 
       -  um preo meio elevado. 
       - Olhe, nem posso levar isso em considerao. Se acha que estou levando, engana-se. - Ento o Presidente acrescentou, com cuidado: - Mas voc j se enganou 
antes. V falar com ele. - Era um prazer lidar com Andy. Ericson podia jurar que ele jamais oferecera, ou permitira que se oferecesse, quaisquer garantias a Bannerman 
de que seria Vice-Presidente, nem mesmo que pedira ao prximo Presidente qualquer medida desse tipo. Frangipani podia jurar a mesma coisa, junto com Ericson, mas 
tambm podia dizer a Bannerman que achava que o Presidente poderia lev-lo em considerao; e que mal havia em tentar? 
       - O senhor no pode estar presente naquela jogada - disse Andy. - Volte dentro de dez minutos. O senhor  cego; tem uma tremenda cara de jogador de pquer, 
continue com ela. 
       - "No faa acordos em meu nome" - citou o Presidente, sorrindo. 
       Ericson aguardou enquanto Frangipani acenava com a vice-presidncia  frente de Bannerman, coisa que o Presidente poderia 

Pg 536 
negar, com a mo numa pilha de Bblias, que jamais autorizara. Ericson deixou a Andy a tarefa de fazer Fong e Bannerman concordarem em no pedir a um Presidente, 
por antecipao, uma garantia imprpria. 
       Quando ele regressou ao convs aberto da popa, o iate chegara ao porto, no Potomaque, oposto  casa de George Washington, em Mount Vernon. A tripulao alinhou-se 
para a continncia formal, enquanto a reduzida fita tocava The Star-Spangled Banner, o Hino Nacional, e os quatro homens se uniram  tripulao para a curta cerimnia. 
Ericson, ao saudar, pediu perdo ao seu predecessor pelo que tivera de fazer para proteger o cargo que o primeiro Presidente institura. Ningum considerava George 
Washington da mesma forma que o homem que detinha atualmente seu cargo, observou Ericson silenciosamente. Ficou intrigado sobre como se sentiria acerca do "Pai Fundador" 
depois. "Pai Fundador" era um grande nome, mas quem se lembrava de que seu criador fora Warren Harding? 
       - Andy deixou claro - disse Bannerman, aps terminarem as continncias - que ningum poder comprometer o prximo Presidente com coisa alguma. Ele me deu 
sua promessa de "maiores esforos", o que no exige que o senhor diga nada. 
       - No prometi coisa alguma a ningum - falou o Presidente firmemente, esperando que Bannerman no acreditasse nele - nem autorizei pessoa alguma a prometer 
nada. - Tentar fingir que estava mentindo no era fcil: essa era uma especialidade do sacana do Leigh. 
       - Logicamente - disse Bannerman impacientemente - farei com que Arnold Nichols entre no seu gabinete amanh com a renncia na mo. Se eu fizer isso, tenho 
a sua palavra de honra que sua renncia ser entregue ao Secretrio de Estado uma hora depois? 
       Ericson pareceu deprimido. Finalmente, solene, disse: 
       - Dou-lhe minha palavra. E me d sua palavra de que ningum vai discutir isso com ningum, especialmente com o Presidente Frelingheusen? Se algum contar 
a ele, independente de qual seja subterfgio, fica tudo desfeito. 
       - Concordo - falou Bannerman. 
       Sentaram-se em silncio sob as estrelas, enquanto o barco fazia a volta e se dirigia Potomaque acima, regressando. 
       -  meio cafona, este cenrio - disse Frangipani - para um momento histrico. Esperemos que o velho George o aprovasse. 
       Ericson achou que Mike Fong fizera o comentrio apropriado, parafraseando o primeiro Presidente: 
       - Mais do que isso - esperemos que o prximo Presidente crie "um padro que os sbios e os honestos possam renovar". 

Pg 537
9. 
       
       -  Bannerman - disse Melinda. - Posso escutar? 
       - Acho bom - falou o Presidente. - E faa anotaes. - Fora uma longa manh. 
       - Arnolds Nichols est aqui comigo - disse rispidamente Bannerman. - Quer falar com o senhor. 
       - Senhor Presidente? - a voz estava tensa. 
       - Ol, Arnold. 
       - J fiz minha carta de renncia - disse o Vice-Presidente - e estou disposto a ir ao seu gabinete para assin-la, conforme sua convenincia. 
       - Voc est agindo no melhor interesse do seu pas - disse Ericson com sinceridade. 
       - Eu o estou fazendo - disse Nichols, como se lendo um carto - com o conhecimento de que o senhor apresentar sua prpria renncia uma hora aps o momento 
efetivo da minha. 
       - O senhor est correto - disse-lhe Ericson. - No diga coisa alguma a ningum. Venha ao Salo de Gabinete s quatro horas. O Secretrio de Estado estar 
l, mas sem saber para que foi convocado. Ele  a pessoa autorizada a receber nossas renncias. Alguns minutos aps o senhor faz-lo, eu o imitarei. - Procurou mais 
alguma coisa para dizer. - Aps ato, ns dois seremos uma dupla de j-eram, Arnold. - Uma dupla de pistoleiros que se eliminaram mutuamente, deixando o aposento 
da frente da cadeia para o novo xerife. 
       - Estou convencido de que isso vai ser o melhor para a nao. - O Vice-Presidente, usando a frase dita anteriormente por Ericson, no parecia convencido. 
Bannerman deve t-lo apertado seriamente. 
       - Esteja aqui s quatro. George Curtice tambm vir e voc lhe dir do que se trata. - O Presidente desligou o telefone. 
       Melinda entrou: 
       - Acho bom eu dar um jeito de fazer com que o Secretrio de Estado venha at aqui, no acha? No queremos que ele v voar para algum lugar por a. 
       - Pensou bem - disse Ericson. Seria embaraoso esquecer de trazer Curtice. 
       - E talvez voc queira escrever sua renncia com sua prpria letra - disse ela tranquilamente. - H um precedente;  de uma linha s. 
       Ele sacudiu a cabea, tirando um pedao de papel da gaveta: 

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       - Eu a farei em duas linhas. - Ele j refletira sobre o assunto. A dois centmetros da beirada da folha, comeou: "Ao Secretrio de Estado". Uma linha abaixo 
escreveu: "Fiz juramento de preservar, proteger e defender a Constituio dos Estados Unidos da Amrica." Iniciou novo pargrafo: "Para assegurar que minha responsabilidade 
seja cumprida pela presente, renuncio ao cargo de Presidente." Resolveu no acrescentar "Sinceramente", simplesmente assinando o nome e pondo a data abaixo.. Empurrou 
o papel pela mesa. - Que tal? 
       Melinda no respondeu na mesma hora. Ericson lembrou-se de t-la visto em lgrimas silenciosas certa vez, anos atrs, quando seu pai morreu. Aps um momento, 
ela comentou: 
       - Est meio torto. Escreva de novo. - Ele tentou mais algumas vezes, at que ela ficou satisfeita. 
       Ele pediu  telefonista o Presidente do Tribunal, e lhe solicitou que viesse ao Salo Oval s quatro e meia, para um assunto de certa urgncia, e que trouxesse 
sua beca. O jurista concordou sem fazer perguntas, dizendo apenas: 
       - Verifique, para mim, se a frase "com a ajuda de Deus"  a ser aplicada no caso. - Ericson prometeu que sim. E chamou o Presidente da Cmara. 
       - Mort, ser que voc estaria disponvel para vir  minha sala por volta das quatro e meia? 
       - Acontece, Senhor Presidente, que teremos uma reunio na Sala do Senado a essa mesma hora. Que tal mais ou menos s seis? 
       - Mort, sua presena  importante. 
       - Tambm  importante que eu esteja aqui. Qual  o assunto? 
       - Preciso de voc aqui, Mort. E preciso tambm da presena de sua esposa. 
       Pausa curta. 
       - Estaremos a. Quatro e meia? 
       - Quatro e meia em ponto - disse Ericson. Depois que desligou, olhou na direo de Melinda. - Que mais? 
       - Devamos deixar a imprensa de sobreaviso, para alguma coisa s quatro e meia. 
       Ele balanou a cabea. 
       - Chame a Marilee. Quero almoar com ela. - Quando Marilee entrou, ele disse, srio: - Diga  imprensa que esteja pronta para... como  que se chama?... uma 
sesso de fotos s quatro e meia hoje - instruiu-a. - Certifique-se de que o pessoal de sempre vir, e informe s redes de televiso que vo precisar fazer umas 
tomadas ao vivo. 

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       - E se elas quiserem saber do que se trata No gostam desse negcio de fazer tudo o que o Presidente diz. 
       - No implore nada - avisou ele. - Que alguma emissora fique fora da jogada. Da prxima, pensaro duas vezes. 
       - O senhor ficar  disposio para perguntas? 
       - No. E no espalhe isso por a, nem agite todo mundo. V com calma. 
       - Deixe comigo. 
       Ericson sentiu-se mal por no confiar nela, mas se lhe contasse e ela no se contivesse em espalhar para todo mundo, seria responsabilizada mais tarde. E 
ele no queria a histria na boca dos outros antes do fato consumado, caso alguma coisa desse errado. Ela teria somente de parecer mal-informada antes e depois, 
preo que secretrios de imprensa tm de pagar a fim de manter credibilidade. 
       - O cara com quem voc sai - ele disse. - Da rede de televiso. Est levando ele a srio? 
       Durante um minuto ela nada disse, provavelmente espantada com a primeira expresso de interesse do Presidente pela vida amorosa dela. 
       - A gente se entende - disse ela. 
       - Ento certifique-se de que ele esteja aqui. - Isso era tudo que ele podia fazer por ela. - Mande a Melinda de volta. - Quando a Secretria de Imprensa saiu 
e sua secretria pessoal reapareceu, Ericson disse impacientemente: - Esquecemos de qu? Temos uma Bblia? No quero nada feito em cima da hora. 
       - Eu me adiantei e falei com a Sra. Frelingheusen - avisou Melinda - e pedi a ela que trouxesse a Bblia da famlia a fim de lhe emprestar para qualquer coisa. 
E tambm que trouxesse os dois filhos, que so adolescentes e esto na cidade.  arriscar uma informao divulgada, porm voc no pode deixar essa famlia por fora 
disso. 
       Ele balanou com a cabea, aprovando, e estalou os dedos: 
       - O juramento; no  o juramento federal comum e o Presidente do Tribunal nem sempre sabe... 
       - Estou com o certo aqui comigo, tirado da Constituio, e batido  mquina num carto para voc. 
       - O que faria eu sem voc? - Ento o significado da pergunta atingiu-o. - Voc vai ficar comigo, claro. Eles vo me dar cem mil por ano para meu estafe, mais 
as memrias, e a correspondncia... 
       - Deixe-me pensar no caso. 

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       - No. - Ele sacudiu a cabea. Atacou-o o medo de como seria a vida particular sem ela. - No raciocine. Preciso de voc, sabe disso. No brinque de gato 
e rato. 
       - Agora no  hora de discutirmos isso - disse ela rispidamente. - O governo inteiro est na iminncia de mudar. 
       - Tudo isso pode esperar - disse ele furioso. Incerteza sobre o que viria em seguida no era absolutamente o que ele desejava. - Voc fica comigo, ou no? 
       - Em que condio? 
       Isso o deteve. 
       - Geral - disse ele, surpreso. - Voc sabe, um pouco disso, um pouco daquilo...
       - Depois a gente fala nisso. 
       - Falemos agora. O que voc quer? 
       - Poxa! Como voc  romntico. 
       Ser que ela queria casamento? Isso ele no queria. Por outro lado, e se aparecesse outro Duparquet? Caso ela fosse apenas uma amante-enfermeira-secretria, 
seria tentada a fugir. O casamento a deixaria presa. 
       - Quero que voc venha comigo - ele disse rpida, mas seriamente - e seja minha esposa. 
       - Eu gostaria disso - ela respondeu - mas no era isso que me preocupava. Podamos viver juntos, esposa ou no. 
       Ericson no conseguia humanamente compreender o que ela estava querendo. Que mais havia? Sua expresso fisionmica deve ter-se transmitido porque Melinda 
disse: 
       - Quero tambm ser a secretria particular. 
       - Mas,  claro que voc vai ser isso...
       - ... comeando com meu salrio atual, e aumentos de acordo com o custo de vida. 
       Ele se calou. Isso comeria metade dos vencimentos globais do estafe. 
       - Depois a gente fala - disse ele. 
       - Foi isso que eu pensei que voc diria. 
       - Voc quer um acordo do cacete! 
       - Voc no vale tanto a pena assim - ela replicou friamente. 
       - Voc est tirando vantagem de uma crise nacional - ele rosnou. 
       - Onde foi que eu aprendi isso? 
       O tempo corria. 

Pg 541
       - Nada de casamentos - disse ele. - Viver junto. Mesmo salrio com os aumentos previstos na escala de aumentos de salrio do pessoal. 
       - Aceito o acordo - concordou ela. Ela no estivera blefando. 
       - Vou mudar o acordo - contra-atacou ele. - Vamos nos casar dentro de uma semana. 
       - Um ms - disse ela. - J que vamos fazer a coisa, que seja bem feita. 
       - Certo - disse ele. Apertaram as mos e ele a puxou para si. 
       - Estamos no Salo Oval - disse ela, aps um instante. 
       - Voc no tem idia do que j fiz neste Salo - retrucou ele. 
       - Posso calcular muito bem. Hennessy costumava me contar tudo em mincias, porque me fazia subir pelas paredes. 
       - Tudo certo, ento - falou ele, com a mente deslocando-se para o problema seguinte. - Esquecemos de qu? Ligue pra aquele cara do Servio Secreto, o diretor. 
       - Rufus Hewitt - disse eia, dirigindo-se ao telefone. 
       Melinda conseguiu o diretor Hewitt rapidamente e Ericson lhe ordenou: 
       - Quero que saiba que haver necessidade de proteger o Presidente da Cmara e sua famlia aps as cinco horas de hoje. No, no posso, e no quero que ningum 
a fique sabendo disso. Escute, Rufus, lembra-se daquela sua incumbncia a respeito do Harry Bok? Gostaria que voc o nomeasse para a diviso de falsificaes ao 
encerramento do expediente de hoje. - Ele escutou o diretor desculpar-se pela ltima vez em que se haviam encontrado, e disse animadamente: - Ah, isso acabou sendo 
uma boa idia; a maior parte dos arquivos ainda est lacrada, e ficou melhor assim. Continuo usando apenas uma gaveta da mesa do Hoover: aquela da bala puxa-puxa. 
- E riu, acrescentando: - Voc no se esquecer do Harry, no ? 
       O Presidente apoiou, ento, os cotovelos na mesa, e enfiou os punhos nos olhos. Ele sabia que Melinda pensava no que ele pensava. 
       - No - disse ele. - No posso dar o perdo ao Hennessy. Ficaria ruim para ele e ruim para mim, com o correr do tempo. 
       - Principalmente para voc - ela falou. 
       Ele suspirou. 
       - Voc est achando que eu no valho grande coisa. - Ela no o contradisse. - No seria direito eu fazer isso. Talvez... - Ele deixou a voz sumir. Ento: 
- Que mais? 
       - Quer que Nikolayev saiba com antecedncia? 

Pg 542 
       Ericson j pensara nisso: 
       - Diga  moada da linha especial para fazer uma ligao s quatro e quinze em ponto. No para mim: para George Curtice. Os pontos discutidos podem render 
para ele, independente de quanto valham. Vasily no vai durar muito. - Pegou um papel timbrado. 
       - "Ao Senado dos Estados Unidos - escreveu. - Por meio de3a, nomeio Michael Fong, do Arizona, Juiz do Distrito Federal, com o objetivo de preencher a vaga 
na Sexta Vara Judicial." - Assinou, datou e apresentou o papel: - Legvel? 
       - Essa foi boa - disse Melinda, aps ler. - Tira-o das garras de Bannerman pelo resto da vida. 
       - Eu julgava o Mike erroneamente. Costumava pensar que ele era somente um fantoche. Ele achava que agia certo; uma espcie de Stabuck. O homem causou muito 
problema, mas no era um fantoche. 
       - Algum ato de ltima hora? 
       - Gostaria de despedir o maldito jardineiro - meditou Ericson. Voltou-se para o co ao lado da mesa: - Sabe como vou cham-lo de agora em diante? "Rango". 
Venha c, filho. 
       - No confunda o animal - disse Melinda. Ericson procurou na gaveta das balas, tirou um biscoito para cachorro e lhe deu, pedindo desculpas. Naquela manh 
ele procurara uma baia puxa- puxa distraidamente, e terminara mordendo um daqueles ossos de leite sem gosto para cachorro. O Presidente no contou isso para ningum. 
       - Certo. - Ele inclinou-se para trs, rodando a cadeira e olhando para a claridade externa, sentindo-se aliviado, emocionado, melanclico, autoritrio. Estranhamente, 
veio-lhe  pensamento de que tudo isso significava que ele teria de voltar a parar por causa do sinal luminoso. Ericson no se lembrava da ltima vez em que esteve 
num carro que parou diante de um sinal de trnsito. Teria at de carregar dinheiro, se pudesse bolar um mtodo de distinguir uma nota de um dlar da de dez dlares. 
- Deus abenoe o Capito Vere - disse para ningum, balanando-se de novo na grande cadeira por trs da mesa Hoover e sabendo que - para variar - este era um daqueles 
momentos em que ele desencadeara uma corrente de acontecimentos que marchariam at a concluso desejada por ele. 

10. 
       
       s quatro e cinco o Presidente entrou no Salo do Gabinete. A voz trmula do Secretrio de Estado, George Curtice, informou-lhe: 

Pg 543
       - Como sabe, Senhor, o Vice-Presidente aqui acaba de apresentar sua renncia. 
       - Como voc sabia que eu sei? - o Presidente estava curioso. 
       - Vou ler a carta dele para o senhor: "Antecipando a renncia do Presidente imediatamente aps o meu ato, apresento por este meio minha renncia como Vice-Presidente 
dos Estados Unidos." 
       O Presidente sorriu. Bannerman no confiava nele nem um pouco, ao ponto de registrar nos livros da Histria essa desconfiana de alguma fraude de Ericson 
na ltima hora. Meteu a mo no bolso e falou: 
       - No teremos de esperar uma hora. Eu tambm trouxe a minha carta. 
       - No - disse Curtice. - Espere. Deixe tudo como est, Senhor Presidente. No tenho certeza de que a carta do Vice-Presidente  legal e correta. Parece, pelo 
menos a mim, implicar o fato de que sua renncia depende de outra. Ele no pode fazer isso. Ou renuncia simplesmente, ou no. 
       - Talvez eu deva buscar um parecer jurdico - vacilou Arnold Nichols. 
       - Olhe, Arnold - disse o Presidente, com os acontecimentos empilhando-se atrs dele, como avies num aeroporto sem teto - voc v que estou a ponto de entregar 
minha renncia. No estou preparando nenhuma jogada. Ento por que no escreve simplesmente "Renncio  vice-presidncia, com efeito a partir"... que horas so, 
George? 
       - Quatro e sete. 
       - Com efeito a partir das quatro e sete, data, e depois assina seu nome? 
       - Na sua opinio, Senhor Secretrio - perguntou formalmente Nichols - isso seria apropriado? 
       - Inteiramente, Senhor Vice-Presidente. 
       Ericson sentiu a ponta de feltro da caneta passar pelo papel e terminar com o enfeite que era a assinatura pretensiosa de Nichols. 
       - Vamos deixar passar um minuto falou o Presidente. - George, tomei a liberdade de preparar uma ligao pela linha especial para voc falar com o Primeiro-Ministro 
Nikolayev, para que possa inform-lo em primeira mo deste ato, e do juramento de posse do Presidente Frelingheusen. - Ele reparou que esta era a primeira vez que 
as duas palavras eram usadas juntas. - Arnold, acho que seria bom se voc e eu ficssemos ao lado dele na cerimnia, no ? Ser s quatro e meia na sala de instrues. 
Fique ao lado do Presidente do Tribunal; eu ficarei perto do Mort. A esposa dele ficar no meio, com a Bblia. George, no faa cera na 

Pg 544 
ligao da Sala de Estar, pode perder a brincadeira. Diga ao Vasily que tempo  dinheiro - Ericson sentiu que estava comeando a falar demais. Calou-se para combinar 
com a natureza da ocasio. 
       Abriu sua carta, colocou-a na mesa, pegou uma caneta que tencionava conservar e disse: 
       - Que horas so? 
       - Quatro e nove. 
       - Por aquele relgio do Observatrio Naval. - Ele apontou para o som do tique-taque. 
       - Quatro e nove - repetiu Curtice. 
       O Presidente escreveu a hora na carta de renncia, apertou-a com os dedos durante um momento, estendeu-a e sentiu Curtice retir-la de entre seus dedos. Sven 
Ericson no era mais Presidente dos Estados Unidos. Ainda no se sentia diferente. 
       - George, v at a Sala de Estar, Arnold, por favor, venha comigo. 
       Passaram pela sala de Melinda para o Salo Oval, e, dentro em breve, Melinda introduziu o Presidente da Cmara, 
       Ericson, no centro do salo, estendeu a mo; quando o Presidente Frelingheusen a pegou, Ericson disse: 
       - Felicidades, Senhor Presidente. 
       - Gostaria que o senhor visse a expresso no rosto de Mort - falou Nichols, engolindo em seco, - Est com a cara de quem acha que o senhor est confundindo 
as pessoas neste salo. 
       - H alguns momentos atrs - disse Ericson, ainda pegando na mo de Frelingheusen - o Vice-Presidente renunciou e depois eu renunciei. De acordo com o. Ato 
de Sucesso Presidencial, o cargo, junto com os poderes e deveres, de Presidente lhe  transmitido. O Presidente do Tribunal est pronto para o senhor fazer seu 
juramento; sua esposa e filhos se acham na companhia dele agora. Sua esposa trouxe uma Bblia. O senhor far o juramento diante das cmaras, na sala de reunies 
de imprensa, dentro de poucos minutos - Ericson pensou e acrescentou: - Se esses preparativos estiverem do seu agrado, Senhor Presidente. 
       - Eles esto - disse o Presidente, acrescentando: - Senhor Presidente. 
       Ericson lembrou-se de alguns detalhes que o Presidente do Tribunal iria precisar. 
       - O senhor vai querer "jurar" ou "declarar"? A Constituio diz que pode escolher. 
       - Eu... juro. 

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       - E George Washington acrescentou "com a ajuda de Deus" ao final do juramento. No est na Constituio, depende de voc. 
       Frelingheusen piscou os olhos. 
       Ericson auxiliou-o: 
       - Todo Presidente, exceto Hoover, disse essa frase. Ele era quaker, achou um exagero. Se quiser, terei de avisar o Presidente do Tribunal porque o senhor 
repetir depois dele. 
       - Sim. Sim, claro. 
       Ericson sorriu. Havia certas mincias em que nem Melinda pensara, conhecidas apenas dos Presidentes dos Tribunais e dos Presidentes. Ele no se lembrava de 
mais ningum. 

11. 
       
       - Fiquei perplexo - disse o Presidente. - Durante cinco minutos a coisa no me entrou. O senhor j teve uma experincia dessas? 
       - Nunca - falou Ericson. Eles estavam nas cadeiras de braos perto da lareira, no Salo Oval, longe da mesa a fim de evitar o constrangimento de um ou outro 
se sentar atrs da mesa. Eram dez da manh e Ericson deixaria o gramado da Casa Branca ao meo-dia, de helicptero. O Presidente Frelingheusen tomaria posse com esposa, 
filhos e considervel coleo de peixes tropicais no fim do dia. Ericson sabia que seu sucessor fora instrudo sobre a maleta preta. Como Presidente da Cmara, Frelingheusen 
estava a par das anlises do Servio de Informaes. - Mas no havia forma de avis-lo antecipadamente. Eu no tinha a renncia do Nichols em mos. 
       - Espero que no tenha transparecido - disse o Presidente Frelingheusen - a confuso em que fiquei. Agradeo a forma pela qual o senhor fez os preparativos, 
e, especialmente por se lembrar de ter meus filhos presentes. Sinceramente, isso mostra o tipo de homem que o senhor , no me esquecerei. 
       Ericson gostaria de ter sido ele a pensar nisso, ou mesmo de ser o tipo de pessoa que levaria a famlia em considerao to alta na lista das cosas indispensveis. 
Afastou da idia a atitude gentil de Melinda, e perguntou como poderia auxiliar na passagem do cargo. 
       - Nikolayev - falou o Presidente, com um "ef" oriental, ao invs do "v" usado por Ericson. - O senhor convidou-o a vir aqui dentro de algumas semanas. Vou 
manter o compromisso. 
       - Fique com o George Curtice pelo menos at a visita - aconselhou Ericson - e aperte bem o Nikolayev para baixar o lastro.

Pg 546 
Vasily  a frente dos linhas-duras do Kremlin, que pensavam que eu precisava dele para manter o cargo. Agora esto s voltas com ele por algum tempo, portanto, d-lhe 
um aperto, talvez no consigamos uma oportunidade dessas em anos. E isso poderia nos ajudar a atrasar o desenvolvimento nuclear do bloco rabe-israelense. Deixei 
um longo memorando para o senhor a esse respeito, na gaveta do meio da mesa. Sem cpias: use-o ou rasgue, no lhe vou ensinar a fazer as coisas. 
       Ericson passara sua ltima noite na Casa Branca ditando aquele memorando para passar adiante ao seu sucessor tudo que ele achava poderia ser til s suas 
relaes com o lder sovitico. Julgava possvel, quase provvel, que Nikolayev fosse morto em breve, num desastre de aviao, agora que acabara sua utilidade em 
tratar com Ericson. Porm, se ele permanecesse durante os prximos trs meses, poderia at durar longo tempo, e o prximo homem no Salo Oval merecia tantas informaes 
quanto pudesse conseguir, para analisar um adversrio-aliado. 
       Ericson no tencionara, passar sua ltima noite trabalhando. Num capricho, pedira jantar, sozinho, no Salo de Jantar do Estado. Doze metros de mesa e um 
lugar posto. Jantou bolo de carne, de que ele gostava porm jamais pedira antes - somente quadrados pediam esse bolo - e uma garrafa de Romane-Conti 1969. Sentado 
ali, Ericson achou que estava enxergando a luz opaca dos castiais e candelabros, e imaginou alguns dos jantares a que havia presidido. poca farta. Terminou o vinho 
com um pouco de queijo Stilton e ma em fatias - sentiria falta da cozinha da Casa Branca, no havia como negar - e buscou o cachorro para dar um passeio final 
pelas redondezas, projetando suas imagens mentais contra as paredes. Ao despedir-se sentimentalmente do local que ele no conhecera de verdade, ficou satisfeito 
ao reparar que no estava inundado pelo autocompaixo. No Salo Oval, sentado  mesa pela ltima vez, teve a idia do memorando para Frelingheusen sobre Nikolayev 
e passou suas ltimas horas ali de forma produtiva. 
       - Isso no poderia ter sido fcil para o senhor, devido s circunstncias - disse o novo Presidente. Ele era um homem sensvel, embora calado. Ericson esperava 
que sua admirao por Mort, com seus bons sentimentos acerca da correta passagem de poder, reprimisse a inveja natural que sentia pelo seu sucessor. Esse felizardo 
teria a oportunidade de fazer muito do que Ericson esperara fazer, e pensava em ser reconhecido pela Histria por causa disso. - Estou grato pelos conselhos e continuarei 
grato - Frelingheusen mudou a posio na cadeira. - J que ontem foi um dia to agitado, o senhor ter esquecido de resolver alguns assuntos de ltima hora em que 
eu possa ajud-lo? Vi que o senhor nomeou Mike Fong e eu confirmarei isso; mais alguma coisa? 

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       - A razo pela qual no tivemos esta conversa ontem - falou Ericson claramente - antes do senhor tornar-se Presidente foi porque eu queria ter certeza absoluta 
de que recebeu o cargo sem compromisso comigo ou qualquer outro. Especialmente comigo. 
       - Estou a par disso - replicou Frelingheusen. - Intensamente. Mas no posso ler a sua mente: o que o senhor faria no meu lugar? 
       O Presidente estava oferecendo simpaticamente certo apoio, mas Ericson no queria aceit-lo com sofreguido. 
       - Primeiro: evite ser assassinado. No, no estou brincando. Faa com que o seu itinerrio seja uma surpresa. Aparea de repente nos lugares:  a nica segurana 
que pode ter sempre. O senhor era da Infantaria no Vietnam, no precisa provar a ningum como  corajoso. 
       - Entendi. Que mais? 
       - Faa um dirio. No dos grandes eventos que pode reconstruir pelas anotaes, mas das coisas pequeninas. Desta reunio aqui, agora. Ficar espantado como 
a sua percepo muda em pouco tempo e compensa lembrar o que estava pensando quando fez determinada coisa. Mas esconda o dirio, pelo amor de Deus. - Lembrou-se 
de Fowler e sua cabea no canil, e do cachorro mastigando as cassetes. - Mantenha um registro fotogrfico, tambm; a fotgrafa oficial, mulher,  muito competente. 
Tabela C, mas no uma verdadeira nomeao poltica. 
       - Ento vou querer ficar com ela. 
       - Vai gostar do trabalho da moa. O cozinheiro  bom, tambm; mande-o preparar um bolo de carne. 
       - E sobre as notcias em todos os matutinos de hoje a respeito de um governo de coalizo? 
       Ericson inclinou-se para a frente: 
       - Com "todos os matutinos" quer dizer dois jornais. No foram todos os jornais. No entre em pnico pela maneira com que eles apresentam as notcias, com 
o que dizem seus editoriais, ou com o que dizem seus colunistas. Eles deixam dois megafones enormes virados bem na direo dos seus ouvidos, mas so apenas dois 
megafones. H muitas outras vozes l fora.  por isso que eu gosto do Sumrio Presidencial de Notcias; contm cinqenta jornais e as opinies de todos os meios 
de comunicao. 
       - Mas a idia do governo de coaliso - insistiu ele. - De que algumas pessoas parecem estar falando? - Ericson gostou disso: o novo homem no deixava sua 
seqncia de pensamentos ser interrompida. 

Pg 548 
       - No lhe quero dar minha opinio a esse respeito - disse Ericson finalmente. - Ns dois no nos entendemos nessa questo, veladamente ou no. Vamos deixar 
que continue um mistrio. 
       - Alguns homens do seu partido - prosseguiu Frelingheusen - tm feito um trabalho importante, e sacrifcios considerveis pela causa da unidade nacional. 
       - Arnold Nichols  um picareta desgastado, e o maior erro que cometi foi apoi-la na conveno. Em nome da unidade do partido. Se quiser torn-lo embaixador 
em Liechtenstein, timo, a menos que tenha amigos em Liechtenstein. 
       Nenhum som veio do Presidente. 
       - No sei se voc est ou no sacudindo a cabea - disse Ericson. 
       - Estou tentando apagar a careta no meu rosto que diz: "Mas que grande julgador de caracteres!" 
       - Suponho ter de avis-lo a respeito de um homem no meu partido - falou Ericson, como se isso doesse. - Roy Bannerman.  um mau sujeito. 
       - Ele se ops ao senhor ferozmente - disse Frelingheusen. 
       - Isso no seria motivo para acus-lo de ruim. Fong tambm se ops a mim, e eu o tornei juiz no meu ltimo ato porque ele  competente, um bom homem. - Ericson 
nomeara Fong, a despeito do seu ressentimento pessoal, pelo simples propsito de dar nfase  sua teoria diante do homem que o suceder.a no Salo Oval. - Homens 
bons e homens ruins queriam me ver de fora, Mort, usar o primeiro nome no era uma gafe: Presidentes podiam usar os primeiros nomes um do outro, mas Bannerman  
um homem de grande poder e astcia, e de mau carter pessoal. - Ericson sabia que Frelingheusen dava grande importncia ao carter pessoal. 
       - Alguma coisa no muito cem por cento no Tesouro? 
       - No que eu saiba, embora talvez seja uma boa idia rever as relaes entre o Tesouro, o Ex-Im Bank e os bancos particulares de Londres. Pode haver alguma 
corrupo l que o atrapalharia, se aumentasse. - Fez uma pausa, como se em dvida se deveria prosseguir. 
       - Carter pessoal falho, o senhor disse? 
       - Ele  o tipo de homens que se diverte batendo em mulheres - explodiu Ericson. - Me causa alergia e no agento ficar na mesma sala com ele. 
       - Tem informao idnea disso? 
       - Informao corretssima, de uma mulher de quem abusou. 
       - O filho da puta! 

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       - No disse isso a mais ningum; s achei que deveria saber 
       - Ericson sacudiu a cabea lentamente, acrescentando: - Meu nico medo em deixar o cargo, francamente,  o de que meu sucessor possa no compreender a importncia 
de manter esse tipo de pessoa longe de qualquer espcie de poder. 
       - Pode esquecer esse medo, Sven. No apenas no vou nome-lo, como vou vigi-lo. 
       - No fique surpreso se ele procur-lo dizendo que lhe prometeram a vice-presidncia, foi por isso que ele expulsou o Nichols. - Ericson queria pregar o ltimo 
prego no caixo de Bannerman: - Isso no  absolutamente verdade, no sei por que ele agiu assim; Andy convenceu-o, mas esse surrador de mulheres, o Bannerman, no 
recebeu qualquer promessa minha a respeito de coisa alguma. 
       - Esquea-o, ele est acabado. Qual o julgamento que o senhor faz do Carcamano? 
       - Bom homem. Vai concorrer ao Senado em Nova York no ano que vem. Deve ganhar, agora que no se precisa preocupar com a influncia do Ericson. - Refletiu 
para ver se prosseguia. - Ser um bom senador. Est, talvez, preparado para mais ainda. 
       - Sei... - Pelo nada que Frelingheusen disse, e pelo rumo das perguntas, Ericson teve a impresso de que Angelo Frangipani, democrata, tinha boas possibilidades 
de tornar-se o Vice-Presidente na administrao republicana de Mortimer Frelingheusen. Primeira vez em ouase dois sculos. Isso fez Ericson duvidar se, com toda 
a sua manipulao, ele tambm no fora manipulado. 
       - E sobre Curtice? - disse o Presidente, como se escondendo suas intenes ao acrescentar outro nome. 
       - Pessoalmente no gosto dele. Cheio de truques para agir, sabe como jogar com a imprensa, sempre d jeito de se proteger. Mas, sob presso, mostra muito 
carter: despejei uma tonelada de tijolos em cima dele uma vez, e ele jamais se mexeu um centmetro da posio que achava certa. 
       - Um enganoso homem de carter? 
       - Boa descrio de um Secretrio de Estado. 
       - Duparquet? 
       - Boa vivncia, mas nenhuma fora - Ericson no queria v-lo chegar ao topo montando nas costas do Presidente que ele trara no final. - A aparncia ntegra 
 extremamente importante para ele, mesmo quando significa no fazer a coisa certa. - Ericson lembrou-se tambm da nsia do Procurador-Geral por Melinda, e se compadeceu 
um pouco: - Mas tem bom gosto, boa memria. Parece comigo, antes de amadurecer. 

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       - Falando como um partidrio civil da liberdade - disse o Presidente - achei terrvel a denncia dele contra Mark Hennessy. 
       Ericson esperava uma oportunidade para tocar no assunto Hennessy: 
       - O senhor tambm achou? 
       - E declarei isso de pblico, ia ocasio, mas ningum o publicou - falou o Presidente. - No foi o que qualquer um desejaria ouvir, Quatro dias do comparecimento 
diante do jri  denncia de perjrio, isso no  justia,  uma cilada. Imperdovel. 
       Ericson fechou as plpebras. No to sutilmente seu sucessor pronunciara as slabas de "perdo" no decorrer da conversa, embora em outro contexto. Frelingheusen 
dizia que faria o que fosse adequado em relao a Hennessy, caso o assessor de Ericson fosse condenado. Ericson nada disse por alguns instantes, como forma de agradecimento; 
depois olhou na direo das portas envidraadas. 
       - O gaio voltou - avisou. 
       - Quem? 
       - O gaio azul que fica no Jardim das Rosas. Fala um bocado Faz parte dos rudos de fundo, que a gente sente falta quando no aparece. 
       - Seu pessoal est no Salo Leste - disse o Presidente - aguardando para se despedir. Gosto da forma com que ajeitou as coisas. 
       - Estilo russo - disse Ericson. Ao invs de uma fileira de recepo, o pessoal foi reunido num amplo crculo em volta do salo, e os Presidentes, passado 
e atual, passariam pelo crculo apertando mos, se despedindo, cumprimentando. Ericson tivera essa idia numa recepo que os soviticos lhe dedicaram no Salo So 
Vladimir, em Moscou. 
       Os dois homens saram juntos do Salo Oval, desceram pela colunata at a residncia e subiram telo elevador at o saguo de grandes recepes. A Banda dos 
Fuzileiros tocou Ruffles and Flourishes para anunciar sua chegada, depois atacou de Hail to the Chief. 
       Ericson disse corretamente: 
       - Esto tocando isso para o senhor pela primeira vez;  o nico para quem podem tocar. 
       - No, na prxima vez ser para mim - falou o Presidente. 
       Ericson agiu calmamente, no fez discursos, mas deu uma volta pelo crculo no Salo Leste, dando adeus individualmente a todos, desde Smitty - o ltimo dos 
trs chefes da Casa Civil de Ericson, que se emocionou, at o jardineiro da Casa Branca, que no se emocionou. Quando Ericson pegou na mo de Lucas Cartwright, disse 
ao novo Presidente: 

Pg 551 
       - O senhor  o quinto Presidente a quem esse homem serviu, e ele melhora a cada dia. No h ningum em quem eu confie mais. - Por motivos prprios Frelingheusen 
no perguntara a respeito de Lucas, mas Ericson achou que no faria mal prestigi-lo. 
       O cheiro de Femme acusou quem vinha em seguida, embora ele no mais estivesse disposto a confiar num perfume como identificao. Marilee Pinckney deu-lhe 
um firme aperto de mos, porm os dedos tremiam e quando ele estendeu o brao para tocar-lhe o rosto com as pontas dos dedos - numa sbita exploso de cmaras operando 
- sentiu as lgrimas que desciam pelo rosto de uma pessoa que Ericson desejava poder ter conhecido melhor, mas no houvera tempo suficiente. 
       Perto da cadeira de rodas de Harry Bok, ele escutou o homem que lhe salvara a vida dizer: 
       - O senhor no esqueceu: Rufus Hewitt ligou ontem  noite. Comeo na diviso de falsificaes dentro de duas semanas - Ericson apertou-lhe o brao, depois 
pegou na mo perto do cheiro de Apple Blossom, ou Lily of the Valley. 
       - Adeus, senhor - disse Sam Silenciosa, a enfermeira da Fora Area que fincara suas razes e amenizara sua transio de Buffie. Ericson tocou-lhe no rosto 
tambm, que estava seco, depois passou para a gola procurando a insgnia do posto; os gales de capito achavam-se ali: um presente de despedida que Lucas arranjara 
velozmente na noite anterior. 
       - Quero agradecer-lhe do fundo do corao - disse Ericson, com sinceridade - por tudo o que fez. - J que havia reprteres por perto, acrescentou. - Por ajudar 
Harry. - Ela, porm, sabia o que ele quis dizer. 
       Quando Jonathan Trumbull falou seu nome em voz alta para identificar-se, Ericson replicou: 
       - Isto vai ser uma boa passagem do livro. E voc mesmo escapou para contar aos outros, Irmo Jonathan. - O redator no sabia o que responder. Ericson ouviu 
o jovem engolir em seco. - Onde est sua garota? - perguntou Ericson. 
       - Ela est seguindo o senhor pelo Salo, tirando retratos - revelou Jonathan. - Est tirando um neste momento. 
       Ericson sentiu uma das mos no seu brao e um beijo roar-lhe a face. 
       - At logo, Pdeu. - Por um momento, ele fechou as plpebras e respirou fundo. 
       - Tem algum lugar onde eu possa ficar de p? - perguntou Ericson ao agente atrs dele. 
       - H uma bancada de discursos ali no canto, senhor. 

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       - Eu nasci numa dessas - reclamou Ericson. - S quero um local para ficar de p, sem microfone, um local elevado com cerca de 30 ou 60 centmetros. 
       Levaram-no at um pdio no canto do Salo Leste, perto do piano, e o pessoal se comprimiu em torno dele. O microfone de p foi retirado. 
       - Tem um bocado de fungao e choro por a - disse Ericson num tom forte. - Vamos parar com isso. No tenciono fazer um drama. Temos mantido nossa calma at 
hoje, e no h necessidade de estragar isso agora. 
       Deu-lhes um momento para assoarem os narizes e para alguns ligarem seus gravadores de bolso. No queria que irradiassem o momento, pelo menos no ao vivo, 
mas era importante que se fizesse uma gravao apurada. 
       - A primeira coisa  pararmos de sentir pena de ns mesmos - iniciou, numa voz sem inflexo. - Um monte de vocs est pensando que se esforou ao mximo pondo 
um homem na Casa Branca; e com ele saindo agora, como  que vocs ficam? Ficam na mesma,  isso. No fiz trato ou acordo com meu sucessor para que ele mantivesse 
algum; quem for bom, ficar. Se ele tiver algum melhor, adeus. - Rapidamente diminuram os choramingos, observou Ericson. - A vida  assim; a sua desgraa  a 
alegria dos outros. A vida pode ser injusta, em termos individuais, porm, quando se olha em volta, tudo tem uma compensao. Portanto, aceitem isso tudo com filosofia. 
- Ele deu-lhes uma bofetada ao encarar a realidade de que muitos deles pensavam nas suas perdas pessoais. Isso formou a base para a falta do sentimentalismo na prxima 
passagem: 
       "No sintam pena de mim, porque eu no fao isso. Ah! Sinto muito por ter perdido as sensaes emocionantes de estar no centro, e sinto muito porque no tive 
a oportunidade de haver contribudo para erradicar a inflao e o desemprego. Mas no estou carregando um leno para chorar. Porque ainda no estou morto:  por 
isso. - Houve um incio de aplausos, mas ele interrompeu antes que a reao se espalhasse: - E a razo disso  que sou um homem prtico. 
       "No estou a fim de penetrar na escurido e desaparecer. Tenho quarenta e oito anos de idade e uma gerao inteira de vida ativa pela frente - a sala explodiu 
em aplausos diante dessa, mas ele novamente interrompeu.. - Por favor, isso no  um discurso poltico. O que quero dizer  o seguinte: certo, sou cego. No mais 
totalmente cego, e a cada semana enxergo um pouquinho mais, portanto existe realmente uma esperana. Porm, cego ou no, vou aprender a andar por a, e me comunicar, 
e usar as aptides que 

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qualquer um pode aprender a desenvolver para ter uma vida completa. Nada de compaixo, obrigado, nada de sussurrar que ele  um heri. Aps certo perodo, serei 
capaz de executar certas funes to bem como qualquer outro. 
       "Isso inclui funes polticas, tambm. J tivemos um senador cego que foi morto atravessando uma rua. Bem, posso aprender a ser cuidadoso pra burro atravessando 
a rua. E posso estar ativo na poltica dentro de um ano e pouco. Ou talvez me torne o economista mais terrvel que j viram, ou o melhor professor do pas. De um 
jeito ou de outro, vocs ouviro falar de mim. 
       A esta altura Ericson sentiu que no havia um s olho mido no aposento, que era o ambiente sem sentimentalismo que desejara. 
       - Quanto  minha vida pessoal - prosseguiu - qualquer dia me caso de novo. Tenho a mulher em mente, mas esta semana j fiz muitas manchetes. - Aplausos carinhosos 
e palpites sussurrantes. - Deixem-me encerrar com uma observao pessoal para um grupo tremendamente bom de gente de que gosto e respeito, com algumas excees - 
acrescentou asperamente - mas vou deixar que o Presidente Frelingheusen descubra quem so. 
       "Esse negcio de cegueira... isso muda um homem. Incapacita-nos, apavora-o, no princpio. s vezes o leva para um fundo poo de autocompaixo que o arruna; 
outras vezes cria foras compensadoras. 
       "Qualquer deficincia sbita ensina ao homem alguma coisa a seu prprio respeito, e o fora a olhar os outros de maneira diferente. Sempre fui frio, a minha 
vida toda. No me transformei em nenhum tipo de choro sentimentalista, mas posso afirmar-lhes que no sou mais to indiferente como dantes. A vida no  a mera 
fuso de pensamento e ao que eu julgava. A palavra chavo  "compaixo", que eu usaria se no se tivesse tornado chavo. 
       "Ouam. - Ficou em silncio por um instante, dando a impresso de que procurava palavras. - Nunca fui religioso. . . pelo menos, no mais do que a mdia das 
pessoas. Recordo, porm, um velho hino da igreja de minha infncia. - Ericson ia usar agora um recurso que somente Buffie, de todos naquele salo, saberia que era 
algo exagerado. - A letra  conhecida pela maioria das pessoas: 
       "Surpreendente graa 
       Que doces sons 
       Que salvaram um desgraado como eu 
       Certa vez me perdi 
       Mas agora me encontrei 
       Estava cego, mas agora enxergo". 

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       "A escurido tem um meio de fazer a mente concentrar-se, e ajuda a pessoa a ver o que  certo. 
       Ericson parou - teve de parar porque a fora de sua retrica o afetou inesperadamente. O hino que aprendera na cama, com Buffie, e que decorara para utilizar 
dramaticamente numa ocasio como esta, comoveu-o enquanto se ouvia recitando-o. Talvez ele, afinal, fosse mesmo um poltico inato. Sentiu que bem poderia estar de 
volta quela Casa, na qualidade de conselheiro econmico da presidncia, talvez, ou lder do Senado, ou ainda mais, porm no como um "ex", ou um visitante h muito 
esquecido. Ericson sentiu- se bem pensando assim, mesmo ligeiramente perturbado pelo efeito emocionante demais causado pelo uso das palavras do velho hino em certa 
parte de seu auditrio e nele prprio. 
       Acompanhado pelo novo Presidente, desceu lentamente as escadas, passou pela entrada dos diplomatas e foi para o Gramado Sul, onde o som revelou-lhe que uma 
multido de tamanho regular se comprimia. Escutou o bater de metais e o embaralhamento da Banda dos Fuzileiros correndo por trs dele para se colocar em posio, 
e visualizou o comprido tapete vermelho que levava aos degraus do helicptero. 
       Junto ao Presidente Frelingheusen desde o incio do tapete at a grama, Ericson recebeu a continncia da guarda de honra. Sabia que esta cerimnia estava 
sendo televisionada, assistida no mundo todo com o temor respeitoso, a reverncia, o cinismo e a descrena que acompanhava uma ordeira transferncia de poder presidencial 
norte-americano. Ocorreu a Ericson, aps alguns momentos l dentro, que isso era anticlimtico. Quando a banda tocou Hail to the Chief ele despertou e, a despeito 
de saber que uma lente de teleobjetiva poderia mostr-lo pela televiso, disse a Frelingheusen com o canto da boca: 
       - Esto tocando a nossa msica. 
       Ao final, Ericson apertou srio a mo do Presidente, abraou a Primeira Dama, pegou a correia do cachorro e comeou a caminhar sozinho para o helicptero, 
onde Hank Fowler e Melinda McPhee j se encontravam. Ericson no andou rapidamente, a fim de mostrar como estava confiante com o seu co-guia - caminhou solenemente, 
com dignidade, como exigia a ocasio, sem acenar do centro do tapete vermelho. 
       A meio caminho, escutou algum comeando a cantar Amazing Grace. A multido acompanhou - jovens e velhos, todos sabiam de cor - embora o pblico formando 
a multido no soubesse o significado emprestado  cano pelo pessoal da Casa Branca e o novo Presidente. Ericson ouvia a voz aguda de Buffie cantando para ele 
havia no muito tempo - certamente no um hino de igreja de 

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quando era um garoto, como ele dissera, mas isso era licena potica - e ento sentiu o impacto do ltimo verso, tanto na multido cantando quanto nele mesmo. Droga! 
- ele se disse, agente firme, a coisa foi mais sria do que planejei. Alegrou-se por no haver pedido de antemo a partitura do hino, que seria entregue  Banda 
dos Fuzileiros, porque isso teria parecido maquinao. 
       O co fez-lhe sinal, atravs da correia, de que ainda faltavam trs degraus. Ele subiu, apertou mos com o piloto do Exrcito nos degraus do helicptero, 
e se virou para a multido, as cmaras e a Casa Branca. O impacto de todo mundo cantando aquela msica com afeio to genuna atingiu-o fortemente - o ex-Presidente 
confessou-se que alguns desses recursos de retrica em cerimnias s vezes escapavam do controle. 
       Ericson tirou os culos escuros, enxugou os olhos, acenou uma vez para um lado, uma vez para o outro, virou-se e seguiu o cachorro degraus acima. 
